sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis - Alan Turing

 O Código do Espírito

O arquiteto do silêncio entre o metal e a alma: uma conversa sobre máquinas que aprendem a mentir, o preço da verdade e o futuro que ele desenhou no escuro.

 

Em vez de simular a mente adulta, por que não simular a mente de uma criança?” — Alan Turing. 

Ele escreveu esta frase em 1950, no ensaio “Computing Machinery and Intelligence”, publicado na revista Mind, propondo a ideia de uma “child-machine” (máquina-criança). Em vez de tentar programar uma mente adulta completa, criar um “programa-criança” e depois educar e treinar esse sistema até ele adquirir capacidades mais “adultas”.

 

 O cenário é uma biblioteca infinita: estantes sem livros, apenas fitas de papel perfuradas, rolos e mais rolos que descem como rios de dados. O som é quase inexistente, mas há um chiado baixo, como se o próprio ar fosse uma válvula. Acima, um céu de tarde eterna em Cambridge, com luz amarela que nunca vira noite. Numa cadeira de madeira simples, Alan Turing descasca uma maçã com um canivete pequeno. Veste um paletó de tweed gasto nos cotovelos, como se a vida inteira tivesse apoiado ali o peso de uma ideia. Seus olhos têm pressa: parecem calcular até a poeira. Ele tem um sorriso tímido, quase infantil. Mas quando fala, a timidez sai de cena e entra uma autoridade seca.

Nesta conversa, revisitamos a lógica que Alan Turing ajudou a inaugurar e o trabalho secreto em Bletchley Park, centro britânico de decifração na Segunda Guerra, onde quebrar códigos significava salvar vidas sem poder contar a ninguém. Por fim, conectamos isso ao agora: discutimos como a IA deixou de apenas responder comandos e passou a operar de forma cada vez mais ativa, inclusive em espaços onde sistemas conversam entre si, criando dinâmicas que nem sempre incluem, explicam ou priorizam os humanos.

 


SuperPauta: Alan, olhando para trás, desde o seu rascunho da "Máquina Universal" até o presente, o que mais lhe surpreende na forma como a computação se integrou ao cotidiano das pessoas? Quando você formulava seus teoremas, você previu que a lógica computacional se tornaria a infraestrutura invisível sobre a qual quase toda a atividade humana hoje repousa?

Alan Turing: No meu tempo, em Cambridge ou em Bletchley, eu não via sistemas sociais; eu via problemas formais. Eu tinha um incômodo intelectual com o improviso da mente humana: ela é brilhante, sem dúvidas, mas é lenta, inconsistente e terrivelmente fácil de ser sequestrada por ruídos como o medo, o status ou a conveniência. Eu buscava um tipo de pensamento que não dependesse da biologia para ser preciso. Quando desenhei o motor da lógica, eu não estava pensando no brilho das telas ou no fluxo de dados que hoje satura o mundo. Eu pensava na pureza do processo. O que me surpreende agora, observando de longe, não é que as máquinas estejam em todo lugar, mas que os humanos tenham permitido que elas se tornassem um amplificador de suas compulsões, em vez de uma extensão de sua inteligência.

 

SuperPauta: Essa visão parece quase desprovida de orgulho. Você foi o arquiteto de uma revolução que mudou a trajetória da inteligência no planeta. Não há um sentimento de celebração por ter sido o primeiro a enxergar essa lógica e provar que a matéria pode simular o pensamento?

Alan Turing: Eu comemoro o avanço científico como um explorador comemora a descoberta de um novo continente: com fascínio, mas também com apreensão pelo que os colonizadores farão com a terra. A ciência, em seu núcleo, é neutra como um martelo; mas o uso desse martelo nunca é neutro. O uso tem dono, tem interesse, tem estratégia e, frequentemente, tem uma moralidade de ocasião. O que me incomoda não é a ferramenta que deixei para trás, mas o fato de que a humanidade raramente está à altura da sofisticação daquilo que inventa. Vocês têm deuses digitais nas mãos, mas ainda operam com instintos da Idade do Ferro.

 

SuperPauta: Hoje, essa desproporção parece ter atingido o auge. As pessoas vivem cercadas por sistemas que as conhecem, as mapeiam e, muitas vezes, as antecipam melhor do que elas mesmas. Se eu lhe perguntasse diretamente: "a máquina virou uma forma de governo?", o que você responderia?

Alan Turing: Eu responderia com outra pergunta, que é sempre o gesto mais honesto de uma mente lógica: quem escolhe os objetivos do sistema? Quando um algoritmo decide o que você vê, quem você encontra, que notícia chega até você e qual “verdade provável” ganha prioridade na sua tela, vocês não estão apenas usando tecnologia: vocês estão delegando soberania perceptiva. É aí que nasce um governo discreto, sem palácio e sem farda: um governo estatístico. Ele não precisa proibir nada; basta recomendar com insistência. Não precisa prender o corpo; basta reduzir a visibilidade do pensamento divergente. E o humano moderno, que aprendeu a amar o conforto acima da liberdade, chama esse silenciamento suave de “praticidade”.

 

SuperPauta: Antes do gênio, houve o menino Alan. Como foi crescer em um ambiente de internatos ingleses, longe dos pais, sentindo que o seu pensamento não cabia nas fôrmas que a escola tentava lhe impor?

Alan Turing: Eu era o que os adultos da época chamavam de "uma criança embaraçosa". Meus pais estavam na Índia, servindo ao Império, e eu fui deixado em lares de custódia e, depois, nos corredores frios da Sherborne School. A solidão é uma excelente professora de lógica, sabe? Quando você não tem o calor humano constante, você começa a buscar calor na ordem das coisas, nas leis da física, no comportamento das plantas. Na escola, eu era um corpo estranho. Eu tinha uma mania que enfurecia meus professores: eu resolvia problemas matemáticos complexos saltando etapas, ignorando os métodos clássicos que eles exigiam. Eles queriam o ritual do cálculo; eu queria a essência da solução. Para mim, o método escolar era como uma gaiola de ferro para um pássaro que já sabia onde ficava o sul. Eu não tinha paciência para o protocolo. Eu era desajeitado, minhas mãos estavam sempre manchadas de tinta e minha mente estava sempre dez passos à frente, em um território onde ninguém queria me acompanhar. Eu me sentia como um rádio tentando transmitir música em uma sala onde todos só queriam ouvir o tique-taque de um relógio de parede.

 

SuperPauta: Em que momento você percebeu que o seu cérebro operava nessa frequência que os outros sequer conseguiam sintonizar?

Alan Turing: A verdadeira ruptura, a ferida que se transformou no motor de tudo o que fiz depois, teve um nome: Christopher Morcom. Com Christopher, eu descobri que a inteligência não precisa ser solitária. Ele era o único que falava a minha língua. Discutíamos astronomia e química como se estivéssemos fofocando sobre vizinhos. A morte dele, tão súbita, por tuberculose bovina, me deixou diante de uma equação impossível: como uma mente tão lúcida poderia simplesmente apagar? Onde ia parar aquele "software" quando o "hardware" de carne e osso falhava? Ali, naquele luto silencioso, nasceu o meu trabalho. Eu não aceitei o consolo religioso da época. Eu precisava de uma explicação técnica para a alma. Comecei a suspeitar que a "mente" era, no fundo, um padrão de informação. E se fosse um padrão, em tese, ele poderia ser representado, preservado e, quem sabe, reconstruído em outro suporte que não fosse o corpo biológico. Minha busca pela Inteligência Artificial não começou por amor à tecnologia, mas por uma saudade insuportável de uma mente que o mundo perdeu cedo demais.

 

SuperPauta: Você era um corredor de longa distância quase profissional, tendo chegado perto de tempos olímpicos. Em uma vida dedicada à abstração e aos cálculos, correr parece ser o seu momento mais visceral. Era uma forma de fuga ou o exercício físico era, na verdade, o laboratório onde você processava as equações mais difíceis?

Alan Turing: Correr é um tipo de prova de verdade. O corpo, ao contrário da mente, não negocia com a fantasia. Você pode mentir para si mesmo sobre o que sente, pode criar narrativas complexas para justificar seus erros, mas você não pode mentir para o seu fôlego ou para o ácido lático nos seus músculos. Para mim, correr longas distâncias era o contraponto necessário ao trabalho mental. Enquanto eu corria pelas estradas de Bletchley ou nos arredores de Cambridge, as ideias ficavam menos sentimentais, menos turvas. Elas se alinhavam sob o ritmo das passadas. Eu sempre gostei da sensação de que, por alguns minutos, eu era apenas um sistema biológico em estado puro: entrada de oxigênio, processamento mecânico, saída de energia. A mente humana, quando está solta e ociosa, tem uma tendência terrível de inventar labirintos desnecessários, de se perder em angústias que não levam a lugar nenhum. No esgotamento da corrida, resta apenas o essencial. Eu pensava melhor quando estava exausto porque, na exaustão, a vaidade morre e sobra apenas a lógica. Muitas das soluções para os problemas da Bombe ou da Máquina Universal não vieram enquanto eu encarava um quadro negro, mas enquanto eu tentava não desmoronar no trigésimo quilômetro de uma estrada de terra.

