quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Nísia Floresta

 Encontros Impossíveis

 

A voz que antecipou o século

 

Da menina órfã pela violência política à educadora que desafiou o Império, Nísia Floresta discute a condição feminina, a escravidão e o abismo social brasileiro. Com a serenidade de quem viu o futuro antes de todos, a "Brasileira Augusta" analisa as conquistas e os perigos do mundo contemporâneo.

 

“Educai as mulheres! Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados! Governo, que vos dizeis liberal!” — Nísia Floresta

 

 

O ambiente não é terreno. Estamos em uma memória suspensa que oscila, como uma miragem febril, entre a sobriedade de uma biblioteca vitoriana em Londres — com estantes de carvalho escuro, cheiro de cera e tinta — e as dunas brancas e cegantes de Papari, no Rio Grande do Norte. Ouve-se, ao longe, um violino executando Norma de Bellini, que às vezes é interrompido pelo som bruto do vento nordestino batendo nas folhas de carnaúba, sugerindo a dualidade de uma alma que nunca coube inteiramente em um só hemisfério. Sentada em uma cadeira de espaldar alto, Nísia Floresta não aparenta a idade com que morreu, mas sim uma atemporalidade majestosa. Veste seda escura, fechada até o pescoço, adornada por um camafeu discreto. Suas mãos, calejadas pela escrita constante, repousam sobre um volume gasto de Direitos das Mulheres. Ela me encara com olhos que já viram o exílio, a peste, a revolução e a morte, mas que ainda guardam o brilho úmido e inquisidor de quem chorou pelo Brasil.

Nesta conversa, a "Brasileira Augusta" despe-se dos mitos para revisitar a menina Dionísia, forjada no sangue da tragédia política de 1817, e a mulher que ousou traduzir e expandir o feminismo europeu para uma sociedade escravocrata. Entre reflexões sobre o escândalo de educar mulheres para a ciência e a defesa solitária dos povos indígenas, ela lança um olhar crítico e materno sobre o século XXI, dissecando fenômenos como o feminicídio e a superficialidade das redes, provando que sua voz, mesmo vinda do além-túmulo, permanece dolorosamente atual.

 

 

SuperPauta: Neste “lado de cá”, onde vaidades deveriam se dissolver, o nome ainda importa? Dionísia ou Nísia: qual nome acende sua verdadeira voz?

Nísia Floresta: Importa, sim. Importa como importa a primeira roupa que nos vestem e a última que nos impõem. Dionísia foi a menina que correu descalça, sem saber ainda que o mundo, tantas vezes, é um matadouro de promessas. Dionísia sangrava com facilidade, porque era carne exposta. Já Nísia, meu caro, foi escolha e necessidade: uma forma de dar à minha palavra uma espinha que não se partisse ao primeiro empurrão. Aqui, onde nada se oculta e tudo se pesa, eu poderia dizer: não sou uma nem outra, sou somente uma consciência que recorda e responde. Todavia, se devo escolher o nome pelo qual serei chamada, chame-me por aquele que trabalhou: Nísia. Foi Nísia quem escreveu, e é a escrita que me faz permanecer, não como fantasma, mas como insistência.

 

SuperPauta: O cenário oscila entre as areias de Papari e salões europeus. Onde sua alma pousa quando quer, finalmente, descansar?

Nísia Floresta: O espírito pode frequentar salões e ainda assim desejar o chão. A Europa alimentou meu entendimento, ofereceu-me bibliotecas, debates, certas formas de respeito que minha pátria me negou com uma mão e me prometeu com a outra. Mas a alma, esse animal teimoso, volta sempre ao seu primeiro leite. Quando busco repouso, ouço o rumor de uma lagoa, a simplicidade dos dias, a rudeza que não finge ser delicada. O Nordeste não me adulou: me formou. A Europa foi, para mim, escola e vitrine. O Rio Grande do Norte foi raiz e ferida. E é curioso como a raiz e a ferida, ao fim, repousam no mesmo lugar.

