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quinta-feira, 26 de março de 2026

Encontros Impossíveis: Moacyr Barbosa

O GOLEIRO QUE O BRASIL NÃO PERDOOU

Entre o silêncio do Maracanã e o barulho do tempo, Barbosa fala baixo — mas diz tudo

 

A pena máxima no Brasil é de 30 anos. Eu paguei mais de 50” — Barbosa

 

O Maracanã está vazio. Não o de hoje, organizado e domesticado por cadeiras coloridas, mas o outro — aquele que ainda respira ecos. O concreto guarda vozes que não se dissiparam. Há um fim de tarde suspenso, sem pressa de virar noite. O gramado parece maior quando não há jogo. Ou talvez mais honesto.  No centro do campo, um homem. Não está vestido como goleiro. Não há luvas. Não há uniforme. Mas há algo que permanece — uma forma de olhar o espaço como quem ainda mede distâncias invisíveis. Moacyr Barbosa. Ele não chega. Ele já está ali. Sentado, com o corpo levemente inclinado para frente, como quem ainda espera o próximo lance. Não há amargura no rosto, mas há memória. Muita. O silêncio aqui não é vazio. É presença.  E é dentro dele que começa este encontro impossível.

Nesta conversa que atravessa o tempo, Moacyr Barbosa revisita a própria trajetória com a mesma sobriedade que marcou sua vida dentro e fora dos gramados. Do menino tímido de Campinas ao goleiro que encontrou no Vasco da Gama o auge de sua carreira, ele reconstrói, sem grandiloquência, o caminho que o levou ao centro de um dos episódios mais marcantes da história do futebol brasileiro. Ao relembrar o gol de Alcides Ghiggia na final de 1950, Barbosa não se defende nem se justifica — ele descreve. E, ao fazê-lo, revela como um lance de segundos se transformou em uma sentença de décadas. Entre memórias do campo, reflexões sobre o ofício de goleiro e considerações sobre racismo, injustiça e o peso do julgamento público, emerge um homem que nunca deixou de compreender o jogo — mas precisou aprender, sozinho, a lidar com tudo o que veio depois dele.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Encontros Impossíveis - Carolina Maria de Jesus

 O Papel, a literatura e o Pão

Neste Encontro Impossível, ouvimos Carolina Maria de Jesus com tudo o que a fez única: a altivez sem licença, a ironia cortante, a vaidade ferida, a memória da fome, a fé vigiada, o apego à palavra exata e a recusa feroz de qualquer hipocrisia.


 

A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra.” — Carolina Maria de Jesus

 


Não estamos num gabinete de madeira nobre, nem numa biblioteca silenciosa, dessas onde os livros dormem em paz. O lugar desta conversa é outro. Fica num território suspenso entre o barro e o asfalto, entre Sacramento e o Canindé, entre a página e a panela. À esquerda, um córrego escuro parece andar devagar, como se carregasse nas costas o cansaço de um país inteiro. À direita, um fogão pobre respira em pequenas labaredas, e sobre ele um cheiro de café ralo tenta vencer a umidade do ar. No chão há papéis amassados, páginas soltas, pedaços de jornal, um caderno de capa gasta, uma boneca sem braço, uma lata vazia. Tudo parece ter sido recolhido do mundo para não morrer de vez. É nesse cenário que Carolina Maria de Jesus me espera. Sentada num banco simples, de vestido escuro e lenço branco, ela tem a postura firme de quem aprendeu dignidade na luta. Os olhos, lúcidos e inquietos, parecem medir a pessoa à sua frente. Ao lado, a caneta repousa sobre o caderno não como enfeite, mas como instrumento de defesa.

Carolina não é estátua nem personagem domesticada. É mulher, mãe, negra, escritora, compositora, autora que o Brasil tentou reduzir à fome, mas que sempre foi maior do que o rótulo. Neste encontro, passaremos pela menina de Sacramento, pela catadora de papel, pela mãe, pela autora de Quarto de Despejo e pela artista que jamais quis ser lida apenas como documento da miséria. Falaremos de fome, sim, mas também de língua, orgulho, maternidade, racismo, literatura, música e legado. Sobretudo, da parte de Carolina Maria de Jesus que o Brasil ainda não terminou de compreender. Ele me dá a impressão de que o Brasil ainda a lê com uma fome errada: a fome do símbolo, não a da escuta verdadeira. Carolina não pede pena. Pede papel, pão e verdade. E prova que, em suas mãos, até o que o mundo joga fora ainda tem o que contar.