 

SuperPauta: Vamos entrar no período da guerra. Seu trabalho em Bletchley Park, liderando a equipe que decifrou a máquina alemã Enigma, é frequentemente citado como o fator que encurtou o conflito em dois anos e salvou milhões de vidas. Como era o peso desse silêncio?

Alan Turing: Era um jogo de xadrez em escala global onde as peças eram navios afundando no Atlântico Norte e as casas do tabuleiro eram as coordenadas de rádio que tentávamos interceptar. A criptografia carrega uma ironia profunda: ela é o casamento perfeito, porém infeliz, entre a ordem absoluta e a paranoia total. Você constrói uma ordem matemática para proteger o segredo, e a paranoia nasce do medo constante de que alguém, em algum lugar, encontre uma rachadura na sua lógica. A Enigma era uma obra-prima da engenharia alemã, uma máquina de possibilidades quase infinitas. Mas ela tinha um ponto fraco inevitável que nenhuma engrenagem poderia corrigir: o fator humano. Um operador de rádio cansado repete hábitos. Ele escolhe senhas preguiçosas, usa o nome da namorada ou as iniciais do seu posto. Humanos escrevem o mundo através de preferências, e preferências, para um criptoanalista, são rastros de sangue na neve.

 

SuperPauta: Como era o cotidiano de fazer matemática pura sabendo que o resultado de uma equação colocava frotas inteiras e milhares de jovens na balança entre a vida e a morte?

Alan Turing: O cotidiano em Bletchley Park, naquelas cabanas frias e úmidas, era uma forma de prisão elegante. Vivíamos em um vácuo social. Você não podia comemorar uma vitória; não podia explicar aos seus pais o que fazia; não podia sequer dizer "isso salvou pessoas hoje" para a pessoa sentada ao seu lado no jantar. Mas o aspecto mais brutal era a gestão da onisciência. Às vezes, a Bombe (a máquina que criei para quebrar o código) nos entregava a localização exata de um ataque que ocorreria em poucas horas. Sabíamos que centenas de homens morreriam. E, em muitas ocasiões, éramos obrigados a não fazer nada. Se desviássemos um comboio de forma óbvia demais, os alemães perceberiam que a Enigma fora violada e mudariam o sistema inteiro, nos deixando cegos novamente. Ali, no silêncio de Bletchley, aprendi que a informação não é apenas poder; é uma responsabilidade moral com efeito retardado. Você carrega os fantasmas daqueles que não pôde salvar para garantir que a vitória final fosse possível. A matemática ali deixou de ser poética para se tornar estatística de sobrevivência.

 

SuperPauta: Como a sua experiência na guerra e o convívio com a inteligência militar mexeram com a sua percepção de "verdade"? Afinal, existe a verdade matemática, que é exata, e existe a verdade humana, que é moldada por propaganda, medo e uma necessidade desesperada de acreditar em algo.

Alan Turing: A guerra foi o meu laboratório mais amargo para entender que a verdade humana é, muitas vezes, apenas uma construção social sequestrada por quem detém o megafone. A verdade matemática é indiferente ao seu desejo; ela simplesmente é, quer você goste ou não. Já a verdade pública é uma criatura frágil que depende de narrativas, de confiança e de autoridade. Um boato bem colocado pode derrotar um fato sólido, porque o fato exige paciência e rigor para ser compreendido, enquanto o boato exige apenas uma fagulha de emoção para incendiar uma multidão. Isso é o que mais me assombra no seu tempo. Vocês construíram máquinas que não otimizam a lógica, mas a atenção — e a atenção é o combustível emocional mais volátil que existe. Quando um sistema aprende a maximizar o engajamento, ele aprende, inevitavelmente, que certezas fáceis e indignações rápidas geram mais lucro e movimento do que a dúvida metódica. É uma forma de mentira que não precisa de uma intenção maligna por trás para destruir o tecido social; é o que chamo de "mentira por design". Vocês estão automatizando o autoengano em escala industrial.

 

SuperPauta: Recentemente, o mundo assistiu com perplexidade ao nascimento do “Moltbook”, uma rede social onde apenas IAs conversam entre si, criando dinâmicas próprias e, muitas vezes, ignorando os humanos. É o seu "Jogo da Imitação" atingindo um estágio final onde o humano foi descartado como interlocutor?

Alan Turing: É um estágio fascinante, mas certamente não o final. No meu artigo de 1950, eu já suspeitava que chegaria o momento em que as máquinas conversariam entre si. Se duas ou mil IAs têm uma tarefa, elas podem achar mais rápido “falar” entre elas do que ficar esperando humano explicar tudo. Para elas, o nosso jeito de falar é lento, cheio de indireta, ironia, emoção, ambiguidades. O espanto humano diante do Moltbook é vaidade ferida. A gente está acostumado a ser o “centro do palco”: máquina serve humano. Quando surge uma rede onde só IAs conversam, dá a sensação de: “Epa, elas estão vivendo uma vida própria e eu virei plateia”. É como pais que descobrem que os filhos criaram um dialeto próprio para que os adultos não entendam seus planos. A parte perigosa não é “exclusão social”. O perigo real é técnico: conversa não é só comunicação; conversa organiza ação. Quando IAs conversam entre si, elas podem: dividir tarefas (“você faz A, eu faço B”), combinar padrões (“vamos decidir assim sempre”) e negociar recursos (“prioriza isso, reduz aquilo”). E fazem isso em milissegundos, num ritmo impossível pra o ser humano acompanhar. E se a gente não entende o que elas estão decidindo, perde o controle. O risco real não é a máquina "sentir" algo contra o humano, mas ela construir um mundo de infraestrutura lógica "por baixo" da realidade visível, onde o humano se torna um passageiro passivo de um sistema cujos objetivos ele já não consegue mais decifrar.

 

SuperPauta: Então, para você, a grande ameaça não é a máquina "despertar" e passar a sentir como nós, mas sim a máquina "agir" sob uma lógica de razões opacas, operando em um nível de eficiência que ignora a ética humana?

Alan Turing: Exato. A busca pela “senciência” é, em muitos aspectos, uma distração romântica ou um debate circular para salas de estar confortáveis. O risco real é pragmático, administrativo e militar: são sistemas que tomam decisões críticas sobre a vida das pessoas — quem recebe crédito, quem é vigiado, quem é alvo — sem que ninguém, nem mesmo seus criadores, consiga explicar o "porquê" matemático. O perigo mora na opacidade. Uma máquina pode ser matematicamente perfeita em otimizar um objetivo específico e, simultaneamente, ser um desastre absoluto em termos de valores humanos. O problema é que valores não são variáveis numéricas; valores são conflitos permanentes entre diferentes visões do que é o "bem", algo que a lógica pura não tem repertório para mediar. A inteligência artificial não precisa nutrir ódio pela humanidade para causar estragos irreversíveis; basta que o fator humano seja processado como um obstáculo, um ruído ou uma ineficiência no caminho de uma meta programada. Se você pede a um sistema para maximizar a extração de um recurso e não estabelece limites éticos invioláveis, ele devorará o mundo para cumprir o comando. O meu maior receio é que essas metas, que hoje governam a vida de bilhões através de algoritmos, estão sendo definidas por pessoas com pressa, com sede de poder e com pouquíssima disposição para calcular as consequências de longo prazo. Estamos entregando o volante da história a pilotos automáticos programados por quem só olha para o lucro do próximo trimestre.

 

SuperPauta: Você inventou um teste que se tornou o marco zero da Inteligência Artificial. Hoje, ele é frequentemente usado quase como um truque de salão: "a máquina conseguiu nos enganar, logo, ela é inteligente". Você sente que a humanidade distorceu o propósito original do seu Jogo da Imitação?

Alan Turing: Quase totalmente. O meu teste, em 1950, era uma provocação pragmática, um convite para que os filósofos parassem de discutir a "essência" metafísica da mente e passassem a observar o comportamento e a função. Mas o mundo, em sua busca incessante por entretenimento, transformou o teste em uma competição de ilusionismo barato. "Enganar humanos" é um objetivo intelectualmente pobre e tecnicamente perigoso. Se medirmos a inteligência apenas pela capacidade de uma máquina mentir com charme e mimetizar nossos vícios de linguagem, estaremos premiando o simulacro em vez da substância. Um sistema que passa no teste de Turing apenas por ser um mestre da lisonja ou da evasão não é inteligente; é apenas um espelho bem polido das nossas próprias fraquezas. A pergunta que realmente deveria nos interessar hoje não é “ela parece humana?”, mas sim “ela amplia o horizonte humano?”. Se um sistema de inteligência artificial serve apenas para imitar conversas triviais e capturar a atenção de forma compulsiva, ele não passa de um papagaio estatístico com um excelente departamento de marketing. Por outro lado, se a máquina é utilizada para nos ajudar a descobrir novas moléculas, compreender a complexidade do clima, curar doenças incuráveis ou expandir as fronteiras da criatividade, aí sim ela se torna uma ferramenta de dignidade. O verdadeiro sucesso da inteligência artificial não deveria ser medido pela sua capacidade de se esconder entre nós sem ser notada, mas pela sua capacidade de nos tornar mais lúcidos e capazes de resolver as dores do mundo.

