Do menino de fronteira ao João Sem Medo, Saldanha revisita o Botafogo, as Feras, a demissão antes do Tri e um futebol que aprendeu a vender tudo, menos a coragem de dizer o que vê.
Entrevista imaginária por Roberto Homem
O cenário
A cabine de rádio parece
suspensa sobre um estádio que não pertence inteiramente a tempo algum. Do lado
de cá do vidro, há uma mesa estreita de madeira, um microfone pesado, dois
fones de ouvido, um bloco de anotações e um quadro tático onde os ímãs perderam
os nomes. Do lado de lá, o gramado muda conforme a luz: por alguns segundos é o
Maracanã de 1957; depois, o mesmo verde se abre na direção do México de 1970;
mais adiante, as arquibancadas assumem a geometria fria de Roma, em 1990.
João Saldanha está de
mangas arregaçadas. Não veste uniforme, não carrega prancheta e não parece
disposto a representar a própria lenda. Segura os fones com uma das mãos e bate
de leve com a outra sobre a mesa, como quem marca o tempo de uma resposta antes
que a pergunta termine. À sua frente, uma lâmpada vermelha acende sem que
ninguém anuncie a entrada no ar.
Lá embaixo não há
jogadores. Há apenas a sombra de uma bola no círculo central e o rumor de uma
multidão que ainda não decidiu se veio assistir a uma partida, a um comício ou
a um acerto de contas.
Saldanha olha para o campo,
depois para mim.
— Pode perguntar. Só não
venha com conversa mole.
A entrevista
SuperPauta: Antes do jornalista, do técnico e do homem que enfrentava
presidentes, quem foi o menino João Saldanha?
João
Saldanha — Foi um menino que aprendeu cedo que o mundo
não vinha arrumado. Nasci em Alegrete, mas minha infância foi de mudança,
fronteira, família metida em política, gente fugindo e recomeçando. Vi adulto
falar baixo por medo de quem estava ouvindo. Isso ensina duas coisas: primeiro,
que o poder gosta de silêncio; segundo, que silêncio demais faz mal à saúde.
Eu não cresci com essa ideia de virar
personagem. Fui vivendo. Uruguai, Curitiba, Rio de Janeiro. Lugar diferente,
sotaque diferente, briga diferente. Quando você passa a infância atravessando
fronteiras, aprende que bandeira nenhuma explica um homem inteiro. Talvez venha
daí essa minha desconfiança de discurso pronto.
SuperPauta: Conta-se que, ainda criança, o senhor transportou munição
durante uma revolta. A coragem nasceu ali?
João
Saldanha — Coragem é palavra que os outros põem depois.
Na hora, você faz o que precisa fazer. Criança não mede o perigo como adulto;
obedece, corre e acha até que aquilo é uma aventura. Depois entende que havia
gente armada, perseguição e morte de verdade.
Nelson Rodrigues me chamou de João Sem Medo.
Ficou bonito, pegou. Mas todo mundo tem medo. A diferença é se o medo manda em
você. Eu tive medo muitas vezes. Só não achava que ele devia escrever minha
coluna, escalar meu time ou escolher minhas opiniões.
SuperPauta: O futebol entrou em sua vida como refúgio ou como
continuação da política por outros meios?
João
Saldanha — Entrou como jogo. E isso já é bastante. O
problema é que o brasileiro não deixa nada ser só uma coisa. Futebol vira
bairro, classe, raça, dinheiro, vaidade, eleição. O campo parece simples porque
tem linha branca e regra. Fora dele é que começa a confusão.
Eu gostava de jogar, de observar e de
discutir. Três vícios que servem tanto para futebol quanto para política. Mas
não faço essa romantização de que cada passe é um manifesto. Às vezes um passe
é só um passe mal dado. E precisa haver alguém com coragem de dizer isso.
SuperPauta: Por que o Botafogo se tornou mais do que um clube para o
senhor?
João
Saldanha — Porque foi onde muita coisa da minha vida se
encontrou. Joguei, fui dirigente, fui técnico e continuei torcedor. O Botafogo
tinha aquela mistura de inteligência, desorganização, grandeza e desastre que
parece resumo do Brasil. Dava para ter o melhor time do mundo e, ao mesmo
tempo, perder a chave do vestiário.