 

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Encontros Impossíveis – Mauro Gonçalves (Zacarias)

 O homem por trás da peruca

 A doçura de Zacarias, a timidez do homem e o preço de carregar o riso de um país

 

“Claro que não sou engraçado naturalmente, não brinco com a vida nem com a morte. Só brinco em serviço” — Mauro Faccio Gonçalves

  

O cenário não é um estúdio, nem um palco de auditório. É um jardim de fim de tarde em Sete Lagoas. O ar tem cheiro de terra úmida, folha amassada e café recém-coado. Não há peruca, não há o dente escurecido, não há a voz esganiçada que o Brasil aprendeu a reconhecer antes mesmo de vê-lo entrar em cena. Sentado numa cadeira de vime, Mauro Faccio Gonçalves recebe com a discrição de quem nunca confiou muito no barulho. Fala baixo, com um sotaque mineiro sem afetação, desses que não precisam se exibir para existir. Há gentileza, mas também reserva. Não a reserva antipática, e sim a de quem levou uma vida inteira protegendo um pedaço de si do apetite do mundo.

À frente do país, ele foi Zacarias, o trapalhão infantil, terno, elétrico, de pureza desajeitada. Mas ali, entre plantas, sombras longas e uma luz amarela pousando devagar sobre as folhas, aparece o homem. O ex-bancário que largou uma vida previsível para seguir o teatro, o rádio e a invenção. O artista técnico, meticuloso, observador. O mineiro que fez o Brasil rir sem jamais entregar tudo de si.

Nesta conversa, tentamos alcançar não só o personagem, mas o intervalo entre a peruca e o espelho.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Encontros Impossíveis: Tarsila do Amaral

 A pintora do Brasil

 Tarsila conta sobre sua infância, as festas antropofágicas em Paris com Picasso e Cocteau e a polêmica do Abaporu “exilado” na Argentina, entre outros temas.

 

“Eu quero ser a pintora da minha terra. Não se enganem com meus vestidos de Paris; meu pincel ainda tem cheiro de terra úmida e mato” — Tarsila do Amaral

  

Estamos em uma varanda que parece flutuar sobre um mar de morros cor-de-rosa e cactos cilíndricos, sob um céu de um azul tão sólido que poderia ser tocado. O mobiliário é uma mistura impossível: um sofá de veludo vermelho de seu atelier na França divide espaço com baús de madeira rústica de Minas Gerais. É como se tudo parecesse um quadro ainda sendo pintado. Tarsila nos recebe com uma elegância que o tempo não ousou tocar. Veste o lendário casaco de veludo vermelho que usou no jantar em homenagem a Santos Dumont. Seus cabelos estão presos em um coque impecável, e o olhar, embora doce, guarda a firmeza de quem subverteu a arte de um continente. Há um aroma de café fresco e terra molhada no ar.

Neste encontro, Tarsila do Amaral despoja-se das camadas de celebridade para revelar a mulher por trás do ícone, em uma linha do tempo que se estende do barro roxo das fazendas paulistas à sofisticação geométrica dos ateliês parisienses. A conversa percorre suas primeiras pinceladas sob o céu de Barcelona, a turbulenta e apaixonada era "Tarsiwald", e a gênese do Abaporu como o banquete final do modernismo brasileiro. Com uma sinceridade doce-amarga, ela revisita as dores do exílio financeiro em 1929, a guinada para a consciência social após a viagem à União Soviética e os anos de serenidade ao lado de Luis Martins. O diálogo atinge seu ápice emocional ao tratar das perdas devastadoras — a morte da filha e a paralisia física — e lança um olhar visionário e crítico sobre o futuro, onde a inteligência artificial tenta, sem sucesso, capturar a alma camponesa que ela imortalizou com suas "cores de baú".

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis: Ulysses Guimarães

 O Sr. Diretas e o silêncio das ondas

 


O grande fiador da Constituição atravessa a ditadura, revisita a Constituinte e encara, com espanto crítico, a política do Brasil de 2026 onde quem manda é o algoritmo.

 

"Tenho ódio à ditadura. Ódio e nojo” — Ulysses Guimarães

 

O ambiente é de uma sobriedade absoluta, uma penumbra que sugere tanto o gabinete da Presidência da Câmara quanto a biblioteca de sua casa em São Paulo. Não há o luxo cenográfico de Hollywood, mas a dignidade do couro gasto e o cheiro persistente de papel antigo. A luz é cirúrgica, caindo sobre uma mesa de jacarandá onde repousa um exemplar original da Constituição de 1988, com as margens levemente amareladas. Ulysses Guimarães está impecável: o terno escuro perfeitamente cortado, a camisa branca de colarinho rígido, o cabelo alvo como uma bandeira de paz. Ele não gesticula com pressa; cada movimento das mãos parece desenhar um parágrafo da lei no ar. O olhar é de uma lucidez cortante, o olhar de quem atravessou o oceano de Angra para cobrar o penhor da liberdade.

