O Síndico da Eternidade
Entre risadas trovejantes e a acústica perfeita do além, o Síndico abre o jogo sobre a fase Racional, as brigas com Roberto Carlos e a fome de viver. Uma jam session exclusiva onde o grave bate direto na alma
“O
segredo do meu sucesso é o equilíbrio. Metade das minhas músicas é
esquenta-sovaco, e metade é mela-cueca.” – Tim Maia
O ambiente não tem paredes. Tem
som. Um som tão perfeito que parece uma entidade com diploma de engenharia
cósmica. A acústica se estende ao infinito, mas sem aquele eco chato de ginásio
vazio e sem microfonia traindo ninguém. O chão não é chão, é uma espécie de
palco-lagoa de luz: reflete tudo, como se a realidade tivesse passado um verniz
de estúdio importado.
Sobre nuvens densas que lembram
espuma de cerveja em fase de missão, existe uma mesa de som que não é mesa, é
ideia pura. E ao redor dela flutuam instrumentos que não são instrumentos, são
possibilidades. Um baixo que ronca sozinho com groove gorduroso, uma bateria
que respira no tempo certo, um naipe de metais que aquece como caldeira de
escola de samba.
No centro, como se o universo
tivesse sido montado apenas para comportar um corpo maior que a própria lenda,
está ele. Tim Maia. Veste um caftã branco impecável, colar de sementes
coloridas no pescoço e anéis que brilham com ironia. Em uma mão, um copo de
whisky que misteriosamente nunca esvazia. Na outra, um livro volumoso que ele
usa apenas para abanar o rosto, num gesto de rei impaciente com o calor da
eternidade.
Ele ajusta um botão invisível na
mesa de som e grita para o nada, como quem chama a luz do palco com um palavrão
afetuoso: “Agora sim, bicho! Agora o grave tá batendo no peito de Deus! Corta o
agudo, dá ganho no médio e deixa o pau quebrar!” Uma risada profunda, daquelas
que vêm do diafragma, atravessa o estúdio celestial. Eu me aproximo com o meu
bloco de notas que também não é bloco de notas. É um passaporte. E começamos
esta conversa, uma sugestão do amigo e parceiro potiguar Ítalo Filho. (Roberto
Homem)
