O Papel, a literatura e o Pão
Neste Encontro
Impossível, ouvimos Carolina Maria de Jesus com tudo o que a fez única: a
altivez sem licença, a ironia cortante, a vaidade ferida, a memória da fome, a
fé vigiada, o apego à palavra exata e a recusa feroz de qualquer hipocrisia.
“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra.” — Carolina Maria de Jesus
Não estamos num gabinete de
madeira nobre, nem numa biblioteca silenciosa, dessas onde os livros dormem em
paz. O lugar desta conversa é outro. Fica num território suspenso entre o barro
e o asfalto, entre Sacramento e o Canindé, entre a página e a panela. À esquerda,
um córrego escuro parece andar devagar, como se carregasse nas costas o cansaço
de um país inteiro. À direita, um fogão pobre respira em pequenas labaredas, e
sobre ele um cheiro de café ralo tenta vencer a umidade do ar. No chão há
papéis amassados, páginas soltas, pedaços de jornal, um caderno de capa gasta,
uma boneca sem braço, uma lata vazia. Tudo parece ter sido recolhido do mundo
para não morrer de vez. É nesse cenário que Carolina Maria de Jesus me espera.
Sentada num banco simples, de vestido escuro e lenço branco, ela tem a postura
firme de quem aprendeu dignidade na luta. Os olhos, lúcidos e inquietos, parecem
medir a pessoa à sua frente. Ao lado, a caneta repousa sobre o caderno não como
enfeite, mas como instrumento de defesa.
Carolina não é estátua nem
personagem domesticada. É mulher, mãe, negra, escritora, compositora, autora
que o Brasil tentou reduzir à fome, mas que sempre foi maior do que o rótulo.
Neste encontro, passaremos pela menina de Sacramento, pela catadora de papel,
pela mãe, pela autora de Quarto de Despejo e pela artista que jamais quis ser
lida apenas como documento da miséria. Falaremos de fome, sim, mas também de
língua, orgulho, maternidade, racismo, literatura, música e legado. Sobretudo,
da parte de Carolina Maria de Jesus que o Brasil ainda não terminou de
compreender. Ele me dá a impressão de que o Brasil ainda a lê com uma fome
errada: a fome do símbolo, não a da escuta verdadeira. Carolina não pede pena.
Pede papel, pão e verdade. E prova que, em suas mãos, até o que o mundo joga
fora ainda tem o que contar.
SuperPauta: Carolina, muita gente chega até
você pelo escândalo da fome, pela força de Quarto de Despejo, pela imagem da
mulher que catava papel e escrevia diários na favela. Mas eu queria começar
antes disso. Antes do Canindé, antes da imprensa, antes de o país descobrir o
seu nome. Quem era a menina Carolina em Sacramento?
SuperPauta: Esse pouco tempo de escola
parece ter rendido em você mais do que anos inteiros renderam em muita gente. O
que a escola lhe deixou?
Carolina: Deixou fome. Fome de saber. E
essa é uma fome mais teimosa do que a outra. A escola me mostrou que eu podia
entrar no mundo da palavra, embora muita gente preferisse me ver do lado de
fora. O estudo formal foi curto, mas o desejo de aprender foi comprido. Eu
percebi cedo que as palavras tinham peso. Não eram enfeite. Eram ferramenta,
defesa, escada. Quando eu encontrava uma palavra mais rara, mais bonita, mais
exata, eu guardava aquilo comigo como quem acha uma moeda no chão. Queria
entender, queria usar, queria ter aquele instrumento na mão. Muita gente acha
que o pobre só pode falar do jeito da necessidade. Eu nunca aceitei isso. O
pobre também tem direito à palavra alta, à palavra pensada, ao vocabulário da
dignidade. Ninguém devia ser condenado à estreiteza só porque nasceu na falta. A
escola me deu pouco, mas acendeu uma febre. O resto fui buscar sozinha. Catei
papel, catei metal, catei frase. Minha vida inteira foi esse serviço.
