Entrevista imaginária por Roberto Homem
Entrevista imaginária por Roberto Homem
Fundado como O Ponta Negra e depois rebatizado como O Zona Sul, o jornal nasceu para dar voz aos moradores de Natal. Um encontro casual com Terezinha de Jesus, na Bienal do Livro de 2003, abriu suas páginas para uma série de mais de cem entrevistas — e plantou a semente do SuperPauta.
Por Roberto Homem
mostra os caminhos
e inventa as fronteiras.
Em 2025, deparei-me com uma postagem sobre a quarta edição do Prémio de Poesia de Oeiras, realizado em Portugal e aberto a autores de todos os países de língua portuguesa.
Entrevista imaginária por Roberto Homem
A cabine de rádio parece
suspensa sobre um estádio que não pertence inteiramente a tempo algum. Do lado
de cá do vidro, há uma mesa estreita de madeira, um microfone pesado, dois
fones de ouvido, um bloco de anotações e um quadro tático onde os ímãs perderam
os nomes. Do lado de lá, o gramado muda conforme a luz: por alguns segundos é o
Maracanã de 1957; depois, o mesmo verde se abre na direção do México de 1970;
mais adiante, as arquibancadas assumem a geometria fria de Roma, em 1990.
João Saldanha está de
mangas arregaçadas. Não veste uniforme, não carrega prancheta e não parece
disposto a representar a própria lenda. Segura os fones com uma das mãos e bate
de leve com a outra sobre a mesa, como quem marca o tempo de uma resposta antes
que a pergunta termine. À sua frente, uma lâmpada vermelha acende sem que
ninguém anuncie a entrada no ar.
Lá embaixo não há
jogadores. Há apenas a sombra de uma bola no círculo central e o rumor de uma
multidão que ainda não decidiu se veio assistir a uma partida, a um comício ou
a um acerto de contas.
Saldanha olha para o campo,
depois para mim.
— Pode perguntar. Só não
venha com conversa mole.
Entre o silêncio do Maracanã e o barulho do tempo, Barbosa fala baixo — mas diz tudo
“A pena máxima no Brasil é de 30 anos. Eu paguei mais de 50” — Barbosa
O Maracanã está vazio. Não o de hoje, organizado e
domesticado por cadeiras coloridas, mas o outro — aquele que ainda respira
ecos. O concreto guarda vozes que não se dissiparam. Há um fim de tarde
suspenso, sem pressa de virar noite. O gramado parece maior quando não há jogo.
Ou talvez mais honesto. No centro do
campo, um homem. Não está vestido como goleiro. Não há luvas. Não há uniforme.
Mas há algo que permanece — uma forma de olhar o espaço como quem ainda mede
distâncias invisíveis. Moacyr Barbosa. Ele não chega. Ele já está ali. Sentado,
com o corpo levemente inclinado para frente, como quem ainda espera o próximo
lance. Não há amargura no rosto, mas há memória. Muita. O silêncio aqui não é
vazio. É presença. E é dentro dele que
começa este encontro impossível.
Nesta conversa que atravessa o tempo, Moacyr
Barbosa revisita a própria trajetória com a mesma sobriedade que marcou sua
vida dentro e fora dos gramados. Do menino tímido de Campinas ao goleiro que
encontrou no Vasco da Gama o auge de sua carreira, ele reconstrói, sem
grandiloquência, o caminho que o levou ao centro de um dos episódios mais
marcantes da história do futebol brasileiro. Ao relembrar o gol de Alcides
Ghiggia na final de 1950, Barbosa não se defende nem se justifica — ele
descreve. E, ao fazê-lo, revela como um lance de segundos se transformou em uma
sentença de décadas. Entre memórias do campo, reflexões sobre o ofício de
goleiro e considerações sobre racismo, injustiça e o peso do julgamento
público, emerge um homem que nunca deixou de compreender o jogo — mas precisou
aprender, sozinho, a lidar com tudo o que veio depois dele.
