Encontros Impossíveis
O Silêncio da Buzina
Neste encontro impossível, despimos a fantasia do Velho Guerreiro para revelar o Dr. Abelardo: o homem que trocou a medicina pela cura através do riso.
"O maior elogio que podem
me fazer é me chamar de palhaço. O palhaço é o único que pode dizer a verdade
rindo." — Abelardo Barbosa (Chacrinha)
O ambiente não possui paredes definidas; é uma
vastidão nebulosa que lembra os galpões abafados da TV Tupi ou o Teatro Fênix,
mas suspensos no tempo. O chão está coberto por uma camada fina de confete
prateado e serpentinas que parecem nunca perder o brilho. Há um cheiro
persistente no ar: uma mistura de éter hospitalar, talco de camarim, bacalhau
seco e maresia — o cheiro da vida de Abelardo. No centro, iluminado por um foco
de luz âmbar que simula o sol do final de tarde em Pernambuco, repousa uma
poltrona de veludo vermelho, gasta pelo uso, com a madeira dos braços polida
por mãos nervosas. Nela, Abelardo Barbosa nos espera. Ele não veste o saiote de
guerreiro, nem a cartola extravagante, nem carrega o abacaxi de plástico agora.
Está vestido com uma sobriedade que desconcerta: um terno de linho branco,
impecável, lembrando o médico que a família sonhou e que ele quase se tornou.
Mas a essência do "Velho Guerreiro" resiste nos detalhes: uma buzina
de latão repousa em seu colo como um animal de estimação fiel, e seus óculos de
aros grossos e escuros refletem uma luz que não vem de lugar nenhum, escondendo
e revelando olhos que viram o Brasil mudar.
Ele tosse levemente, pigarreia — uma lembrança da
hipocondria e do cigarro que o acompanharam — e me encara com uma seriedade
profunda, quase acadêmica, muito diferente da anarquia que vendia na TV. A voz
é rouca, pausada, pontuada por uma franqueza cortante e uma sabedoria adquirida
na dor. Nesta conversa monumental, atravessamos a poeira de Surubim, o balanço
do navio a caminho do Rio, a filosofia do "palhaço" como agente
social, o amor devoto (e doloroso) ao trabalho e a visão profética sobre a
comunicação na era dos algoritmos. Entre confetes e silêncios profundos,
Chacrinha também reflete sobre a solidão do agreste, o rigor militar por trás
do caos televisivo e o preço doloroso de ter sido o maior comunicador da
história do Brasil.
SuperPauta: Abelardo, antes do estrondo da buzina e das luzes da televisão, havia o silêncio do agreste. Que som da infância em Surubim ainda manda em você quando o estúdio fica escuro e a plateia vai embora?
Chacrinha: (Ele ajeita os óculos devagar, respira fundo como se buscasse o ar de 1920) Não é apenas um som, meu filho, é a ausência dele que me formou. Surubim tem um silêncio que parece castigo, um silêncio vasto que te olha de volta e te desafia a existir. O menino no agreste aprende muito cedo que, se não fizer barulho, ele desaparece. Ele se mistura com a caatinga, com a paisagem seca. E paisagem não tem nome, não tem rosto, não tem voz. O medo de ser esquecido nasceu ali, na quietude. Mas, quando eu fecho os olhos agora, o que eu ouço brigando com esse silêncio é a feira. A feira de Surubim, e depois a de Caruaru. Aquilo era a minha internet. Era a balbúrdia sagrada: o cego cantando repente, o vendedor de pomada gritando a cura milagrosa, a sanfona chorando longe, o grito da galinha, a discussão política na bodega. Aquilo ali era uma televisão sem câmera. Foi fugindo do silêncio que eu aprendi a minha tese central: o barulho é vida. O silêncio, pra mim, sempre pareceu a morte fazendo estágio. Eu decidi que nunca mais deixaria o silêncio ganhar.
SuperPauta: Essa fuga do silêncio te levou a uma jornada física também. Pouca gente
sabe que sua vinda para o Rio de Janeiro não foi um simples deslocamento, foi
uma aventura. Como foi deixar Pernambuco e encarar a "Cidade
Maravilhosa" sem nada no bolso?
Chacrinha: (Um sorriso nostálgico e dolorido cruza seu rosto) Foi uma epopeia, meu
filho. Eu não vim de avião, com mala de rodinha. Eu vim no convés de um
"Ita" — aqueles navios costeiros que paravam em tudo que é porto. Eu
tinha 17 anos e uma bateria nas costas. Eu era o ritmista do "Bando
Acadêmico". A gente tocava para não pagar a passagem, entende? O balanço
do mar se misturava com o ritmo do surdo. Quando o navio atracou na Praça Mauá,
o Rio de Janeiro me deu um soco na cara. Era luz demais, gente demais, balbúrdia
demais. Eu me senti uma formiga no meio de um formigueiro eletrificado. Eu não
tinha dinheiro, dormi em banco de praça, passei fome — fome física mesmo, de
doer o estômago. Mas a fome de vencer era maior. Eu olhava para aqueles
prédios, para aquela gente elegante na Avenida Rio Branco, e pensava:
"Vocês não sabem quem eu sou ainda, mas vocês vão ter que me
engolir". A minha mudança não foi geográfica, foi existencial. Eu deixei
de ser o menino de Surubim para virar um sobrevivente na metrópole. E o sobrevivente
não tem vergonha de nada; ele faz o que for preciso para ser notado.
