Fundado como O Ponta Negra e depois rebatizado como O Zona Sul, o jornal nasceu para dar voz aos moradores de Natal. Um encontro casual com Terezinha de Jesus, na Bienal do Livro de 2003, abriu suas páginas para uma série de mais de cem entrevistas — e plantou a semente do SuperPauta.
Por Roberto Homem
Antes de o SuperPauta existir, antes dos podcasts, dos vídeos e das entrevistas imaginárias com personagens que já morreram, havia um jornal de bairro, duas páginas centrais e um acordo que quase nunca precisou ser renovado: eu entrevistava; Costa Júnior e Edson Benigno editavam e publicavam.
O jornal era O Zona Sul. Foi nele que pratiquei com maior regularidade a arte da entrevista, conheci personagens extraordinários e registrei histórias que poderiam ter desaparecido. Foram mais de cem conversas, realizadas em Natal, Brasília e em diferentes cidades brasileiras.
Tudo começou por acaso, numa feira de livros.
Do O Ponta Negra ao Zona Sul
A história do jornal começou em 1991, quando os jornalistas Costa Júnior e Edson Benigno fundaram uma pequena publicação chamada O Ponta Negra.
Eram apenas oito páginas, aproximadamente do tamanho de uma folha de papel ofício, impressas em preto e branco. A tiragem inicial era de 2 mil exemplares, distribuídos principalmente nos conjuntos Ponta Negra e Alagamar.O jornal tinha uma finalidade essencialmente comunitária. Divulgava as reivindicações dos moradores, procurava levar seus problemas ao conhecimento dos órgãos públicos e cobrava soluções. Também abria espaço para o comércio da região, cuja publicidade ajudava a sustentar a publicação.
Naquele jornal modesto já estava presente uma ideia importante: a notícia não precisava nascer apenas nos grandes centros de poder. A falta de iluminação de uma rua, um problema de transporte, uma reivindicação de moradores ou a abertura de um pequeno comércio também faziam parte da vida pública e mereciam registro.
No início dos anos 2000, uma parceria com o então vereador de Natal Jorge Araújo permitiu ampliar a circulação para outras comunidades da Zona Sul. A publicação mudou de nome e passou a se chamar O Zona Sul.
A transformação não foi apenas nominal. O jornal adotou o formato tabloide, passou a ter 12 páginas, ganhou impressão colorida e elevou sua tiragem para 5 mil exemplares. Acompanhava, assim, o crescimento daquela região de Natal e ampliava o espaço destinado à informação, à cultura e aos personagens da cidade.
Ao longo dessa trajetória, contou com a colaboração de jornalistas como Gustavo Porpino e Paulo Augusto, além do colunista Adalberto Rodrigues, entre outros profissionais que ajudaram a construir sua identidade.
Uma amizade iniciada na UFRN
Minha ligação com o jornal nasceu da amizade com Costa Júnior. Nós nos conhecemos em 1985, quando começamos a cursar Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foi ali que ficamos amigos.Em 1998, mudei-me para Brasília. Júnior permaneceu em Natal, tocando o jornal com Edson Benigno. A distância geográfica não interrompeu a amizade nem impediu que, alguns anos depois, nossos caminhos profissionais voltassem a se encontrar.
Depois de algum tempo trabalhando no Senado Federal, passei a integrar as equipes que representavam a instituição em feiras e bienais de livros pelo país. O Senado montava estandes para apresentar e vender obras de seu Conselho Editorial e publicações com a legislação brasileira.
Minha função não se limitava à venda dos livros. Eu também fazia a cobertura jornalística das feiras, divulgava os lançamentos do Senado na imprensa e acompanhava atividades como a distribuição de obras em braile.
Foi assim que viajei por praticamente todo o Brasil. E foi numa dessas viagens que nasceu a seção de entrevistas do Zona Sul.
Terezinha chegou ao estande
Em 2003, eu participava da I Bienal do Livro de Natal, realizada no Centro de Convenções. Estava no estande do Senado quando encontrei Falves Silva, artista potiguar que eu conhecia havia muito tempo.
