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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Clarice Lispector

 Encontros Impossíveis

O mistério atrás da porta

Na penumbra de um Rio de Janeiro atemporal, Clarice fala sobre a guerra na Ucrânia, as cicatrizes do fogo, a recusa ao feminismo de rótulo e a fome de Macabéa.


Sou tão misteriosa que não me entendo” — Clarice Lispector

  

O Rio de Janeiro lá fora insiste em ser solar, barulhento, vivo. Mas aqui, neste apartamento no Leme que parece flutuar entre o passado e o agora, o tempo é uma substância espessa. O ar cheira a cigarro e a um perfume antigo, algo como madeira e flores secas. Há uma tensão silenciosa, como se o ambiente estivesse prestes a quebrar.

Venho de um encontro leve com Fernando Sabino, amigo íntimo desta mulher que agora me encara. Se Sabino era o abraço do Rio, Clarice é o abismo. Ela está sentada na poltrona, protegendo a mão direita — marcada por um incêndio trágico — com um xale sutil. Seus olhos amendoados, levemente felinos, não me convidam; eles me interrogam. Há uma máquina de escrever Olympia sobre a mesa e, ao lado, um maço de cigarros pela metade.

Ela não sorri, mas também não é hostil. É apenas... intensa. Como se estivesse tentando decidir se sou uma visita ou um personagem que ela precisa decifrar. “Eu sou tão misteriosa que não me entendo.” — a frase ecoa antes mesmo de começarmos. Respiro fundo. Entrar no mundo de Clarice Lispector exige coragem. (Roberto Homem)

 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Luís da Câmara Cascudo

 Encontros Impossíveis

 O guardião das histórias do Brasil 

Luís da Câmara Cascudo retorna para guiar o SuperPauta em uma viagem pelo arquivo da alma brasileira.

Nem mesmo Deus tem o poder para modificar o Passado” — Luís da Câmara Cascudo

  

A casa da Avenida Câmara Cascudo, o solar que hoje abriga o Instituto Ludovicus, flutua em um éter sereno. Não é o cheiro de um museu, mas de poeira antiga e cajuína fresca, misturado ao sal marinho que teima em entrar pelas janelas. Mestre Cascudo nos recebe em uma poltrona de couro, cercado por milhares de livros que parecem não apenas guardá-lo, mas escutá-lo. Sua figura é calma, as mãos repousam sobre uma cópia já amarelada do "Dicionário do Folclore Brasileiro", e seus olhos têm a placidez de quem já viu todos os mitos nascerem e morrerem. O tempo, ali, parece ter a textura da areia, escorrendo lento.

Este encontro é uma imersão na identidade brasileira. Percorremos a trilha de sua infância no Rio Grande do Norte, a teimosia de ser intelectual no Nordeste e a épica solidão de sua pesquisa, feita por cartas e viagens hercúleas. Mestre Cascudo reflete sobre o preço invisível de catalogar a alma de uma nação, o destino do Folclore na era do meme e da Inteligência Artificial, e o eterno fascínio por figuras como Lampião. Ele nos oferece, por fim, o conselho do guardião das histórias ao homem moderno, que esqueceu de olhar para o próprio chão. (Roberto Homem)

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Fernando Sabino

 

Encontros Impossíveis

 A sabedoria de quem quis morrer menino

O eterno menino retorna a um Leblon suspenso entre a neblina e a memória, trazendo a leveza de quem transformou a rotina em eternidade. 


"No fim dá certo. Se não deu, é porque não chegou ao fim" — Fernando Sabino

 

Não estamos exatamente no Rio de Janeiro, mas na ideia que a saudade guardou dele. É uma cobertura no Leblon, mas as paredes parecem feitas de bruma e o mar lá embaixo se move em câmera lenta, sem som, como um espelho líquido suspenso no vácuo. O Pão de Açúcar flutua num horizonte dourado e imóvel, como numa fotografia antiga colorida à mão. É um fim de tarde eterno de domingo. Neste espaço onde a gravidade é mais leve, uma bateria de jazz toca sozinha — pratos e vassourinhas roçando o silêncio — num ritmo suave que só a alma escuta. O cheiro de pão de queijo e café não vem de uma cozinha física, mas emana do ambiente como uma "lembrança olfativa", densa e acolhedora.

