quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis – Carmen Miranda

 Encontros Impossíveis 

O Tique-Taque do Tempo


A Pequena Notável entre o brilho de Hollywood e a saudade da Lapa: uma conversa sobre o peso do turbante e a alma que ninguém americanizou.


"Disseram que eu voltei americanizada, mas eu sempre fui a mesma. O meu samba é o mesmo, a minha alegria é a mesma, e a minha brasilidade está em tudo o que faço" — Carmen Miranda

 

O ambiente é uma penumbra luxuosa, onde o veludo de Beverly Hills se mistura ao cheiro de maresia da Praia da Urca. Ela está sentada em uma poltrona larga, parecendo ainda menor sem os saltos de vinte centímetros, mas sua presença corta o ar como um solo de flauta. Maria do Carmo não usa frutas na cabeça hoje; veste um robe de seda simples, e o olhar, livre dos cílios postiços pesados, é de uma lucidez que atravessa décadas. É a mulher que sustentou um império com os ombros, que virou o símbolo de um país inteiro enquanto lutava para não se perder de si mesma entre comprimidos para dormir e aplausos para acordar.

Neste encontro, desarmamos o ícone para ouvir a mulher em uma travessia que começa na descoberta do seu magnetismo entre os chapéus da Rua do Ouvidor e mergulha na mágoa profunda daquela noite de silêncio no Cassino da Urca. Caminhamos pelos corredores de Hollywood para entender o laboratório de estereótipos que a aprisionou em uma caricatura, revelando o cansaço de ser uma vitrine global e o legado de uma voz que, muito além das plataformas, sobreviveu a todas as críticas para se tornar a própria imagem da nossa identidade.

 

 


 SuperPauta: Carmen, que alegria te ver assim, tão "Maria", sem os balangandãs que você costumava usar no palco. Antes de mais nada: qual som faz você sentir vontade de voltar para este nosso plano, quando ouve? O pregão da rua, o rádio chiando, um pandeiro bem tocado ou o aplauso?

Carmen Miranda: (Sorri com os olhos, balançando levemente a cabeça) Ah, meu filho... o aplauso é um vício, o rádio é o trabalho, mas o que me traz de volta mesmo é o som do pandeiro no sereno. Aquele som seco, de couro esticado, que a gente ouvia nas madrugadas do Rio. Ele tem o ritmo do meu coração. O aplauso alimenta o ego, mas o pandeiro alimenta a alma da portuguesa mais brasileira que já pisou nesse mundo. Sabe, eu cheguei aqui no colo da minha mãe, num navio que parecia uma casca de noz no meio daquele mar imenso que separa o Minho do Rio de Janeiro. Eu era apenas um "tico" de gente, com dez meses de vida, vindo de uma aldeia de pedra em Portugal para esse sol que chega a arder na pele. Às vezes eu penso que o balanço daquele navio, o som das ondas batendo no casco, foi o meu primeiro metrônomo. Eu já cheguei com o ritmo da travessia nas veias. Eu sou fruto dessa mistura: a disciplina e o fado de Portugal, mas com o tempero e a malandragem que só esse solo brasileiro consegue dar. Quando eu ouço um pandeiro hoje, parece que ele está chamando tanto a Maria que nasceu lá, quanto a Carmen que renasceu aqui. É o som que diz que, apesar de tudo, eu estou em casa.

 

SuperPauta: Se este estúdio impossível fosse uma esquina do Rio, qual você escolheria para encostar o corpo e começar a nossa conversa?

Carmen Miranda: Tinha que ser na esquina da Rua do Ouvidor com a Avenida, que é como as pessoas chamavam a Avenida Rio Branco, que havia deixado de ser Avenida Central há pouco tempo. Ali onde eu vendia chapéus e via a vida passar depressa. Ali eu era apenas a Maria do Carmo, uma menina com a cabeça cheia de sonhos e as mãos ágeis. Se a gente começar por ali, você vai entender que tudo o que veio depois — os milhões, os filmes, as frutas — foi só um chapéu mais enfeitado que eu resolvi usar.

 

SuperPauta: Quando você ouve alguém dizer “Carmen Miranda”, sente que estão chamando você ou chamando um figurino?

Carmen Miranda: (Leva a mão ao peito, pensativa) É uma pergunta difícil, porque a Carmen acabou virando a minha pele de fora. Por muito tempo, se eu saísse de casa sem a maquiagem, sem aquele traço forte nos lábios e as sobrancelhas desenhadas, eu me sentia nua. Era como se a Maria do Carmo fosse um fantasma que só existia para a família, e a Carmen fosse a pessoa real para o resto do mundo. Hollywood criou uma boneca de engrenagem, e eu tive que aprender a morar dentro dela. Mas com o tempo, o figurino ficou tão pesado... (faz um gesto de peso nos ombros). Aquelas pulseiras de ouro não eram só enfeite, elas faziam barulho para eu nunca esquecer que eu tinha um papel a cumprir. Hoje, aqui, quando você diz meu nome, eu sinto que estamos chamando a mulher que sobreviveu ao figurino. Mas não se engane: eu amava aquele brilho. Eu só queria que tivessem amado o que estava por baixo também.

 

SuperPauta: Você foi a “Pequena Notável”. O que era mais pesado: o “pequena” ou o “notável”?

Carmen Miranda: (Risos) O "notável" exigia uma energia que o "pequena" nem sempre tinha para dar! Ser notável é um exercício de 24 horas. Você não pode bocejar, não pode estar triste, não pode estar feia. A "pequena" queria só um prato de arroz com feijão e um colo de mãe, mas a "notável" tinha que sacudir os balangandãs para a Fox. O peso da nota era maior que o meu tamanho.

 

SuperPauta: O cheiro da sua casa de infância era o quê: café fresco, gordura no fogão, roupa passada ou chuva no quintal?

Carmen Miranda: (Fecha os olhos e aspira o ar, como se estivesse lá) Era cheiro de café com pão amanhecido e de goma de passar roupa. Minha mãe, Dona Maria, era uma santa de paciência, sempre com o ferro quente na mão, alisando os lençóis enquanto o rádio — quando finalmente tivemos um — trazia as vozes de fora. Mas tinha também o cheiro da gordura de porco chiando na frigideira e, claro, o perfume das gardênias que vinha dos quintais vizinhos. O Rio daquela época tinha uma fragrância de esperança, entende? Mesmo na pobreza, a gente sentia que a vida ia acontecer. A gente morava em sobrados, com muita gente, muita conversa alta, muito riso. Era um cheiro de vida compartilhada. Sinto falta daquela simplicidade, onde o maior luxo era uma lata de doce de goiaba com queijo de Minas no final da tarde.

 

SuperPauta: Como a menina Maria do Carmo convencia os pais de que cantar não era “vida de malandro”? Naquela época, o preconceito era enorme.

Carmen Miranda: Rigoroso é pouco, meu filho! Meu pai era um português de quatro costados, para quem mulher de respeito só saía de casa para casar ou para a igreja. Para ele, o palco era o caminho mais curto para a perdição. Eu tive que ser uma atriz antes mesmo de ser cantora. Eu fingia que as músicas eram só "coisinhas de moça", cantava em festas de caridade, na escola, sempre com aquele ar de quem não quer nada. Mas por dentro eu era um vulcão! Quando o dinheiro começou a entrar, e eu mostrei para ele que uma artista podia ganhar mais do que dez barbeiros juntos, o coração dele amoleceu um pouquinho pelo lado prático. Mas ele nunca se acostumou de verdade. Ele via a minha foto nos jornais e balançava a cabeça, como se dissesse: "Onde foi que eu errei com essa pequena?". No fundo, ele tinha medo do que o mundo faria comigo. E ele não estava errado, estava?

 

SuperPauta: O sotaque português da sua família: você tentou esconder ou percebeu cedo que ele era o seu tempero secreto?

Carmen Miranda: Eu nunca escondi, mas eu dei um "banho de loja" nele. Misturei o "ora pois" com a gíria do malandro da Lapa. Ficou aquela coisa cantada, que o pessoal lá fora achava que era "exótico" e o pessoal aqui achava que era "malandragem". No fundo, meu sotaque era uma ponte entre o Minho e a Praça Onze.