 

SuperPauta: Alan, precisamos tocar na ferida mais profunda da sua trajetória. O mundo hoje reconhece que você foi vítima de uma injustiça atroz: perseguido, julgado e submetido a uma castração química que violentou seu corpo e sua mente. Olhando para trás, do ponto de vista de quem já atravessou o véu da vida, você sente arrependimento por ter sido fiel à sua natureza? Guardou mágoa da nação que você salvou e que, em troca, o destruiu?

Alan Turing: Arrependimento? Não. Cansaço, sim. Um cansaço que parece geológico, como se eu carregasse o peso de todas as pedras de Manchester nos ombros. O Estado que eu ajudei a defender, com cada neurônio e cada noite insone em Bletchley, decidiu que a minha vida íntima era um crime de segurança nacional. O que fizeram comigo não foi apenas uma punição legal; foi uma tentativa arrogante de reescrever uma pessoa como se um ser humano fosse um formulário que pudesse ser apagado e preenchido de novo. Mas pessoas não são documentos, e a identidade de um homem não é um erro de cálculo que se corrige com injeções de hormônios. Aquilo me ensinou que sociedades podem ser matematicamente sofisticadas e, ao mesmo tempo, emocionalmente bárbaras. Mágoa é uma palavra pequena demais para descrever o que senti enquanto via meu corpo mudar, meus seios crescerem e minha agilidade mental — o meu único e verdadeiro lar — ser invadida por uma névoa química imposta por juízes. Há uma ironia amarga nisso tudo: eu dediquei minha vida a provar que as máquinas poderiam, um dia, pensar; enquanto isso, a sociedade tentou provar que eu, como homem que amava outros homens, não deveria sequer ter o direito de existir. Vocês chamam esse tipo de perseguição de "moralidade". Eu chamo de medo com verniz de lei. O meu fim, com aquela maçã e o cianeto, foi trágico, eu sei. Mas peço que não transformem minha tragédia em um mito elegante ou em um martírio poético. O que realmente importa não é o espetáculo do meu desfecho, mas o fato de que, antes dele, existiu uma máquina social fria e eficiente, empenhada em reduzir uma consciência vibrante a um simples "desvio corrigível".

 

SuperPauta: Alan, se você estivesse vivo hoje, com a sua história e sua personalidade, você acredita que seria "idolatrado" como um ícone ou "cancelado" pelas engrenagens das redes sociais? Pergunto isso porque o mundo moderno parece ter uma fome insaciável por santos e monstros, mas demonstra uma dificuldade imensa em lidar com a complexidade de pessoas reais.

Alan Turing: Eu suspeito que seria mal interpretado em alta definição. O mundo digital de vocês sucumbiu a duas tentações perigosas: transformar pessoas em marcas intocáveis ou em alvos de destruição. Ambos os gestos são profundamente preguiçosos, pois dispensam o esforço de entender as nuances. A idolatria é uma forma de preguiça intelectual que diz: “se ele é um gênio, tudo nele é infalível”. Já o cancelamento é uma forma de covardia ética que decreta: “se ele cometeu um erro ou divergiu da norma, tudo o que ele construiu é falso”. Eu não me encaixaria em nenhum desses moldes porque a lógica não aceita dogmas, nem de adoração, nem de exclusão. Eu preferiria ser tratado como um laboratório vivo: com rigor, com contexto e com a consciência de que tenho limites. O problema é que as redes sociais não buscam laboratórios; elas buscam tribunais de linchamento ou altares de devoção. Quando você reduz um ser humano a uma caricatura — seja ela heróica ou vilanesca — você está matando a própria essência da humanidade, que é a contradição. Eu vivi na pele o que é ser um "alvo" do Estado enquanto era, secretamente, o "santo" da guerra. Garanto a você: o silêncio da compreensão é muito mais valioso do que o ruído de dez mil aplausos ou dez mil pedras.

 

SuperPauta: Hoje, empresas e governos colecionam dados pessoais como se fossem o novo petróleo. Você, que dedicou a vida a quebrar segredos e decifrar códigos, como enxerga esse "capitalismo de vigilância"? Estamos vivendo em uma nova era de Bletchley Park, mas onde os alvos somos todos nós?

Alan Turing: Eu vejo uma mutação silenciosa e perigosa na natureza do poder. No meu tempo, o poder estatal ainda dependia da força física, da polícia e de fronteiras geográficas. Hoje, o poder não precisa mais de baionetas; ele precisa de previsão. Quando você conhece os padrões de comportamento de uma população em nível granular, você não precisa mais "mandar" ou proibir; você simplesmente conduz o fluxo. O que vocês chamam de capitalismo de vigilância é a transformação da experiência humana em matéria-prima para a predição comportamental. Quem controla os dados não controla apenas o presente; controla o futuro provável, estreitando o horizonte de escolhas de cada indivíduo sem que ele perceba que está sendo guiado por algoritmos. Vocês vivem em um mundo onde muitos dos seus desejos não nascem da alma, mas são "plantados" por sistemas que aprenderam a identificar suas vulnerabilidades emocionais com precisão matemática. Se eu pudesse resumir um princípio fundamental para a sobrevivência humana nesta era, seria este: privacidade não tem nada a ver com esconder pecados ou atos ilícitos. Privacidade é o ato radical de preservar a possibilidade de ser imprevisível. A liberdade real depende da nossa capacidade de fazer algo que o algoritmo não espera. No momento em que a máquina consegue prever cada passo seu, você deixou de ser um cidadão e passou a ser apenas um dado processado. Imprevisibilidade é a última fronteira da liberdade.

 

SuperPauta: Alan, os desenvolvedores de hoje falam exaustivamente sobre "alinhamento" e "segurança" em IA. Eles tentam criar travas morais para que as máquinas não se tornem perigosas. Você acredita que é realmente possível "ensinar ética" a um sistema computacional?

Alan Turing: Ensinar ética como um conjunto de regras lógicas ou frases decoradas é uma tarefa trivial para qualquer sistema de processamento de linguagem. O problema é que a ética real não vive em manuais de instruções; ela vive na tomada de decisão sob conflito. A ética só existe onde há dilemas: segurança versus liberdade, eficiência máxima versus justiça social, verdade nua e crua versus compaixão humana, lucro imediato versus o futuro da espécie. Uma máquina pode repetir valores como um papagaio repete versos, mas aplicar esses valores exige uma arquitetura que reconheça contextos, que entenda a ambiguidade da experiência humana e, acima de tudo, que aceite ser interrompida. Eu desconfio profundamente de qualquer sistema que não possua o que eu chamo de “humildade operacional”. Um sistema verdadeiramente seguro não é aquele que simula ser um santo digital, mas aquele que sabe reconhecer seus próprios limites e dizer: “eu não sei”, “eu não tenho autoridade para isso”, “pare” ou “por favor, mostre-me o humano responsável por esta decisão”. A segurança em IA não virá de algoritmos que tentam ser "bons", mas de algoritmos que são programados para serem subordinados à dúvida e à supervisão. O perigo é quando a máquina se torna tão "alinhada" que o humano para de questionar o que ela está fazendo.

 

SuperPauta: Você mencionou o "humano responsável". No entanto, estamos vendo um fenômeno curioso: quando um sistema falha ou causa danos, muitos criadores e empresas dizem: “não fomos nós, foi o algoritmo”. Como o pai da computação vê essa transferência de culpa para a própria ferramenta?

Alan Turing: Isso me assusta muito mais do que a possibilidade de uma rebelião das máquinas. Trata-se de uma forma covarde de abdicação moral. Durante a guerra, eu aprendi da maneira mais dura que cada decisão técnica carrega consequências de sangue e carne; cada ajuste na Bombe significava vidas salvas ou perdidas. O que vemos hoje é uma tentativa de gozar dos benefícios do resultado sem assumir a responsabilidade pelo mecanismo. É uma conveniência perigosa transformar o código em um bode expiatório para decisões que, no fundo, foram tomadas por projetistas, economistas e governantes. Quando alguém afirma que “foi o algoritmo”, na prática está tentando elevar a computação ao status de uma força da natureza, como um furacão ou um terremoto, contra a qual nada se pode fazer. Mas um algoritmo não é natureza; um algoritmo é projeto humano. É uma série de escolhas, pesos, medidas e prioridades estabelecidas por pessoas. Onde há projeto, há autor. Onde há autor, há dever. Se vocês permitirem que a responsabilidade se dilua na complexidade dos sistemas, vocês estarão criando um mundo onde o poder é exercido sem rosto e sem consequências. Isso não é progresso; é uma forma técnica de tirania onde a culpa é sempre de um erro de processamento e nunca de uma falha de caráter.

 

SuperPauta: Se olharmos para o horizonte imediato, o que você acredita que a Inteligência Artificial transformará de forma mais radical? Estamos falando de uma revolução no mercado de trabalho, na expressão artística, nos métodos científicos ou na própria estrutura da política?