Ele está lá, reclinado numa poltrona que parece tecida de nuvens e couro velho. Veste sua camisa de mangas dobradas, mas sua figura tem um contorno sutilmente luminoso, translúcido. Fernando Sabino sorri, e seu sorriso é a única coisa absolutamente nítida neste cenário difuso. Ele observa o entrevistador com a calma de quem já não tem pressa, pois o seu "encontro marcado" final já aconteceu, e agora só lhe resta a eternidade para contar causos. (Roberto Homem)

 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Ariano Suassuna

Encontros Impossíveis

A última aula-espetáculo

 

Ariano retorna com a mesma solenidade que o levou à Academia e a mesma graça que criou João Grilo. Nesta aula-espetáculo impossível, ele conversa com o SuperPauta sobre a morte do pai, a guerra contra o "ok" dos "pasteurizadores", o pavor de avião e o diabo, tudo sob o sol de pedra de seu Sertão mítico.

 

 

"Não sou ateu graças a Deus" – Ariano Suassuna

 

 

O encontro não se dá no céu, nem no inferno. Ariano Suassuna não estaria à vontade em nenhum dos dois. O inferno, diria ele, é "muito mal iluminado" e "cheio de gente que fala inglês". O céu, talvez "correto demais". Nosso encontro acontece em um teatro de pedra, em algum lugar entre a caatinga de Taperoá e o cosmos. A luz é dourada, como o fim de tarde no sertão, e a poeira que dança no ar parece carregar histórias milenares. Ele está lá, no centro do palco, não como um espectro, mas como uma força. Veste o terno de linho que o imortalizou, o inseparável colete vermelho e a gravata. (Ele ajeita a abotoadura, com a solenidade de quem se prepara para uma batalha). Seus olhos, vivos e iluminados, medem o entrevistador com uma mistura de curiosidade e desafio. Ariano Suassuna está pronto para sua última "aula-espetáculo".

 

O ar vibra com a expectativa. É o homem que dedicou a vida a provar que o Brasil profundo, o sertão "onde o diabo perdeu as botas", era o palco da tragédia e da comédia mais universais que existem. Nesta conversa impossível, Mestre Ariano fala sobre a honra e a tragédia que marcaram sua infância, a criação do Auto da Compadecida, o diabo, Deus e os "falsos profetas" da tecnologia. Ele defende o Brasil contra o que chama de "pasteurização" cultural e, claro, exalta as virtudes do Sport Club do Recife. (Ariano Suassuna)

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Raul Seixas

Encontros Impossíveis

 O Testamento do Maluco Beleza

 

O Maluco Beleza retorna do Trem das Sete, com a mesma ironia que desafiou a ditadura e o misticismo que fundou a Sociedade Alternativa, mantendo esta conversa imaginária com o SuperPauta sobre o pacto com Paulo Coelho, a dor de ser preso por ser ele mesmo, o show caótico em Natal, tudo ao som de gritos distantes de "Toca Raul!"

 

"Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade." — Raul Seixas

 

Este Encontro Impossível nasceu de uma sugestão dupla dos jornalistas e amigos Costa Júnior e Roberto Fontes — dois adeptos fiéis do “Toca Raul!” e fãs da liberdade criativa, da rebeldia poética e da música que cutuca o pensamento. O encontro não é num estúdio, nem num bar. É numa estação de trem. A Estação da Luz, talvez, mas suspensa no tempo, sem passageiros, mergulhada numa névoa que cheira a cigarro e ozônio. Ele está lá, sentado num banco de madeira, rindo sozinho. A velha guitarra apoiada ao lado. Ele não usa a túnica de Gita. Veste o jeans gasto, a bota de cowboy e a jaqueta de couro puída. Ele me olha, sem surpresa, e dá aquela risada inconfundível, que rasga o silêncio. "Demorou, chapa", ele diz, "Pensei que cê não vinha."

Nesta conversa impossível, Raul Seixas, o eterno Maluco Beleza, fala sobre a infância em Salvador, a paixão por Elvis e Gonzaga. Ele detalha a criação da Sociedade Alternativa, o pacto (e o rompimento) com Paulo Coelho, e a tortura no DOPS. Raul também encara os momentos sombrios: o show interrompido em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1983, a prisão em Caieiras por ser confundido com um sósia, e a luta contra o pâncreas e o álcool. No final, ele analisa o "Raulseixismo" e manda um recado para o Brasil do "Toca Raul!". (Roberto Homem)

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Lampião

Encontros Impossíveis

O Evangelho do Bacamarte

 

Virgulino Ferreira retorna com a fúria e a astúcia que impuseram uma nova lei ao sertão, mantendo esta conversa imaginária com o SuperPauta sobre a vingança que o forjou, a derrota histórica em Mossoró e o código de honra que, em sua visão, o separa do banditismo moderno.

