Encontros Impossíveis
A voz que antecipou o século
Da menina órfã pela violência política à educadora que desafiou o Império, Nísia Floresta discute a condição feminina, a escravidão e o abismo social brasileiro. Com a serenidade de quem viu o futuro antes de todos, a "Brasileira Augusta" analisa as conquistas e os perigos do mundo contemporâneo.
“Educai as mulheres!
Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados! Governo, que vos dizeis liberal!” — Nísia Floresta
O ambiente não é terreno. Estamos em uma memória suspensa que oscila,
como uma miragem febril, entre a sobriedade de uma biblioteca vitoriana em
Londres — com estantes de carvalho escuro, cheiro de cera e tinta — e as dunas
brancas e cegantes de Papari, no Rio Grande do Norte. Ouve-se, ao longe, um
violino executando Norma de Bellini,
que às vezes é interrompido pelo som bruto do vento nordestino batendo nas
folhas de carnaúba, sugerindo a dualidade de uma alma que nunca coube
inteiramente em um só hemisfério. Sentada em uma cadeira de espaldar alto,
Nísia Floresta não aparenta a idade com que morreu, mas sim uma atemporalidade
majestosa. Veste seda escura, fechada até o pescoço, adornada por um camafeu
discreto. Suas mãos, calejadas pela escrita constante, repousam sobre um volume
gasto de Direitos das Mulheres. Ela
me encara com olhos que já viram o exílio, a peste, a revolução e a morte, mas
que ainda guardam o brilho úmido e inquisidor de quem chorou pelo Brasil.
Nesta conversa, a "Brasileira Augusta" despe-se dos mitos para
revisitar a menina Dionísia, forjada no sangue da tragédia política de 1817, e
a mulher que ousou traduzir e expandir o feminismo europeu para uma sociedade
escravocrata. Entre reflexões sobre o escândalo de educar mulheres para a ciência
e a defesa solitária dos povos indígenas, ela lança um olhar crítico e materno
sobre o século XXI, dissecando fenômenos como o feminicídio e a
superficialidade das redes, provando que sua voz, mesmo vinda do além-túmulo,
permanece dolorosamente atual.
SuperPauta: Neste “lado
de cá”, onde vaidades deveriam se dissolver, o nome ainda importa? Dionísia ou
Nísia: qual nome acende sua verdadeira voz?
Nísia Floresta: Importa,
sim. Importa como importa a primeira roupa que nos vestem e a última que nos
impõem. Dionísia foi a menina que correu descalça, sem saber ainda que o mundo,
tantas vezes, é um matadouro de promessas. Dionísia sangrava com facilidade,
porque era carne exposta. Já Nísia, meu caro, foi escolha e necessidade: uma
forma de dar à minha palavra uma espinha que não se partisse ao primeiro
empurrão. Aqui, onde nada se oculta e tudo se pesa, eu poderia dizer: não sou
uma nem outra, sou somente uma consciência que recorda e responde. Todavia, se
devo escolher o nome pelo qual serei chamada, chame-me por aquele que
trabalhou: Nísia. Foi Nísia quem escreveu, e é a escrita que me faz permanecer,
não como fantasma, mas como insistência.
SuperPauta: O cenário oscila entre as areias de Papari e salões europeus. Onde sua alma pousa quando quer, finalmente, descansar?
Nísia Floresta: O espírito
pode frequentar salões e ainda assim desejar o chão. A Europa alimentou meu
entendimento, ofereceu-me bibliotecas, debates, certas formas de respeito que
minha pátria me negou com uma mão e me prometeu com a outra. Mas a alma, esse
animal teimoso, volta sempre ao seu primeiro leite. Quando busco repouso, ouço
o rumor de uma lagoa, a simplicidade dos dias, a rudeza que não finge ser
delicada. O Nordeste não me adulou: me formou. A Europa foi, para mim, escola e
vitrine. O Rio Grande do Norte foi raiz e ferida. E é curioso como a raiz e a
ferida, ao fim, repousam no mesmo lugar.
