Entrevista imaginária por Roberto Homem
O cenário
O estúdio está quase escuro. Não pertence a uma emissora, a uma gravadora ou a um teatro conhecido, embora carregue vestígios de todos eles. À esquerda, um piano de cauda espera com a tampa aberta. À direita, uma cortina vermelha respira devagar, empurrada por um vento que não deveria existir ali. No centro, há apenas um microfone antigo, um banco alto e um círculo de luz branca sobre o chão.
Atrás do vidro da técnica, as fitas giram sem operador. Em cada volta, devolvem fragmentos de tempos diferentes: a vibração de um auditório de rádio em Porto Alegre, o coro impaciente de um festival, uma risada durante “Águas de Março”, o silêncio denso de um teatro nos anos de chumbo. Nenhum trecho chega a se completar. É como se a memória, antes de virar música, ainda procurasse a tonalidade certa.
Elis Regina entra sem anúncio. Está de preto, os cabelos curtos, os pés firmes no chão. Não traz o sorriso aberto das capas nem a solenidade que a posteridade costuma impor aos mortos célebres. Aproxima-se do microfone, experimenta a distância com os olhos e dá dois toques secos na haste.
— Está muito alto — diz.
Baixo um pouco.
Ela testa novamente. Em vez de falar, sustenta uma nota curta, quase sem vibrato. As fitas atrás do vidro parecem parar para ouvi-la. Quando o som desaparece, Elis sorri de leve.
— Agora sim. O silêncio está afinado.
A entrevista
Elis Regina — Maior cantora do Brasil é uma coisa que vocês inventaram, né? Antes disso — e durante isso também — eu era a Elis, uma guria de Porto Alegre que ouvia rádio feito doida e queria cantar. Imitava todo mundo. Ângela Maria, aquelas vozes todas. Eu prestava atenção em como a pessoa respirava, onde ela apertava uma palavra. Só não sabia que estava “estudando interpretação”. Eu estava era ouvindo.
Lá em casa não tinha essa conversa de menina predestinada, não. Tinha conta, tinha horário, tinha pai e mãe querendo saber se aquilo ia dar em alguma coisa. Meu pai, Romeu, acreditava muito; minha mãe, Ercy, era mais de olhar a realidade. Então fiquei com as duas coisas: uma vontade danada e o pé no chão. Cantar era um prazer enorme, mas era trabalho. Sempre foi.
SuperPauta: A primeira tentativa no Clube do Guri terminou sem que você conseguisse cantar. O fracasso começou antes da estreia?
Elis Regina — Fracasso é uma palavra meio grande para uma menina de sete anos, não acha? Eu fui lá e não cantei. Simplesmente não saiu nada. Fiquei apavorada, voltei para casa e pronto. Aos doze anos fui outra vez, porque a vontade continuava me incomodando.
Medo eu tive a vida inteira, bicho. Antes de estreia, de disco, de tudo. Essa história de que o artista sobe no palco absolutamente seguro é conversa. O que acontece é que você aprende a trabalhar com o medo. Ensaiar, prestar atenção, chegar sabendo o que vai fazer. Se deixar, ele acaba com você. Mas um pouquinho também não deixa a gente dormir no ponto.
SuperPauta: Aos treze anos você já era contratada da Rádio Gaúcha. A menina sustentava a família ou a família sustentava a menina?
Elis Regina — Primeiro a família sustentava a menina. Depois a menina começou a ajudar em casa. Não há nenhum romance especial nisso. A gente precisava, eu podia trabalhar e trabalhei. Com treze anos já tinha programa, horário, cachê, compromisso. Se estava com vontade ou sem vontade, era problema meu; o microfone estava lá.
Agora, eu gostava daquilo. Não quero fazer uma infância miserável porque não foi. Gostava do estúdio, dos músicos, daquela hora em que todo mundo se entendia sem precisar explicar muito. Mas cresci depressa, sim. Quando a voz começa a entrar no orçamento da casa, deixa de ser só brincadeira.
SuperPauta: Seus primeiros discos tentaram transformá-la numa cantora juvenil, próxima das modas da época. Você se reconhece naquela “brotolândia”?
