terça-feira, 1 de setembro de 2026

Encontros Impossíveis: João Saldanha


 Do menino de fronteira ao João Sem Medo, Saldanha revisita o Botafogo, as Feras, a demissão antes do Tri e um futebol que aprendeu a vender tudo, menos a coragem de dizer o que vê.

Entrevista imaginária por Roberto Homem

O cenário

A cabine de rádio parece suspensa sobre um estádio que não pertence inteiramente a tempo algum. Do lado de cá do vidro, há uma mesa estreita de madeira, um microfone pesado, dois fones de ouvido, um bloco de anotações e um quadro tático onde os ímãs perderam os nomes. Do lado de lá, o gramado muda conforme a luz: por alguns segundos é o Maracanã de 1957; depois, o mesmo verde se abre na direção do México de 1970; mais adiante, as arquibancadas assumem a geometria fria de Roma, em 1990.

João Saldanha está de mangas arregaçadas. Não veste uniforme, não carrega prancheta e não parece disposto a representar a própria lenda. Segura os fones com uma das mãos e bate de leve com a outra sobre a mesa, como quem marca o tempo de uma resposta antes que a pergunta termine. À sua frente, uma lâmpada vermelha acende sem que ninguém anuncie a entrada no ar.

Lá embaixo não há jogadores. Há apenas a sombra de uma bola no círculo central e o rumor de uma multidão que ainda não decidiu se veio assistir a uma partida, a um comício ou a um acerto de contas.

Saldanha olha para o campo, depois para mim.

— Pode perguntar. Só não venha com conversa mole.


A entrevista

 

SuperPauta: Antes do jornalista, do técnico e do homem que enfrentava presidentes, quem foi o menino João Saldanha?

João Saldanha — Foi um menino que aprendeu cedo que o mundo não vinha arrumado. Nasci em Alegrete, mas minha infância foi de mudança, fronteira, família metida em política, gente fugindo e recomeçando. Vi adulto falar baixo por medo de quem estava ouvindo. Isso ensina duas coisas: primeiro, que o poder gosta de silêncio; segundo, que silêncio demais faz mal à saúde.

Eu não cresci com essa ideia de virar personagem. Fui vivendo. Uruguai, Curitiba, Rio de Janeiro. Lugar diferente, sotaque diferente, briga diferente. Quando você passa a infância atravessando fronteiras, aprende que bandeira nenhuma explica um homem inteiro. Talvez venha daí essa minha desconfiança de discurso pronto.

 

SuperPauta: Conta-se que, ainda criança, o senhor transportou munição durante uma revolta. A coragem nasceu ali?

João Saldanha — Coragem é palavra que os outros põem depois. Na hora, você faz o que precisa fazer. Criança não mede o perigo como adulto; obedece, corre e acha até que aquilo é uma aventura. Depois entende que havia gente armada, perseguição e morte de verdade.

Nelson Rodrigues me chamou de João Sem Medo. Ficou bonito, pegou. Mas todo mundo tem medo. A diferença é se o medo manda em você. Eu tive medo muitas vezes. Só não achava que ele devia escrever minha coluna, escalar meu time ou escolher minhas opiniões.

 

SuperPauta: O futebol entrou em sua vida como refúgio ou como continuação da política por outros meios?

João Saldanha — Entrou como jogo. E isso já é bastante. O problema é que o brasileiro não deixa nada ser só uma coisa. Futebol vira bairro, classe, raça, dinheiro, vaidade, eleição. O campo parece simples porque tem linha branca e regra. Fora dele é que começa a confusão.

Eu gostava de jogar, de observar e de discutir. Três vícios que servem tanto para futebol quanto para política. Mas não faço essa romantização de que cada passe é um manifesto. Às vezes um passe é só um passe mal dado. E precisa haver alguém com coragem de dizer isso.


SuperPauta: Por que o Botafogo se tornou mais do que um clube para o senhor?