 

SuperPauta: Morrer em Rouen, na França, longe do calor do Nordeste: foi exílio definitivo ou fechamento de um círculo?

Nísia Floresta: Foi consumação de uma orfandade geográfica. Morrer em terra alheia, numa noite fria, vitimada pela pneumonia, foi uma ironia final, dessas que a existência gosta de assinar sem pedir licença. Eu que passei a vida a traduzir mundos, terminei suspensa entre eles, como quem não pertence por inteiro a parte alguma. Chamais “fechamento” quando uma história se resolve. No meu caso, foi mais uma reticência: a frase parou, não por conclusão, mas por falta de ar.

 

SuperPauta: Da vida inteira, que lembrança volta sem ser chamada: imagem, cheiro, frase?

Nísia Floresta: O cheiro da terra molhada misturado ao rumor de pólvora. E a voz de meu pai lendo, como se a leitura fosse uma forma de proteção contra o mundo. Quando me assalta a lembrança, não me assalta a glória. Assalta-me o instante em que a inocência se partiu e, ao partir, fez de mim outra criatura.

 

SuperPauta: A eternidade torna a injustiça pequena ou imperdoável?

Nísia Floresta: A eternidade apenas retira a pressa da vingança, não apaga a nitidez do erro. De onde estou, a injustiça não é menor: é mais absurda, mais infantil e, por isso mesmo, mais cruel. Vê-se a repetição das correntes, com metais diversos, e percebe-se que o homem troca o objeto, mas conserva a inclinação.

 

SuperPauta: Olhando para mim agora, o que a senhora enxerga: cronista, intruso, filho tardio do século que tentou parir?

Nísia Floresta: Vejo um escavador de ruínas. Há homens que se aproximam de nós para mandar. Vós vos aproximais para perguntar. Isso já vos distingue. Talvez sejais, sim, filho tardio: não o filho obediente que a sociedade cria, mas o filho que devolve à mãe uma pergunta honesta.

 

SuperPauta: Antes de prosseguirmos: há algo que a senhora se recusa a responder, mesmo aqui?

Nísia Floresta: Há. E é bom que se diga desde logo, para que não façamos desta conversa uma feira. Minha vida pública pertence ao julgamento do tempo. Minha intimidade, não. Não me interrogareis sobre o que pertence ao cofre do coração, sobre nomes que apenas a consciência e Deus conheceram por inteiro. A mulher pública paga tributo à história; a mulher íntima não deve tributo ao espetáculo.

 

SuperPauta: Entendido. E se eu, homem do futuro, fizer uma pergunta que repita um preconceito do seu tempo, a senhora prefere corrigir com paciência ou com severidade?

Nísia Floresta: Corrigir-vos-ei com a medida do vosso erro. O erro pequeno pede paciência. O erro soberbo pede corte.

 

SuperPauta: Quando menina, o que a senhora via no horizonte de Papari que os adultos não viam?

Nísia Floresta: Os adultos, em geral, veem a necessidade. Veem a seca, a colheita, a pesca, o ciclo que os prende à sobrevivência. Eu via o mar como estrada, não como limite. Via que o mundo não acabava nas dunas, e, mais inquietante ainda, sentia que eu também não acabava no destino que desenhavam para mim. Eu via uma possibilidade: não ser apenas a filha de alguém, nem a esposa de alguém, nem o eco de uma voz alheia. Eu ainda não sabia nomear isso. Mas eu já pressentia.

 

SuperPauta: Seu pai, Dionísio, foi assassinado por razões políticas. A morte dele criou a escritora ou apenas arrancou a infância à força?