Elis Regina — Eu me reconheço, claro. Não vou dizer que aquela menina era uma impostora só porque hoje eu faria diferente. Eu estava começando, cantava o que aparecia, vestia a roupa que davam e imitava muito do que ouvia. Quem começa sem imitar ninguém está mentindo ou nunca escutou ninguém.
Era uma brotolândia danada, né? [Ri.] Algumas coisas eu ouço e penso: “Meu Deus, precisava mesmo?” Mas precisava. Eu vinha da Ângela Maria, das grandes cantoras do rádio, daquele vibrato, daquele gesto todo. Depois fui tirando coisa, descobrindo divisão, silêncio. Não joguei a cantora antiga fora. Fui vendo o que ainda servia e o que já não cabia em mim.
SuperPauta: Quando você deixou Porto Alegre, em 1964, foi atrás de uma carreira ou fugiu do limite que já enxergava ao redor?
Elis Regina — Fui atrás de trabalho. Porto Alegre me deu tudo no começo, mas o negócio estava acontecendo no Rio e em São Paulo. Não adiantava eu ficar lá dizendo que tinha talento e esperando o Brasil descobrir por telepatia. Tinha que ir.
E fui com ambição, sim. Eu queria fazer uma coisa importante. Queria cantar com músico bom, escolher repertório, aprender. Mulher dizer que é ambiciosa assusta um pouco, parece que cometeu um pecado. Então põe aí: eu era ambiciosa. E também era muito ignorante em um monte de coisa. Cheguei querendo e fui aprendendo, muitas vezes levando tombo na frente de todo mundo.
SuperPauta: Antes de “Arrastão”, Tom Jobim não a escolheu para o disco de Pobre Menina Rica. Ser recusada por Tom deixou cicatriz?
Elis Regina — Deixou, lógico. Eu queria fazer e não fui escolhida. Quem diz que não liga para uma coisa dessas está fazendo gênero. Eu liguei. Fiquei danada, devo ter falado um bocado também, porque eu falava antes e pensava depois com uma facilidade impressionante.
Mas o Tom não era obrigado a me escolher. Talvez eu não fosse mesmo a cantora para aquele trabalho naquele momento. Depois a gente fez Elis & Tom. Então veja que coisa: se eu transformar a primeira recusa numa grande injustiça, apago o que o tempo fez depois. Nem toda porta fechada é perseguição, sabe? Às vezes você ainda não cabe naquela sala. Às vezes a sala também não está pronta para você.
SuperPauta: Em 1965, “Arrastão” mudou sua vida. Você venceu o festival ou foi o festival que inventou uma Elis maior que a própria canção?
Elis Regina — Ah, os dois. “Arrastão” me deu uma dimensão que eu não tinha, e eu dei à música tudo o que tinha naquele momento. Braço, perna, voz, cabelo, desespero — fui inteira. A canção pedia aquela puxada, aquela coisa física. Não dava para ficar parada feito um vaso.
Depois virou um problema, porque queriam o braço em todas as músicas. “Faz aquilo outra vez.” Aí vieram Hélice Regina, Eliscóptero... Eu achava graça e ficava furiosa, depende do dia. [Ri.] Demorei para aprender que intensidade não é fazer muito. Você pode ficar absolutamente quieta e arrebentar uma música. Mas eu precisei passar por aquela ventania para descobrir isso.
SuperPauta: Você foi chamada de Pimentinha. O apelido a divertia ou servia para reduzir uma mulher exigente a um temperamento difícil?
Elis Regina — Vinicius dizia com carinho, e eu era uma pimentinha mesmo. Impaciente, estourada, respondia depressa. Às vezes respondia muito bem; às vezes dizia uma tremenda bobagem. Não vou agora posar de criatura serena porque morri. Seria falsificar a mercadoria.
Agora, tem outra coisa. Quando um homem sabe exatamente o que quer no ensaio, dizem que ele é exigente. Quando é uma mulher, de repente ela é nervosa, histérica, impossível. Eu fui injusta algumas vezes? Fui. Pedi desculpa nem sempre na hora em que devia. Mas também sabia música, bicho. Se alguma coisa estava errada, eu ouvia. Não era chilique só porque eu não sorria enquanto dizia.
SuperPauta: Em O Fino da Bossa, ao lado de Jair Rodrigues, você entrou semanalmente na casa dos brasileiros. O que Jair lhe ensinou que estudo nenhum ensinaria?