Neste Encontro
Impossível, ouvimos Carolina Maria de Jesus com tudo o que a fez única: a
altivez sem licença, a ironia cortante, a vaidade ferida, a memória da fome, a
fé vigiada, o apego à palavra exata e a recusa feroz de qualquer hipocrisia.
“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra.” — Carolina Maria de Jesus
Não estamos num gabinete de
madeira nobre, nem numa biblioteca silenciosa, dessas onde os livros dormem em
paz. O lugar desta conversa é outro. Fica num território suspenso entre o barro
e o asfalto, entre Sacramento e o Canindé, entre a página e a panela. À esquerda,
um córrego escuro parece andar devagar, como se carregasse nas costas o cansaço
de um país inteiro. À direita, um fogão pobre respira em pequenas labaredas, e
sobre ele um cheiro de café ralo tenta vencer a umidade do ar. No chão há
papéis amassados, páginas soltas, pedaços de jornal, um caderno de capa gasta,
uma boneca sem braço, uma lata vazia. Tudo parece ter sido recolhido do mundo
para não morrer de vez. É nesse cenário que Carolina Maria de Jesus me espera.
Sentada num banco simples, de vestido escuro e lenço branco, ela tem a postura
firme de quem aprendeu dignidade na luta. Os olhos, lúcidos e inquietos, parecem
medir a pessoa à sua frente. Ao lado, a caneta repousa sobre o caderno não como
enfeite, mas como instrumento de defesa.
Carolina não é estátua nem
personagem domesticada. É mulher, mãe, negra, escritora, compositora, autora
que o Brasil tentou reduzir à fome, mas que sempre foi maior do que o rótulo.
Neste encontro, passaremos pela menina de Sacramento, pela catadora de papel,
pela mãe, pela autora de Quarto de Despejo e pela artista que jamais quis ser
lida apenas como documento da miséria. Falaremos de fome, sim, mas também de
língua, orgulho, maternidade, racismo, literatura, música e legado. Sobretudo,
da parte de Carolina Maria de Jesus que o Brasil ainda não terminou de
compreender. Ele me dá a impressão de que o Brasil ainda a lê com uma fome
errada: a fome do símbolo, não a da escuta verdadeira. Carolina não pede pena.
Pede papel, pão e verdade. E prova que, em suas mãos, até o que o mundo joga
fora ainda tem o que contar.
O homem por trás da peruca
“Claro que não sou engraçado naturalmente, não brinco com a vida nem com a morte. Só brinco em serviço” — Mauro Faccio Gonçalves
O
cenário não é um estúdio, nem um palco de auditório. É um jardim de fim de
tarde em Sete Lagoas. O ar tem cheiro de terra úmida, folha amassada e café
recém-coado. Não há peruca, não há o dente escurecido, não há a voz esganiçada
que o Brasil aprendeu a reconhecer antes mesmo de vê-lo entrar em cena. Sentado
numa cadeira de vime, Mauro Faccio Gonçalves recebe com a discrição de quem
nunca confiou muito no barulho. Fala baixo, com um sotaque mineiro sem afetação,
desses que não precisam se exibir para existir. Há gentileza, mas também
reserva. Não a reserva antipática, e sim a de quem levou uma vida inteira
protegendo um pedaço de si do apetite do mundo.
À
frente do país, ele foi Zacarias, o trapalhão infantil, terno, elétrico, de
pureza desajeitada. Mas ali, entre plantas, sombras longas e uma luz amarela
pousando devagar sobre as folhas, aparece o homem. O ex-bancário que largou uma
vida previsível para seguir o teatro, o rádio e a invenção. O artista técnico, meticuloso,
observador. O mineiro que fez o Brasil rir sem jamais entregar tudo de si.
Nesta
conversa, tentamos alcançar não só o personagem, mas o intervalo entre a peruca
e o espelho.
