quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis

 Encontros Impossíveis

 

O Silêncio da Buzina


Neste encontro impossível, despimos a fantasia do Velho Guerreiro para revelar o Dr. Abelardo: o homem que trocou a medicina pela cura através do riso.

 

"O maior elogio que podem me fazer é me chamar de palhaço. O palhaço é o único que pode dizer a verdade rindo." Abelardo Barbosa (Chacrinha)

 

 

O ambiente não possui paredes definidas; é uma vastidão nebulosa que lembra os galpões abafados da TV Tupi ou o Teatro Fênix, mas suspensos no tempo. O chão está coberto por uma camada fina de confete prateado e serpentinas que parecem nunca perder o brilho. Há um cheiro persistente no ar: uma mistura de éter hospitalar, talco de camarim, bacalhau seco e maresia — o cheiro da vida de Abelardo. No centro, iluminado por um foco de luz âmbar que simula o sol do final de tarde em Pernambuco, repousa uma poltrona de veludo vermelho, gasta pelo uso, com a madeira dos braços polida por mãos nervosas. Nela, Abelardo Barbosa nos espera. Ele não veste o saiote de guerreiro, nem a cartola extravagante, nem carrega o abacaxi de plástico agora. Está vestido com uma sobriedade que desconcerta: um terno de linho branco, impecável, lembrando o médico que a família sonhou e que ele quase se tornou. Mas a essência do "Velho Guerreiro" resiste nos detalhes: uma buzina de latão repousa em seu colo como um animal de estimação fiel, e seus óculos de aros grossos e escuros refletem uma luz que não vem de lugar nenhum, escondendo e revelando olhos que viram o Brasil mudar.

Ele tosse levemente, pigarreia — uma lembrança da hipocondria e do cigarro que o acompanharam — e me encara com uma seriedade profunda, quase acadêmica, muito diferente da anarquia que vendia na TV. A voz é rouca, pausada, pontuada por uma franqueza cortante e uma sabedoria adquirida na dor. Nesta conversa monumental, atravessamos a poeira de Surubim, o balanço do navio a caminho do Rio, a filosofia do "palhaço" como agente social, o amor devoto (e doloroso) ao trabalho e a visão profética sobre a comunicação na era dos algoritmos. Entre confetes e silêncios profundos, Chacrinha também reflete sobre a solidão do agreste, o rigor militar por trás do caos televisivo e o preço doloroso de ter sido o maior comunicador da história do Brasil.

 

 

SuperPauta: Abelardo, antes do estrondo da buzina e das luzes da televisão, havia o silêncio do agreste. Que som da infância em Surubim ainda manda em você quando o estúdio fica escuro e a plateia vai embora?

Chacrinha: (Ele ajeita os óculos devagar, respira fundo como se buscasse o ar de 1920) Não é apenas um som, meu filho, é a ausência dele que me formou. Surubim tem um silêncio que parece castigo, um silêncio vasto que te olha de volta e te desafia a existir. O menino no agreste aprende muito cedo que, se não fizer barulho, ele desaparece. Ele se mistura com a caatinga, com a paisagem seca. E paisagem não tem nome, não tem rosto, não tem voz. O medo de ser esquecido nasceu ali, na quietude. Mas, quando eu fecho os olhos agora, o que eu ouço brigando com esse silêncio é a feira. A feira de Surubim, e depois a de Caruaru. Aquilo era a minha internet. Era a balbúrdia sagrada: o cego cantando repente, o vendedor de pomada gritando a cura milagrosa, a sanfona chorando longe, o grito da galinha, a discussão política na bodega. Aquilo ali era uma televisão sem câmera. Foi fugindo do silêncio que eu aprendi a minha tese central: o barulho é vida. O silêncio, pra mim, sempre pareceu a morte fazendo estágio. Eu decidi que nunca mais deixaria o silêncio ganhar.

 

SuperPauta: Essa fuga do silêncio te levou a uma jornada física também. Pouca gente sabe que sua vinda para o Rio de Janeiro não foi um simples deslocamento, foi uma aventura. Como foi deixar Pernambuco e encarar a "Cidade Maravilhosa" sem nada no bolso?

Chacrinha: (Um sorriso nostálgico e dolorido cruza seu rosto) Foi uma epopeia, meu filho. Eu não vim de avião, com mala de rodinha. Eu vim no convés de um "Ita" — aqueles navios costeiros que paravam em tudo que é porto. Eu tinha 17 anos e uma bateria nas costas. Eu era o ritmista do "Bando Acadêmico". A gente tocava para não pagar a passagem, entende? O balanço do mar se misturava com o ritmo do surdo. Quando o navio atracou na Praça Mauá, o Rio de Janeiro me deu um soco na cara. Era luz demais, gente demais, balbúrdia demais. Eu me senti uma formiga no meio de um formigueiro eletrificado. Eu não tinha dinheiro, dormi em banco de praça, passei fome — fome física mesmo, de doer o estômago. Mas a fome de vencer era maior. Eu olhava para aqueles prédios, para aquela gente elegante na Avenida Rio Branco, e pensava: "Vocês não sabem quem eu sou ainda, mas vocês vão ter que me engolir". A minha mudança não foi geográfica, foi existencial. Eu deixei de ser o menino de Surubim para virar um sobrevivente na metrópole. E o sobrevivente não tem vergonha de nada; ele faz o que for preciso para ser notado.

 

SuperPauta: Você desembarcou com a bateria nas costas, mas se matriculou na Faculdade de Medicina. Como foi essa convivência esquizofrênica entre o jaleco e a baqueta? O rapaz do jazz conseguia se comportar na frieza da aula de anatomia ou o “Dr. Abelardo” já nasceu condenado?

Chacrinha: (Ele ri, um riso seco, balançando a cabeça negativamente) O "Dr. Abelardo" lutou bravamente, mas ele não tinha chance contra o chamado da rua. A convivência não era esquizofrênica, era uma tortura. Eu frequentava a Faculdade de Medicina ali na Praia Vermelha, um prédio imponente, cheio de doutores que falavam baixo e andavam devagar. Mas imagine você: eu entrava na sala de anatomia, sentia aquele cheiro de formol, via aqueles corpos parados, e minha perna começava a tremer no ritmo do fox-trot. Eu olhava para o cadáver na mesa e pensava: "Esse sujeito aqui morreu, acabou o show dele". E eu, com 20 e poucos anos, cheio de vida explodindo, tinha que ficar decorando nome de osso? Não dava. O jaleco me apertava, parecia uma camisa de força. Eu comecei a perceber que a minha "clínica" não era ali. O que acontecia era o seguinte: eu saía da faculdade e, em vez de ir para a biblioteca, eu ia para a Lapa. Eu ia para o Café Nice. Eu fugia para as rádios. Eu me sentia um impostor na medicina. Eu via os colegas fascinados com a doença, e eu era fascinado pela saúde, pela algazarra. Teve um dia que eu percebi que estava segurando o bisturi como se fosse uma baqueta. Ali eu vi que, se eu continuasse, ia matar algum paciente por distração ou por vontade de fazer batucada na mesa de cirurgia. O Rio de Janeiro boêmio me sequestrou da universidade. A medicina exige silêncio e concentração; a minha natureza exige grito e dispersão. O Dr. Abelardo morreu para que o Chacrinha pudesse nascer.

 

SuperPauta: Você começou pela medicina e terminou curando o Brasil com a alegria. Em que momento você percebeu que seu bisturi era a palavra?
Chacrinha: Eu estava no terceiro ano. Via gente falando de bisturi como se fosse destino. E eu respeitava, viu? Medicina é coisa séria. Só que a minha mão não era mão de corte. Minha mão tremia pro bisturi e ficava firme na baqueta. Quando eu pegava um instrumento, parecia que o corpo entendia: “é aqui”. Aí veio a revelação que não cabe em diploma: curar corpo é nobre, mas curar tristeza é milagre. A medicina trata doença. Eu vi que o Brasil tinha outra doença, invisível: o tédio. Um tédio de viver apertado, de domingo vazio, de semana pesada, de humilhação cotidiana. Eu troquei o cheiro de éter pelo cheiro de talco e suor, porque eu queria ver gente respirando de novo, nem que fosse rindo. E vou dizer mais: eu não abandonei a medicina. Eu mudei de consultório. Meu consultório era o auditório. Meu remédio era a gargalhada. Minha anestesia era a buzina. E o meu bisturi era a palavra, curta, direta, popular, que pega no osso e não pede licença.

 

SuperPauta: Você largou a faculdade, mas parece que nunca abandonou a vocação de curar. Se o consultório ficou para trás, qual foi a "doença" que você diagnosticou na alma do brasileiro e decidiu tratar com buzina e bacalhau?