Elis Regina — O Jair tinha uma alegria que não era fabricada. Ele entrava e pronto: o ambiente mudava. Era muito generoso também. Não ficava nessa mesquinharia de contar câmera, aplauso, quem apareceu mais. Eu era uma pilha elétrica; ele chegava e abria a janela. Dava certo por isso.
E a gente aprendeu televisão fazendo, ao vivo, com plateia, músico, erro, diretor arrancando os cabelos. Não havia como polir tudo. Dois na Bossa tem essa coisa de convivência. Você ouve duas pessoas que estão gostando de cantar juntas. Pode afinar, cortar, montar o que quiser — se esse prazer não estiver lá, bicho, não há máquina que ponha.
SuperPauta: Você ajudou a liderar a passeata contra a guitarra elétrica em 1967. Hoje, olhando de longe, pisaria outra vez naquela avenida?
Elis Regina — Não. Pelo menos não daquele jeito, com aquela certeza toda. Aquilo era uma salada: defesa da música brasileira, briga de televisão, medo, mercado, vaidade — e nós resolvemos pôr a culpa na guitarra. A guitarra, coitada, não tinha feito nada. Instrumento não é imperialista. Pode ser bem tocado ou uma porcaria, como qualquer outro.
Eu demorei para entender a Tropicália, sim. Vi ameaça onde também havia invenção e liberdade. Depois cantei Gil, Caetano... Então não vou inventar agora que compreendi tudo desde o início. Não compreendi. A gente muda, né? Se o artista continua defendendo aos quarenta todas as certezas que tinha aos vinte, ou ele nasceu iluminado ou parou de prestar atenção.
SuperPauta: Você dizia não ser compositora, mas escolhia repertório como quem escrevia uma obra. Interpretar também é uma forma de autoria?
Elis Regina — É uma autoria, mas vamos pôr cada um no seu lugar. Eu não escrevi a letra nem a melodia. Agora, a música não chega pronta só porque está no papel. Tem o andamento, o tom, a respiração, a palavra que você vai iluminar e aquela que é melhor deixar quieta. Tudo isso muda o que a canção diz.
E essa história de que eu “lançava” compositor... Parece que eu era uma instituição beneficente. Eu gravava Milton, Ivan, Belchior, João Bosco e Aldir, Renato, Fátima porque precisava daquelas músicas. Eles tinham alguma coisa que eu queria dizer. Se depois minha voz ajudou a abrir uma porta, ótimo. Mas primeiro tinha que me arrepiar. Eu não fazia caridade com repertório.
Elis Regina — Não tenho uma fórmula. Se tivesse, montava uma fábrica. [Ri.] Eu ouvia, mexia no tom, no andamento, tirava coisa. Às vezes deixava só voz e piano para ver se ela continuava respirando. Mas havia música que me pegava justamente por uma palavra torta, uma harmonia que eu não entendia de primeira. Eu voltava. Quando você quer voltar, já é um sinal.
E não é necessariamente a música em que a cantora pode mostrar tudo. Muitas vezes é o contrário. A canção boa manda você guardar metade do que sabe. Tem nota linda que estraga uma frase. Cantor adora uma nota linda, né? O difícil é ter juízo e não dar a nota quando ela não pertence à história.
SuperPauta: Milton Nascimento foi um desses encontros. O que você ouviu nele antes que o país inteiro aprendesse a ouvir?
Elis Regina — Ouvi uma coisa que eu não sabia explicar — e isso é ótimo. O Milton aparecia com uma voz, uma harmonia, um mundo inteiro que não parecia cópia de ninguém. Tinha montanha, igreja, trem, jazz, menino... tudo junto, mas sem virar mistura. Era ele.
Quando aparece alguém assim, o intérprete tem que tomar cuidado para não passar o trator. Não adiantava eu pegar a música do Milton e “elisreginizar” até ele desaparecer. Também não ia imitá-lo, porque seria ridículo. Eu queria saber o que aquela música provocava em mim. O encontro bom é esse: você entra, se modifica um pouco e não expulsa o dono da casa.
SuperPauta: E João Bosco e Aldir Blanc? Em sua voz, aquela parceria ganhou corpo político e popular.