“Eu quero ser a pintora da minha terra. Não se enganem com meus vestidos de Paris; meu pincel ainda tem cheiro de terra úmida e mato” — Tarsila do Amaral
Estamos
em uma varanda que parece flutuar sobre um mar de morros cor-de-rosa e cactos
cilíndricos, sob um céu de um azul tão sólido que poderia ser tocado. O
mobiliário é uma mistura impossível: um sofá de veludo vermelho de seu atelier na
França divide espaço com baús de madeira rústica de Minas Gerais. É como se
tudo parecesse um quadro ainda sendo pintado. Tarsila nos recebe com uma
elegância que o tempo não ousou tocar. Veste o lendário casaco de veludo
vermelho que usou no jantar em homenagem a Santos Dumont. Seus cabelos estão
presos em um coque impecável, e o olhar, embora doce, guarda a firmeza de quem
subverteu a arte de um continente. Há um aroma de café fresco e terra molhada
no ar.
Neste
encontro, Tarsila do Amaral despoja-se das camadas de celebridade para revelar
a mulher por trás do ícone, em uma linha do tempo que se estende do barro roxo
das fazendas paulistas à sofisticação geométrica dos ateliês parisienses. A
conversa percorre suas primeiras pinceladas sob o céu de Barcelona, a
turbulenta e apaixonada era "Tarsiwald", e a gênese do Abaporu como o
banquete final do modernismo brasileiro. Com uma sinceridade doce-amarga, ela
revisita as dores do exílio financeiro em 1929, a guinada para a consciência
social após a viagem à União Soviética e os anos de serenidade ao lado de Luis
Martins. O diálogo atinge seu ápice emocional ao tratar das perdas devastadoras
— a morte da filha e a paralisia física — e lança um olhar visionário e crítico
sobre o futuro, onde a inteligência artificial tenta, sem sucesso, capturar a
alma camponesa que ela imortalizou com suas "cores de baú".
O Sr. Diretas e o silêncio das ondas
O ambiente é de uma sobriedade absoluta, uma
penumbra que sugere tanto o gabinete da Presidência da Câmara quanto a
biblioteca de sua casa em São Paulo. Não há o luxo cenográfico de Hollywood,
mas a dignidade do couro gasto e o cheiro persistente de papel antigo. A luz é
cirúrgica, caindo sobre uma mesa de jacarandá onde repousa um exemplar original
da Constituição de 1988, com as margens levemente amareladas. Ulysses Guimarães
está impecável: o terno escuro perfeitamente cortado, a camisa branca de
colarinho rígido, o cabelo alvo como uma bandeira de paz. Ele não gesticula com
pressa; cada movimento das mãos parece desenhar um parágrafo da lei no ar. O
olhar é de uma lucidez cortante, o olhar de quem atravessou o oceano de Angra
para cobrar o penhor da liberdade.
Com a elegância de quem enfrentou cães e baionetas
sem desajustar o nó da gravata, Ulysses revisita a Anticandidatura e a apoteose
da Candelária, expondo a ferida de uma transição que, embora necessária, deixou
incompleta a promessa de participação popular. Ao confrontar o Brasil de 2026,
o “Doutor” fala com severidade republicana diante de novas formas de poder e de
representação. Para ele, o Parlamento contemporâneo corre o risco de se perder
numa política de vitrine, em que o caráter cede espaço à conveniência e à
tirania dos algoritmos. Ulysses descreve, com precisão cirúrgica, a erosão do
mandato real: o político que abdica da liderança para se tornar refém do
aplauso instantâneo, trocando o debate público pelo desempenho em redes
sociais. Entre a memória de Dona Mora e a lucidez de quem fez da Constituição
uma obra de resistência, ele nos deixa um alerta: a democracia não sobrevive
apenas nas telas, mas na vigilância e na indignação de cidadãos que ainda sabem
reconhecer o gosto do sal da liberdade.