 

SuperPauta: Qual foi a primeira vez que você percebeu que tinha o tal “It” — não como vaidade, mas como um poder de presença?

Carmen Miranda: Foi na loja de chapéus. Uma cliente entrou, eu botei um chapéu na cabeça dela, fiz um gesto, cantei um versinho e ela comprou o chapéu mais caro sem nem pestanejar. Ali eu vi que eu tinha um imã. Não era beleza — eu nunca me achei uma beldade —, era uma eletricidade. Se eu entrasse num quarto, o quarto virava meu.

 

SuperPauta: Os chapéus que você fazia na Rua do Ouvidor tinham o quê que os outros não tinham? Foi ali que você aprendeu a moldar a sua própria imagem?

Carmen Miranda: Eu não vendia apenas feltro e palha; eu vendia "pose". Uma cliente entrava na loja desanimada, e eu dizia: "Dona fulana, experimente esse aqui, mas use assim, meio de lado, com o olhar de quem manda no marido". Eu percebi cedo que a moda é uma armadura. Eu pegava um pedacinho de fita, uma pluma barata, e dava um nó que mudava o rosto da pessoa. Foi na loja da Madame Guimarães que eu entendi que a estética é um poder. Se você se veste como uma rainha, as pessoas te tratam como tal. Aqueles turbantes que o mundo inteiro copiou depois, eles nasceram ali, naquela vontade de pegar o que é simples e transformar em algo notável. Eu já estava "desenhando" a Carmen Miranda enquanto limpava o balcão da loja.

 

SuperPauta: “Taí” foi o estouro que mudou tudo. O que foi mais assustador naquele momento: o sucesso rápido ou a sensação de que agora você estava sendo vigiada por milhares de olhos?

Carmen Miranda: O sucesso é um susto, meu filho. Num dia eu era a Maria que pegava bonde, no outro eu não podia mais andar na rua sem que me arrancassem um pedaço do vestido. "Taí" foi como um vendaval. Eu gravava um disco e, antes da cera esfriar, já estava tocando em todas as esquinas. O que mais me assustou foi perceber que eu não me pertencia mais. O público cria uma imagem de você e você fica escrava de ser aquela pessoa 24 horas por dia. Se eu estava triste, tinha que sorrir. Se eu estava cansada, tinha que sambar. Eu virei propriedade do Brasil antes de fazer vinte anos. Era um amor imenso, mas um amor que sufocava, como um abraço apertado demais que não deixa a gente respirar.

 

SuperPauta: Noel Rosa e Assis Valente. Dois gênios, duas visões sobre você. O Noel via a sua alma, mas o Assis... ele parecia escrever para a sua vertigem, para a sua pressa de viver, não?

Carmen Miranda: (O olhar fica úmido) O Noel... ah, o Noel era o cronista da alma. Ele via que por trás da minha "bossa", tinha uma compreensão da tristeza suburbana. Ele me deu músicas que eram como conversas de portão. Já o Assis... o Assis era o meu espelho mais perigoso. Ele escrevia aquela alegria explosiva, "Brasil Pandeiro", "E o Mundo Não se Acabou", mas era uma alegria que parecia estar sempre na beira de um abismo. A gente se entendia no desespero. O Assis queria que o Brasil fosse grande, colorido, pulsante, porque por dentro dele era tudo muito escuro. Eu cantava a luz dele para ele não se apagar. Quando eu cantava Assis, eu sentia que estava equilibrando um prato de porcelana num fio de arame. Era uma vertigem maravilhosa e terrível ao mesmo tempo.

 

SuperPauta: Qual foi o maior sacrifício para ser a “Rainha do Rádio”?

Carmen Miranda: Foi abdicar do direito de ser triste. Uma rainha não pode chorar em público. Eu tinha que estar sempre com o sorriso "número 4", aquele que mostra todos os dentes. O sacrifício foi a minha espontaneidade. Eu virei uma máquina de alegria, e máquinas não descansam.

 

SuperPauta: Carmen, vamos falar da sua imagem. Suas plataformas de vinte centímetros: eram apenas para compensar a altura física ou havia uma altura simbólica ali? O que você ganhava quando subia naqueles tamancos?

Carmen Miranda: (Ri, olhando para os próprios pés agora descalços) Ah, meu filho, o salto era a minha fortaleza! Imagine só: eu, com um metro e cinquenta e dois, entrando num set de filmagem em Hollywood cercada de "girafas" loiras de um metro e oitenta. Se eu ficasse no chão, eu desaparecia no tapete! A plataforma me dava o pedestal que o destino não me deu no berço. Mas não era só altura, era "poder". Quando eu subia naqueles sapatos, meu quadril mudava de lugar, o meu centro de gravidade virava outro e o samba saía mais "invocado". Era como se eu dissesse ao mundo: "Olhem para cima, porque a pequena aqui é gigante!". Mas o preço... ah, os juros o corpo cobrou depois. Meus pés viviam em carne viva, e minha coluna, coitada, era um tique-taque de dor constante. Eu era uma gigante de gesso que não podia tropeçar.

 

SuperPauta: E o turbante com frutas? Foi uma ideia sua, uma intuição de momento ou uma estratégia calculada para vender uma "exuberância" que o mundo queria comprar?

Carmen Miranda: Foi um "estalo" de quem conhece o povo. Eu vi as baianas de verdade, as vendedoras de acarajé com seus tabuleiros na cabeça, e vi ali uma nobreza que nenhuma rainha da Europa tinha. O turbante nasceu de um amor profundo por essa estética negra, mas eu, como boa chapeleira que era, resolvi "temperar". Botei as frutas, as flores, as lantejoulas... virou uma arquitetura! O segredo de engenharia era o equilíbrio; eu tinha que mexer o corpo todo, mas o pescoço ficava firme como uma coluna de mármore. Hollywood adorou porque eles queriam o "exótico", o colorido, a festa eterna. O que começou como uma homenagem virou o meu uniforme de guerra. Se eu tirasse o turbante, parecia que eu tirava a minha luz. Eu virei a "mulher da quitanda" mais cara do mundo, mas por dentro, às vezes, eu só queria desamarrar aquele pano e deixar o cabelo solto ao vento da Urca.

 

SuperPauta: O que as baianas de verdade te diziam com o olhar quando te viam estilizada? E o que você respondia sem usar palavras?

Carmen Miranda: No começo, eu sentia uma desconfiança. "O que essa branquinha está fazendo com as nossas roupas?". Mas eu respondia com o respeito do meu samba. Eu não estava zombando, eu estava exaltando. Eu dizia com os olhos: "Eu sou o alto-falante de vocês". E quando eu comecei a levar o nome delas para o mundo, elas me deram a benção. O meu turbante era uma homenagem, nunca uma fantasia.

 

SuperPauta: No navio rumo aos Estados Unidos, em 1939, o que você levou na mala que não era palpável? Havia mais medo do que promessa naquela travessia?

Carmen Miranda: Eu levei uma responsabilidade que pesava mais que todos os meus baús de figurino. Eu levei o medo de ser uma "fogo de palha". Sabe, meu filho, eu deixei o Rio sendo a Rainha, e estava indo para uma terra onde eu era ninguém, apenas uma "novidade" latina. No navio, eu olhava para o mar e pensava: "E se eles não entenderem o meu balanço? E se o meu inglês for uma piada?". Eu levei uma promessa que fiz a mim mesma: eu não voltaria derrotada. Lee Shubert me prometeu o mundo, mas eu sabia que americanos são práticos — se você não dá lucro, eles te esquecem no dia seguinte. E quando eu digo “Lee Shubert”, não é qualquer homem: era um grande produtor e dono de teatros, um imperador da Broadway, daqueles que abrem portas, mas também fecham sem avisar. Foi ele quem me viu no Brasil e me chamou para estrear lá em 1939, no palco deles. Eu viajei com o coração apertado, rezando para que a minha "bossa" fosse universal. Eu não estava indo apenas para cantar; eu estava indo para provar que o Brasil não era só uma mancha no mapa.

