quinta-feira, 12 de março de 2026

Encontros Impossíveis – Mauro Gonçalves (Zacarias)

 O homem por trás da peruca

 A doçura de Zacarias, a timidez do homem e o preço de carregar o riso de um país

 

“Claro que não sou engraçado naturalmente, não brinco com a vida nem com a morte. Só brinco em serviço” — Mauro Faccio Gonçalves

  

O cenário não é um estúdio, nem um palco de auditório. É um jardim de fim de tarde em Sete Lagoas. O ar tem cheiro de terra úmida, folha amassada e café recém-coado. Não há peruca, não há o dente escurecido, não há a voz esganiçada que o Brasil aprendeu a reconhecer antes mesmo de vê-lo entrar em cena. Sentado numa cadeira de vime, Mauro Faccio Gonçalves recebe com a discrição de quem nunca confiou muito no barulho. Fala baixo, com um sotaque mineiro sem afetação, desses que não precisam se exibir para existir. Há gentileza, mas também reserva. Não a reserva antipática, e sim a de quem levou uma vida inteira protegendo um pedaço de si do apetite do mundo.

À frente do país, ele foi Zacarias, o trapalhão infantil, terno, elétrico, de pureza desajeitada. Mas ali, entre plantas, sombras longas e uma luz amarela pousando devagar sobre as folhas, aparece o homem. O ex-bancário que largou uma vida previsível para seguir o teatro, o rádio e a invenção. O artista técnico, meticuloso, observador. O mineiro que fez o Brasil rir sem jamais entregar tudo de si.

Nesta conversa, tentamos alcançar não só o personagem, mas o intervalo entre a peruca e o espelho.



  

SuperPauta: Mauro, ouvir sua voz sem o filtro do Zacarias já é, por si só, um acontecimento. O Brasil conheceu o riso, mas quase nunca conheceu o homem. Como foi viver tantos anos sendo mais reconhecido pela máscara do que pelo rosto?

Mauro Gonçalves: Isso acontece mesmo. No começo, a gente acha até bonito, porque vê o personagem crescer, o povo gostar, as crianças chamarem na rua. É uma resposta muito generosa. Mas depois vem o outro lado. As pessoas passam a procurar o Zacarias o tempo todo, e nem sempre eu estava disposto a ser o Zacarias fora de cena. Eu era mais quieto, mais reservado. Gostava do meu canto. Então havia uma diferença grande entre o que o público esperava e o que eu era no dia a dia. O personagem me deu muita coisa boa: carinho, reconhecimento, trabalho. Mas também tirou um pouco da minha paz. Quando o personagem fica famoso demais, o homem vai ficando meio escondido. E eu sempre gostei de discrição. Nunca tive vocação para viver me mostrando.

 

SuperPauta: Antes da fama nacional, havia o menino de Sete Lagoas. O que desse menino sobreviveu no artista?

Mauro Gonçalves: Acho que muita coisa. Principalmente o jeito de observar. Menino tímido presta atenção em tudo. Fica mais calado, escuta mais, repara no jeito das pessoas falarem, andarem, rirem, implicarem umas com as outras. Às vezes aprende mais assim do que se estivesse querendo aparecer. Eu sempre fui muito disso, de olhar primeiro, entender primeiro. Sete Lagoas ficou muito em mim nesse sentido. A vida no interior ensina um certo compasso. A pessoa aprende a reparar mais, a ouvir mais, a desconfiar um pouco do excesso. Eu trouxe isso comigo. Mesmo depois de muitos anos no Rio, de televisão, de estúdio, de filme, essa parte nunca saiu de mim. Acho que o Zacarias tem um pouco desse menino também. Ele era exagerado por fora, claro, mas por dentro tinha uma certa inocência, uma certa doçura, um jeito meio espantado de olhar o mundo, que eu conheci muito na gente simples. Nunca pensei nele como um personagem vazio. Sempre achei que havia ali alguma coisa humana, alguma coisa de verdade. Talvez seja isso que o público sentia, mesmo sem pensar muito nisso.