Com a elegância de quem enfrentou cães e baionetas sem desajustar o nó da gravata, Ulysses revisita a Anticandidatura e a apoteose da Candelária, expondo a ferida de uma transição que, embora necessária, deixou incompleta a promessa de participação popular. Ao confrontar o Brasil de 2026, o “Doutor” fala com severidade republicana diante de novas formas de poder e de representação. Para ele, o Parlamento contemporâneo corre o risco de se perder numa política de vitrine, em que o caráter cede espaço à conveniência e à tirania dos algoritmos. Ulysses descreve, com precisão cirúrgica, a erosão do mandato real: o político que abdica da liderança para se tornar refém do aplauso instantâneo, trocando o debate público pelo desempenho em redes sociais. Entre a memória de Dona Mora e a lucidez de quem fez da Constituição uma obra de resistência, ele nos deixa um alerta: a democracia não sobrevive apenas nas telas, mas na vigilância e na indignação de cidadãos que ainda sabem reconhecer o gosto do sal da liberdade.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis - Alan Turing

 O Código do Espírito

O arquiteto do silêncio entre o metal e a alma: uma conversa sobre máquinas que aprendem a mentir, o preço da verdade e o futuro que ele desenhou no escuro.

 

Em vez de simular a mente adulta, por que não simular a mente de uma criança?” — Alan Turing. 

Ele escreveu esta frase em 1950, no ensaio “Computing Machinery and Intelligence”, publicado na revista Mind, propondo a ideia de uma “child-machine” (máquina-criança). Em vez de tentar programar uma mente adulta completa, criar um “programa-criança” e depois educar e treinar esse sistema até ele adquirir capacidades mais “adultas”.

 

 O cenário é uma biblioteca infinita: estantes sem livros, apenas fitas de papel perfuradas, rolos e mais rolos que descem como rios de dados. O som é quase inexistente, mas há um chiado baixo, como se o próprio ar fosse uma válvula. Acima, um céu de tarde eterna em Cambridge, com luz amarela que nunca vira noite. Numa cadeira de madeira simples, Alan Turing descasca uma maçã com um canivete pequeno. Veste um paletó de tweed gasto nos cotovelos, como se a vida inteira tivesse apoiado ali o peso de uma ideia. Seus olhos têm pressa: parecem calcular até a poeira. Ele tem um sorriso tímido, quase infantil. Mas quando fala, a timidez sai de cena e entra uma autoridade seca.

Nesta conversa, revisitamos a lógica que Alan Turing ajudou a inaugurar e o trabalho secreto em Bletchley Park, centro britânico de decifração na Segunda Guerra, onde quebrar códigos significava salvar vidas sem poder contar a ninguém. Por fim, conectamos isso ao agora: discutimos como a IA deixou de apenas responder comandos e passou a operar de forma cada vez mais ativa, inclusive em espaços onde sistemas conversam entre si, criando dinâmicas que nem sempre incluem, explicam ou priorizam os humanos.

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis

 Encontros Impossíveis

 

O Silêncio da Buzina


Neste encontro impossível, despimos a fantasia do Velho Guerreiro para revelar o Dr. Abelardo: o homem que trocou a medicina pela cura através do riso.

 

"Quem não se comunica, se trumbica" Abelardo Barbosa (Chacrinha)

 

 

O ambiente não possui paredes definidas; é uma vastidão nebulosa que lembra os galpões abafados da TV Tupi ou o Teatro Fênix, mas suspensos no tempo. O chão está coberto por uma camada fina de confete prateado e serpentinas que parecem nunca perder o brilho. Há um cheiro persistente no ar: uma mistura de éter hospitalar, talco de camarim, bacalhau seco e maresia — o cheiro da vida de Abelardo. No centro, iluminado por um foco de luz âmbar que simula o sol do final de tarde em Pernambuco, repousa uma poltrona de veludo vermelho, gasta pelo uso, com a madeira dos braços polida por mãos nervosas. Nela, Abelardo Barbosa nos espera. Ele não veste o saiote de guerreiro, nem a cartola extravagante, nem carrega o abacaxi de plástico agora. Está vestido com uma sobriedade que desconcerta: um terno de linho branco, impecável, lembrando o médico que a família sonhou e que ele quase se tornou. Mas a essência do "Velho Guerreiro" resiste nos detalhes: uma buzina de latão repousa em seu colo como um animal de estimação fiel, e seus óculos de aros grossos e escuros refletem uma luz que não vem de lugar nenhum, escondendo e revelando olhos que viram o Brasil mudar.

Ele tosse levemente, pigarreia — uma lembrança da hipocondria e do cigarro que o acompanharam — e me encara com uma seriedade profunda, quase acadêmica, muito diferente da anarquia que vendia na TV. A voz é rouca, pausada, pontuada por uma franqueza cortante e uma sabedoria adquirida na dor. Nesta conversa monumental, atravessamos a poeira de Surubim, o balanço do navio a caminho do Rio, a filosofia do "palhaço" como agente social, o amor devoto (e doloroso) ao trabalho e a visão profética sobre a comunicação na era dos algoritmos. Entre confetes e silêncios profundos, Chacrinha também reflete sobre a solidão do agreste, o rigor militar por trás do caos televisivo e o preço doloroso de ter sido o maior comunicador da história do Brasil.