 

SuperPauta: Aprender inglês “na marra” foi uma tortura? Qual foi a palavra ou expressão que mais doeu aprender e repetir para o público americano?

Carmen Miranda: (Faz uma careta engraçada) O inglês era um bicho de sete cabeças! Mas o que doeu não foi a gramática, foi o papel que me colocaram para fazer. Eles queriam que eu falasse errado de propósito. Eles achavam "cute" (bonitinho) quando eu trocava o "V" pelo "B" ou quando eu não conseguia pronunciar frases longas. A expressão que mais me doeu foi o "I can't say it". Os roteiristas escreviam isso para eu dizer toda vez que havia uma palavra difícil. Eu me sentia uma tonta, uma boneca de ventríloquo. Eu estudava, eu me esforçava para falar direito, mas o diretor dizia: "Não, Carmen, fale como uma latina confusa". Eles me pagavam milhões para eu ser menos inteligente do que eu era. Foi uma luta constante entre a minha dignidade e o contrato da Fox.

 

SuperPauta: O dinheiro compensava a saudade do feijão com arroz ou a saudade era uma conta que o cachê de Hollywood nunca fechava?

Carmen Miranda: O dinheiro comprava a mansão, mas a mansão era vazia. Eu mandava buscar café do Brasil, mandava buscar disco de samba, mas o cheiro da rua eu não conseguia importar. O cachê pagava as contas da minha família inteira, mas não pagava a minha solidão de domingo à tarde.

 

SuperPauta: O silêncio do Cassino da Urca, quando você voltou em 1940, é uma das cenas mais tristes da nossa história cultural. Onde aquela frieza do público bateu mais forte em você?

Carmen Miranda: (A voz fica mais baixa e grave) Bateu bem no meio do peito, onde mora a criança que quer agrado. Eu entrei naquele palco com o coração saindo pela boca, louca para abraçar o meu povo. E o que eu recebi? Um silêncio gelado, um olhar de julgamento. Parecia que eu tinha cometido um crime por ter feito sucesso lá fora. A elite sentada nas mesas me olhava como se eu fosse uma traidora, uma "vendida". Eles disseram que eu voltei "americanizada" porque eu botei umas palavras em inglês no meio do samba. Ora, eu estava apenas vivendo a minha vida! Chorei tanto naquela noite que achei que meus olhos iam secar. Foi ali que eu percebi que o Brasil é um pai que ama o filho, mas não perdoa se o filho cresce e vai embora de casa. "Disseram que eu voltei americanizada" foi o meu grito de defesa, mas a cicatriz nunca fechou de verdade.

 

SuperPauta: Você acha que o Brasil tem esse hábito de amar o artista até ele atravessar a fronteira e virar uma “ameaça”?

Carmen Miranda: O Brasil ama o sucesso, mas tem pavor da autonomia. Quando você sai e brilha sozinha, parece que você está dizendo que o Brasil é pequeno. E não é! Eu só queria levar o Brasil na minha mala. Mas aqui, se você não sofre com o povo o tempo todo, parece que você não é mais do povo. É uma cobrança cruel.

 

SuperPauta: Carmen, essa dor parece ter moldado a sua resistência. Vamos continuar? Quero entrar agora nos bastidores mais sombrios e naquela noite final em 1955.

Carmen Miranda: Vamos, meu filho. A verdade é um remédio amargo, mas é o único que cura a saudade. Pode perguntar.

 

SuperPauta: Carmen, dizem que o sucesso é uma ilha cercada de gente, mas onde a gente janta sozinha. É verdade que você sustentava uma legião de amigos e família? Quando foi que você percebeu que o "amor", para muitos ao seu redor, vinha com um boleto bancário anexado?

Carmen Miranda: (Solta um riso curto, sem muita alegria) Ah, meu filho... eu não era uma mulher, eu era uma empresa! Uma multinacional de uma pessoa só. Eu amava a minha família mais que tudo, e vindo da pobreza que viemos, meu maior prazer era abrir a bolsa e dizer: "Pode escolher o que quiser". Comprei casas, joias, paguei estudos, viagens... Mas o preço disso é que você deixa de ser a filha, a irmã ou a amiga, e vira a "provedora". Eu sentia que se eu parasse de balançar o pandeiro, a engrenagem de muita vida parava também. Isso cria um peso nos ombros que turbante nenhum explica. Teve gente que só se aproximava de mim para ver o que sobrava da mesa. O amor era verdadeiro, eu quero acreditar que sim, mas ele era muito bem alimentado pelo meu talão de cheques. No fim das contas, a solidão é você saber que, se a luz apagar, muita gente vai embora procurar outro holofote que esteja aceso.

 

SuperPauta: Quando as luzes de Beverly Hills se apagavam e o silêncio tomava a sua mansão, qual era o seu medo mais feio? Aquele que você não contava nem para a sua mãe, Dona Maria?

Carmen Miranda: (Olha para as mãos, apertando os dedos) Era o medo de ser esquecida estando viva. O medo de que, sem a maquiagem, sem o batom exagerado que desenhava um sorriso que eu nem sempre sentia, eu não passasse de uma portuguesa baixinha e comum. Eu olhava no espelho no camarim, depois de tirar os cílios postiços que pesavam uma tonelada, e via uma mulher exausta, com olheiras que nem o melhor pó de arroz de Hollywood escondia. Meu medo era que o mundo descobrisse que a Carmen Miranda era um truque de mágica. E que, se o truque parasse, ninguém ia querer saber da Maria do Carmo. Eu tinha pavor de ser vista como "velha" ou "ultrapassada". Em Hollywood, se você não é a novidade do verão, você é o lixo do inverno. Eu vivia fugindo desse fantasma, correndo numa esteira que não parava nunca.

 

SuperPauta: E o Dave Sebastian? Foi o seu grande erro, o seu grande amor ou apenas um mal-entendido que você aceitou para não ter que jantar sozinha em frente àquela piscina enorme?

Carmen Miranda: (Suspira profundamente) O Dave foi o meu porto que acabou virando tempestade. Eu queria um marido, entende? Queria uma casa que não fosse um hotel, queria alguém para me dar o braço e dizer "vamos descansar". Mas ele não entendia a minha alma. Ele era um homem de negócios, um americano frio que via em mim o contrato, não a mulher. Ele tinha ciúmes do meu brilho, mas não abria mão do meu dinheiro. Foi um casamento de aparências que me custou muita lágrima. Eu me sentia presa. Eu, que sempre fui um pássaro que voava alto, me vi numa gaiola onde o dono da chave não sabia nem assobiar um samba. Aceitei o Dave porque o silêncio daquela casa em Beverly Hills era ensurdecedor. Eu preferia uma briga alta a um silêncio vazio. Mas hoje, eu sei: é melhor estar sozinha do que acompanhada por quem só ama a sua sombra. A Carmen foi minha sentença. Eu casei com o Dave buscando um refúgio, mas ele também queria a Carmen, não a Maria. Eu queria alguém que me visse de pijama, sem maquiagem, e dissesse: "Você é linda, Carminha". Mas todo mundo queria a estrela. Ser mulher foi um luxo que eu não pude pagar.

 

SuperPauta: Falemos dos "socorros químicos", Carmen. Sem romantismo, só com a verdade. Os remédios para acordar e os remédios para dormir... em que momento a muleta virou uma armadilha?

Carmen Miranda: Começou de mansinho. "Carmen, você tem que filmar às 5 da manhã, toma isso para despertar". "Carmen, você está muito agitada, toma isso para dormir". Hollywood é uma fábrica que não desliga a luz. Eu virei uma escrava das pílulas coloridas. Tinha a pílula da alegria, a pílula do descanso, a pílula da disposição... Eu não sabia mais o que era um sono natural ou um despertar de verdade. Meu corpo virou um laboratório. Eu estava sempre "elétrica" ou "apagada". Não tinha mais meio-termo. Os médicos de estúdio receitavam como se fosse bala de hortelã. Foi uma armadilha silenciosa. Eu achava que tinha o controle, mas o remédio é um patrão muito cruel. Ele te dá a energia hoje, mas te cobra a vida com juros amanhã. E eu paguei esses juros com o meu coração.

