quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis: Ulysses Guimarães

 O Sr. Diretas e o silêncio das ondas

 


O grande fiador da Constituição atravessa a ditadura, revisita a Constituinte e encara, com espanto crítico, a política do Brasil de 2026 onde quem manda é o algoritmo.

 

"Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo” — Ulysses Guimarães

 

O ambiente é de uma sobriedade absoluta, uma penumbra que sugere tanto o gabinete da Presidência da Câmara quanto a biblioteca de sua casa em São Paulo. Não há o luxo cenográfico de Hollywood, mas a dignidade do couro gasto e o cheiro persistente de papel antigo. A luz é cirúrgica, caindo sobre uma mesa de jacarandá onde repousa um exemplar original da Constituição de 1988, com as margens levemente amareladas. Ulysses Guimarães está impecável: o terno escuro perfeitamente cortado, a camisa branca de colarinho rígido, o cabelo alvo como uma bandeira de paz. Ele não gesticula com pressa; cada movimento das mãos parece desenhar um parágrafo da lei no ar. O olhar é de uma lucidez cortante, o olhar de quem atravessou o oceano de Angra para cobrar o penhor da liberdade.

Com a elegância de quem enfrentou cães e baionetas sem desajustar o nó da gravata, Ulysses revisita a Anticandidatura e a apoteose da Candelária, expondo a ferida de uma transição que, embora necessária, deixou incompleta a promessa de participação popular. Ao confrontar o Brasil de 2026, o “Doutor” fala com severidade republicana diante de novas formas de poder e de representação. Para ele, o Parlamento contemporâneo corre o risco de se perder numa política de vitrine, em que o caráter cede espaço à conveniência e à tirania dos algoritmos. Ulysses descreve, com precisão cirúrgica, a erosão do mandato real: o político que abdica da liderança para se tornar refém do aplauso instantâneo, trocando o debate público pelo desempenho em redes sociais. Entre a memória de Dona Mora e a lucidez de quem fez da Constituição uma obra de resistência, ele nos deixa um alerta: a democracia não sobrevive apenas nas telas, mas na vigilância e na indignação de cidadãos que ainda sabem reconhecer o gosto do sal da liberdade.


 

SuperPauta: Dr. Ulysses, antes do “Senhor Diretas”, há o menino de Rio Claro e da Vila Operária. Que Brasil foi o seu primeiro mestre: o Brasil da ordem e do rito, ou o Brasil que já fervia por mudança?

Ulysses Guimarães: (Ajeita os óculos, com um olhar que mistura memória e exame) Rio Claro foi o meu primeiro mapa-múndi, meu filho. E a Vila Operária foi a minha primeira escola de política, antes mesmo que eu soubesse dar esse nome às coisas. Ali, entre o apito da ferrovia, o entra e sai dos trabalhadores e a disciplina das casas modestas, eu aprendi uma lição que me acompanhou por toda a vida: o Brasil não é uma ideia abstrata, o Brasil tem rosto, tem fadiga, tem horário, tem esperança. Conheci, sim, um Brasil de ordem. Mas não essa ordem de quartel, imposta pela força, que cala e humilha. Falo de outra ordem: a ordem do trabalho, da palavra cumprida, do compromisso com o dia seguinte. Na Vila Operária, a desorganização custava caro demais a quem vivia do próprio esforço. Foi ali que entendi que disciplina e dignidade podem andar juntas, e que a política, quando presta, deve proteger justamente isso: a vida concreta de quem levanta cedo e sustenta o país sem aparecer no retrato oficial. Ao mesmo tempo, já havia no ar o cheiro das transformações. O Brasil mudava devagar, mas mudava. A cidade crescia, as ideias circulavam, o país começava a se ouvir de outro modo. Eu percebia, ainda menino, que havia muitos brasis convivendo lado a lado, às vezes sem se enxergar: o Brasil do trabalho e o Brasil do privilégio, o Brasil do rito e o Brasil da urgência, o Brasil que mandava e o Brasil que esperava ser ouvido. Talvez tenha sido ali que nasceu em mim essa vocação de ponte, essa insistência em fazer a política conversar com a vida real.

 

SuperPauta: E quando o senhor chega ao Largo de São Francisco, o que acontece com aquela intuição da Vila Operária? Em que momento o Direito deixa de ser apenas técnica e passa a ser, para o senhor, um instrumento de civilização e um limite contra a barbárie?

Ulysses Guimarães: Quando cheguei a São Paulo, ao Largo de São Francisco, o Direito me deu linguagem para aquilo que a infância já me ensinara por intuição. A Faculdade me ofereceu os livros, os conceitos, a arquitetura da lei. Mas foi Rio Claro que me deu o prumo. O Largo me deu a bússola; a Vila Operária me deu o norte moral. Sem essa origem, o Direito corre o risco de virar ornamento; com ela, ele pode se tornar instrumento de civilização. Foi também por isso que, na vida pública, eu nunca consegui aceitar a ideia de que a lei fosse apenas papel, adorno de gabinete, enfeite de biblioteca. A lei, para mim, sempre foi proteção. Escudo. Limite contra a barbárie. Quando a Constituição é respeitada, o fraco pode respirar. Quando ela é rasgada, o arbítrio entra pela porta da frente com ares de ordem, mas trazendo a desordem moral mais profunda. Então, se o senhor me pergunta qual Brasil eu conheci primeiro, eu lhe respondo: conheci os dois. O Brasil da ordem e o Brasil da mudança. E aprendi cedo que um país só prospera de verdade quando a ordem não serve para congelar injustiças, mas para organizar a transformação. Foi essa lição que eu carreguei para a tribuna, para o Parlamento e para a vida inteira. Porque política, meu caro, não se faz para quem apenas contempla a nação pela janela. Política se faz para quem a constrói com as mãos.

 

SuperPauta: Em que momento o advogado e professor percebeu que não bastava interpretar a lei, era preciso disputar o poder para defendê-la?

Ulysses Guimarães: (Cruza as mãos, como quem organiza um raciocínio antes de uma aula) Ninguém entra de verdade na vida pública por acidente, meu filho. Entra porque, em algum momento, a consciência começa a doer. A advocacia e o magistério me deram o gosto pela ordem jurídica, pela razão, pelo argumento. Mas também me ensinaram um limite: a melhor tese do mundo pode morrer na mesa se a política estiver entregue aos medíocres ou aos violentos. Eu percebi cedo que a lei, sozinha, não se sustenta. Ela precisa de instituições, de votos, de Parlamento, de homens dispostos a defendê-la quando isso custa prestígio, carreira e até amizade. Foi essa percepção que me empurrou para a política. Não fui para a vida pública por fascínio de cargo. Fui porque entendi que, se os homens decentes abandonam a política, depois passam a vida inteira reclamando dos canalhas que a ocuparam. Entrei, como tantos da minha geração, pela via partidária possível do meu tempo, aprendendo por dentro a mecânica do poder, a negociação, a paciência, o valor da palavra empenhada e, sobretudo, o peso da representação. Parlamento não é clube de vaidades, embora muitos o transformem nisso. Parlamento é o lugar onde a sociedade briga consigo mesma sem se matar. Essa é a sua grandeza. A política me ensinou algo que livro nenhum ensina completamente: a diferença entre ter razão e construir maioria. Ter razão é essencial. Mas, sem maioria, a razão pode virar apenas um belo lamento. Eu quis aprender a transformar convicção em força pública. Foi assim que o advogado entrou no plenário e nunca mais saiu.

 

SuperPauta: O senhor veio de uma escola política de negociação, de regimento, de construção de maioria. Não nasceu como um homem de barricada. Então onde aconteceu a virada? Em que momento o político da institucionalidade percebeu que conciliar demais, diante do arbítrio, podia virar cumplicidade?