SuperPauta: Você desembarcou com a bateria nas costas, mas se matriculou na Faculdade
de Medicina. Como foi essa convivência esquizofrênica entre o jaleco e a
baqueta? O rapaz do jazz conseguia se comportar na frieza da aula de anatomia
ou o “Dr. Abelardo” já nasceu condenado?
Chacrinha: (Ele ri, um riso seco, balançando a cabeça negativamente) O "Dr.
Abelardo" lutou bravamente, mas ele não tinha chance contra o chamado da
rua. A convivência não era esquizofrênica, era uma tortura. Eu frequentava a
Faculdade de Medicina ali na Praia Vermelha, um prédio imponente, cheio de
doutores que falavam baixo e andavam devagar. Mas imagine você: eu entrava na
sala de anatomia, sentia aquele cheiro de formol, via aqueles corpos parados, e
minha perna começava a tremer no ritmo do fox-trot. Eu olhava para o cadáver na
mesa e pensava: "Esse sujeito aqui morreu, acabou o show dele". E eu,
com 20 e poucos anos, cheio de vida explodindo, tinha que ficar decorando nome
de osso? Não dava. O jaleco me apertava, parecia uma camisa de força. Eu comecei
a perceber que a minha "clínica" não era ali. O que acontecia era o
seguinte: eu saía da faculdade e, em vez de ir para a biblioteca, eu ia para a
Lapa. Eu ia para o Café Nice. Eu fugia para as rádios. Eu me sentia um impostor
na medicina. Eu via os colegas fascinados com a doença, e eu era fascinado pela
saúde, pela algazarra. Teve um dia que eu percebi que estava segurando o
bisturi como se fosse uma baqueta. Ali eu vi que, se eu continuasse, ia matar
algum paciente por distração ou por vontade de fazer batucada na mesa de
cirurgia. O Rio de Janeiro boêmio me sequestrou da universidade. A medicina
exige silêncio e concentração; a minha natureza exige grito e dispersão. O Dr.
Abelardo morreu para que o Chacrinha pudesse nascer.
SuperPauta: Você começou pela medicina e terminou curando o Brasil com a alegria. Em que momento você percebeu que seu bisturi era a palavra?
Chacrinha: Eu estava no terceiro ano. Via gente falando de bisturi como se fosse destino. E eu respeitava, viu? Medicina é coisa séria. Só que a minha mão não era mão de corte. Minha mão tremia pro bisturi e ficava firme na baqueta. Quando eu pegava um instrumento, parecia que o corpo entendia: “é aqui”. Aí veio a revelação que não cabe em diploma: curar corpo é nobre, mas curar tristeza é milagre. A medicina trata doença. Eu vi que o Brasil tinha outra doença, invisível: o tédio. Um tédio de viver apertado, de domingo vazio, de semana pesada, de humilhação cotidiana. Eu troquei o cheiro de éter pelo cheiro de talco e suor, porque eu queria ver gente respirando de novo, nem que fosse rindo. E vou dizer mais: eu não abandonei a medicina. Eu mudei de consultório. Meu consultório era o auditório. Meu remédio era a gargalhada. Minha anestesia era a buzina. E o meu bisturi era a palavra, curta, direta, popular, que pega no osso e não pede licença.
SuperPauta: Você largou
a faculdade, mas parece que nunca abandonou a vocação de curar. Se o
consultório ficou para trás, qual foi a "doença" que você
diagnosticou na alma do brasileiro e decidiu tratar com buzina e bacalhau?
Chacrinha: (Ele franze
a testa, sério, como quem lê um prontuário invisível) O diagnóstico foi rápido,
meu filho: o brasileiro sofria de "tristeza de domingo" e de
invisibilidade crônica. Eu andava pela rua e via o sujeito que pegava três
ônibus, comia marmita fria, ganhava uma miséria e, no fim de semana, não tinha
para onde ir. A medicina tradicional trata a dor do corpo, mas quem trata a dor
de ser esquecido pelo mundo? Eu percebi que o meu "paciente"
precisava de um choque anafilático de alegria. Não adiantava vir com
conversinha mole. Tinha que ser grito, tinha que ser comida voando, tinha que
ser mulher bonita dançando. O bacalhau não era só um peixe, era um remédio para
a humilhação da fome. A buzina era a quebra do silêncio da rotina. Eu não
abandonei a medicina; eu a expandi. O meu consultório virou o Maracanãzinho. A
minha receita não tinha carimbo, tinha música. Eu entendi que, se eu fizesse
aquele povo rir e esquecer a dureza da vida por duas horas, eu estava salvando
mais gente do que muito cirurgião de renome. Eu virei o psiquiatra do povo, e a
minha terapia era a loucura coletiva.
