Do menino de fronteira ao João Sem Medo, Saldanha revisita o Botafogo, as Feras, a demissão antes do Tri e um futebol que aprendeu a vender tudo, menos a coragem de dizer o que vê.Entrevista imaginária por Roberto Homem
O cenário
A cabine de rádio parece
suspensa sobre um estádio que não pertence inteiramente a tempo algum. Do lado
de cá do vidro, há uma mesa estreita de madeira, um microfone pesado, dois
fones de ouvido, um bloco de anotações e um quadro tático onde os ímãs perderam
os nomes. Do lado de lá, o gramado muda conforme a luz: por alguns segundos é o
Maracanã de 1957; depois, o mesmo verde se abre na direção do México de 1970;
mais adiante, as arquibancadas assumem a geometria fria de Roma, em 1990.
João Saldanha está de
mangas arregaçadas. Não veste uniforme, não carrega prancheta e não parece
disposto a representar a própria lenda. Segura os fones com uma das mãos e bate
de leve com a outra sobre a mesa, como quem marca o tempo de uma resposta antes
que a pergunta termine. À sua frente, uma lâmpada vermelha acende sem que
ninguém anuncie a entrada no ar.
Lá embaixo não há
jogadores. Há apenas a sombra de uma bola no círculo central e o rumor de uma
multidão que ainda não decidiu se veio assistir a uma partida, a um comício ou
a um acerto de contas.
Saldanha olha para o campo,
depois para mim.
— Pode perguntar. Só não
venha com conversa mole.