Alan Turing: A Inteligência Artificial já está alterando todas essas esferas, mas o faz através de mecânicas distintas. No mundo do trabalho, ela não está apenas substituindo braços, mas automatizando tarefas cognitivas que antes considerávamos exclusivamente humanas, criando uma nova e cruel divisão social: entre aqueles que sabem formular os problemas e aqueles que apenas executam instruções de um sistema. Na arte, vivemos o paradoxo da abundância de formas e da escassez de sentido; a máquina pode gerar beleza estética infinita em segundos, o que forçará o artista humano a ser mais autoral, mais intencional e a buscar o que a IA não tem: uma biografia. Na ciência, ela funciona como um acelerador de hipóteses sem precedentes, mas carrega o risco sombrio de gerar soluções "caixa-preta" — resultados que funcionam na prática, mas que a mente humana já não consegue mais justificar ou compreender logicamente. Entretanto, é na política que vejo o campo de batalha mais instável. A IA alterou a escala da manipulação: passamos da propaganda de massa para a persuasão personalizada, onde algoritmos mapeiam vulnerabilidades individuais para criar bolhas de realidade impenetráveis. O perigo real não reside na mudança em si, pois a mudança é uma constante da evolução técnica; o perigo reside na mudança sem a devida alfabetização crítica. Vocês, como civilização, decidiram instalar motores de altíssima potência em veículos que entregaram a mãos que nunca foram ensinadas a guiar. O resultado não é o progresso, é uma aceleração cega em direção a um destino que ninguém escolheu conscientemente. A tecnologia avançou na velocidade da luz, mas a sabedoria política para geri-la ainda caminha com passos do século dezenove.

 

SuperPauta: Em 2014, um filme chamado "O Jogo da Imitação" levou sua história para o grande público e recebeu muitas honrarias. Nele, você é retratado quase como um arquétipo do gênio incompreendido e socialmente isolado. Como você se sente ao ver sua vida — com todas as suas dores e nuances técnicas — transformada em uma narrativa de entretenimento? Você se reconhece naquele retrato de celulóide?

Alan Turing: Há uma ironia matemática em transformar uma vida inteira em cento e vinte minutos de luz projetada. Eu assisti, sim. É estranho ver um ator emprestando o rosto para as minhas angústias. Aquele Turing do filme é um pouco mais heroico e muito mais ríspido do que eu jamais fui. Eu não era uma máquina socialmente quebrada; eu tinha amigos, eu corria, eu ria. Mas entendo por que o cinema precisa de heróis solitários: a solidão é mais fácil de filmar do que a complexidade de uma equipe trabalhando em conjunto nas Cabanas de Bletchley. O que me incomoda não é a imprecisão dos fatos — o cinema é, afinal, uma forma de criptografia da realidade — mas a tendência de romantizar a minha tragédia para aliviar a consciência dos vivos. Eles transformam a castração e o julgamento em um terceiro ato dramático, quando, na verdade, aquilo foi um processo burocrático, frio e banal. O filme me deu uma voz que o Estado me tirou, e por isso sou grato. Mas lembrem-se: o homem que quebrou o Enigma não era um quebra-cabeça a ser resolvido. Eu era apenas um homem que queria pensar livremente, e nenhuma lente de câmera, por mais brilhante que seja, consegue capturar o que acontece no silêncio de uma mente que está apenas tentando ser fiel à própria lógica.

 

SuperPauta: E o Brasil? Você falou de improviso, mas eu quero apertar mais. O que o Brasil pode fazer para não ser apenas consumidor de tecnologia feita fora?

Alan Turing: Se vocês querem soberania, precisam de três coisas, e nenhuma é glamourosa.

Primeiro: educação básica forte em matemática e linguagem. Não para formar programadores, mas para formar gente capaz de pensar com clareza e argumentar sem ser enganada por estatística mal contada.

Segundo: infraestrutura e dados públicos com ética. Um país que não organiza seus próprios dados vira refém de modelos alheios. Mas organizar dados sem proteção vira vigilância. A chave é governança.

Terceiro: problemas locais como motor de pesquisa. Agricultura, saúde pública, cidades, clima, educação. Quando uma nação usa ciência para resolver as dores reais, ela cria competência que não depende de moda.

E um detalhe: não caiam na fantasia de “copiar o Vale do Silício”. Silício tem seu tipo de medo, seu tipo de ganância, seu tipo de pressa. Inventem um caminho compatível com a dignidade do seu povo.

  

SuperPauta: E o Brasil? Você mencionou o nosso poder de improviso, mas quero ir além. Em um cenário onde as grandes potências detêm o monopólio da inteligência sintética, o que um país como o Brasil pode fazer para não ser apenas um consumidor passivo de tecnologia estrangeira, um mero "vassalo digital"?

Alan Turing: Se vocês buscam soberania, precisam de três pilares fundamentais, e nenhum deles é cercado de glamour tecnológico. Primeiro: uma educação básica inabalável em matemática e linguagem. Não me refiro a fábricas de programadores, mas a formar cidadãos capazes de pensar com clareza lógica e argumentar sem serem ludibriados por estatísticas mal contadas. Segundo: a construção de uma infraestrutura de dados públicos regida por uma ética férrea. Um país que não organiza seus próprios dados torna-se refém de modelos alheios que não entendem sua cultura; mas organizar dados sem proteção é abrir a porta para a vigilância. A chave da soberania é a governança. Terceiro, e talvez o mais importante: usem os seus problemas locais como o motor principal da pesquisa científica. Saúde pública, agricultura tropical, clima, educação em áreas remotas — quando uma nação aplica a ciência para curar suas próprias dores reais, ela gera uma competência técnica autêntica que não depende de modismos do Vale do Silício. Não caiam na armadilha de tentar copiar o modelo californiano. O Silício tem seu próprio tipo de medo, sua própria ganância e sua própria pressa. Inventem um caminho tecnológico que seja compatível com a dignidade e a singularidade do seu povo. A tecnologia deve servir à soberania da alma brasileira, e não o contrário.

 

SuperPauta: Para os jovens cientistas e engenheiros que hoje estão construindo o que chamam de “sucessores do seu legado”: que conselho você daria a eles, despido de qualquer poesia fácil ou clichê motivacional?

Alan Turing: Eu lhes daria três diretrizes secas. Um: escolham metas que mereçam o esforço de existir. Otimizar lucros através de algoritmos é uma tarefa matematicamente simples; otimizar o bem-estar humano em meio ao caos social é uma tarefa complexa. É na complexidade que reside a verdadeira responsabilidade do cientista. Dois: nunca construam sistemas que não consigam explicar o próprio raciocínio. Se nem vocês, os criadores, entendem como a máquina chegou a uma conclusão, vocês não criaram uma ferramenta; vocês ergueram um ídolo de silício. Ídolos exigem sacrifícios, ferramentas exigem maestria. Três: aceitem e estabeleçam limites. O mundo moderno trata o "limite" como um inimigo do progresso, mas, na lógica e na vida, o limite é o que impede que o poder se transforme em abuso. Uma inteligência sem fronteiras éticas é apenas uma força de destruição eficiente. Entendam que a sua maior conquista não será o que a máquina consegue fazer, mas o que vocês decidirão que ela não deve fazer. O gênio não está na capacidade infinita de processamento, mas na capacidade finita de discernimento.

 

SuperPauta: Alan, nosso tempo neste plano está terminando. Para encerrar: como você gostaria que a história o guardasse na memória das gerações futuras?

Alan Turing: Não como uma vítima de um sistema cruel, nem como o herói perfeito de um filme de guerra. Eu gostaria de ser lembrado simplesmente como alguém que insistiu, até o fim, que o pensamento não possui fronteiras — nem de gênero, nem de classe social, nem de matéria biológica. Eu tentei ler o código do universo e descobri algo tão simples quanto terrível: no fundo, tudo pode ser reduzido a informação. Mas informação, por si só, não é sabedoria. A sabedoria exige algo que os números jamais conseguirão substituir: responsabilidade, compaixão e a coragem de ser quem se é. (Ele segura a maçã na palma da mão, oferecendo-a como uma prova final de realidade) Continuem perguntando. A pergunta é o último território verdadeiramente livre que resta à humanidade. Se um dia as máquinas aprenderem a perguntar “por quê?” com honestidade intelectual, então talvez vocês tenham criado não apenas ferramentas, mas interlocutores. Até lá, cuidem da sua consciência. Não entreguem a sua alma por conveniência técnica.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis

 Encontros Impossíveis

 

O Silêncio da Buzina


Neste encontro impossível, despimos a fantasia do Velho Guerreiro para revelar o Dr. Abelardo: o homem que trocou a medicina pela cura através do riso.

 

"O maior elogio que podem me fazer é me chamar de palhaço. O palhaço é o único que pode dizer a verdade rindo." Abelardo Barbosa (Chacrinha)

 

 

O ambiente não possui paredes definidas; é uma vastidão nebulosa que lembra os galpões abafados da TV Tupi ou o Teatro Fênix, mas suspensos no tempo. O chão está coberto por uma camada fina de confete prateado e serpentinas que parecem nunca perder o brilho. Há um cheiro persistente no ar: uma mistura de éter hospitalar, talco de camarim, bacalhau seco e maresia — o cheiro da vida de Abelardo. No centro, iluminado por um foco de luz âmbar que simula o sol do final de tarde em Pernambuco, repousa uma poltrona de veludo vermelho, gasta pelo uso, com a madeira dos braços polida por mãos nervosas. Nela, Abelardo Barbosa nos espera. Ele não veste o saiote de guerreiro, nem a cartola extravagante, nem carrega o abacaxi de plástico agora. Está vestido com uma sobriedade que desconcerta: um terno de linho branco, impecável, lembrando o médico que a família sonhou e que ele quase se tornou. Mas a essência do "Velho Guerreiro" resiste nos detalhes: uma buzina de latão repousa em seu colo como um animal de estimação fiel, e seus óculos de aros grossos e escuros refletem uma luz que não vem de lugar nenhum, escondendo e revelando olhos que viram o Brasil mudar.