 

SuperPauta: Naquela noite de agosto de 1955, no programa de Jimmy Durante... você sentiu que o seu corpo estava se despedindo? Quando você caiu de joelhos no palco, após aquele número frenético, o que passou pela sua cabeça?

Carmen Miranda: (Fica em silêncio por um longo tempo, os olhos perdidos) Eu senti um frio... um frio que não era do ar-condicionado do estúdio. Meu peito parecia um tamborim sendo tocado por um mestre de bateria apressado demais. Quando eu caí, minha primeira reação foi o brio. "Carmen, levanta, não estraga o show!". Eu levantei, sorri, terminei o número... mas por dentro, eu já não estava mais lá. Eu senti que a corda tinha esticado até o limite e arrebentado. Quando cheguei em casa, naquela noite, e subi as escadas, cada degrau parecia uma montanha. Eu deitei na minha cama, olhei para o teto e pensei: "Enfim, silêncio". Não houve medo, sabe? Houve um alívio. O espetáculo tinha acabado. A pequena notável finalmente podia fechar os olhos e não ter que acordar para ser ninguém além de si mesma.

 

SuperPauta: O seu enterro parou o Rio. Meio milhão de pessoas cantando seus sambas pelas ruas. Você esperava que, depois de tanta briga e de ser chamada de "americanizada", o Brasil fosse te abraçar com tanto fervor na despedida?

Carmen Miranda: (Lágrimas brilham nos olhos) Eu não imaginava... eu morri achando que eles ainda estavam zangados comigo. Quando eu vi lá de cima — ou de onde quer que a gente olhe — aquela multidão, aquele mar de gente cantando "Adeus, Batucada", eu chorei o que não tinha chorado em vida. Ali eu entendi que o povo brasileiro perdoa tudo, menos a falta de amor. E eles sabiam que eu os amava. Eles sabiam que cada sacolejo de ombro que eu dei na América foi para dizer "olha como o meu povo é lindo". O Brasil me buscou de volta. Me tiraram do chão frio de Los Angeles e me botaram no colo quente do Rio. Foi o meu maior Carnaval. O mais triste e o mais bonito. Ali eu fiz as pazes com a minha terra.

 

SuperPauta: Carmen, hoje o mundo é muito diferente. Cantoras brasileiras como a Anitta tentam furar a mesma parede internacional que você atravessou há quase 90 anos. O que você diria para essas meninas que querem levar o Brasil na mala, mas enfrentam um mercado que ainda gosta de rotular tudo o que vem do sul?

Carmen Miranda: (Endireita a postura, com um brilho de admiração) Eu olho para essas moças e sinto uma vontade louca de dar um abraço em cada uma! Eu diria: "Minha filha, não peça licença. Entre com o pé na porta, mas não deixe que troquem a sua alma por um contrato". O mundo continua querendo nos rotular, querendo que a gente seja apenas o "tempero", mas nós somos o prato principal! O que eu fiz de sapatos e turbantes, elas fazem hoje com a batida do funk, com a coragem de mostrar o corpo e a voz sem medo. A parede continua lá, mas elas têm ferramentas que eu não tive. O segredo é o mesmo da minha época: seja tão única que eles não consigam te ignorar. Mas cuidado com a exaustão; o palco é um palco, a vida é outra coisa. Não deixem que a "estrela" mate a mulher.

 

SuperPauta: O “It” que você tinha, aquela presença magnética, hoje parece ter sido substituído pelos “likes” e pelos seguidores nas redes sociais. Você acha que a tecnologia mudou a essência do artista ou o brilho continua sendo o mesmo?

Carmen Miranda: (Dá uma risada curta, mas logo fica séria, olhando para o vazio) Ah, meu filho... eu vejo essa gente hoje e parece que todo mundo carrega um pequeno Cassino da Urca no bolso, onde o aplauso vem em forma de números. Mas veja bem: número no papel nunca foi sinônimo de estrela no céu. Você pode ter milhões desses tais "seguidores" e, ainda assim, quando entra num recinto, ninguém sentir um arrepio. O "It" não é algo que se aperta num botão; é uma eletricidade, uma voltagem que Deus coloca em algumas pessoas e que não precisa de fio nenhum para acender. Sabe o que me assusta nesse tempo de vocês? É que não há mais mistério. Hoje em dia, o artista mostra o que comeu no café, mostra a cama desfeita, mostra até o bocejo. Na minha época, a gente guardava o segredo a sete chaves para que, quando a cortina subisse, o público sentisse que estava vendo um milagre, entende? Se eu tivesse essas ferramentas, talvez eu ficasse tonta. Eu ia querer mostrar meus ensaios de madrugada, o passo a passo de um turbante novo... mas o meu coração? Ah, esse ia continuar trancado num cofre de platina. Esse brilho que vocês buscam na tela de um aparelhinho é uma luz fria. O brilho que dura é aquele que vem da alma e que faz a pessoa lá na última fila do teatro sentir que eu estou cantando só para ela. A tecnologia é um alto-falante maravilhoso, mas se a voz não tiver alma, o que sobra é só barulho.

 

SuperPauta: O Brasil de hoje é uma mistura frenética de samba, funk, pop e eletrônico. Você sente que o país que você representou — aquele Brasil de aquarela e pandeiro — ainda existe ou ele se transformou em algo que você não reconhece?

Carmen Miranda: Ele se transformou, e que bom! O Brasil que não muda vira museu, e o nosso país é uma festa de rua. Eu ouço essas batidas novas e sinto o mesmo "tique-taque" do meu tempo, só que com outra roupagem. O samba é a raiz, mas a árvore cresceu e deu frutos que eu nem imaginava. O Brasil de hoje é mais barulhento, mais misturado, talvez mais sofrido também, mas a alegria continua sendo a nossa maior rebeldia. Eu reconheço o Brasil em qualquer lugar onde alguém sorri apesar da dor. Pode mudar o ritmo, pode mudar a gíria, mas o "molho" brasileiro é eterno.

 

SuperPauta: Você se tornou um ícone absoluto para a comunidade LGBTQIA+. O que você sente ao saber que a sua imagem deu a tantas pessoas a coragem de serem extravagantes, de serem elas mesmas, em um mundo que muitas vezes exige o cinza?

Carmen Miranda: (Um sorriso terno e genuíno surge em seu rosto) Isso é o que mais me emociona. Saber que a minha "montação", o meu exagero, as minhas cores, serviram de escudo para quem só queria ser livre. Eu sempre fui uma "excluída" de certa forma — a portuguesa que não era de Portugal, a brasileira que não era do Brasil... eu entendo o que é não caber num lugar só. Se o meu turbante ajudou alguém a levantar a cabeça e dizer "eu existo e eu brilho", então valeu a pena cada gota de suor naquele palco. A extravagância é uma forma de liberdade. Onde houver uma drag queen se pintando, onde houver alguém querendo botar cor no mundo, eu estarei lá, dando uma piscadinha de incentivo.

 

SuperPauta: O que você quer que o mundo entenda, de uma vez por todas: por trás de cada fruta, de cada lantejoula e de cada "I love you" de cinema, quem era a mulher que respirava ali embaixo?

Carmen Miranda: (Olha fixamente para o entrevistador, com uma serenidade absoluta) Havia uma mulher que trabalhava duro. Uma mulher que acordava cedo, que tinha medo de errar, que sustentava o mundo com um sorriso porque não podia decepcionar ninguém. Havia uma Maria do Carmo que amava o mar, que queria ter tido filhos, que gostava de conversar até o dia clarear e que nunca, nem por um segundo, deixou de se sentir aquela menina da Rua do Ouvidor. Por trás da Carmen Miranda, havia uma brasileira que deu a vida para que o mundo soubesse que nós temos um sol que não se apaga. Eu fui uma embaixadora da alegria, mas por dentro, eu era apenas uma saudade que cantava.

 

SuperPauta: Para fechar, sem slogan, Carmen: o que é que a baiana tem que o mundo nunca vai conseguir copiar… porque não cabe em vitrine nenhuma e não tem contrato que compre?

