terça-feira, 22 de setembro de 2026

Encontros Impossíveis: Dom Hélder Câmara


O menino cearense que vestiu a camisa verde do integralismo, reviu as próprias certezas e se tornou uma das vozes mais incômodas da Igreja brasileira retorna ao estúdio do Memória Viva, da TV Universitária, em Natal. Diante das câmeras que o receberam em 1983, Dom Hélder fala da fé que não aceita servir de anestesia, da criação da CNBB, do Concílio Vaticano II, da ditadura, da tortura, do assassinato do padre Henrique, da não violência, das contradições da Igreja e da esperança como trabalho. E reencontra a capital potiguar de maio de 1959, quando presidiu o II Encontro dos Bispos do Nordeste e ajudou a aproximar a Igreja, o governo de Juscelino Kubitschek e o pensamento de Celso Furtado na busca de respostas para a miséria nordestina.

Entrevista imaginária por Roberto Homem

sábado, 19 de setembro de 2026

Capítulo Potiguar: Jesus, o papa-jerimum


E se Jesus tivesse nascido na Ribeira, crescido nas Rocas, reunido seus apóstolos por concurso e percorrido o Rio Grande do Norte pregando um evangelho de justiça, fraternidade e defesa da vida?

Em Jesus, o papa-jerimum, o médico, jornalista, poeta e memorialista José Fernandes Pedrosa transfere para o território potiguar alguns dos episódios mais conhecidos da trajetória de Cristo. O resultado é uma narrativa construída com humor, irreverência, crítica social e um conhecimento muito particular das cidades, dos costumes e das contradições do Rio Grande do Norte.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Pescando o Passado: quando a seca virou canção

Composta em 1980 por Roberto Homem de Siqueira e Vladimir Quintiliano Carvalho da Silva, então conhecido como Gato Seco, “Secas do Sertão” nasceu entre as carteiras do Colégio Salesiano São José e a paisagem castigada por uma das estiagens mais severas da história recente do Rio Grande do Norte.

Algumas canções atravessam os anos tocando no rádio, nos palcos e na memória coletiva. Outras fazem um percurso mais silencioso: permanecem guardadas em cadernos, fitas, arquivos e lembranças, à espera de que alguém lance novamente a linha para pescá-las e trazê-las à superfície.

É para essas obras que nasce Pescando o Passado, nova seção do SuperPauta dedicada a recuperar poemas, letras, músicas, vídeos, áudios e histórias que o tempo guardou — algumas em sua forma original, outras acompanhadas de novos arranjos, interpretações ou leituras.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Encontros Impossíveis: Mané Garrincha



O menino nascido em Pau Grande que driblou marcadores, diagnósticos e a lógica do futebol volta ao velho Juvenal Lamartine para falar da infância, do Botafogo, das Copas de 1958 e 1962, de Pelé, de Elza Soares, da bebida, da exploração dos ídolos e da tarde em que vestiu a camisa 7 do Alecrim. Sem absolvição fácil e sem condenação tardia, Garrincha enfrenta o adversário que nunca conseguiu deixar para trás: a própria história.

Entrevista imaginária por Roberto Homem

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Capítulo Potiguar: Ilações, causos e impressões

 


Em “Ilações, causos e impressões”, Boanerges Cezário transforma mais de três décadas como oficial de justiça em crônicas de humor, memória e reflexão.

Há profissões que quase sempre chegam ao público reduzidas a uma imagem. No caso do oficial de justiça, é a figura de alguém que bate à porta para entregar um papel. Boanerges Cezário conhece essa caricatura por dentro — e passa boa parte de “Ilações, causos e impressões: aconteceu assim porque assim aconteceu” desmontando-a com histórias, ironia e experiência de rua.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Encontros Impossíveis: Elis Regina

 


Da menina que cantava no rádio à mulher que transformou interpretação em autoria, Elis revisita os festivais, Tom Jobim, a ditadura, a maternidade, o preço da perfeição e uma indústria musical que aprendeu a corrigir vozes — mas nem sempre sabe o que fazer com a verdade.

Entrevista imaginária por Roberto Homem

O cenário

O estúdio está quase escuro. Não pertence a uma emissora, a uma gravadora ou a um teatro conhecido, embora carregue vestígios de todos eles. À esquerda, um piano de cauda espera com a tampa aberta. À direita, uma cortina vermelha respira devagar, empurrada por um vento que não deveria existir ali. No centro, há apenas um microfone antigo, um banco alto e um círculo de luz branca sobre o chão.
Atrás do vidro da técnica, as fitas giram sem operador. Em cada volta, devolvem fragmentos de tempos diferentes: a vibração de um auditório de rádio em Porto Alegre, o coro impaciente de um festival, uma risada durante “Águas de Março”, o silêncio denso de um teatro nos anos de chumbo. Nenhum trecho chega a se completar. É como se a memória, antes de virar música, ainda procurasse a tonalidade certa.
Elis Regina entra sem anúncio. Está de preto, os cabelos curtos, os pés firmes no chão. Não traz o sorriso aberto das capas nem a solenidade que a posteridade costuma impor aos mortos célebres. Aproxima-se do microfone, experimenta a distância com os olhos e dá dois toques secos na haste.
— Está muito alto — diz.
Baixo um pouco.
Ela testa novamente. Em vez de falar, sustenta uma nota curta, quase sem vibrato. As fitas atrás do vidro parecem parar para ouvi-la. Quando o som desaparece, Elis sorri de leve.
— Agora sim. O silêncio está afinado.