Falves era companheiro da cantora Terezinha de Jesus, a quem eu ainda não conhecia pessoalmente. Durante a conversa, ele contou que ela também estava na Bienal.
— Você quer conhecê-la?
Claro que eu queria.
Falves se afastou e prometeu voltar com Terezinha. Quando os dois chegaram, Costa Júnior também estava no estande. Conversamos um pouco. Naquele período, Terezinha vivia uma fase de menor exposição e não recebia o reconhecimento proporcional à sua importância para a música potiguar.
Enquanto ela falava, pensei que seria muito bom entrevistá-la. Como Júnior estava ao meu lado e tinha um jornal, perguntei imediatamente:— Você publicaria?
Ele não hesitou:
— Publico.
Já estava perto do encerramento das atividades daquele dia. Perguntei a Terezinha se ela voltaria à Bienal no dia seguinte. Diante da resposta afirmativa, fiz o convite. Ela aceitou retornar ao estande para conversarmos.
Terezinha voltou. Fizemos a entrevista ali mesmo. Enquanto ela respondia, eu digitava as informações no computador. Não havia estúdio, redação ou planejamento prévio. Havia uma cantora, um jornalista, um computador e a vontade de registrar uma história.
A entrevista, intitulada “O sotaque de Terezinha de Jesus”, foi publicada em outubro de 2003. Sem que soubéssemos, aquela conversa improvisada inaugurava uma série que atravessaria mais de uma década.
As duas páginas centrais
Depois de Terezinha vieram o cantor e compositor Clodo Ferreira, em novembro, e Babal, em dezembro. Em 2004, a sequência prosseguiu com João Cláudio Moreno, Justino Neto, Cátia de França, Jorge Frederico, Parahyba, Ceumar, Alexandre Siqueira e outros personagens.
No início, as entrevistas ainda não ocupavam tanto espaço. Aos poucos, porém, cresceram, conquistaram leitores e se transformaram numa das marcas do jornal. As duas páginas centrais passaram a ser reservadas para essas conversas.
Eu morava em Brasília, mas continuava ligado a Natal. Quando retornava à cidade, aproveitava para entrevistar artistas, jornalistas, escritores, esportistas e outros personagens potiguares. Quando estava viajando a trabalho, procurava pessoas interessantes nas cidades por onde passava.
Foi assim que conversei, entre muitos outros, com o cordelista Abraão Batista, de Juazeiro do Norte; com o catarinense Menestrel Moacir Reis; e com Elvira Zanella, em Porto Alegre, que se apresentava como a Redentora Suprema da Criação.Em Brasília, entrevistei Inri Cristo. Em Natal, conversei com nomes como Nei Leandro de Castro, Hélio Câmara e Souza, jogador potiguar que chegou à Seleção Brasileira.
Havia gente de toda parte e de praticamente todas as áreas. Artistas consagrados dividiam o espaço com personagens populares, figuras excêntricas, escritores, músicos, jornalistas, atletas e pessoas que carregavam histórias extraordinárias sem necessariamente ocupar as manchetes da grande imprensa.
As entrevistas eram praticamente mensais. Em alguns anos, chegavam a cerca de dez. Eu preparava e enviava o material para Natal. Costa Júnior e Edson Benigno faziam a edição e publicavam no jornal.
Ao final, foram mais de cem entrevistas.
Uma escola fora da escola
O Zona Sul representou para mim uma oficina permanente de jornalismo. Foi por meio dele que pude praticar a entrevista como gênero, aprender a ouvir pessoas muito diferentes e perceber que toda vida pode conter uma boa história — desde que alguém formule a pergunta adequada e tenha paciência para escutar a resposta.
A entrevista parece uma conversa, mas não é apenas uma conversa. Exige pesquisa, curiosidade, atenção e capacidade de abandonar o roteiro quando surge algo mais importante do que aquilo que estava planejado.