SuperPauta: Morrer em
Rouen, na França, longe do calor do Nordeste: foi exílio definitivo ou
fechamento de um círculo?
Nísia Floresta: Foi
consumação de uma orfandade geográfica. Morrer em terra alheia, numa noite
fria, vitimada pela pneumonia, foi uma ironia final, dessas que a existência
gosta de assinar sem pedir licença. Eu que passei a vida a traduzir mundos,
terminei suspensa entre eles, como quem não pertence por inteiro a parte
alguma. Chamais “fechamento” quando uma história se resolve. No meu caso, foi
mais uma reticência: a frase parou, não por conclusão, mas por falta de ar.
SuperPauta: Da vida
inteira, que lembrança volta sem ser chamada: imagem, cheiro, frase?
Nísia Floresta: O cheiro da
terra molhada misturado ao rumor de pólvora. E a voz de meu pai lendo, como se
a leitura fosse uma forma de proteção contra o mundo. Quando me assalta a
lembrança, não me assalta a glória. Assalta-me o instante em que a inocência se
partiu e, ao partir, fez de mim outra criatura.
SuperPauta: A
eternidade torna a injustiça pequena ou imperdoável?
Nísia Floresta: A
eternidade apenas retira a pressa da vingança, não apaga a nitidez do erro. De
onde estou, a injustiça não é menor: é mais absurda, mais infantil e, por isso
mesmo, mais cruel. Vê-se a repetição das correntes, com metais diversos, e
percebe-se que o homem troca o objeto, mas conserva a inclinação.
SuperPauta: Olhando
para mim agora, o que a senhora enxerga: cronista, intruso, filho tardio do
século que tentou parir?
Nísia Floresta: Vejo um
escavador de ruínas. Há homens que se aproximam de nós para mandar. Vós vos
aproximais para perguntar. Isso já vos distingue. Talvez sejais, sim, filho
tardio: não o filho obediente que a sociedade cria, mas o filho que devolve à
mãe uma pergunta honesta.
SuperPauta: Antes de
prosseguirmos: há algo que a senhora se recusa a responder, mesmo aqui?
Nísia Floresta: Há. E é bom
que se diga desde logo, para que não façamos desta conversa uma feira. Minha
vida pública pertence ao julgamento do tempo. Minha intimidade, não. Não me
interrogareis sobre o que pertence ao cofre do coração, sobre nomes que apenas
a consciência e Deus conheceram por inteiro. A mulher pública paga tributo à
história; a mulher íntima não deve tributo ao espetáculo.
SuperPauta: Entendido.
E se eu, homem do futuro, fizer uma pergunta que repita um preconceito do seu
tempo, a senhora prefere corrigir com paciência ou com severidade?
Nísia Floresta:
Corrigir-vos-ei com a medida do vosso erro. O erro pequeno pede paciência. O
erro soberbo pede corte.
SuperPauta: Quando menina, o que a senhora via no horizonte de Papari que os adultos não viam?
Nísia Floresta: Os adultos,
em geral, veem a necessidade. Veem a seca, a colheita, a pesca, o ciclo que os
prende à sobrevivência. Eu via o mar como estrada, não como limite. Via que o
mundo não acabava nas dunas, e, mais inquietante ainda, sentia que eu também
não acabava no destino que desenhavam para mim. Eu via uma possibilidade: não
ser apenas a filha de alguém, nem a esposa de alguém, nem o eco de uma voz
alheia. Eu ainda não sabia nomear isso. Mas eu já pressentia.
SuperPauta: Seu pai,
Dionísio, foi assassinado por razões políticas. A morte dele criou a escritora
ou apenas arrancou a infância à força?
Nísia Floresta: Ambas as
coisas, e não as separo. A dor é tinta que não se lava. Quando mataram meu pai,
mataram a menina que acreditava na justiça dos homens como se fosse uma regra
natural. E ao matar essa menina, produziram uma mulher que precisou fabricar
sua própria justiça. Recordo não apenas o fato, mas o clima: a perseguição, o
medo rondando a casa, as conversas sussurradas que a criança entende pela
metade, e essa metade já basta para adoecer a alma. Aprende-se cedo, no Brasil,
que política não mora somente nos gabinetes. Ela entra pela porta, senta à mesa
e, por vezes, cobra sangue.
