terça-feira, 8 de setembro de 2026

Encontros Impossíveis: Elis Regina

 


Da menina que cantava no rádio à mulher que transformou interpretação em autoria, Elis revisita os festivais, Tom Jobim, a ditadura, a maternidade, o preço da perfeição e uma indústria musical que aprendeu a corrigir vozes — mas nem sempre sabe o que fazer com a verdade.

Entrevista imaginária por Roberto Homem

O cenário

O estúdio está quase escuro. Não pertence a uma emissora, a uma gravadora ou a um teatro conhecido, embora carregue vestígios de todos eles. À esquerda, um piano de cauda espera com a tampa aberta. À direita, uma cortina vermelha respira devagar, empurrada por um vento que não deveria existir ali. No centro, há apenas um microfone antigo, um banco alto e um círculo de luz branca sobre o chão.
Atrás do vidro da técnica, as fitas giram sem operador. Em cada volta, devolvem fragmentos de tempos diferentes: a vibração de um auditório de rádio em Porto Alegre, o coro impaciente de um festival, uma risada durante “Águas de Março”, o silêncio denso de um teatro nos anos de chumbo. Nenhum trecho chega a se completar. É como se a memória, antes de virar música, ainda procurasse a tonalidade certa.
Elis Regina entra sem anúncio. Está de preto, os cabelos curtos, os pés firmes no chão. Não traz o sorriso aberto das capas nem a solenidade que a posteridade costuma impor aos mortos célebres. Aproxima-se do microfone, experimenta a distância com os olhos e dá dois toques secos na haste.
— Está muito alto — diz.
Baixo um pouco.
Ela testa novamente. Em vez de falar, sustenta uma nota curta, quase sem vibrato. As fitas atrás do vidro parecem parar para ouvi-la. Quando o som desaparece, Elis sorri de leve.
— Agora sim. O silêncio está afinado.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

De Terezinha de Jesus aos Encontros Impossíveis

Fundado como O Ponta Negra e depois rebatizado como O Zona Sul, o jornal nasceu para dar voz aos moradores de Natal. Um encontro casual com Terezinha de Jesus, na Bienal do Livro de 2003, abriu suas páginas para uma série de mais de cem entrevistas — e plantou a semente do SuperPauta.

Por Roberto Homem

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Capítulo Potiguar: Cartografia do Cerco


 Todo mapa é também uma prisão:
mostra os caminhos
e inventa as fronteiras.

Em 2025, deparei-me com uma postagem sobre a quarta edição do Prémio de Poesia de Oeiras, realizado em Portugal e aberto a autores de todos os países de língua portuguesa.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Encontros Impossíveis: João Saldanha


 Do menino de fronteira ao João Sem Medo, Saldanha revisita o Botafogo, as Feras, a demissão antes do Tri e um futebol que aprendeu a vender tudo, menos a coragem de dizer o que vê.

Entrevista imaginária por Roberto Homem

O cenário

A cabine de rádio parece suspensa sobre um estádio que não pertence inteiramente a tempo algum. Do lado de cá do vidro, há uma mesa estreita de madeira, um microfone pesado, dois fones de ouvido, um bloco de anotações e um quadro tático onde os ímãs perderam os nomes. Do lado de lá, o gramado muda conforme a luz: por alguns segundos é o Maracanã de 1957; depois, o mesmo verde se abre na direção do México de 1970; mais adiante, as arquibancadas assumem a geometria fria de Roma, em 1990.

João Saldanha está de mangas arregaçadas. Não veste uniforme, não carrega prancheta e não parece disposto a representar a própria lenda. Segura os fones com uma das mãos e bate de leve com a outra sobre a mesa, como quem marca o tempo de uma resposta antes que a pergunta termine. À sua frente, uma lâmpada vermelha acende sem que ninguém anuncie a entrada no ar.

Lá embaixo não há jogadores. Há apenas a sombra de uma bola no círculo central e o rumor de uma multidão que ainda não decidiu se veio assistir a uma partida, a um comício ou a um acerto de contas.

Saldanha olha para o campo, depois para mim.