SuperPauta: Mas antes de diagnosticar o Brasil, você precisou convencer alguém a lhe
dar voz. Como um estudante de medicina que tocava bateria conseguiu entrar no
estúdio? E como era esse primeiro programa, numa rádio pequena de Niterói,
antes de existirem as Chacretes e o luxo da TV?
Chacrinha: (Ele ri, batucando os dedos no braço da poltrona) Eu não entrei pela
porta da frente, meu filho, eu entrei pelo ritmo. Eu era ritmista do
"Bando Acadêmico", tocava surdo e bateria. A música foi meu
passaporte. Fui bater na Rádio Clube de Niterói. Eu não tinha voz de locutor,
aquelas vozes aveludadas da época, tipo César de Alencar. Eu tinha voz rachada,
era gago, era confuso. Mas aconteceu o imprevisto, que é o deus do rádio.
Precisavam de alguém para tocar músicas de Carnaval o dia inteiro, uma coisa
exaustiva. Eu disse: "Eu faço!". O programa se chamava Rei Momo na
Chacrinha. Era um caos! Eu botava as marchinhas, falava por cima, errava o nome
do disco... Mas tinha vida! Eu percebi que a minha confusão combinava com o
Carnaval. O "Chacrinha" nasceu ali, no meio da poeira de Niterói,
tocando Lamartine Babo e aprendendo que, no rádio, se você não tem a voz
perfeita, você tem que ter a temperatura mais alta.
SuperPauta: Você tocou num ponto crucial: a sua voz não era "padrão" e a gagueira
era real. Dizem que ela recuava diante do microfone. O rádio foi seu remédio,
seu esconderijo ou sua vingança contra a língua travada?
Chacrinha: Foi libertação com juros. O gago pensa mais rápido do que fala. A palavra
trava no engarrafamento da boca, mas a mente está voando lá na frente. O
microfone me deu uma vantagem: ele não ria de mim, ele me ampliava. O rádio me
ensinou uma malandragem honesta: defeito bem usado vira estilo. Se eu
tropeçasse numa palavra, eu fazia da queda uma pirueta. Se eu gaguejasse, eu
transformava em ritmo, repetia a sílaba até virar música, virar bordão. E teve
vingança sim, claro que teve. Porque, de repente, quem mandava no tempo era eu.
Eu que interrompia. Eu que acelerava. A buzina nasceu também disso: eu não ia ficar
prisioneiro de palavra travada. Eu arrumei um som que não engarrafa. O rádio me
deu a coragem de ser ridículo sem pedir perdão. E o ridículo, meu filho, é uma
ponte. O perfeito é uma parede.
SuperPauta: Você falou sobre a coragem de ser ridículo. Mas seu pai, o
"Seu" Aurélio, não queria um filho ridículo; ele queria um filho
"sério", um doutor de anel no dedo. Quando foi que você entendeu que
o "sério", no Brasil, às vezes é só uma fantasia bem passada para
esconder a mediocridade?
Chacrinha: (Ele suspira, e a expressão endurece um pouco) Foi cedo e foi doloroso. O
Brasil é o país onde a gravata enforca a honestidade e o nariz vermelho salva o
domingo. Eu vi isso na pele. Meu pai queria status, e eu entendo ele... Naquela
época, ter um filho doutor era o troféu da família. Mas eu comecei a observar
os "homens sérios" do Rio de Janeiro. Eu via político de terno
branco, via banqueiro, via gente da alta sociedade... todos muito sérios, muito
compostos, mas fazendo barbaridades de cara limpa, com carimbo e assinatura. Eu
percebi que a seriedade é o disfarce perfeito para a maldade. O sujeito sério
mente e ninguém desconfia. Já o palhaço... ah, o palhaço não tem como mentir.
Se o palhaço não for verdadeiro, ninguém ri. Eu vi muito palhaço de circo
mambembe ter uma dignidade que não cabe num cartório. Então eu fiz uma escolha
moral: eu preferi ser o palhaço que joga a verdade na cara do povo, mesmo que
suja de farinha, do que ser o doutor que esconde a mentira na gaveta. E repito
a frase, porque ela é minha defesa e meu escudo: o maior elogio é me chamar de
palhaço. O palhaço é o único que pode dizer a verdade rindo e ser aplaudido por
isso. O "homem sério" costuma mentir sem rir, e isso, meu filho, é
perigosíssimo.