João Saldanha — Porque foi onde muita coisa da minha vida se encontrou. Joguei, fui dirigente, fui técnico e continuei torcedor. O Botafogo tinha aquela mistura de inteligência, desorganização, grandeza e desastre que parece resumo do Brasil. Dava para ter o melhor time do mundo e, ao mesmo tempo, perder a chave do vestiário.

Mas não acredito nessa conversa de destino, azar, estrela que protege ou persegue. Clube que administra mal, perde. Time que joga melhor costuma ganhar. Mística é boa para crônica; não pode substituir diagnóstico. Se você vende até as balizas e depois culpa o sobrenatural, está querendo enganar o torcedor.

 

SuperPauta: Em 1957, sem a trajetória convencional de treinador, o senhor assumiu o Botafogo e foi campeão carioca. O que enxergou naquela equipe?

João Saldanha — Enxerguei jogador bom. Isso facilita barbaridade. Didi sabia o jogo antes de a bola chegar. Nilton Santos entendia espaço como poucos. Garrincha desmontava qualquer teoria porque fazia o marcador escolher entre duas coisas erradas. E havia um grupo que precisava de clareza, não de cerimônia.

Eu não cheguei inventando futebol. Organizei o que existia. Disse a cada um o que esperava, protegi a qualidade dos jogadores e não compliquei. Treinador que precisa aparecer mais do que o time já começou perdendo. O título de 1957 não foi milagre meu; foi trabalho e jogador sabendo jogar.

 

SuperPauta: Na final, o Botafogo fez 6 a 2 no Fluminense. Um placar assim confirma uma ideia ou fabrica uma lenda?

João Saldanha — Confirma que naquele dia um time jogou muito e o outro não conseguiu impedir. O resto é o pessoal que escreve depois. Paulinho Valentim fez cinco gols, e aí começam a procurar profecia, estrela, destino. Não precisa. Houve movimentação, espaço, precisão e um adversário que foi sendo desarrumado.

O futebol tem isso: o resultado parece explicar tudo, mas às vezes esconde o jogo. Um 1 a 0 pode ter sido massacre; um 4 a 0 pode ter quatro acidentes. Quem comenta só o placar comenta a ata, não a partida.

 

SuperPauta: Garrincha era treinável?

João Saldanha — Claro que era. Só não era domesticável — e ainda bem. Treinar Garrincha não significava ensinar a driblar. Era criar condições para ele receber a bola onde pudesse fazer o estrago e impedir que o resto do time ficasse olhando, encantado, enquanto o jogo continuava.

Havia nele uma alegria que parecia irresponsabilidade, mas não era. Garrincha conhecia o corpo do marcador. Sabia quando o sujeito apoiava o peso numa perna, quando ficava nervoso, quando ia tentar adivinhar. Ele não driblava só as pernas do marcador; driblava principalmente as decisões que o adversário tomava para tentar marcá-lo. Se um treinador tentasse transformar aquilo em esquema rígido, merecia ser demitido.



SuperPauta: E o jornalista nasceu quando o técnico terminou?

João Saldanha — O jornalista já estava ali. Eu trabalhava com política antes de me fixar no esporte. Depois do Botafogo, Samuel Wainer me chamou para fazer esporte também, fui para rádio, jornal, televisão. A vantagem de ter jogado e treinado era saber quando estavam vendendo mistério onde havia apenas erro de posicionamento.

Eu procurei falar como as pessoas falam. Não é fazer pose de popular; é não esconder uma ideia simples atrás de palavra complicada. Jornalista que usa três voltas para evitar o que viu está protegendo alguém — às vezes o dirigente, às vezes o anunciante, às vezes a própria ignorância.

 

SuperPauta: O senhor dizia que o futebol não tem grandes mistérios. Hoje ele é cercado por analistas, mapas de calor, dados e termos importados. Mudou de ideia?

João Saldanha — Não. Informação ajuda, claro. Se você pode medir distância, velocidade, ocupação de espaço, ótimo. O problema é transformar régua em inteligência. O mapa mostra onde o jogador esteve; não explica sozinho por que esteve, o que enxergou ou qual ordem recebeu.