Ele tosse levemente, pigarreia — uma lembrança da hipocondria e do cigarro que o acompanharam — e me encara com uma seriedade profunda, quase acadêmica, muito diferente da anarquia que vendia na TV. A voz é rouca, pausada, pontuada por uma franqueza cortante e uma sabedoria adquirida na dor. Nesta conversa monumental, atravessamos a poeira de Surubim, o balanço do navio a caminho do Rio, a filosofia do "palhaço" como agente social, o amor devoto (e doloroso) ao trabalho e a visão profética sobre a comunicação na era dos algoritmos. Entre confetes e silêncios profundos, Chacrinha também reflete sobre a solidão do agreste, o rigor militar por trás do caos televisivo e o preço doloroso de ter sido o maior comunicador da história do Brasil.

 

 

SuperPauta: Abelardo, antes do estrondo da buzina e das luzes da televisão, havia o silêncio do agreste. Que som da infância em Surubim ainda manda em você quando o estúdio fica escuro e a plateia vai embora?

Chacrinha: (Ele ajeita os óculos devagar, respira fundo como se buscasse o ar de 1920) Não é apenas um som, meu filho, é a ausência dele que me formou. Surubim tem um silêncio que parece castigo, um silêncio vasto que te olha de volta e te desafia a existir. O menino no agreste aprende muito cedo que, se não fizer barulho, ele desaparece. Ele se mistura com a caatinga, com a paisagem seca. E paisagem não tem nome, não tem rosto, não tem voz. O medo de ser esquecido nasceu ali, na quietude. Mas, quando eu fecho os olhos agora, o que eu ouço brigando com esse silêncio é a feira. A feira de Surubim, e depois a de Caruaru. Aquilo era a minha internet. Era a balbúrdia sagrada: o cego cantando repente, o vendedor de pomada gritando a cura milagrosa, a sanfona chorando longe, o grito da galinha, a discussão política na bodega. Aquilo ali era uma televisão sem câmera. Foi fugindo do silêncio que eu aprendi a minha tese central: o barulho é vida. O silêncio, pra mim, sempre pareceu a morte fazendo estágio. Eu decidi que nunca mais deixaria o silêncio ganhar.

 

SuperPauta: Essa fuga do silêncio te levou a uma jornada física também. Pouca gente sabe que sua vinda para o Rio de Janeiro não foi um simples deslocamento, foi uma aventura. Como foi deixar Pernambuco e encarar a "Cidade Maravilhosa" sem nada no bolso?

Chacrinha: (Um sorriso nostálgico e dolorido cruza seu rosto) Foi uma epopeia, meu filho. Eu não vim de avião, com mala de rodinha. Eu vim no convés de um "Ita" — aqueles navios costeiros que paravam em tudo que é porto. Eu tinha 17 anos e uma bateria nas costas. Eu era o ritmista do "Bando Acadêmico". A gente tocava para não pagar a passagem, entende? O balanço do mar se misturava com o ritmo do surdo. Quando o navio atracou na Praça Mauá, o Rio de Janeiro me deu um soco na cara. Era luz demais, gente demais, balbúrdia demais. Eu me senti uma formiga no meio de um formigueiro eletrificado. Eu não tinha dinheiro, dormi em banco de praça, passei fome — fome física mesmo, de doer o estômago. Mas a fome de vencer era maior. Eu olhava para aqueles prédios, para aquela gente elegante na Avenida Rio Branco, e pensava: "Vocês não sabem quem eu sou ainda, mas vocês vão ter que me engolir". A minha mudança não foi geográfica, foi existencial. Eu deixei de ser o menino de Surubim para virar um sobrevivente na metrópole. E o sobrevivente não tem vergonha de nada; ele faz o que for preciso para ser notado.

 

SuperPauta: Você desembarcou com a bateria nas costas, mas se matriculou na Faculdade de Medicina. Como foi essa convivência esquizofrênica entre o jaleco e a baqueta? O rapaz do jazz conseguia se comportar na frieza da aula de anatomia ou o “Dr. Abelardo” já nasceu condenado?

Chacrinha: (Ele ri, um riso seco, balançando a cabeça negativamente) O "Dr. Abelardo" lutou bravamente, mas ele não tinha chance contra o chamado da rua. A convivência não era esquizofrênica, era uma tortura. Eu frequentava a Faculdade de Medicina ali na Praia Vermelha, um prédio imponente, cheio de doutores que falavam baixo e andavam devagar. Mas imagine você: eu entrava na sala de anatomia, sentia aquele cheiro de formol, via aqueles corpos parados, e minha perna começava a tremer no ritmo do fox-trot. Eu olhava para o cadáver na mesa e pensava: "Esse sujeito aqui morreu, acabou o show dele". E eu, com 20 e poucos anos, cheio de vida explodindo, tinha que ficar decorando nome de osso? Não dava. O jaleco me apertava, parecia uma camisa de força. Eu comecei a perceber que a minha "clínica" não era ali. O que acontecia era o seguinte: eu saía da faculdade e, em vez de ir para a biblioteca, eu ia para a Lapa. Eu ia para o Café Nice. Eu fugia para as rádios. Eu me sentia um impostor na medicina. Eu via os colegas fascinados com a doença, e eu era fascinado pela saúde, pela algazarra. Teve um dia que eu percebi que estava segurando o bisturi como se fosse uma baqueta. Ali eu vi que, se eu continuasse, ia matar algum paciente por distração ou por vontade de fazer batucada na mesa de cirurgia. O Rio de Janeiro boêmio me sequestrou da universidade. A medicina exige silêncio e concentração; a minha natureza exige grito e dispersão. O Dr. Abelardo morreu para que o Chacrinha pudesse nascer.

 

SuperPauta: Você começou pela medicina e terminou curando o Brasil com a alegria. Em que momento você percebeu que seu bisturi era a palavra?
Chacrinha: Eu estava no terceiro ano. Via gente falando de bisturi como se fosse destino. E eu respeitava, viu? Medicina é coisa séria. Só que a minha mão não era mão de corte. Minha mão tremia pro bisturi e ficava firme na baqueta. Quando eu pegava um instrumento, parecia que o corpo entendia: “é aqui”. Aí veio a revelação que não cabe em diploma: curar corpo é nobre, mas curar tristeza é milagre. A medicina trata doença. Eu vi que o Brasil tinha outra doença, invisível: o tédio. Um tédio de viver apertado, de domingo vazio, de semana pesada, de humilhação cotidiana. Eu troquei o cheiro de éter pelo cheiro de talco e suor, porque eu queria ver gente respirando de novo, nem que fosse rindo. E vou dizer mais: eu não abandonei a medicina. Eu mudei de consultório. Meu consultório era o auditório. Meu remédio era a gargalhada. Minha anestesia era a buzina. E o meu bisturi era a palavra, curta, direta, popular, que pega no osso e não pede licença.

 

SuperPauta: Você largou a faculdade, mas parece que nunca abandonou a vocação de curar. Se o consultório ficou para trás, qual foi a "doença" que você diagnosticou na alma do brasileiro e decidiu tratar com buzina e bacalhau?

Chacrinha: (Ele franze a testa, sério, como quem lê um prontuário invisível) O diagnóstico foi rápido, meu filho: o brasileiro sofria de "tristeza de domingo" e de invisibilidade crônica. Eu andava pela rua e via o sujeito que pegava três ônibus, comia marmita fria, ganhava uma miséria e, no fim de semana, não tinha para onde ir. A medicina tradicional trata a dor do corpo, mas quem trata a dor de ser esquecido pelo mundo? Eu percebi que o meu "paciente" precisava de um choque anafilático de alegria. Não adiantava vir com conversinha mole. Tinha que ser grito, tinha que ser comida voando, tinha que ser mulher bonita dançando. O bacalhau não era só um peixe, era um remédio para a humilhação da fome. A buzina era a quebra do silêncio da rotina. Eu não abandonei a medicina; eu a expandi. O meu consultório virou o Maracanãzinho. A minha receita não tinha carimbo, tinha música. Eu entendi que, se eu fizesse aquele povo rir e esquecer a dureza da vida por duas horas, eu estava salvando mais gente do que muito cirurgião de renome. Eu virei o psiquiatra do povo, e a minha terapia era a loucura coletiva.

 

SuperPauta: Mas antes de diagnosticar o Brasil, você precisou convencer alguém a lhe dar voz. Como um estudante de medicina que tocava bateria conseguiu entrar no estúdio? E como era esse primeiro programa, numa rádio pequena de Niterói, antes de existirem as Chacretes e o luxo da TV?