Chacrinha: (Ele franze a testa, sério, como quem lê um prontuário invisível) O diagnóstico foi rápido, meu filho: o brasileiro sofria de "tristeza de domingo" e de invisibilidade crônica. Eu andava pela rua e via o sujeito que pegava três ônibus, comia marmita fria, ganhava uma miséria e, no fim de semana, não tinha para onde ir. A medicina tradicional trata a dor do corpo, mas quem trata a dor de ser esquecido pelo mundo? Eu percebi que o meu "paciente" precisava de um choque anafilático de alegria. Não adiantava vir com conversinha mole. Tinha que ser grito, tinha que ser comida voando, tinha que ser mulher bonita dançando. O bacalhau não era só um peixe, era um remédio para a humilhação da fome. A buzina era a quebra do silêncio da rotina. Eu não abandonei a medicina; eu a expandi. O meu consultório virou o Maracanãzinho. A minha receita não tinha carimbo, tinha música. Eu entendi que, se eu fizesse aquele povo rir e esquecer a dureza da vida por duas horas, eu estava salvando mais gente do que muito cirurgião de renome. Eu virei o psiquiatra do povo, e a minha terapia era a loucura coletiva.

 

SuperPauta: Mas antes de diagnosticar o Brasil, você precisou convencer alguém a lhe dar voz. Como um estudante de medicina que tocava bateria conseguiu entrar no estúdio? E como era esse primeiro programa, numa rádio pequena de Niterói, antes de existirem as Chacretes e o luxo da TV?

Chacrinha: (Ele ri, batucando os dedos no braço da poltrona) Eu não entrei pela porta da frente, meu filho, eu entrei pelo ritmo. Eu era ritmista do "Bando Acadêmico", tocava surdo e bateria. A música foi meu passaporte. Fui bater na Rádio Clube de Niterói. Eu não tinha voz de locutor, aquelas vozes aveludadas da época, tipo César de Alencar. Eu tinha voz rachada, era gago, era confuso. Mas aconteceu o imprevisto, que é o deus do rádio. Precisavam de alguém para tocar músicas de Carnaval o dia inteiro, uma coisa exaustiva. Eu disse: "Eu faço!". O programa se chamava Rei Momo na Chacrinha. Era um caos! Eu botava as marchinhas, falava por cima, errava o nome do disco... Mas tinha vida! Eu percebi que a minha confusão combinava com o Carnaval. O "Chacrinha" nasceu ali, no meio da poeira de Niterói, tocando Lamartine Babo e aprendendo que, no rádio, se você não tem a voz perfeita, você tem que ter a temperatura mais alta.

 

SuperPauta: Você tocou num ponto crucial: a sua voz não era "padrão" e a gagueira era real. Dizem que ela recuava diante do microfone. O rádio foi seu remédio, seu esconderijo ou sua vingança contra a língua travada?

Chacrinha: Foi libertação com juros. O gago pensa mais rápido do que fala. A palavra trava no engarrafamento da boca, mas a mente está voando lá na frente. O microfone me deu uma vantagem: ele não ria de mim, ele me ampliava. O rádio me ensinou uma malandragem honesta: defeito bem usado vira estilo. Se eu tropeçasse numa palavra, eu fazia da queda uma pirueta. Se eu gaguejasse, eu transformava em ritmo, repetia a sílaba até virar música, virar bordão. E teve vingança sim, claro que teve. Porque, de repente, quem mandava no tempo era eu. Eu que interrompia. Eu que acelerava. A buzina nasceu também disso: eu não ia ficar prisioneiro de palavra travada. Eu arrumei um som que não engarrafa. O rádio me deu a coragem de ser ridículo sem pedir perdão. E o ridículo, meu filho, é uma ponte. O perfeito é uma parede.

 

SuperPauta: Você falou sobre a coragem de ser ridículo. Mas seu pai, o "Seu" Aurélio, não queria um filho ridículo; ele queria um filho "sério", um doutor de anel no dedo. Quando foi que você entendeu que o "sério", no Brasil, às vezes é só uma fantasia bem passada para esconder a mediocridade?

Chacrinha: (Ele suspira, e a expressão endurece um pouco) Foi cedo e foi doloroso. O Brasil é o país onde a gravata enforca a honestidade e o nariz vermelho salva o domingo. Eu vi isso na pele. Meu pai queria status, e eu entendo ele... Naquela época, ter um filho doutor era o troféu da família. Mas eu comecei a observar os "homens sérios" do Rio de Janeiro. Eu via político de terno branco, via banqueiro, via gente da alta sociedade... todos muito sérios, muito compostos, mas fazendo barbaridades de cara limpa, com carimbo e assinatura. Eu percebi que a seriedade é o disfarce perfeito para a maldade. O sujeito sério mente e ninguém desconfia. Já o palhaço... ah, o palhaço não tem como mentir. Se o palhaço não for verdadeiro, ninguém ri. Eu vi muito palhaço de circo mambembe ter uma dignidade que não cabe num cartório. Então eu fiz uma escolha moral: eu preferi ser o palhaço que joga a verdade na cara do povo, mesmo que suja de farinha, do que ser o doutor que esconde a mentira na gaveta. E repito a frase, porque ela é minha defesa e meu escudo: o maior elogio é me chamar de palhaço. O palhaço é o único que pode dizer a verdade rindo e ser aplaudido por isso. O "homem sério" costuma mentir sem rir, e isso, meu filho, é perigosíssimo.

 

SuperPauta: Você mencionou o "Bando Acadêmico" e sua origem como ritmista. Muita gente acha que o Chacrinha era apenas esculhambação, mas havia uma cadência ali. A experiência com a bateria ditou o seu tempo de televisão?

Chacrinha: Ditou absolutamente tudo. Televisão não é imagem, televisão é tempo. É timing. Se você perde o tempo, a piada morre, o calouro afunda, o povo troca de canal. Eu não dirigia o programa como um diretor de teatro, eu regia o auditório como um mestre de bateria na avenida. A minha comunicação era percussiva. Eu sentia o pulso da plateia. Se o ritmo caía, eu entrava com o surdo: a buzina! A buzina não era só barulho, era marcação de compasso: "Acorda!", "Anda!", "Chega!". Era feita para mexer no corpo antes de convencer a cabeça. O domingo à tarde não é horário de seminário, é horário de feijoada e samba. Domingo é pulso. Quem tentou fazer TV sem entender de ritmo, "se trumbicou". Eu transformei o caos em uma sinfonia popular.

 

SuperPauta: E já que falamos de ritmo e da origem do nome no "Rei Momo", podemos dizer que o Carnaval é mais que uma festa para você? Ele é a sua certidão de nascimento espiritual?

Chacrinha: É certidão, batismo e extrema-unção! Porque o Carnaval é o único momento em que o Brasil para de fingir. Durante quatro dias, a hierarquia social derrete. O pobre vira rei, a doméstica vira imperatriz, e o doutor vira mulher. Ali, na rua, o povo vira protagonista. É paixão e improviso, exatamente igual ao meu programa. Eu comecei fazendo barulho pro Rei Momo e entendi que a alegria não é alienação, não é "falta de assunto". Alegria é assunto grande! Alegria é resistência num país que gosta de entristecer o pobre, de humilhar quem ganha pouco. Sem o Carnaval, eu podia ter virado aquele médico ranzinza receitando aspirina. Com o Carnaval, eu virei um médico do riso, receitando confete. O Carnaval me ensinou que a vida é uma fantasia breve, e se você não sambar agora, a bateria para e a Quarta-Feira de Cinzas te pega de calças curtas.

 

SuperPauta: Um ano antes de sua partida, a Imperatriz Leopoldinense transformou sua vida em enredo na Sapucaí. Quando você subiu naquele carro alegórico, já debilitado, ouvindo a multidão cantar "Quem não se comunica, se trumbica", você sentiu que o círculo se fechou?

Chacrinha: (Os olhos ficam marejados por trás das lentes grossas e ele respira fundo, como se puxasse o ar daquela noite) Foi a glória máxima e o susto final, meu filho. Eu já estava cansado, o corpo doía, os médicos ficavam em cima... Mas quando eu entrei na Avenida, a dor sumiu. Ver aquele mar de gente, as arquibancadas tremendo, todo mundo virando criança... foi uma transfusão de sangue. Ali eu entendi que eu não era mais o Abelardo Barbosa, CPF tal. Eu tinha virado uma entidade, feito um Exu da alegria, um santo pagão. Aquele desfile foi o Brasil me dizendo: "Obrigado pela bagunça". Eu me senti devolvido ao povo. Foi o único momento em que eu achei que podia morrer em paz, porque eu vi, com meus próprios olhos, que eu já tinha virado purpurina na memória do país. O círculo não só fechou; ele virou infinito.

 

SuperPauta: E para quem viveu mergulhado nessa festa eterna, o que é mais doloroso: o fim do programa de domingo à noite ou o silêncio da Quarta-Feira de Cinzas?