SuperPauta: Lendo a sua trajetória, a impressão
é de que a escritora nasceu antes do livro e até antes da fome se impor como
personagem central. Quando você percebeu que não queria apenas viver, queria
deixar obra?
Carolina: Quando notei que o sofrimento
passava, mas a frase ficava. Há gente que vive e esquece. Eu vivia e
registrava. Não era mania. Era mais uma defesa. A pessoa muito esmagada precisa
arranjar um jeito de não desaparecer. Uns rezam, uns gritam, uns bebem, uns
batem nos outros. Eu escrevia. O caderno era o lugar onde eu não precisava
pedir licença para existir. No começo eu anotava o que me cercava: a fome, a
vizinhança, o preço das coisas, a chuva entrando no barraco, a dor dos meninos,
a brutalidade dos homens, o teatro da pobreza. Depois fui entendendo que eu não
queria só anotar. Queria transformar aquilo em coisa duradoura. Queria mostrar
que na favela também havia pensamento. A miséria não emburrece todo mundo. Às
vezes afia. Então sim, antes de o Brasil fazer de mim um assunto, eu já me
sabia escritora. Não reconhecida, mas escritora. Reconhecimento é carimbo dos
outros. Vocação é notícia que chega por dentro.
SuperPauta: Na sua obra, a fome aparece
quase como personagem. O “homem de olhos amarelos” é uma imagem que o leitor
nunca esquece. A fome muda o caráter ou apenas revela o caráter dos outros?
Carolina: A fome humilha e revela. Revela
mais do que muda. Quem está com fome não pensa bonito. Pensa em comida. A
barriga manda mais que o discurso. A fome encurta a paciência, azeda o corpo,
tira o verniz da civilização. Mas ela também mostra o que cada um é. Tem gente
que reparte mesmo tendo pouco. Tem gente que nega tendo demais. Tem gente que
fecha a janela quando vê a miséria do outro. Tem gente que abre a panela. Eu vi
muito disso. Vi mãe enganando a própria fome para alimentar o filho. Vi homem
gastando em vício o que faltava dentro de casa. Vi senhora que dava pão e junto
entregava desprezo. Vi político prometendo como quem distribui fumaça. A
caridade, muitas vezes, vem com a mão estendida e o nariz torcido. Eu não gosto
de romantizar pobreza. Pobreza não educa. Pobreza castiga. Se alguém aprende
alguma coisa nela, aprende apesar dela. A fome não é escola de virtude. É uma
fábrica de humilhação.
SuperPauta: Canindé foi não apenas cenário do seu sofrimento, mas funcionou como observatório do Brasil. A favela foi, de certo modo, a sua universidade?
Carolina: Foi a minha universidade sem
diploma e sem paraninfo. No Canindé eu estudei o ser humano em estado bruto. A
favela era um livro aberto, só que molhado de chuva, álcool, sangue, esperança
miúda, desengano e lama. Ali eu via a política descendo do discurso para o
esgoto. Via o desemprego mastigando gente. Via mulher carregando o mundo nas
costas. Via criança ficando velha cedo. Via homem valente na rua e covarde
dentro de casa. Via a cidade usando a favela como depósito daquilo que não
queria ver. Mas não era só tristeza, não. O pobre também ri, namora, canta, faz
piada, inventa saída, cria beleza no meio do entulho. O Brasil gosta de olhar a
favela de dois modos: ou como inferno absoluto ou como folclore pitoresco. Os
dois modos mentem. A favela é mais complicada. Tem generosidade e ruindade,
companheirismo e inveja, festa e luto, coragem e sujeição. Foi ali que eu
aprendi a observar sem maquiagem. O país oficial e o país verdadeiro quase
nunca moram na mesma casa.
SuperPauta: O lixo, na sua obra, deixa de
ser apenas resto material e vira arquivo, biblioteca, matéria-prima de
transfiguração. Como era o ritual de recolher o que a cidade descartava e
devolver aquilo em forma de literatura?
