Encontros Impossíveis
O Silêncio da Buzina
Neste encontro impossível, despimos a fantasia do Velho Guerreiro para revelar o Dr. Abelardo: o homem que trocou a medicina pela cura através do riso.
"Quem não se comunica, se trumbica" — Abelardo Barbosa (Chacrinha)
O ambiente não possui paredes definidas; é uma
vastidão nebulosa que lembra os galpões abafados da TV Tupi ou o Teatro Fênix,
mas suspensos no tempo. O chão está coberto por uma camada fina de confete
prateado e serpentinas que parecem nunca perder o brilho. Há um cheiro
persistente no ar: uma mistura de éter hospitalar, talco de camarim, bacalhau
seco e maresia — o cheiro da vida de Abelardo. No centro, iluminado por um foco
de luz âmbar que simula o sol do final de tarde em Pernambuco, repousa uma
poltrona de veludo vermelho, gasta pelo uso, com a madeira dos braços polida
por mãos nervosas. Nela, Abelardo Barbosa nos espera. Ele não veste o saiote de
guerreiro, nem a cartola extravagante, nem carrega o abacaxi de plástico agora.
Está vestido com uma sobriedade que desconcerta: um terno de linho branco,
impecável, lembrando o médico que a família sonhou e que ele quase se tornou.
Mas a essência do "Velho Guerreiro" resiste nos detalhes: uma buzina
de latão repousa em seu colo como um animal de estimação fiel, e seus óculos de
aros grossos e escuros refletem uma luz que não vem de lugar nenhum, escondendo
e revelando olhos que viram o Brasil mudar.
Ele tosse levemente, pigarreia — uma lembrança da
hipocondria e do cigarro que o acompanharam — e me encara com uma seriedade
profunda, quase acadêmica, muito diferente da anarquia que vendia na TV. A voz
é rouca, pausada, pontuada por uma franqueza cortante e uma sabedoria adquirida
na dor. Nesta conversa monumental, atravessamos a poeira de Surubim, o balanço
do navio a caminho do Rio, a filosofia do "palhaço" como agente
social, o amor devoto (e doloroso) ao trabalho e a visão profética sobre a
comunicação na era dos algoritmos. Entre confetes e silêncios profundos,
Chacrinha também reflete sobre a solidão do agreste, o rigor militar por trás
do caos televisivo e o preço doloroso de ter sido o maior comunicador da
história do Brasil.

