Encontros Impossíveis
O guardião das histórias do Brasil
“Nem mesmo Deus tem o poder para modificar o Passado” — Luís da Câmara Cascudo
A
casa da Avenida Câmara Cascudo, o solar que hoje abriga o Instituto Ludovicus,
flutua em um éter sereno. Não é o cheiro de um museu, mas de poeira antiga e
cajuína fresca, misturado ao sal marinho que teima em entrar pelas janelas.
Mestre Cascudo nos recebe em uma poltrona de couro, cercado por milhares de
livros que parecem não apenas guardá-lo, mas escutá-lo. Sua figura é calma, as
mãos repousam sobre uma cópia já amarelada do "Dicionário do Folclore
Brasileiro", e seus olhos têm a placidez de quem já viu todos os mitos
nascerem e morrerem. O tempo, ali, parece ter a textura da areia, escorrendo
lento.
Este encontro é uma imersão na identidade brasileira. Percorremos a trilha de sua infância no Rio Grande do Norte, a teimosia de ser intelectual no Nordeste e a épica solidão de sua pesquisa, feita por cartas e viagens hercúleas. Mestre Cascudo reflete sobre o preço invisível de catalogar a alma de uma nação, o destino do Folclore na era do meme e da Inteligência Artificial, e o eterno fascínio por figuras como Lampião. Ele nos oferece, por fim, o conselho do guardião das histórias ao homem moderno, que esqueceu de olhar para o próprio chão. (Roberto Homem)