O futebol continua sendo espaço, tempo, técnica, condição física e decisão. Deram nomes em inglês para movimentos antigos e agora fingem que inventaram o jogo. Pode usar computador, o tal do drone, satélite. Só não me venha dizer que uma seta colorida substitui olhar a partida.

 

SuperPauta: Em 1969, João Havelange convidou um de seus críticos para dirigir a Seleção. O senhor aceitou para provar o quê?

João Saldanha — Não aceitei para calar crítico nenhum. Aceitei porque havia um trabalho a fazer e um time possível. Convocar a Seleção era muito mais simples do que virou depois: os principais jogadores estavam aqui, a gente via todos, sabia quem estava em forma. Eu defini um grupo, escolhi os titulares e chamei de Feras porque precisava dar confiança e acabar com a indecisão.

Também sabia que ia brigar. A Seleção tinha dirigente, patrocinador, militar, jornalista, cartola e palpiteiro querendo entrar no vestiário sem suar a camisa. Eu não tinha vocação para porteiro de interesse alheio.

 

SuperPauta: Por que anunciar tão cedo os onze titulares das Feras? Não era entregar o jogo aos adversários?

João Saldanha — Entregar o jogo é chegar sem time. Eu queria que os jogadores soubessem que havia uma ideia e responsabilidade. Não ficariam disputando favor em toda convocação nem dependendo da manchete do dia. Reserva não era condenado; titular não era dono eterno. Mas o time precisava se reconhecer.

Treinador inseguro acha que segredo é estratégia. Esconde escalação, fecha treino, inventa suspense. Depois entra em campo e ninguém sabe o que fazer. O adversário conhecia nossos jogadores. O que ele precisava enfrentar era a execução.

SuperPauta: Seis jogos, seis vitórias nas eliminatórias. O que aquelas Feras tinham que a Seleção havia perdido?

João Saldanha — Tinham definição. E tinham jogadores extraordinários. Félix, Carlos Alberto, Piazza, Gérson, Jairzinho, Tostão, Pelé, Rivelino — não era preciso descobrir o fogo. Era preciso fazer aquele talento conviver sem que um ocupasse o lugar do outro.


O time atacava porque sabia recuperar a bola e porque os homens de frente entendiam movimentos complementares. Não era botar cinco camisas dez e pedir inspiração. Havia trabalho. Quando dá certo, chamam de arte; quando dá errado, dizem que faltou esquema. Futebol bom é organização que deixa o talento respirar.



SuperPauta: Entre os homens que o senhor observava para a Copa estava o zagueiro Scala. O que via nele?

João Saldanha — Via um zagueiro de gala, sem precisar fazer teatro de valentia. Scala tinha colocação, antecipação, força e disciplina. Eu vinha acompanhando a situação dele havia meses e queria vê-lo recuperado. O problema é que chegou à Seleção sem condições físicas e acabou cortado.

Futebol tem uma crueldade que a memória costuma esconder: às vezes uma Copa inteira cabe num joelho, num tornozelo, num exame médico. Contusão não diminui jogador. Só interrompe uma possibilidade.

SuperPauta: Anos depois, Scala foi para o América de Natal, participou da conquista da Taça Almir e foi campeão potiguar em 1974. O senhor imaginava que um jogador de Seleção criaria raízes tão longe do eixo Rio–São Paulo?

João Saldanha — Longe para quem olha o Brasil a partir de duas redações. Natal não estava longe de lugar nenhum; estava fora do costume dos que pensavam que futebol nacional terminava onde acabava a cobertura deles. Scala foi jogar, ficou na cidade, trabalhou como técnico e comentarista. Isso não é desaparecimento. É outra vida no futebol.

Um jogador sério leva conhecimento para onde vai e recebe conhecimento de volta. O América ganhou um grande zagueiro. Scala ganhou uma cidade. O erro é imaginar que só existe carreira quando a fotografia sai no jornal do Rio.