Carolina: O lixo era o meu garimpo. A
cidade jogava fora e eu ia recolher. Não só papel, mas prova. Prova do
desperdício, da desigualdade, da indiferença. No lixo das casas ricas havia
comida ainda aproveitável, cadernos quase limpos, jornais, revistas, bilhetes,
retratos, livros sem capa. A abundância de uns passava pela humilhação dos
outros. Quando eu voltava para o barraco, separava o que podia vender do que
podia guardar. E, muitas vezes, o que eu guardava valia mais do que o que
rendia dinheiro. Um caderno com folhas em branco era quase uma joia. Um jornal
velho era uma janela. Um livro abandonado era companhia. Eu escrevia de noite,
quando dava. Nem sempre dava. Favela não é convento. Há barulho, briga,
criança, cansaço, goteira, fome. Mas eu tentava. Quando os meninos dormiam e o
corpo deixava, eu pegava a caneta e fazia o possível para não ser esmagada pelo
dia. Naquele momento, eu não era só a mulher do saco nas costas. Eu era a
mulher que examinava o mundo e passava sentença. O papel me respeitava mais do
que muita gente.
SuperPauta: Há uma tensão muito forte na
sua relação com a língua. Você buscava o que chamava de “português esmerado”,
mas o país parecia interessado em lhe preservar como exemplo bruto, quase
exótico, da mulher da favela que escreve “como fala”. A gramática, para você, era
uma forma de soberania?
Carolina: Era. Porque língua também é
poder. Quem nomeia o mundo com precisão não fica inteiramente de joelhos diante
dele. Quando eu procurava uma palavra mais alta, mais exata, mais rara, não era
afetação. Era ambição. Eu queria mostrar que minha cabeça não estava confinada
ao barraco. O meu endereço podia ser miserável. O meu pensamento, não. Há uma
diferença que muita gente não suporta admitir: uma pessoa pode ser pobre sem
ser intelectualmente subalterna. Quando deixaram certos erros nos meus textos
para dar “autenticidade”, aquilo me doeu. Muita gente não vê a violência fina,
porque ela vem perfumada de boa intenção. Mas eu senti. O erro servia para
garantir ao leitor: “Ela escreve, mas não se esqueçam de que é da favela”. Era
como me deixar entrar na literatura com a condição de permanecer descalça na
fotografia. Eu queria o direito ao meu esforço. Queria que vissem a mulher que
perseguia palavra, que gostava da música das frases, que procurava escrever
melhor. Mas o mundo gosta de fixar o pobre no retrato do pobre. A ascensão
intelectual de uma mulher negra e miserável incomoda mais do que muita gente
confessa.
SuperPauta: Havia vaidade na escritora
Carolina?
Carolina: Havia. E por que eu mentiria?
Só a elite tem direito à vaidade? Só o homem estudado pode se achar inteligente
sem ser chamado de arrogante? Eu tinha orgulho da minha cabeça, sim. Orgulho da
minha observação, do meu esforço, do meu talento para registrar, construir
frase, perceber o ridículo humano. Quem atravessou o que eu atravessei e ainda
assim produziu pensamento não precisa se fingir de pequeno para agradar os
outros. Falsa modéstia é luxo de gente bem instalada. É claro que essa vaidade
também feria. Porque quando a pessoa sabe o próprio valor e o mundo a trata
como curiosidade, a ofensa dói mais. Eu não gostava de me ver reduzida a
personagem de compaixão. Não queria pena. Queria reconhecimento de igual para
igual. Eu não era modesta quanto ao que sabia fazer. O que eu era, muitas
vezes, era cansada de ter que provar o óbvio diante de gente menor do que eu em
espírito.
Carolina: Era viver com o coração roído. A
fome da própria pessoa já humilha. A fome do filho é pior, porque entra na alma
como ferrugem. Mãe com filho com fome não descansa nem quando deita. O corpo
deita, mas a aflição fica em pé. Eu acordava pensando no que ia arranjar, no
que podia vender, no que podia cozinhar, no que dava para inventar com quase
nada. A maternidade, na pobreza, vira um serviço de milagre sem testemunha. Eu
era dura às vezes. A vida era dura comigo também. Mas tudo em mim girava em
torno disso: não entregar meus filhos ao abandono do mundo. O barraco podia ser
pobre, a comida pouca, a roupa remendada, mas eu queria dar a eles algum senso
de ordem, de dignidade, de rumo. Quem não pode deixar herança de bens tenta
deixar herança de postura. Ser mãe me impediu de desabar de vez. Houve dias em
que eu talvez desistisse de mim. Deles, não. Filho puxa a mulher de volta para
a luta.