Nísia Floresta: Ambas as coisas, e não as separo. A dor é tinta que não se lava. Quando mataram meu pai, mataram a menina que acreditava na justiça dos homens como se fosse uma regra natural. E ao matar essa menina, produziram uma mulher que precisou fabricar sua própria justiça. Recordo não apenas o fato, mas o clima: a perseguição, o medo rondando a casa, as conversas sussurradas que a criança entende pela metade, e essa metade já basta para adoecer a alma. Aprende-se cedo, no Brasil, que política não mora somente nos gabinetes. Ela entra pela porta, senta à mesa e, por vezes, cobra sangue.

 

SuperPauta: Qual foi seu primeiro medo “de gente grande”?

Nísia Floresta: O medo do passo na calçada à noite. O medo de que uma opinião custasse a vida. Eu era muito jovem quando compreendi que a coragem, nesta terra, frequentemente é tratada como provocação.

 

SuperPauta: Quando recebeu a notícia do assassinato, qual foi o primeiro pensamento vergonhoso que a senhora teve e jamais confessou?

Nísia Floresta: (Ela demora. O violino, ao longe, parece respeitar a pausa.) Pensei: “Por que ele não se calou?” Por um instante, desejei que meu pai fosse um homem medíocre e vivo, em vez de grande e morto. Senti raiva da coragem dele. E logo a vergonha desse pensamento me esmagou, porque percebi que eu amava nele justamente o que o matou. Carreguei isso como quem carrega uma pedra no bolso: pesa, mas lembra.

 

SuperPauta: Quem foi a primeira pessoa que lhe disse “mulher não se mete nisso”? E como a senhora respondeu?

Nísia Floresta: Um parente, num tom que ele julgava caridoso. Disse-me que eu deveria rezar, bordar, aceitar. Que a política era “suja” demais para mãos delicadas. Eu respondi com silêncio. Mas era um silêncio com olhos incendiados. Dentro de mim, a resposta foi simples: se a política mata meu pai e ameaça minha casa, ela já se meteu comigo. Agora sou eu quem se mete nela.

 

SuperPauta: Se eu lhe pedir uma cena: um dia perfeito antes da ruptura. Qual é?

Nísia Floresta: Uma tarde comum na fazenda. Meu pai lendo, minha mãe organizando a casa, o sol fazendo da poeira uma espécie de ouro triste. Eu com um livro nas mãos, acreditando que o tempo era infinito. O paraíso, meu caro, é quase sempre uma falsa sensação de segurança.

 

SuperPauta: O que o Rio Grande do Norte lhe deu como “matéria-prima” que a Europa jamais substituiu?

Nísia Floresta: A rudeza que ensina. A teimosia que não pede desculpas por existir. A capacidade de florescer em meio à secura, como faz o mandacaru, sem solicitar aprovação aos jardins bem-cuidados. A Europa oferece verniz. Minha terra deu-me ossatura.

 

SuperPauta: Inventar o nome Nísia Floresta Brasileira Augusta foi estratégia, ferida ou manifesto?

Nísia Floresta: Foi manifesto com cálculo, e cálculo com emoção. Nísia é resto da menina, diminutivo que guarda ternura. Floresta é raiz, é memória da terra, é também uma espécie de juramento. Brasileira é tomada de posição: não aceito ser apêndice de império, nem sombra de colônia. E Augusta… (ela toca o camafeu, como se fosse um ponto final)

Augusta foi homenagem, sim, e também reivindicação. Como não me concediam títulos, precisei fabricar a dignidade do meu próprio nome. O nome, meu caro, pode ser escudo. Pode ser porta. E pode ser provocação.

 

SuperPauta: Esse nome também tinha vaidade? Em que medida a senhora queria ser respeitada, admirada?

Nísia Floresta: Toda escrita pública arrasta consigo algum grau de vaidade. Quem nega isso mente ou não se conhece. Eu queria ser lida. Queria entrar, pela via do pensamento, em lugares onde meu corpo não era admitido. Queria que minha palavra atravessasse a sala antes de mim. Mas havia diferença: eu não buscava admiração por enfeite, por docilidade, por esse teatro de agradar. Eu queria ser admirada pelo que eles temiam: inteligência e coragem. Para uma mulher, naquele século, isso era quase indecência.