 

"Eu sou cangaceiro pela maldade dos outros" – Lampião

 

O ar não se move. O encontro se dá numa caatinga suspensa no tempo, onde o sol não castiga, mas a luz é branca e dura, como cal. O cheiro não é de flor de mandacaru, mas de poeira seca, couro curtido e pólvora fria. Ele não surge como um fantasma; ele simplesmente está lá, sentado numa pedra, como se nos esperasse há 70 anos. Virgulino Ferreira da Silva não é uma assombração; é um fato. Veste o gibão de couro bordado, os anéis brilham, e o chapéu de abas largas sombreia os olhos que, diziam, enxergavam no escuro. A voz não é um grito. É um trovão baixo, arrastado pelo sol, acostumado a dar ordens que não podem ser desobedecidas. Cada palavra tem o peso de uma bala.


Nesta conversa impossível, Lampião fala sobre a vaidade que o fez ser fotografado por Benjamin Abrahão, a estratégia militar que humilhou as volantes e a tática dos coiteiros. Ele detalha, pela primeira vez, sua maior derrota militar: a invasão de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Ele relembra a crueldade de ambos os lados, a morte de Jararaca, o amor por Maria Bonita e a traição final em Angicos. No clímax do encontro, o "Rei do Cangaço" analisa o crime moderno, renegando o "Novo Cangaço" e o Comando Vermelho. (Roberto Homem)

 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Zila Mamede

 Encontros Impossíveis

Catalogando a Pedra e o Sal

Em uma conversa sobre a pedra do sertão e o sal do mar, a poeta potiguar nascida na Paraíba reflete sobre o rigor da biblioteca, a bênção de Manuel Bandeira e o destino trágico que a uniu à sua própria poesia

“Morro um pouco cada dia, e renasço no que amei.” – Zila Mamede

  

O encontro não se dá numa praia, tampouco numa biblioteca convencional. É um lugar intermediário, com a arquitetura rigorosa e o silêncio que Zila Mamede impunha à Biblioteca Central da UFRN, mas as paredes não são de alvenaria. São estantes infinitas que se dissolvem na névoa de uma maresia densa. O cheiro não é de mofo, mas de sal e papel antigo. O som é o de uma onda longa, quebrando ao longe, e o virar de uma página. Ela está sentada a uma mesa de catalogação, não de madeira, mas de pedra-sabão, lisa como as pedras de Currais Novos. Veste-se com a elegância discreta e funcional dos anos 60. Seus olhos, por trás dos óculos, não são sonhadores; são analíticos. Ela nos olha com a calma de quem passou a vida a classificar o mundo. E, agora, nos classifica.

Nesta conversa, Zila Mamede fala sobre sua infância no Seridó, a descoberta do mar em Natal e a "bênção" de Manuel Bandeira. Ela detalha a tensão entre a bibliotecária rigorosa e a poeta metafísica, o silêncio de 20 anos que antecedeu sua obra-prima, Navegos, e a transformação da sua Natal. No clímax do encontro, ela toma conhecimento do samba-enredo em sua homenagem que a Imperatriz Alecrinense levou à avenida no carnaval potiguar de 1991. Zila também reflete sobre o seu destino final: a poeta da "Canção do Afogado" que foi, tragicamente, chamada de volta pelo oceano. (Roberto Homem)

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Encontros Impossíveis – São Francisco de Assis

Encontros Impossíveis

O Canto do Irmão Sol

São Francisco retorna com a humildade que desarmou lobos e reis, mantendo esta conversa imaginária com o SuperPauta sobre a alegria na pobreza, a fraternidade universal e a força que nasce da simplicidade do coração

Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas.” — São Francisco de Assis


 

O ar na sala parecia vibrar em uma harmonia suave, como a quietude após a oração. Em meio à luz baixa, a figura de São Francisco de Assis se materializou. Não havia pompa, apenas o tecido grosseiro de seu hábito e um sorriso que desarmava. Não havia pompa, apenas o tecido áspero do hábito e um sorriso que desarmava. Seu olhar — que, embora cego nos últimos dias, via além das formas — irradiava uma luz serena. Moveu-se com a graça de quem encontrou a paz interior. Ao sentar-se, fez a cadeira simples parecer um trono, não pela vaidade, mas pela humildade que o revestia. Com um leve aceno de cabeça, abençoou o ambiente e deu início à conversa. Sua voz era terna, mas firme, com a ressonância de quem sempre buscou viver o Evangelho: "Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras."