Carmen Miranda: (Ela se levanta lentamente, ajeita o robe de seda com a mesma elegância com que ajeitava o turbante. Faz um gesto suave com as mãos, as unhas impecáveis, e sussurra) A baiana tem a graça de quem cai e levanta sambando. O mundo pode copiar o figurino, pode imitar o sotaque, pode até fabricar as frutas, mas ninguém consegue copiar o balanço que a gente faz para desviar da tristeza. O que a baiana tem é o "que de quem não tem nada, mas sente que tem tudo". É o mistério de ser luz em meio à sombra. Isso não se vende, meu filho. Isso a gente ganha de Deus quando nasce nesse chão verde e amarelo. (Ela manda um beijo estalado para o ar, e a imagem começa a se dissipar suavemente). Até logo, Brasil! 




 

Quem vê a Pequena Notável colorida e sorridente não imagina a dor de Maria do Carmo. No episódio de hoje, mergulhamos na genial série "Encontros Impossíveis", do jornalista Roberto Homem (@blogsuperpauta), para uma entrevista imaginária — e brutalmente honesta — com Carmen Miranda.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Nísia Floresta

 Encontros Impossíveis

 

A voz que antecipou o século

 

Da menina órfã pela violência política à educadora que desafiou o Império, Nísia Floresta discute a condição feminina, a escravidão e o abismo social brasileiro. Com a serenidade de quem viu o futuro antes de todos, a "Brasileira Augusta" analisa as conquistas e os perigos do mundo contemporâneo.

 

“Educai as mulheres! Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados! Governo, que vos dizeis liberal!” — Nísia Floresta

 

 


O ambiente não é terreno. Estamos em uma memória suspensa que oscila, como uma miragem febril, entre a sobriedade de uma biblioteca vitoriana em Londres — com estantes de carvalho escuro, cheiro de cera e tinta — e as dunas brancas e cegantes de Papari, no Rio Grande do Norte. Ouve-se, ao longe, um violino executando Norma de Bellini, que às vezes é interrompido pelo som bruto do vento nordestino batendo nas folhas de carnaúba, sugerindo a dualidade de uma alma que nunca coube inteiramente em um só hemisfério. Sentada em uma cadeira de espaldar alto, Nísia Floresta não aparenta a idade com que morreu, mas sim uma atemporalidade majestosa. Veste seda escura, fechada até o pescoço, adornada por um camafeu discreto. Suas mãos, calejadas pela escrita constante, repousam sobre um volume gasto de Direitos das Mulheres. Ela me encara com olhos que já viram o exílio, a peste, a revolução e a morte, mas que ainda guardam o brilho úmido e inquisidor de quem chorou pelo Brasil.

Nesta conversa, a "Brasileira Augusta" despe-se dos mitos para revisitar a menina Dionísia, forjada no sangue da tragédia política de 1817, e a mulher que ousou traduzir e expandir o feminismo europeu para uma sociedade escravocrata. Entre reflexões sobre o escândalo de educar mulheres para a ciência e a defesa solitária dos povos indígenas, ela lança um olhar crítico e materno sobre o século XXI, dissecando fenômenos como o feminicídio e a superficialidade das redes, provando que sua voz, mesmo vinda do além-túmulo, permanece dolorosamente atual.

 

 

SuperPauta: Neste “lado de cá”, onde vaidades deveriam se dissolver, o nome ainda importa? Dionísia ou Nísia: qual nome acende sua verdadeira voz?

Nísia Floresta: Importa, sim. Importa como importa a primeira roupa que nos vestem e a última que nos impõem. Dionísia foi a menina que correu descalça, sem saber ainda que o mundo, tantas vezes, é um matadouro de promessas. Dionísia sangrava com facilidade, porque era carne exposta. Já Nísia, meu caro, foi escolha e necessidade: uma forma de dar à minha palavra uma espinha que não se partisse ao primeiro empurrão. Aqui, onde nada se oculta e tudo se pesa, eu poderia dizer: não sou uma nem outra, sou somente uma consciência que recorda e responde. Todavia, se devo escolher o nome pelo qual serei chamada, chame-me por aquele que trabalhou: Nísia. Foi Nísia quem escreveu, e é a escrita que me faz permanecer, não como fantasma, mas como insistência.

 

SuperPauta: O cenário oscila entre as areias de Papari e salões europeus. Onde sua alma pousa quando quer, finalmente, descansar?

Nísia Floresta: O espírito pode frequentar salões e ainda assim desejar o chão. A Europa alimentou meu entendimento, ofereceu-me bibliotecas, debates, certas formas de respeito que minha pátria me negou com uma mão e me prometeu com a outra. Mas a alma, esse animal teimoso, volta sempre ao seu primeiro leite. Quando busco repouso, ouço o rumor de uma lagoa, a simplicidade dos dias, a rudeza que não finge ser delicada. O Nordeste não me adulou: me formou. A Europa foi, para mim, escola e vitrine. O Rio Grande do Norte foi raiz e ferida. E é curioso como a raiz e a ferida, ao fim, repousam no mesmo lugar.

 

SuperPauta: Morrer em Rouen, na França, longe do calor do Nordeste: foi exílio definitivo ou fechamento de um círculo?

Nísia Floresta: Foi consumação de uma orfandade geográfica. Morrer em terra alheia, numa noite fria, vitimada pela pneumonia, foi uma ironia final, dessas que a existência gosta de assinar sem pedir licença. Eu que passei a vida a traduzir mundos, terminei suspensa entre eles, como quem não pertence por inteiro a parte alguma. Chamais “fechamento” quando uma história se resolve. No meu caso, foi mais uma reticência: a frase parou, não por conclusão, mas por falta de ar.

 

SuperPauta: Da vida inteira, que lembrança volta sem ser chamada: imagem, cheiro, frase?

Nísia Floresta: O cheiro da terra molhada misturado ao rumor de pólvora. E a voz de meu pai lendo, como se a leitura fosse uma forma de proteção contra o mundo. Quando me assalta a lembrança, não me assalta a glória. Assalta-me o instante em que a inocência se partiu e, ao partir, fez de mim outra criatura.

 

SuperPauta: A eternidade torna a injustiça pequena ou imperdoável?

Nísia Floresta: A eternidade apenas retira a pressa da vingança, não apaga a nitidez do erro. De onde estou, a injustiça não é menor: é mais absurda, mais infantil e, por isso mesmo, mais cruel. Vê-se a repetição das correntes, com metais diversos, e percebe-se que o homem troca o objeto, mas conserva a inclinação.

 

SuperPauta: Olhando para mim agora, o que a senhora enxerga: cronista, intruso, filho tardio do século que tentou parir?

Nísia Floresta: Vejo um escavador de ruínas. Há homens que se aproximam de nós para mandar. Vós vos aproximais para perguntar. Isso já vos distingue. Talvez sejais, sim, filho tardio: não o filho obediente que a sociedade cria, mas o filho que devolve à mãe uma pergunta honesta.

 

SuperPauta: Antes de prosseguirmos: há algo que a senhora se recusa a responder, mesmo aqui?

Nísia Floresta: Há. E é bom que se diga desde logo, para que não façamos desta conversa uma feira. Minha vida pública pertence ao julgamento do tempo. Minha intimidade, não. Não me interrogareis sobre o que pertence ao cofre do coração, sobre nomes que apenas a consciência e Deus conheceram por inteiro. A mulher pública paga tributo à história; a mulher íntima não deve tributo ao espetáculo.

 

SuperPauta: Entendido. E se eu, homem do futuro, fizer uma pergunta que repita um preconceito do seu tempo, a senhora prefere corrigir com paciência ou com severidade?

Nísia Floresta: Corrigir-vos-ei com a medida do vosso erro. O erro pequeno pede paciência. O erro soberbo pede corte.

 

SuperPauta: Quando menina, o que a senhora via no horizonte de Papari que os adultos não viam?