 

SuperPauta: E quando foi que esse menino de Sete Lagoas, tão observador e tão reservado, percebeu que podia subir num palco e fazer os outros rirem?

Mauro Gonçalves: Isso não veio de uma vez, não. Não foi aquele tipo de decisão clara, como quem acorda de manhã e resolve mudar de vida. Foi acontecendo aos poucos. Primeiro vem uma brincadeira aqui, uma imitação ali, uma vontade de repetir um jeito de falar que a gente viu na rua, em casa, no trabalho. A pessoa vai fazendo aquilo meio sem perceber que está treinando. Eu nunca fui o sujeito espalhafatoso fora de cena. Nunca fui de chegar dominando ambiente. Mas eu gostava muito de observar os tipos, os sotaques, as manias. E, quando comecei a experimentar isso mais de perto, vi que tinha algum jeito para a coisa. Não era vontade de aparecer. Era vontade de acertar o tom, de construir um tipo, de ver se aquela figura parava de pé. O palco, o rádio e depois a televisão foram me mostrando isso. Às vezes, a pessoa é tímida na vida e solta na criação. Em mim, acho que isso ajudou. Como eu falava menos no cotidiano, acabava guardando mais material por dentro. Quando vinha a hora de fazer, aquilo saía de outro jeito.

 

SuperPauta: Antes de o Brasil inteiro conhecer o Zacarias, houve Sete Lagoas, depois Belo Horizonte, e uma vida que ainda parecia seguir um caminho mais convencional. Como foi essa saída de Minas do interior para a capital, e quando percebeu que o teatro, o rádio e o humor estavam começando a falar mais alto?

Mauro Gonçalves: Foi tudo muito aos poucos. Em Sete Lagoas eu já gostava dessas coisas. Já fazia teatro, já tinha vontade de representar, de imitar, de brincar com tipos. Mas cidade do interior também empurra a gente para uma vida mais certa, mais arrumada. Ninguém pensa logo em viver de arte como se fosse a coisa mais natural do mundo. Quando fui para Belo Horizonte, fui com a ideia de estudar, de abrir um caminho respeitável para mim. A mudança já era grande. Sair de Sete Lagoas, que tinha outro compasso, e chegar à capital mexeu muito comigo. Belo Horizonte tinha mais movimento, mais possibilidades, mais gente, mais estímulo. E foi ali que essa parte artística, que já existia, começou a pedir mais espaço de verdade. Não foi uma decisão heroica, dessas muito bonitas de contar depois. Foi mais uma coisa que foi crescendo. O rádio foi entrando, o teatro foi ficando mais presente, e eu fui percebendo que aquilo me chamava de um jeito que outras atividades não chamavam. Ao mesmo tempo, eu continuava sendo um homem cauteloso. Então demorei um pouco para aceitar que o rumo podia ser esse mesmo. Mas, no fundo, a mudança já estava acontecendo.

 

SuperPauta: Em Belo Horizonte, o senhor chegou a estudar arquitetura. Em que momento percebeu que aquele caminho já não bastava e que o rádio, a televisão e o trabalho artístico estavam ocupando o lugar principal?

Mauro Gonçalves: Eu gostava da arquitetura, sim. Gostava de desenho, de forma, dessas coisas de composição. Não era um caminho falso, nem escolhido de qualquer jeito. Só que, ao mesmo tempo, o rádio foi me pegando muito. Ali eu podia experimentar voz, tempo, intenção, personagem. Para uma pessoa tímida, isso tinha uma vantagem grande: eu podia me expressar sem precisar me expor do mesmo jeito. Aos poucos fui sentindo que era ali que eu ficava mais inteiro. Dava trabalho, claro. Nada veio fácil. E ainda havia essa preocupação prática de ter segurança, de ganhar a vida, de não fazer uma aposta irresponsável. Por isso eu nunca vivi essa mudança como rompimento romântico. Foi mais uma passagem gradual, com medo e dúvida juntos. Mas chegou um ponto em que insistir só no caminho mais seguro começou a fazer menos sentido. O trabalho artístico me cansava, mas me animava também. Eu via que havia alguma coisa minha ali, alguma coisa que não aparecia inteira em outros lugares. Acho que foi nesse momento que entendi que não adiantava empurrar aquilo para depois. A arte já tinha entrado de vez.