SuperPauta: Qual foi
seu primeiro medo “de gente grande”?
Nísia Floresta: O medo do
passo na calçada à noite. O medo de que uma opinião custasse a vida. Eu era
muito jovem quando compreendi que a coragem, nesta terra, frequentemente é
tratada como provocação.
SuperPauta: Quando
recebeu a notícia do assassinato, qual foi o primeiro pensamento vergonhoso que
a senhora teve e jamais confessou?
Nísia Floresta: (Ela
demora. O violino, ao longe, parece respeitar a pausa.) Pensei: “Por que ele
não se calou?” Por um instante, desejei que meu pai fosse um homem medíocre e
vivo, em vez de grande e morto. Senti raiva da coragem dele. E logo a vergonha
desse pensamento me esmagou, porque percebi que eu amava nele justamente o que
o matou. Carreguei isso como quem carrega uma pedra no bolso: pesa, mas lembra.
SuperPauta: Quem foi a
primeira pessoa que lhe disse “mulher não se mete nisso”? E como a senhora
respondeu?
Nísia Floresta: Um parente,
num tom que ele julgava caridoso. Disse-me que eu deveria rezar, bordar,
aceitar. Que a política era “suja” demais para mãos delicadas. Eu respondi com
silêncio. Mas era um silêncio com olhos incendiados. Dentro de mim, a resposta
foi simples: se a política mata meu pai e ameaça minha casa, ela já se meteu
comigo. Agora sou eu quem se mete nela.
SuperPauta: Se eu lhe
pedir uma cena: um dia perfeito antes da ruptura. Qual é?
Nísia Floresta: Uma tarde
comum na fazenda. Meu pai lendo, minha mãe organizando a casa, o sol fazendo da
poeira uma espécie de ouro triste. Eu com um livro nas mãos, acreditando que o
tempo era infinito. O paraíso, meu caro, é quase sempre uma falsa sensação de
segurança.
SuperPauta: O que o Rio
Grande do Norte lhe deu como “matéria-prima” que a Europa jamais substituiu?
Nísia Floresta: A rudeza
que ensina. A teimosia que não pede desculpas por existir. A capacidade de
florescer em meio à secura, como faz o mandacaru, sem solicitar aprovação aos
jardins bem-cuidados. A Europa oferece verniz. Minha terra deu-me ossatura.
SuperPauta: Inventar o
nome Nísia Floresta Brasileira Augusta foi estratégia, ferida ou manifesto?
Nísia Floresta: Foi
manifesto com cálculo, e cálculo com emoção. Nísia é resto da menina,
diminutivo que guarda ternura. Floresta é raiz, é memória da terra, é também
uma espécie de juramento. Brasileira é tomada de posição: não aceito ser
apêndice de império, nem sombra de colônia. E Augusta… (ela toca o camafeu,
como se fosse um ponto final)
Augusta foi homenagem, sim, e também reivindicação.
Como não me concediam títulos, precisei fabricar a dignidade do meu próprio
nome. O nome, meu caro, pode ser escudo. Pode ser porta. E pode ser provocação.
SuperPauta: Esse nome
também tinha vaidade? Em que medida a senhora queria ser respeitada, admirada?
Nísia Floresta: Toda
escrita pública arrasta consigo algum grau de vaidade. Quem nega isso mente ou
não se conhece. Eu queria ser lida. Queria entrar, pela via do pensamento, em
lugares onde meu corpo não era admitido. Queria que minha palavra atravessasse
a sala antes de mim. Mas havia diferença: eu não buscava admiração por enfeite,
por docilidade, por esse teatro de agradar. Eu queria ser admirada pelo que
eles temiam: inteligência e coragem. Para uma mulher, naquele século, isso era
quase indecência.
SuperPauta: A senhora
se sentia mais livre escrevendo como Nísia do que vivendo como Dionísia?