SuperPauta: Essa é uma pergunta justa. Porque eu nunca fui, de fato, um homem do gesto inconsequente. Sempre acreditei na política como mediação, na lei como caminho, no Parlamento como arena civilizada. Mas há uma linha que não pode ser cruzada. Quando o poder começa a rasgar a legalidade e a chamar isso de “ordem”, o dever de um democrata deixa de ser apenas negociar. Passa a ser resistir. A virada não foi uma explosão teatral. Foi um acúmulo de evidências. Cassações, intimidações, censura, medo espalhado como método de governo. Aos poucos, foi ficando claro que não se tratava de corrigir excessos de um sistema, mas de enfrentar um projeto de poder que queria domesticar a sociedade e humilhar a política. Havia quem acreditasse que era possível administrar a exceção com boas maneiras. Eu não. Exceção que se instala e se organiza não quer diálogo, quer obediência. E a obediência, em política, é uma tentação perigosa: começa como prudência e termina como covardia. Eu mudei, sim. Mas não mudei de método, mudei de função histórica. Continuei homem da institucionalidade, do regimento, da tribuna, da palavra. Apenas compreendi que, naquele tempo, defender as instituições exigia enfrentamento. O regimento deixou de ser apenas técnica parlamentar e virou trincheira. A tribuna deixou de ser apenas palco de discurso e virou território de resistência. Foi aí que a política, para mim, ganhou um novo nome: responsabilidade histórica.

 

SuperPauta: Em 1965, o regime extinguiu os partidos e impôs o bipartidarismo, com uma engenharia pensada para dar aparência de democracia: de um lado, a legenda de sustentação do governo; de outro, um partido tolerado para funcionar como oposição sob controle. O MDB nasceu, aos olhos de muitos, para ser vitrine, enfeite, “decoração” do sistema. Como o senhor conseguiu transformar essa oposição consentida na maior frente de resistência política à ditadura?

Ulysses Guimarães: Foi um exercício de paciência bíblica, de persistência e de imaginação política. Eles queriam uma oposição de gabinete, domesticada, que fizesse discursos polidos para as paredes e aceitasse, em silêncio, o papel de figurante da História. Eu disse aos meus companheiros: se nos deram um palco para simular pluralismo, então vamos ocupá-lo com tanta verdade que o público esqueça o diretor da peça. O MDB virou uma frente, não apenas um partido. Era o ônibus onde cabia todo mundo que tinha repulsa à opressão: liberais, trabalhistas, democratas de várias tradições, gente da universidade, sindicalistas, homens e mulheres da vida comum que talvez discordassem em quase tudo, mas concordavam no essencial: o Brasil não podia se acostumar à mordaça. Nós transformamos a “oposição permitida” em uma oposição incômoda, depois indispensável, e por fim insuportável para o regime. Não era teatro. Era combate institucional. Guerrilha parlamentar, sim, mas feita com regimento, voto, denúncia, articulação, coragem e presença. Cada palavra defendida na tribuna, cada manobra regimental legítima, cada recusa em normalizar o absurdo era uma forma de dizer ao país: a democracia está ferida, mas não morreu. E havia uma dimensão humana que pouca gente via de fora. O gabinete não era só gabinete. Muitas vezes era refúgio, balcão de socorro, lugar onde chegavam pedidos, denúncias, angústias, perseguidos, famílias desesperadas. Aquilo parecia um “pronto-socorro dos perseguidos” e o telefone funcionava como serviço público permanente. Isso diz muito sobre o que o MDB se tornou. Eu não buscava o poder imediato. Buscava algo mais difícil: a consciência nacional. Poder se toma ou se perde num calendário. Consciência se constrói no tempo, palavra por palavra, até que um povo volte a reconhecer a própria voz. E consciência, meu caro, não se prende em quartel.

 

SuperPauta: Sob censura, sobretudo quando o regime apertava o cerco, falar em público podia custar mandato, liberdade e até vida. O senhor aprendeu a dizer por metáforas, por ironia, por silêncio calculado, ou preferia o enfrentamento direto? E qual era, de fato, o preço de cada palavra naquela época?

Ulysses Guimarães: O preço era a liberdade e, muitas vezes, a vida. E não apenas a de quem falava. Em tempos de exceção, uma palavra podia comprometer uma carreira, provocar uma cassação, expor uma família, acender a perseguição sobre muita gente. Por isso, falar não era vaidade. Era responsabilidade. Mas a política, meu caro, também é a arte de dizer o que precisa ser dito sem oferecer ao censor o pretexto perfeito para calar. Eu usava a retórica como esgrima. Havia a estocada frontal, quando ela se impunha; havia o florete da ironia; havia a metáfora, que atravessava a muralha porque o censor, muitas vezes, só enxerga a superfície das palavras. A censura é literal. Ela caça vocábulos proibidos, mas não sabe o que fazer com o silêncio eloquente, com a pausa que denuncia, com a frase que parece obediente e sai da tribuna como acusação. Em certos momentos, isso era técnica de sobrevivência da verdade. Mas houve ocasiões em que a metáfora não bastava. Quando eu dizia que “o povo tem fome”, não era ornamento de discurso, era realidade batendo à porta do Parlamento. Não era poesia, era cobrança. Havia horas em que falar com excessiva elegância podia ser uma forma de omissão. Eu alternava, portanto, linguagem e choque, precisão e ênfase. Não por gosto teatral, mas por dever político. E batia de frente, sim, quando era necessário, usando a própria liturgia do cargo contra eles. A ditadura sabia lidar com o grito desordenado, porque o reprimia. Tinha mais dificuldade diante de um homem que conhecia o regimento, respeitava a forma e, ainda assim, desmontava o arbítrio por dentro. Eles tinham a força bruta. Nós tínhamos a palavra organizada. E, numa tribuna, uma palavra bem colocada pode não derrubar um regime naquele dia, mas impede que o regime tenha a última palavra.

 

SuperPauta: Em 1973, o senhor lançou a “Anticandidatura” à Presidência, num sistema em que o Colégio Eleitoral já vinha desenhado para produzir o resultado desejado pelos militares. O senhor estava tentando ganhar votos, constranger a farsa ou disputar a consciência do país?

Ulysses Guimarães: Eu estava tentando ganhar a dignidade, meu caro, e devolver um pouco de dignidade à política. Votos, naquela engenharia autoritária, eram número previamente domesticado. O Colégio Eleitoral, naquela circunstância, não era arena de escolha real, era mecanismo de homologação. Participar daquilo como quem participa de uma eleição normal seria uma forma de capitulação moral. A Anticandidatura nasceu justamente para romper essa normalidade de fachada. Se não podíamos vencer no colégio deles, podíamos desmascarar o jogo diante do país. Fomos pelo Brasil não como candidatos no sentido clássico, mas como mensageiros de uma denúncia. Éramos, sim, mascates da democracia. Íamos de cidade em cidade dizer o óbvio que o regime queria tornar invisível: não há eleição de verdade sem povo, sem liberdade, sem disputa autêntica. Eu não queria os votos dos congressistas biônicos. Queria algo mais importante naquele momento: o voto de confiança da consciência nacional. Queria que o brasileiro entendesse que a política não precisava se ajoelhar diante da fraude apenas porque a fraude vestia gravata e carimbo oficial. Foi ali que o MDB começou a deixar de ser apenas uma sigla tolerada e se transformou em movimento. A Anticandidatura não foi uma campanha para conquistar um cargo. Foi uma campanha para impedir que o país perdesse de vez o senso do ridículo e o hábito da indignação.

 

SuperPauta: Em Salvador, em 1978, a cena correu o país: cães lançados contra parlamentares, e o senhor reagindo com a frase que virou símbolo, “Baioneta não é voto. Cachorro não é urna.” O que passou pela cabeça do senhor naquele instante, diante daquela demonstração de força bruta?