Nísia Floresta: Os adultos, em geral, veem a necessidade. Veem a seca, a colheita, a pesca, o ciclo que os prende à sobrevivência. Eu via o mar como estrada, não como limite. Via que o mundo não acabava nas dunas, e, mais inquietante ainda, sentia que eu também não acabava no destino que desenhavam para mim. Eu via uma possibilidade: não ser apenas a filha de alguém, nem a esposa de alguém, nem o eco de uma voz alheia. Eu ainda não sabia nomear isso. Mas eu já pressentia.

 

SuperPauta: Seu pai, Dionísio, foi assassinado por razões políticas. A morte dele criou a escritora ou apenas arrancou a infância à força?

Nísia Floresta: Ambas as coisas, e não as separo. A dor é tinta que não se lava. Quando mataram meu pai, mataram a menina que acreditava na justiça dos homens como se fosse uma regra natural. E ao matar essa menina, produziram uma mulher que precisou fabricar sua própria justiça. Recordo não apenas o fato, mas o clima: a perseguição, o medo rondando a casa, as conversas sussurradas que a criança entende pela metade, e essa metade já basta para adoecer a alma. Aprende-se cedo, no Brasil, que política não mora somente nos gabinetes. Ela entra pela porta, senta à mesa e, por vezes, cobra sangue.

 

SuperPauta: Qual foi seu primeiro medo “de gente grande”?

Nísia Floresta: O medo do passo na calçada à noite. O medo de que uma opinião custasse a vida. Eu era muito jovem quando compreendi que a coragem, nesta terra, frequentemente é tratada como provocação.

 

SuperPauta: Quando recebeu a notícia do assassinato, qual foi o primeiro pensamento vergonhoso que a senhora teve e jamais confessou?

Nísia Floresta: (Ela demora. O violino, ao longe, parece respeitar a pausa.) Pensei: “Por que ele não se calou?” Por um instante, desejei que meu pai fosse um homem medíocre e vivo, em vez de grande e morto. Senti raiva da coragem dele. E logo a vergonha desse pensamento me esmagou, porque percebi que eu amava nele justamente o que o matou. Carreguei isso como quem carrega uma pedra no bolso: pesa, mas lembra.

 

SuperPauta: Quem foi a primeira pessoa que lhe disse “mulher não se mete nisso”? E como a senhora respondeu?

Nísia Floresta: Um parente, num tom que ele julgava caridoso. Disse-me que eu deveria rezar, bordar, aceitar. Que a política era “suja” demais para mãos delicadas. Eu respondi com silêncio. Mas era um silêncio com olhos incendiados. Dentro de mim, a resposta foi simples: se a política mata meu pai e ameaça minha casa, ela já se meteu comigo. Agora sou eu quem se mete nela.

 

SuperPauta: Se eu lhe pedir uma cena: um dia perfeito antes da ruptura. Qual é?

Nísia Floresta: Uma tarde comum na fazenda. Meu pai lendo, minha mãe organizando a casa, o sol fazendo da poeira uma espécie de ouro triste. Eu com um livro nas mãos, acreditando que o tempo era infinito. O paraíso, meu caro, é quase sempre uma falsa sensação de segurança.

 

SuperPauta: O que o Rio Grande do Norte lhe deu como “matéria-prima” que a Europa jamais substituiu?

Nísia Floresta: A rudeza que ensina. A teimosia que não pede desculpas por existir. A capacidade de florescer em meio à secura, como faz o mandacaru, sem solicitar aprovação aos jardins bem-cuidados. A Europa oferece verniz. Minha terra deu-me ossatura.

 

SuperPauta: Inventar o nome Nísia Floresta Brasileira Augusta foi estratégia, ferida ou manifesto?

Nísia Floresta: Foi manifesto com cálculo, e cálculo com emoção. Nísia é resto da menina, diminutivo que guarda ternura. Floresta é raiz, é memória da terra, é também uma espécie de juramento. Brasileira é tomada de posição: não aceito ser apêndice de império, nem sombra de colônia. E Augusta… (ela toca o camafeu, como se fosse um ponto final)

Augusta foi homenagem, sim, e também reivindicação. Como não me concediam títulos, precisei fabricar a dignidade do meu próprio nome. O nome, meu caro, pode ser escudo. Pode ser porta. E pode ser provocação.

 

SuperPauta: Esse nome também tinha vaidade? Em que medida a senhora queria ser respeitada, admirada?

Nísia Floresta: Toda escrita pública arrasta consigo algum grau de vaidade. Quem nega isso mente ou não se conhece. Eu queria ser lida. Queria entrar, pela via do pensamento, em lugares onde meu corpo não era admitido. Queria que minha palavra atravessasse a sala antes de mim. Mas havia diferença: eu não buscava admiração por enfeite, por docilidade, por esse teatro de agradar. Eu queria ser admirada pelo que eles temiam: inteligência e coragem. Para uma mulher, naquele século, isso era quase indecência.

 

SuperPauta: A senhora se sentia mais livre escrevendo como Nísia do que vivendo como Dionísia?

Nísia Floresta: Sem comparação. No papel, eu debatia com legisladores e desmentia fatalidades. Na vida, eu enfrentava aluguel, enfermidades, olhares que julgam, portas que se fecham com educação. Nísia foi a superação possível de Dionísia, não por desprezo à menina, mas por compaixão a ela.

 

SuperPauta: A senhora se reinventou para se proteger dos homens ou para se tornar maior do que eles?

Nísia Floresta: Para não ser esmagada por eles. Para que, quando tentassem reduzir-me, encontrassem resistência. A sociedade ama diminuir a mulher: se ela pensa, dizem que é soberba; se ela cala, dizem que é virtuosa. Eu preferi ser soberba aos olhos deles a ser morta por dentro.

 

SuperPauta: Em 1832, ao publicar Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, a senhora sabia que acendia um rastilho?

Nísia Floresta: Sabia. E acender foi necessário. O Brasil daquela época era um salão onde as mulheres eram móveis: bonitas, úteis, silenciosas. Falar em “direitos” para quem era tratada como propriedade era heresia. Eu queria que o leitor sentisse incômodo. A complacência é o travesseiro do opressor.

 

SuperPauta: Muitos repetem que o livro foi “tradução” de Wollstonecraft. O que a senhora queria: fidelidade ou efeito?

Nísia Floresta: A fidelidade ao espírito, não ao servilismo. Li, sim, as vozes estrangeiras, e seria tolice negar. Mas eu não pretendia ser copista. O Brasil não se fere com os mesmos instrumentos da Inglaterra. Eu precisava que a lâmina encontrasse a carne brasileira: seus costumes, suas hipocrisias, suas desculpas piedosas para manter a mulher na ignorância. Se eu apenas traduzisse, eu seria uma sombra. Eu quis ser voz.

 

SuperPauta: Por que homens temem tanto uma mulher que pensa?

Nísia Floresta: Porque o poder deles repousa sobre a nossa deseducação. Se a mulher pensa, ela pergunta. Se pergunta, exige. Se exige, muda o contrato. E muitos homens preferem chamar “ordem” àquilo que é apenas privilégio. Temem não a inteligência feminina, mas a falência de sua pretensa superioridade.

 

SuperPauta: Qual reação mais feriu: o riso, o silêncio ou o ataque?

Nísia Floresta: O riso. O ataque, ao menos, reconhece que há força. O silêncio pode ser medo. O riso, não: o riso pretende transformar a nossa dor em anedota. É uma chibata que não deixa marcas na pele, mas marca a alma.

 

SuperPauta: Qual foi a consequência prática mais dura da sua ousadia?

Nísia Floresta: A solidão social. Portas fechadas com gentileza. Amizades que se afastam não por convicção, mas por conforto. E o dinheiro, sempre apertado, porque a liberdade de uma mulher custa e poucos se dispõem a pagar a conta.

 

SuperPauta: Teve algum homem que a senhora amou e que a amava… desde que a senhora não pensasse alto demais?

Nísia Floresta: (Ela sustenta o olhar, sem concessão.) Houve homens que apreciaram minha inteligência como se aprecia um pássaro raro: com admiração, mas também com desejo de engaiolar. Queriam a mulher de espírito, contanto que esse espírito não lhes contestasse o mundo. É uma forma elegante de posse.

 

SuperPauta: A viuvez lhe deu liberdade ou cobrou caro demais?