O arquiteto do silêncio entre o metal e a alma: uma conversa sobre máquinas que aprendem a mentir, o preço da verdade e o futuro que ele desenhou no escuro.
“Em vez de simular a mente adulta, por que não simular a mente de uma criança?” — Alan Turing.
Ele escreveu esta frase em 1950, no ensaio “Computing Machinery and
Intelligence”, publicado na revista Mind, propondo a ideia de uma
“child-machine” (máquina-criança). Em vez de tentar programar uma mente adulta
completa, criar um “programa-criança” e depois educar e treinar esse sistema
até ele adquirir capacidades mais “adultas”.
Nesta conversa, revisitamos a lógica que Alan
Turing ajudou a inaugurar e o trabalho secreto em Bletchley Park, centro
britânico de decifração na Segunda Guerra, onde quebrar códigos significava
salvar vidas sem poder contar a ninguém. Por fim, conectamos isso ao agora:
discutimos como a IA deixou de apenas responder comandos e passou a operar de
forma cada vez mais ativa, inclusive em espaços onde sistemas conversam entre
si, criando dinâmicas que nem sempre incluem, explicam ou priorizam os humanos.
Encontros Impossíveis
O Silêncio da Buzina
Neste encontro impossível, despimos a fantasia do Velho Guerreiro para revelar o Dr. Abelardo: o homem que trocou a medicina pela cura através do riso.
"Quem não se comunica, se trumbica" — Abelardo Barbosa (Chacrinha)
O ambiente não possui paredes definidas; é uma
vastidão nebulosa que lembra os galpões abafados da TV Tupi ou o Teatro Fênix,
mas suspensos no tempo. O chão está coberto por uma camada fina de confete
prateado e serpentinas que parecem nunca perder o brilho. Há um cheiro
persistente no ar: uma mistura de éter hospitalar, talco de camarim, bacalhau
seco e maresia — o cheiro da vida de Abelardo. No centro, iluminado por um foco
de luz âmbar que simula o sol do final de tarde em Pernambuco, repousa uma
poltrona de veludo vermelho, gasta pelo uso, com a madeira dos braços polida
por mãos nervosas. Nela, Abelardo Barbosa nos espera. Ele não veste o saiote de
guerreiro, nem a cartola extravagante, nem carrega o abacaxi de plástico agora.
Está vestido com uma sobriedade que desconcerta: um terno de linho branco,
impecável, lembrando o médico que a família sonhou e que ele quase se tornou.
Mas a essência do "Velho Guerreiro" resiste nos detalhes: uma buzina
de latão repousa em seu colo como um animal de estimação fiel, e seus óculos de
aros grossos e escuros refletem uma luz que não vem de lugar nenhum, escondendo
e revelando olhos que viram o Brasil mudar.
Ele tosse levemente, pigarreia — uma lembrança da
hipocondria e do cigarro que o acompanharam — e me encara com uma seriedade
profunda, quase acadêmica, muito diferente da anarquia que vendia na TV. A voz
é rouca, pausada, pontuada por uma franqueza cortante e uma sabedoria adquirida
na dor. Nesta conversa monumental, atravessamos a poeira de Surubim, o balanço
do navio a caminho do Rio, a filosofia do "palhaço" como agente
social, o amor devoto (e doloroso) ao trabalho e a visão profética sobre a
comunicação na era dos algoritmos. Entre confetes e silêncios profundos,
Chacrinha também reflete sobre a solidão do agreste, o rigor militar por trás
do caos televisivo e o preço doloroso de ter sido o maior comunicador da
história do Brasil.
Encontros Impossíveis
A Pequena Notável entre o brilho de Hollywood e a saudade da Lapa: uma conversa sobre o peso do turbante e a alma que ninguém americanizou.