Nísia Floresta: Sem
comparação. No papel, eu debatia com legisladores e desmentia fatalidades. Na
vida, eu enfrentava aluguel, enfermidades, olhares que julgam, portas que se
fecham com educação. Nísia foi a superação possível de Dionísia, não por
desprezo à menina, mas por compaixão a ela.
SuperPauta: A senhora
se reinventou para se proteger dos homens ou para se tornar maior do que eles?
Nísia Floresta: Para não
ser esmagada por eles. Para que, quando tentassem reduzir-me, encontrassem
resistência. A sociedade ama diminuir a mulher: se ela pensa, dizem que é
soberba; se ela cala, dizem que é virtuosa. Eu preferi ser soberba aos olhos
deles a ser morta por dentro.
SuperPauta: Em 1832, ao publicar Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, a senhora sabia que acendia um rastilho?
Nísia Floresta: Sabia. E
acender foi necessário. O Brasil daquela época era um salão onde as mulheres
eram móveis: bonitas, úteis, silenciosas. Falar em “direitos” para quem era
tratada como propriedade era heresia. Eu queria que o leitor sentisse incômodo.
A complacência é o travesseiro do opressor.
SuperPauta: Muitos
repetem que o livro foi “tradução” de Wollstonecraft. O que a senhora queria:
fidelidade ou efeito?
Nísia Floresta: A
fidelidade ao espírito, não ao servilismo. Li, sim, as vozes estrangeiras, e
seria tolice negar. Mas eu não pretendia ser copista. O Brasil não se fere com
os mesmos instrumentos da Inglaterra. Eu precisava que a lâmina encontrasse a
carne brasileira: seus costumes, suas hipocrisias, suas desculpas piedosas para
manter a mulher na ignorância. Se eu apenas traduzisse, eu seria uma sombra. Eu
quis ser voz.
SuperPauta: Por que
homens temem tanto uma mulher que pensa?
Nísia Floresta: Porque o
poder deles repousa sobre a nossa deseducação. Se a mulher pensa, ela pergunta.
Se pergunta, exige. Se exige, muda o contrato. E muitos homens preferem chamar
“ordem” àquilo que é apenas privilégio. Temem não a inteligência feminina, mas
a falência de sua pretensa superioridade.
SuperPauta: Qual reação
mais feriu: o riso, o silêncio ou o ataque?
Nísia Floresta: O riso. O
ataque, ao menos, reconhece que há força. O silêncio pode ser medo. O riso,
não: o riso pretende transformar a nossa dor em anedota. É uma chibata que não
deixa marcas na pele, mas marca a alma.
SuperPauta: Qual foi a
consequência prática mais dura da sua ousadia?
Nísia Floresta: A solidão
social. Portas fechadas com gentileza. Amizades que se afastam não por
convicção, mas por conforto. E o dinheiro, sempre apertado, porque a liberdade
de uma mulher custa e poucos se dispõem a pagar a conta.
SuperPauta: Teve algum
homem que a senhora amou e que a amava… desde que a senhora não pensasse alto
demais?
Nísia Floresta: (Ela
sustenta o olhar, sem concessão.) Houve homens que apreciaram minha
inteligência como se aprecia um pássaro raro: com admiração, mas também com
desejo de engaiolar. Queriam a mulher de espírito, contanto que esse espírito
não lhes contestasse o mundo. É uma forma elegante de posse.
SuperPauta: A viuvez
lhe deu liberdade ou cobrou caro demais?
Nísia Floresta: A viuvez
foi tragédia que se tornou chave. Se eu tivesse permanecido presa ao ciclo da
esposa respeitável, talvez eu nunca tivesse escrito o que escrevi. Mas paguei
com noites frias, com a falta de um companheiro cotidiano, com a dureza de ser
mulher só em uma sociedade que faz da solidão feminina uma suspeita. Foi justo?
Às vezes, a vida parece sempre injusta. Todavia, olhando o que ficou, aceito o
preço. Nem sempre com alegria. Com lucidez.
SuperPauta: Qual culpa
lhe visitava mais: a de mãe ou a de escritora?