Elis Regina — O João fazia umas divisões que davam trabalho, graças a Deus. Música que não exige nada da gente também não devolve muita coisa. E o Aldir botava gente lá dentro. Não “o povo” com letra maiúscula, essa entidade que todo mundo usa em discurso. Era o sujeito da rua, com nome, profissão, defeito, uma graça meio triste.
Aquilo me servia muito. Eu podia cantar uma coisa política sem subir num caixote para fazer comício, entende? Primeiro vinha a música, a personagem, a vida daquela gente. “O Bêbado e a Equilibrista” virou o que virou porque o Brasil se reconheceu nela. Ninguém sentou numa sala e falou: “Agora vamos fabricar o hino da anistia.” Se tivesse feito isso, provavelmente sairia um troço chatíssimo.
SuperPauta: Antes disso, porém, houve sua relação contraditória com a ditadura. Você criticou o regime, foi ameaçada e acabou cantando numa cerimônia oficial. Como se vive com uma fotografia que parece dizer o contrário do que se acredita?
Elis Regina — Vive-se mal. A fotografia fica lá e não mostra o telefonema, a ameaça, o medo, a família. Mostra você cantando. Eu fui pressionada e cantei. Não vou chamar aquilo de ato de resistência porque não foi. Agora, também não aceito que contem como se eu tivesse acordado feliz e dito: “Que maravilha, hoje vou servir de enfeite para a ditadura.” Não foi assim.
O Henfil me pôs no Cemitério dos Mortos-Vivos. Doeu para burro. Depois ele reviu, a gente se aproximou. Eu me envolvi com a anistia, com os músicos, com os trabalhadores. Isso me absolve? Não sei nem se a pergunta é essa. Eu tive medo, fiz uma concessão e continuei vivendo e tomando posição. Ser humano é essa confusão, bicho. Quem quiser uma heroína sem medo vai ter que mandar fazer de bronze.
SuperPauta: Você se considerava uma cantora política?
Elis Regina — Eu me considerava cantora. Já dava um trabalho enorme. [Ri.] Mas como é que você canta no Brasil sem a política entrar? Ela entra pela censura, pelo amigo que está fora, pelo telefone que dá medo, pelo preço das coisas, pela música que não pode tocar. Não precisa você convidar.
Só tenho cuidado com “cantora política” porque o rótulo pode virar outra prisão. Parece que a música só presta se trouxer um certificado de boa conduta ideológica. Eu não queria cantar panfleto ruim. Queria música boa que estivesse viva no tempo dela. Quando as duas coisas se encontram, aí é muito forte. Mas não adianta uma causa justa com uma canção que não para de pé.
SuperPauta: Elis & Tom parece hoje um encontro inevitável. Na gravação, foi realmente tão harmonioso quanto a risada de “Águas de Março” nos faz imaginar?
Elis Regina — Harmonioso desde o primeiro minuto? Não, senhor. Isso é o disco pronto contando vantagem. Antes dele havia duas pessoas fortes, de gerações diferentes, num estúdio em Los Angeles, cada uma com sua ideia. O Tom podia me achar excessiva; eu podia achar que estavam querendo me diminuir. E achava. O César foi muito importante para a gente encontrar o lugar musical daquilo.
Depois aconteceu o encontro. Eu não precisei virar uma cantora de porcelana, nem o Tom teve que engrossar a música para caber em mim. A gente foi aprendendo a respirar junto. Aquela risada ficou porque era verdade. Se limpasse tudo para deixar perfeito, talvez o disco ficasse muito bonito e um pouco morto. Perfeição demais às vezes é falta de educação com a vida.
SuperPauta: César Camargo Mariano foi marido, pianista, arranjador e parceiro criativo. Onde terminava o amor e começava o trabalho?
Elis Regina — Não terminava. Esse era o encanto e era o perigo. A gente discutia um acorde carregando a briga do café da manhã e, de repente, resolvia uma coisa da vida tocando. Quando se divide casa, filho, ensaio, viagem, palco, não tem uma portinha escrita “agora começa o trabalho”.
O César foi fundamental na música que fiz nos anos 70. Ele conhecia minha respiração, sabia abrir espaço para a palavra e me exigia muito. Não era um pianista andando atrás da estrela; construía comigo. Isso não quer dizer que a vida tenha sido um comercial de margarina. Houve conflito, houve fim. Uma coisa não apaga a outra. Essa mania de precisar escolher entre “foi maravilhoso” e “foi horrível” é muito infantil, sabe?
