Encontros Impossíveis
O mistério atrás da porta
Na penumbra de um Rio de Janeiro atemporal, Clarice fala sobre a guerra na Ucrânia, as cicatrizes do fogo, a recusa ao feminismo de rótulo e a fome de Macabéa.
“Sou tão misteriosa que não me entendo” — Clarice Lispector
O Rio de Janeiro lá fora insiste em ser solar,
barulhento, vivo. Mas aqui, neste apartamento no Leme que parece flutuar entre
o passado e o agora, o tempo é uma substância espessa. O ar cheira a cigarro e
a um perfume antigo, algo como madeira e flores secas. Há uma tensão
silenciosa, como se o ambiente estivesse prestes a quebrar.
Venho de um encontro leve com Fernando Sabino,
amigo íntimo desta mulher que agora me encara. Se Sabino era o abraço do Rio,
Clarice é o abismo. Ela está sentada na poltrona, protegendo a mão direita —
marcada por um incêndio trágico — com um xale sutil. Seus olhos amendoados,
levemente felinos, não me convidam; eles me interrogam. Há uma máquina de
escrever Olympia sobre a mesa e, ao lado, um maço de cigarros pela metade.
Ela não sorri, mas também não é hostil. É apenas...
intensa. Como se estivesse tentando decidir se sou uma visita ou um personagem
que ela precisa decifrar. “Eu sou tão misteriosa que não me entendo.” — a frase
ecoa antes mesmo de começarmos. Respiro fundo. Entrar no mundo de Clarice
Lispector exige coragem. (Roberto Homem)