Chacrinha: A Quarta-Feira, sem dúvida nenhuma. Porque o domingo volta na semana que vem. A vida, a gente não sabe. A Quarta-Feira de Cinzas é cruel. Ela te joga no chão, mostra o confete sujo na sarjeta, o gari varrendo a ilusão, a cidade vestindo a roupa cinza da burocracia e da dívida de novo. Pra quem vive de algazarra e cor, esse silêncio pós-festa dói fisicamente. É um luto coletivo. O brasileiro olha no espelho e vê que a fantasia de rei acabou e ele voltou a ser súdito. É por isso que eu gritava tanto, meu filho. Eu gritava, buzinava e jogava comida para impedir que a Quarta-Feira chegasse antes da hora. O meu programa era uma tentativa desesperada de fazer o Carnaval durar o ano inteiro.

 

SuperPauta: Muita gente via aquela bagunça e achava que era puro improviso. O que você chamava de “controle” num palco que parecia sempre prestes a explodir ou desabar?

Chacrinha: (Ele sorri, um sorriso de quem conhece o truque da mágica) O que eu tinha era o controle absoluto da anarquia. O caos era o produto final para quem estava jantando em casa. Para mim, ali dentro, era um jogo de xadrez em alta velocidade. Eu sabia exatamente onde estava cada câmera — e olha que eu brigava com os cameramen o tempo todo! Eu sabia onde a chacrete pisava, onde o jurado olhava, onde estava o tempo morto que precisava ser assassinado. Se eu parasse de reger por dez segundos, o programa virava enterro. E eu não nasci para fazer velório, nasci para fazer carnaval. Eu era um general disfarçado de louco. Por que o louco? Porque o louco assusta, desconcerta, quebra o gelo. E por que o general? Porque alguém tinha que comandar aquela tropa de desajustados. Eu juntava os dois: a disciplina militar do horário com a libertinagem do circo. Eu olhava para o Boni ou para os diretores na cabine e pensava: "Vocês acham que mandam, mas quem segura esse touro à unha sou eu".

 

SuperPauta: A buzina se tornou uma extensão do seu braço. Ela era apenas um instrumento de barulho ou era sua ilha de edição em tempo real?

Chacrinha: A buzina era a minha guilhotina sonora. Era corte seco, era vírgula, era ponto de exclamação e ponto final. Hoje, a televisão é editada em computador, tudo limpinho, asséptico. Eu fazia a edição na mão, no grito! A buzina tinha vocabulário próprio. Um toque curto: "Atenção!". Um toque longo: "Tá chato, sai!". Vários toques: "Bagunça generalizada!". E o povo entendia na hora. Eu não precisava explicar. A comunicação popular tem que bater como martelo: pau! Se você enrola, o sujeito muda de canal. Quem não se comunica — rápido e direto — se trumbica. A buzina também me protegia, sabe? Quando a gagueira queria vir, ou quando me faltava o ar, a buzina falava por mim. Ela era o grito que a minha garganta às vezes não conseguia dar.

 

SuperPauta: Você fala da buzina como edição ao vivo. Mas teve um “corte” ainda mais radical: o dia em que você pegou um bacalhau e transformou o auditório num ringue. Aquilo foi só palhaçada ou foi estratégia consciente de comunicação?

Chacrinha: Foi estratégia, meu filho. Estratégia com cheiro de mercado e barulho de plateia. Um amigo meu, Venâncio, estava com um caminhão de bacalhau encalhado. Me ligou aflito: “Chacrinha, me ajuda, senão isso aí vai ficar parado até criar teia de aranha”. Aí eu pedi: “Manda umas peças pra cá”. No programa, eu levantei aquela posta enorme como se fosse troféu e gritei: “Vocês querem bacalhau?”. O auditório respondeu como se eu tivesse prometido a salvação: “Queremos!”. Eu anunciei a promoção e atirei a posta pra plateia. Pronto: o estúdio virou Copa do Mundo, todo mundo queria garantir o domingo da Páscoa. No dia seguinte só se falava nisso. Teve quem achasse um horror, teve quem morresse de rir… e o Venâncio? Ele quase precisou de massagem no rosto de tanto sorrir: em dois dias não sobrou bacalhau nenhum. E vou deixar claro, porque os finos sempre entendem errado: quando eu jogo bacalhau, eu não estou chamando ninguém de faminto, nem rebaixando ninguém. Eu estou dizendo: “acorda!”. É alegria. É participação. O povo não quer só o bacalhau: quer o barulho de estar dentro do acontecimento.

 

SuperPauta: E nos bastidores com artistas, teve algum momento em que até o “Velho Guerreiro” quase perdeu o controle do roteiro… de tanto achar graça?

Chacrinha: Teve, e foi delicioso. Eu inventei um troço chamado “O Cantor Mascarado”. A ideia era simples: entrava um sujeito mascarado no palco, cantava, e o público tentava adivinhar quem era. Um dia apareceu um mascarado cantando “Meu Bem do Mar” e a plateia começou a gritar um nome atrás do outro. Teve gente jurando que era João Gilberto, até que eu puxei o mistério pelo colarinho e revelei: era Roberto Carlos. Aquele tipo de surpresa que faz o auditório virar escola em dia de recreio. E olha que isso não era só brincadeira: era engenharia de atenção. Você bota mistério, você acende a curiosidade, você dá ao povo o prazer de participar. O público quer acertar, quer gritar, quer pertencer. E eu sempre tratei audiência como bateria de escola de samba: se a bateria entra, meu filho, ninguém fica parado.

 

SuperPauta: Abelardo, por trás do riso tinha método e às vezes tinha faca também. Quando o abacaxi voava, era só comédia ou tinha ali uma dose de humilhação calculada? O “Troféu Abacaxi” virou folclore. Ele era um prêmio de consolação ou uma lição de moral?

Chacrinha: (Ele não ri. Só aperta a buzina com a mão, como quem segura um martelo) Era lição… e era castigo também. Vou falar a verdade que ninguém gosta: eu humilhei gente, sim. Humilhei ao vivo. Às vezes o sujeito não merecia o abacaxi, merecia um abraço e um copo d’água. Mas eu estava vendendo espetáculo numa máquina que não tem paciência com delicadeza. A televisão não é mãe. A televisão é bilheteria. Eu olhava o calouro e fazia um cálculo frio: “Esse aguenta apanhar e volta mais forte? Ou esse vai quebrar?” Quando eu percebia que era frágil demais, eu tentava cortar rápido, porque prolongar o vexame é crueldade maior. Mas quando o sujeito vinha com soberba, querendo pisar no auditório, aí eu virava carrasco com gosto. Eu jogava o abacaxi para arrancar o rei falso de cima do palco. E aqui vai outra coisa feia: eu sabia que o público ria do tombo. Eu também ria, às vezes. Porque riso é selvagem. O povo não quer só talento, quer catarse. Quer ver alguém cair para esquecer a própria queda. Se isso te parece injusto, bem-vindo ao mundo real. Eu só escancarava a injustiça e botava confete em cima dela, pra ficar suportável. Era bonito? Nem sempre. Era verdadeiro? Quase sempre.


SuperPauta: Você foi o alvo preferido dos críticos e dos intelectuais, que te acusavam de promover o “baixo nível”. Hoje, com o distanciamento do tempo, o que é “nível” para você?

Chacrinha: (Ele se ajeita na poltrona, visivelmente irritado, batendo a mão no joelho) "Nível" é conversa de quem tem a geladeira cheia e ar-condicionado no escritório. Eles diziam que eu fazia "baixo nível" porque eu mostrava o povo como ele é: sem dente, suado, falando errado, vestido com roupa barata. Para a elite, a pobreza é ofensiva. Eles queriam uma TV de terno e gravata, falando difícil. Para mim, baixo nível é roubar o povo. Baixo nível é político que promete hospital e entrega cova rasa. Baixo nível é humilhar o porteiro e depois posar de santo na missa. Eu mostrava o Brasil banguela, mas vivo! Eu dava palco para quem era invisível. Eles diziam que eu explorava a miséria; eu digo que eu celebrava a existência daquelas pessoas. Quem chamava meu programa de lixo, na verdade, tinha nojo do cheiro do povo. Eles só gostam do povo quando o povo está quieto e servindo. Eu fazia o contrário: eu fazia o povo gritar, jogar comida e ser feliz na cara da sociedade.

 

SuperPauta: As Chacretes — de Rita Cadillac a Índia Potira — marcaram época. Elas eram dança, vitrine ou uma provocação ao moralismo da ditadura? E aquela expressão, “boazuda”, como você a vê hoje?