Nísia Floresta: A viuvez foi tragédia que se tornou chave. Se eu tivesse permanecido presa ao ciclo da esposa respeitável, talvez eu nunca tivesse escrito o que escrevi. Mas paguei com noites frias, com a falta de um companheiro cotidiano, com a dureza de ser mulher só em uma sociedade que faz da solidão feminina uma suspeita. Foi justo? Às vezes, a vida parece sempre injusta. Todavia, olhando o que ficou, aceito o preço. Nem sempre com alegria. Com lucidez.

 

SuperPauta: Qual culpa lhe visitava mais: a de mãe ou a de escritora?

Nísia Floresta: Ambas. E alternavam como marés. A culpa de mãe me dizia: “estás ausente”. A culpa de escritora dizia: “estás te reduzindo”. O mundo queria que eu escolhesse uma só forma de existir. Eu escolhi existir inteira, ainda que isso significasse ferir expectativas.

 

SuperPauta: A senhora já quis ser “apenas” feliz, doméstica, anônima… e depois se odiou por desejar isso?

Nísia Floresta: Já. A fadiga faz a alma desejar repouso, e repouso, para a mulher, frequentemente se confunde com submissão. Eu desejei o conforto de não ser alvo. E logo me repreendi, porque entendi: o conforto, muitas vezes, é um pacto com a injustiça.

 

SuperPauta: Ao fundar o Colégio Augusto e ensinar ciências e línguas, qual foi o escândalo real: o conteúdo ou a autonomia?

Nísia Floresta: A autonomia. O conteúdo era pretexto. Perguntavam: “Para quê?” Como se o saber precisasse justificar-se por utilidade doméstica. O escândalo era ver uma menina sendo tratada como ser racional e não como adorno.

 

SuperPauta: Qual era a sua maior dificuldade: ensinar uma menina a pensar num mundo que mandava obedecer?

Nísia Floresta: Convencer a própria menina de que ela tinha direito à própria mente. O opressor, muitas vezes, triunfa quando convence a vítima de que sua cela é destino. Eu combatia a cela por fora e por dentro.

 

SuperPauta: Seus métodos foram considerados escandalosos. Isso a divertia ou a entristecia?

Nísia Floresta: Entristecia, porque o escândalo revela miséria intelectual. Mas confesso: às vezes, havia um prazer austero em ver conservadores alarmados. O alarme deles era prova de que eu tocara no nervo.

 

SuperPauta: Qual método seu era “insuportável” para a moral da época?

Nísia Floresta: Ensinar a interpretar, não apenas repetir. Fazer perguntas em vez de decorar respostas. E, sim, cuidar do corpo como parte da educação. A sociedade queria meninas imóveis, como porcelana. Eu queria seres humanos.

 

SuperPauta: Qual era o seu método secreto para ensinar coragem, não só conteúdo?

Nísia Floresta: Eu as fazia falar. Em público. Com ordem e clareza. O medo se combate exercitando a voz. Quem aprende a sustentar uma ideia diante da turma aprende, um dia, a sustentar-se diante do mundo.

 

SuperPauta: A senhora sofreu ataques e calúnias. Qual calúnia a acertou porque tinha um grão de verdade ou porque parecia verdade?

Nísia Floresta: A que insinuava que uma mulher independente só pode ser “imoral”. Esta calúnia me feria porque eu compreendia o mecanismo: não era sobre minha conduta, era sobre meu exemplo. Queriam que as mães temessem matricular as filhas. Queriam que as alunas temessem parecer-se comigo. O grão de “verdade”, se assim chamais, era apenas isto: eu não me ajoelhava diante do julgamento masculino. E para eles, isso já era pecado.

 

SuperPauta: Teve uma ocasião em que pensou em desistir?

Nísia Floresta: Sim. Houve noites em que a solidão pareceu mais forte que a missão. Eu chorei escondida como choram os teimosos: com raiva. Mas na manhã seguinte eu fazia o que sempre fiz: levantava, vestia-me, abria livro, e continuava. A coragem, quase sempre, é uma disciplina, não um fogo de artifício.

 

SuperPauta: O Colégio Augusto foi sucesso financeiro ou moral?

Nísia Floresta: O sucesso moral sempre veio antes. O financeiro era instável, porque a instabilidade é o imposto cobrado às mulheres que ousam. Eu nunca tive o luxo de trabalhar sem pensar em contas. A grande ironia é esta: querem que a mulher seja perfeita, mas não querem que ela tenha meios.

 

SuperPauta: Por que dar voz ao indígena em A lágrima de um Caeté?

Nísia Floresta: Porque o indígena foi tratado como obstáculo, não como origem. O Brasil gosta de usar o indígena como ornamento de retórica e, ao mesmo tempo, apagar sua dor concreta. Eu quis inverter o olhar: obrigar o leitor a sentir a invasão, a perda, o roubo do chão e do nome.

 

SuperPauta: A senhora viu a escravidão de perto. Qual cena foi a mais insuportável?

Nísia Floresta: Uma mãe vendo o filho ser arrancado de seus braços e vendido como se fosse mercadoria. O grito daquela mulher não era apenas dela: era de uma nação inteira que se acostumou a chamar abismo de economia. A escravidão, meu caro, não apodrece somente o escravizado. Apodrece a alma do senhor.

 

SuperPauta: A senhora via conexão entre a opressão da mulher e a opressão do escravizado?

Nísia Floresta: Sim: a ideia de propriedade. O corpo do outro é tomado como coisa. A voz do outro é tratada como ruído. A vontade do outro é vista como insolência. Quando a sociedade aprende a tratar alguém como objeto, ela se acostuma a objetificar em cadeia. Hoje é o negro. Amanhã é a mulher. Depois é o pobre. O mecanismo é o mesmo, mudam as desculpas.

 

SuperPauta: A senhora temia virar porta-voz dos oprimidos sem pertencer a eles? Como evitava o paternalismo?

Nísia Floresta: Eu temia, sim. E o temor era saudável, porque a vaidade também pode vestir a máscara da compaixão. Eu procurava escutar, observar, aprender. Mas não vos direi que sempre fui perfeita: ninguém é. Minha época tinha cegueiras que até os bem-intencionados carregavam. O que eu podia fazer era não contribuir para o coro do desprezo. E denunciar, do modo que me era possível, a hipocrisia de quem se dizia civilizado enquanto batia em gente.

 

SuperPauta: O Brasil aboliu a escravidão tarde. Isso lhe pareceu alívio ou vergonha?

Nísia Floresta: Alegria tardia tem gosto de vergonha. Libertar é obrigação, não favor. E o Brasil transformou obrigação em festa para a própria imagem. Ainda assim, celebrei a liberdade dos que deixaram de ser legalmente mercadoria. E chorei pelo tempo roubado, pelas vidas inteiras queimadas em silêncio.

 

SuperPauta: A senhora acreditava que o Brasil tinha conserto. Ainda acredita?

Nísia Floresta: Acredito na terra e no povo. Desconfio profundamente das elites que fazem da ignorância um instrumento. O conserto do Brasil não virá apenas por lei escrita. Virá por educação e por vergonha moral. Sem vergonha moral, o homem muda o regime e conserva a crueldade.

 

SuperPauta: Se o Brasil fosse um filho, qual defeito ele nunca corrige?

Nísia Floresta: A mania de confundir esperteza com inteligência, e improviso com destino. E esse vício de culpar sempre o tempo, o mundo, o outro, para não encarar o próprio espelho.

 

SuperPauta: O que a Europa lhe deu além do frio?

Nísia Floresta: Deu-me o anonimato de observar sem ser imediatamente reduzida ao papel que esperavam de mim. Deu-me bibliotecas onde eu não precisava pedir licença por ser mulher. Deu-me interlocuções e também um tipo de solidão que só existe fora da pátria: a solidão de não ser lembrada do modo correto. Mas não idealizeis. A Europa também tem seus preconceitos, apenas mais bem penteados.

 

SuperPauta: Nos salões europeus, a senhora era vista como igual ou como curiosidade tropical?