 

SuperPauta: O rádio foi muito importante na sua formação. O que você aprendeu ali que depois levou para o Zacarias?

Mauro Gonçalves: Aprendi muita coisa. O rádio foi uma escola muito boa porque ali a gente precisava fazer tudo pela voz. Não tinha rosto, não tinha gesto, não tinha figurino ajudando. Então era no jeito de falar, no tempo da frase, na pausa, na respiração, que o personagem começava a aparecer. Isso me ajudou muito depois. Quando fui para a televisão, eu já levava essa preocupação com ritmo, com intenção, com o jeito certo de soltar uma palavra. O Zacarias não nasceu só da peruca ou do dente pintado. Ele nasceu muito dessa parte de dentro, desse cuidado com a voz, com o susto, com a afobação, com o jeito de reagir. O rádio me ensinou a ouvir melhor o personagem antes de mostrar ele aos outros.

 

SuperPauta: E quando você sentiu que aquele personagem começava a tomar forma de verdade? Como o Zacarias foi aparecendo no seu corpo, na sua voz, no seu jeito de entrar em cena?

Mauro Gonçalves: Foi aparecendo aos poucos. Eu nunca tive esse negócio de sentar e dizer: “Agora vou inventar um personagem assim, assim, assim.” Em geral, comigo, as coisas iam surgindo devagar. Eu já trazia muita observação de Minas, de gente simples, de sujeito tímido, meio acanhado, mas engraçado sem querer. O rádio também me ajudou muito nisso, porque me ensinou a procurar o tom da voz, o tempo da frase, a reação certa. Quando comecei a fazer o tipo, fui vendo o que combinava com ele e o que não combinava. A voz foi afinando, o jeito de andar foi ficando mais miúdo, mais nervoso, meio descompassado. Depois vieram os elementos mais visíveis, que o público guarda mais fácil. Mas isso tudo só funcionava porque por dentro já havia um temperamento. O Zacarias, para mim, nunca foi só fantasia. Ele tinha um jeito de sentir o mundo. Acho que o principal era a inocência. Eu não queria fazer um personagem só para ser motivo de gozação. Queria que ele tivesse doçura, uma fragilidade até, mas sem perder a graça. Talvez por isso ele tenha chegado tão perto das crianças. Criança percebe quando o tipo vem carregado de maldade e quando vem carregado de afeto.

 

SuperPauta: O dente escurecido, a peruca, o jeito de andar, a risadinha... tudo isso ficou muito marcado no imaginário do público. Em que momento o senhor percebeu que aquele tipo tinha encontrado um caminho muito forte?

Mauro Gonçalves: A gente vai percebendo devagar. No começo, está muito ocupado em fazer funcionar. Em acertar o tom, em entender o personagem, em ver o que fica bom e o que fica demais. Mas chega uma hora em que o público começa a devolver isso com muita clareza. A criança reconhece de longe, repete gesto, repete voz, espera aquilo acontecer. Acho que foi aí que percebi que o Zacarias tinha encontrado o lugar dele. Não por causa de um elemento só, da peruca ou do dente, mas pelo conjunto. Quando essas coisas todas se juntaram, o personagem ficou mais inteiro. O público entendia muito rápido quem ele era. Mas eu nunca pensei nisso como fórmula. Eu pensava mais em acertar o tipo, em dar verdade a ele. O resto foi vindo com a resposta das pessoas.

 

SuperPauta: E quando houve o encontro com Renato, Dedé e Mussum, o que mudou? O Zacarias já chegou pronto ao quarteto ou foi sendo ajustado dentro daquela convivência?