Chacrinha: As Chacretes eram a rua invadindo a sala de estar da família brasileira. O Brasil sempre foi esse país esquizofrênico: moralista na fachada e curioso por trás da cortina. Eu só tive a coragem de puxar a cortina e dizer: "Olha, o desejo existe, o corpo existe". Quando eu falava "boazuda", eu não estava falando só de corpo. Eu falava de saúde, de energia, de borogodó. A chacrete não podia ser aquelas modelos de passarela, magrinhas, tristes. Tinha que ter coxa, tinha que ter sorriso, tinha que ter sangue! Não era laboratório, era palco. Era carisma. Era a coragem de encarar a câmera de maiô e não pedir desculpa por existir. Hoje, o mundo discute isso com muito mais cuidado, fala em objetificação, e tem toda razão em evoluir. O respeito tem que vir em primeiro lugar. Mas o meu tempo era outro, era um tempo de repressão, onde um corpo livre dançando era quase um ato político. Eu refletia a rua. E a rua, meu filho, não fala fino, a rua é crua. As minhas meninas eram rainhas naquele palco, e ai de quem mexesse com elas nos bastidores. O Velho Guerreiro virava bicho para defendê-las.

 

SuperPauta: Você escolhia suas assistentes, as Chacretes, pelo corpo escultural ou pela coragem de sustentar o olhar do Brasil?

Chacrinha: (Ele faz um gesto de quem busca algo no ar) Eu escolhia pela eletricidade, meu filho. Pela luz. Mulher bonita o Rio de Janeiro tem aos montes, em cada esquina de Copacabana tem uma miss. Agora, a mulher que acende quando a luz vermelha da câmera liga... ah, isso é raro. A televisão é um bicho que come gente tímida. A Chacrete tinha que ter o corpo, claro, porque era o que o povo queria ver, mas tinha que ter o "imã". Ela tinha que olhar para a lente e atravessar a tela, entrar na casa do sujeito e dizer: "Eu sou a alegria". Se fosse só bonita, mas fria, não servia. Tinha que ter sangue quente, tinha que saber rir, tinha que ter a malandragem de desviar de um abacaxi voando e continuar dançando. A TV vive do raro, do magnetismo. Eu era o caçador dessas raridades.

 

SuperPauta: Vou tirar o confete do assunto por um instante: quando a luz do estúdio apagava, quem é que sobrava dentro do terno branco, o Velho Guerreiro ou um homem com culpa no bolso? Você disse certa vez que o programa vinha antes de tudo, até da sua família. Esse foi o preço mais alto que você pagou pela coroa de Rei da TV?

Chacrinha: (A alegria some. Ele olha para o confete no chão como se fosse cinza) Foi. E eu não vou romantizar, porque romantizar é outra forma de mentir. Eu fui injusto com a minha casa. Eu escolhi o palco. Eu escolhi o aplauso. Eu escolhi ser necessário para um país inteiro e, ao mesmo tempo, ser ausente para os meus. E tem uma parte que pega mal, mas eu vou dizer: eu usei a minha própria família como “bastidor” do mito. Eu deixava a imprensa inventar, eu alimentava maledicência, eu segurava desmentido porque isso aumentava audiência. Eu transformei silêncio doméstico em combustível público. Eu não traía todo dia como as revistas diziam, mas eu traía de um jeito pior: eu traía com a prioridade. Quando o programa precisava, a vida em casa virava figurante. Agora, também vou te jogar uma verdade indigesta: eu não era só vítima do sistema, não. Eu gostava do poder. Gostava de entrar no estúdio e ver todo mundo se dobrar ao meu timing. Gostava de saber que, se eu buzinasse, o Brasil inteiro reagia. É uma droga. Vicia. E quem diz que não vicia está mentindo ou nunca teve aquilo. Quando o meu filho sofreu o acidente e ficou tetraplégico, aí o palhaço pagou o preço sem maquiagem. Ali eu vi que a buzina não cura tudo. Eu continuei indo ao ar porque eu não sabia ser outra coisa… e porque eu tinha medo do dia em que o Brasil desligasse a TV e eu tivesse que encarar o Abelardo, nu, sem plateia. Esse é o meu pecado e minha sentença: eu fui gigante no domingo e pequeno na terça-feira.

 

SuperPauta: Você conviveu com problemas de saúde graves, infartos, cirurgias. Como era a sensação de ter que fazer o país rir sentindo medo da morte nos bastidores?

Chacrinha: O medo me dava pressa. Quando você sabe que o tempo está acabando, você não desperdiça um segundo de alegria. Eu tive problemas no coração, no pulmão... Às vezes eu entrava no palco com falta de ar, com a perna inchada. Mas eu pensava: "O povo tá esperando. A dona Maria lá no interior do Ceará tá esperando". A doença era o meu segredo; a alegria era a minha obrigação cívica. O palco virou a minha UTI. Eu só me sentia imortal, saudável e jovem quando a câmera acendia. Ali, o coração batia no ritmo da bateria e a dor sumia. Fora dali, no camarim, eu era um homem velho, cheio de remédios, com medo de dormir e não acordar. Eu escondia o pavor da morte em forma de festa. O confete era o meu disfarce.

 

SuperPauta: Existe um "Chacrinha" que o Brasil nunca viu e que talvez explicasse tudo isso?

Chacrinha: Existe o Abelardo silencioso. Esse ninguém quis comprar. É o homem que chegava no quarto do hotel ou em casa, tirava a peruca suada, tirava os óculos pesados, sentava na beira da cama e ficava olhando para o nada, tentando desligar o barulho da própria cabeça. Esse Abelardo era melancólico, preocupado com as contas, com os filhos, com o futuro do Brasil. Ele não tinha respostas rápidas, ele não tinha buzina. Ele tinha dúvidas. Mas esse homem não virou personagem, porque dúvida não dá Ibope. O Brasil queria certeza e gritaria. O Abelardo silencioso existiu, sim. E, no fim das contas, foi ele quem pagou a conta do corpo quebrado para que o Chacrinha pudesse pular.

 

SuperPauta: Abelardo, você deixou o palco há décadas, e desde então muitos tentaram ocupar o trono. Você vê algum sucessor legítimo nas tardes de sábado e domingo? E o que você acha dessa TV atual, onde o apresentador chora mais que o convidado para dar audiência?

Chacrinha: (Ele solta uma gargalhada rouca, balançando a cabeça) Sucessor? Meu filho, não existe sucessor para o caos. O Chacrinha era um acidente geográfico, uma erupção. O que eu vejo hoje são meninos talentosos, sim. Tem gente com ritmo, mas o sistema engessou tudo. O que me irrita profundamente é essa mania de transformar o palco em muro das lamentações. O domingo virou um velório com intervalo comercial. É gente chorando, é história triste, é a exploração da miséria para vender refrigerante. Eu jogava bacalhau, jogava farinha, dava geladeira, mas era uma festa! Eu não fazia o pobre chorar para ganhar o prêmio; eu fazia o pobre pular! A caridade na TV hoje é triste, é humilhante. No meu tempo, o povo ia para o auditório para esquecer a fome, não para ser lembrado dela em close-up. Falta anarquia e sobra roteiro. Ninguém substitui o Chacrinha porque ninguém mais tem coragem de ser politicamente incorreto e amoroso ao mesmo tempo.

 

SuperPauta: Mas teve vez em que nem a buzina dava conta e a edição precisou salvar o programa?

Chacrinha: Teve, e foi uma daquelas horas em que a televisão mostra os dentes. Eu gostava de brincar, eu gostava de testar o nervo do palco, mas tem artista que é um trovão engarrafado. O Tim Maia era isso. Teve um dia que mandaram fazer uma pegadinha, dessas de bastidor, encostar nele por trás no meio da música. Meu filho, o Tim virou uma tempestade. Parou tudo. Largou o palco no ato, indignado, falando alto, muito alto, e com razão: ninguém gosta de ser surpreendido assim diante do Brasil inteiro. Aí você vê a diferença entre a bagunça controlada e o caos de verdade: na bagunça, eu mando. No caos, o programa corre para o comercial como quem corre para se esconder da chuva. E eu ainda tive que voltar e “costurar” para a plateia, inventar uma saída elegante, dizer que ele passou mal e precisou ir embora. Semana depois, ele voltou, e eu tratei como se nada tivesse acontecido, porque televisão é isso também: um circo que apaga o incêndio sorrindo. E o Tim ainda tinha um pedido que eu respeitava: falar o nome da mãe dele no ar. Aí eu falava. Porque, no fim, todo trovão tem um colo.

 

SuperPauta: Sua frase “Na TV nada se cria, tudo se copia” atravessou gerações. Na era do TikTok e dos virais instantâneos, isso virou profecia ou maldição?

Chacrinha: Virou a Constituição Federal da internet! Hoje é a cópia da cópia da cópia, e o pior: sem a fonte original. Tem gente dançando, fazendo graça, pedindo atenção desesperadamente, exatamente como os meus calouros faziam. Só que falta o principal: o cheiro de gente. O TikTok é um Cassino do Chacrinha asséptico, onde cada um dança sozinho no seu quarto, olhando para o próprio reflexo no espelho negro do celular. É um Carnaval sem rua, sem esbarrão, sem suor misturado. É barulho sem abraço. E isso me dá uma tristeza danada, porque a tecnologia aproximou a imagem, mas afastou o calor. O povo precisa de povo, não de like. O like não enche barriga nem abraça ninguém.