SuperPauta: Pelé disse depois que sua relação com o senhor teve tensões. O senhor chegou a duvidar de que ele devesse ser titular?

João Saldanha — Duvidar de jogador faz parte do trabalho. Pelé não deixava de ser Pelé porque o técnico precisava verificar sua condição. Houve preocupação, exame, discussão, e isso foi transformado numa guerra maior do que era. Jornal vive de aumentar porta entreaberta até parecer que a casa caiu.

Pelé era o maior jogador daquele time e sabia disso. Eu também sabia. Mas técnico que não pode fazer pergunta sobre o melhor jogador não é técnico; é mestre de cerimônia. Uma coisa é avaliar. Outra, bem diferente, é não reconhecer a grandeza.

 

SuperPauta: A frase sobre não escalar ministério e o presidente não escalar a Seleção atravessou o tempo. Ela foi resposta, provocação ou sentença de demissão?

João Saldanha — Foi um limite. Presidente tem ministério, técnico tem time. Isso parece óbvio, mas o poder se ofende quando encontra uma porta fechada. A história de Dadá virou símbolo porque cabia numa frase. Dadá era bom jogador; o problema nunca foi o jogador. Era a ideia de que uma vontade de cima podia valer mais do que o critério de quem respondia pelo campo.

Se a frase ajudou a me tirar, então a demissão já estava procurando frase. Governo autoritário não gosta de comunista, e cartola não gosta de técnico que não se comporta como empregado agradecido. Havia desgaste, brigas e interesses. Reduzir tudo a uma escalação é cômodo demais.

 

SuperPauta: Então seu desligamento foi político? Aproveito para transmitir a pergunta do jornalista potiguar Bosco Araújo: qual o real motivo de sua demissão, às vésperas da Copa do Mundo de 1970?

João Saldanha — Foi política também. Quem disser que foi só futebol está fingindo que 1970 aconteceu no vácuo. Eu me opunha à ditadura, tinha história no Partido Comunista e não escondia opinião. Isso pesava. Mas não vou fabricar martírio: eu também briguei com gente demais, bati de frente com a comissão, com dirigente, com treinador adversário, com jornalista. Dei argumento a quem já queria me tirar.

A verdade raramente vem sozinha. Houve pressão do governo, disputa interna, desgaste técnico e conveniência da CBD. Cada grupo escolheu depois a versão que o absolvia. Eu fui demitido. O time foi ao México. O resto virou campeonato de memória.


SuperPauta: Em 1967, depois de levantar suspeitas sobre Manga numa partida contra o Bangu, o senhor foi armado ao Mourisco e disparou quando ele apareceu. O episódio entrou para o folclore como valentia. Foi isso?

João Saldanha — Não. Foi imprudência grave. Nenhum tiro atingiu Manga, embora a história tenha crescido até aparecer tiro em lugar que nunca foi acertado. Mas isso não me absolve. Eu expus publicamente um jogador com uma suspeita que não podia provar e depois levei uma arma para resolver uma situação que eu mesmo ajudara a incendiar.

Manga sempre negou que tivesse sido comprado, e eu devia ter respeitado a diferença entre desconfiança e prova. Se havia indício, era preciso apurar. Se havia ameaça, procurar proteção. Arma não esclarece denúncia; só acrescenta outra violência. João Sem Medo também podia perder a cabeça — e naquele dia perdeu.

 

SuperPauta: Quando Zagallo conduziu o Brasil ao tricampeonato com muitos jogadores escolhidos pelo senhor, sentiu que lhe tomaram uma obra?

João Saldanha — Time não é escritura de terreno. Eu participei da formação, classifiquei a Seleção e deixei uma base. Zagallo assumiu, fez mudanças, resolveu problemas e foi campeão. O mérito dele existe. O dos jogadores, mais ainda. Ficar dizendo ‘aquele time era meu’ seria negar o que aconteceu depois da minha saída.