SuperPauta: Você mencionou o "Bando Acadêmico" e sua origem como ritmista. Muita gente acha que o Chacrinha era apenas esculhambação, mas havia uma cadência ali. A experiência com a bateria ditou o seu tempo de televisão?
Chacrinha: Ditou absolutamente tudo. Televisão não é imagem, televisão é tempo. É
timing. Se você perde o tempo, a piada morre, o calouro afunda, o povo troca de
canal. Eu não dirigia o programa como um diretor de teatro, eu regia o
auditório como um mestre de bateria na avenida. A minha comunicação era
percussiva. Eu sentia o pulso da plateia. Se o ritmo caía, eu entrava com o
surdo: a buzina! A buzina não era só barulho, era marcação de compasso:
"Acorda!", "Anda!", "Chega!". Era feita para
mexer no corpo antes de convencer a cabeça. O domingo à tarde não é horário de
seminário, é horário de feijoada e samba. Domingo é pulso. Quem tentou fazer TV
sem entender de ritmo, "se trumbicou". Eu transformei o caos em uma
sinfonia popular.
SuperPauta: E já que falamos de ritmo e da origem do nome no "Rei Momo",
podemos dizer que o Carnaval é mais que uma festa para você? Ele é a sua
certidão de nascimento espiritual?
Chacrinha: É certidão, batismo e extrema-unção! Porque o Carnaval é o único momento
em que o Brasil para de fingir. Durante quatro dias, a hierarquia social
derrete. O pobre vira rei, a doméstica vira imperatriz, e o doutor vira mulher.
Ali, na rua, o povo vira protagonista. É paixão e improviso, exatamente igual
ao meu programa. Eu comecei fazendo barulho pro Rei Momo e entendi que a
alegria não é alienação, não é "falta de assunto". Alegria é assunto
grande! Alegria é resistência num país que gosta de entristecer o pobre, de
humilhar quem ganha pouco. Sem o Carnaval, eu podia ter virado aquele médico
ranzinza receitando aspirina. Com o Carnaval, eu virei um médico do riso,
receitando confete. O Carnaval me ensinou que a vida é uma fantasia breve, e se
você não sambar agora, a bateria para e a Quarta-Feira de Cinzas te pega de
calças curtas.
SuperPauta: Um ano
antes de sua partida, a Imperatriz Leopoldinense transformou sua vida em enredo
na Sapucaí. Quando você subiu naquele carro alegórico, já debilitado, ouvindo a
multidão cantar "Quem não se comunica, se trumbica", você sentiu que
o círculo se fechou?
Chacrinha: (Os olhos
ficam marejados por trás das lentes grossas e ele respira fundo, como se
puxasse o ar daquela noite) Foi a glória máxima e o susto final, meu filho. Eu
já estava cansado, o corpo doía, os médicos ficavam em cima... Mas quando eu
entrei na Avenida, a dor sumiu. Ver aquele mar de gente, as arquibancadas
tremendo, todo mundo virando criança... foi uma transfusão de sangue. Ali eu
entendi que eu não era mais o Abelardo Barbosa, CPF tal. Eu tinha virado uma
entidade, feito um Exu da alegria, um santo pagão. Aquele desfile foi o Brasil
me dizendo: "Obrigado pela bagunça". Eu me senti devolvido ao povo.
Foi o único momento em que eu achei que podia morrer em paz, porque eu vi, com
meus próprios olhos, que eu já tinha virado purpurina na memória do país. O
círculo não só fechou; ele virou infinito.
SuperPauta: E para quem
viveu mergulhado nessa festa eterna, o que é mais doloroso: o fim do programa
de domingo à noite ou o silêncio da Quarta-Feira de Cinzas?
Chacrinha: A
Quarta-Feira, sem dúvida nenhuma. Porque o domingo volta na semana que vem. A vida,
a gente não sabe. A Quarta-Feira de Cinzas é cruel. Ela te joga no chão, mostra
o confete sujo na sarjeta, o gari varrendo a ilusão, a cidade vestindo a roupa
cinza da burocracia e da dívida de novo. Pra quem vive de algazarra e cor, esse
silêncio pós-festa dói fisicamente. É um luto coletivo. O brasileiro olha no
espelho e vê que a fantasia de rei acabou e ele voltou a ser súdito. É por isso
que eu gritava tanto, meu filho. Eu gritava, buzinava e jogava comida para
impedir que a Quarta-Feira chegasse antes da hora. O meu programa era uma
tentativa desesperada de fazer o Carnaval durar o ano inteiro.
SuperPauta: Muita gente via aquela bagunça e achava que era puro improviso. O que você chamava de “controle” num palco que parecia sempre prestes a explodir ou desabar?
