Encontros Impossíveis
A sabedoria de quem quis morrer menino
O eterno menino retorna a um Leblon suspenso entre a neblina e a memória, trazendo a leveza de quem transformou a rotina em eternidade.
"No fim dá
certo. Se não deu, é porque não chegou ao fim" — Fernando Sabino
Não estamos
exatamente no Rio de Janeiro, mas na ideia que a saudade guardou dele. É uma
cobertura no Leblon, mas as paredes parecem feitas de bruma e o mar lá embaixo
se move em câmera lenta, sem som, como um espelho líquido suspenso no vácuo. O
Pão de Açúcar flutua num horizonte dourado e imóvel, como numa fotografia
antiga colorida à mão. É um fim de tarde eterno de domingo. Neste espaço onde a
gravidade é mais leve, uma bateria de jazz toca sozinha — pratos e vassourinhas
roçando o silêncio — num ritmo suave que só a alma escuta. O cheiro de pão de
queijo e café não vem de uma cozinha física, mas emana do ambiente como uma
"lembrança olfativa", densa e acolhedora.
Ele está lá, reclinado numa poltrona que parece tecida de nuvens e couro
velho. Veste sua camisa de mangas dobradas, mas sua figura tem um contorno
sutilmente luminoso, translúcido. Fernando Sabino sorri, e seu sorriso é a
única coisa absolutamente nítida neste cenário difuso. Ele observa o
entrevistador com a calma de quem já não tem pressa, pois o seu "encontro
marcado" final já aconteceu, e agora só lhe resta a eternidade para contar
causos. (Roberto Homem)