A sugestão de trazer São Francisco de Assis para esta série partiu do amigo Florian Madruga, nascido a 4 de outubro – dia consagrado ao santo. Neste novo encontro imaginário, São Francisco, de quem Florian é devoto, conta como abandonou a vida de luxo para abraçar a pobreza, fala sobre o poder do abraço no leproso que mudou tudo, e ensina que a verdadeira alegria não está nos milagres, mas na paciência diante das ofensas. Ele recorda o momento em que recebeu as marcas de Cristo — os estigmas — no Monte Alverne, dois anos antes de morrer, e explica que toda a Criação é sua família. Por fim, deixa um recado sobre a importância de viver o Evangelho com a vida, não apenas com palavras, e mostra que a simplicidade é o único caminho seguro. (Roberto Homem)

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Encontros Impossíveis - Monteiro Lobato

 Encontros Impossíveis

O Brasil que ainda precisa acordar


Entre ecos de papel e faíscas de pensamento, o autor que deu voz ao Sítio do Picapau Amarelo retorna para conversar sobre livros, progresso e a infância de um país que ainda busca crescer

“Escrever é ato de fé: plantar ideias no chão duro da ignorância e esperar que brotem.” – Monteiro Lobato


Nem dia, nem noite — apenas uma luz difusa, como se o tempo respirasse. O ar cheira a papel antigo e a ideias em combustão. Há murmúrio de tipografia, como se letras se juntassem sozinhas no ar, formando frases impacientes por nascer. Nesse espaço sem chão nem teto, surge Monteiro Lobato. Não caminha: acende-se, como palavra que ganha corpo no instante em que é dita. O olhar é o mesmo de sempre — vivo, irônico, obstinado. O bigode parece carregar as histórias de todo um país que teima em não acordar. Ele fala e o som ecoa como martelo em oficina: cada frase uma faísca, cada pausa uma provocação. Aqui, onde o tempo se curva para ouvir, falamos sobre infância, livros, progresso e a eterna insônia do Brasil. Não há mesa nem gravador — apenas o rumor das ideias. Lobato não regressa do passado: ele permanece onde sempre esteve — no território inquieto das perguntas que não envelhecem.

 

No novo capítulo da série Encontros Impossíveis, Monteiro Lobato surge entre névoas de tinta e memória para uma conversa que atravessa séculos. Fala sobre a infância em Taubaté, o poder dos livros, a modernidade, o humor, o “politicamente correto” e a responsabilidade de um país que ainda precisa aprender a pensar. Com a verve afiada e o coração de educador, o criador do Sítio do Picapau Amarelo reafirma sua fé na leitura e na imaginação como motores da transformação. (Roberto Homem)

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Encontros Impossíveis – Chico Xavier

 Encontros Impossíveis

O sopro da luz


Entre o mistério e a ternura, a criatividade e a inteligência artificial, ele retorna com a mesma voz mansa que consolou milhões e mantém esta ‘conversa’ imaginária com o SuperPauta sobre vida, morte e o amor que atravessa fronteiras


“A vida não termina com a morte. Ela apenas muda de estação.” — Chico Xavier

 

Quando o amor se recusa a morrer, ele encontra caminhos para atravessar fronteiras que a razão não compreende. Aqui, no jornalismo do impossível, a conversa segue — mesmo para além da vida. A névoa não assusta. É macia, luminosa, quase viva. Há cheiro de papel e incenso, de prece e madrugada. À minha frente, uma mesa simples de madeira rústica. Um caderno aberto. Um lápis apontado com cuidado. Chico Xavier não surge — ele se insinua, com a delicadeza dos que sabem chegar sem ruído. Olhos baixos, sorriso tímido, o gesto sereno de quem aprendeu que a fé é mais forte que o medo. Ele me oferece uma cadeira como quem oferece refúgio. Assim começa a conversa — não entre um vivo e um morto, mas entre duas saudades tentando se entender.