Chacrinha: (Ele sorri,
um sorriso de quem conhece o truque da mágica) O que eu tinha era o controle
absoluto da anarquia. O caos era o produto final para quem estava jantando em
casa. Para mim, ali dentro, era um jogo de xadrez em alta velocidade. Eu sabia
exatamente onde estava cada câmera — e olha que eu brigava com os cameramen o
tempo todo! Eu sabia onde a chacrete pisava, onde o jurado olhava, onde estava
o tempo morto que precisava ser assassinado. Se eu parasse de reger por dez segundos,
o programa virava enterro. E eu não nasci para fazer velório, nasci para fazer
carnaval. Eu era um general disfarçado de louco. Por que o louco? Porque o
louco assusta, desconcerta, quebra o gelo. E por que o general? Porque alguém
tinha que comandar aquela tropa de desajustados. Eu juntava os dois: a
disciplina militar do horário com a libertinagem do circo. Eu olhava para o
Boni ou para os diretores na cabine e pensava: "Vocês acham que mandam,
mas quem segura esse touro à unha sou eu".
SuperPauta: A buzina se
tornou uma extensão do seu braço. Ela era apenas um instrumento de barulho ou
era sua ilha de edição em tempo real?
Chacrinha: A buzina
era a minha guilhotina sonora. Era corte seco, era vírgula, era ponto de
exclamação e ponto final. Hoje, a televisão é editada em computador, tudo
limpinho, asséptico. Eu fazia a edição na mão, no grito! A buzina tinha
vocabulário próprio. Um toque curto: "Atenção!". Um toque longo:
"Tá chato, sai!". Vários toques: "Bagunça generalizada!". E
o povo entendia na hora. Eu não precisava explicar. A comunicação popular tem
que bater como martelo: pau! Se você enrola, o sujeito muda de canal. Quem não
se comunica — rápido e direto — se trumbica. A buzina também me protegia, sabe?
Quando a gagueira queria vir, ou quando me faltava o ar, a buzina falava por
mim. Ela era o grito que a minha garganta às vezes não conseguia dar.
SuperPauta: Você fala da buzina como edição ao vivo. Mas teve
um “corte” ainda mais radical: o dia em que você pegou um bacalhau e
transformou o auditório num ringue. Aquilo foi só palhaçada ou foi estratégia
consciente de comunicação?
Chacrinha: Foi estratégia, meu filho. Estratégia com cheiro
de mercado e barulho de plateia. Um amigo meu, Venâncio, estava com um caminhão
de bacalhau encalhado. Me ligou aflito: “Chacrinha, me ajuda, senão isso aí vai
ficar parado até criar teia de aranha”. Aí eu pedi: “Manda umas peças pra cá”. No
programa, eu levantei aquela posta enorme como se fosse troféu e gritei: “Vocês
querem bacalhau?”. O auditório respondeu como se eu tivesse prometido a
salvação: “Queremos!”. Eu anunciei a promoção e atirei a posta pra plateia.
Pronto: o estúdio virou Copa do Mundo, todo mundo queria garantir o domingo da
Páscoa. No dia seguinte só se falava nisso. Teve quem achasse um horror, teve
quem morresse de rir… e o Venâncio? Ele quase precisou de massagem no rosto de
tanto sorrir: em dois dias não sobrou bacalhau nenhum. E vou deixar claro,
porque os finos sempre entendem errado: quando eu jogo bacalhau, eu não estou
chamando ninguém de faminto, nem rebaixando ninguém. Eu estou dizendo:
“acorda!”. É alegria. É participação. O povo não quer só o bacalhau: quer o
barulho de estar dentro do acontecimento.
SuperPauta: E nos bastidores com artistas, teve algum momento em que até o “Velho Guerreiro” quase perdeu o controle do roteiro… de tanto achar graça?
Chacrinha: Teve, e foi delicioso. Eu inventei um troço chamado
“O Cantor Mascarado”. A ideia era simples: entrava um sujeito mascarado no
palco, cantava, e o público tentava adivinhar quem era. Um dia apareceu um
mascarado cantando “Meu Bem do Mar” e a plateia começou a gritar um nome atrás
do outro. Teve gente jurando que era João Gilberto, até que eu puxei o mistério
pelo colarinho e revelei: era Roberto Carlos. Aquele tipo de surpresa que faz o
auditório virar escola em dia de recreio. E olha que isso não era só
brincadeira: era engenharia de atenção. Você bota mistério, você acende a
curiosidade, você dá ao povo o prazer de participar. O público quer acertar,
quer gritar, quer pertencer. E eu sempre tratei audiência como bateria de
escola de samba: se a bateria entra, meu filho, ninguém fica parado.
SuperPauta: Abelardo,
por trás do riso tinha método e às vezes tinha faca também. Quando o abacaxi
voava, era só comédia ou tinha ali uma dose de humilhação calculada? O “Troféu
Abacaxi” virou folclore. Ele era um prêmio de consolação ou uma lição de moral?
Chacrinha: (Ele não
ri. Só aperta a buzina com a mão, como quem segura um martelo) Era lição… e era
castigo também. Vou falar a verdade que ninguém gosta: eu humilhei gente, sim.