Nísia Floresta: Ambas. E
alternavam como marés. A culpa de mãe me dizia: “estás ausente”. A culpa de
escritora dizia: “estás te reduzindo”. O mundo queria que eu escolhesse uma só
forma de existir. Eu escolhi existir inteira, ainda que isso significasse ferir
expectativas.
SuperPauta: A senhora
já quis ser “apenas” feliz, doméstica, anônima… e depois se odiou por desejar
isso?
Nísia Floresta: Já. A
fadiga faz a alma desejar repouso, e repouso, para a mulher, frequentemente se
confunde com submissão. Eu desejei o conforto de não ser alvo. E logo me
repreendi, porque entendi: o conforto, muitas vezes, é um pacto com a
injustiça.
SuperPauta: Ao fundar o
Colégio Augusto e ensinar ciências e línguas, qual foi o escândalo real: o
conteúdo ou a autonomia?
Nísia Floresta: A
autonomia. O conteúdo era pretexto. Perguntavam: “Para quê?” Como se o saber
precisasse justificar-se por utilidade doméstica. O escândalo era ver uma
menina sendo tratada como ser racional e não como adorno.
SuperPauta: Qual era a
sua maior dificuldade: ensinar uma menina a pensar num mundo que mandava
obedecer?
Nísia Floresta: Convencer a
própria menina de que ela tinha direito à própria mente. O opressor, muitas
vezes, triunfa quando convence a vítima de que sua cela é destino. Eu combatia
a cela por fora e por dentro.
SuperPauta: Seus métodos foram considerados escandalosos. Isso a divertia ou a entristecia?
Nísia Floresta:
Entristecia, porque o escândalo revela miséria intelectual. Mas confesso: às
vezes, havia um prazer austero em ver conservadores alarmados. O alarme deles
era prova de que eu tocara no nervo.
SuperPauta: Qual método
seu era “insuportável” para a moral da época?
Nísia Floresta: Ensinar a
interpretar, não apenas repetir. Fazer perguntas em vez de decorar respostas.
E, sim, cuidar do corpo como parte da educação. A sociedade queria meninas
imóveis, como porcelana. Eu queria seres humanos.
SuperPauta: Qual era o
seu método secreto para ensinar coragem, não só conteúdo?
Nísia Floresta: Eu as fazia
falar. Em público. Com ordem e clareza. O medo se combate exercitando a voz.
Quem aprende a sustentar uma ideia diante da turma aprende, um dia, a
sustentar-se diante do mundo.
SuperPauta: A senhora
sofreu ataques e calúnias. Qual calúnia a acertou porque tinha um grão de
verdade ou porque parecia verdade?
Nísia Floresta: A que
insinuava que uma mulher independente só pode ser “imoral”. Esta calúnia me
feria porque eu compreendia o mecanismo: não era sobre minha conduta, era sobre
meu exemplo. Queriam que as mães temessem matricular as filhas. Queriam que as
alunas temessem parecer-se comigo. O grão de “verdade”, se assim chamais, era
apenas isto: eu não me ajoelhava diante do julgamento masculino. E para eles,
isso já era pecado.
SuperPauta: Teve uma ocasião
em que pensou em desistir?
Nísia Floresta: Sim. Houve
noites em que a solidão pareceu mais forte que a missão. Eu chorei escondida
como choram os teimosos: com raiva. Mas na manhã seguinte eu fazia o que sempre
fiz: levantava, vestia-me, abria livro, e continuava. A coragem, quase sempre,
é uma disciplina, não um fogo de artifício.
SuperPauta: O Colégio
Augusto foi sucesso financeiro ou moral?
Nísia Floresta: O sucesso
moral sempre veio antes. O financeiro era instável, porque a instabilidade é o
imposto cobrado às mulheres que ousam. Eu nunca tive o luxo de trabalhar sem
pensar em contas. A grande ironia é esta: querem que a mulher seja perfeita,
mas não querem que ela tenha meios.
SuperPauta: Por que dar
voz ao indígena em A lágrima de um Caeté?