"Disseram
que eu voltei americanizada, mas eu sempre fui a mesma. O meu samba é o mesmo,
a minha alegria é a mesma, e a minha brasilidade está em tudo o que faço"
— Carmen Miranda
O ambiente é uma penumbra luxuosa, onde o veludo de
Beverly Hills se mistura ao cheiro de maresia da Praia da Urca. Ela está sentada
em uma poltrona larga, parecendo ainda menor sem os saltos de vinte
centímetros, mas sua presença corta o ar como um solo de flauta. Maria do Carmo
não usa frutas na cabeça hoje; veste um robe de seda simples, e o olhar, livre
dos cílios postiços pesados, é de uma lucidez que atravessa décadas. É a mulher
que sustentou um império com os ombros, que virou o símbolo de um país inteiro
enquanto lutava para não se perder de si mesma entre comprimidos para dormir e
aplausos para acordar.
Neste encontro, desarmamos o ícone para ouvir a
mulher em uma travessia que começa na descoberta do seu magnetismo entre os
chapéus da Rua do Ouvidor e mergulha na mágoa profunda daquela noite de
silêncio no Cassino da Urca. Caminhamos pelos corredores de Hollywood para entender
o laboratório de estereótipos que a aprisionou em uma caricatura, revelando o
cansaço de ser uma vitrine global e o legado de uma voz que, muito além das
plataformas, sobreviveu a todas as críticas para se tornar a própria imagem da
nossa identidade.
Encontros Impossíveis
A voz que antecipou o século
Da menina órfã pela violência política à educadora que desafiou o Império, Nísia Floresta discute a condição feminina, a escravidão e o abismo social brasileiro. Com a serenidade de quem viu o futuro antes de todos, a "Brasileira Augusta" analisa as conquistas e os perigos do mundo contemporâneo.
“Educai as mulheres!
Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados! Governo, que vos dizeis liberal!” — Nísia Floresta
Nesta conversa, a "Brasileira Augusta" despe-se dos mitos para
revisitar a menina Dionísia, forjada no sangue da tragédia política de 1817, e
a mulher que ousou traduzir e expandir o feminismo europeu para uma sociedade
escravocrata. Entre reflexões sobre o escândalo de educar mulheres para a ciência
e a defesa solitária dos povos indígenas, ela lança um olhar crítico e materno
sobre o século XXI, dissecando fenômenos como o feminicídio e a
superficialidade das redes, provando que sua voz, mesmo vinda do além-túmulo,
permanece dolorosamente atual.
“Vocês olham para o céu procurando deuses, mas quando caímos na lama, vocês veem apenas monstros. O medo é a única escuridão real.” – Kher-Ba (O Ser de Varginha)
Há lugares que não existem no mapa, mas existem no
corpo. Este não é terreno, nem celestial. É um cenário de consciência, uma
espécie de sala sem paredes onde o tempo não anda em linha reta: ele pulsa,
como um coração antigo, às vezes acelerando, às vezes ficando tão lento que dá
para ouvir o silêncio ranger. O ambiente lembra uma caverna úmida. Não porque
eu veja estalactites ou rochas, mas porque tudo cheira a chão depois da chuva.
Terra molhada. Musgo. Umidade. E, por trás disso, um odor acre e pungente, que
não dá para ignorar: amônia. A mesma palavra que volta nos relatos de 1996 como
um refrão incômodo. Não há cadeiras. Não há mesa. Não há gravador. Meu caderno
existe, mas parece um objeto deslocado, como se eu tivesse levado um
guarda-chuva para dentro de um aquário. Ainda assim, eu o seguro. Costume de
repórter. Amuleto de quem acredita que registrar é uma forma de não
enlouquecer.
Diante de mim, agachado, com os joelhos recolhidos
contra o peito, está a figura que o Brasil aprendeu a chamar de “ET de
Varginha”. Mas “ET de Varginha” é rótulo de manchete, e manchetes não respiram.