Humilhei ao vivo. Às vezes o sujeito não merecia o abacaxi, merecia um abraço e
um copo d’água. Mas eu estava vendendo espetáculo numa máquina que não tem
paciência com delicadeza. A televisão não é mãe. A televisão é bilheteria. Eu
olhava o calouro e fazia um cálculo frio: “Esse aguenta apanhar e volta mais
forte? Ou esse vai quebrar?” Quando eu percebia que era frágil demais, eu
tentava cortar rápido, porque prolongar o vexame é crueldade maior. Mas quando
o sujeito vinha com soberba, querendo pisar no auditório, aí eu virava carrasco
com gosto. Eu jogava o abacaxi para arrancar o rei falso de cima do palco. E
aqui vai outra coisa feia: eu sabia que o público ria do tombo. Eu também ria,
às vezes. Porque riso é selvagem. O povo não quer só talento, quer catarse.
Quer ver alguém cair para esquecer a própria queda. Se isso te parece injusto,
bem-vindo ao mundo real. Eu só escancarava a injustiça e botava confete em cima
dela, pra ficar suportável. Era bonito? Nem sempre. Era verdadeiro? Quase
sempre.
SuperPauta: Você foi o alvo preferido dos críticos e dos intelectuais, que te acusavam de promover o “baixo nível”. Hoje, com o distanciamento do tempo, o que é “nível” para você?
Chacrinha: (Ele se
ajeita na poltrona, visivelmente irritado, batendo a mão no joelho)
"Nível" é conversa de quem tem a geladeira cheia e ar-condicionado no
escritório. Eles diziam que eu fazia "baixo nível" porque eu mostrava
o povo como ele é: sem dente, suado, falando errado, vestido com roupa barata.
Para a elite, a pobreza é ofensiva. Eles queriam uma TV de terno e gravata,
falando difícil. Para mim, baixo nível é roubar o povo. Baixo nível é político
que promete hospital e entrega cova rasa. Baixo nível é humilhar o porteiro e
depois posar de santo na missa. Eu mostrava o Brasil banguela, mas vivo! Eu
dava palco para quem era invisível. Eles diziam que eu explorava a miséria; eu
digo que eu celebrava a existência daquelas pessoas. Quem chamava meu programa
de lixo, na verdade, tinha nojo do cheiro do povo. Eles só gostam do povo
quando o povo está quieto e servindo. Eu fazia o contrário: eu fazia o povo
gritar, jogar comida e ser feliz na cara da sociedade.
SuperPauta: As
Chacretes — de Rita Cadillac a Índia Potira — marcaram época. Elas eram dança,
vitrine ou uma provocação ao moralismo da ditadura? E aquela expressão,
“boazuda”, como você a vê hoje?
Chacrinha: As
Chacretes eram a rua invadindo a sala de estar da família brasileira. O Brasil
sempre foi esse país esquizofrênico: moralista na fachada e curioso por trás da
cortina. Eu só tive a coragem de puxar a cortina e dizer: "Olha, o desejo
existe, o corpo existe". Quando eu falava "boazuda", eu não
estava falando só de corpo. Eu falava de saúde, de energia, de borogodó. A
chacrete não podia ser aquelas modelos de passarela, magrinhas, tristes. Tinha
que ter coxa, tinha que ter sorriso, tinha que ter sangue! Não era laboratório,
era palco. Era carisma. Era a coragem de encarar a câmera de maiô e não pedir
desculpa por existir. Hoje, o mundo discute isso com muito mais cuidado, fala
em objetificação, e tem toda razão em evoluir. O respeito tem que vir em
primeiro lugar. Mas o meu tempo era outro, era um tempo de repressão, onde um
corpo livre dançando era quase um ato político. Eu refletia a rua. E a rua, meu
filho, não fala fino, a rua é crua. As minhas meninas eram rainhas naquele
palco, e ai de quem mexesse com elas nos bastidores. O Velho Guerreiro virava
bicho para defendê-las.
SuperPauta: Você
escolhia suas assistentes, as Chacretes, pelo corpo escultural ou pela coragem
de sustentar o olhar do Brasil?
Chacrinha: (Ele faz um
gesto de quem busca algo no ar) Eu escolhia pela eletricidade, meu filho. Pela
luz. Mulher bonita o Rio de Janeiro tem aos montes, em cada esquina de
Copacabana tem uma miss. Agora, a mulher que acende quando a luz vermelha da
câmera liga... ah, isso é raro. A televisão é um bicho que come gente tímida. A
Chacrete tinha que ter o corpo, claro, porque era o que o povo queria ver, mas
tinha que ter o "imã". Ela tinha que olhar para a lente e atravessar
a tela, entrar na casa do sujeito e dizer: "Eu sou a alegria". Se
fosse só bonita, mas fria, não servia. Tinha que ter sangue quente, tinha que
saber rir, tinha que ter a malandragem de desviar de um abacaxi voando e
continuar dançando. A TV vive do raro, do magnetismo. Eu era o caçador dessas
raridades.