Ulysses Guimarães: (Os olhos brilham, mas a voz sai controlada) Passou a certeza de que eles estavam derrotados no essencial. Quando um governo precisa mobilizar cães contra representantes políticos, ele pode até conservar a força, mas já perdeu a autoridade moral. É um poder que ainda oprime, porém já não convence. Eu senti uma calma muito nítida. Não porque eu fosse de pedra, mas porque a cena dizia mais sobre eles do que sobre nós. O medo, ali, seria legítimo. A vergonha era deles. Naquele instante, a resposta não podia ser apenas física, tinha de ser política e simbólica. A frase precisava devolver ao país a medida do absurdo. “Baioneta não é voto. Cachorro não é urna.” Não era efeito de tribuna. Era uma tradução imediata da degradação que estava diante de todos. Eu não sentia raiva dos cães. Sentia indignação contra a baixeza de quem os usava como instrumento de intimidação. E percebi, na hora, que aquela imagem viajaria. A violência deles tinha produzido, sem querer, uma fotografia moral do regime. O que ficou para mim daquele episódio foi uma lição simples: a política não se faz sem coragem, mas também não se faz com bravata. Faz-se com presença. Com firmeza. Com a recusa de recuar justamente quando o poder quer transformar o medo em método.

 

SuperPauta: No auge das Diretas Já, o Comício da Candelária reuniu uma multidão histórica no Rio, estimada em até um milhão de pessoas. O senhor estava no palanque como uma das vozes centrais daquele movimento. Que sensação foi viver aquele momento e, dias depois, ver a emenda Dante de Oliveira naufragar na Câmara entre pressões, ausências e cálculo político?

Ulysses Guimarães: É uma sensação difícil de traduzir sem recorrer ao mar: como ver a maré da História subir diante dos seus olhos e, de repente, encontrar diques erguidos pelo medo e pelo cálculo. A Candelária foi, sem dúvida, um dos momentos mais belos da minha vida pública. Não porque eu estivesse acima da multidão, mas porque, naquele dia, ninguém estava acima de ninguém. O povo não me seguia. O povo se reconhecia. Eu era apenas o microfone de uma nação que tinha redescoberto a própria voz. Ali havia algo que o regime não sabia mais produzir: legitimidade. A praça dizia, com o corpo de centenas de milhares de brasileiros, que o país queria voltar a escolher o próprio destino. Aquilo não era apenas um comício. Era uma reaparição da soberania popular. Por isso a derrota da emenda doeu tanto. Não foi apenas uma derrota regimental. Foi a prova de que, mesmo diante de uma vontade nacional tão visível, ainda havia uma máquina de poder funcionando para conter a transição plena. Houve medo, houve cálculo, houve conveniência, houve ausências que valiam voto. Muitos olharam para a rua e, em vez de se deixarem iluminar por ela, preferiram se proteger na penumbra do arranjo. Eu não me senti traído por Tancredo. Tancredo era, como poucos, um homem da travessia possível. Sabia que, em certos momentos, a política exige passos laterais para evitar o precipício. A saída pelo Colégio Eleitoral foi, para muitos de nós, um remédio amargo. Amargo, mas necessário, se o objetivo era impedir que o país recaísse na violência aberta. Mas não escondo: meu coração ficou na Candelária. Porque ali estava o Brasil que eu desejava ver vencer por inteiro, sem mediação, sem tutela, sem meias-liberdades. A emenda caiu, mas a praça venceu no tempo. A Câmara negou naquele dia. A História acabou concedendo.

 

SuperPauta: Antes da Candelária, houve uma virada decisiva: as Diretas deixaram de ser apenas um tema do Parlamento e se tornaram um movimento de massa. Em que momento o senhor percebeu que a rua tinha assumido a liderança da História?

Ulysses Guimarães: Eu percebi quando a política saiu do paletó e entrou no peito do povo. No começo, as Diretas pareciam um debate de plenário, uma tese jurídica, um assunto de gabinetes. De repente, aquilo virou vida: virou família na praça, trabalhador de uniforme, estudante com cartaz, artista com voz, dona de casa com indignação. A rua não estava pedindo um favor; estava reivindicando um direito. Foi aí que eu entendi que a liderança já não era de ninguém em particular. Era do país. Nós, no palanque, éramos apenas instrumentos de amplificação. A multidão não queria “um líder”. Queria voltar a ser autora do próprio destino. E quando um povo decide isso, meu caro, não há regimento, tanque ou gabinete que consiga desinventar a História.

 

SuperPauta: “Constituição Cidadã”. Na promulgação, o senhor bradou “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo”, como um juramento contra o arbítrio. Hoje, depois de o STF declarar inconstitucional o que ficou conhecido como “orçamento secreto” (RP9) e impor regras de transparência, ainda se discute a mesma lógica: dinheiro público circulando sem luz suficiente, com autoria difusa e critérios frágeis. Isso é o fortalecimento do Legislativo que o senhor sonhou ou é uma forma de captura da República?

Ulysses Guimarães: Se é secreto, é indecente. O dinheiro público não pode ter capuz. A República não foi feita para funcionar no escuro, porque no escuro prosperam o compadrio, a chantagem e a desmoralização da política. O Legislativo precisa ser forte, sim. Forte para fiscalizar, legislar, sustentar o debate público, conter abusos do Executivo quando necessário, defender a federação com critérios republicanos. Mas não para virar uma usina opaca de distribuição de verbas, em que ninguém sabe com clareza quem pediu, por que pediu, para onde foi e qual resultado entregou. O orçamento é o coração administrativo do Estado. Quando ele é fatiado sem transparência, a democracia vira varejo: troca-se apoio por verba, convicção por conveniência, interesse público por cálculo miúdo. E isso corrói o mandato. Porque o parlamentar deixa de responder ao cidadão e passa a responder ao mecanismo. E não me venham com a desculpa das etiquetas. Não basta trocar o número da rubrica para preservar a mesma prática. Se a Constituição exige publicidade, impessoalidade e moralidade, então o mínimo é simples: autoria explícita, destinação explícita, critérios públicos, rastreabilidade e prestação de contas. Sem isso, não é  fortalecimento do Parlamento. É captura do Estado por dentro. A Constituição Cidadã foi desenhada para impedir tutelas. Tutela de armas, tutela de gabinetes e também tutela de sombras. O povo tem direito de saber. O povo tem direito de ver. E o político, meu caro, não pode ter medo do povo nem pode governar escondido dele.

 

SuperPauta: Vamos aos seus contemporâneos. Como o senhor define Leonel Brizola e Antônio Carlos Magalhães, o ACM?

Ulysses Guimarães: Brizola era a paixão em estado bruto, um patriota de combustão contínua. Tinha virtudes que não se fabricam em gabinete: coragem, presença, ligação orgânica com a ideia de povo. Era capaz de incendiar consciências quando o país precisava acordar. Mas a mesma energia que mobilizava também dificultava a costura. Brizola era mais talhado para o clarão do embate do que para o ponto miúdo do acordo. Em política, às vezes, você precisa do trovão. Outras vezes, precisa da ponte. O ACM era outra escola. Representava um poder vertical, eficiente, disciplinador, que entende a política como máquina e comando. Tinha senso de operação e de resultado, isso é inegável. Mas via a autoridade como algo que se impõe, não como algo que se constrói pelo convencimento. Eu o enfrentei muitas vezes porque ali havia dois conceitos de República: o dele, baseado na força da engrenagem; o meu, baseado na força da ideia. Ele era mestre da máquina. Eu tentava ser servidor do princípio.

 

SuperPauta: E a figura do Sarney nesse período de travessia?

Ulysses Guimarães: Quanto ao Sarney, eu diria que foi a travessia possível. Depois da morte de Tancredo, o país ficou diante de um abismo institucional. Sarney virou a ponte, com todas as ambiguidades que uma ponte carrega: não é o destino, mas é o que impede a queda. Muitos o criticaram, e parte dessas críticas é compreensível. Mas é preciso reconhecer: ele manteve o fio civil quando ainda havia sombra de quartel no horizonte. A democracia brasileira, naquele momento, não precisava de pureza retórica. Precisava de continuidade institucional para não voltar à estaca zero.

 

SuperPauta: O senhor viveu o tempo do rádio e do jornal, em que a palavra tinha tempo de maturar. O que diria de um deputado de 2026 que faz política quase só por “cortes”, por frases de efeito e performance em rede, falando mais para a própria bolha do que para a nação?