 

SuperPauta: Se você tivesse um canal no YouTube hoje, faria mais caos ou tentaria conversar civilizadamente?

Chacrinha: Eu faria o caos ao vivo, porque o ao vivo é a única verdade que sobrou! Eu ia buzinar o tédio do algoritmo! Eu ia jogar "bacalhau digital" na cara dos hipócritas e cortar discurso enrolado de político e influenciador com a buzina no talo. O meio muda — rádio, TV, internet, holograma — mas a fome do ser humano é a mesma desde a idade da pedra: fome de ser visto, fome de ser amado, fome de rir para não desabar. Eu só mudaria para melhorar, como sempre fiz: trocaria a fantasia, adaptaria a gíria, mas manteria o coração batendo alto. Eu ia provar que dá para ter milhões de seguidores sem perder a alma.

 

SuperPauta: Para encerrar este nosso encontro impossível: que mensagem o Velho Guerreiro deixa para quem tenta se comunicar e sobreviver nesse mundo barulhento de hoje?

Chacrinha: (Ele se levanta devagar, ajeita o terno branco, mas pega a buzina com a firmeza de um general empunhando uma espada. Ele olha fixamente nos meus olhos, e por um segundo, vejo o brilho do menino de Surubim) Não tenha medo de ser ridículo. O ridículo aproxima as pessoas. O perfeito afasta, cria inveja. Se comunique com a alma, não com o algoritmo. Fale a língua que o seu coração grita, não a que a moda pede. A vida é curta demais para ser sério o tempo todo. E se alguém reclamar, se a patrulha do "bom gosto" vier te encher a paciência... (Ele ergue a buzina acima da cabeça) FON-FON! Manda um abacaxi bem grande pra eles! Porque, meu filho, no fim das contas, o Brasil é isso: um povo que só não morre de tristeza porque aprendeu a rir na beira do abismo. (Ele sorri, dá as costas e caminha para a névoa do fundo do estúdio, gritando para o vazio: "Alô, alô, Teresinha! Aquele abraço!")




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis – Carmen Miranda

 Encontros Impossíveis 

O Tique-Taque do Tempo


A Pequena Notável entre o brilho de Hollywood e a saudade da Lapa: uma conversa sobre o peso do turbante e a alma que ninguém americanizou.


"Disseram que eu voltei americanizada, mas eu sempre fui a mesma. O meu samba é o mesmo, a minha alegria é a mesma, e a minha brasilidade está em tudo o que faço" — Carmen Miranda

 

O ambiente é uma penumbra luxuosa, onde o veludo de Beverly Hills se mistura ao cheiro de maresia da Praia da Urca. Ela está sentada em uma poltrona larga, parecendo ainda menor sem os saltos de vinte centímetros, mas sua presença corta o ar como um solo de flauta. Maria do Carmo não usa frutas na cabeça hoje; veste um robe de seda simples, e o olhar, livre dos cílios postiços pesados, é de uma lucidez que atravessa décadas. É a mulher que sustentou um império com os ombros, que virou o símbolo de um país inteiro enquanto lutava para não se perder de si mesma entre comprimidos para dormir e aplausos para acordar.

Neste encontro, desarmamos o ícone para ouvir a mulher em uma travessia que começa na descoberta do seu magnetismo entre os chapéus da Rua do Ouvidor e mergulha na mágoa profunda daquela noite de silêncio no Cassino da Urca. Caminhamos pelos corredores de Hollywood para entender o laboratório de estereótipos que a aprisionou em uma caricatura, revelando o cansaço de ser uma vitrine global e o legado de uma voz que, muito além das plataformas, sobreviveu a todas as críticas para se tornar a própria imagem da nossa identidade.

 

 


 SuperPauta: Carmen, que alegria te ver assim, tão "Maria", sem os balangandãs que você costumava usar no palco. Antes de mais nada: qual som faz você sentir vontade de voltar para este nosso plano, quando ouve? O pregão da rua, o rádio chiando, um pandeiro bem tocado ou o aplauso?

Carmen Miranda: (Sorri com os olhos, balançando levemente a cabeça) Ah, meu filho... o aplauso é um vício, o rádio é o trabalho, mas o que me traz de volta mesmo é o som do pandeiro no sereno. Aquele som seco, de couro esticado, que a gente ouvia nas madrugadas do Rio. Ele tem o ritmo do meu coração. O aplauso alimenta o ego, mas o pandeiro alimenta a alma da portuguesa mais brasileira que já pisou nesse mundo. Sabe, eu cheguei aqui no colo da minha mãe, num navio que parecia uma casca de noz no meio daquele mar imenso que separa o Minho do Rio de Janeiro. Eu era apenas um "tico" de gente, com dez meses de vida, vindo de uma aldeia de pedra em Portugal para esse sol que chega a arder na pele. Às vezes eu penso que o balanço daquele navio, o som das ondas batendo no casco, foi o meu primeiro metrônomo. Eu já cheguei com o ritmo da travessia nas veias. Eu sou fruto dessa mistura: a disciplina e o fado de Portugal, mas com o tempero e a malandragem que só esse solo brasileiro consegue dar. Quando eu ouço um pandeiro hoje, parece que ele está chamando tanto a Maria que nasceu lá, quanto a Carmen que renasceu aqui. É o som que diz que, apesar de tudo, eu estou em casa.

 

SuperPauta: Se este estúdio impossível fosse uma esquina do Rio, qual você escolheria para encostar o corpo e começar a nossa conversa?

Carmen Miranda: Tinha que ser na esquina da Rua do Ouvidor com a Avenida, que é como as pessoas chamavam a Avenida Rio Branco, que havia deixado de ser Avenida Central há pouco tempo. Ali onde eu vendia chapéus e via a vida passar depressa. Ali eu era apenas a Maria do Carmo, uma menina com a cabeça cheia de sonhos e as mãos ágeis. Se a gente começar por ali, você vai entender que tudo o que veio depois — os milhões, os filmes, as frutas — foi só um chapéu mais enfeitado que eu resolvi usar.

 

SuperPauta: Quando você ouve alguém dizer “Carmen Miranda”, sente que estão chamando você ou chamando um figurino?

Carmen Miranda: (Leva a mão ao peito, pensativa) É uma pergunta difícil, porque a Carmen acabou virando a minha pele de fora. Por muito tempo, se eu saísse de casa sem a maquiagem, sem aquele traço forte nos lábios e as sobrancelhas desenhadas, eu me sentia nua. Era como se a Maria do Carmo fosse um fantasma que só existia para a família, e a Carmen fosse a pessoa real para o resto do mundo. Hollywood criou uma boneca de engrenagem, e eu tive que aprender a morar dentro dela. Mas com o tempo, o figurino ficou tão pesado... (faz um gesto de peso nos ombros). Aquelas pulseiras de ouro não eram só enfeite, elas faziam barulho para eu nunca esquecer que eu tinha um papel a cumprir. Hoje, aqui, quando você diz meu nome, eu sinto que estamos chamando a mulher que sobreviveu ao figurino. Mas não se engane: eu amava aquele brilho. Eu só queria que tivessem amado o que estava por baixo também.

 

SuperPauta: Você foi a “Pequena Notável”. O que era mais pesado: o “pequena” ou o “notável”?

Carmen Miranda: (Risos) O "notável" exigia uma energia que o "pequena" nem sempre tinha para dar! Ser notável é um exercício de 24 horas. Você não pode bocejar, não pode estar triste, não pode estar feia. A "pequena" queria só um prato de arroz com feijão e um colo de mãe, mas a "notável" tinha que sacudir os balangandãs para a Fox. O peso da nota era maior que o meu tamanho.

 

SuperPauta: O cheiro da sua casa de infância era o quê: café fresco, gordura no fogão, roupa passada ou chuva no quintal?

Carmen Miranda: (Fecha os olhos e aspira o ar, como se estivesse lá) Era cheiro de café com pão amanhecido e de goma de passar roupa. Minha mãe, Dona Maria, era uma santa de paciência, sempre com o ferro quente na mão, alisando os lençóis enquanto o rádio — quando finalmente tivemos um — trazia as vozes de fora. Mas tinha também o cheiro da gordura de porco chiando na frigideira e, claro, o perfume das gardênias que vinha dos quintais vizinhos. O Rio daquela época tinha uma fragrância de esperança, entende? Mesmo na pobreza, a gente sentia que a vida ia acontecer. A gente morava em sobrados, com muita gente, muita conversa alta, muito riso. Era um cheiro de vida compartilhada. Sinto falta daquela simplicidade, onde o maior luxo era uma lata de doce de goiaba com queijo de Minas no final da tarde.

 

SuperPauta: Como a menina Maria do Carmo convencia os pais de que cantar não era “vida de malandro”? Naquela época, o preconceito era enorme.