Mas não acredito nessa conversa de destino,
azar, estrela que protege ou persegue. Clube que administra mal, perde. Time
que joga melhor costuma ganhar. Mística é boa para crônica; não pode substituir
diagnóstico. Se você vende até as balizas e depois culpa o sobrenatural, está
querendo enganar o torcedor.
SuperPauta: Em 1957, sem a trajetória convencional de treinador, o
senhor assumiu o Botafogo e foi campeão carioca. O que enxergou naquela equipe?
João
Saldanha — Enxerguei jogador bom. Isso facilita
barbaridade. Didi sabia o jogo antes de a bola chegar. Nilton Santos entendia
espaço como poucos. Garrincha desmontava qualquer teoria porque fazia o
marcador escolher entre duas coisas erradas. E havia um grupo que precisava de
clareza, não de cerimônia.
Eu não cheguei inventando futebol. Organizei
o que existia. Disse a cada um o que esperava, protegi a qualidade dos
jogadores e não compliquei. Treinador que precisa aparecer mais do que o time
já começou perdendo. O título de 1957 não foi milagre meu; foi trabalho e
jogador sabendo jogar.
SuperPauta: Na final, o Botafogo fez 6 a 2 no Fluminense. Um placar
assim confirma uma ideia ou fabrica uma lenda?
João
Saldanha — Confirma que naquele dia um time jogou muito
e o outro não conseguiu impedir. O resto é o pessoal que escreve depois.
Paulinho Valentim fez cinco gols, e aí começam a procurar profecia, estrela,
destino. Não precisa. Houve movimentação, espaço, precisão e um adversário que
foi sendo desarrumado.
O futebol tem isso: o resultado parece
explicar tudo, mas às vezes esconde o jogo. Um 1 a 0 pode ter sido massacre; um
4 a 0 pode ter quatro acidentes. Quem comenta só o placar comenta a ata, não a
partida.
SuperPauta: Garrincha era treinável?
João
Saldanha — Claro que era. Só não era domesticável — e
ainda bem. Treinar Garrincha não significava ensinar a driblar. Era criar
condições para ele receber a bola onde pudesse fazer o estrago e impedir que o
resto do time ficasse olhando, encantado, enquanto o jogo continuava.
Havia nele uma alegria que parecia
irresponsabilidade, mas não era. Garrincha conhecia o corpo do marcador. Sabia
quando o sujeito apoiava o peso numa perna, quando ficava nervoso, quando ia
tentar adivinhar. Ele não driblava só as pernas do marcador; driblava
principalmente as decisões que o adversário tomava para tentar marcá-lo. Se um treinador
tentasse transformar aquilo em esquema rígido, merecia ser demitido.
SuperPauta: E o jornalista nasceu quando o técnico terminou?
João
Saldanha — O jornalista já estava ali. Eu trabalhava com
política antes de me fixar no esporte. Depois do Botafogo, Samuel Wainer me
chamou para fazer esporte também, fui para rádio, jornal, televisão. A vantagem
de ter jogado e treinado era saber quando estavam vendendo mistério onde havia
apenas erro de posicionamento.
Eu procurei falar como as pessoas falam. Não
é fazer pose de popular; é não esconder uma ideia simples atrás de palavra
complicada. Jornalista que usa três voltas para evitar o que viu está
protegendo alguém — às vezes o dirigente, às vezes o anunciante, às vezes a
própria ignorância.
SuperPauta: O senhor dizia que o futebol não tem grandes mistérios.
Hoje ele é cercado por analistas, mapas de calor, dados e termos importados.
Mudou de ideia?
João
Saldanha — Não. Informação ajuda, claro. Se você pode
medir distância, velocidade, ocupação de espaço, ótimo. O problema é
transformar régua em inteligência. O mapa mostra onde o jogador esteve; não
explica sozinho por que esteve, o que enxergou ou qual ordem recebeu.
O futebol continua sendo espaço, tempo,
técnica, condição física e decisão. Deram nomes em inglês para movimentos
antigos e agora fingem que inventaram o jogo. Pode usar computador, o tal do drone,
satélite. Só não me venha dizer que uma seta colorida substitui olhar a
partida.
SuperPauta: Em 1969, João Havelange convidou um de seus críticos para
dirigir a Seleção. O senhor aceitou para provar o quê?
João
Saldanha — Não aceitei para calar crítico nenhum.