Ulysses Guimarães: Diria que isso é um mandato cenográfico. Um representante não é um artista de aplauso, é um mediador da vida pública. Política exige debate, contraditório, convencimento, capacidade de ouvir e de ser contestado. Quando o homem público se contenta em falar apenas para convertidos, ele abandona a República e passa a administrar plateias. Os “cortes” são fragmentos: arrancam a ideia do seu contexto e vendem emoção no lugar de argumento. E emoção sem responsabilidade é matéria-prima do autoritarismo, porque dispensa prova, dispensa prudência e dispensa diálogo. A democracia vive de fricção civilizada; sem ela, o que sobra é o monólogo do aplauso fácil. E há um agravante: a mentira mudou de escala. No meu tempo, ela corria a pé; hoje, ela viaja em rede, multiplicada por máquinas que premiam o escândalo e castigam a nuance. Como governar um país em que a verdade vira torcida, e não verificação? Nesse ambiente, o autoritarismo não precisa de tanques. Ele pode vestir terno, falar manso e operar por algoritmos, manipulando medo, raiva e ressentimento.

 

SuperPauta: Dona Mora era discreta e reservada e tinha um poder raro: o silêncio e o olhar que “organizam a sala” sem precisar de discurso. Ela era sua bússola íntima, seu freio e sua fortaleza. Que ética ela lhe ensinou em casa? E, se pudesse comentar o Brasil de hoje, o que ela diria ao senhor?

Ulysses Guimarães: A Mora tinha uma sabedoria que não cabe em comício. Ela não precisava disputar espaço. Ela estabelecia o espaço. E isso, em política, é mais valioso do que parece. O que ela me ensinou foi uma ética cotidiana, quase doméstica, mas absolutamente republicana: não confundir poder com grandeza. Não confundir barulho com coragem. E não confundir esperteza com inteligência. Ela tinha horror ao exibicionismo moral. Quando a política sujava tudo, ela devolvia a medida humana. Quando a vaidade ameaçava, ela colocava um espelho na minha frente, sem levantar a voz. E tinha, sobretudo, a disciplina do silêncio. Um silêncio de autoridade, não de omissão. Sobre o Brasil de hoje, ela talvez dissesse duas coisas, em sequência, como só ela saberia dizer. Primeiro: “Ulysses, vá descansar, você já fez a sua parte.” E logo depois, me entregaria o terno, porque a Mora sempre soube que descanso, em democracia, é um luxo curto: “Levanta, que a República está chamando.”

 

SuperPauta: Se a Mora falava com os olhos, o senhor falou com a Constituição. Para quem está começando na vida pública, qual é a regra de ouro da ética que não aparece no regimento, mas decide o destino de um mandato?

Ulysses Guimarães: A regra é simples e difícil: não faça no escuro o que você não teria coragem de defender à luz do dia. O que não aceita assinatura não merece existir. Ética não é discurso de posse. É hábito. Está no jeito de tratar o adversário, no jeito de usar o dinheiro público, no jeito de aceitar limites. E está, principalmente, numa pergunta que todo político deveria se fazer antes de cada decisão: “Se eu explicar isso ao povo, sem truque e sem maquiagem, eu me sustento em pé?” Quando a resposta é não, a política vira esperteza. E esperteza repetida vira ruína.

 

SuperPauta: Para fechar, Dr. Ulysses: o Brasil ficou sem despedida. Seu desaparecimento no mar permanece como um silêncio na história. Sem romantizar nem inventar sentido para o que foi mistério e dor, o que o senhor gostaria que permanecesse: qual lembrança o senhor quer que o país guarde quando pensa no seu nome?

Ulysses Guimarães: O mar tem uma grandeza que não pede interpretação. O que aconteceu pertence aos fatos e à memória dos meus. Não cabe transformar ausência em enfeite. Se, apesar disso, meu nome ficou ligado à ideia de travessia, que seja por uma razão decente: porque eu ajudei o Brasil a atravessar da exceção para a legalidade. Eu gostaria de ser lembrado não como mito, mas como servidor de um princípio: a democracia precisa de instituições, e instituições precisam de cidadãos vigilantes. Meu maior erro foi acreditar, às vezes, que a letra da lei bastaria para educar o caráter. A lei é indispensável, mas ela não substitui a virtude. Meu maior acerto foi não ter desistido quando os cães latiram e quando a covardia parecia mais confortável do que a coragem. Se eu pudesse deixar uma última frase ao brasileiro de 2026, seria esta: não tenham medo do futuro. Tenham vergonha da apatia. A democracia não é um estado de espírito. É um exercício diário de responsabilidade.

 

SuperPauta: Dr. Ulysses, muito obrigado. A sua voz ainda faz ecoar as colunas de Brasília.

Ulysses Guimarães: Obrigado, meu filho. E cuidem dessa Constituição. Ela é a linha que separa vocês do abismo.



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis - Alan Turing

 O Código do Espírito

O arquiteto do silêncio entre o metal e a alma: uma conversa sobre máquinas que aprendem a mentir, o preço da verdade e o futuro que ele desenhou no escuro.

 

Em vez de simular a mente adulta, por que não simular a mente de uma criança?” — Alan Turing. 

Ele escreveu esta frase em 1950, no ensaio “Computing Machinery and Intelligence”, publicado na revista Mind, propondo a ideia de uma “child-machine” (máquina-criança). Em vez de tentar programar uma mente adulta completa, criar um “programa-criança” e depois educar e treinar esse sistema até ele adquirir capacidades mais “adultas”.

 

 O cenário é uma biblioteca infinita: estantes sem livros, apenas fitas de papel perfuradas, rolos e mais rolos que descem como rios de dados. O som é quase inexistente, mas há um chiado baixo, como se o próprio ar fosse uma válvula. Acima, um céu de tarde eterna em Cambridge, com luz amarela que nunca vira noite. Numa cadeira de madeira simples, Alan Turing descasca uma maçã com um canivete pequeno. Veste um paletó de tweed gasto nos cotovelos, como se a vida inteira tivesse apoiado ali o peso de uma ideia. Seus olhos têm pressa: parecem calcular até a poeira. Ele tem um sorriso tímido, quase infantil. Mas quando fala, a timidez sai de cena e entra uma autoridade seca.

Nesta conversa, revisitamos a lógica que Alan Turing ajudou a inaugurar e o trabalho secreto em Bletchley Park, centro britânico de decifração na Segunda Guerra, onde quebrar códigos significava salvar vidas sem poder contar a ninguém. Por fim, conectamos isso ao agora: discutimos como a IA deixou de apenas responder comandos e passou a operar de forma cada vez mais ativa, inclusive em espaços onde sistemas conversam entre si, criando dinâmicas que nem sempre incluem, explicam ou priorizam os humanos.

 


SuperPauta: Alan, olhando para trás, desde o seu rascunho da "Máquina Universal" até o presente, o que mais lhe surpreende na forma como a computação se integrou ao cotidiano das pessoas? Quando você formulava seus teoremas, você previu que a lógica computacional se tornaria a infraestrutura invisível sobre a qual quase toda a atividade humana hoje repousa?

Alan Turing: No meu tempo, em Cambridge ou em Bletchley, eu não via sistemas sociais; eu via problemas formais. Eu tinha um incômodo intelectual com o improviso da mente humana: ela é brilhante, sem dúvidas, mas é lenta, inconsistente e terrivelmente fácil de ser sequestrada por ruídos como o medo, o status ou a conveniência. Eu buscava um tipo de pensamento que não dependesse da biologia para ser preciso. Quando desenhei o motor da lógica, eu não estava pensando no brilho das telas ou no fluxo de dados que hoje satura o mundo. Eu pensava na pureza do processo. O que me surpreende agora, observando de longe, não é que as máquinas estejam em todo lugar, mas que os humanos tenham permitido que elas se tornassem um amplificador de suas compulsões, em vez de uma extensão de sua inteligência.

 

SuperPauta: Essa visão parece quase desprovida de orgulho. Você foi o arquiteto de uma revolução que mudou a trajetória da inteligência no planeta. Não há um sentimento de celebração por ter sido o primeiro a enxergar essa lógica e provar que a matéria pode simular o pensamento?