SuperPauta: Você foi mãe de três filhos no período mais intenso da carreira. O público lhe permitia ser mãe sem cobrar que continuasse disponível como se os filhos não existissem?
Elis Regina — Permitir é uma palavra generosa. O público quer a cantora no palco e não fica fazendo a conta de quem está com o filho enquanto ela canta. A indústria, então, quer que a mulher tenha filho e reapareça igualzinha, no prazo, afinada, magra e sorrindo. Se viaja, é culpa. Se fica, abandonou a carreira. Tem sempre alguém fazendo a contabilidade da mãe.
Eu amava meus filhos e amava meu trabalho. Pronto. Não vou escolher um amor para provar o outro. Tentei fazer caber e muitas vezes não coube direito. Fiquei ausente quando queria estar perto, trabalhei cansada, errei. Mãe não vira santa no parto, bicho. Continua sendo uma pessoa, inclusive uma pessoa ambiciosa.
SuperPauta: Falso Brilhante transformou sua trajetória num espetáculo. O que havia de falso naquele brilho?
Elis Regina — O falso era achar que o brilho protege alguém. Não protege nada. O refletor aumenta você para o público e, ao mesmo tempo, mostra até o buraco da meia. Depois a pessoa sai dali com cansaço, dúvida, conta, filho, tudo igual. O artista faz o número mesmo quando está por dentro pedindo intervalo.
E eu queria um espetáculo, não uma fila de músicas com “muito obrigada” no meio. Queria luz, texto, silêncio, corpo, uma história acontecendo. Foram quase trezentas apresentações. As pessoas pensam que repetir torna fácil. Torna perigoso. Porque o corpo aprende sozinho e você corre o risco de deixar de estar ali. Toda noite tinha que encontrar a coisa outra vez.
SuperPauta: Em Transversal do Tempo, o país parecia atravessar o espetáculo. Você acreditava que a abertura política era real?
Elis Regina — Eu achava que alguma coisa estava mexendo, mas devagar e com muita gente querendo escolher até onde. Chamavam de abertura, distensão... Bonitas palavras. Enquanto isso ainda havia censura, medo, gente fora. Então era uma fresta. Importante, claro, porque por uma fresta já entra ar. Mas não vamos chamar de porta escancarada.
Transversal tinha buzina, cidade, notícia, aquele país querendo andar e engarrafado. A esperança existia, só não podia ser boba. Se quem fechou tudo aparece depois querendo receber aplauso porque abriu dois dedos, é bom perguntar quem ficou com a chave esse tempo inteiro.
SuperPauta: Em “O Bêbado e a Equilibrista”, sua voz ficou associada à volta dos exilados. Você percebeu imediatamente que estava gravando um hino?
Elis Regina — Não. Eu sabia que era uma canção extraordinária e que tocava numa ferida muito viva. Mas hino quem decide é a rua. Se a cantora entra no estúdio pensando “agora vou gravar um hino”, já começa a endurecer a voz, botar medalha, mármore... e mata a equilibrista.
Ela tinha que ser frágil e teimosa. A esperança estava andando num fio, não posando para fotografia. Depois eu vi aquela música na boca de gente que esperava o marido, o filho, o amigo voltar. Aí não era mais nossa. É uma coisa linda e também meio assustadora: a canção sai de casa e passa a pertencer à necessidade dos outros.
SuperPauta: Você brigou por direitos dos músicos e se aproximou do movimento operário no fim da vida. A cantora mais bem paga ainda se sentia trabalhadora?
Elis Regina — Evidentemente. Eu recebia bem, mas continuava vendendo meu trabalho. E atrás de mim havia músico, técnico, contrarregra, iluminador, motorista, uma porção de gente que chegava antes e ia embora depois, enquanto eu recebia flor. Se eu usasse o nome só para melhorar meu camarim, estava entendendo tudo errado.
Fama também não dá estabilidade. Enquanto você dá lucro, é maravilhosa. No dia em que pergunta de contrato, pagamento, direito, vira “difícil”. Artista tem essa mania bonita de dizer que vive de amor. Vive de amor, mas almoça, paga aluguel e cria filho, né? Quando dizem que dinheiro estraga a arte, geralmente é alguém querendo ficar com o dinheiro da arte.