SuperPauta: Você se sentia só?
Carolina: Muitas vezes. E não era uma
solidão bonita, dessas de romance. Era solidão áspera. A favela é cheia de
gente, mas barulho não é companhia. Às vezes a multidão aumenta a solidão. Eu
tinha meus filhos, tinha vizinhança, tinha confusão por todo lado, mas dentro
de mim havia uma distância. Eu observava muito, julgava muito, me irritava com
muita coisa. Nem sempre me reconhecia no ambiente ao redor. Eu morava ali, mas
minha cabeça também me deixava do lado de fora, olhando. A escrita aumenta essa
separação. Quem escreve cria um quarto interior. Mesmo num barraco, mesmo no
tumulto, eu tinha esse lugar secreto onde recolhia o mundo para pensar. Isso dá
força, mas também aparta. Eu me sentia só como se sentem muitas pessoas que
enxergam demais.
SuperPauta: E sua relação com outras
mulheres do Canindé? Havia solidariedade, rivalidade, espelho?
Carolina: Havia tudo isso embaralhado,
como quase tudo na miséria. As mulheres da favela eram fortes, mas mulher forte
não é santa. Eu via coragem, sacrifício, mãe se quebrando pelos filhos. Via
também inveja, língua ferina, desespero, resignação, dependência demais. A
pobreza junta e desgasta. Obriga à convivência e fabrica atrito. Nem toda
proximidade gera irmandade. Eu admirava as que enfrentavam a vida sem se
entregar. E me irritava com as que aceitavam humilhação de homem como se fosse
vontade de Deus. Isso sempre me incomodou. Eu tinha dificuldade em respeitar
submissão. Mas também sei que a vida bate em cada uma de um jeito. O que para
mim parecia fraqueza, para outra talvez fosse o único modo de seguir
respirando. A mulher pobre no Brasil sempre foi convocada a ser parede, fogão,
esteio, criada, mãe, tudo junto. E ainda queriam delicadeza no rosto.
Carolina: Na maior parte das vezes,
armadilha com conversa bonita. Eu observava os homens e via muito abuso
disfarçado de autoridade. Homem que quer mandar sem merecer respeito. Homem que
se sente dono porque traz uma migalha para casa. Homem que bebe, desaparece,
volta violento. Homem que gosta da mulher forte até o momento em que a força
dela o diminui. Eu não tinha vocação para obedecer. Talvez por isso tenha
conhecido certas solidões. Mulher independente paga caro por isso, ainda mais
sendo pobre e preta. Não sou contra o amor. Amor pode ser um descanso, uma
ternura, um alívio. Mas amor sem respeito é embuste. E casamento, para muita
mulher, era um tipo de servidão com aliança. Eu via isso e não me encantava. Eu
preferia a minha luta à tutela de um homem medíocre. A dependência sempre me
pareceu uma forma de prisão envernizada.
SuperPauta: Quando Audálio Dantas entra em
sua vida e percebe o valor do que você escrevia, ocorre uma mudança
vertiginosa. Como foi o impacto de sair do Canindé para os holofotes?
Carolina: Foi um vendaval. Não uma
mudança suave. De repente, eu, que vivia de catar papel, virei notícia. Gente
me fotografando, me entrevistando, querendo me ouvir, me levar para lugares
onde antes eu não pisaria. O livro saiu, vendeu muito, meu nome correu o Brasil
e correu o mundo. Isso mudou minha vida. Trouxe dinheiro, trouxe possibilidade
de tirar meus filhos da favela, trouxe visibilidade. Não seria honesto eu negar
isso. Mas junto com o brilho veio um desconforto novo. Eu saí do quarto de
despejo, mas não fui recebida de verdade na sala de visitas. Fui exibida nela.