O que vejo aqui respira. Ou algo análogo a isso. Ele é pequeno. Não a
“pequenez” caricata de folclore, mas uma estatura que sugere economia de
energia, adaptação, gravidade. A pele é marrom-escura e tem um brilho oleoso,
como se guardasse um filme protetor. Na cabeça, três protuberâncias discretas
pulsam num ritmo lento, quase hipnótico. Mas são os olhos que dominam a cena:
vermelhos, enormes, sem pupilas visíveis. E, no entanto, não há fúria neles. Há
uma tristeza líquida, profunda, desconfortavelmente reconhecível.
Este encontro impossível não pretende encerrar o
caso Varginha. Não pretende “provar” nada. A proposta aqui é outra: inverter o
olhar. Em vez de perguntar “o que era aquilo?”, perguntar “quem era aquilo?”.
Em vez de transformar o desconhecido em inimigo, permitir que ele se explique,
mesmo que a explicação venha cheia de falhas, traduções imperfeitas e
ambiguidades. Porque se existe uma verdade teimosa em toda história de espanto,
ela é esta: quando a humanidade encara o que não entende, costuma escolher
entre duas máscaras. Riso ou agressão. Meme ou arma. E, muitas vezes, as duas
ao mesmo tempo. Eu respiro. Tento firmar a atenção. Sinto um zumbido leve no
ouvido, como quem encosta a cabeça num poste e percebe a eletricidade sem tocar
no fio. É estranho, mas não é ameaça. É apenas… diferença. E eu decido começar
como todo jornalista deveria começar diante do extraordinário: fazendo
perguntas que qualquer pessoa entenderia. Sem pressupostos. Sem atalhos. Sem
depender de versões anteriores. Sem “piscadinhas” para o rascunho.
Das
raízes da fome em Alagoa Grande à técnica revolucionária que transformou o
pandeiro em orquestra; os bastidores da relação com Luiz Gonzaga, a dor do
esquecimento e uma crítica afiada à música na era digital.
"Quem toca em cabaré pode tocar em qualquer lugar." – Jackson do Pandeiro
Não estamos em um estúdio
moderno, mas em uma rádio imaginária suspensa em algum lugar entre a feira de
Campina Grande e o cosmos. O ar cheira a fumo de rolo, café fresco e cera de
assoalho. Há uma luz ambarina, morna, vinda de válvulas de amplificadores
antigos. No centro, sentado em um banquinho de madeira, está José Gomes Filho,
o Jackson do Pandeiro. Ele veste
um terno de linho branco impecável, sapatos bicolores que brilham como espelhos
e seu inseparável chapéu de aba curta, levemente inclinado para a esquerda (a
marca da malandragem elegante). Ele segura um pandeiro velho, de couro de
cabra, aquecendo o instrumento com o atrito da própria mão, como quem faz
carinho em um bicho arisco. Seus olhos miúdos e vivos observam tudo com a
astúcia de quem já passou fome e hoje janta a glória.
Neste encontro impossível e exclusivo
– sugerido pelo parceiro potiguar de tantas canções, William Guedes – Jackson
revisita as dores da fome em Alagoa Grande e como elas moldaram seu ritmo
frenético; discute a "engenharia" por trás de sua técnica
revolucionária no pandeiro; relembra a parceria e o amor com Almira Castilho;
avalia sua relação com Luiz Gonzaga e o ostracismo durante a Jovem Guarda; e,
com a sabedoria de quem vê de longe, analisa o cenário musical moderno, do funk
ao autotune, encerrando com uma lição sobre o que é, afinal, ter
"suingue".
O Ícaro de colarinho alto
Em uma Paris suspensa entre séculos, Santos Dumont revisita a infância entre máquinas e nuvens, o teatro dos dirigíveis, a consagração do 14-Bis, a ética do voo público e a dor de ver o céu convertido em arma. Entre elegância, ciência e tristeza, ele responde ao que a História ainda sussurra.