Nísia Floresta: Como curiosidade, primeiro. Como igual, às vezes, depois. Havia quem me admirasse como se admira um animal raro: com fascínio e distância. “Vede, uma mulher instruída vinda do Novo Mundo!” Era elogio e insulto no mesmo embrulho. Eu aprendi a usar a curiosidade como porta e a inteligência como permanência. Entrar é uma coisa. Ficar, é outra.

 

SuperPauta: Conte um episódio em que exotismo ou racismo velado apertou seu pescoço como luva de pelica.

Nísia Floresta: Num jantar, um cavalheiro elogiou minha “cor tropical” como se eu fosse paisagem. Fez de mim um objeto de fantasia. Respondi com frieza, citando autores e princípios morais, deslocando a conversa para onde eu comandava: o pensamento. Vi o homem engolir o próprio atrevimento junto com o vinho. Há uma vantagem em ser subestimada: o golpe do argumento entra sem ser visto.

 

SuperPauta: Viajar era fuga, método ou cura?

Nísia Floresta: Era respiração. No Brasil, eu sufocava em estreitezas. Viajar era medir o mundo com os próprios pés, e afirmar, a cada fronteira, que eu não era propriedade de lugar nenhum. Escrever itinerários era tentar domesticar a saudade com método.

 

SuperPauta: Se pudesse trazer uma coisa da Europa para o Brasil, o que seria?

Nísia Floresta: O respeito pela memória e pela escola. Lá, uma biblioteca é templo. Aqui, muitas vezes, a escola é tratada como despesa. Enquanto isso não se inverter, o Brasil continuará devendo a si mesmo.

 

SuperPauta: Hoje, mulheres votam, governam países, comandam instituições. Isso supera seus sonhos?

Nísia Floresta: Supera e confirma. Mas não vos enganeis: trocaram-se algumas leis, e muitas violências permaneceram com outros nomes. Antes, a submissão era norma escrita. Hoje, frequentemente, é cultura, e cultura é adversário mais escorregadio.

 

SuperPauta: A palavra “feminicídio” existe. O que a senhora sente ao ouvi-la?

Nísia Floresta: Sinto o horror de um crime velho com nome novo. No meu tempo, chamavam assassinato de “honra”, e chamavam ódio de “amor”. Dar nome é um começo, porque obriga a sociedade a olhar a ferida sem maquiagem. Mas o nome não cura por si. É preciso querer curar.

 

SuperPauta: Existe algo chamado “internet”: uma rede onde pessoas se comunicam instantaneamente, expõem ideias, imagens, vida privada. O que a senhora pensa disso?

Nísia Floresta: Dizeis que há uma espécie de praça pública interminável, onde qualquer voz pode gritar e qualquer mentira pode se vestir de verdade. Vejo aí um prodígio e um perigo. Prodígio, se servir à instrução. Perigo, se servir à vaidade e ao ódio. O pensamento pede tempo. A sabedoria não é veloz. Se a comunicação se torna mais rápida do que a reflexão, o mundo ganha ruído e perde sentido. E quando se perde sentido, a barbárie não tarda.

 

SuperPauta: Nas redes, muitas mulheres expõem o corpo livremente. Isso é liberdade ou nova servidão ao olhar masculino?

Nísia Floresta: Aqui aparece minha contradição, que não escondo. Defendi a mente da mulher. Vi no corpo, muitas vezes, o pretexto usado para escravizá-la. Se uma mulher decide por si, em plena consciência, e não por coação do mercado ou do olhar alheio, há liberdade. Mas se ela se expõe para ser validada, medida, comprada em elogios, então a corrente apenas mudou de material. A tirania, meu caro, pode ser voluntária. E a servidão pode sorrir.

 

SuperPauta: A senhora era conservadora em costumes e radical em direitos. Onde termina liberdade e começa autodestruição?

Nísia Floresta: A liberdade que destrói a dignidade é liberdade sem norte. Eu não defendo que o Estado vigie a mulher. Defendo que a mulher vigie o mundo que tenta comerciar sua imagem. A autonomia não é fazer qualquer coisa. É fazer com consciência, sem pedir permissão aos vícios do tempo.

 

SuperPauta: A senhora defenderia o direito de uma mulher fazer escolhas que a senhora considera moralmente erradas?

Nísia Floresta: Defenderia o direito, sim, ainda que eu lamentasse a escolha. Porque quando se abre exceção para controlar a mulher “pelo bem”, logo essa exceção vira regra, e a mulher volta à jaula. Prefiro uma mulher livre errando a uma mulher “correta” sob tutela.

 

SuperPauta: O que a senhora diria às meninas que acham o feminismo desnecessário?

Nísia Floresta: Diria: é fácil esquecer a tempestade quando se dorme em teto construído por outras mãos. Se hoje falais, é porque outras, antes, pagaram com humilhação e risco. O direito que não se defende se perde como água entre dedos.

 

SuperPauta: E aos homens jovens que se sentem atacados quando ouvem “feminismo”?

Nísia Floresta: Eu lhes diria: não é ataque ao vosso ser, é ataque ao vosso privilégio. E privilégio não é natureza: é costume. Se vosso valor depende da inferioridade alheia, vosso valor é frágil. A igualdade não vos diminui. Ela vos humaniza.

 

SuperPauta: A senhora recebeu a morte com medo ou curiosidade?

Nísia Floresta: Com cansaço e curiosidade. Cansaço de lutar num mundo que muda lentamente. Curiosidade, porque sempre fui investigadora. A morte foi a última pergunta, e eu não podia fingir desinteresse.

 

SuperPauta: Seu corpo voltou ao Rio Grande do Norte décadas depois. O que significa “voltar” quando já se está fora do tempo?

Nísia Floresta: Para mim, pouco importa onde repousam ossos. Para os vivos, importa muito. A volta não foi meu descanso. Foi o pedido de desculpas de uma terra que tardou em reconhecer sua filha. E pedidos tardios também têm valor, porque ensinam às gerações novas a não repetirem a mesma ingratidão.

 

SuperPauta: O que é mais difícil: lutar contra os homens do seu tempo ou contra o esquecimento do nosso?

Nísia Floresta: O esquecimento. Contra os homens eu tinha rosto, argumento, combate. O esquecimento é névoa: apaga sem parecer culpado. É a segunda morte, a definitiva.

 

SuperPauta: Se eu tivesse de resumir sua vida numa cena, e não num conceito… qual cena a senhora escolheria?

Nísia Floresta: Eu escolheria uma sala de aula. Meninas sentadas, algumas assustadas, outras já insolentes. Eu abrindo um livro e perguntando, sem piedade: “Que pensais?” E o silêncio primeiro, e depois a primeira resposta, frágil, trêmula, mas nascida. É aí que o mundo muda: quando uma voz que nunca foi ouvida aprende a existir.

 

SuperPauta: Uma mensagem final para as mulheres brasileiras.

Nísia Floresta: Não espereis licença. A licença, quase sempre, é uma coleira. Educai-vos. Instruí-vos. Não para competir com homens, mas para não serdes governadas por ignorantes. E não negocieis vossa dignidade por aplausos.

 

SuperPauta: E para os homens?

Nísia Floresta: Desçam do pedestal. A solidão lá em cima é terrível, e a queda, quando vem, é humilhante. Aprendei a ouvir. Aprendei a repartir o cuidado, a casa, o mundo. A virilidade que se alimenta de domínio é pobreza de espírito.

 

SuperPauta: Como a senhora quer ser lembrada?

Nísia Floresta: Não como santa. Santos não servem como modelo humano. Quero ser lembrada como mulher que recusou o tamanho que lhe ofereceram. Como alguém que, quando disseram “cala”, respondeu “escrevo”. (Enquanto ela se levanta, o ambiente muda. A biblioteca se dissolve em areia. A areia se dissolve em páginas. O violino cessa. Fica apenas o vento, e uma pena antiga sobre uma mesa vazia, como se a memória tivesse mãos.)

Nísia Floresta: Adeus. E não me façais elogio fácil. Fazei-me justiça: lendo-me, discutindo-me, contrariando-me quando for preciso. A obra que ninguém enfrenta vira enfeite. Eu não escrevi para ser enfeite.