 

No novo capítulo dos Encontros Impossíveis, Chico Xavier fala sobre infância, mediunidade, humor, fé, desigualdade, redes sociais, meio ambiente e o que realmente importa quando a vida muda de estação. Em tom simples e cheio de ternura, o médium mineiro revela sua visão sobre o Brasil, a juventude e o futuro do planeta — e deixa uma última imagem de humildade e esperança. (Roberto Homem)

 

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Encontros Impossíveis: Getúlio Vargas

Encontros Impossíveis

O silêncio da história



Do outro lado da História, ele ainda mede palavras e destinos — Getúlio, o homem que jamais deixou o poder, “fala” ao SuperPauta, por sugestão do amigo Sérgio Penna

"Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida." – Getúlio Vargas


A névoa é densa, mas não é fria. Paira no ar um murmúrio distante — discursos, multidões, o som abafado de um tiro que o tempo ainda não conseguiu silenciar. Entre as sombras, surge Getúlio Dornelles Vargas: o gaúcho taciturno, o estrategista de fala mansa, o homem que soube ser amado e temido na mesma medida. O terno escuro parece absorver a luz. Na mão, uma cuia de chimarrão que nunca esvazia. O ambiente é um limbo de lembranças, um salão onde o passado e o futuro se cruzam. À volta, há pilhas de papéis, decretos e cartas que se movem sozinhos, como se o vento da História as folheasse. Um rádio antigo, de válvulas trêmulas, sussurra ao fundo o eco de sua própria voz — “Trabalhadores do Brasil...” Getúlio me analisa em silêncio. Há firmeza no olhar, mas também cansaço — o cansaço sereno de quem já entendeu tudo. Ele oferece o mate, eu o convido à confissão.

Entre goles de chimarrão e silêncios que ainda ecoam, Getúlio fala do suicídio que virou símbolo, dos bastidores da crise que o derrubou, das dores e glórias de governar, da guerra e das ilusões do presente, da precarização do trabalho e da esperança que insiste em renascer — temas do passado que continuam batendo no peito do Brasil como se fossem de ontem. (Roberto Homem)

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Encontros impossíveis: Vinicius de Moraes

Encontros Impossíveis

O Amor Além da Vida


Desta vez, o encontro impossível é com o “Poetinha” que fez do amor uma religião e da poesia, um modo de viver.

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” — Vinicius de Moraes


A névoa se desfaz devagar, e no meio dela surge o velho Vinicius — o Poetinha, o diplomata do amor, o homem que fez da palavra um corpo vivo. Ao lado, um copo de uísque, meio cheio; ao fundo, um samba de Paulinho Nogueira rodando num vinil que parece eterno. Ele sorri, acende um cigarro imaginário e me convida a sentar. O cenário é uma mesa que poderia estar em qualquer bar do mundo — ou talvez no céu dos boêmios, onde as madrugadas nunca terminam. A conversa começa. E não acaba nunca. 

Entre goles e lembranças, Vinicius fala da solidão digital, da intolerância, das guerras e dos amores efêmeros — temas que parecem novos, mas que ele sempre previu com sua sensibilidade antiga e eterna. (Roberto Homem)

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Encontros impossíveis: Nélson Rodrigues

 

Encontros Impossíveis:  

Uma Conversa com o Espírito Rodrigueano

Um encontro impossível com o “anjo pornográfico”, que segue encenando o drama humano — agora, do outro lado do palco.

“A morte não é o fim da peça. É apenas a troca de cenário.” — Nelson Rodrigues

Nunca imaginei que um dia entrevistaria Nelson Rodrigues — e, ainda assim, aqui estou. Não sei se foi sonho, delírio ou milagre da tecnologia. O fato é que ele surgiu diante de mim como uma aparição: o terno amarrotado, o cigarro pendendo entre os dedos, o olhar perdido numa distância que não pertence a este mundo. Ficou em silêncio por um longo momento, o cigarro se consumindo lentamente. Quando finalmente falou, sua voz tinha o peso da eternidade — e o humor ferino de quem já atravessou a morte, mas continua lúcido demais para ser um santo. (Roberto Homem)