Agora, também não aceito a limpeza histórica que faz parecer que o Brasil nasceu pronto no México. Houve eliminatórias, escolhas, trabalho, conflitos. Eu estava nessa história. Não levantei a taça, mas não desapareço porque uma fotografia oficial preferiu outro enquadramento.

SuperPauta: O regime militar usou o tricampeonato?

João Saldanha — Usou, como todo governo tenta usar vitória popular. A diferença é que uma ditadura dispõe de propaganda, censura e medo para fabricar unanimidade. O povo tinha direito de comemorar aquele time extraordinário. O problema é quando querem transformar alegria em atestado de aprovação política.

Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson e os outros ganharam a Copa. Governo nenhum fez passe, desarme ou gol. A propaganda pegou carona. Confundir Seleção com governo é roubar do povo uma festa que era dele.

 

SuperPauta: O senhor foi militante comunista por décadas. O que o futebol lhe ensinou que os partidos não ensinam?

João Saldanha — Que ninguém vence só porque tem a teoria mais bonita. Precisa entender o terreno, as pessoas e o momento. Partido às vezes se apaixona pela própria explicação do mundo e esquece de olhar o mundo. Técnico pode cometer o mesmo erro com esquema.

Também aprendi que coletivo não significa apagar indivíduo. Um grande time organiza diferenças. Garrincha não precisava virar Didi, nem Didi virar Garrincha. Política que exige seres humanos idênticos acaba jogando sem gente de verdade.

SuperPauta: E o que a política lhe ensinou sobre futebol?

João Saldanha — A perguntar quem manda, quem paga e quem lucra. Quando um dirigente diz que uma decisão foi ‘pelo bem do esporte’, eu quero ver o contrato. Quando dizem que o calendário não pode mudar, quero saber quem ganha com ele. Quando tratam jogador como patrimônio, lembro que patrimônio não tem mãe, filho, joelho nem medo.

O futebol adora dizer que está acima da política justamente quando faz política por baixo da mesa. Neutralidade, muitas vezes, é o nome elegante da obediência.

SuperPauta: O Brasil se aproxima de outra eleição presidencial, em outubro de 2026, ainda marcado por polarização, desinformação e desconfiança nas instituições. Como o senhor leria o quadro político de hoje?

João Saldanha — Começaria recusando a conversa de que eleição é clássico e o outro lado é inimigo que precisa ser eliminado. Democracia exige o direito de disputar, fiscalizar, vencer e perder. Quem só aceita urna quando ganha não quer democracia; quer confirmação. E quem transforma adversário em traidor prepara o terreno para não precisar convencê-lo.

Eu perguntaria menos quem grita melhor e mais o que cada candidatura propõe para desigualdade, educação, saúde, trabalho, clima, segurança e controle do poder. A esquerda que perde a capacidade de se criticar vira torcida organizada. A direita que trata ditadura como saudade deixa de ser conservadora e passa a ameaçar a regra do jogo. E o eleitor precisa desconfiar de vídeo cortado, frase sem origem e mentira repetida por máquina. Voto não é cheque em branco. É decisão provisória sob vigilância permanente.

 

SuperPauta: O senhor defendia uma linguagem popular. Hoje, qualquer pessoa pode comentar futebol nas redes. Isso democratizou a conversa ou multiplicou a ignorância?

João Saldanha — As duas coisas. Tirar o monopólio de meia dúzia é bom. Há torcedor que vê muito, estuda, lembra, compara e fala melhor do que profissional acomodado. Mas ter microfone não dá conhecimento. Agora todo mundo pode dizer besteira em velocidade industrial.

O problema maior é que a opinião virou mercadoria medida por reação. O sujeito não diz o que pensa; diz o que rende briga. Antes também havia manchete de escândalo. Hoje o escândalo cabe no bolso, apita o dia inteiro e paga prêmio para quem grita primeiro. Jornalista precisa apurar; influenciador também deveria, se quiser ser levado a sério.