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis – Carmen Miranda

 Encontros Impossíveis 

O Tique-Taque do Tempo


A Pequena Notável entre o brilho de Hollywood e a saudade da Lapa: uma conversa sobre o peso do turbante e a alma que ninguém americanizou.


"Disseram que eu voltei americanizada, mas eu sempre fui a mesma. O meu samba é o mesmo, a minha alegria é a mesma, e a minha brasilidade está em tudo o que faço" — Carmen Miranda

 

O ambiente é uma penumbra luxuosa, onde o veludo de Beverly Hills se mistura ao cheiro de maresia da Praia da Urca. Ela está sentada em uma poltrona larga, parecendo ainda menor sem os saltos de vinte centímetros, mas sua presença corta o ar como um solo de flauta. Maria do Carmo não usa frutas na cabeça hoje; veste um robe de seda simples, e o olhar, livre dos cílios postiços pesados, é de uma lucidez que atravessa décadas. É a mulher que sustentou um império com os ombros, que virou o símbolo de um país inteiro enquanto lutava para não se perder de si mesma entre comprimidos para dormir e aplausos para acordar.

Neste encontro, desarmamos o ícone para ouvir a mulher em uma travessia que começa na descoberta do seu magnetismo entre os chapéus da Rua do Ouvidor e mergulha na mágoa profunda daquela noite de silêncio no Cassino da Urca. Caminhamos pelos corredores de Hollywood para entender o laboratório de estereótipos que a aprisionou em uma caricatura, revelando o cansaço de ser uma vitrine global e o legado de uma voz que, muito além das plataformas, sobreviveu a todas as críticas para se tornar a própria imagem da nossa identidade.

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Nísia Floresta

 Encontros Impossíveis

 

A voz que antecipou o século

 

Da menina órfã pela violência política à educadora que desafiou o Império, Nísia Floresta discute a condição feminina, a escravidão e o abismo social brasileiro. Com a serenidade de quem viu o futuro antes de todos, a "Brasileira Augusta" analisa as conquistas e os perigos do mundo contemporâneo.

 

“Educai as mulheres! Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados! Governo, que vos dizeis liberal!” — Nísia Floresta

 

 O ambiente não é terreno. Estamos em uma memória suspensa que oscila, como uma miragem febril, entre a sobriedade de uma biblioteca vitoriana em Londres — com estantes de carvalho escuro, cheiro de cera e tinta — e as dunas brancas e cegantes de Papari, no Rio Grande do Norte. Ouve-se, ao longe, um violino executando Norma de Bellini, que às vezes é interrompido pelo som bruto do vento nordestino batendo nas folhas de carnaúba, sugerindo a dualidade de uma alma que nunca coube inteiramente em um só hemisfério. Sentada em uma cadeira de espaldar alto, Nísia Floresta não aparenta a idade com que morreu, mas sim uma atemporalidade majestosa. Veste seda escura, fechada até o pescoço, adornada por um camafeu discreto. Suas mãos, calejadas pela escrita constante, repousam sobre um volume gasto de Direitos das Mulheres. Ela me encara com olhos que já viram o exílio, a peste, a revolução e a morte, mas que ainda guardam o brilho úmido e inquisidor de quem chorou pelo Brasil.

Nesta conversa, a "Brasileira Augusta" despe-se dos mitos para revisitar a menina Dionísia, forjada no sangue da tragédia política de 1817, e a mulher que ousou traduzir e expandir o feminismo europeu para uma sociedade escravocrata. Entre reflexões sobre o escândalo de educar mulheres para a ciência e a defesa solitária dos povos indígenas, ela lança um olhar crítico e materno sobre o século XXI, dissecando fenômenos como o feminicídio e a superficialidade das redes, provando que sua voz, mesmo vinda do além-túmulo, permanece dolorosamente atual.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Kher-Ba, o ET de Varginha

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O náufrago de olhos vermelhos

Em um limbo cinzento onde o tempo é apenas uma memória, a criatura que protagonizou o maior mistério ufológico do Brasil quebra um silêncio de três décadas. Longe das teorias da conspiração e dos relatórios militares, ele revisita a queda em Minas Gerais, o terror compartilhado num terreno baldio, a agonia em uma mesa de operação e a incompreensão de uma humanidade que, ao encarar o desconhecido, preferiu ver o inimigo. Entre a biologia e o espírito, ele revela o lado de quem não veio invadir, mas apenas naufragou.