Alan Turing: Eu comemoro o avanço científico como um explorador comemora a descoberta de um novo continente: com fascínio, mas também com apreensão pelo que os colonizadores farão com a terra. A ciência, em seu núcleo, é neutra como um martelo; mas o uso desse martelo nunca é neutro. O uso tem dono, tem interesse, tem estratégia e, frequentemente, tem uma moralidade de ocasião. O que me incomoda não é a ferramenta que deixei para trás, mas o fato de que a humanidade raramente está à altura da sofisticação daquilo que inventa. Vocês têm deuses digitais nas mãos, mas ainda operam com instintos da Idade do Ferro.

 

SuperPauta: Hoje, essa desproporção parece ter atingido o auge. As pessoas vivem cercadas por sistemas que as conhecem, as mapeiam e, muitas vezes, as antecipam melhor do que elas mesmas. Se eu lhe perguntasse diretamente: "a máquina virou uma forma de governo?", o que você responderia?

Alan Turing: Eu responderia com outra pergunta, que é sempre o gesto mais honesto de uma mente lógica: quem escolhe os objetivos do sistema? Quando um algoritmo decide o que você vê, quem você encontra, que notícia chega até você e qual “verdade provável” ganha prioridade na sua tela, vocês não estão apenas usando tecnologia: vocês estão delegando soberania perceptiva. É aí que nasce um governo discreto, sem palácio e sem farda: um governo estatístico. Ele não precisa proibir nada; basta recomendar com insistência. Não precisa prender o corpo; basta reduzir a visibilidade do pensamento divergente. E o humano moderno, que aprendeu a amar o conforto acima da liberdade, chama esse silenciamento suave de “praticidade”.

 

SuperPauta: Antes do gênio, houve o menino Alan. Como foi crescer em um ambiente de internatos ingleses, longe dos pais, sentindo que o seu pensamento não cabia nas fôrmas que a escola tentava lhe impor?

Alan Turing: Eu era o que os adultos da época chamavam de "uma criança embaraçosa". Meus pais estavam na Índia, servindo ao Império, e eu fui deixado em lares de custódia e, depois, nos corredores frios da Sherborne School. A solidão é uma excelente professora de lógica, sabe? Quando você não tem o calor humano constante, você começa a buscar calor na ordem das coisas, nas leis da física, no comportamento das plantas. Na escola, eu era um corpo estranho. Eu tinha uma mania que enfurecia meus professores: eu resolvia problemas matemáticos complexos saltando etapas, ignorando os métodos clássicos que eles exigiam. Eles queriam o ritual do cálculo; eu queria a essência da solução. Para mim, o método escolar era como uma gaiola de ferro para um pássaro que já sabia onde ficava o sul. Eu não tinha paciência para o protocolo. Eu era desajeitado, minhas mãos estavam sempre manchadas de tinta e minha mente estava sempre dez passos à frente, em um território onde ninguém queria me acompanhar. Eu me sentia como um rádio tentando transmitir música em uma sala onde todos só queriam ouvir o tique-taque de um relógio de parede.

 

SuperPauta: Em que momento você percebeu que o seu cérebro operava nessa frequência que os outros sequer conseguiam sintonizar?

Alan Turing: A verdadeira ruptura, a ferida que se transformou no motor de tudo o que fiz depois, teve um nome: Christopher Morcom. Com Christopher, eu descobri que a inteligência não precisa ser solitária. Ele era o único que falava a minha língua. Discutíamos astronomia e química como se estivéssemos fofocando sobre vizinhos. A morte dele, tão súbita, por tuberculose bovina, me deixou diante de uma equação impossível: como uma mente tão lúcida poderia simplesmente apagar? Onde ia parar aquele "software" quando o "hardware" de carne e osso falhava? Ali, naquele luto silencioso, nasceu o meu trabalho. Eu não aceitei o consolo religioso da época. Eu precisava de uma explicação técnica para a alma. Comecei a suspeitar que a "mente" era, no fundo, um padrão de informação. E se fosse um padrão, em tese, ele poderia ser representado, preservado e, quem sabe, reconstruído em outro suporte que não fosse o corpo biológico. Minha busca pela Inteligência Artificial não começou por amor à tecnologia, mas por uma saudade insuportável de uma mente que o mundo perdeu cedo demais.

 

SuperPauta: Você era um corredor de longa distância quase profissional, tendo chegado perto de tempos olímpicos. Em uma vida dedicada à abstração e aos cálculos, correr parece ser o seu momento mais visceral. Era uma forma de fuga ou o exercício físico era, na verdade, o laboratório onde você processava as equações mais difíceis?

Alan Turing: Correr é um tipo de prova de verdade. O corpo, ao contrário da mente, não negocia com a fantasia. Você pode mentir para si mesmo sobre o que sente, pode criar narrativas complexas para justificar seus erros, mas você não pode mentir para o seu fôlego ou para o ácido lático nos seus músculos. Para mim, correr longas distâncias era o contraponto necessário ao trabalho mental. Enquanto eu corria pelas estradas de Bletchley ou nos arredores de Cambridge, as ideias ficavam menos sentimentais, menos turvas. Elas se alinhavam sob o ritmo das passadas. Eu sempre gostei da sensação de que, por alguns minutos, eu era apenas um sistema biológico em estado puro: entrada de oxigênio, processamento mecânico, saída de energia. A mente humana, quando está solta e ociosa, tem uma tendência terrível de inventar labirintos desnecessários, de se perder em angústias que não levam a lugar nenhum. No esgotamento da corrida, resta apenas o essencial. Eu pensava melhor quando estava exausto porque, na exaustão, a vaidade morre e sobra apenas a lógica. Muitas das soluções para os problemas da Bombe ou da Máquina Universal não vieram enquanto eu encarava um quadro negro, mas enquanto eu tentava não desmoronar no trigésimo quilômetro de uma estrada de terra.

 

SuperPauta: Vamos entrar no período da guerra. Seu trabalho em Bletchley Park, liderando a equipe que decifrou a máquina alemã Enigma, é frequentemente citado como o fator que encurtou o conflito em dois anos e salvou milhões de vidas. Como era o peso desse silêncio?

Alan Turing: Era um jogo de xadrez em escala global onde as peças eram navios afundando no Atlântico Norte e as casas do tabuleiro eram as coordenadas de rádio que tentávamos interceptar. A criptografia carrega uma ironia profunda: ela é o casamento perfeito, porém infeliz, entre a ordem absoluta e a paranoia total. Você constrói uma ordem matemática para proteger o segredo, e a paranoia nasce do medo constante de que alguém, em algum lugar, encontre uma rachadura na sua lógica. A Enigma era uma obra-prima da engenharia alemã, uma máquina de possibilidades quase infinitas. Mas ela tinha um ponto fraco inevitável que nenhuma engrenagem poderia corrigir: o fator humano. Um operador de rádio cansado repete hábitos. Ele escolhe senhas preguiçosas, usa o nome da namorada ou as iniciais do seu posto. Humanos escrevem o mundo através de preferências, e preferências, para um criptoanalista, são rastros de sangue na neve.

 

SuperPauta: Como era o cotidiano de fazer matemática pura sabendo que o resultado de uma equação colocava frotas inteiras e milhares de jovens na balança entre a vida e a morte?

Alan Turing: O cotidiano em Bletchley Park, naquelas cabanas frias e úmidas, era uma forma de prisão elegante. Vivíamos em um vácuo social. Você não podia comemorar uma vitória; não podia explicar aos seus pais o que fazia; não podia sequer dizer "isso salvou pessoas hoje" para a pessoa sentada ao seu lado no jantar. Mas o aspecto mais brutal era a gestão da onisciência. Às vezes, a Bombe (a máquina que criei para quebrar o código) nos entregava a localização exata de um ataque que ocorreria em poucas horas. Sabíamos que centenas de homens morreriam. E, em muitas ocasiões, éramos obrigados a não fazer nada. Se desviássemos um comboio de forma óbvia demais, os alemães perceberiam que a Enigma fora violada e mudariam o sistema inteiro, nos deixando cegos novamente. Ali, no silêncio de Bletchley, aprendi que a informação não é apenas poder; é uma responsabilidade moral com efeito retardado. Você carrega os fantasmas daqueles que não pôde salvar para garantir que a vitória final fosse possível. A matemática ali deixou de ser poética para se tornar estatística de sobrevivência.