 

SuperPauta: Se assistisse ao futebol de hoje, o que mais o incomodaria: o VAR, os empresários, as apostas ou a transformação dos clubes em empresas?

João Saldanha — Eu começaria pela concentração de poder e dinheiro. VAR é ferramenta; pode corrigir e pode virar desculpa para ninguém assumir decisão. Empresário pode prestar serviço ou controlar carreira de menino. Empresa pode organizar clube ou apenas trocar o nome do dono da bagunça. Aposta é diversão até o instante em que encosta na integridade do jogo.

Não existe sigla que garanta honestidade. SAF não é competência por decreto; federação sem lucro não é pureza. Quero saber quem decide, como presta contas e o que acontece quando dá errado. No futebol brasileiro, muita modernização é só cartola com apresentação de PowerPoint.

SuperPauta: O excesso de dinheiro melhorou o jogador?

João Saldanha — Melhorou treinamento, medicina, campo, alimentação, recuperação. Isso é evidente. E jogador tem direito de ganhar muito; é ele quem produz o espetáculo e arrisca a carreira curta. Não tenho saudade de atleta tratado como propriedade e dormindo amontoado em concentração vagabunda.

O dinheiro piora quando compra todos os horários, esmaga calendário, tira o torcedor do estádio e transforma menino em ativo antes de virar adulto. A pergunta não é se há dinheiro demais. É para onde ele vai e quem fica com a conta.

SuperPauta: O Brasil ainda joga com música, como o senhor gostava de sugerir, ou passou a imitar partituras estrangeiras?

João Saldanha — O Brasil nunca jogou de um jeito só. Essa história de essência nacional é bonita, mas simplifica. Tivemos drible, força, toque, velocidade, defesa, improviso. O que havia era uma formação muito rica na rua, na várzea, na praia, em campo pequeno, e clubes que trabalhavam com o jogador daqui.

Hoje se copia vocabulário estrangeiro e se vende menino cedo. Copiar não é aprender. Você pode estudar Guardiola, Klopp ou qualquer outro sem obrigar um ponta brasileiro a pedir desculpa por driblar. Música boa não ignora técnica; técnica é o que permite improvisar sem virar bagunça.

SuperPauta: O 7 a 1 para a Alemanha, em 2014, foi um acidente de uma tarde ou o retrato de um problema mais profundo?

João Saldanha — Sete gols são um acidente no tamanho, não nas causas. Naquela tarde houve colapso emocional e desorganização tática: depois do primeiro golpe, o time quis resolver tudo numa corrida e abriu o campo inteiro. Mas a fragilidade vinha de antes — preparação sem serenidade, dependência de símbolos, pouca leitura do que estava acontecendo e a crença de que camisa e torcida corrigiriam o jogo.

O placar virou trauma porque o Brasil preferiu exorcizar a vergonha a estudar a derrota. Trocou técnico, discurso e convocação, mas não fez um diagnóstico duradouro. Quando você chama desastre de fatalidade, protege quem organizou o desastre.


SuperPauta: Na Copa de 2026, o Brasil caiu por 2 a 1 diante da Noruega nas oitavas de final e completou 24 anos sem o título. O fracasso foi do treinador, dos jogadores ou de um sistema? Aproveito a deixa para incluir questionamento do advogado e meu parceiro musical, Ivo Netto: qual o atual cenário da nossa Seleção, vale a pena ter um treinador italiano?


João Saldanha Derrota tem responsabilidade de quem estava ali, claro, mas o treinador e os jogadores são a ponta visível. A Seleção recebe o resultado de um sistema: calendário desumano, formação desigual, clubes endividados, dirigentes com mandatos incertos, talentos exportados cedo e uma comissão que quase sempre começa outro ciclo do zero. Culpar apenas Ancelotti seria fácil — e a nacionalidade dele não explica passe errado nem projeto ausente.