 

“Vocês olham para o céu procurando deuses, mas quando caímos na lama, vocês veem apenas monstros. O medo é a única escuridão real.” – Kher-Ba (O Ser de Varginha)

 

Há lugares que não existem no mapa, mas existem no corpo. Este não é terreno, nem celestial. É um cenário de consciência, uma espécie de sala sem paredes onde o tempo não anda em linha reta: ele pulsa, como um coração antigo, às vezes acelerando, às vezes ficando tão lento que dá para ouvir o silêncio ranger. O ambiente lembra uma caverna úmida. Não porque eu veja estalactites ou rochas, mas porque tudo cheira a chão depois da chuva. Terra molhada. Musgo. Umidade. E, por trás disso, um odor acre e pungente, que não dá para ignorar: amônia. A mesma palavra que volta nos relatos de 1996 como um refrão incômodo. Não há cadeiras. Não há mesa. Não há gravador. Meu caderno existe, mas parece um objeto deslocado, como se eu tivesse levado um guarda-chuva para dentro de um aquário. Ainda assim, eu o seguro. Costume de repórter. Amuleto de quem acredita que registrar é uma forma de não enlouquecer.

Diante de mim, agachado, com os joelhos recolhidos contra o peito, está a figura que o Brasil aprendeu a chamar de “ET de Varginha”. Mas “ET de Varginha” é rótulo de manchete, e manchetes não respiram. O que vejo aqui respira. Ou algo análogo a isso. Ele é pequeno. Não a “pequenez” caricata de folclore, mas uma estatura que sugere economia de energia, adaptação, gravidade. A pele é marrom-escura e tem um brilho oleoso, como se guardasse um filme protetor. Na cabeça, três protuberâncias discretas pulsam num ritmo lento, quase hipnótico. Mas são os olhos que dominam a cena: vermelhos, enormes, sem pupilas visíveis. E, no entanto, não há fúria neles. Há uma tristeza líquida, profunda, desconfortavelmente reconhecível.

Este encontro impossível não pretende encerrar o caso Varginha. Não pretende “provar” nada. A proposta aqui é outra: inverter o olhar. Em vez de perguntar “o que era aquilo?”, perguntar “quem era aquilo?”. Em vez de transformar o desconhecido em inimigo, permitir que ele se explique, mesmo que a explicação venha cheia de falhas, traduções imperfeitas e ambiguidades. Porque se existe uma verdade teimosa em toda história de espanto, ela é esta: quando a humanidade encara o que não entende, costuma escolher entre duas máscaras. Riso ou agressão. Meme ou arma. E, muitas vezes, as duas ao mesmo tempo. Eu respiro. Tento firmar a atenção. Sinto um zumbido leve no ouvido, como quem encosta a cabeça num poste e percebe a eletricidade sem tocar no fio. É estranho, mas não é ameaça. É apenas… diferença. E eu decido começar como todo jornalista deveria começar diante do extraordinário: fazendo perguntas que qualquer pessoa entenderia. Sem pressupostos. Sem atalhos. Sem depender de versões anteriores. Sem “piscadinhas” para o rascunho.

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Jackson do Pandeiro

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A orquestra de um homem só

 

Das raízes da fome em Alagoa Grande à técnica revolucionária que transformou o pandeiro em orquestra; os bastidores da relação com Luiz Gonzaga, a dor do esquecimento e uma crítica afiada à música na era digital.

 

"Quem toca em cabaré pode tocar em qualquer lugar." – Jackson do Pandeiro

 

 

Não estamos em um estúdio moderno, mas em uma rádio imaginária suspensa em algum lugar entre a feira de Campina Grande e o cosmos. O ar cheira a fumo de rolo, café fresco e cera de assoalho. Há uma luz ambarina, morna, vinda de válvulas de amplificadores antigos. No centro, sentado em um banquinho de madeira, está José Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro. Ele veste um terno de linho branco impecável, sapatos bicolores que brilham como espelhos e seu inseparável chapéu de aba curta, levemente inclinado para a esquerda (a marca da malandragem elegante). Ele segura um pandeiro velho, de couro de cabra, aquecendo o instrumento com o atrito da própria mão, como quem faz carinho em um bicho arisco. Seus olhos miúdos e vivos observam tudo com a astúcia de quem já passou fome e hoje janta a glória.

Neste encontro impossível e exclusivo – sugerido pelo parceiro potiguar de tantas canções, William Guedes – Jackson revisita as dores da fome em Alagoa Grande e como elas moldaram seu ritmo frenético; discute a "engenharia" por trás de sua técnica revolucionária no pandeiro; relembra a parceria e o amor com Almira Castilho; avalia sua relação com Luiz Gonzaga e o ostracismo durante a Jovem Guarda; e, com a sabedoria de quem vê de longe, analisa o cenário musical moderno, do funk ao autotune, encerrando com uma lição sobre o que é, afinal, ter "suingue".

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Santos Dumont

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O Ícaro de colarinho alto

 

Em uma Paris suspensa entre séculos, Santos Dumont revisita a infância entre máquinas e nuvens, o teatro dos dirigíveis, a consagração do 14-Bis, a ética do voo público e a dor de ver o céu convertido em arma. Entre elegância, ciência e tristeza, ele responde ao que a História ainda sussurra.