Muitas vezes, a melhor resposta aparece numa frase lateral, quando o entrevistado acredita estar falando de outra coisa. O trabalho do jornalista é perceber essa porta entreaberta e ter coragem de entrar.
O jornal também me permitiu conhecer muita gente. Algumas dessas pessoas já admirava havia anos. Clodo Ferreira, por exemplo, morou em frente à minha casa e era um artista de quem eu era fã desde jovem. Quando surgiu a oportunidade de entrevistá-lo, eu carregava não apenas perguntas, mas uma memória afetiva.
O mesmo ocorreu com muitos outros entrevistados. O arquivo do Zona Sul acabou se tornando um mosaico da cultura potiguar e brasileira, construído sem a pretensão inicial de formar um acervo histórico.
Mas foi isso que aconteceu.
Do avião ao SuperPauta
Depois que o Zona Sul encerrou sua trajetória, passei um período sem publicar entrevistas com a mesma regularidade. Anos mais tarde, quando trabalhava no Ministério da Previdência, surgiu uma conversa que precisava encontrar um destino.
Eu acompanhava o então ministro Garibaldi Alves Filho em suas viagens e conhecia seu humor, sua capacidade de contar histórias e a quantidade de episódios que havia acumulado durante a vida pública. Algumas dessas situações eu próprio havia testemunhado.
Durante uma viagem num avião da Força Aérea Brasileira, comecei a entrevistá-lo. Gravei a conversa no celular enquanto o avião seguia para o destino. Garibaldi contou histórias e causos com a espontaneidade que sempre o caracterizou.Quando voltei, percebi que tinha em mãos um material valioso. Mas onde publicá-lo, se o Zona Sul já não circulava?
A resposta foi criar um espaço novo.
Assim nasceu o SuperPauta.
A entrevista com Garibaldi foi publicada, outras vieram depois e, durante algum tempo, o blog permaneceu sem atualizações frequentes. Agora, aposentado e com mais tempo para recuperar arquivos e desenvolver novos projetos, retomo aquele impulso inicial.
Se antes as viagens pelo Brasil me permitiam alcançar pessoas vivas em diferentes lugares, hoje a pesquisa histórica, a criação literária e a inteligência artificial também me ajudam a imaginar conversas com quem já partiu.
É desse encontro entre jornalismo, memória e imaginação que nasceu a série Encontros Impossíveis. As respostas são recriações literárias, não declarações verdadeiras, mas as perguntas continuam movidas pela mesma curiosidade que me acompanhava nas páginas do Zona Sul.
O jornal continua aberto
O Zona Sul nasceu com oito páginas em preto e branco para servir aos moradores de Ponta Negra e Alagamar. Cresceu, mudou de formato, ganhou cores, alcançou outras comunidades e abriu suas páginas centrais para personagens que talvez não encontrassem aquele espaço em outras publicações.Sua circulação terminou, mas o jornal não desapareceu completamente.
As entrevistas permanecem disponíveis na internet. Algumas precisaram ser recuperadas, reorganizadas e novamente publicadas. Outras ainda guardam o aspecto gráfico e as marcas técnicas de uma época em que colocar um jornal impresso na rede era quase uma aventura.
Preservar esse material não é apenas organizar minha produção. É conservar as vozes de pessoas, lugares e momentos que também ajudam a contar a história cultural do Rio Grande do Norte.
Tudo começou quando Falves Silva voltou ao estande do Senado acompanhado de Terezinha de Jesus. Costa Júnior estava ali. Fez-se uma pergunta, firmou-se um acordo e marcou-se uma entrevista para a manhã seguinte.
Mais de cem conversas depois, continuo fazendo perguntas.
Agora, quando o entrevistado já não pode chegar ao estande, a imaginação vai buscá-lo.
Obs.: As imagens foram recriadas com o uso de recursos de Inteligência Artificial
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Conheça o acervo de entrevistas do jornal O Zona Sul:
Entrevistas, memória, literatura e Encontros Impossíveis:







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