Chacrinha: (Ele ri, batucando os dedos no braço da poltrona) Eu não entrei pela porta da frente, meu filho, eu entrei pelo ritmo. Eu era ritmista do "Bando Acadêmico", tocava surdo e bateria. A música foi meu passaporte. Fui bater na Rádio Clube de Niterói. Eu não tinha voz de locutor, aquelas vozes aveludadas da época, tipo César de Alencar. Eu tinha voz rachada, era gago, era confuso. Mas aconteceu o imprevisto, que é o deus do rádio. Precisavam de alguém para tocar músicas de Carnaval o dia inteiro, uma coisa exaustiva. Eu disse: "Eu faço!". O programa se chamava Rei Momo na Chacrinha. Era um caos! Eu botava as marchinhas, falava por cima, errava o nome do disco... Mas tinha vida! Eu percebi que a minha confusão combinava com o Carnaval. O "Chacrinha" nasceu ali, no meio da poeira de Niterói, tocando Lamartine Babo e aprendendo que, no rádio, se você não tem a voz perfeita, você tem que ter a temperatura mais alta.

 

SuperPauta: Você tocou num ponto crucial: a sua voz não era "padrão" e a gagueira era real. Dizem que ela recuava diante do microfone. O rádio foi seu remédio, seu esconderijo ou sua vingança contra a língua travada?

Chacrinha: Foi libertação com juros. O gago pensa mais rápido do que fala. A palavra trava no engarrafamento da boca, mas a mente está voando lá na frente. O microfone me deu uma vantagem: ele não ria de mim, ele me ampliava. O rádio me ensinou uma malandragem honesta: defeito bem usado vira estilo. Se eu tropeçasse numa palavra, eu fazia da queda uma pirueta. Se eu gaguejasse, eu transformava em ritmo, repetia a sílaba até virar música, virar bordão. E teve vingança sim, claro que teve. Porque, de repente, quem mandava no tempo era eu. Eu que interrompia. Eu que acelerava. A buzina nasceu também disso: eu não ia ficar prisioneiro de palavra travada. Eu arrumei um som que não engarrafa. O rádio me deu a coragem de ser ridículo sem pedir perdão. E o ridículo, meu filho, é uma ponte. O perfeito é uma parede.

 

SuperPauta: Você falou sobre a coragem de ser ridículo. Mas seu pai, o "Seu" Aurélio, não queria um filho ridículo; ele queria um filho "sério", um doutor de anel no dedo. Quando foi que você entendeu que o "sério", no Brasil, às vezes é só uma fantasia bem passada para esconder a mediocridade?

Chacrinha: (Ele suspira, e a expressão endurece um pouco) Foi cedo e foi doloroso. O Brasil é o país onde a gravata enforca a honestidade e o nariz vermelho salva o domingo. Eu vi isso na pele. Meu pai queria status, e eu entendo ele... Naquela época, ter um filho doutor era o troféu da família. Mas eu comecei a observar os "homens sérios" do Rio de Janeiro. Eu via político de terno branco, via banqueiro, via gente da alta sociedade... todos muito sérios, muito compostos, mas fazendo barbaridades de cara limpa, com carimbo e assinatura. Eu percebi que a seriedade é o disfarce perfeito para a maldade. O sujeito sério mente e ninguém desconfia. Já o palhaço... ah, o palhaço não tem como mentir. Se o palhaço não for verdadeiro, ninguém ri. Eu vi muito palhaço de circo mambembe ter uma dignidade que não cabe num cartório. Então eu fiz uma escolha moral: eu preferi ser o palhaço que joga a verdade na cara do povo, mesmo que suja de farinha, do que ser o doutor que esconde a mentira na gaveta. E repito a frase, porque ela é minha defesa e meu escudo: o maior elogio é me chamar de palhaço. O palhaço é o único que pode dizer a verdade rindo e ser aplaudido por isso. O "homem sério" costuma mentir sem rir, e isso, meu filho, é perigosíssimo.

 

SuperPauta: Você mencionou o "Bando Acadêmico" e sua origem como ritmista. Muita gente acha que o Chacrinha era apenas esculhambação, mas havia uma cadência ali. A experiência com a bateria ditou o seu tempo de televisão?

Chacrinha: Ditou absolutamente tudo. Televisão não é imagem, televisão é tempo. É timing. Se você perde o tempo, a piada morre, o calouro afunda, o povo troca de canal. Eu não dirigia o programa como um diretor de teatro, eu regia o auditório como um mestre de bateria na avenida. A minha comunicação era percussiva. Eu sentia o pulso da plateia. Se o ritmo caía, eu entrava com o surdo: a buzina! A buzina não era só barulho, era marcação de compasso: "Acorda!", "Anda!", "Chega!". Era feita para mexer no corpo antes de convencer a cabeça. O domingo à tarde não é horário de seminário, é horário de feijoada e samba. Domingo é pulso. Quem tentou fazer TV sem entender de ritmo, "se trumbicou". Eu transformei o caos em uma sinfonia popular.

 

SuperPauta: E já que falamos de ritmo e da origem do nome no "Rei Momo", podemos dizer que o Carnaval é mais que uma festa para você? Ele é a sua certidão de nascimento espiritual?

Chacrinha: É certidão, batismo e extrema-unção! Porque o Carnaval é o único momento em que o Brasil para de fingir. Durante quatro dias, a hierarquia social derrete. O pobre vira rei, a doméstica vira imperatriz, e o doutor vira mulher. Ali, na rua, o povo vira protagonista. É paixão e improviso, exatamente igual ao meu programa. Eu comecei fazendo barulho pro Rei Momo e entendi que a alegria não é alienação, não é "falta de assunto". Alegria é assunto grande! Alegria é resistência num país que gosta de entristecer o pobre, de humilhar quem ganha pouco. Sem o Carnaval, eu podia ter virado aquele médico ranzinza receitando aspirina. Com o Carnaval, eu virei um médico do riso, receitando confete. O Carnaval me ensinou que a vida é uma fantasia breve, e se você não sambar agora, a bateria para e a Quarta-Feira de Cinzas te pega de calças curtas.

 

SuperPauta: Um ano antes de sua partida, a Imperatriz Leopoldinense transformou sua vida em enredo na Sapucaí. Quando você subiu naquele carro alegórico, já debilitado, ouvindo a multidão cantar "Quem não se comunica, se trumbica", você sentiu que o círculo se fechou?

Chacrinha: (Os olhos ficam marejados por trás das lentes grossas e ele respira fundo, como se puxasse o ar daquela noite) Foi a glória máxima e o susto final, meu filho. Eu já estava cansado, o corpo doía, os médicos ficavam em cima... Mas quando eu entrei na Avenida, a dor sumiu. Ver aquele mar de gente, as arquibancadas tremendo, todo mundo virando criança... foi uma transfusão de sangue. Ali eu entendi que eu não era mais o Abelardo Barbosa, CPF tal. Eu tinha virado uma entidade, feito um Exu da alegria, um santo pagão. Aquele desfile foi o Brasil me dizendo: "Obrigado pela bagunça". Eu me senti devolvido ao povo. Foi o único momento em que eu achei que podia morrer em paz, porque eu vi, com meus próprios olhos, que eu já tinha virado purpurina na memória do país. O círculo não só fechou; ele virou infinito.

 

SuperPauta: E para quem viveu mergulhado nessa festa eterna, o que é mais doloroso: o fim do programa de domingo à noite ou o silêncio da Quarta-Feira de Cinzas?

Chacrinha: A Quarta-Feira, sem dúvida nenhuma. Porque o domingo volta na semana que vem. A vida, a gente não sabe. A Quarta-Feira de Cinzas é cruel. Ela te joga no chão, mostra o confete sujo na sarjeta, o gari varrendo a ilusão, a cidade vestindo a roupa cinza da burocracia e da dívida de novo. Pra quem vive de algazarra e cor, esse silêncio pós-festa dói fisicamente. É um luto coletivo. O brasileiro olha no espelho e vê que a fantasia de rei acabou e ele voltou a ser súdito. É por isso que eu gritava tanto, meu filho. Eu gritava, buzinava e jogava comida para impedir que a Quarta-Feira chegasse antes da hora. O meu programa era uma tentativa desesperada de fazer o Carnaval durar o ano inteiro.

 

SuperPauta: Muita gente via aquela bagunça e achava que era puro improviso. O que você chamava de “controle” num palco que parecia sempre prestes a explodir ou desabar?

Chacrinha: (Ele sorri, um sorriso de quem conhece o truque da mágica) O que eu tinha era o controle absoluto da anarquia. O caos era o produto final para quem estava jantando em casa. Para mim, ali dentro, era um jogo de xadrez em alta velocidade. Eu sabia exatamente onde estava cada câmera — e olha que eu brigava com os cameramen o tempo todo! Eu sabia onde a chacrete pisava, onde o jurado olhava, onde estava o tempo morto que precisava ser assassinado. Se eu parasse de reger por dez segundos, o programa virava enterro. E eu não nasci para fazer velório, nasci para fazer carnaval. Eu era um general disfarçado de louco. Por que o louco? Porque o louco assusta, desconcerta, quebra o gelo. E por que o general? Porque alguém tinha que comandar aquela tropa de desajustados. Eu juntava os dois: a disciplina militar do horário com a libertinagem do circo. Eu olhava para o Boni ou para os diretores na cabine e pensava: "Vocês acham que mandam, mas quem segura esse touro à unha sou eu".