 

Eu naveguei pelo ar quando o mundo dizia que isso era loucura. Mas a loucura maior foi o que os homens fizeram com o meu sonho” – Santos Dumont

  

O ambiente não é terreno. Estamos suspensos em uma plataforma de vime e madeira, semelhante à gôndola do seu dirigível Nº 9, a Baladeuse. Flutuamos suavemente sobre uma Paris atemporal. A Torre Eiffel brilha ao longe como um farol de ferro e memória. Há uma mesa posta, com cadeiras de pernas altíssimas, quase dois metros do chão, como ele gostava de oferecer em seus jantares para que os convidados “sentissem como é voar”. Alberto Santos Dumont está sentado em uma dessas cadeiras elevadas. Veste seu terno risca de giz, o chapéu Panamá levemente amassado e um colarinho alto que parece desenhado não apenas para a moda, mas para a construção de presença. Em certos homens, a elegância não é ornamento, é arquitetura emocional. Ele parece frágil, feito de vidro e nervos. No pulso, um relógio Cartier que parece menos objeto e mais símbolo: o tempo disciplinado para servir ao impossível. Ele sorri com timidez. É o sorriso de quem foi tratado como espetáculo, mas preferia ser apenas um homem que conversa com o vento.

Nesta entrevista, o “Petit Santôs” revisita o menino que aprendeu o idioma das máquinas ainda no universo rural do café, o jovem que transformou Paris em pista de ensaio e o adulto que escolheu a ciência à luz do dia. A disputa histórica com os Wright surge não como guerra de bandeiras, mas como debate sobre método, transparência e destino ético da invenção. O brilho do 14-Bis contrasta com a sombra das guerras. E a volta ao Brasil revela um Santos Dumont ferido no corpo e na esperança, tentando construir uma casa que obedecesse às regras da dignidade quando o próprio corpo já não obedecia às regras do comando. (Roberto Homem)

 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Encontros impossíveis: Tim Maia

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O Síndico da Eternidade


 

Entre risadas trovejantes e a acústica perfeita do além, o Síndico abre o jogo sobre a fase Racional, as brigas com Roberto Carlos e a fome de viver. Uma jam session exclusiva onde o grave bate direto na alma

 

“O segredo do meu sucesso é o equilíbrio. Metade das minhas músicas é esquenta-sovaco, e metade é mela-cueca.” – Tim Maia

 

O ambiente não tem paredes. Tem som. Um som tão perfeito que parece uma entidade com diploma de engenharia cósmica. A acústica se estende ao infinito, mas sem aquele eco chato de ginásio vazio e sem microfonia traindo ninguém. O chão não é chão, é uma espécie de palco-lagoa de luz: reflete tudo, como se a realidade tivesse passado um verniz de estúdio importado.

Sobre nuvens densas que lembram espuma de cerveja em fase de missão, existe uma mesa de som que não é mesa, é ideia pura. E ao redor dela flutuam instrumentos que não são instrumentos, são possibilidades. Um baixo que ronca sozinho com groove gorduroso, uma bateria que respira no tempo certo, um naipe de metais que aquece como caldeira de escola de samba.

No centro, como se o universo tivesse sido montado apenas para comportar um corpo maior que a própria lenda, está ele. Tim Maia. Veste um caftã branco impecável, colar de sementes coloridas no pescoço e anéis que brilham com ironia. Em uma mão, um copo de whisky que misteriosamente nunca esvazia. Na outra, um livro volumoso que ele usa apenas para abanar o rosto, num gesto de rei impaciente com o calor da eternidade.

Ele ajusta um botão invisível na mesa de som e grita para o nada, como quem chama a luz do palco com um palavrão afetuoso: “Agora sim, bicho! Agora o grave tá batendo no peito de Deus! Corta o agudo, dá ganho no médio e deixa o pau quebrar!” Uma risada profunda, daquelas que vêm do diafragma, atravessa o estúdio celestial. Eu me aproximo com o meu bloco de notas que também não é bloco de notas. É um passaporte. E começamos esta conversa, uma sugestão do amigo e parceiro potiguar Ítalo Filho. (Roberto Homem)

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Clarice Lispector

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O mistério atrás da porta

Na penumbra de um Rio de Janeiro atemporal, Clarice fala sobre a guerra na Ucrânia, as cicatrizes do fogo, a recusa ao feminismo de rótulo e a fome de Macabéa.


Sou tão misteriosa que não me entendo” — Clarice Lispector

  

O Rio de Janeiro lá fora insiste em ser solar, barulhento, vivo. Mas aqui, neste apartamento no Leme que parece flutuar entre o passado e o agora, o tempo é uma substância espessa. O ar cheira a cigarro e a um perfume antigo, algo como madeira e flores secas. Há uma tensão silenciosa, como se o ambiente estivesse prestes a quebrar.