Carmen Miranda: Rigoroso é pouco, meu filho! Meu pai era um português de quatro costados, para quem mulher de respeito só saía de casa para casar ou para a igreja. Para ele, o palco era o caminho mais curto para a perdição. Eu tive que ser uma atriz antes mesmo de ser cantora. Eu fingia que as músicas eram só "coisinhas de moça", cantava em festas de caridade, na escola, sempre com aquele ar de quem não quer nada. Mas por dentro eu era um vulcão! Quando o dinheiro começou a entrar, e eu mostrei para ele que uma artista podia ganhar mais do que dez barbeiros juntos, o coração dele amoleceu um pouquinho pelo lado prático. Mas ele nunca se acostumou de verdade. Ele via a minha foto nos jornais e balançava a cabeça, como se dissesse: "Onde foi que eu errei com essa pequena?". No fundo, ele tinha medo do que o mundo faria comigo. E ele não estava errado, estava?

 

SuperPauta: O sotaque português da sua família: você tentou esconder ou percebeu cedo que ele era o seu tempero secreto?

Carmen Miranda: Eu nunca escondi, mas eu dei um "banho de loja" nele. Misturei o "ora pois" com a gíria do malandro da Lapa. Ficou aquela coisa cantada, que o pessoal lá fora achava que era "exótico" e o pessoal aqui achava que era "malandragem". No fundo, meu sotaque era uma ponte entre o Minho e a Praça Onze.

 

SuperPauta: Qual foi a primeira vez que você percebeu que tinha o tal “It” — não como vaidade, mas como um poder de presença?

Carmen Miranda: Foi na loja de chapéus. Uma cliente entrou, eu botei um chapéu na cabeça dela, fiz um gesto, cantei um versinho e ela comprou o chapéu mais caro sem nem pestanejar. Ali eu vi que eu tinha um imã. Não era beleza — eu nunca me achei uma beldade —, era uma eletricidade. Se eu entrasse num quarto, o quarto virava meu.

 

SuperPauta: Os chapéus que você fazia na Rua do Ouvidor tinham o quê que os outros não tinham? Foi ali que você aprendeu a moldar a sua própria imagem?

Carmen Miranda: Eu não vendia apenas feltro e palha; eu vendia "pose". Uma cliente entrava na loja desanimada, e eu dizia: "Dona fulana, experimente esse aqui, mas use assim, meio de lado, com o olhar de quem manda no marido". Eu percebi cedo que a moda é uma armadura. Eu pegava um pedacinho de fita, uma pluma barata, e dava um nó que mudava o rosto da pessoa. Foi na loja da Madame Guimarães que eu entendi que a estética é um poder. Se você se veste como uma rainha, as pessoas te tratam como tal. Aqueles turbantes que o mundo inteiro copiou depois, eles nasceram ali, naquela vontade de pegar o que é simples e transformar em algo notável. Eu já estava "desenhando" a Carmen Miranda enquanto limpava o balcão da loja.

 

SuperPauta: “Taí” foi o estouro que mudou tudo. O que foi mais assustador naquele momento: o sucesso rápido ou a sensação de que agora você estava sendo vigiada por milhares de olhos?

Carmen Miranda: O sucesso é um susto, meu filho. Num dia eu era a Maria que pegava bonde, no outro eu não podia mais andar na rua sem que me arrancassem um pedaço do vestido. "Taí" foi como um vendaval. Eu gravava um disco e, antes da cera esfriar, já estava tocando em todas as esquinas. O que mais me assustou foi perceber que eu não me pertencia mais. O público cria uma imagem de você e você fica escrava de ser aquela pessoa 24 horas por dia. Se eu estava triste, tinha que sorrir. Se eu estava cansada, tinha que sambar. Eu virei propriedade do Brasil antes de fazer vinte anos. Era um amor imenso, mas um amor que sufocava, como um abraço apertado demais que não deixa a gente respirar.

 

SuperPauta: Noel Rosa e Assis Valente. Dois gênios, duas visões sobre você. O Noel via a sua alma, mas o Assis... ele parecia escrever para a sua vertigem, para a sua pressa de viver, não?

Carmen Miranda: (O olhar fica úmido) O Noel... ah, o Noel era o cronista da alma. Ele via que por trás da minha "bossa", tinha uma compreensão da tristeza suburbana. Ele me deu músicas que eram como conversas de portão. Já o Assis... o Assis era o meu espelho mais perigoso. Ele escrevia aquela alegria explosiva, "Brasil Pandeiro", "E o Mundo Não se Acabou", mas era uma alegria que parecia estar sempre na beira de um abismo. A gente se entendia no desespero. O Assis queria que o Brasil fosse grande, colorido, pulsante, porque por dentro dele era tudo muito escuro. Eu cantava a luz dele para ele não se apagar. Quando eu cantava Assis, eu sentia que estava equilibrando um prato de porcelana num fio de arame. Era uma vertigem maravilhosa e terrível ao mesmo tempo.

 

SuperPauta: Qual foi o maior sacrifício para ser a “Rainha do Rádio”?

Carmen Miranda: Foi abdicar do direito de ser triste. Uma rainha não pode chorar em público. Eu tinha que estar sempre com o sorriso "número 4", aquele que mostra todos os dentes. O sacrifício foi a minha espontaneidade. Eu virei uma máquina de alegria, e máquinas não descansam.

 

SuperPauta: Carmen, vamos falar da sua imagem. Suas plataformas de vinte centímetros: eram apenas para compensar a altura física ou havia uma altura simbólica ali? O que você ganhava quando subia naqueles tamancos?

Carmen Miranda: (Ri, olhando para os próprios pés agora descalços) Ah, meu filho, o salto era a minha fortaleza! Imagine só: eu, com um metro e cinquenta e dois, entrando num set de filmagem em Hollywood cercada de "girafas" loiras de um metro e oitenta. Se eu ficasse no chão, eu desaparecia no tapete! A plataforma me dava o pedestal que o destino não me deu no berço. Mas não era só altura, era "poder". Quando eu subia naqueles sapatos, meu quadril mudava de lugar, o meu centro de gravidade virava outro e o samba saía mais "invocado". Era como se eu dissesse ao mundo: "Olhem para cima, porque a pequena aqui é gigante!". Mas o preço... ah, os juros o corpo cobrou depois. Meus pés viviam em carne viva, e minha coluna, coitada, era um tique-taque de dor constante. Eu era uma gigante de gesso que não podia tropeçar.

 

SuperPauta: E o turbante com frutas? Foi uma ideia sua, uma intuição de momento ou uma estratégia calculada para vender uma "exuberância" que o mundo queria comprar?

Carmen Miranda: Foi um "estalo" de quem conhece o povo. Eu vi as baianas de verdade, as vendedoras de acarajé com seus tabuleiros na cabeça, e vi ali uma nobreza que nenhuma rainha da Europa tinha. O turbante nasceu de um amor profundo por essa estética negra, mas eu, como boa chapeleira que era, resolvi "temperar". Botei as frutas, as flores, as lantejoulas... virou uma arquitetura! O segredo de engenharia era o equilíbrio; eu tinha que mexer o corpo todo, mas o pescoço ficava firme como uma coluna de mármore. Hollywood adorou porque eles queriam o "exótico", o colorido, a festa eterna. O que começou como uma homenagem virou o meu uniforme de guerra. Se eu tirasse o turbante, parecia que eu tirava a minha luz. Eu virei a "mulher da quitanda" mais cara do mundo, mas por dentro, às vezes, eu só queria desamarrar aquele pano e deixar o cabelo solto ao vento da Urca.

 

SuperPauta: O que as baianas de verdade te diziam com o olhar quando te viam estilizada? E o que você respondia sem usar palavras?

Carmen Miranda: No começo, eu sentia uma desconfiança. "O que essa branquinha está fazendo com as nossas roupas?". Mas eu respondia com o respeito do meu samba. Eu não estava zombando, eu estava exaltando. Eu dizia com os olhos: "Eu sou o alto-falante de vocês". E quando eu comecei a levar o nome delas para o mundo, elas me deram a benção. O meu turbante era uma homenagem, nunca uma fantasia.

 

SuperPauta: No navio rumo aos Estados Unidos, em 1939, o que você levou na mala que não era palpável? Havia mais medo do que promessa naquela travessia?

Carmen Miranda: Eu levei uma responsabilidade que pesava mais que todos os meus baús de figurino. Eu levei o medo de ser uma "fogo de palha". Sabe, meu filho, eu deixei o Rio sendo a Rainha, e estava indo para uma terra onde eu era ninguém, apenas uma "novidade" latina. No navio, eu olhava para o mar e pensava: "E se eles não entenderem o meu balanço? E se o meu inglês for uma piada?". Eu levei uma promessa que fiz a mim mesma: eu não voltaria derrotada. Lee Shubert me prometeu o mundo, mas eu sabia que americanos são práticos — se você não dá lucro, eles te esquecem no dia seguinte. E quando eu digo “Lee Shubert”, não é qualquer homem: era um grande produtor e dono de teatros, um imperador da Broadway, daqueles que abrem portas, mas também fecham sem avisar. Foi ele quem me viu no Brasil e me chamou para estrear lá em 1939, no palco deles. Eu viajei com o coração apertado, rezando para que a minha "bossa" fosse universal. Eu não estava indo apenas para cantar; eu estava indo para provar que o Brasil não era só uma mancha no mapa.