 

SuperPauta: A buzina se tornou uma extensão do seu braço. Ela era apenas um instrumento de barulho ou era sua ilha de edição em tempo real?

Chacrinha: A buzina era a minha guilhotina sonora. Era corte seco, era vírgula, era ponto de exclamação e ponto final. Hoje, a televisão é editada em computador, tudo limpinho, asséptico. Eu fazia a edição na mão, no grito! A buzina tinha vocabulário próprio. Um toque curto: "Atenção!". Um toque longo: "Tá chato, sai!". Vários toques: "Bagunça generalizada!". E o povo entendia na hora. Eu não precisava explicar. A comunicação popular tem que bater como martelo: pau! Se você enrola, o sujeito muda de canal. Quem não se comunica — rápido e direto — se trumbica. A buzina também me protegia, sabe? Quando a gagueira queria vir, ou quando me faltava o ar, a buzina falava por mim. Ela era o grito que a minha garganta às vezes não conseguia dar.

 

SuperPauta: Você fala da buzina como edição ao vivo. Mas teve um “corte” ainda mais radical: o dia em que você pegou um bacalhau e transformou o auditório num ringue. Aquilo foi só palhaçada ou foi estratégia consciente de comunicação?

Chacrinha: Foi estratégia, meu filho. Estratégia com cheiro de mercado e barulho de plateia. Um amigo meu, Venâncio, estava com um caminhão de bacalhau encalhado. Me ligou aflito: “Chacrinha, me ajuda, senão isso aí vai ficar parado até criar teia de aranha”. Aí eu pedi: “Manda umas peças pra cá”. No programa, eu levantei aquela posta enorme como se fosse troféu e gritei: “Vocês querem bacalhau?”. O auditório respondeu como se eu tivesse prometido a salvação: “Queremos!”. Eu anunciei a promoção e atirei a posta pra plateia. Pronto: o estúdio virou Copa do Mundo, todo mundo queria garantir o domingo da Páscoa. No dia seguinte só se falava nisso. Teve quem achasse um horror, teve quem morresse de rir… e o Venâncio? Ele quase precisou de massagem no rosto de tanto sorrir: em dois dias não sobrou bacalhau nenhum. E vou deixar claro, porque os finos sempre entendem errado: quando eu jogo bacalhau, eu não estou chamando ninguém de faminto, nem rebaixando ninguém. Eu estou dizendo: “acorda!”. É alegria. É participação. O povo não quer só o bacalhau: quer o barulho de estar dentro do acontecimento.

 

SuperPauta: E nos bastidores com artistas, teve algum momento em que até o “Velho Guerreiro” quase perdeu o controle do roteiro… de tanto achar graça?

Chacrinha: Teve, e foi delicioso. Eu inventei um troço chamado “O Cantor Mascarado”. A ideia era simples: entrava um sujeito mascarado no palco, cantava, e o público tentava adivinhar quem era. Um dia apareceu um mascarado cantando “Meu Bem do Mar” e a plateia começou a gritar um nome atrás do outro. Teve gente jurando que era João Gilberto, até que eu puxei o mistério pelo colarinho e revelei: era Roberto Carlos. Aquele tipo de surpresa que faz o auditório virar escola em dia de recreio. E olha que isso não era só brincadeira: era engenharia de atenção. Você bota mistério, você acende a curiosidade, você dá ao povo o prazer de participar. O público quer acertar, quer gritar, quer pertencer. E eu sempre tratei audiência como bateria de escola de samba: se a bateria entra, meu filho, ninguém fica parado.

 

SuperPauta: Abelardo, por trás do riso tinha método e às vezes tinha faca também. Quando o abacaxi voava, era só comédia ou tinha ali uma dose de humilhação calculada? O “Troféu Abacaxi” virou folclore. Ele era um prêmio de consolação ou uma lição de moral?

Chacrinha: (Ele não ri. Só aperta a buzina com a mão, como quem segura um martelo) Era lição… e era castigo também. Vou falar a verdade que ninguém gosta: eu humilhei gente, sim. Humilhei ao vivo. Às vezes o sujeito não merecia o abacaxi, merecia um abraço e um copo d’água. Mas eu estava vendendo espetáculo numa máquina que não tem paciência com delicadeza. A televisão não é mãe. A televisão é bilheteria. Eu olhava o calouro e fazia um cálculo frio: “Esse aguenta apanhar e volta mais forte? Ou esse vai quebrar?” Quando eu percebia que era frágil demais, eu tentava cortar rápido, porque prolongar o vexame é crueldade maior. Mas quando o sujeito vinha com soberba, querendo pisar no auditório, aí eu virava carrasco com gosto. Eu jogava o abacaxi para arrancar o rei falso de cima do palco. E aqui vai outra coisa feia: eu sabia que o público ria do tombo. Eu também ria, às vezes. Porque riso é selvagem. O povo não quer só talento, quer catarse. Quer ver alguém cair para esquecer a própria queda. Se isso te parece injusto, bem-vindo ao mundo real. Eu só escancarava a injustiça e botava confete em cima dela, pra ficar suportável. Era bonito? Nem sempre. Era verdadeiro? Quase sempre.


SuperPauta: Você foi o alvo preferido dos críticos e dos intelectuais, que te acusavam de promover o “baixo nível”. Hoje, com o distanciamento do tempo, o que é “nível” para você?

Chacrinha: (Ele se ajeita na poltrona, visivelmente irritado, batendo a mão no joelho) "Nível" é conversa de quem tem a geladeira cheia e ar-condicionado no escritório. Eles diziam que eu fazia "baixo nível" porque eu mostrava o povo como ele é: sem dente, suado, falando errado, vestido com roupa barata. Para a elite, a pobreza é ofensiva. Eles queriam uma TV de terno e gravata, falando difícil. Para mim, baixo nível é roubar o povo. Baixo nível é político que promete hospital e entrega cova rasa. Baixo nível é humilhar o porteiro e depois posar de santo na missa. Eu mostrava o Brasil banguela, mas vivo! Eu dava palco para quem era invisível. Eles diziam que eu explorava a miséria; eu digo que eu celebrava a existência daquelas pessoas. Quem chamava meu programa de lixo, na verdade, tinha nojo do cheiro do povo. Eles só gostam do povo quando o povo está quieto e servindo. Eu fazia o contrário: eu fazia o povo gritar, jogar comida e ser feliz na cara da sociedade.

 

SuperPauta: As Chacretes — de Rita Cadillac a Índia Potira — marcaram época. Elas eram dança, vitrine ou uma provocação ao moralismo da ditadura? E aquela expressão, “boazuda”, como você a vê hoje?

Chacrinha: As Chacretes eram a rua invadindo a sala de estar da família brasileira. O Brasil sempre foi esse país esquizofrênico: moralista na fachada e curioso por trás da cortina. Eu só tive a coragem de puxar a cortina e dizer: "Olha, o desejo existe, o corpo existe". Quando eu falava "boazuda", eu não estava falando só de corpo. Eu falava de saúde, de energia, de borogodó. A chacrete não podia ser aquelas modelos de passarela, magrinhas, tristes. Tinha que ter coxa, tinha que ter sorriso, tinha que ter sangue! Não era laboratório, era palco. Era carisma. Era a coragem de encarar a câmera de maiô e não pedir desculpa por existir. Hoje, o mundo discute isso com muito mais cuidado, fala em objetificação, e tem toda razão em evoluir. O respeito tem que vir em primeiro lugar. Mas o meu tempo era outro, era um tempo de repressão, onde um corpo livre dançando era quase um ato político. Eu refletia a rua. E a rua, meu filho, não fala fino, a rua é crua. As minhas meninas eram rainhas naquele palco, e ai de quem mexesse com elas nos bastidores. O Velho Guerreiro virava bicho para defendê-las.

 

SuperPauta: Você escolhia suas assistentes, as Chacretes, pelo corpo escultural ou pela coragem de sustentar o olhar do Brasil?

Chacrinha: (Ele faz um gesto de quem busca algo no ar) Eu escolhia pela eletricidade, meu filho. Pela luz. Mulher bonita o Rio de Janeiro tem aos montes, em cada esquina de Copacabana tem uma miss. Agora, a mulher que acende quando a luz vermelha da câmera liga... ah, isso é raro. A televisão é um bicho que come gente tímida. A Chacrete tinha que ter o corpo, claro, porque era o que o povo queria ver, mas tinha que ter o "imã". Ela tinha que olhar para a lente e atravessar a tela, entrar na casa do sujeito e dizer: "Eu sou a alegria". Se fosse só bonita, mas fria, não servia. Tinha que ter sangue quente, tinha que saber rir, tinha que ter a malandragem de desviar de um abacaxi voando e continuar dançando. A TV vive do raro, do magnetismo. Eu era o caçador dessas raridades.