Venho de um encontro leve com Fernando Sabino, amigo íntimo desta mulher que agora me encara. Se Sabino era o abraço do Rio, Clarice é o abismo. Ela está sentada na poltrona, protegendo a mão direita — marcada por um incêndio trágico — com um xale sutil. Seus olhos amendoados, levemente felinos, não me convidam; eles me interrogam. Há uma máquina de escrever Olympia sobre a mesa e, ao lado, um maço de cigarros pela metade.

Ela não sorri, mas também não é hostil. É apenas... intensa. Como se estivesse tentando decidir se sou uma visita ou um personagem que ela precisa decifrar. “Eu sou tão misteriosa que não me entendo.” — a frase ecoa antes mesmo de começarmos. Respiro fundo. Entrar no mundo de Clarice Lispector exige coragem. (Roberto Homem)

 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Luís da Câmara Cascudo

 Encontros Impossíveis

 O guardião das histórias do Brasil 

Luís da Câmara Cascudo retorna para guiar o SuperPauta em uma viagem pelo arquivo da alma brasileira.

Nem mesmo Deus tem o poder para modificar o Passado” — Luís da Câmara Cascudo

  

A casa da Avenida Câmara Cascudo, o solar que hoje abriga o Instituto Ludovicus, flutua em um éter sereno. Não é o cheiro de um museu, mas de poeira antiga e cajuína fresca, misturado ao sal marinho que teima em entrar pelas janelas. Mestre Cascudo nos recebe em uma poltrona de couro, cercado por milhares de livros que parecem não apenas guardá-lo, mas escutá-lo. Sua figura é calma, as mãos repousam sobre uma cópia já amarelada do "Dicionário do Folclore Brasileiro", e seus olhos têm a placidez de quem já viu todos os mitos nascerem e morrerem. O tempo, ali, parece ter a textura da areia, escorrendo lento.

Este encontro é uma imersão na identidade brasileira. Percorremos a trilha de sua infância no Rio Grande do Norte, a teimosia de ser intelectual no Nordeste e a épica solidão de sua pesquisa, feita por cartas e viagens hercúleas. Mestre Cascudo reflete sobre o preço invisível de catalogar a alma de uma nação, o destino do Folclore na era do meme e da Inteligência Artificial, e o eterno fascínio por figuras como Lampião. Ele nos oferece, por fim, o conselho do guardião das histórias ao homem moderno, que esqueceu de olhar para o próprio chão. (Roberto Homem)

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Fernando Sabino

 

Encontros Impossíveis

 A sabedoria de quem quis morrer menino

O eterno menino retorna a um Leblon suspenso entre a neblina e a memória, trazendo a leveza de quem transformou a rotina em eternidade. 


"No fim dá certo. Se não deu, é porque não chegou ao fim" — Fernando Sabino

 

Não estamos exatamente no Rio de Janeiro, mas na ideia que a saudade guardou dele. É uma cobertura no Leblon, mas as paredes parecem feitas de bruma e o mar lá embaixo se move em câmera lenta, sem som, como um espelho líquido suspenso no vácuo. O Pão de Açúcar flutua num horizonte dourado e imóvel, como numa fotografia antiga colorida à mão. É um fim de tarde eterno de domingo. Neste espaço onde a gravidade é mais leve, uma bateria de jazz toca sozinha — pratos e vassourinhas roçando o silêncio — num ritmo suave que só a alma escuta. O cheiro de pão de queijo e café não vem de uma cozinha física, mas emana do ambiente como uma "lembrança olfativa", densa e acolhedora.

Ele está lá, reclinado numa poltrona que parece tecida de nuvens e couro velho. Veste sua camisa de mangas dobradas, mas sua figura tem um contorno sutilmente luminoso, translúcido. Fernando Sabino sorri, e seu sorriso é a única coisa absolutamente nítida neste cenário difuso. Ele observa o entrevistador com a calma de quem já não tem pressa, pois o seu "encontro marcado" final já aconteceu, e agora só lhe resta a eternidade para contar causos. (Roberto Homem)

 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Ariano Suassuna

Encontros Impossíveis

A última aula-espetáculo

 

Ariano retorna com a mesma solenidade que o levou à Academia e a mesma graça que criou João Grilo. Nesta aula-espetáculo impossível, ele conversa com o SuperPauta sobre a morte do pai, a guerra contra o "ok" dos "pasteurizadores", o pavor de avião e o diabo, tudo sob o sol de pedra de seu Sertão mítico.

