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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Nísia Floresta

 Encontros Impossíveis

 

A voz que antecipou o século

 

Da menina órfã pela violência política à educadora que desafiou o Império, Nísia Floresta discute a condição feminina, a escravidão e o abismo social brasileiro. Com a serenidade de quem viu o futuro antes de todos, a "Brasileira Augusta" analisa as conquistas e os perigos do mundo contemporâneo.

 

“Educai as mulheres! Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados! Governo, que vos dizeis liberal!” — Nísia Floresta

 

 O ambiente não é terreno. Estamos em uma memória suspensa que oscila, como uma miragem febril, entre a sobriedade de uma biblioteca vitoriana em Londres — com estantes de carvalho escuro, cheiro de cera e tinta — e as dunas brancas e cegantes de Papari, no Rio Grande do Norte. Ouve-se, ao longe, um violino executando Norma de Bellini, que às vezes é interrompido pelo som bruto do vento nordestino batendo nas folhas de carnaúba, sugerindo a dualidade de uma alma que nunca coube inteiramente em um só hemisfério. Sentada em uma cadeira de espaldar alto, Nísia Floresta não aparenta a idade com que morreu, mas sim uma atemporalidade majestosa. Veste seda escura, fechada até o pescoço, adornada por um camafeu discreto. Suas mãos, calejadas pela escrita constante, repousam sobre um volume gasto de Direitos das Mulheres. Ela me encara com olhos que já viram o exílio, a peste, a revolução e a morte, mas que ainda guardam o brilho úmido e inquisidor de quem chorou pelo Brasil.

Nesta conversa, a "Brasileira Augusta" despe-se dos mitos para revisitar a menina Dionísia, forjada no sangue da tragédia política de 1817, e a mulher que ousou traduzir e expandir o feminismo europeu para uma sociedade escravocrata. Entre reflexões sobre o escândalo de educar mulheres para a ciência e a defesa solitária dos povos indígenas, ela lança um olhar crítico e materno sobre o século XXI, dissecando fenômenos como o feminicídio e a superficialidade das redes, provando que sua voz, mesmo vinda do além-túmulo, permanece dolorosamente atual.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Clarice Lispector

 Encontros Impossíveis

O mistério atrás da porta

Na penumbra de um Rio de Janeiro atemporal, Clarice fala sobre a guerra na Ucrânia, as cicatrizes do fogo, a recusa ao feminismo de rótulo e a fome de Macabéa.


Sou tão misteriosa que não me entendo” — Clarice Lispector

  

O Rio de Janeiro lá fora insiste em ser solar, barulhento, vivo. Mas aqui, neste apartamento no Leme que parece flutuar entre o passado e o agora, o tempo é uma substância espessa. O ar cheira a cigarro e a um perfume antigo, algo como madeira e flores secas. Há uma tensão silenciosa, como se o ambiente estivesse prestes a quebrar.

Venho de um encontro leve com Fernando Sabino, amigo íntimo desta mulher que agora me encara. Se Sabino era o abraço do Rio, Clarice é o abismo. Ela está sentada na poltrona, protegendo a mão direita — marcada por um incêndio trágico — com um xale sutil. Seus olhos amendoados, levemente felinos, não me convidam; eles me interrogam. Há uma máquina de escrever Olympia sobre a mesa e, ao lado, um maço de cigarros pela metade.

Ela não sorri, mas também não é hostil. É apenas... intensa. Como se estivesse tentando decidir se sou uma visita ou um personagem que ela precisa decifrar. “Eu sou tão misteriosa que não me entendo.” — a frase ecoa antes mesmo de começarmos. Respiro fundo. Entrar no mundo de Clarice Lispector exige coragem. (Roberto Homem)

 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Zila Mamede

 Encontros Impossíveis

Catalogando a Pedra e o Sal

Em uma conversa sobre a pedra do sertão e o sal do mar, a poeta potiguar nascida na Paraíba reflete sobre o rigor da biblioteca, a bênção de Manuel Bandeira e o destino trágico que a uniu à sua própria poesia

“Morro um pouco cada dia, e renasço no que amei.” – Zila Mamede

  

O encontro não se dá numa praia, tampouco numa biblioteca convencional. É um lugar intermediário, com a arquitetura rigorosa e o silêncio que Zila Mamede impunha à Biblioteca Central da UFRN, mas as paredes não são de alvenaria. São estantes infinitas que se dissolvem na névoa de uma maresia densa. O cheiro não é de mofo, mas de sal e papel antigo. O som é o de uma onda longa, quebrando ao longe, e o virar de uma página. Ela está sentada a uma mesa de catalogação, não de madeira, mas de pedra-sabão, lisa como as pedras de Currais Novos. Veste-se com a elegância discreta e funcional dos anos 60. Seus olhos, por trás dos óculos, não são sonhadores; são analíticos. Ela nos olha com a calma de quem passou a vida a classificar o mundo. E, agora, nos classifica.

Nesta conversa, Zila Mamede fala sobre sua infância no Seridó, a descoberta do mar em Natal e a "bênção" de Manuel Bandeira. Ela detalha a tensão entre a bibliotecária rigorosa e a poeta metafísica, o silêncio de 20 anos que antecedeu sua obra-prima, Navegos, e a transformação da sua Natal. No clímax do encontro, ela toma conhecimento do samba-enredo em sua homenagem que a Imperatriz Alecrinense levou à avenida no carnaval potiguar de 1991. Zila também reflete sobre o seu destino final: a poeta da "Canção do Afogado" que foi, tragicamente, chamada de volta pelo oceano. (Roberto Homem)