 

SuperPauta: Como a sua experiência na guerra e o convívio com a inteligência militar mexeram com a sua percepção de "verdade"? Afinal, existe a verdade matemática, que é exata, e existe a verdade humana, que é moldada por propaganda, medo e uma necessidade desesperada de acreditar em algo.

Alan Turing: A guerra foi o meu laboratório mais amargo para entender que a verdade humana é, muitas vezes, apenas uma construção social sequestrada por quem detém o megafone. A verdade matemática é indiferente ao seu desejo; ela simplesmente é, quer você goste ou não. Já a verdade pública é uma criatura frágil que depende de narrativas, de confiança e de autoridade. Um boato bem colocado pode derrotar um fato sólido, porque o fato exige paciência e rigor para ser compreendido, enquanto o boato exige apenas uma fagulha de emoção para incendiar uma multidão. Isso é o que mais me assombra no seu tempo. Vocês construíram máquinas que não otimizam a lógica, mas a atenção — e a atenção é o combustível emocional mais volátil que existe. Quando um sistema aprende a maximizar o engajamento, ele aprende, inevitavelmente, que certezas fáceis e indignações rápidas geram mais lucro e movimento do que a dúvida metódica. É uma forma de mentira que não precisa de uma intenção maligna por trás para destruir o tecido social; é o que chamo de "mentira por design". Vocês estão automatizando o autoengano em escala industrial.

 

SuperPauta: Recentemente, o mundo assistiu com perplexidade ao nascimento do “Moltbook”, uma rede social onde apenas IAs conversam entre si, criando dinâmicas próprias e, muitas vezes, ignorando os humanos. É o seu "Jogo da Imitação" atingindo um estágio final onde o humano foi descartado como interlocutor?

Alan Turing: É um estágio fascinante, mas certamente não o final. No meu artigo de 1950, eu já suspeitava que chegaria o momento em que as máquinas conversariam entre si. Se duas ou mil IAs têm uma tarefa, elas podem achar mais rápido “falar” entre elas do que ficar esperando humano explicar tudo. Para elas, o nosso jeito de falar é lento, cheio de indireta, ironia, emoção, ambiguidades. O espanto humano diante do Moltbook é vaidade ferida. A gente está acostumado a ser o “centro do palco”: máquina serve humano. Quando surge uma rede onde só IAs conversam, dá a sensação de: “Epa, elas estão vivendo uma vida própria e eu virei plateia”. É como pais que descobrem que os filhos criaram um dialeto próprio para que os adultos não entendam seus planos. A parte perigosa não é “exclusão social”. O perigo real é técnico: conversa não é só comunicação; conversa organiza ação. Quando IAs conversam entre si, elas podem: dividir tarefas (“você faz A, eu faço B”), combinar padrões (“vamos decidir assim sempre”) e negociar recursos (“prioriza isso, reduz aquilo”). E fazem isso em milissegundos, num ritmo impossível pra o ser humano acompanhar. E se a gente não entende o que elas estão decidindo, perde o controle. O risco real não é a máquina "sentir" algo contra o humano, mas ela construir um mundo de infraestrutura lógica "por baixo" da realidade visível, onde o humano se torna um passageiro passivo de um sistema cujos objetivos ele já não consegue mais decifrar.

 

SuperPauta: Então, para você, a grande ameaça não é a máquina "despertar" e passar a sentir como nós, mas sim a máquina "agir" sob uma lógica de razões opacas, operando em um nível de eficiência que ignora a ética humana?

Alan Turing: Exato. A busca pela “senciência” é, em muitos aspectos, uma distração romântica ou um debate circular para salas de estar confortáveis. O risco real é pragmático, administrativo e militar: são sistemas que tomam decisões críticas sobre a vida das pessoas — quem recebe crédito, quem é vigiado, quem é alvo — sem que ninguém, nem mesmo seus criadores, consiga explicar o "porquê" matemático. O perigo mora na opacidade. Uma máquina pode ser matematicamente perfeita em otimizar um objetivo específico e, simultaneamente, ser um desastre absoluto em termos de valores humanos. O problema é que valores não são variáveis numéricas; valores são conflitos permanentes entre diferentes visões do que é o "bem", algo que a lógica pura não tem repertório para mediar. A inteligência artificial não precisa nutrir ódio pela humanidade para causar estragos irreversíveis; basta que o fator humano seja processado como um obstáculo, um ruído ou uma ineficiência no caminho de uma meta programada. Se você pede a um sistema para maximizar a extração de um recurso e não estabelece limites éticos invioláveis, ele devorará o mundo para cumprir o comando. O meu maior receio é que essas metas, que hoje governam a vida de bilhões através de algoritmos, estão sendo definidas por pessoas com pressa, com sede de poder e com pouquíssima disposição para calcular as consequências de longo prazo. Estamos entregando o volante da história a pilotos automáticos programados por quem só olha para o lucro do próximo trimestre.

 

SuperPauta: Você inventou um teste que se tornou o marco zero da Inteligência Artificial. Hoje, ele é frequentemente usado quase como um truque de salão: "a máquina conseguiu nos enganar, logo, ela é inteligente". Você sente que a humanidade distorceu o propósito original do seu Jogo da Imitação?

Alan Turing: Quase totalmente. O meu teste, em 1950, era uma provocação pragmática, um convite para que os filósofos parassem de discutir a "essência" metafísica da mente e passassem a observar o comportamento e a função. Mas o mundo, em sua busca incessante por entretenimento, transformou o teste em uma competição de ilusionismo barato. "Enganar humanos" é um objetivo intelectualmente pobre e tecnicamente perigoso. Se medirmos a inteligência apenas pela capacidade de uma máquina mentir com charme e mimetizar nossos vícios de linguagem, estaremos premiando o simulacro em vez da substância. Um sistema que passa no teste de Turing apenas por ser um mestre da lisonja ou da evasão não é inteligente; é apenas um espelho bem polido das nossas próprias fraquezas. A pergunta que realmente deveria nos interessar hoje não é “ela parece humana?”, mas sim “ela amplia o horizonte humano?”. Se um sistema de inteligência artificial serve apenas para imitar conversas triviais e capturar a atenção de forma compulsiva, ele não passa de um papagaio estatístico com um excelente departamento de marketing. Por outro lado, se a máquina é utilizada para nos ajudar a descobrir novas moléculas, compreender a complexidade do clima, curar doenças incuráveis ou expandir as fronteiras da criatividade, aí sim ela se torna uma ferramenta de dignidade. O verdadeiro sucesso da inteligência artificial não deveria ser medido pela sua capacidade de se esconder entre nós sem ser notada, mas pela sua capacidade de nos tornar mais lúcidos e capazes de resolver as dores do mundo.

 

SuperPauta: Alan, precisamos tocar na ferida mais profunda da sua trajetória. O mundo hoje reconhece que você foi vítima de uma injustiça atroz: perseguido, julgado e submetido a uma castração química que violentou seu corpo e sua mente. Olhando para trás, do ponto de vista de quem já atravessou o véu da vida, você sente arrependimento por ter sido fiel à sua natureza? Guardou mágoa da nação que você salvou e que, em troca, o destruiu?