Sair nas oitavas para a Noruega não apaga a qualidade do jogador brasileiro. Mostra que qualidade individual não paga, sozinha, a dívida de organização. Há 24 anos o país espera que uma geração resolva aquilo que as instituições não querem planejar.

 

SuperPauta: O que o senhor recomendaria, concretamente, para resgatar o futebol brasileiro?


João Saldanha Primeiro, governança transparente na CBF e nas federações: contrato aberto, critério público e responsabilidade por resultado. Segundo, calendário que permita treinar e recuperar, em vez de tratar atleta como peça de reposição. Terceiro, formação de base que eduque jogador e treinador, proteja o menino do comércio precoce e preserve rua, várzea, escola e clubes regionais como lugares de descoberta.

Depois, uma ideia nacional de formação — não uma receita única de jogo — capaz de acompanhar quem atua aqui e quem sai cedo. Dados e ciência a serviço do olhar, não no lugar dele. Comissão técnica com tempo, autoridade e cobrança. Campeonato doméstico valorizado e Brasil inteiro observado, inclusive o futebol que o eixo costuma ignorar. O resgate não virá de procurar outro Pelé nem de contratar um salvador. Virá de fazer o trabalho comum com competência incomum.


SuperPauta: Num futebol de entrevistas treinadas, assessorias e respostas iguais, ainda há lugar para um João Sem Medo?

João Saldanha — Lugar há. Emprego talvez seja mais difícil. Clube e emissora gostam de personalidade até a personalidade discordar do patrocinador. Depois chamam de ‘problema de relacionamento’.

Mas também não basta ser grosseiro e dizer que é autenticidade. Falar sem medo exige saber do que está falando e aceitar consequência. A franqueza sem responsabilidade é só vaidade. Eu errei muito, fui injusto algumas vezes, exagerei. Não quero virar licença para qualquer sujeito mal-educado se achar corajoso.

SuperPauta: O que é mais perigoso para o jornalismo: a censura visível ou a dependência que ninguém admite?

João Saldanha — A censura visível pelo menos mostra o inimigo. Você sabe que há um carimbo, um telefonema, uma ameaça. A dependência disfarçada entra na pauta, no salário, na amizade com fonte, no medo de perder acesso. O jornalista começa a se censurar e ainda chama isso de bom senso.

Independência absoluta não existe, mas conflito precisa ser reconhecido. Se a emissora compra campeonato, o comentarista tem obrigação redobrada de não virar vendedor do produto. Se o clube oferece exclusividade em troca de silêncio, a exclusividade custa caro demais.

SuperPauta: O senhor morreu em Roma enquanto cobria a Copa de 1990. Por que continuar trabalhando quando o corpo já pedia descanso?

João Saldanha — Porque eu era jornalista. E porque gente teimosa sempre acha que o corpo é um colega alarmista. Eu estava doente, sabia que havia risco, mas Copa do Mundo era parte da minha vida e eu queria estar ali. Não recomendo a ninguém transformar imprudência em prova de amor ao ofício.

Talvez eu quisesse ver mais um torneio, comparar mais uma geração, mandar mais uma crônica. O jornalista tem essa ilusão de que a próxima partida pode explicar as anteriores. Não explica. Mas a gente vai assim mesmo.

SuperPauta: Em 1972, numa passagem por Natal, o senhor foi entrevistado pela Rádio Cabugi e depois escreveu a crônica As praias de Natal. O que daquela visita teria permanecido na memória? 

João Saldanha — Nas primeiras vezes eu tinha ido como muita gente do futebol vai a uma cidade: aeroporto, hotel, campo e volta. Isso não é conhecer lugar nenhum. Em 1972, pude olhar Natal fora do itinerário automático. Vi o estádio, o trabalho do rádio, a paisagem e praias que não precisavam de propaganda.


Posso ter confundido nome de praia — cronista também erra escalação geográfica —, mas não confundi a beleza. Pirangi ficou comigo, assim como a impressão de uma cidade em que o futebol conversava com o resto da vida. Talvez por isso faça sentido que Scala tenha encontrado ali não apenas o fim de uma carreira, mas continuidade: clube, banco, microfone e memória.