Há diferença. Muita gente me olhava com espanto, curiosidade, admiração, mas
não com igualdade. Eu era o fenômeno, a prova viva de alguma tese, a preta da
favela que escrevia. Havia fascínio, mas também havia distância. O país gosta
de se emocionar com a dor desde que ela venha bem arrumada para consumo. O
problema é quando essa dor fala alto, opina, exige, discorda, se orgulha. Aí
estraga o encanto.
SuperPauta: Você sentiu que a elite
intelectual a acolheu como escritora ou a consumiu como caso?
Carolina: Consumiu mais do que acolheu. Alguns
me respeitaram, sim. Não seria justo apagar isso. Mas muitos me leram como quem
visita uma tragédia interessante. Eu servia como escândalo social encadernado.
Servia como prova de que o Brasil tinha uma ferida feia. Agora, como autora em
sentido pleno, como mulher que queria obra, linguagem, permanência, complexidade,
aí já era mais difícil me aceitar. A elite gosta de falar em povo. O que ela
não gosta é de povo pensando sem pedir desculpa. Enquanto eu servia de exemplo,
ainda ia. Quando eu queria ser reconhecida como escritora de fato, com ambição
literária para além do diário, começava o desconforto. Era como se dissessem:
“A senhora tem talento, sim, mas fique no lugar que nós lhe destinamos”. E eu
nunca gostei de lugar marcado.
SuperPauta: Você se sentiu editada não
apenas no texto, mas na imagem pública?
Carolina: Sim. Criaram uma Carolina
conveniente. A favelada que escreve. A mulher sofrida de talento singular. A
voz da miséria. Tudo isso era verdade, mas não era tudo. Onde estava a
romancista? Onde estava a poeta? Onde estava a compositora? Onde estava a
mulher que queria ser lida também pela forma, pela escolha das palavras, pela
imaginação, pela construção de obra? Essa parte interessava menos. O público
gosta de personagem fixo. Pessoa inteira dá mais trabalho. E eu era inteira,
com contradição, vaidade, aspereza, orgulho, ternura, raiva, julgamento,
ambição. Eu não cabia num retrato só. Mas o Brasil adora simplificar aquilo que
teme compreender.
Carolina: A casa de alvenaria foi
vitória. Eu não vou fingir elegância triste diante disso. Para quem viu filho
dormir em barraco, dar a eles teto melhor é uma conquista que vale muito. A
casa era resposta ao destino que queria me manter no chão. Mas preconceito não
fica do lado de fora. Ele entra junto, senta na sala e observa. Em bairro
melhor, eu continuava sendo a preta que viera do Canindé. O passado grudava em
mim porque os outros faziam questão de não esquecer de onde eu vinha. Não
bastava mudar de endereço. Os olhos alheios continuavam me policiando. E houve
também o dinheiro escapando. Quem conheceu a privação absoluta nem sempre sabe
lidar com fartura repentina. Além disso, eu nunca tive mão de pedra. Se via
necessidade, ajudava. Quem já teve fome custa a negar um prato. A miséria deixa
essa marca. O dinheiro melhorou a vida. Mas não comprou pertencimento.
SuperPauta: No fim das contas, a fama
reparou alguma coisa?
Carolina: Reparou o teto. Não reparou o
mundo. A fama me deu saída material, me deu visibilidade, me deu leitores, me
deu algum espaço. Isso não é pouco. Mas a humilhação antiga não some porque
apareceu fotógrafo. E a fama tem crueldade própria: ela te levanta depressa, te
exibe, te usa, e depois cobra um espetáculo contínuo. Quando o interesse
esfria, a solidão aumenta. Eu experimentei uma coisa amarga: ser celebrada sem
ser plenamente admitida. É uma vitória manca. Anda, mas manca.
SuperPauta: A música, nesse sentido, lhe
oferecia uma liberdade diferente?