SuperPauta: Você tinha fama de descobrir compositores. Hoje, algoritmos recomendam canções com base no comportamento do público. Eles reconheceriam um novo Milton Nascimento?
Elis Regina — Primeiro você vai ter que me explicar direito esse algoritmo. [O entrevistador explica.] Ah, é uma espécie de sujeito que olha o que você ouviu e diz o que deve ouvir depois? Então talvez ele encontrasse pessoas parecidas com quem já gosta do Milton. Mas reconhecer o Milton antes de existir outro Milton é diferente, não é?
Não tenho nada contra a ferramenta. Gravadora fazia pesquisa, rádio escolhia programação, televisão media audiência. Sempre houve alguém contando. O problema é a contagem começar a compor a música. “Ponha o refrão aqui, tire a introdução, faça parecido com aquilo que funcionou.” Aí fica todo mundo muito informado e ninguém é surpreendido. E música, para mim, sem espanto não serve para grande coisa.
SuperPauta: Como ouviria a correção digital de afinação e a inteligência artificial capaz de fabricar vozes?
Elis Regina — Corrigir uma nota? Estúdio sempre corrigiu coisa. Escolhe outra tomada, corta fita, põe reverberação. Não vou fingir que gravávamos numa caverna em estado de pureza. Agora, se a máquina corrige tudo até ninguém mais saber quem cantou, para que chamar a pessoa? Contrata logo a máquina e manda flores para ela.
[O entrevistador explica que a inteligência artificial pode imitar uma voz.] Pode fazer eu cantar uma música que nunca cantei? Então a primeira pergunta é: quem mandou? A segunda: quem ganha com isso? Porque minha voz não é só aquele som. Tem respiração, escolha, história, inclusive erro. Se inventarem uma Elis, têm que dizer que inventaram. Senão amanhã me põem vendendo sabonete ou apoiando uma coisa que eu detestaria. É muito confortável fazer o morto falar: ele não interrompe ninguém para dizer “não foi isso”.
SuperPauta: Mas não é exatamente o que estou fazendo agora? Colocando palavras na boca de uma mulher que morreu e não pode me interromper para dizer: “Não foi isso”?
Elis Regina — É. Ainda bem que você percebeu. [Ri.] A diferença — se houver uma — está em não esconder o truque. Você não encontrou uma fita minha falando de inteligência artificial. Você estudou o que eu disse, imaginou o que eu poderia dizer e avisou ao leitor que a conversa nunca aconteceu.
Mas isso não lhe dá licença para qualquer coisa, não. Você pode me fazer falar com alguma verossimilhança ou pode usar meu nome para confirmar tudo o que você já pensava. O morto não corrige nenhum dos dois. Quem precisa desconfiar de você é o leitor — e você mesmo, enquanto escreve.
SuperPauta: Então esta entrevista só é legítima enquanto admite que pode estar errada?
Elis Regina — Legítima eu não sei. Essa palavra parece carimbo de repartição. Digamos que ela fica mais honesta quando não se apresenta como verdade recuperada. Isto aqui é literatura, não é documento.
E tem outra coisa: se todas as minhas respostas saírem mais bonitas, coerentes e inteligentes do que qualquer coisa que uma pessoa consegue dizer durante uma conversa, você não me recriou. Você me penteou. Deixe alguma dúvida, alguma implicância, alguma resposta atravessada. Senão não sou eu — é a sua admiração usando meu nome.
SuperPauta: Em 2023, uma campanha da Volkswagen recriou você por inteligência artificial, cantando “Como Nossos Pais” ao lado de Maria Rita. Quero lhe mostrar. (Coloco o filme numa tela do estúdio. Elis acompanha em silêncio. Quando a Kombi conduzida por sua imagem surge ao lado da filha, inclina o corpo para a frente. Não comenta. Continua olhando até a tela escurecer.)
Elis Regina — Passa outra vez.
SuperPauta: (O filme recomeça. Na segunda exibição, ela presta menos atenção à própria imagem do que ao rosto de Maria Rita. Ao final, permanece alguns segundos em silêncio.)