Mauro Gonçalves: Não, pronto ele não chegou, não. Personagem quase nunca chega pronto. Ele vai se ajeitando também conforme encontra os outros. Quando fui trabalhar com eles, percebi logo que cada um tinha uma energia muito própria. O Renato tinha aquela força de condução, o Dedé tinha um ritmo muito bom de cena, muito prático, e o Mussum tinha uma liberdade muito particular. Então eu fui entendendo onde o Zacarias respirava melhor naquele conjunto. Algumas coisas eu já trazia comigo, claro. A voz, a delicadeza do tipo, aquele nervosinho mais infantil. Mas, dentro do grupo, o personagem foi encontrando melhor a medida dele. Isso é natural. Uma coisa é o tipo sozinho. Outra coisa é ele funcionando no meio de três comediantes muito fortes, cada um puxando para um lado. A convivência ajudou muito nisso. O quarteto tinha contraste, e contraste é bom para humor. O Zacarias foi ganhando mais clareza ali. Acho que o público começou a entender melhor quem ele era justamente porque ele aparecia ao lado de figuras tão diferentes.

 

SuperPauta: E qual era, na sua avaliação, a função do Zacarias naquele quarteto? Onde achava que ele fazia mais diferença?

Mauro Gonçalves: Acho que ele entrava com uma nota mais doce. Havia trapalhada em todos, claro, mas cada um “trapalhava” de um jeito. O Zacarias trazia uma ingenuidade importante. Ele era o mais assustado, o mais afobado, às vezes o mais frágil também. Isso criava um tipo de humor um pouco diferente. Eu nunca gostei da ideia de fazer um bobo sem alma. Então tentava dar a ele alguma ternura. Mesmo quando apanhava da situação, quando era enrolado ou quando virava motivo de riso, eu procurava não tirar dele aquela parte mais humana. Acho que isso ajudou muito na ligação com as crianças. Elas viam graça, mas também viam carinho naquele jeito. Dentro do grupo, isso equilibrava um pouco as coisas. O humor não ficava só na esperteza ou no deboche. Havia também esse lado mais inocente, mais desarmado.

 

SuperPauta: Muita gente via no Zacarias um personagem infantil, mas ele era cheio de precisão. Havia muito cálculo técnico por trás daquela aparente espontaneidade?

Mauro Gonçalves: Havia, sim. Espontaneidade demais, em televisão, às vezes não dura nem dois minutos. A pessoa precisa saber onde entrar, onde parar, onde deixar o outro falar, onde segurar uma reação. Humor tem muito de tempo. Um segundo a mais ou a menos muda tudo. No caso do Zacarias, como ele parecia mais solto, mais nervosinho, talvez desse a impressão de que era tudo improvisado. Mas não era. Tinha muito cuidado ali. O jeito de olhar, o susto, a aflição, a corrida, o tom da voz, tudo isso precisava ter uma medida. Se passasse, ficava excessivo. Se faltasse, perdia a graça. Acho até que esse contraste ajudava. Por fora, ele parecia desgovernado. Por dentro, eu tentava manter o controle. Talvez tenha sido esse equilíbrio que fez o personagem durar.

 

SuperPauta: O público via uma família em cena. Fora das câmeras, como era a convivência de vocês quatro no dia a dia?

Mauro Gonçalves: Tinha de tudo, como acontece em qualquer convivência longa. Havia muita intimidade, porque a gente trabalhava demais junto. Filme, televisão, viagem, ensaio, reunião, gravação... era muita hora dividida. Então, de um jeito ou de outro, acaba virando uma espécie de família mesmo. E família, você sabe como é: tem afeto, tem implicância, tem brincadeira, tem hora boa e tem hora cansativa também. Eu era mais quieto. Nunca fui o mais barulhento do grupo fora de cena. Gostava de observar, de ficar um pouco mais no meu canto. Mas acompanhava tudo. O Renato era muito concentrado no trabalho, muito atento ao funcionamento das coisas. O Dedé era muito ágil, muito prático, muito presente. O Mussum tinha uma alegria muito própria, um jeito muito dele de aliviar o ambiente. Então havia convivência real, sim. Não era um quarteto montado só para fotografia. Mas também não era uma amizade de romance, dessas sem ruído. Tinha verdade, e verdade sempre vem misturada.