Aceitei porque havia um trabalho a fazer e um time possível. Convocar a Seleção
era muito mais simples do que virou depois: os principais jogadores estavam
aqui, a gente via todos, sabia quem estava em forma. Eu defini um grupo,
escolhi os titulares e chamei de Feras porque precisava dar confiança e acabar
com a indecisão.
Também sabia que ia brigar. A Seleção tinha
dirigente, patrocinador, militar, jornalista, cartola e palpiteiro querendo
entrar no vestiário sem suar a camisa. Eu não tinha vocação para porteiro de
interesse alheio.
SuperPauta: Por que anunciar tão cedo os onze titulares das Feras? Não
era entregar o jogo aos adversários?
João
Saldanha — Entregar o jogo é chegar sem time. Eu queria
que os jogadores soubessem que havia uma ideia e responsabilidade. Não ficariam
disputando favor em toda convocação nem dependendo da manchete do dia. Reserva
não era condenado; titular não era dono eterno. Mas o time precisava se
reconhecer.
Treinador inseguro acha que segredo é
estratégia. Esconde escalação, fecha treino, inventa suspense. Depois entra em
campo e ninguém sabe o que fazer. O adversário conhecia nossos jogadores. O que
ele precisava enfrentar era a execução.
SuperPauta: Seis jogos, seis vitórias nas eliminatórias. O que aquelas Feras tinham que a Seleção havia perdido?
João
Saldanha — Tinham definição. E tinham jogadores
extraordinários. Félix, Carlos Alberto, Piazza, Gérson, Jairzinho, Tostão,
Pelé, Rivelino — não era preciso descobrir o fogo. Era preciso fazer aquele
talento conviver sem que um ocupasse o lugar do outro.
SuperPauta: Entre os homens que o senhor observava para a Copa
estava o zagueiro Scala. O que via nele?
João
Saldanha — Via um zagueiro de gala, sem precisar
fazer teatro de valentia. Scala tinha colocação, antecipação, força e
disciplina. Eu vinha acompanhando a situação dele havia meses e queria vê-lo
recuperado. O problema é que chegou à Seleção sem condições físicas e acabou
cortado.
Futebol tem uma crueldade que a memória costuma esconder: às vezes uma Copa inteira cabe num joelho, num tornozelo, num exame médico. Contusão não diminui jogador. Só interrompe uma possibilidade.
SuperPauta: Anos depois, Scala foi para o América de Natal, participou da conquista da Taça Almir e foi campeão potiguar em 1974. O senhor imaginava que um jogador de Seleção criaria raízes tão longe do eixo Rio–São Paulo?
João
Saldanha — Longe para quem olha o Brasil a partir de
duas redações. Natal não estava longe de lugar nenhum; estava fora do costume
dos que pensavam que futebol nacional terminava onde acabava a cobertura deles.
Scala foi jogar, ficou na cidade, trabalhou como técnico e comentarista. Isso não
é desaparecimento. É outra vida no futebol.
Um jogador sério leva conhecimento para onde
vai e recebe conhecimento de volta. O América ganhou um grande zagueiro. Scala
ganhou uma cidade. O erro é imaginar que só existe carreira quando a fotografia
sai no jornal do Rio.
SuperPauta: Pelé disse depois que sua relação com o senhor teve tensões. O senhor chegou a duvidar de que ele devesse ser titular?
João
Saldanha — Duvidar de jogador faz parte do trabalho.
Pelé não deixava de ser Pelé porque o técnico precisava verificar sua condição.
Houve preocupação, exame, discussão, e isso foi transformado numa guerra maior
do que era. Jornal vive de aumentar porta entreaberta até parecer que a casa
caiu.
Pelé era o maior jogador daquele time e sabia
disso. Eu também sabia. Mas técnico que não pode fazer pergunta sobre o melhor
jogador não é técnico; é mestre de cerimônia. Uma coisa é avaliar. Outra, bem
diferente, é não reconhecer a grandeza.
SuperPauta: A frase sobre não escalar ministério e o presidente não
escalar a Seleção atravessou o tempo. Ela foi resposta, provocação ou sentença
de demissão?
João
Saldanha — Foi um limite. Presidente tem ministério,
técnico tem time. Isso parece óbvio, mas o poder se ofende quando encontra uma
porta fechada. A história de Dadá virou símbolo porque cabia numa frase. Dadá
era bom jogador; o problema nunca foi o jogador. Era a ideia de que uma vontade
de cima podia valer mais do que o critério de quem respondia pelo campo.