Elis Regina — Eu não vi a Maria crescer. Quando fui embora, ela tinha quatro anos. Agora você me mostra essa mulher, essa cantora, e nós duas dividindo uma canção... É bonito, bicho. E é estranho também, porque quem aparece ali comigo é uma imagem feita por uma máquina. Mas a emoção que eu vejo nela não foi máquina nenhuma que fez.
Eu gostaria de ouvi-la contar como foi. Não para dar explicação, nem para justificar coisa alguma. Gostaria de ouvir como mãe. Saber o que ela sentiu cantando ao lado dessa imagem, o que passou pela cabeça dela quando olhou para o lado e encontrou um rosto que conheceu tão pouco e carregou durante a vida inteira.
Aquela mulher na Kombi não sou eu. É uma lembrança construída com o meu rosto e a minha voz. Mas a Maria está ali. A voz é dela, o sentimento é dela, o encontro também é dela. E se, por alguns minutos, a música lhe permitiu viver alguma coisa que a vida não nos deu tempo de viver, então eu só posso receber isso com carinho.
SuperPauta: E o fato de ser uma campanha de automóvel?
Elis Regina — Eu vi. Tem uma Kombi de cada lado, não é exatamente uma mensagem escondida. [Sorri.] Mas não quero usar isso para diminuir o que aconteceu entre nós duas. Arte e comércio sempre conviveram — às vezes bem, às vezes mal. Nesse filme, o que me interessa não é o carro. É a minha filha olhando para o lado.
SuperPauta: Hoje, cantoras são pressionadas a ser voz, corpo, marca, produtora de conteúdo e presença diária nas redes. Você se adaptaria?
Elis Regina — Eu ia reclamar feito uma condenada e depois ia aprender. Usei rádio, televisão, disco, dei entrevista; não tenho vocação para fingir que o meio novo estraga tudo. Mas essa obrigação de mostrar o café, o ensaio, o filho, a roupa, a briga, o minuto anterior ao palco... Pelo amor de Deus. A pessoa precisa ter uma parte da vida que não esteja no ar. Senão vai cantar o quê depois?
E já falavam do meu peso, do cabelo, da roupa. Imagino isso multiplicado por milhares de pessoas escrevendo na mesma hora. Deve ser uma violência. Por outro lado, a cantora pode falar com o público sem pedir licença a meia dúzia de homens numa gravadora. Isso é formidável. Toda ferramenta abre uma porta e tenta cobrar pedágio, né? Eu usaria. Só não prometo que usaria de bom humor.
SuperPauta: Como mulher, você precisou ser duas vezes melhor para receber o mesmo poder de decisão?
Elis Regina — Tinha que saber e ainda parecer muito simpática enquanto sabia. Esse era o truque. Eu falava do tom, do arranjo, do músico, da luz, e às vezes recebiam como capricho. A cantora podia estar no centro da fotografia; na hora de decidir, aparecia logo alguém querendo explicar o próprio trabalho a ela.
Mas também não vou bancar a pobre vítima sem poder nenhum. Eu tive poder, abri portas e devo ter fechado algumas também. Fui justa sempre? Claro que não. Então não basta uma mulher chegar ao lugar do homem e repetir as mesmas brutalidades. Quero mulher decidindo, recebendo, criando, sendo respeitada. E respondendo pelo que faz, como qualquer pessoa. Senão é só troca de cadeira.
SuperPauta: Sua morte, aos 36 anos, acabou muitas vezes se sobrepondo à maneira como sua vida é contada. Como tratar daquela manhã de janeiro de 1982 sem ocultá-la e sem permitir que ela explique tudo o que veio antes?
Elis Regina — Essa é uma pergunta que eu não posso responder como lembrança, porque você conhece aquela manhã e eu, evidentemente, não. Então não me faça narrar a minha própria morte. O que posso lhe pedir — dentro deste encontro impossível — é cuidado.
Não esconda o que aconteceu. Houve cocaína, houve álcool e houve uma morte aos 36 anos. Isso faz parte da história. Mas não transforme uma informação sobre as últimas horas numa explicação para uma vida inteira. Eu fui filha, mãe, companheira, cantora, trabalhadora; tive medo, alegria, contradição, fiz escolhas certas e erradas. Nenhuma dessas coisas cabe integralmente num laudo ou numa manchete.