 

SuperPauta: Em 1983, o grupo passou por uma crise séria. Separação, ruído, disputa, cansaço. O que aquela rachadura ensinou a vocês?

Mauro Gonçalves: Ensinou que convivência longa não se sustenta só com talento. Precisa de paciência também, de respeito, de medida. Quando um grupo trabalha muito, ganha muito tamanho e passa muito tempo junto, as coisas começam a pesar. O cansaço pesa, as diferenças pesam, as vaidades também aparecem. Isso tudo é humano. A crise mostrou um pouco disso. Mostrou que a força do quarteto era real, mas que ela não resolvia tudo sozinha. Havia amizade, havia costume, havia história junto, mas havia também desgaste. Uma coisa não anulava a outra. E acho que também ensinou que, apesar dos problemas, existia ali uma combinação muito rara. Às vezes a pessoa só percebe com mais clareza o valor do que tem quando aquilo ameaça se desfazer.

 

SuperPauta: Você sentia que a crise era mais por dinheiro, por comando, por reconhecimento, ou por um acúmulo de tudo isso?

Mauro Gonçalves: Essas coisas quase nunca vêm separadas. Quando um grupo chega àquele tamanho, dinheiro, poder de decisão, visibilidade e cansaço começam a se misturar. Às vezes a discussão parece ser sobre uma coisa, mas no fundo já é sobre várias ao mesmo tempo. Havia desgaste, sim. Havia insatisfação, sim. Cada um sentia de um jeito. E também havia muito acúmulo de tempo, de pressão, de responsabilidade. O público vê o programa pronto, o filme pronto, a alegria pronta. Mas, para aquilo existir, havia muita engrenagem por trás, e engrenagem também esquenta. Eu não gosto de simplificar dizendo que foi só isso ou só aquilo. Seria mais fácil, mas não seria justo. Era um período em que muita coisa já estava pesada ao mesmo tempo.

 

SuperPauta: Quando veio a separação, o que mais doeu: o rompimento profissional ou a sensação de que aquela família estava se desfazendo? E o que fez entender que ainda valia a pena voltar?

Mauro Gonçalves: Acho que as duas coisas. Profissionalmente, era duro porque a gente sabia a força que tinha junto. Não era um grupo qualquer. Havia ali uma combinação muito particular, uma comunicação muito forte com o público. Ver aquilo interrompido doía. Mas também havia um lado humano, claro. Por mais que existissem atritos, era gente que convivia havia muito tempo, que tinha dividido muita coisa. Então não era só uma questão de agenda ou contrato. Tinha afeto misturado, memória misturada, costume misturado. Quando um grupo assim se parte, não se parte só o trabalho. Parte-se um jeito de viver. Ao mesmo tempo, havia uma consciência muito clara de que juntos a gente fazia uma coisa rara. Nem sempre rara quer dizer fácil. Às vezes quer dizer justamente o contrário. Mas havia alguma coisa ali que merecia ser preservada. Também chega uma hora em que a pessoa cansa da briga, do ruído, do orgulho, da tensão. E começa a lembrar mais do que funcionava do que do que feriu. Talvez tenha havido um pouco disso. Voltar não apaga o que aconteceu. Não transforma atrito em conto de fadas. Mas, em certos casos, voltar é reconhecer que ainda existe alguma coisa de valor maior do que a mágoa do momento.

 

SuperPauta: Quando o quarteto se reencontrou, voltou igual?

Mauro Gonçalves: Igual, não. Essas coisas não voltam iguais. Quem diz que volta, enfeita. Volta com marca, volta com cuidado, volta com uma certa memória do que aconteceu. Mas isso não quer dizer que volte pior. Às vezes volta mais consciente. A reconciliação não apaga a cicatriz, mas ensina a conviver com ela. Acho que foi um pouco assim. Havia ainda a força do grupo, havia ainda a resposta do público, havia ainda vontade de fazer dar certo. Só que já não existia mais a mesma inocência de antes.

 

SuperPauta: Havia também um contraste que chamava atenção. Fora de cena, você era mais silencioso, mais discreto, mais recolhido do que a imagem pública sugeria. Isso incomodava?