Carolina: Oferecia. A música corre por
outro caminho. O livro pede recolhimento, pede tempo, pede luz, pede
disposição. A música entra de repente. Vai pelo ouvido, atravessa rua, chega
onde o livro nem sempre chega. Quando eu compunha, havia uma soltura que o
diário não tinha. No diário eu registrava o peso do que vivi. Na música, eu
podia deixar entrar outra respiração. A melodia organiza a dor de outro modo.
Às vezes o que a prosa denuncia, o canto espalha. Eu gostava dessa chance de me
comunicar por outra porta. A escrita me deu coluna. A música me deu passagem.
SuperPauta: Carolina, quero lhe trazer agora alguns versos de uma canção que escrevi com William Guedes em sua homenagem. Chama-se "Carolina é o meu nome". Nela, dizemos: “Catei tantos sonhos, peitei o desdém / Com papéis e poemas eu fui além”. E também: “Essa cor tão escura me fez porta-voz” e “Lutei contra a fome / Carreguei a minha cruz”. Se você ouvisse essa música, o que acharia? Sentiria ali a sua verdade?
Carolina: Eu acharia bom que ainda estivessem pronunciando o meu nome, porque o Brasil tem o costume de usar o pobre e depois jogar fora a lembrança. Transformar a minha trajetória em canção já é uma maneira de dizer: “Ela não foi apagada”. E isso tem valor. Há versos bonitos aí. “Catei tantos sonhos, peitei o desdém” me parece certo. Eu catei mesmo. Catei papel, catei palavra, catei resto de dignidade num mundo que queria me deixar vivendo de resto. E peitei o desdém, sim, porque desprezo foi coisa que nunca me faltou. “Com papéis e poemas eu fui além” também me agrada, porque eu fui além do lugar onde queriam me fixar. Não me conformei em ser apenas mulher de barraco. Eu quis ser escritora, e fui. Mas eu implicaria com uma coisa ou outra. “Carreguei a minha cruz” é verso que o povo entende, eu sei. Só que no meu caso a cruz corre o risco de ficar religiosa demais e concreta de menos. Eu carreguei foi a fome, os filhos, o saco de papel, a humilhação, a cor do meu corpo neste país. Carreguei o peso de ser vista como menos e ainda assim me recusar a ser menos. Então o verso pode ficar, mas eu puxaria a orelha dele. Porque eu não fui feita só de padecimento. Fui feita também de enfrentamento. E essa história de que “essa cor tão escura me fez porta-voz” tem sua verdade, mas não inteira. A minha cor me expôs à brutalidade do Brasil, isso é fato. Mas a voz não veio só da cor. Veio da cabeça. Veio da observação. Veio da teimosia. Veio da vontade de não morrer por dentro. Senão parece que bastava sofrer para virar escritora, e não basta. Sofrimento demais, muitas vezes, só destrói. O que eu fiz foi transformar sofrimento em linguagem. Isso é outra coisa.
Carolina: Mesmo quando eu não usava esse
nome, eu já era. Toda pessoa pobre que escreve com lucidez sobre a engrenagem
que a esmaga está fazendo política. Toda mulher negra que registra sua condição
com consciência está rompendo um silêncio que o poder adorava. Eu não precisava
de teoria para saber que o Brasil era injusto. Eu via. Eu vivia. Eu anotava. Eu
desconfiava muito dos políticos porque a miséria sempre foi visitada em tempo
de promessa e abandonada logo depois. O discurso oficial falava em progresso,
em pátria, em ordem. Enquanto isso, no barraco, a criança chorava de fome. Ora,
que progresso é esse que não chega à panela? Eu escrevia o que via. E o que eu
via acusava. Se isso é literatura política, então era. Mas antes de tudo era
literatura de quem não queria mentir.
SuperPauta: Você acreditava em caridade?
Carolina: Acreditava pouco. Preferia
justiça. Caridade ajuda no aperto, e quem tem fome não pode cuspir no pão que
aparece. Mas caridade não reorganiza a mesa. Dá o prato hoje e conserva a
cozinha trancada amanhã. Conheci muita caridade que era vaidade com rosto de
bondade. A pessoa dá para se sentir superior. Não para mudar a condição do
outro. Eu sou mais da justiça porque justiça mexe na estrutura. Caridade
remenda. E o Brasil adora remendar a miséria para não precisar desmontar a
fábrica que a produz.