SuperPauta: Vou tirar o
confete do assunto por um instante: quando a luz do estúdio apagava, quem é que
sobrava dentro do terno branco, o Velho Guerreiro ou um homem com culpa no
bolso? Você disse certa vez que o programa vinha antes de tudo, até da sua
família. Esse foi o preço mais alto que você pagou pela coroa de Rei da TV?
Chacrinha: (A alegria
some. Ele olha para o confete no chão como se fosse cinza) Foi. E eu não vou
romantizar, porque romantizar é outra forma de mentir. Eu fui injusto com a
minha casa. Eu escolhi o palco. Eu escolhi o aplauso. Eu escolhi ser necessário
para um país inteiro e, ao mesmo tempo, ser ausente para os meus. E tem uma
parte que pega mal, mas eu vou dizer: eu usei a minha própria família como
“bastidor” do mito. Eu deixava a imprensa inventar, eu alimentava maledicência,
eu segurava desmentido porque isso aumentava audiência. Eu transformei silêncio
doméstico em combustível público. Eu não traía todo dia como as revistas
diziam, mas eu traía de um jeito pior: eu traía com a prioridade. Quando o
programa precisava, a vida em casa virava figurante. Agora, também vou te jogar
uma verdade indigesta: eu não era só vítima do sistema, não. Eu gostava do
poder. Gostava de entrar no estúdio e ver todo mundo se dobrar ao meu timing.
Gostava de saber que, se eu buzinasse, o Brasil inteiro reagia. É uma droga.
Vicia. E quem diz que não vicia está mentindo ou nunca teve aquilo. Quando o
meu filho sofreu o acidente e ficou tetraplégico, aí o palhaço pagou o preço
sem maquiagem. Ali eu vi que a buzina não cura tudo. Eu continuei indo ao ar
porque eu não sabia ser outra coisa… e porque eu tinha medo do dia em que o
Brasil desligasse a TV e eu tivesse que encarar o Abelardo, nu, sem plateia.
Esse é o meu pecado e minha sentença: eu fui gigante no domingo e pequeno na
terça-feira.
SuperPauta: Você
conviveu com problemas de saúde graves, infartos, cirurgias. Como era a
sensação de ter que fazer o país rir sentindo medo da morte nos bastidores?
Chacrinha: O medo me
dava pressa. Quando você sabe que o tempo está acabando, você não desperdiça um
segundo de alegria. Eu tive problemas no coração, no pulmão... Às vezes eu
entrava no palco com falta de ar, com a perna inchada. Mas eu pensava: "O
povo tá esperando. A dona Maria lá no interior do Ceará tá esperando". A
doença era o meu segredo; a alegria era a minha obrigação cívica. O palco virou
a minha UTI. Eu só me sentia imortal, saudável e jovem quando a câmera acendia.
Ali, o coração batia no ritmo da bateria e a dor sumia. Fora dali, no camarim,
eu era um homem velho, cheio de remédios, com medo de dormir e não acordar. Eu
escondia o pavor da morte em forma de festa. O confete era o meu disfarce.
SuperPauta: Existe um
"Chacrinha" que o Brasil nunca viu e que talvez explicasse tudo isso?
Chacrinha: Existe o
Abelardo silencioso. Esse ninguém quis comprar. É o homem que chegava no quarto
do hotel ou em casa, tirava a peruca suada, tirava os óculos pesados, sentava
na beira da cama e ficava olhando para o nada, tentando desligar o barulho da
própria cabeça. Esse Abelardo era melancólico, preocupado com as contas, com os
filhos, com o futuro do Brasil. Ele não tinha respostas rápidas, ele não tinha
buzina. Ele tinha dúvidas. Mas esse homem não virou personagem, porque dúvida
não dá Ibope. O Brasil queria certeza e gritaria. O Abelardo silencioso
existiu, sim. E, no fim das contas, foi ele quem pagou a conta do corpo
quebrado para que o Chacrinha pudesse pular.
SuperPauta: Abelardo, você deixou o palco há décadas, e desde então muitos tentaram ocupar o trono. Você vê algum sucessor legítimo nas tardes de sábado e domingo? E o que você acha dessa TV atual, onde o apresentador chora mais que o convidado para dar audiência?