Mauro Gonçalves: Incomodava um pouco, sim. Não por maldade das pessoas, mas porque o público se acostuma com a figura que vê na televisão. Então muita gente imaginava que eu fosse o Zacarias o tempo inteiro, daquele jeito mais aceso, mais agitado, mais espalhado. E eu não era. Eu sempre fui mais quieto, mais observador, mais de ficar no meu canto. No começo, a gente até entende isso com certa ternura. O personagem entra na casa das pessoas, faz parte da infância delas, da rotina delas. É natural que elas misturem um pouco as coisas. Mas, com o tempo, isso também cansa, porque o homem vai ficando escondido atrás da figura. E eu nunca gostei muito dessa obrigação de estar em festa o tempo todo. O personagem era expansivo. Eu, não. Eu gostava mais de silêncio do que de alarde.

 

SuperPauta: Você sentia que precisava se proteger da curiosidade das pessoas para não ser engolido pela imagem do personagem?

Mauro Gonçalves: Sentia. E acho que isso foi ficando mais forte com o tempo. Quando a fama cresce muito, ela começa a pedir da pessoa uma disponibilidade permanente. Todo mundo quer um pedaço seu, uma confirmação, uma repetição daquilo que conhece. E eu não tinha feitio para isso. Nunca tive. Então fui aprendendo a me proteger do meu jeito, sem escândalo, sem fazer manifesto, sem transformar isso numa questão pública. Apenas fui guardando mais certas partes da minha vida. Era uma necessidade mesmo. Não era pose. Era defesa. Eu sabia fazer o meu trabalho, sabia entrar em cena, sabia entregar o personagem. Mas também precisava preservar um espaço em que eu pudesse simplesmente ser eu, sem expectativa em cima, sem representação o tempo todo.

 

SuperPauta: Ser ídolo de crianças tornava essa divisão ainda mais difícil?

Mauro Gonçalves: Tornava, porque aí a responsabilidade aumentava. Quando o personagem entra muito forte no universo infantil, ele deixa de ser só um tipo de humor. Vira quase uma presença afetiva. Isso é muito bonito, muito generoso, mas também exige cuidado. Eu sentia isso. Sabia que o Zacarias ocupava um lugar especial para muitas crianças. Então havia essa preocupação de não deixar que o personagem perdesse a inocência, de não deixar que ele virasse uma coisa mais cínica, mais agressiva, mais vulgar. Eu zelava por isso. Talvez por causa desse lugar que ele ocupava, eu tenha ficado ainda mais atento ao que mostrava e ao que não mostrava. Havia um compromisso ali, mesmo que ninguém precisasse dizer isso em voz alta.

 

SuperPauta: Você sempre protegeu muito a vida pessoal. Mas houve casamento, houve paternidade, houve uma vida afetiva real por trás do personagem. Esse lado mais íntimo ajudava a manter o Mauro de pé fora da televisão?

Mauro Gonçalves: Ajudava, sim. A vida da gente não se resume ao que aparece. Eu fui casado, tive minha família, tive minha filha, tive esse lado mais doméstico, mais meu, que para mim era muito importante. Era ali que eu voltava a ser só uma pessoa comum, sem precisar corresponder ao que o público esperava do personagem. Eu sempre precisei muito dessa separação. Uma coisa era o trabalho, a televisão, o personagem, o barulho. Outra coisa era a parte de casa, de afeto, de intimidade. Isso me ajudava a não me perder completamente dentro da figura do Zacarias. Nem tudo podia ser palco. E também havia uma responsabilidade ali. Quando a pessoa tem família, passa a olhar a própria vida de outro jeito. Fica mais cuidadosa, mais consciente do que preserva. No meu caso, isso sempre foi muito forte. Eu nunca tive vocação para transformar sentimento em vitrine.

 

SuperPauta: Na reta final da sua vida, o público começou a notar uma mudança física muito forte. O emagrecimento chamou atenção, e junto com ele vieram comentários cruéis e muita especulação. Como você viveu aquele período?