Nísia Floresta: Porque o
indígena foi tratado como obstáculo, não como origem. O Brasil gosta de usar o
indígena como ornamento de retórica e, ao mesmo tempo, apagar sua dor concreta.
Eu quis inverter o olhar: obrigar o leitor a sentir a invasão, a perda, o roubo
do chão e do nome.
SuperPauta: A senhora viu
a escravidão de perto. Qual cena foi a mais insuportável?
Nísia Floresta: Uma mãe
vendo o filho ser arrancado de seus braços e vendido como se fosse mercadoria.
O grito daquela mulher não era apenas dela: era de uma nação inteira que se
acostumou a chamar abismo de economia. A escravidão, meu caro, não apodrece
somente o escravizado. Apodrece a alma do senhor.
SuperPauta: A senhora via conexão entre a opressão da mulher e a opressão do escravizado?
Nísia Floresta: Sim: a
ideia de propriedade. O corpo do outro é tomado como coisa. A voz do outro é
tratada como ruído. A vontade do outro é vista como insolência. Quando a
sociedade aprende a tratar alguém como objeto, ela se acostuma a objetificar em
cadeia. Hoje é o negro. Amanhã é a mulher. Depois é o pobre. O mecanismo é o
mesmo, mudam as desculpas.
SuperPauta: A senhora
temia virar porta-voz dos oprimidos sem pertencer a eles? Como evitava o
paternalismo?
Nísia Floresta: Eu temia,
sim. E o temor era saudável, porque a vaidade também pode vestir a máscara da
compaixão. Eu procurava escutar, observar, aprender. Mas não vos direi que
sempre fui perfeita: ninguém é. Minha época tinha cegueiras que até os
bem-intencionados carregavam. O que eu podia fazer era não contribuir para o
coro do desprezo. E denunciar, do modo que me era possível, a hipocrisia de
quem se dizia civilizado enquanto batia em gente.
SuperPauta: O Brasil
aboliu a escravidão tarde. Isso lhe pareceu alívio ou vergonha?
Nísia Floresta: Alegria
tardia tem gosto de vergonha. Libertar é obrigação, não favor. E o Brasil
transformou obrigação em festa para a própria imagem. Ainda assim, celebrei a
liberdade dos que deixaram de ser legalmente mercadoria. E chorei pelo tempo
roubado, pelas vidas inteiras queimadas em silêncio.
SuperPauta: A senhora
acreditava que o Brasil tinha conserto. Ainda acredita?
Nísia Floresta: Acredito na
terra e no povo. Desconfio profundamente das elites que fazem da ignorância um
instrumento. O conserto do Brasil não virá apenas por lei escrita. Virá por
educação e por vergonha moral. Sem vergonha moral, o homem muda o regime e
conserva a crueldade.
SuperPauta: Se o Brasil
fosse um filho, qual defeito ele nunca corrige?
Nísia Floresta: A mania de
confundir esperteza com inteligência, e improviso com destino. E esse vício de
culpar sempre o tempo, o mundo, o outro, para não encarar o próprio espelho.
SuperPauta: O que a
Europa lhe deu além do frio?
Nísia Floresta: Deu-me o
anonimato de observar sem ser imediatamente reduzida ao papel que esperavam de
mim. Deu-me bibliotecas onde eu não precisava pedir licença por ser mulher.
Deu-me interlocuções e também um tipo de solidão que só existe fora da pátria:
a solidão de não ser lembrada do modo correto. Mas não idealizeis. A Europa
também tem seus preconceitos, apenas mais bem penteados.
SuperPauta: Nos salões
europeus, a senhora era vista como igual ou como curiosidade tropical?
Nísia Floresta: Como
curiosidade, primeiro. Como igual, às vezes, depois. Havia quem me admirasse
como se admira um animal raro: com fascínio e distância. “Vede, uma mulher
instruída vinda do Novo Mundo!” Era elogio e insulto no mesmo embrulho. Eu
aprendi a usar a curiosidade como porta e a inteligência como permanência.
Entrar é uma coisa. Ficar, é outra.