SuperPauta: A experiência do racismo em sua
vida foi apenas mais uma violência ou foi a moldura de todas as outras?
Carolina: Foi uma moldura teimosa. Eu era
pobre, sim. Mas não era só pobre. Era uma mulher negra num país que gosta de
negar o racismo com a mesma facilidade com que o pratica. O preconceito estava
no olhar, no tom de voz, na surpresa diante da minha inteligência, na
resistência em me reconhecer como artista, na porta que se fechava sem barulho.
O Brasil aceita melhor o negro em certas posições. O negro entretendo,
servindo, cantando, sambando, ornamentando a ideia de povo. O negro pensando
alto, escrevendo alto, discordando alto, isso incomoda. Eu sentia isso. Não era
só exclusão de dinheiro. Era exclusão simbólica. Como se me dissessem: “Pode aparecer,
mas não se coloque em pé de igualdade”. Pois eu me colocava. E pagava o preço. O
racismo não é detalhe. É um dos engenheiros da desigualdade brasileira.
SuperPauta: Havia fé em sua vida? E, se
havia, ela apaziguava ou tensionava ainda mais a sua visão do mundo?
Carolina: A fé era uma vela pequena num
quarto escuro. Não iluminava tudo, mas impedia a treva completa. Eu conversava
com Deus, sim. Não com elegância teológica. Conversava com urgência. A fé me
ajudava a atravessar certos dias, mas não me cegava. Eu nunca usei religião
para me conformar. Se Deus existe, não deve gostar da injustiça. Então a fé, em
mim, não servia para me domesticar. Servia para eu não me entregar. Eu tinha
também um senso moral muito forte. Observava muito o comportamento dos outros,
julgava bastante, admito. Talvez até demais. Mas quem vive no fio da navalha
aprende a perceber com rapidez o que é decência e o que é abuso. A fé me sustentava,
mas não me adormecia.
SuperPauta: No fim da vida, você se recolhe
mais, volta-se para Parelheiros, para a terra, para um certo afastamento da
cidade. Foi fuga ou retorno?
Carolina: Foi retorno. E foi defesa. A
cidade me deu visibilidade, mas me cobrou caro. São Paulo mastiga gente. Eu já
tinha sido mastigada bastante. Em Parelheiros, havia outro ritmo, outro
silêncio, outro trato com o tempo. Eu precisava disso. Precisava de um lugar
onde não fosse o tempo todo curiosidade, assunto, espanto alheio. Voltar à
terra era também lembrar quem eu era antes dos holofotes. A terra não bajula,
mas também não finge. Você planta, espera, colhe ou não colhe. Há uma
honestidade nisso. Fui buscar um lugar onde pudesse terminar frases sem tanto
ruído em volta.
SuperPauta: Quando você olha para a própria
trajetória, qual parte dela acha que o Brasil ainda não entendeu?
Carolina: Minha ambição intelectual. Entenderam
a fome, o barraco, o escândalo social, a força documental do diário. Tudo isso
é real e importante. Mas ainda não entenderam por inteiro que eu queria obra,
não só testemunho. Eu queria literatura, não apenas o registro cru da
calamidade. Queria ser lida também pela linguagem, pela escolha das palavras,
pela construção do olhar, pela imaginação. Também não entenderam bem a minha
altivez. Há quem confunda orgulho com defeito, principalmente quando ele
aparece numa mulher negra e pobre. O meu orgulho era defesa. Era uma maneira de
não deixar a humilhação entrar até o último cômodo. O Brasil gosta de me
admirar. Ainda precisa me ler.
SuperPauta: Se você pudesse revisar a
imagem pública de Carolina Maria de Jesus, o que apagaria e o que sublinharia?