“Eu naveguei
pelo ar quando o mundo dizia que isso era loucura. Mas a loucura maior foi o
que os homens fizeram com o meu sonho” – Santos Dumont
O ambiente não é terreno. Estamos suspensos em uma
plataforma de vime e madeira, semelhante à gôndola do seu dirigível Nº 9, a
Baladeuse. Flutuamos suavemente sobre uma Paris atemporal. A Torre Eiffel
brilha ao longe como um farol de ferro e memória. Há uma mesa posta, com
cadeiras de pernas altíssimas, quase dois metros do chão, como ele gostava de
oferecer em seus jantares para que os convidados “sentissem como é voar”. Alberto
Santos Dumont está sentado em uma dessas cadeiras elevadas. Veste seu terno risca
de giz, o chapéu Panamá levemente amassado e um colarinho alto que parece
desenhado não apenas para a moda, mas para a construção de presença. Em certos
homens, a elegância não é ornamento, é arquitetura emocional. Ele parece
frágil, feito de vidro e nervos. No pulso, um relógio Cartier que parece menos
objeto e mais símbolo: o tempo disciplinado para servir ao impossível. Ele
sorri com timidez. É o sorriso de quem foi tratado como espetáculo, mas
preferia ser apenas um homem que conversa com o vento.
Nesta entrevista, o “Petit Santôs” revisita o
menino que aprendeu o idioma das máquinas ainda no universo rural do café, o
jovem que transformou Paris em pista de ensaio e o adulto que escolheu a
ciência à luz do dia. A disputa histórica com os Wright surge não como guerra
de bandeiras, mas como debate sobre método, transparência e destino ético da
invenção. O brilho do 14-Bis contrasta com a sombra das guerras. E a volta ao
Brasil revela um Santos Dumont ferido no corpo e na esperança, tentando
construir uma casa que obedecesse às regras da dignidade quando o próprio corpo
já não obedecia às regras do comando. (Roberto Homem)
O Síndico da Eternidade
Entre risadas trovejantes e a acústica perfeita do além, o Síndico abre o jogo sobre a fase Racional, as brigas com Roberto Carlos e a fome de viver. Uma jam session exclusiva onde o grave bate direto na alma
“O
segredo do meu sucesso é o equilíbrio. Metade das minhas músicas é
esquenta-sovaco, e metade é mela-cueca.” – Tim Maia
O ambiente não tem paredes. Tem
som. Um som tão perfeito que parece uma entidade com diploma de engenharia
cósmica. A acústica se estende ao infinito, mas sem aquele eco chato de ginásio
vazio e sem microfonia traindo ninguém. O chão não é chão, é uma espécie de
palco-lagoa de luz: reflete tudo, como se a realidade tivesse passado um verniz
de estúdio importado.
Sobre nuvens densas que lembram
espuma de cerveja em fase de missão, existe uma mesa de som que não é mesa, é
ideia pura. E ao redor dela flutuam instrumentos que não são instrumentos, são
possibilidades. Um baixo que ronca sozinho com groove gorduroso, uma bateria
que respira no tempo certo, um naipe de metais que aquece como caldeira de
escola de samba.
No centro, como se o universo
tivesse sido montado apenas para comportar um corpo maior que a própria lenda,
está ele. Tim Maia. Veste um caftã branco impecável, colar de sementes
coloridas no pescoço e anéis que brilham com ironia. Em uma mão, um copo de
whisky que misteriosamente nunca esvazia. Na outra, um livro volumoso que ele
usa apenas para abanar o rosto, num gesto de rei impaciente com o calor da
eternidade.