SuperPauta: Conte um
episódio em que exotismo ou racismo velado apertou seu pescoço como luva de
pelica.
Nísia Floresta: Num jantar,
um cavalheiro elogiou minha “cor tropical” como se eu fosse paisagem. Fez de
mim um objeto de fantasia. Respondi com frieza, citando autores e princípios
morais, deslocando a conversa para onde eu comandava: o pensamento. Vi o homem
engolir o próprio atrevimento junto com o vinho. Há uma vantagem em ser
subestimada: o golpe do argumento entra sem ser visto.
SuperPauta: Viajar era
fuga, método ou cura?
Nísia Floresta: Era
respiração. No Brasil, eu sufocava em estreitezas. Viajar era medir o mundo com
os próprios pés, e afirmar, a cada fronteira, que eu não era propriedade de
lugar nenhum. Escrever itinerários era tentar domesticar a saudade com método.
SuperPauta: Se pudesse
trazer uma coisa da Europa para o Brasil, o que seria?
Nísia Floresta: O respeito
pela memória e pela escola. Lá, uma biblioteca é templo. Aqui, muitas vezes, a
escola é tratada como despesa. Enquanto isso não se inverter, o Brasil
continuará devendo a si mesmo.
SuperPauta: Hoje,
mulheres votam, governam países, comandam instituições. Isso supera seus
sonhos?
Nísia Floresta: Supera e
confirma. Mas não vos enganeis: trocaram-se algumas leis, e muitas violências
permaneceram com outros nomes. Antes, a submissão era norma escrita. Hoje,
frequentemente, é cultura, e cultura é adversário mais escorregadio.
SuperPauta: A palavra
“feminicídio” existe. O que a senhora sente ao ouvi-la?
Nísia Floresta: Sinto o
horror de um crime velho com nome novo. No meu tempo, chamavam assassinato de
“honra”, e chamavam ódio de “amor”. Dar nome é um começo, porque obriga a
sociedade a olhar a ferida sem maquiagem. Mas o nome não cura por si. É preciso
querer curar.
SuperPauta: Existe algo chamado “internet”: uma rede onde pessoas se comunicam instantaneamente, expõem ideias, imagens, vida privada. O que a senhora pensa disso?
Nísia Floresta: Dizeis que
há uma espécie de praça pública interminável, onde qualquer voz pode gritar e
qualquer mentira pode se vestir de verdade. Vejo aí um prodígio e um perigo.
Prodígio, se servir à instrução. Perigo, se servir à vaidade e ao ódio. O
pensamento pede tempo. A sabedoria não é veloz. Se a comunicação se torna mais
rápida do que a reflexão, o mundo ganha ruído e perde sentido. E quando se
perde sentido, a barbárie não tarda.
SuperPauta: Nas redes,
muitas mulheres expõem o corpo livremente. Isso é liberdade ou nova servidão ao
olhar masculino?
Nísia Floresta: Aqui
aparece minha contradição, que não escondo. Defendi a mente da mulher. Vi no
corpo, muitas vezes, o pretexto usado para escravizá-la. Se uma mulher decide
por si, em plena consciência, e não por coação do mercado ou do olhar alheio,
há liberdade. Mas se ela se expõe para ser validada, medida, comprada em
elogios, então a corrente apenas mudou de material. A tirania, meu caro, pode
ser voluntária. E a servidão pode sorrir.
SuperPauta: A senhora era conservadora em costumes e radical em direitos. Onde termina liberdade e começa autodestruição?
Nísia Floresta: A liberdade
que destrói a dignidade é liberdade sem norte. Eu não defendo que o Estado
vigie a mulher. Defendo que a mulher vigie o mundo que tenta comerciar sua
imagem. A autonomia não é fazer qualquer coisa. É fazer com consciência, sem
pedir permissão aos vícios do tempo.
SuperPauta: A senhora
defenderia o direito de uma mulher fazer escolhas que a senhora considera
moralmente erradas?