Também não procure uma morte grandiosa para combinar com a cantora. Não invente conspiração, não fabrique mistério e não faça sermão. Há uma família nessa história, há filhos que continuaram vivendo e não devem ser convocados a assistir eternamente ao julgamento daquela manhã.
Fale do que se sabe com sobriedade. E depois volte à música. Não para fugir da verdade, mas porque minha morte pertence à minha biografia; não pode receber o direito de interpretar toda a minha vida.
SuperPauta: Seus filhos seguiram caminhos ligados à música. Isso lhe dá a sensação de continuidade?
Elis Regina — Dá uma alegria enorme. Mas continuidade parece que eles foram contratados para manter aberta uma firma chamada Elis Regina. Não foram. João Marcello, Pedro e Maria Rita têm a vida deles. Filho de artista já nasce devendo explicação por uma comparação que não pediu.
Eu ficaria emocionadíssima, claro. Sou mãe, não sou uma tese. Só não diria “minha voz continua neles”, porque fica bonito para mim e pesado para eles. Talvez continue uma maneira de ouvir, uma exigência, umas histórias de casa que ninguém conhece. A voz é de cada um. Herança não pode virar ordem.
SuperPauta: Se pudesse entrar hoje num estúdio com uma compositora ou um compositor brasileiro que surgiu depois de 1982, quem escolheria?
Elis Regina — Ah, não. Você quer um nome para pôr no título e umas vinte pessoas zangadas comigo. Não vou lhe dar esse prazer. Primeiro eu teria que ouvir. Ouvir mesmo, não receber uma lista dos mais importantes segundo alguém.
Eu pediria canções. Tirava fotografia, idade, venda, esse número de seguidores que você explicou. Voz e violão, voz e piano, às vezes só a fita com a melodia. Talvez escolhesse uma pessoa conhecidíssima. Talvez alguém que nem apareceu ainda. O prestígio é muito eficiente para explicar por que você gostou depois que já gostou. Antes, quem tem que resolver é o ouvido.
SuperPauta: Depois de tantas imagens — Pimentinha, estrela, furacão, mãe, militante, mulher difícil — quem foi Elis Regina?
Elis Regina — Uma cantora. E não diga “apenas”, porque cantora para mim já contém uma vida inteira. Tem ouvido, corpo, estudo, medo, vaidade, escolha, trabalho, palavra, silêncio e uma porção de erro.
Eu não fui a melhor todos os dias. Não entendi tudo na hora certa, não fui corajosa o tempo inteiro e machuquei gente. Também acertei umas canções bem no meio. É o que posso dizer. Não me arrumem agora uma perfeição póstuma, pelo amor de Deus. Além de mentira, deve ser chatíssimo passar a eternidade sem poder cometer uma contradição.
SuperPauta: Quando a fita parar de girar, o que você gostaria que permanecesse neste estúdio?
Elis Regina — A escuta. Reverência demais põe a pessoa numa prateleira alta, junta poeira e ninguém mais toca. Ouçam as canções, os compositores, os músicos, os arranjos. Ouçam até onde eu respirei errado. Discordem. Descubram outra cantora melhor para determinada música. Não vou cair do pedestal porque não quero pedestal nenhum.
E se uma menina me ouvir, que não pense “quero ser Elis”. Isso seria um desperdício de menina. Que pense: “O que será que a minha voz pode dizer?” Aí valeu. Agora deixe um silêncio no fim. Cantor inseguro quer preencher tudo. Às vezes a voz precisa ter educação e sair da frente.
Depois da última nota
As fitas diminuem a velocidade. O piano, que permaneceu aberto durante toda a conversa, deixa escapar um único acorde — não se sabe tocado por quem. Elis inclina a cabeça, escuta até a vibração desaparecer e só então se afasta do microfone.
Antes de atravessar a cortina, volta dois passos.
— Você vai cortar alguma coisa?
Digo que ainda preciso reler.
— Então corte o que estiver sobrando. Só não corte a contradição. É onde a pessoa respira.
Ela desaparece. Atrás do vidro, as máquinas param. Durante alguns segundos, o estúdio fica inteiramente mudo. Não é um vazio. É o tipo de silêncio que uma grande cantora deixa para verificar se alguém, do outro lado, aprendeu a escutar.











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