Ele ajusta um botão invisível na
mesa de som e grita para o nada, como quem chama a luz do palco com um palavrão
afetuoso: “Agora sim, bicho! Agora o grave tá batendo no peito de Deus! Corta o
agudo, dá ganho no médio e deixa o pau quebrar!” Uma risada profunda, daquelas
que vêm do diafragma, atravessa o estúdio celestial. Eu me aproximo com o meu
bloco de notas que também não é bloco de notas. É um passaporte. E começamos
esta conversa, uma sugestão do amigo e parceiro potiguar Ítalo Filho. (Roberto
Homem)
Na penumbra de um Rio de Janeiro atemporal, Clarice fala sobre a guerra na Ucrânia, as cicatrizes do fogo, a recusa ao feminismo de rótulo e a fome de Macabéa.
“Sou tão misteriosa que não me entendo” — Clarice Lispector
O Rio de Janeiro lá fora insiste em ser solar,
barulhento, vivo. Mas aqui, neste apartamento no Leme que parece flutuar entre
o passado e o agora, o tempo é uma substância espessa. O ar cheira a cigarro e
a um perfume antigo, algo como madeira e flores secas. Há uma tensão
silenciosa, como se o ambiente estivesse prestes a quebrar.
Venho de um encontro leve com Fernando Sabino,
amigo íntimo desta mulher que agora me encara. Se Sabino era o abraço do Rio,
Clarice é o abismo. Ela está sentada na poltrona, protegendo a mão direita —
marcada por um incêndio trágico — com um xale sutil. Seus olhos amendoados,
levemente felinos, não me convidam; eles me interrogam. Há uma máquina de
escrever Olympia sobre a mesa e, ao lado, um maço de cigarros pela metade.
Ela não sorri, mas também não é hostil. É apenas...
intensa. Como se estivesse tentando decidir se sou uma visita ou um personagem
que ela precisa decifrar. “Eu sou tão misteriosa que não me entendo.” — a frase
ecoa antes mesmo de começarmos. Respiro fundo. Entrar no mundo de Clarice
Lispector exige coragem. (Roberto Homem)
A
casa da Avenida Câmara Cascudo, o solar que hoje abriga o Instituto Ludovicus,
flutua em um éter sereno. Não é o cheiro de um museu, mas de poeira antiga e
cajuína fresca, misturado ao sal marinho que teima em entrar pelas janelas.
Mestre Cascudo nos recebe em uma poltrona de couro, cercado por milhares de
livros que parecem não apenas guardá-lo, mas escutá-lo. Sua figura é calma, as
mãos repousam sobre uma cópia já amarelada do "Dicionário do Folclore
Brasileiro", e seus olhos têm a placidez de quem já viu todos os mitos
nascerem e morrerem. O tempo, ali, parece ter a textura da areia, escorrendo
lento.
Este encontro é uma imersão na identidade brasileira. Percorremos a trilha de sua infância no Rio Grande do Norte, a teimosia de ser intelectual no Nordeste e a épica solidão de sua pesquisa, feita por cartas e viagens hercúleas. Mestre Cascudo reflete sobre o preço invisível de catalogar a alma de uma nação, o destino do Folclore na era do meme e da Inteligência Artificial, e o eterno fascínio por figuras como Lampião. Ele nos oferece, por fim, o conselho do guardião das histórias ao homem moderno, que esqueceu de olhar para o próprio chão. (Roberto Homem)
O eterno menino retorna a um Leblon suspenso entre a neblina e a memória, trazendo a leveza de quem transformou a rotina em eternidade.
"No fim dá certo. Se não deu, é porque não chegou ao fim" — Fernando Sabino
Ele está lá, reclinado numa poltrona que parece tecida de nuvens e couro
velho. Veste sua camisa de mangas dobradas, mas sua figura tem um contorno
sutilmente luminoso, translúcido. Fernando Sabino sorri, e seu sorriso é a
única coisa absolutamente nítida neste cenário difuso. Ele observa o
entrevistador com a calma de quem já não tem pressa, pois o seu "encontro
marcado" final já aconteceu, e agora só lhe resta a eternidade para contar
causos. (Roberto Homem)