— Pode perguntar. Só não venha com conversa mole.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Encontros Impossíveis: Moacyr Barbosa

O GOLEIRO QUE O BRASIL NÃO PERDOOU

Entre o silêncio do Maracanã e o barulho do tempo, Barbosa fala baixo — mas diz tudo

 

A pena máxima no Brasil é de 30 anos. Eu paguei mais de 50” — Barbosa

 

O Maracanã está vazio. Não o de hoje, organizado e domesticado por cadeiras coloridas, mas o outro — aquele que ainda respira ecos. O concreto guarda vozes que não se dissiparam. Há um fim de tarde suspenso, sem pressa de virar noite. O gramado parece maior quando não há jogo. Ou talvez mais honesto.  No centro do campo, um homem. Não está vestido como goleiro. Não há luvas. Não há uniforme. Mas há algo que permanece — uma forma de olhar o espaço como quem ainda mede distâncias invisíveis. Moacyr Barbosa. Ele não chega. Ele já está ali. Sentado, com o corpo levemente inclinado para frente, como quem ainda espera o próximo lance. Não há amargura no rosto, mas há memória. Muita. O silêncio aqui não é vazio. É presença.  E é dentro dele que começa este encontro impossível.

Nesta conversa que atravessa o tempo, Moacyr Barbosa revisita a própria trajetória com a mesma sobriedade que marcou sua vida dentro e fora dos gramados. Do menino tímido de Campinas ao goleiro que encontrou no Vasco da Gama o auge de sua carreira, ele reconstrói, sem grandiloquência, o caminho que o levou ao centro de um dos episódios mais marcantes da história do futebol brasileiro. Ao relembrar o gol de Alcides Ghiggia na final de 1950, Barbosa não se defende nem se justifica — ele descreve. E, ao fazê-lo, revela como um lance de segundos se transformou em uma sentença de décadas. Entre memórias do campo, reflexões sobre o ofício de goleiro e considerações sobre racismo, injustiça e o peso do julgamento público, emerge um homem que nunca deixou de compreender o jogo — mas precisou aprender, sozinho, a lidar com tudo o que veio depois dele.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Encontros Impossíveis - Carolina Maria de Jesus

 O Papel, a literatura e o Pão

Neste Encontro Impossível, ouvimos Carolina Maria de Jesus com tudo o que a fez única: a altivez sem licença, a ironia cortante, a vaidade ferida, a memória da fome, a fé vigiada, o apego à palavra exata e a recusa feroz de qualquer hipocrisia.


 

A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra.” — Carolina Maria de Jesus

 


Não estamos num gabinete de madeira nobre, nem numa biblioteca silenciosa, dessas onde os livros dormem em paz. O lugar desta conversa é outro. Fica num território suspenso entre o barro e o asfalto, entre Sacramento e o Canindé, entre a página e a panela. À esquerda, um córrego escuro parece andar devagar, como se carregasse nas costas o cansaço de um país inteiro. À direita, um fogão pobre respira em pequenas labaredas, e sobre ele um cheiro de café ralo tenta vencer a umidade do ar. No chão há papéis amassados, páginas soltas, pedaços de jornal, um caderno de capa gasta, uma boneca sem braço, uma lata vazia. Tudo parece ter sido recolhido do mundo para não morrer de vez. É nesse cenário que Carolina Maria de Jesus me espera. Sentada num banco simples, de vestido escuro e lenço branco, ela tem a postura firme de quem aprendeu dignidade na luta. Os olhos, lúcidos e inquietos, parecem medir a pessoa à sua frente. Ao lado, a caneta repousa sobre o caderno não como enfeite, mas como instrumento de defesa.

Carolina não é estátua nem personagem domesticada. É mulher, mãe, negra, escritora, compositora, autora que o Brasil tentou reduzir à fome, mas que sempre foi maior do que o rótulo. Neste encontro, passaremos pela menina de Sacramento, pela catadora de papel, pela mãe, pela autora de Quarto de Despejo e pela artista que jamais quis ser lida apenas como documento da miséria. Falaremos de fome, sim, mas também de língua, orgulho, maternidade, racismo, literatura, música e legado. Sobretudo, da parte de Carolina Maria de Jesus que o Brasil ainda não terminou de compreender. Ele me dá a impressão de que o Brasil ainda a lê com uma fome errada: a fome do símbolo, não a da escuta verdadeira. Carolina não pede pena. Pede papel, pão e verdade. E prova que, em suas mãos, até o que o mundo joga fora ainda tem o que contar.