 

SuperPauta: Vou tirar o confete do assunto por um instante: quando a luz do estúdio apagava, quem é que sobrava dentro do terno branco, o Velho Guerreiro ou um homem com culpa no bolso? Você disse certa vez que o programa vinha antes de tudo, até da sua família. Esse foi o preço mais alto que você pagou pela coroa de Rei da TV?

Chacrinha: (A alegria some. Ele olha para o confete no chão como se fosse cinza) Foi. E eu não vou romantizar, porque romantizar é outra forma de mentir. Eu fui injusto com a minha casa. Eu escolhi o palco. Eu escolhi o aplauso. Eu escolhi ser necessário para um país inteiro e, ao mesmo tempo, ser ausente para os meus. E tem uma parte que pega mal, mas eu vou dizer: eu usei a minha própria família como “bastidor” do mito. Eu deixava a imprensa inventar, eu alimentava maledicência, eu segurava desmentido porque isso aumentava audiência. Eu transformei silêncio doméstico em combustível público. Eu não traía todo dia como as revistas diziam, mas eu traía de um jeito pior: eu traía com a prioridade. Quando o programa precisava, a vida em casa virava figurante. Agora, também vou te jogar uma verdade indigesta: eu não era só vítima do sistema, não. Eu gostava do poder. Gostava de entrar no estúdio e ver todo mundo se dobrar ao meu timing. Gostava de saber que, se eu buzinasse, o Brasil inteiro reagia. É uma droga. Vicia. E quem diz que não vicia está mentindo ou nunca teve aquilo. Quando o meu filho sofreu o acidente e ficou tetraplégico, aí o palhaço pagou o preço sem maquiagem. Ali eu vi que a buzina não cura tudo. Eu continuei indo ao ar porque eu não sabia ser outra coisa… e porque eu tinha medo do dia em que o Brasil desligasse a TV e eu tivesse que encarar o Abelardo, nu, sem plateia. Esse é o meu pecado e minha sentença: eu fui gigante no domingo e pequeno na terça-feira.

 

SuperPauta: Você conviveu com problemas de saúde graves, infartos, cirurgias. Como era a sensação de ter que fazer o país rir sentindo medo da morte nos bastidores?

Chacrinha: O medo me dava pressa. Quando você sabe que o tempo está acabando, você não desperdiça um segundo de alegria. Eu tive problemas no coração, no pulmão... Às vezes eu entrava no palco com falta de ar, com a perna inchada. Mas eu pensava: "O povo tá esperando. A dona Maria lá no interior do Ceará tá esperando". A doença era o meu segredo; a alegria era a minha obrigação cívica. O palco virou a minha UTI. Eu só me sentia imortal, saudável e jovem quando a câmera acendia. Ali, o coração batia no ritmo da bateria e a dor sumia. Fora dali, no camarim, eu era um homem velho, cheio de remédios, com medo de dormir e não acordar. Eu escondia o pavor da morte em forma de festa. O confete era o meu disfarce.

 

SuperPauta: Existe um "Chacrinha" que o Brasil nunca viu e que talvez explicasse tudo isso?

Chacrinha: Existe o Abelardo silencioso. Esse ninguém quis comprar. É o homem que chegava no quarto do hotel ou em casa, tirava a peruca suada, tirava os óculos pesados, sentava na beira da cama e ficava olhando para o nada, tentando desligar o barulho da própria cabeça. Esse Abelardo era melancólico, preocupado com as contas, com os filhos, com o futuro do Brasil. Ele não tinha respostas rápidas, ele não tinha buzina. Ele tinha dúvidas. Mas esse homem não virou personagem, porque dúvida não dá Ibope. O Brasil queria certeza e gritaria. O Abelardo silencioso existiu, sim. E, no fim das contas, foi ele quem pagou a conta do corpo quebrado para que o Chacrinha pudesse pular.

 

SuperPauta: Abelardo, você deixou o palco há décadas, e desde então muitos tentaram ocupar o trono. Você vê algum sucessor legítimo nas tardes de sábado e domingo? E o que você acha dessa TV atual, onde o apresentador chora mais que o convidado para dar audiência?

Chacrinha: (Ele solta uma gargalhada rouca, balançando a cabeça) Sucessor? Meu filho, não existe sucessor para o caos. O Chacrinha era um acidente geográfico, uma erupção. O que eu vejo hoje são meninos talentosos, sim. Tem gente com ritmo, mas o sistema engessou tudo. O que me irrita profundamente é essa mania de transformar o palco em muro das lamentações. O domingo virou um velório com intervalo comercial. É gente chorando, é história triste, é a exploração da miséria para vender refrigerante. Eu jogava bacalhau, jogava farinha, dava geladeira, mas era uma festa! Eu não fazia o pobre chorar para ganhar o prêmio; eu fazia o pobre pular! A caridade na TV hoje é triste, é humilhante. No meu tempo, o povo ia para o auditório para esquecer a fome, não para ser lembrado dela em close-up. Falta anarquia e sobra roteiro. Ninguém substitui o Chacrinha porque ninguém mais tem coragem de ser politicamente incorreto e amoroso ao mesmo tempo.

 

SuperPauta: Mas teve vez em que nem a buzina dava conta e a edição precisou salvar o programa?

Chacrinha: Teve, e foi uma daquelas horas em que a televisão mostra os dentes. Eu gostava de brincar, eu gostava de testar o nervo do palco, mas tem artista que é um trovão engarrafado. O Tim Maia era isso. Teve um dia que mandaram fazer uma pegadinha, dessas de bastidor, encostar nele por trás no meio da música. Meu filho, o Tim virou uma tempestade. Parou tudo. Largou o palco no ato, indignado, falando alto, muito alto, e com razão: ninguém gosta de ser surpreendido assim diante do Brasil inteiro. Aí você vê a diferença entre a bagunça controlada e o caos de verdade: na bagunça, eu mando. No caos, o programa corre para o comercial como quem corre para se esconder da chuva. E eu ainda tive que voltar e “costurar” para a plateia, inventar uma saída elegante, dizer que ele passou mal e precisou ir embora. Semana depois, ele voltou, e eu tratei como se nada tivesse acontecido, porque televisão é isso também: um circo que apaga o incêndio sorrindo. E o Tim ainda tinha um pedido que eu respeitava: falar o nome da mãe dele no ar. Aí eu falava. Porque, no fim, todo trovão tem um colo.

 

SuperPauta: Sua frase “Na TV nada se cria, tudo se copia” atravessou gerações. Na era do TikTok e dos virais instantâneos, isso virou profecia ou maldição?

Chacrinha: Virou a Constituição Federal da internet! Hoje é a cópia da cópia da cópia, e o pior: sem a fonte original. Tem gente dançando, fazendo graça, pedindo atenção desesperadamente, exatamente como os meus calouros faziam. Só que falta o principal: o cheiro de gente. O TikTok é um Cassino do Chacrinha asséptico, onde cada um dança sozinho no seu quarto, olhando para o próprio reflexo no espelho negro do celular. É um Carnaval sem rua, sem esbarrão, sem suor misturado. É barulho sem abraço. E isso me dá uma tristeza danada, porque a tecnologia aproximou a imagem, mas afastou o calor. O povo precisa de povo, não de like. O like não enche barriga nem abraça ninguém.

 

SuperPauta: Se você tivesse um canal no YouTube hoje, faria mais caos ou tentaria conversar civilizadamente?

Chacrinha: Eu faria o caos ao vivo, porque o ao vivo é a única verdade que sobrou! Eu ia buzinar o tédio do algoritmo! Eu ia jogar "bacalhau digital" na cara dos hipócritas e cortar discurso enrolado de político e influenciador com a buzina no talo. O meio muda — rádio, TV, internet, holograma — mas a fome do ser humano é a mesma desde a idade da pedra: fome de ser visto, fome de ser amado, fome de rir para não desabar. Eu só mudaria para melhorar, como sempre fiz: trocaria a fantasia, adaptaria a gíria, mas manteria o coração batendo alto. Eu ia provar que dá para ter milhões de seguidores sem perder a alma.

 

SuperPauta: Para encerrar este nosso encontro impossível: que mensagem o Velho Guerreiro deixa para quem tenta se comunicar e sobreviver nesse mundo barulhento de hoje?

Chacrinha: (Ele se levanta devagar, ajeita o terno branco, mas pega a buzina com a firmeza de um general empunhando uma espada. Ele olha fixamente nos meus olhos, e por um segundo, vejo o brilho do menino de Surubim) Não tenha medo de ser ridículo. O ridículo aproxima as pessoas. O perfeito afasta, cria inveja. Se comunique com a alma, não com o algoritmo. Fale a língua que o seu coração grita, não a que a moda pede. A vida é curta demais para ser sério o tempo todo. E se alguém reclamar, se a patrulha do "bom gosto" vier te encher a paciência... (Ele ergue a buzina acima da cabeça) FON-FON! Manda um abacaxi bem grande pra eles! Porque, meu filho, no fim das contas, o Brasil é isso: um povo que só não morre de tristeza porque aprendeu a rir na beira do abismo. (Ele sorri, dá as costas e caminha para a névoa do fundo do estúdio, gritando para o vazio: "Alô, alô, Teresinha! Aquele abraço!")