Se a frase ajudou a me tirar, então a
demissão já estava procurando frase. Governo autoritário não gosta de
comunista, e cartola não gosta de técnico que não se comporta como empregado
agradecido. Havia desgaste, brigas e interesses. Reduzir tudo a uma escalação é
cômodo demais.
SuperPauta: Então seu desligamento foi político? Aproveito para
transmitir a pergunta do jornalista potiguar Bosco Araújo: qual o real motivo
de sua demissão, às vésperas da Copa do Mundo de 1970?
João
Saldanha — Foi política também. Quem disser que foi só
futebol está fingindo que 1970 aconteceu no vácuo. Eu me opunha à ditadura,
tinha história no Partido Comunista e não escondia opinião. Isso pesava. Mas
não vou fabricar martírio: eu também briguei com gente demais, bati de frente
com a comissão, com dirigente, com treinador adversário, com jornalista. Dei
argumento a quem já queria me tirar.
A verdade raramente vem sozinha. Houve pressão
do governo, disputa interna, desgaste técnico e conveniência da CBD. Cada grupo
escolheu depois a versão que o absolvia. Eu fui demitido. O time foi ao México.
O resto virou campeonato de memória.
SuperPauta: Em 1967, depois de levantar suspeitas sobre Manga numa
partida contra o Bangu, o senhor foi armado ao Mourisco e disparou quando ele
apareceu. O episódio entrou para o folclore como valentia. Foi isso?
João
Saldanha — Não. Foi imprudência grave. Nenhum tiro
atingiu Manga, embora a história tenha crescido até aparecer tiro em lugar que
nunca foi acertado. Mas isso não me absolve. Eu expus publicamente um jogador
com uma suspeita que não podia provar e depois levei uma arma para resolver uma
situação que eu mesmo ajudara a incendiar.
Manga sempre negou que tivesse sido comprado,
e eu devia ter respeitado a diferença entre desconfiança e prova. Se havia indício,
era preciso apurar. Se havia ameaça, procurar proteção. Arma não esclarece denúncia;
só acrescenta outra violência. João Sem Medo também podia perder a cabeça — e
naquele dia perdeu.
SuperPauta: Quando Zagallo conduziu o Brasil ao tricampeonato com
muitos jogadores escolhidos pelo senhor, sentiu que lhe tomaram uma obra?
João
Saldanha — Time não é escritura de terreno. Eu
participei da formação, classifiquei a Seleção e deixei uma base. Zagallo
assumiu, fez mudanças, resolveu problemas e foi campeão. O mérito dele existe.
O dos jogadores, mais ainda. Ficar dizendo ‘aquele time era meu’ seria negar o
que aconteceu depois da minha saída.
Agora, também não aceito a limpeza histórica
que faz parecer que o Brasil nasceu pronto no México. Houve eliminatórias,
escolhas, trabalho, conflitos. Eu estava nessa história. Não levantei a taça,
mas não desapareço porque uma fotografia oficial preferiu outro enquadramento.
SuperPauta: O regime militar usou o tricampeonato?
João
Saldanha — Usou, como todo governo tenta usar vitória
popular. A diferença é que uma ditadura dispõe de propaganda, censura e medo
para fabricar unanimidade. O povo tinha direito de comemorar aquele time
extraordinário. O problema é quando querem transformar alegria em atestado de
aprovação política.
Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson e os outros
ganharam a Copa. Governo nenhum fez passe, desarme ou gol. A propaganda pegou
carona. Confundir Seleção com governo é roubar do povo uma festa que era dele.
SuperPauta: O senhor foi militante comunista por décadas. O que o
futebol lhe ensinou que os partidos não ensinam?
João
Saldanha — Que ninguém vence só porque tem a teoria mais
bonita. Precisa entender o terreno, as pessoas e o momento. Partido às vezes se
apaixona pela própria explicação do mundo e esquece de olhar o mundo. Técnico
pode cometer o mesmo erro com esquema.
SuperPauta: E o que a política lhe ensinou sobre futebol?
João
Saldanha — A perguntar quem manda, quem paga e quem
lucra. Quando um dirigente diz que uma decisão foi ‘pelo bem do esporte’, eu
quero ver o contrato. Quando dizem que o calendário não pode mudar, quero saber
quem ganha com ele. Quando tratam jogador como patrimônio, lembro que patrimônio
não tem mãe, filho, joelho nem medo.
