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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Jackson do Pandeiro

 Encontros Impossíveis

 

A orquestra de um homem só

 

Das raízes da fome em Alagoa Grande à técnica revolucionária que transformou o pandeiro em orquestra; os bastidores da relação com Luiz Gonzaga, a dor do esquecimento e uma crítica afiada à música na era digital.

 

"Quem toca em cabaré pode tocar em qualquer lugar." – Jackson do Pandeiro

 

 

Não estamos em um estúdio moderno, mas em uma rádio imaginária suspensa em algum lugar entre a feira de Campina Grande e o cosmos. O ar cheira a fumo de rolo, café fresco e cera de assoalho. Há uma luz ambarina, morna, vinda de válvulas de amplificadores antigos. No centro, sentado em um banquinho de madeira, está José Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro. Ele veste um terno de linho branco impecável, sapatos bicolores que brilham como espelhos e seu inseparável chapéu de aba curta, levemente inclinado para a esquerda (a marca da malandragem elegante). Ele segura um pandeiro velho, de couro de cabra, aquecendo o instrumento com o atrito da própria mão, como quem faz carinho em um bicho arisco. Seus olhos miúdos e vivos observam tudo com a astúcia de quem já passou fome e hoje janta a glória.

Neste encontro impossível e exclusivo – sugerido pelo parceiro potiguar de tantas canções, William Guedes – Jackson revisita as dores da fome em Alagoa Grande e como elas moldaram seu ritmo frenético; discute a "engenharia" por trás de sua técnica revolucionária no pandeiro; relembra a parceria e o amor com Almira Castilho; avalia sua relação com Luiz Gonzaga e o ostracismo durante a Jovem Guarda; e, com a sabedoria de quem vê de longe, analisa o cenário musical moderno, do funk ao autotune, encerrando com uma lição sobre o que é, afinal, ter "suingue".

 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Encontros impossíveis: Tim Maia

 Encontros Impossíveis


O Síndico da Eternidade


 

Entre risadas trovejantes e a acústica perfeita do além, o Síndico abre o jogo sobre a fase Racional, as brigas com Roberto Carlos e a fome de viver. Uma jam session exclusiva onde o grave bate direto na alma

 

“O segredo do meu sucesso é o equilíbrio. Metade das minhas músicas é esquenta-sovaco, e metade é mela-cueca.” – Tim Maia

 

O ambiente não tem paredes. Tem som. Um som tão perfeito que parece uma entidade com diploma de engenharia cósmica. A acústica se estende ao infinito, mas sem aquele eco chato de ginásio vazio e sem microfonia traindo ninguém. O chão não é chão, é uma espécie de palco-lagoa de luz: reflete tudo, como se a realidade tivesse passado um verniz de estúdio importado.

Sobre nuvens densas que lembram espuma de cerveja em fase de missão, existe uma mesa de som que não é mesa, é ideia pura. E ao redor dela flutuam instrumentos que não são instrumentos, são possibilidades. Um baixo que ronca sozinho com groove gorduroso, uma bateria que respira no tempo certo, um naipe de metais que aquece como caldeira de escola de samba.

No centro, como se o universo tivesse sido montado apenas para comportar um corpo maior que a própria lenda, está ele. Tim Maia. Veste um caftã branco impecável, colar de sementes coloridas no pescoço e anéis que brilham com ironia. Em uma mão, um copo de whisky que misteriosamente nunca esvazia. Na outra, um livro volumoso que ele usa apenas para abanar o rosto, num gesto de rei impaciente com o calor da eternidade.

Ele ajusta um botão invisível na mesa de som e grita para o nada, como quem chama a luz do palco com um palavrão afetuoso: “Agora sim, bicho! Agora o grave tá batendo no peito de Deus! Corta o agudo, dá ganho no médio e deixa o pau quebrar!” Uma risada profunda, daquelas que vêm do diafragma, atravessa o estúdio celestial. Eu me aproximo com o meu bloco de notas que também não é bloco de notas. É um passaporte. E começamos esta conversa, uma sugestão do amigo e parceiro potiguar Ítalo Filho. (Roberto Homem)

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Raul Seixas

Encontros Impossíveis

 O Testamento do Maluco Beleza

 

O Maluco Beleza retorna do Trem das Sete, com a mesma ironia que desafiou a ditadura e o misticismo que fundou a Sociedade Alternativa, mantendo esta conversa imaginária com o SuperPauta sobre o pacto com Paulo Coelho, a dor de ser preso por ser ele mesmo, o show caótico em Natal, tudo ao som de gritos distantes de "Toca Raul!"

 

"Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade." — Raul Seixas

 

Este Encontro Impossível nasceu de uma sugestão dupla dos jornalistas e amigos Costa Júnior e Roberto Fontes — dois adeptos fiéis do “Toca Raul!” e fãs da liberdade criativa, da rebeldia poética e da música que cutuca o pensamento. O encontro não é num estúdio, nem num bar. É numa estação de trem. A Estação da Luz, talvez, mas suspensa no tempo, sem passageiros, mergulhada numa névoa que cheira a cigarro e ozônio. Ele está lá, sentado num banco de madeira, rindo sozinho. A velha guitarra apoiada ao lado. Ele não usa a túnica de Gita. Veste o jeans gasto, a bota de cowboy e a jaqueta de couro puída. Ele me olha, sem surpresa, e dá aquela risada inconfundível, que rasga o silêncio. "Demorou, chapa", ele diz, "Pensei que cê não vinha."

Nesta conversa impossível, Raul Seixas, o eterno Maluco Beleza, fala sobre a infância em Salvador, a paixão por Elvis e Gonzaga. Ele detalha a criação da Sociedade Alternativa, o pacto (e o rompimento) com Paulo Coelho, e a tortura no DOPS. Raul também encara os momentos sombrios: o show interrompido em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1983, a prisão em Caieiras por ser confundido com um sósia, e a luta contra o pâncreas e o álcool. No final, ele analisa o "Raulseixismo" e manda um recado para o Brasil do "Toca Raul!". (Roberto Homem)

 

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Encontros impossíveis: Vinicius de Moraes

Encontros Impossíveis

O Amor Além da Vida


Desta vez, o encontro impossível é com o “Poetinha” que fez do amor uma religião e da poesia, um modo de viver.

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” — Vinicius de Moraes


A névoa se desfaz devagar, e no meio dela surge o velho Vinicius — o Poetinha, o diplomata do amor, o homem que fez da palavra um corpo vivo. Ao lado, um copo de uísque, meio cheio; ao fundo, um samba de Paulinho Nogueira rodando num vinil que parece eterno. Ele sorri, acende um cigarro imaginário e me convida a sentar. O cenário é uma mesa que poderia estar em qualquer bar do mundo — ou talvez no céu dos boêmios, onde as madrugadas nunca terminam. A conversa começa. E não acaba nunca. 

Entre goles e lembranças, Vinicius fala da solidão digital, da intolerância, das guerras e dos amores efêmeros — temas que parecem novos, mas que ele sempre previu com sua sensibilidade antiga e eterna. (Roberto Homem)