 

SuperPauta: Aprender inglês “na marra” foi uma tortura? Qual foi a palavra ou expressão que mais doeu aprender e repetir para o público americano?

Carmen Miranda: (Faz uma careta engraçada) O inglês era um bicho de sete cabeças! Mas o que doeu não foi a gramática, foi o papel que me colocaram para fazer. Eles queriam que eu falasse errado de propósito. Eles achavam "cute" (bonitinho) quando eu trocava o "V" pelo "B" ou quando eu não conseguia pronunciar frases longas. A expressão que mais me doeu foi o "I can't say it". Os roteiristas escreviam isso para eu dizer toda vez que havia uma palavra difícil. Eu me sentia uma tonta, uma boneca de ventríloquo. Eu estudava, eu me esforçava para falar direito, mas o diretor dizia: "Não, Carmen, fale como uma latina confusa". Eles me pagavam milhões para eu ser menos inteligente do que eu era. Foi uma luta constante entre a minha dignidade e o contrato da Fox.

 

SuperPauta: O dinheiro compensava a saudade do feijão com arroz ou a saudade era uma conta que o cachê de Hollywood nunca fechava?

Carmen Miranda: O dinheiro comprava a mansão, mas a mansão era vazia. Eu mandava buscar café do Brasil, mandava buscar disco de samba, mas o cheiro da rua eu não conseguia importar. O cachê pagava as contas da minha família inteira, mas não pagava a minha solidão de domingo à tarde.

 

SuperPauta: O silêncio do Cassino da Urca, quando você voltou em 1940, é uma das cenas mais tristes da nossa história cultural. Onde aquela frieza do público bateu mais forte em você?

Carmen Miranda: (A voz fica mais baixa e grave) Bateu bem no meio do peito, onde mora a criança que quer agrado. Eu entrei naquele palco com o coração saindo pela boca, louca para abraçar o meu povo. E o que eu recebi? Um silêncio gelado, um olhar de julgamento. Parecia que eu tinha cometido um crime por ter feito sucesso lá fora. A elite sentada nas mesas me olhava como se eu fosse uma traidora, uma "vendida". Eles disseram que eu voltei "americanizada" porque eu botei umas palavras em inglês no meio do samba. Ora, eu estava apenas vivendo a minha vida! Chorei tanto naquela noite que achei que meus olhos iam secar. Foi ali que eu percebi que o Brasil é um pai que ama o filho, mas não perdoa se o filho cresce e vai embora de casa. "Disseram que eu voltei americanizada" foi o meu grito de defesa, mas a cicatriz nunca fechou de verdade.

 

SuperPauta: Você acha que o Brasil tem esse hábito de amar o artista até ele atravessar a fronteira e virar uma “ameaça”?

Carmen Miranda: O Brasil ama o sucesso, mas tem pavor da autonomia. Quando você sai e brilha sozinha, parece que você está dizendo que o Brasil é pequeno. E não é! Eu só queria levar o Brasil na minha mala. Mas aqui, se você não sofre com o povo o tempo todo, parece que você não é mais do povo. É uma cobrança cruel.

 

SuperPauta: Carmen, essa dor parece ter moldado a sua resistência. Vamos continuar? Quero entrar agora nos bastidores mais sombrios e naquela noite final em 1955.

Carmen Miranda: Vamos, meu filho. A verdade é um remédio amargo, mas é o único que cura a saudade. Pode perguntar.

 

SuperPauta: Carmen, dizem que o sucesso é uma ilha cercada de gente, mas onde a gente janta sozinha. É verdade que você sustentava uma legião de amigos e família? Quando foi que você percebeu que o "amor", para muitos ao seu redor, vinha com um boleto bancário anexado?

Carmen Miranda: (Solta um riso curto, sem muita alegria) Ah, meu filho... eu não era uma mulher, eu era uma empresa! Uma multinacional de uma pessoa só. Eu amava a minha família mais que tudo, e vindo da pobreza que viemos, meu maior prazer era abrir a bolsa e dizer: "Pode escolher o que quiser". Comprei casas, joias, paguei estudos, viagens... Mas o preço disso é que você deixa de ser a filha, a irmã ou a amiga, e vira a "provedora". Eu sentia que se eu parasse de balançar o pandeiro, a engrenagem de muita vida parava também. Isso cria um peso nos ombros que turbante nenhum explica. Teve gente que só se aproximava de mim para ver o que sobrava da mesa. O amor era verdadeiro, eu quero acreditar que sim, mas ele era muito bem alimentado pelo meu talão de cheques. No fim das contas, a solidão é você saber que, se a luz apagar, muita gente vai embora procurar outro holofote que esteja aceso.

 

SuperPauta: Quando as luzes de Beverly Hills se apagavam e o silêncio tomava a sua mansão, qual era o seu medo mais feio? Aquele que você não contava nem para a sua mãe, Dona Maria?

Carmen Miranda: (Olha para as mãos, apertando os dedos) Era o medo de ser esquecida estando viva. O medo de que, sem a maquiagem, sem o batom exagerado que desenhava um sorriso que eu nem sempre sentia, eu não passasse de uma portuguesa baixinha e comum. Eu olhava no espelho no camarim, depois de tirar os cílios postiços que pesavam uma tonelada, e via uma mulher exausta, com olheiras que nem o melhor pó de arroz de Hollywood escondia. Meu medo era que o mundo descobrisse que a Carmen Miranda era um truque de mágica. E que, se o truque parasse, ninguém ia querer saber da Maria do Carmo. Eu tinha pavor de ser vista como "velha" ou "ultrapassada". Em Hollywood, se você não é a novidade do verão, você é o lixo do inverno. Eu vivia fugindo desse fantasma, correndo numa esteira que não parava nunca.

 

SuperPauta: E o Dave Sebastian? Foi o seu grande erro, o seu grande amor ou apenas um mal-entendido que você aceitou para não ter que jantar sozinha em frente àquela piscina enorme?

Carmen Miranda: (Suspira profundamente) O Dave foi o meu porto que acabou virando tempestade. Eu queria um marido, entende? Queria uma casa que não fosse um hotel, queria alguém para me dar o braço e dizer "vamos descansar". Mas ele não entendia a minha alma. Ele era um homem de negócios, um americano frio que via em mim o contrato, não a mulher. Ele tinha ciúmes do meu brilho, mas não abria mão do meu dinheiro. Foi um casamento de aparências que me custou muita lágrima. Eu me sentia presa. Eu, que sempre fui um pássaro que voava alto, me vi numa gaiola onde o dono da chave não sabia nem assobiar um samba. Aceitei o Dave porque o silêncio daquela casa em Beverly Hills era ensurdecedor. Eu preferia uma briga alta a um silêncio vazio. Mas hoje, eu sei: é melhor estar sozinha do que acompanhada por quem só ama a sua sombra. A Carmen foi minha sentença. Eu casei com o Dave buscando um refúgio, mas ele também queria a Carmen, não a Maria. Eu queria alguém que me visse de pijama, sem maquiagem, e dissesse: "Você é linda, Carminha". Mas todo mundo queria a estrela. Ser mulher foi um luxo que eu não pude pagar.

 

SuperPauta: Falemos dos "socorros químicos", Carmen. Sem romantismo, só com a verdade. Os remédios para acordar e os remédios para dormir... em que momento a muleta virou uma armadilha?

Carmen Miranda: Começou de mansinho. "Carmen, você tem que filmar às 5 da manhã, toma isso para despertar". "Carmen, você está muito agitada, toma isso para dormir". Hollywood é uma fábrica que não desliga a luz. Eu virei uma escrava das pílulas coloridas. Tinha a pílula da alegria, a pílula do descanso, a pílula da disposição... Eu não sabia mais o que era um sono natural ou um despertar de verdade. Meu corpo virou um laboratório. Eu estava sempre "elétrica" ou "apagada". Não tinha mais meio-termo. Os médicos de estúdio receitavam como se fosse bala de hortelã. Foi uma armadilha silenciosa. Eu achava que tinha o controle, mas o remédio é um patrão muito cruel. Ele te dá a energia hoje, mas te cobra a vida com juros amanhã. E eu paguei esses juros com o meu coração.

 

SuperPauta: Naquela noite de agosto de 1955, no programa de Jimmy Durante... você sentiu que o seu corpo estava se despedindo? Quando você caiu de joelhos no palco, após aquele número frenético, o que passou pela sua cabeça?