Nísia Floresta: Defenderia
o direito, sim, ainda que eu lamentasse a escolha. Porque quando se abre
exceção para controlar a mulher “pelo bem”, logo essa exceção vira regra, e a
mulher volta à jaula. Prefiro uma mulher livre errando a uma mulher “correta”
sob tutela.
SuperPauta: O que a
senhora diria às meninas que acham o feminismo desnecessário?
Nísia Floresta: Diria: é
fácil esquecer a tempestade quando se dorme em teto construído por outras mãos.
Se hoje falais, é porque outras, antes, pagaram com humilhação e risco. O
direito que não se defende se perde como água entre dedos.
SuperPauta: E aos
homens jovens que se sentem atacados quando ouvem “feminismo”?
Nísia Floresta: Eu lhes
diria: não é ataque ao vosso ser, é ataque ao vosso privilégio. E privilégio
não é natureza: é costume. Se vosso valor depende da inferioridade alheia,
vosso valor é frágil. A igualdade não vos diminui. Ela vos humaniza.
SuperPauta: A senhora
recebeu a morte com medo ou curiosidade?
Nísia Floresta: Com cansaço
e curiosidade. Cansaço de lutar num mundo que muda lentamente. Curiosidade,
porque sempre fui investigadora. A morte foi a última pergunta, e eu não podia
fingir desinteresse.
SuperPauta: Seu corpo
voltou ao Rio Grande do Norte décadas depois. O que significa “voltar” quando
já se está fora do tempo?
Nísia Floresta: Para mim,
pouco importa onde repousam ossos. Para os vivos, importa muito. A volta não
foi meu descanso. Foi o pedido de desculpas de uma terra que tardou em
reconhecer sua filha. E pedidos tardios também têm valor, porque ensinam às
gerações novas a não repetirem a mesma ingratidão.
SuperPauta: O que é
mais difícil: lutar contra os homens do seu tempo ou contra o esquecimento do
nosso?
Nísia Floresta: O
esquecimento. Contra os homens eu tinha rosto, argumento, combate. O
esquecimento é névoa: apaga sem parecer culpado. É a segunda morte, a
definitiva.
SuperPauta: Se eu
tivesse de resumir sua vida numa cena, e não num conceito… qual cena a senhora
escolheria?
Nísia Floresta: Eu
escolheria uma sala de aula. Meninas sentadas, algumas assustadas, outras já insolentes.
Eu abrindo um livro e perguntando, sem piedade: “Que pensais?” E o silêncio
primeiro, e depois a primeira resposta, frágil, trêmula, mas nascida. É aí que
o mundo muda: quando uma voz que nunca foi ouvida aprende a existir.
SuperPauta: Uma mensagem
final para as mulheres brasileiras.
Nísia Floresta: Não
espereis licença. A licença, quase sempre, é uma coleira. Educai-vos.
Instruí-vos. Não para competir com homens, mas para não serdes governadas por
ignorantes. E não negocieis vossa dignidade por aplausos.
SuperPauta: E para os
homens?
Nísia Floresta: Desçam do
pedestal. A solidão lá em cima é terrível, e a queda, quando vem, é humilhante.
Aprendei a ouvir. Aprendei a repartir o cuidado, a casa, o mundo. A virilidade
que se alimenta de domínio é pobreza de espírito.
SuperPauta: Como a
senhora quer ser lembrada?
Nísia Floresta: Não como
santa. Santos não servem como modelo humano. Quero ser lembrada como mulher que
recusou o tamanho que lhe ofereceram. Como alguém que, quando disseram “cala”,
respondeu “escrevo”. (Enquanto ela se levanta, o ambiente muda. A biblioteca se
dissolve em areia. A areia se dissolve em páginas. O violino cessa. Fica apenas
o vento, e uma pena antiga sobre uma mesa vazia, como se a memória tivesse
mãos.)
Nísia Floresta: Adeus. E
não me façais elogio fácil. Fazei-me justiça: lendo-me, discutindo-me,
contrariando-me quando for preciso. A obra que ninguém enfrenta vira enfeite.
Eu não escrevi para ser enfeite.



