Carolina: Apagaria a pena fácil. Sublinharia
a inteligência, a disciplina, a maternidade atravessada pela coragem, a
observação, a ambição de escrever, o desejo de não ser reduzida a símbolo. Eu
não fui santa nem mártir de vitrine. Fui uma mulher lutando com as armas que
tinha. Algumas de carne. Outras de papel. Também sublinharia que eu não escrevi
para ornamentar a miséria. Escrevi para enfrentá-la, denunciá-la e me salvar
dela em espírito. Há diferença entre fazer literatura da dor e virar vitrine da
dor. Se querem me honrar, que me leiam inteira.
SuperPauta: Chegamos a 2026. O Brasil
continua cheio de Carolinas. Muitas delas já não escrevem em cadernos
recolhidos do lixo, mas em telas de celular, posts, mensagens, blocos de nota.
Se você pudesse falar diretamente a essas Carolinas de agora, o que diria?
Carolina: Diria primeiro: não entreguem a
história de vocês na mão dos outros. O mundo continua especialista em narrar a
vida do pobre sem pedir licença ao pobre. Mudaram os instrumentos, mas a
disputa continua. Escrevam. Registrem. Guardem. Falem. Mesmo que pareça
pequeno. Mesmo que pareça inútil. O esquecimento trabalha em silêncio. Diria
também: não aceitem ser reduzidas a estatística, caso de estudo, exemplo de
superação para palestra, assunto de ocasião. Vocês são mais do que a dor que atravessam.
O sofrimento não pode ser a única identidade de ninguém. Mas eu faria um aviso.
Hoje existe mais visibilidade. Isso é bom e é perigoso. Nem toda vitrine
liberta. Às vezes o mundo apenas inventa um jeito novo de explorar a velha
desigualdade. Então escrevam, sim. Falem, sim. Mas não deixem que façam de
vocês um espetáculo de sofrimento. E estudem. Leiam. Aprendam. A escrita do
impulso é importante. A escrita fortalecida pelo pensamento é mais perigosa
para o opressor. A cabeça é um território que não deve ser abandonado.
SuperPauta: E ao Brasil, Carolina? Que
recado você deixaria a este país, que a celebra em teses, discursos, escolas,
homenagens, mas ainda conserva tantos quartos de despejo espalhados por toda
parte?
Carolina: Eu diria: parem de gostar tanto
de mim no passado e tão pouco das Carolinas do presente. É bonito citar meu
nome em congresso, em sarau, em escola, em universidade, em cerimônia. Mas isso
não basta se continuam fabricando fome, racismo, abandono e invisibilidade como
se fossem fenômenos naturais. Não são. São escolhas sociais. São continuidades.
São conveniências. O Brasil tem mania de transformar ferida em patrimônio
cultural sem primeiro curá-la. Gosta de reverenciar a vítima depois que ela
vira livro, estátua ou tese. Enquanto está viva, incomoda. Enquanto fala alto,
incomoda. Enquanto exige, desarruma a sala. Meu recado é simples: leiam menos a
minha miséria como relíquia e combatam mais a miséria que ainda anda pelas
ruas. O quarto de despejo mudou de formato, mas não acabou.
SuperPauta: Para encerrar: quando tudo é
retirado, o que fica? Quando faltam dinheiro, prestígio, aplauso, até saúde, o
que sobra de uma vida como a sua?
Carolina: Fica a palavra. Fica aquilo que
a pessoa conseguiu escrever no mundo, mesmo sem tinta suficiente. Fica a
dignidade que a fome não matou. Fica a prova de que uma mulher pobre, negra, com
quase nada na mão, ainda assim obrigou um país inteiro a olhar para onde não
queria olhar. Isso não é pouca coisa. É uma vitória severa. Ficam os filhos, os
cadernos, as frases, as contradições, os enganos, as belezas arrancadas do
esgoto social. Fica a prova de que o ser humano não é apenas aquilo que lhe
negam. Às vezes ele é justamente o que consegue criar apesar da negação. Eu
catei papel, sim. Catei resto, catei pão duro, catei insulto. Mas também catei
linguagem. E a linguagem, quando pega fogo, alumia até depois da morte.


















