Encontros Impossíveis
A
orquestra de um homem só
Das
raízes da fome em Alagoa Grande à técnica revolucionária que transformou o
pandeiro em orquestra; os bastidores da relação com Luiz Gonzaga, a dor do
esquecimento e uma crítica afiada à música na era digital.
"Quem toca em cabaré pode tocar em qualquer lugar." – Jackson do Pandeiro
Não estamos em um estúdio
moderno, mas em uma rádio imaginária suspensa em algum lugar entre a feira de
Campina Grande e o cosmos. O ar cheira a fumo de rolo, café fresco e cera de
assoalho. Há uma luz ambarina, morna, vinda de válvulas de amplificadores
antigos. No centro, sentado em um banquinho de madeira, está José Gomes Filho,
o Jackson do Pandeiro. Ele veste
um terno de linho branco impecável, sapatos bicolores que brilham como espelhos
e seu inseparável chapéu de aba curta, levemente inclinado para a esquerda (a
marca da malandragem elegante). Ele segura um pandeiro velho, de couro de
cabra, aquecendo o instrumento com o atrito da própria mão, como quem faz
carinho em um bicho arisco. Seus olhos miúdos e vivos observam tudo com a
astúcia de quem já passou fome e hoje janta a glória.
Neste encontro impossível e exclusivo
– sugerido pelo parceiro potiguar de tantas canções, William Guedes – Jackson
revisita as dores da fome em Alagoa Grande e como elas moldaram seu ritmo
frenético; discute a "engenharia" por trás de sua técnica
revolucionária no pandeiro; relembra a parceria e o amor com Almira Castilho;
avalia sua relação com Luiz Gonzaga e o ostracismo durante a Jovem Guarda; e,
com a sabedoria de quem vê de longe, analisa o cenário musical moderno, do funk
ao autotune, encerrando com uma lição sobre o que é, afinal, ter
"suingue".