Chacrinha: (Ele solta uma gargalhada rouca, balançando a
cabeça) Sucessor? Meu filho, não existe sucessor para o caos. O Chacrinha era
um acidente geográfico, uma erupção. O que eu vejo hoje são meninos talentosos,
sim. Tem gente com ritmo, mas o sistema engessou tudo. O que me irrita
profundamente é essa mania de transformar o palco em muro das lamentações. O
domingo virou um velório com intervalo comercial. É gente chorando, é história
triste, é a exploração da miséria para vender refrigerante. Eu jogava bacalhau,
jogava farinha, dava geladeira, mas era uma festa! Eu não fazia o pobre chorar
para ganhar o prêmio; eu fazia o pobre pular! A caridade na TV hoje é triste, é
humilhante. No meu tempo, o povo ia para o auditório para esquecer a fome, não
para ser lembrado dela em close-up. Falta anarquia e sobra roteiro. Ninguém
substitui o Chacrinha porque ninguém mais tem coragem de ser politicamente
incorreto e amoroso ao mesmo tempo.
SuperPauta: Mas teve vez em que nem a buzina dava conta e a edição precisou salvar o
programa?
Chacrinha: Teve, e foi uma daquelas horas em que a televisão mostra os dentes. Eu
gostava de brincar, eu gostava de testar o nervo do palco, mas tem artista que
é um trovão engarrafado. O Tim Maia era isso. Teve um dia que mandaram fazer uma
pegadinha, dessas de bastidor, encostar nele por trás no meio da música. Meu
filho, o Tim virou uma tempestade. Parou tudo. Largou o palco no ato,
indignado, falando alto, muito alto, e com razão: ninguém gosta de ser
surpreendido assim diante do Brasil inteiro. Aí você vê a diferença entre a
bagunça controlada e o caos de verdade: na bagunça, eu mando. No caos, o
programa corre para o comercial como quem corre para se esconder da chuva. E eu
ainda tive que voltar e “costurar” para a plateia, inventar uma saída elegante,
dizer que ele passou mal e precisou ir embora. Semana depois, ele voltou, e eu
tratei como se nada tivesse acontecido, porque televisão é isso também: um
circo que apaga o incêndio sorrindo. E o Tim ainda tinha um pedido que eu
respeitava: falar o nome da mãe dele no ar. Aí eu falava. Porque, no fim, todo
trovão tem um colo.
SuperPauta: Sua frase
“Na TV nada se cria, tudo se copia” atravessou gerações. Na era do TikTok e dos
virais instantâneos, isso virou profecia ou maldição?
Chacrinha: Virou a
Constituição Federal da internet! Hoje é a cópia da cópia da cópia, e o pior:
sem a fonte original. Tem gente dançando, fazendo graça, pedindo atenção
desesperadamente, exatamente como os meus calouros faziam. Só que falta o
principal: o cheiro de gente. O TikTok é um Cassino do Chacrinha asséptico,
onde cada um dança sozinho no seu quarto, olhando para o próprio reflexo no
espelho negro do celular. É um Carnaval sem rua, sem esbarrão, sem suor
misturado. É barulho sem abraço. E isso me dá uma tristeza danada, porque a
tecnologia aproximou a imagem, mas afastou o calor. O povo precisa de povo, não
de like. O like não enche barriga nem abraça ninguém.
SuperPauta: Se você
tivesse um canal no YouTube hoje, faria mais caos ou tentaria conversar
civilizadamente?
Chacrinha: Eu faria o
caos ao vivo, porque o ao vivo é a única verdade que sobrou! Eu ia buzinar o
tédio do algoritmo! Eu ia jogar "bacalhau digital" na cara dos
hipócritas e cortar discurso enrolado de político e influenciador com a buzina
no talo. O meio muda — rádio, TV, internet, holograma — mas a fome do ser
humano é a mesma desde a idade da pedra: fome de ser visto, fome de ser amado,
fome de rir para não desabar. Eu só mudaria para melhorar, como sempre fiz:
trocaria a fantasia, adaptaria a gíria, mas manteria o coração batendo alto. Eu
ia provar que dá para ter milhões de seguidores sem perder a alma.
SuperPauta: Para
encerrar este nosso encontro impossível: que mensagem o Velho Guerreiro deixa
para quem tenta se comunicar e sobreviver nesse mundo barulhento de hoje?
Chacrinha: (Ele se
levanta devagar, ajeita o terno branco, mas pega a buzina com a firmeza de um
general empunhando uma espada. Ele olha fixamente nos meus olhos, e por um
segundo, vejo o brilho do menino de Surubim) Não tenha medo de ser ridículo. O
ridículo aproxima as pessoas. O perfeito afasta, cria inveja. Se comunique com
a alma, não com o algoritmo. Fale a língua que o seu coração grita, não a que a
moda pede. A vida é curta demais para ser sério o tempo todo. E se alguém
reclamar, se a patrulha do "bom gosto" vier te encher a paciência...
(Ele ergue a buzina acima da cabeça) FON-FON! Manda um abacaxi bem grande pra
eles! Porque, meu filho, no fim das contas, o Brasil é isso: um povo que só não
morre de tristeza porque aprendeu a rir na beira do abismo. (Ele sorri, dá as
costas e caminha para a névoa do fundo do estúdio, gritando para o vazio:
"Alô, alô, Teresinha! Aquele abraço!")










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