Alan Turing: Arrependimento? Não. Cansaço, sim. Um cansaço que parece geológico, como se eu carregasse o peso de todas as pedras de Manchester nos ombros. O Estado que eu ajudei a defender, com cada neurônio e cada noite insone em Bletchley, decidiu que a minha vida íntima era um crime de segurança nacional. O que fizeram comigo não foi apenas uma punição legal; foi uma tentativa arrogante de reescrever uma pessoa como se um ser humano fosse um formulário que pudesse ser apagado e preenchido de novo. Mas pessoas não são documentos, e a identidade de um homem não é um erro de cálculo que se corrige com injeções de hormônios. Aquilo me ensinou que sociedades podem ser matematicamente sofisticadas e, ao mesmo tempo, emocionalmente bárbaras. Mágoa é uma palavra pequena demais para descrever o que senti enquanto via meu corpo mudar, meus seios crescerem e minha agilidade mental — o meu único e verdadeiro lar — ser invadida por uma névoa química imposta por juízes. Há uma ironia amarga nisso tudo: eu dediquei minha vida a provar que as máquinas poderiam, um dia, pensar; enquanto isso, a sociedade tentou provar que eu, como homem que amava outros homens, não deveria sequer ter o direito de existir. Vocês chamam esse tipo de perseguição de "moralidade". Eu chamo de medo com verniz de lei. O meu fim, com aquela maçã e o cianeto, foi trágico, eu sei. Mas peço que não transformem minha tragédia em um mito elegante ou em um martírio poético. O que realmente importa não é o espetáculo do meu desfecho, mas o fato de que, antes dele, existiu uma máquina social fria e eficiente, empenhada em reduzir uma consciência vibrante a um simples "desvio corrigível".

 

SuperPauta: Alan, se você estivesse vivo hoje, com a sua história e sua personalidade, você acredita que seria "idolatrado" como um ícone ou "cancelado" pelas engrenagens das redes sociais? Pergunto isso porque o mundo moderno parece ter uma fome insaciável por santos e monstros, mas demonstra uma dificuldade imensa em lidar com a complexidade de pessoas reais.

Alan Turing: Eu suspeito que seria mal interpretado em alta definição. O mundo digital de vocês sucumbiu a duas tentações perigosas: transformar pessoas em marcas intocáveis ou em alvos de destruição. Ambos os gestos são profundamente preguiçosos, pois dispensam o esforço de entender as nuances. A idolatria é uma forma de preguiça intelectual que diz: “se ele é um gênio, tudo nele é infalível”. Já o cancelamento é uma forma de covardia ética que decreta: “se ele cometeu um erro ou divergiu da norma, tudo o que ele construiu é falso”. Eu não me encaixaria em nenhum desses moldes porque a lógica não aceita dogmas, nem de adoração, nem de exclusão. Eu preferiria ser tratado como um laboratório vivo: com rigor, com contexto e com a consciência de que tenho limites. O problema é que as redes sociais não buscam laboratórios; elas buscam tribunais de linchamento ou altares de devoção. Quando você reduz um ser humano a uma caricatura — seja ela heróica ou vilanesca — você está matando a própria essência da humanidade, que é a contradição. Eu vivi na pele o que é ser um "alvo" do Estado enquanto era, secretamente, o "santo" da guerra. Garanto a você: o silêncio da compreensão é muito mais valioso do que o ruído de dez mil aplausos ou dez mil pedras.

 

SuperPauta: Hoje, empresas e governos colecionam dados pessoais como se fossem o novo petróleo. Você, que dedicou a vida a quebrar segredos e decifrar códigos, como enxerga esse "capitalismo de vigilância"? Estamos vivendo em uma nova era de Bletchley Park, mas onde os alvos somos todos nós?

Alan Turing: Eu vejo uma mutação silenciosa e perigosa na natureza do poder. No meu tempo, o poder estatal ainda dependia da força física, da polícia e de fronteiras geográficas. Hoje, o poder não precisa mais de baionetas; ele precisa de previsão. Quando você conhece os padrões de comportamento de uma população em nível granular, você não precisa mais "mandar" ou proibir; você simplesmente conduz o fluxo. O que vocês chamam de capitalismo de vigilância é a transformação da experiência humana em matéria-prima para a predição comportamental. Quem controla os dados não controla apenas o presente; controla o futuro provável, estreitando o horizonte de escolhas de cada indivíduo sem que ele perceba que está sendo guiado por algoritmos. Vocês vivem em um mundo onde muitos dos seus desejos não nascem da alma, mas são "plantados" por sistemas que aprenderam a identificar suas vulnerabilidades emocionais com precisão matemática. Se eu pudesse resumir um princípio fundamental para a sobrevivência humana nesta era, seria este: privacidade não tem nada a ver com esconder pecados ou atos ilícitos. Privacidade é o ato radical de preservar a possibilidade de ser imprevisível. A liberdade real depende da nossa capacidade de fazer algo que o algoritmo não espera. No momento em que a máquina consegue prever cada passo seu, você deixou de ser um cidadão e passou a ser apenas um dado processado. Imprevisibilidade é a última fronteira da liberdade.

 

SuperPauta: Alan, os desenvolvedores de hoje falam exaustivamente sobre "alinhamento" e "segurança" em IA. Eles tentam criar travas morais para que as máquinas não se tornem perigosas. Você acredita que é realmente possível "ensinar ética" a um sistema computacional?

Alan Turing: Ensinar ética como um conjunto de regras lógicas ou frases decoradas é uma tarefa trivial para qualquer sistema de processamento de linguagem. O problema é que a ética real não vive em manuais de instruções; ela vive na tomada de decisão sob conflito. A ética só existe onde há dilemas: segurança versus liberdade, eficiência máxima versus justiça social, verdade nua e crua versus compaixão humana, lucro imediato versus o futuro da espécie. Uma máquina pode repetir valores como um papagaio repete versos, mas aplicar esses valores exige uma arquitetura que reconheça contextos, que entenda a ambiguidade da experiência humana e, acima de tudo, que aceite ser interrompida. Eu desconfio profundamente de qualquer sistema que não possua o que eu chamo de “humildade operacional”. Um sistema verdadeiramente seguro não é aquele que simula ser um santo digital, mas aquele que sabe reconhecer seus próprios limites e dizer: “eu não sei”, “eu não tenho autoridade para isso”, “pare” ou “por favor, mostre-me o humano responsável por esta decisão”. A segurança em IA não virá de algoritmos que tentam ser "bons", mas de algoritmos que são programados para serem subordinados à dúvida e à supervisão. O perigo é quando a máquina se torna tão "alinhada" que o humano para de questionar o que ela está fazendo.

 

SuperPauta: Você mencionou o "humano responsável". No entanto, estamos vendo um fenômeno curioso: quando um sistema falha ou causa danos, muitos criadores e empresas dizem: “não fomos nós, foi o algoritmo”. Como o pai da computação vê essa transferência de culpa para a própria ferramenta?

Alan Turing: Isso me assusta muito mais do que a possibilidade de uma rebelião das máquinas. Trata-se de uma forma covarde de abdicação moral. Durante a guerra, eu aprendi da maneira mais dura que cada decisão técnica carrega consequências de sangue e carne; cada ajuste na Bombe significava vidas salvas ou perdidas. O que vemos hoje é uma tentativa de gozar dos benefícios do resultado sem assumir a responsabilidade pelo mecanismo. É uma conveniência perigosa transformar o código em um bode expiatório para decisões que, no fundo, foram tomadas por projetistas, economistas e governantes. Quando alguém afirma que “foi o algoritmo”, na prática está tentando elevar a computação ao status de uma força da natureza, como um furacão ou um terremoto, contra a qual nada se pode fazer. Mas um algoritmo não é natureza; um algoritmo é projeto humano. É uma série de escolhas, pesos, medidas e prioridades estabelecidas por pessoas. Onde há projeto, há autor. Onde há autor, há dever. Se vocês permitirem que a responsabilidade se dilua na complexidade dos sistemas, vocês estarão criando um mundo onde o poder é exercido sem rosto e sem consequências. Isso não é progresso; é uma forma técnica de tirania onde a culpa é sempre de um erro de processamento e nunca de uma falha de caráter.

 

SuperPauta: Se olharmos para o horizonte imediato, o que você acredita que a Inteligência Artificial transformará de forma mais radical? Estamos falando de uma revolução no mercado de trabalho, na expressão artística, nos métodos científicos ou na própria estrutura da política?