 

 

"Não sou ateu graças a Deus" – Ariano Suassuna

 

 

O encontro não se dá no céu, nem no inferno. Ariano Suassuna não estaria à vontade em nenhum dos dois. O inferno, diria ele, é "muito mal iluminado" e "cheio de gente que fala inglês". O céu, talvez "correto demais". Nosso encontro acontece em um teatro de pedra, em algum lugar entre a caatinga de Taperoá e o cosmos. A luz é dourada, como o fim de tarde no sertão, e a poeira que dança no ar parece carregar histórias milenares. Ele está lá, no centro do palco, não como um espectro, mas como uma força. Veste o terno de linho que o imortalizou, o inseparável colete vermelho e a gravata. (Ele ajeita a abotoadura, com a solenidade de quem se prepara para uma batalha). Seus olhos, vivos e iluminados, medem o entrevistador com uma mistura de curiosidade e desafio. Ariano Suassuna está pronto para sua última "aula-espetáculo".

 

O ar vibra com a expectativa. É o homem que dedicou a vida a provar que o Brasil profundo, o sertão "onde o diabo perdeu as botas", era o palco da tragédia e da comédia mais universais que existem. Nesta conversa impossível, Mestre Ariano fala sobre a honra e a tragédia que marcaram sua infância, a criação do Auto da Compadecida, o diabo, Deus e os "falsos profetas" da tecnologia. Ele defende o Brasil contra o que chama de "pasteurização" cultural e, claro, exalta as virtudes do Sport Club do Recife. (Ariano Suassuna)

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Raul Seixas

Encontros Impossíveis

 O Testamento do Maluco Beleza

 

O Maluco Beleza retorna do Trem das Sete, com a mesma ironia que desafiou a ditadura e o misticismo que fundou a Sociedade Alternativa, mantendo esta conversa imaginária com o SuperPauta sobre o pacto com Paulo Coelho, a dor de ser preso por ser ele mesmo, o show caótico em Natal, tudo ao som de gritos distantes de "Toca Raul!"

 

"Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade." — Raul Seixas

 

Este Encontro Impossível nasceu de uma sugestão dupla dos jornalistas e amigos Costa Júnior e Roberto Fontes — dois adeptos fiéis do “Toca Raul!” e fãs da liberdade criativa, da rebeldia poética e da música que cutuca o pensamento. O encontro não é num estúdio, nem num bar. É numa estação de trem. A Estação da Luz, talvez, mas suspensa no tempo, sem passageiros, mergulhada numa névoa que cheira a cigarro e ozônio. Ele está lá, sentado num banco de madeira, rindo sozinho. A velha guitarra apoiada ao lado. Ele não usa a túnica de Gita. Veste o jeans gasto, a bota de cowboy e a jaqueta de couro puída. Ele me olha, sem surpresa, e dá aquela risada inconfundível, que rasga o silêncio. "Demorou, chapa", ele diz, "Pensei que cê não vinha."

Nesta conversa impossível, Raul Seixas, o eterno Maluco Beleza, fala sobre a infância em Salvador, a paixão por Elvis e Gonzaga. Ele detalha a criação da Sociedade Alternativa, o pacto (e o rompimento) com Paulo Coelho, e a tortura no DOPS. Raul também encara os momentos sombrios: o show interrompido em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1983, a prisão em Caieiras por ser confundido com um sósia, e a luta contra o pâncreas e o álcool. No final, ele analisa o "Raulseixismo" e manda um recado para o Brasil do "Toca Raul!". (Roberto Homem)

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Lampião

Encontros Impossíveis

O Evangelho do Bacamarte

 

Virgulino Ferreira retorna com a fúria e a astúcia que impuseram uma nova lei ao sertão, mantendo esta conversa imaginária com o SuperPauta sobre a vingança que o forjou, a derrota histórica em Mossoró e o código de honra que, em sua visão, o separa do banditismo moderno.

 

"Eu sou cangaceiro pela maldade dos outros" – Lampião

 

O ar não se move. O encontro se dá numa caatinga suspensa no tempo, onde o sol não castiga, mas a luz é branca e dura, como cal. O cheiro não é de flor de mandacaru, mas de poeira seca, couro curtido e pólvora fria. Ele não surge como um fantasma; ele simplesmente está lá, sentado numa pedra, como se nos esperasse há 70 anos. Virgulino Ferreira da Silva não é uma assombração; é um fato. Veste o gibão de couro bordado, os anéis brilham, e o chapéu de abas largas sombreia os olhos que, diziam, enxergavam no escuro. A voz não é um grito. É um trovão baixo, arrastado pelo sol, acostumado a dar ordens que não podem ser desobedecidas. Cada palavra tem o peso de uma bala.


Nesta conversa impossível, Lampião fala sobre a vaidade que o fez ser fotografado por Benjamin Abrahão, a estratégia militar que humilhou as volantes e a tática dos coiteiros. Ele detalha, pela primeira vez, sua maior derrota militar: a invasão de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Ele relembra a crueldade de ambos os lados, a morte de Jararaca, o amor por Maria Bonita e a traição final em Angicos. No clímax do encontro, o "Rei do Cangaço" analisa o crime moderno, renegando o "Novo Cangaço" e o Comando Vermelho. (Roberto Homem)