Carmen Miranda: (Fica em silêncio por um longo tempo, os olhos perdidos) Eu senti um frio... um frio que não era do ar-condicionado do estúdio. Meu peito parecia um tamborim sendo tocado por um mestre de bateria apressado demais. Quando eu caí, minha primeira reação foi o brio. "Carmen, levanta, não estraga o show!". Eu levantei, sorri, terminei o número... mas por dentro, eu já não estava mais lá. Eu senti que a corda tinha esticado até o limite e arrebentado. Quando cheguei em casa, naquela noite, e subi as escadas, cada degrau parecia uma montanha. Eu deitei na minha cama, olhei para o teto e pensei: "Enfim, silêncio". Não houve medo, sabe? Houve um alívio. O espetáculo tinha acabado. A pequena notável finalmente podia fechar os olhos e não ter que acordar para ser ninguém além de si mesma.

 

SuperPauta: O seu enterro parou o Rio. Meio milhão de pessoas cantando seus sambas pelas ruas. Você esperava que, depois de tanta briga e de ser chamada de "americanizada", o Brasil fosse te abraçar com tanto fervor na despedida?

Carmen Miranda: (Lágrimas brilham nos olhos) Eu não imaginava... eu morri achando que eles ainda estavam zangados comigo. Quando eu vi lá de cima — ou de onde quer que a gente olhe — aquela multidão, aquele mar de gente cantando "Adeus, Batucada", eu chorei o que não tinha chorado em vida. Ali eu entendi que o povo brasileiro perdoa tudo, menos a falta de amor. E eles sabiam que eu os amava. Eles sabiam que cada sacolejo de ombro que eu dei na América foi para dizer "olha como o meu povo é lindo". O Brasil me buscou de volta. Me tiraram do chão frio de Los Angeles e me botaram no colo quente do Rio. Foi o meu maior Carnaval. O mais triste e o mais bonito. Ali eu fiz as pazes com a minha terra.

 

SuperPauta: Carmen, hoje o mundo é muito diferente. Cantoras brasileiras como a Anitta tentam furar a mesma parede internacional que você atravessou há quase 90 anos. O que você diria para essas meninas que querem levar o Brasil na mala, mas enfrentam um mercado que ainda gosta de rotular tudo o que vem do sul?

Carmen Miranda: (Endireita a postura, com um brilho de admiração) Eu olho para essas moças e sinto uma vontade louca de dar um abraço em cada uma! Eu diria: "Minha filha, não peça licença. Entre com o pé na porta, mas não deixe que troquem a sua alma por um contrato". O mundo continua querendo nos rotular, querendo que a gente seja apenas o "tempero", mas nós somos o prato principal! O que eu fiz de sapatos e turbantes, elas fazem hoje com a batida do funk, com a coragem de mostrar o corpo e a voz sem medo. A parede continua lá, mas elas têm ferramentas que eu não tive. O segredo é o mesmo da minha época: seja tão única que eles não consigam te ignorar. Mas cuidado com a exaustão; o palco é um palco, a vida é outra coisa. Não deixem que a "estrela" mate a mulher.

 

SuperPauta: O “It” que você tinha, aquela presença magnética, hoje parece ter sido substituído pelos “likes” e pelos seguidores nas redes sociais. Você acha que a tecnologia mudou a essência do artista ou o brilho continua sendo o mesmo?

Carmen Miranda: (Dá uma risada curta, mas logo fica séria, olhando para o vazio) Ah, meu filho... eu vejo essa gente hoje e parece que todo mundo carrega um pequeno Cassino da Urca no bolso, onde o aplauso vem em forma de números. Mas veja bem: número no papel nunca foi sinônimo de estrela no céu. Você pode ter milhões desses tais "seguidores" e, ainda assim, quando entra num recinto, ninguém sentir um arrepio. O "It" não é algo que se aperta num botão; é uma eletricidade, uma voltagem que Deus coloca em algumas pessoas e que não precisa de fio nenhum para acender. Sabe o que me assusta nesse tempo de vocês? É que não há mais mistério. Hoje em dia, o artista mostra o que comeu no café, mostra a cama desfeita, mostra até o bocejo. Na minha época, a gente guardava o segredo a sete chaves para que, quando a cortina subisse, o público sentisse que estava vendo um milagre, entende? Se eu tivesse essas ferramentas, talvez eu ficasse tonta. Eu ia querer mostrar meus ensaios de madrugada, o passo a passo de um turbante novo... mas o meu coração? Ah, esse ia continuar trancado num cofre de platina. Esse brilho que vocês buscam na tela de um aparelhinho é uma luz fria. O brilho que dura é aquele que vem da alma e que faz a pessoa lá na última fila do teatro sentir que eu estou cantando só para ela. A tecnologia é um alto-falante maravilhoso, mas se a voz não tiver alma, o que sobra é só barulho.

 

SuperPauta: O Brasil de hoje é uma mistura frenética de samba, funk, pop e eletrônico. Você sente que o país que você representou — aquele Brasil de aquarela e pandeiro — ainda existe ou ele se transformou em algo que você não reconhece?

Carmen Miranda: Ele se transformou, e que bom! O Brasil que não muda vira museu, e o nosso país é uma festa de rua. Eu ouço essas batidas novas e sinto o mesmo "tique-taque" do meu tempo, só que com outra roupagem. O samba é a raiz, mas a árvore cresceu e deu frutos que eu nem imaginava. O Brasil de hoje é mais barulhento, mais misturado, talvez mais sofrido também, mas a alegria continua sendo a nossa maior rebeldia. Eu reconheço o Brasil em qualquer lugar onde alguém sorri apesar da dor. Pode mudar o ritmo, pode mudar a gíria, mas o "molho" brasileiro é eterno.

 

SuperPauta: Você se tornou um ícone absoluto para a comunidade LGBTQIA+. O que você sente ao saber que a sua imagem deu a tantas pessoas a coragem de serem extravagantes, de serem elas mesmas, em um mundo que muitas vezes exige o cinza?

Carmen Miranda: (Um sorriso terno e genuíno surge em seu rosto) Isso é o que mais me emociona. Saber que a minha "montação", o meu exagero, as minhas cores, serviram de escudo para quem só queria ser livre. Eu sempre fui uma "excluída" de certa forma — a portuguesa que não era de Portugal, a brasileira que não era do Brasil... eu entendo o que é não caber num lugar só. Se o meu turbante ajudou alguém a levantar a cabeça e dizer "eu existo e eu brilho", então valeu a pena cada gota de suor naquele palco. A extravagância é uma forma de liberdade. Onde houver uma drag queen se pintando, onde houver alguém querendo botar cor no mundo, eu estarei lá, dando uma piscadinha de incentivo.

 

SuperPauta: O que você quer que o mundo entenda, de uma vez por todas: por trás de cada fruta, de cada lantejoula e de cada "I love you" de cinema, quem era a mulher que respirava ali embaixo?

Carmen Miranda: (Olha fixamente para o entrevistador, com uma serenidade absoluta) Havia uma mulher que trabalhava duro. Uma mulher que acordava cedo, que tinha medo de errar, que sustentava o mundo com um sorriso porque não podia decepcionar ninguém. Havia uma Maria do Carmo que amava o mar, que queria ter tido filhos, que gostava de conversar até o dia clarear e que nunca, nem por um segundo, deixou de se sentir aquela menina da Rua do Ouvidor. Por trás da Carmen Miranda, havia uma brasileira que deu a vida para que o mundo soubesse que nós temos um sol que não se apaga. Eu fui uma embaixadora da alegria, mas por dentro, eu era apenas uma saudade que cantava.

 

SuperPauta: Para fechar, sem slogan, Carmen: o que é que a baiana tem que o mundo nunca vai conseguir copiar… porque não cabe em vitrine nenhuma e não tem contrato que compre?

Carmen Miranda: (Ela se levanta lentamente, ajeita o robe de seda com a mesma elegância com que ajeitava o turbante. Faz um gesto suave com as mãos, as unhas impecáveis, e sussurra) A baiana tem a graça de quem cai e levanta sambando. O mundo pode copiar o figurino, pode imitar o sotaque, pode até fabricar as frutas, mas ninguém consegue copiar o balanço que a gente faz para desviar da tristeza. O que a baiana tem é o "que de quem não tem nada, mas sente que tem tudo". É o mistério de ser luz em meio à sombra. Isso não se vende, meu filho. Isso a gente ganha de Deus quando nasce nesse chão verde e amarelo. (Ela manda um beijo estalado para o ar, e a imagem começa a se dissipar suavemente). Até logo, Brasil! 




 

Quem vê a Pequena Notável colorida e sorridente não imagina a dor de Maria do Carmo. No episódio de hoje, mergulhamos na genial série "Encontros Impossíveis", do jornalista Roberto Homem (@blogsuperpauta), para uma entrevista imaginária — e brutalmente honesta — com Carmen Miranda.