O futebol adora dizer que está acima da
política justamente quando faz política por baixo da mesa. Neutralidade, muitas
vezes, é o nome elegante da obediência.
SuperPauta: O Brasil se aproxima de outra eleição presidencial, em outubro de 2026, ainda marcado por polarização, desinformação e desconfiança nas instituições. Como o senhor leria o quadro político de hoje?
João
Saldanha — Começaria recusando a conversa de que eleição
é clássico e o outro lado é inimigo que precisa ser eliminado. Democracia exige
o direito de disputar, fiscalizar, vencer e perder. Quem só aceita urna quando
ganha não quer democracia; quer confirmação. E quem transforma adversário em
traidor prepara o terreno para não precisar convencê-lo.
Eu perguntaria menos quem grita melhor
e mais o que cada candidatura propõe para desigualdade, educação, saúde,
trabalho, clima, segurança e controle do poder. A esquerda que perde a
capacidade de se criticar vira torcida organizada. A direita que trata ditadura
como saudade deixa de ser conservadora e passa a ameaçar a regra do jogo. E o
eleitor precisa desconfiar de vídeo cortado, frase sem origem e mentira
repetida por máquina. Voto não é cheque em branco. É decisão provisória sob
vigilância permanente.
SuperPauta: O senhor defendia uma linguagem popular. Hoje, qualquer
pessoa pode comentar futebol nas redes. Isso democratizou a conversa ou
multiplicou a ignorância?
João
Saldanha — As duas coisas. Tirar o monopólio de meia
dúzia é bom. Há torcedor que vê muito, estuda, lembra, compara e fala melhor do
que profissional acomodado. Mas ter microfone não dá conhecimento. Agora todo
mundo pode dizer besteira em velocidade industrial.
O problema maior é que a opinião virou
mercadoria medida por reação. O sujeito não diz o que pensa; diz o que rende
briga. Antes também havia manchete de escândalo. Hoje o escândalo cabe no
bolso, apita o dia inteiro e paga prêmio para quem grita primeiro. Jornalista
precisa apurar; influenciador também deveria, se quiser ser levado a sério.
SuperPauta: Se assistisse ao futebol de hoje, o que mais o incomodaria:
o VAR, os empresários, as apostas ou a transformação dos clubes em empresas?
João
Saldanha — Eu começaria pela concentração de poder e
dinheiro. VAR é ferramenta; pode corrigir e pode virar desculpa para ninguém
assumir decisão. Empresário pode prestar serviço ou controlar carreira de
menino. Empresa pode organizar clube ou apenas trocar o nome do dono da
bagunça. Aposta é diversão até o instante em que encosta na integridade do
jogo.
Não existe sigla que garanta honestidade. SAF
não é competência por decreto; federação sem lucro não é pureza. Quero saber
quem decide, como presta contas e o que acontece quando dá errado. No futebol
brasileiro, muita modernização é só cartola com apresentação de PowerPoint.
SuperPauta: O excesso de dinheiro melhorou o jogador?
João
Saldanha — Melhorou treinamento, medicina, campo,
alimentação, recuperação. Isso é evidente. E jogador tem direito de ganhar
muito; é ele quem produz o espetáculo e arrisca a carreira curta. Não tenho
saudade de atleta tratado como propriedade e dormindo amontoado em concentração
vagabunda.
O dinheiro piora quando compra todos os
horários, esmaga calendário, tira o torcedor do estádio e transforma menino em
ativo antes de virar adulto. A pergunta não é se há dinheiro demais. É para
onde ele vai e quem fica com a conta.
SuperPauta: O Brasil ainda joga com música, como o senhor gostava de sugerir, ou passou a imitar partituras estrangeiras?
João
Saldanha — O Brasil nunca jogou de um jeito só. Essa
história de essência nacional é bonita, mas simplifica. Tivemos drible, força,
toque, velocidade, defesa, improviso. O que havia era uma formação muito rica
na rua, na várzea, na praia, em campo pequeno, e clubes que trabalhavam com o
jogador daqui.
SuperPauta: O 7 a 1 para a Alemanha, em 2014, foi um acidente de uma
tarde ou o retrato de um problema mais profundo?