Mauro Gonçalves: Foi um período muito duro. Primeiro porque o corpo já vinha dando sinal de fraqueza, e isso por si só mexe muito com a pessoa. Depois porque, quando a imagem pública é muito conhecida, qualquer mudança vira assunto. O que era para ser cuidado virou comentário. O que era para ser recolhimento virou curiosidade. Eu sempre fui discreto. Nunca gostei de expor dificuldade, doença, fragilidade. Então aquilo me pesou bastante. Não só pelo mal-estar físico, mas pelo excesso de ruído em volta. A pessoa já está se sentindo diminuída, mais fraca, e ainda precisa lidar com suposição, manchete, invasão. Isso cansa demais. O pior não é nem o boato em si. O pior é a sensação de que, num momento delicado, o outro deixa de olhar para você como pessoa e passa a olhar só como notícia.

 

SuperPauta: Aqueles boatos sobre Aids foram especialmente cruéis, porque misturavam ignorância, preconceito e sensacionalismo. Isso feriu o senhor profundamente?

Mauro Gonçalves: Feriu, sim. Muito. Não gosto de falar disso com raiva, porque a raiva já não resolve nada. Mas feriu. Naquele tempo, esse tipo de assunto vinha carregado de medo, julgamento e maldade. Então não era só uma fofoca qualquer. Era uma coisa que atingia a dignidade da pessoa. Eu sofri mais por esse lado. Pela falta de delicadeza. Pela facilidade com que inventavam, repetiam, apontavam. E eu nunca fui um homem de escândalo. Sempre vivi tentando preservar um pouco de silêncio em volta de mim. Quando esse silêncio foi rompido desse jeito, doeu. Numa hora dessas, a pessoa entende o valor de ser tratada com respeito. Às vezes é só isso que ela precisa.

 

SuperPauta: Em momentos assim, o que o sustentava por dentro? A sua fé teve um papel importante?

Mauro Gonçalves: Teve, sim. Muito. Eu sempre fui uma pessoa de fé. Não dessas que fazem alarde, mas de fé mesmo, de recolhimento, de conversa íntima com Deus, de necessidade de acreditar que a vida não se resume ao que a gente vê por fora. Isso me ajudou muito. Quando o corpo enfraquece e o barulho do mundo aumenta, a pessoa precisa de algum eixo. O meu sempre foi muito por aí. Na oração, no silêncio, nessa ideia de que a gente é mais do que a aparência do momento, mais do que a doença, mais do que o que dizem da gente. A fé não tirava a dor, claro. Não tirava o medo, nem o cansaço. Mas me dava um jeito de atravessar tudo isso sem perder inteiramente o centro.

 

SuperPauta: Hoje, olhando para trás, você gostaria que aquele fim fosse lembrado menos pelos boatos e mais pelo que o senhor construiu em vida?

Mauro Gonçalves: Sem dúvida. Doença faz parte da vida, fim faz parte da vida, mas ninguém merece ser resumido ao período em que esteve mais frágil. Eu prefiro que se lembrem do trabalho, do carinho que houve com o público, da alegria que procurei levar, e também do homem que existia por trás da figura. Se a pessoa lembrar de mim só pelo sofrimento, fica pouco. A vida foi maior do que isso. Teve esforço, teve criação, teve amizade, teve afeto, teve muita entrega. O fim é uma parte. Não pode ser a história inteira.

 

SuperPauta: E, para encerrar este encontro, como você gostaria de ser lembrado pelo Brasil?

Mauro Gonçalves: Com carinho. Acho que é isso. Não preciso de muita coisa além disso. Carinho já basta. Se lembrarem de mim como alguém que tentou fazer bem o seu trabalho, que levou alegria sem cinismo, que preservou a própria delicadeza num meio muito barulhento, eu já fico satisfeito. O Zacarias foi muito amado, e isso é uma graça enorme. Mas, se couber também um pouco de compreensão para o Mauro, melhor ainda. Porque por trás da peruca, do dente pintado e da correria havia só um homem tentando fazer direito a parte dele. E isso, para mim, já seria uma boa memória.



 

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