SuperPauta: Se pudesse voltar à cabine para comentar uma única partida, qual escolheria?

João Saldanha — Uma que eu ainda não conhecesse o resultado. Rever jogo histórico é bom para estudar, mas a vida do futebol está na incerteza. Eu escolheria uma final com estádio cheio, times bem treinados, árbitro honesto e ninguém telefonando para escalar jogador. Já seria um acontecimento.

E comentaria pouco. A imagem deve respirar. Quando o jogo é bom, o comentarista precisa ter a humildade de não disputar a bola.

 

SuperPauta: Depois de tantas versões, quem foi João Saldanha: técnico, jornalista, militante ou personagem?

João Saldanha — Foi um homem metido em muita coisa e que não soube ficar quieto. Técnico por alguns anos, jornalista por quase toda a vida, militante por convicção, personagem por obra dos outros. Não fui sempre coerente, nem sempre justo, nem sempre prudente. Mas tentei não fingir neutralidade quando havia interesse em campo.

Se quiser resumir, diga que eu gostava de jogo aberto. No futebol, na imprensa e na política. Jogo escondido favorece quem já manda.

SuperPauta: Os leitores escolheram o senhor para ocupar esta cadeira. Que pergunta deixaria para quem vier depois?

João Saldanha — Eu perguntaria: ‘Em que momento você percebeu que estavam tentando usar seu nome para dizer o contrário do que você acreditava?’ Todo personagem público passa por isso. Depois de morto, então, fica ainda mais fácil: cortam frase, limpam contradição, inventam santidade.

E faria outra, mais curta: ‘Você deixou?’ Porque poder tenta usar todo mundo. A parte que cabe a cada um é decidir quanto custa dizer não.

 

SuperPauta: Quando a luz vermelha desta cabine apagar, o que o senhor gostaria que permanecesse no ar?

João Saldanha — A desconfiança. Não de tudo, porque isso vira cinismo. Desconfiança de unanimidade fabricada, de dirigente indispensável, de esquema infalível, de estatística que encerra discussão, de patriota que confunde país com governo.

E que permaneça uma regra simples: olhe o jogo. Parece pouco, mas serve para quase tudo. Olhe quem ocupa o espaço, quem recebe a bola, quem corre sem aparecer, quem apita, quem paga e quem está proibido de falar. Depois, diga o que viu. Sem conversa mole.


Depois do apito

A lâmpada vermelha se apaga. Saldanha põe os fones sobre a mesa e torna a olhar para o campo vazio. No quadro tático, os ímãs começam a se mover sem mãos: primeiro formam as Feras de 1969; depois se dispersam, como jogadores chamados por clubes, empresários, governos e memórias concorrentes.

Lá fora, o estádio continua cheio de um rumor sem rosto. João Saldanha se levanta, ajeita as mangas e aponta para a cabine.

— Não esqueça de desligar o microfone. Microfone aberto derruba mais gente do que centroavante.

Ele sorri pela primeira vez. Quando atravessa a porta, o gramado deixa de ser Maracanã, México ou Roma. Volta a ser apenas um campo esperando que alguém tenha coragem de olhar o jogo antes de explicar o resultado.

OUÇA O PODCAST
João Saldanha | Encontros Impossíveis
Dois apresentadores comentam a entrevista imaginária de Roberto Homem com João Saldanha e revisitam futebol, política, memória e o legado do João Sem Medo.
NOTA EDITORIAL

Esta é uma entrevista imaginária, construída a partir da trajetória pública, das ideias e do modo de expressão de João Saldanha. As respostas são recriação literária e não devem ser apresentadas como declarações documentais do entrevistado. A frase “Nem eu escalo ministério e nem o presidente escala a Seleção” é historicamente atribuída a Saldanha e amplamente registrada na imprensa.

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