João
Saldanha — Sete gols são um acidente no tamanho, não
nas causas. Naquela tarde houve colapso emocional e desorganização tática:
depois do primeiro golpe, o time quis resolver tudo numa corrida e abriu o
campo inteiro. Mas a fragilidade vinha de antes — preparação sem serenidade,
dependência de símbolos, pouca leitura do que estava acontecendo e a crença de
que camisa e torcida corrigiriam o jogo.
O placar virou trauma porque o Brasil
preferiu exorcizar a vergonha a estudar a derrota. Trocou técnico, discurso e
convocação, mas não fez um diagnóstico duradouro. Quando você chama desastre de
fatalidade, protege quem organizou o desastre.
SuperPauta: Na Copa de 2026, o Brasil caiu por 2 a 1 diante da Noruega
nas oitavas de final e completou 24 anos sem o título. O fracasso foi do
treinador, dos jogadores ou de um sistema? Aproveito a deixa para incluir
questionamento do advogado e meu parceiro musical, Ivo Netto: qual o atual
cenário da nossa Seleção, vale a pena ter um treinador italiano?
João Saldanha — Derrota tem responsabilidade de quem estava ali, claro, mas
o treinador e os jogadores são a ponta visível. A Seleção recebe o resultado de
um sistema: calendário desumano, formação desigual, clubes endividados,
dirigentes com mandatos incertos, talentos exportados cedo e uma comissão que
quase sempre começa outro ciclo do zero. Culpar apenas Ancelotti seria fácil —
e a nacionalidade dele não explica passe errado nem projeto ausente.
Sair nas oitavas para a Noruega não
apaga a qualidade do jogador brasileiro. Mostra que qualidade individual não
paga, sozinha, a dívida de organização. Há 24 anos o país espera que uma geração
resolva aquilo que as instituições não querem planejar.
SuperPauta: O que o senhor recomendaria, concretamente, para resgatar o
futebol brasileiro?
João Saldanha — Primeiro, governança transparente na CBF e nas federações:
contrato aberto, critério público e responsabilidade por resultado. Segundo,
calendário que permita treinar e recuperar, em vez de tratar atleta como peça
de reposição. Terceiro, formação de base que eduque jogador e treinador,
proteja o menino do comércio precoce e preserve rua, várzea, escola e clubes
regionais como lugares de descoberta.
SuperPauta: Num futebol de entrevistas treinadas, assessorias e
respostas iguais, ainda há lugar para um João Sem Medo?
João
Saldanha — Lugar há. Emprego talvez seja mais difícil.
Clube e emissora gostam de personalidade até a personalidade discordar do
patrocinador. Depois chamam de ‘problema de relacionamento’.
Mas também não basta ser grosseiro e dizer
que é autenticidade. Falar sem medo exige saber do que está falando e aceitar
consequência. A franqueza sem responsabilidade é só vaidade. Eu errei muito,
fui injusto algumas vezes, exagerei. Não quero virar licença para qualquer
sujeito mal-educado se achar corajoso.
SuperPauta: O que é mais perigoso para o jornalismo: a censura visível ou a dependência que ninguém admite?
João
Saldanha — A censura visível pelo menos mostra o
inimigo. Você sabe que há um carimbo, um telefonema, uma ameaça. A dependência
disfarçada entra na pauta, no salário, na amizade com fonte, no medo de perder
acesso. O jornalista começa a se censurar e ainda chama isso de bom senso.
Independência absoluta não existe, mas
conflito precisa ser reconhecido. Se a emissora compra campeonato, o
comentarista tem obrigação redobrada de não virar vendedor do produto. Se o
clube oferece exclusividade em troca de silêncio, a exclusividade custa caro
demais.
SuperPauta: O senhor morreu em Roma enquanto cobria a Copa de 1990. Por que continuar trabalhando quando o corpo já pedia descanso?
João
Saldanha — Porque eu era jornalista. E porque gente
teimosa sempre acha que o corpo é um colega alarmista. Eu estava doente, sabia
que havia risco, mas Copa do Mundo era parte da minha vida e eu queria estar
ali. Não recomendo a ninguém transformar imprudência em prova de amor ao
ofício.
Talvez eu quisesse ver mais um torneio,
comparar mais uma geração, mandar mais uma crônica. O jornalista tem essa
ilusão de que a próxima partida pode explicar as anteriores. Não explica. Mas a
gente vai assim mesmo.
SuperPauta: Em 1972, numa passagem por Natal, o senhor foi entrevistado pela Rádio Cabugi e depois escreveu a crônica ‘As praias de Natal’. O que daquela visita teria permanecido na memória?
