terça-feira, 6 de outubro de 2026

Encontros Impossíveis: Elino Julião


 O menino que atravessava o Seridó num jumento para cantar em Caicó pegou carona num caminhão de queijo e manteiga até Natal. Dali chegou ao rádio, foi chamado por Jackson do Pandeiro para trabalhar no Rio de Janeiro e fez músicas que o Brasil continuou cantando.

No antigo Forró da Coreia, Elino Julião recorda os companheiros de viagem, conta de onde vieram seus personagens, enfrenta a história de uma canção tomada por subversiva e explica por que, décadas depois, ainda havia gente lhe pedindo notícias de Nascimento.

Entrevista imaginária por Roberto Homem

sábado, 3 de outubro de 2026

Capítulo Potiguar — Menino de Asas

Em Menino de asas, a diferença que provoca medo também revela as contradições da cidade.

A cidade chama de monstro aquilo que não compreende. Mais tarde, quando descobre uma utilidade para suas asas, transforma o perseguido em funcionário exemplar.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Pescando o Passado: o samba para Zila que perdeu o Carnaval no sorteio

Em 1991, “Canção do Sonho Oceânico”, de Babal Galvão e Roberto Homem, levou a poesia de Zila Mamede à avenida com a Imperatriz Alecrinense. Trinta e cinco anos depois, um folder guardado devolve à memória a música, o desfile e um vice-campeonato decidido pela sorte.

Vasculhando minha pasta de tesouros antigos, encontrei quatro páginas que sobreviveram a mudanças, esquecimentos e ao desgaste do papel. Formam o folder que a Imperatriz Alecrinense no Samba distribuiu no Carnaval de Natal de 1991, quando desfilou com o enredo “Zila Mamede — Canção do Sonho Oceânico”.

Ali estão o desenho da capa, a letra do samba, a descrição das alas e dos carros alegóricos, os nomes de quem trabalhou no barracão e os anúncios de um comércio natalense que já pertence a outra época. Para mim, no entanto, aquelas folhas guardam algo ainda mais pessoal: o começo de uma parceria musical que já atravessa 36 anos.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Encontros Impossíveis: Darcy Ribeiro

 


Às vésperas de mais uma eleição em que a educação corre o risco de virar promessa lateral, Darcy Ribeiro reaparece no Beijódromo, dentro da Universidade de Brasília. Diante da escola pública que o país ainda não decidiu construir, ele fala dos CIEPs, da UnB, de Anísio Teixeira, dos povos indígenas, da desigualdade, da inteligência artificial e da Lei de Diretrizes e Bases. Também responde às críticas, reconhece derrotas e pergunta aos candidatos o que quase nenhum palanque quer esclarecer: que criança brasileira estão dispostos a abandonar quando as urnas forem fechadas?

Entrevista imaginária por Roberto Homem 

sábado, 26 de setembro de 2026

Capítulo Potiguar — Universo e Vocabulário do Grande Sertão


Há livros que explicam uma obra; outros ensinam o leitor a entrar nela. Universo e Vocabulário do Grande Sertão, de Nei Leandro de Castro, pertence à segunda categoria. Publicado originalmente em 1970, o estudo nasceu de uma pesquisa iniciada em Natal, cinco anos antes, e ainda oferece uma porta de entrada generosa para a linguagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

O ponto decisivo é que Nei não trata as palavras de Rosa como obstáculos a serem removidos. Ao acompanhar neologismos, arcaísmos, regionalismos, sons e construções inesperadas, ele mostra que a linguagem é parte do próprio sertão inventado pelo romance — um sertão que é geografia, memória, imaginação e mundo. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Pescando o Passado: o roteiro de 1988 que esperou 38 anos para virar filme

 Escrito numa Olivetti eletrônica e guardado por quase quatro décadas, “O pesadelo de Charles” nasceu como um exercício sem qualquer perspectiva de filmagem. Encontrado por acaso em 2026, o roteiro finalmente chegou à tela com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial.

Esta não é daquelas obras que atravessam o tempo porque nunca deixaram de circular. “O pesadelo de Charles” é justametne o contrário: sobreviveu de maneira mais silenciosa: dobrada dentro de uma pasta, esquecida entre letras, poemas, rascunhos e papéis que eu já nem lembrava possuir.