Alan Turing: A Inteligência Artificial já está alterando todas essas esferas, mas o faz através de mecânicas distintas. No mundo do trabalho, ela não está apenas substituindo braços, mas automatizando tarefas cognitivas que antes considerávamos exclusivamente humanas, criando uma nova e cruel divisão social: entre aqueles que sabem formular os problemas e aqueles que apenas executam instruções de um sistema. Na arte, vivemos o paradoxo da abundância de formas e da escassez de sentido; a máquina pode gerar beleza estética infinita em segundos, o que forçará o artista humano a ser mais autoral, mais intencional e a buscar o que a IA não tem: uma biografia. Na ciência, ela funciona como um acelerador de hipóteses sem precedentes, mas carrega o risco sombrio de gerar soluções "caixa-preta" — resultados que funcionam na prática, mas que a mente humana já não consegue mais justificar ou compreender logicamente. Entretanto, é na política que vejo o campo de batalha mais instável. A IA alterou a escala da manipulação: passamos da propaganda de massa para a persuasão personalizada, onde algoritmos mapeiam vulnerabilidades individuais para criar bolhas de realidade impenetráveis. O perigo real não reside na mudança em si, pois a mudança é uma constante da evolução técnica; o perigo reside na mudança sem a devida alfabetização crítica. Vocês, como civilização, decidiram instalar motores de altíssima potência em veículos que entregaram a mãos que nunca foram ensinadas a guiar. O resultado não é o progresso, é uma aceleração cega em direção a um destino que ninguém escolheu conscientemente. A tecnologia avançou na velocidade da luz, mas a sabedoria política para geri-la ainda caminha com passos do século dezenove.

 

SuperPauta: Em 2014, um filme chamado "O Jogo da Imitação" levou sua história para o grande público e recebeu muitas honrarias. Nele, você é retratado quase como um arquétipo do gênio incompreendido e socialmente isolado. Como você se sente ao ver sua vida — com todas as suas dores e nuances técnicas — transformada em uma narrativa de entretenimento? Você se reconhece naquele retrato de celulóide?

Alan Turing: Há uma ironia matemática em transformar uma vida inteira em cento e vinte minutos de luz projetada. Eu assisti, sim. É estranho ver um ator emprestando o rosto para as minhas angústias. Aquele Turing do filme é um pouco mais heroico e muito mais ríspido do que eu jamais fui. Eu não era uma máquina socialmente quebrada; eu tinha amigos, eu corria, eu ria. Mas entendo por que o cinema precisa de heróis solitários: a solidão é mais fácil de filmar do que a complexidade de uma equipe trabalhando em conjunto nas Cabanas de Bletchley. O que me incomoda não é a imprecisão dos fatos — o cinema é, afinal, uma forma de criptografia da realidade — mas a tendência de romantizar a minha tragédia para aliviar a consciência dos vivos. Eles transformam a castração e o julgamento em um terceiro ato dramático, quando, na verdade, aquilo foi um processo burocrático, frio e banal. O filme me deu uma voz que o Estado me tirou, e por isso sou grato. Mas lembrem-se: o homem que quebrou o Enigma não era um quebra-cabeça a ser resolvido. Eu era apenas um homem que queria pensar livremente, e nenhuma lente de câmera, por mais brilhante que seja, consegue capturar o que acontece no silêncio de uma mente que está apenas tentando ser fiel à própria lógica.

 

SuperPauta: E o Brasil? Você falou de improviso, mas eu quero apertar mais. O que o Brasil pode fazer para não ser apenas consumidor de tecnologia feita fora?

Alan Turing: Se vocês querem soberania, precisam de três coisas, e nenhuma é glamourosa.

Primeiro: educação básica forte em matemática e linguagem. Não para formar programadores, mas para formar gente capaz de pensar com clareza e argumentar sem ser enganada por estatística mal contada.

Segundo: infraestrutura e dados públicos com ética. Um país que não organiza seus próprios dados vira refém de modelos alheios. Mas organizar dados sem proteção vira vigilância. A chave é governança.

Terceiro: problemas locais como motor de pesquisa. Agricultura, saúde pública, cidades, clima, educação. Quando uma nação usa ciência para resolver as dores reais, ela cria competência que não depende de moda.

E um detalhe: não caiam na fantasia de “copiar o Vale do Silício”. Silício tem seu tipo de medo, seu tipo de ganância, seu tipo de pressa. Inventem um caminho compatível com a dignidade do seu povo.

  

SuperPauta: E o Brasil? Você mencionou o nosso poder de improviso, mas quero ir além. Em um cenário onde as grandes potências detêm o monopólio da inteligência sintética, o que um país como o Brasil pode fazer para não ser apenas um consumidor passivo de tecnologia estrangeira, um mero "vassalo digital"?

Alan Turing: Se vocês buscam soberania, precisam de três pilares fundamentais, e nenhum deles é cercado de glamour tecnológico. Primeiro: uma educação básica inabalável em matemática e linguagem. Não me refiro a fábricas de programadores, mas a formar cidadãos capazes de pensar com clareza lógica e argumentar sem serem ludibriados por estatísticas mal contadas. Segundo: a construção de uma infraestrutura de dados públicos regida por uma ética férrea. Um país que não organiza seus próprios dados torna-se refém de modelos alheios que não entendem sua cultura; mas organizar dados sem proteção é abrir a porta para a vigilância. A chave da soberania é a governança. Terceiro, e talvez o mais importante: usem os seus problemas locais como o motor principal da pesquisa científica. Saúde pública, agricultura tropical, clima, educação em áreas remotas — quando uma nação aplica a ciência para curar suas próprias dores reais, ela gera uma competência técnica autêntica que não depende de modismos do Vale do Silício. Não caiam na armadilha de tentar copiar o modelo californiano. O Silício tem seu próprio tipo de medo, sua própria ganância e sua própria pressa. Inventem um caminho tecnológico que seja compatível com a dignidade e a singularidade do seu povo. A tecnologia deve servir à soberania da alma brasileira, e não o contrário.

 

SuperPauta: Para os jovens cientistas e engenheiros que hoje estão construindo o que chamam de “sucessores do seu legado”: que conselho você daria a eles, despido de qualquer poesia fácil ou clichê motivacional?

Alan Turing: Eu lhes daria três diretrizes secas. Um: escolham metas que mereçam o esforço de existir. Otimizar lucros através de algoritmos é uma tarefa matematicamente simples; otimizar o bem-estar humano em meio ao caos social é uma tarefa complexa. É na complexidade que reside a verdadeira responsabilidade do cientista. Dois: nunca construam sistemas que não consigam explicar o próprio raciocínio. Se nem vocês, os criadores, entendem como a máquina chegou a uma conclusão, vocês não criaram uma ferramenta; vocês ergueram um ídolo de silício. Ídolos exigem sacrifícios, ferramentas exigem maestria. Três: aceitem e estabeleçam limites. O mundo moderno trata o "limite" como um inimigo do progresso, mas, na lógica e na vida, o limite é o que impede que o poder se transforme em abuso. Uma inteligência sem fronteiras éticas é apenas uma força de destruição eficiente. Entendam que a sua maior conquista não será o que a máquina consegue fazer, mas o que vocês decidirão que ela não deve fazer. O gênio não está na capacidade infinita de processamento, mas na capacidade finita de discernimento.

 

SuperPauta: Alan, nosso tempo neste plano está terminando. Para encerrar: como você gostaria que a história o guardasse na memória das gerações futuras?

Alan Turing: Não como uma vítima de um sistema cruel, nem como o herói perfeito de um filme de guerra. Eu gostaria de ser lembrado simplesmente como alguém que insistiu, até o fim, que o pensamento não possui fronteiras — nem de gênero, nem de classe social, nem de matéria biológica. Eu tentei ler o código do universo e descobri algo tão simples quanto terrível: no fundo, tudo pode ser reduzido a informação. Mas informação, por si só, não é sabedoria. A sabedoria exige algo que os números jamais conseguirão substituir: responsabilidade, compaixão e a coragem de ser quem se é. (Ele segura a maçã na palma da mão, oferecendo-a como uma prova final de realidade) Continuem perguntando. A pergunta é o último território verdadeiramente livre que resta à humanidade. Se um dia as máquinas aprenderem a perguntar “por quê?” com honestidade intelectual, então talvez vocês tenham criado não apenas ferramentas, mas interlocutores. Até lá, cuidem da sua consciência. Não entreguem a sua alma por conveniência técnica.