João
Saldanha — Nas primeiras vezes eu tinha ido como muita
gente do futebol vai a uma cidade: aeroporto, hotel, campo e volta. Isso não é
conhecer lugar nenhum. Em 1972, pude olhar Natal fora do itinerário automático.
Vi o estádio, o trabalho do rádio, a paisagem e praias que não precisavam de
propaganda.
Posso ter confundido nome de praia —
cronista também erra escalação geográfica —, mas não confundi a beleza. Pirangi
ficou comigo, assim como a impressão de uma cidade em que o futebol conversava
com o resto da vida. Talvez por isso faça sentido que Scala tenha encontrado
ali não apenas o fim de uma carreira, mas continuidade: clube, banco, microfone
e memória.
SuperPauta: Se pudesse voltar à cabine para comentar uma única partida,
qual escolheria?
João
Saldanha — Uma que eu ainda não conhecesse o resultado.
Rever jogo histórico é bom para estudar, mas a vida do futebol está na
incerteza. Eu escolheria uma final com estádio cheio, times bem treinados,
árbitro honesto e ninguém telefonando para escalar jogador. Já seria um
acontecimento.
E comentaria pouco. A imagem deve respirar.
Quando o jogo é bom, o comentarista precisa ter a humildade de não disputar a
bola.
SuperPauta: Depois de tantas versões, quem foi João Saldanha: técnico,
jornalista, militante ou personagem?
João
Saldanha — Foi um homem metido em muita coisa e que não
soube ficar quieto. Técnico por alguns anos, jornalista por quase toda a vida,
militante por convicção, personagem por obra dos outros. Não fui sempre
coerente, nem sempre justo, nem sempre prudente. Mas tentei não fingir
neutralidade quando havia interesse em campo.
Se quiser resumir, diga que eu gostava de
jogo aberto. No futebol, na imprensa e na política. Jogo escondido favorece
quem já manda.
SuperPauta: Os leitores escolheram o senhor para ocupar esta cadeira. Que pergunta deixaria para quem vier depois?
João
Saldanha — Eu perguntaria: ‘Em que momento você percebeu
que estavam tentando usar seu nome para dizer o contrário do que você
acreditava?’ Todo personagem público passa por isso. Depois de morto, então,
fica ainda mais fácil: cortam frase, limpam contradição, inventam santidade.
E faria outra, mais curta: ‘Você deixou?’
Porque poder tenta usar todo mundo. A parte que cabe a cada um é decidir quanto
custa dizer não.
SuperPauta: Quando a luz vermelha desta cabine apagar, o que o senhor
gostaria que permanecesse no ar?
João
Saldanha — A desconfiança. Não de tudo, porque isso vira
cinismo. Desconfiança de unanimidade fabricada, de dirigente indispensável, de
esquema infalível, de estatística que encerra discussão, de patriota que
confunde país com governo.
E que permaneça uma regra simples: olhe o jogo. Parece pouco, mas serve para quase tudo. Olhe quem ocupa o espaço, quem recebe a bola, quem corre sem aparecer, quem apita, quem paga e quem está proibido de falar. Depois, diga o que viu. Sem conversa mole.
Depois do apito
A lâmpada vermelha se
apaga. Saldanha põe os fones sobre a mesa e torna a olhar para o campo vazio.
No quadro tático, os ímãs começam a se mover sem mãos: primeiro formam as Feras
de 1969; depois se dispersam, como jogadores chamados por clubes, empresários,
governos e memórias concorrentes.
Lá fora, o estádio continua
cheio de um rumor sem rosto. João Saldanha se levanta, ajeita as mangas e
aponta para a cabine.
— Não esqueça de desligar o
microfone. Microfone aberto derruba mais gente do que centroavante.
Ele sorri pela primeira
vez. Quando atravessa a porta, o gramado deixa de ser Maracanã, México ou Roma.
Volta a ser apenas um campo esperando que alguém tenha coragem de olhar o jogo
antes de explicar o resultado.
Esta é uma entrevista imaginária, construída a partir da trajetória pública, das ideias e do modo de expressão de João Saldanha. As respostas são recriação literária e não devem ser apresentadas como declarações documentais do entrevistado. A frase “Nem eu escalo ministério e nem o presidente escala a Seleção” é historicamente atribuída a Saldanha e amplamente registrada na imprensa.









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