Entrevista imaginária por Roberto Homem
Entrevista imaginária por Roberto Homem
Fundado como O Ponta Negra e depois rebatizado como O Zona Sul, o jornal nasceu para dar voz aos moradores de Natal. Um encontro casual com Terezinha de Jesus, na Bienal do Livro de 2003, abriu suas páginas para uma série de mais de cem entrevistas — e plantou a semente do SuperPauta.
Por Roberto Homem
mostra os caminhos
e inventa as fronteiras.
Em 2025, deparei-me com uma postagem sobre a quarta edição do Prémio de Poesia de Oeiras, realizado em Portugal e aberto a autores de todos os países de língua portuguesa.
Entrevista imaginária por Roberto Homem
A cabine de rádio parece
suspensa sobre um estádio que não pertence inteiramente a tempo algum. Do lado
de cá do vidro, há uma mesa estreita de madeira, um microfone pesado, dois
fones de ouvido, um bloco de anotações e um quadro tático onde os ímãs perderam
os nomes. Do lado de lá, o gramado muda conforme a luz: por alguns segundos é o
Maracanã de 1957; depois, o mesmo verde se abre na direção do México de 1970;
mais adiante, as arquibancadas assumem a geometria fria de Roma, em 1990.
João Saldanha está de
mangas arregaçadas. Não veste uniforme, não carrega prancheta e não parece
disposto a representar a própria lenda. Segura os fones com uma das mãos e bate
de leve com a outra sobre a mesa, como quem marca o tempo de uma resposta antes
que a pergunta termine. À sua frente, uma lâmpada vermelha acende sem que
ninguém anuncie a entrada no ar.
Lá embaixo não há
jogadores. Há apenas a sombra de uma bola no círculo central e o rumor de uma
multidão que ainda não decidiu se veio assistir a uma partida, a um comício ou
a um acerto de contas.
Saldanha olha para o campo,
depois para mim.
— Pode perguntar. Só não
venha com conversa mole.
Entre o silêncio do Maracanã e o barulho do tempo, Barbosa fala baixo — mas diz tudo
“A pena máxima no Brasil é de 30 anos. Eu paguei mais de 50” — Barbosa
O Maracanã está vazio. Não o de hoje, organizado e
domesticado por cadeiras coloridas, mas o outro — aquele que ainda respira
ecos. O concreto guarda vozes que não se dissiparam. Há um fim de tarde
suspenso, sem pressa de virar noite. O gramado parece maior quando não há jogo.
Ou talvez mais honesto. No centro do
campo, um homem. Não está vestido como goleiro. Não há luvas. Não há uniforme.
Mas há algo que permanece — uma forma de olhar o espaço como quem ainda mede
distâncias invisíveis. Moacyr Barbosa. Ele não chega. Ele já está ali. Sentado,
com o corpo levemente inclinado para frente, como quem ainda espera o próximo
lance. Não há amargura no rosto, mas há memória. Muita. O silêncio aqui não é
vazio. É presença. E é dentro dele que
começa este encontro impossível.
Nesta conversa que atravessa o tempo, Moacyr
Barbosa revisita a própria trajetória com a mesma sobriedade que marcou sua
vida dentro e fora dos gramados. Do menino tímido de Campinas ao goleiro que
encontrou no Vasco da Gama o auge de sua carreira, ele reconstrói, sem
grandiloquência, o caminho que o levou ao centro de um dos episódios mais
marcantes da história do futebol brasileiro. Ao relembrar o gol de Alcides
Ghiggia na final de 1950, Barbosa não se defende nem se justifica — ele
descreve. E, ao fazê-lo, revela como um lance de segundos se transformou em uma
sentença de décadas. Entre memórias do campo, reflexões sobre o ofício de
goleiro e considerações sobre racismo, injustiça e o peso do julgamento
público, emerge um homem que nunca deixou de compreender o jogo — mas precisou
aprender, sozinho, a lidar com tudo o que veio depois dele.
Neste Encontro
Impossível, ouvimos Carolina Maria de Jesus com tudo o que a fez única: a
altivez sem licença, a ironia cortante, a vaidade ferida, a memória da fome, a
fé vigiada, o apego à palavra exata e a recusa feroz de qualquer hipocrisia.
“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra.” — Carolina Maria de Jesus
Não estamos num gabinete de
madeira nobre, nem numa biblioteca silenciosa, dessas onde os livros dormem em
paz. O lugar desta conversa é outro. Fica num território suspenso entre o barro
e o asfalto, entre Sacramento e o Canindé, entre a página e a panela. À esquerda,
um córrego escuro parece andar devagar, como se carregasse nas costas o cansaço
de um país inteiro. À direita, um fogão pobre respira em pequenas labaredas, e
sobre ele um cheiro de café ralo tenta vencer a umidade do ar. No chão há
papéis amassados, páginas soltas, pedaços de jornal, um caderno de capa gasta,
uma boneca sem braço, uma lata vazia. Tudo parece ter sido recolhido do mundo
para não morrer de vez. É nesse cenário que Carolina Maria de Jesus me espera.
Sentada num banco simples, de vestido escuro e lenço branco, ela tem a postura
firme de quem aprendeu dignidade na luta. Os olhos, lúcidos e inquietos, parecem
medir a pessoa à sua frente. Ao lado, a caneta repousa sobre o caderno não como
enfeite, mas como instrumento de defesa.
Carolina não é estátua nem
personagem domesticada. É mulher, mãe, negra, escritora, compositora, autora
que o Brasil tentou reduzir à fome, mas que sempre foi maior do que o rótulo.
Neste encontro, passaremos pela menina de Sacramento, pela catadora de papel,
pela mãe, pela autora de Quarto de Despejo e pela artista que jamais quis ser
lida apenas como documento da miséria. Falaremos de fome, sim, mas também de
língua, orgulho, maternidade, racismo, literatura, música e legado. Sobretudo,
da parte de Carolina Maria de Jesus que o Brasil ainda não terminou de
compreender. Ele me dá a impressão de que o Brasil ainda a lê com uma fome
errada: a fome do símbolo, não a da escuta verdadeira. Carolina não pede pena.
Pede papel, pão e verdade. E prova que, em suas mãos, até o que o mundo joga
fora ainda tem o que contar.