 

SuperPauta: A senhora se sentia mais livre escrevendo como Nísia do que vivendo como Dionísia?

Nísia Floresta: Sem comparação. No papel, eu debatia com legisladores e desmentia fatalidades. Na vida, eu enfrentava aluguel, enfermidades, olhares que julgam, portas que se fecham com educação. Nísia foi a superação possível de Dionísia, não por desprezo à menina, mas por compaixão a ela.

 

SuperPauta: A senhora se reinventou para se proteger dos homens ou para se tornar maior do que eles?

Nísia Floresta: Para não ser esmagada por eles. Para que, quando tentassem reduzir-me, encontrassem resistência. A sociedade ama diminuir a mulher: se ela pensa, dizem que é soberba; se ela cala, dizem que é virtuosa. Eu preferi ser soberba aos olhos deles a ser morta por dentro.

 

SuperPauta: Em 1832, ao publicar Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, a senhora sabia que acendia um rastilho?

Nísia Floresta: Sabia. E acender foi necessário. O Brasil daquela época era um salão onde as mulheres eram móveis: bonitas, úteis, silenciosas. Falar em “direitos” para quem era tratada como propriedade era heresia. Eu queria que o leitor sentisse incômodo. A complacência é o travesseiro do opressor.

 

SuperPauta: Muitos repetem que o livro foi “tradução” de Wollstonecraft. O que a senhora queria: fidelidade ou efeito?

Nísia Floresta: A fidelidade ao espírito, não ao servilismo. Li, sim, as vozes estrangeiras, e seria tolice negar. Mas eu não pretendia ser copista. O Brasil não se fere com os mesmos instrumentos da Inglaterra. Eu precisava que a lâmina encontrasse a carne brasileira: seus costumes, suas hipocrisias, suas desculpas piedosas para manter a mulher na ignorância. Se eu apenas traduzisse, eu seria uma sombra. Eu quis ser voz.

 

SuperPauta: Por que homens temem tanto uma mulher que pensa?

Nísia Floresta: Porque o poder deles repousa sobre a nossa deseducação. Se a mulher pensa, ela pergunta. Se pergunta, exige. Se exige, muda o contrato. E muitos homens preferem chamar “ordem” àquilo que é apenas privilégio. Temem não a inteligência feminina, mas a falência de sua pretensa superioridade.

 

SuperPauta: Qual reação mais feriu: o riso, o silêncio ou o ataque?

Nísia Floresta: O riso. O ataque, ao menos, reconhece que há força. O silêncio pode ser medo. O riso, não: o riso pretende transformar a nossa dor em anedota. É uma chibata que não deixa marcas na pele, mas marca a alma.

 

SuperPauta: Qual foi a consequência prática mais dura da sua ousadia?

Nísia Floresta: A solidão social. Portas fechadas com gentileza. Amizades que se afastam não por convicção, mas por conforto. E o dinheiro, sempre apertado, porque a liberdade de uma mulher custa e poucos se dispõem a pagar a conta.

 

SuperPauta: Teve algum homem que a senhora amou e que a amava… desde que a senhora não pensasse alto demais?

Nísia Floresta: (Ela sustenta o olhar, sem concessão.) Houve homens que apreciaram minha inteligência como se aprecia um pássaro raro: com admiração, mas também com desejo de engaiolar. Queriam a mulher de espírito, contanto que esse espírito não lhes contestasse o mundo. É uma forma elegante de posse.

 

SuperPauta: A viuvez lhe deu liberdade ou cobrou caro demais?

Nísia Floresta: A viuvez foi tragédia que se tornou chave. Se eu tivesse permanecido presa ao ciclo da esposa respeitável, talvez eu nunca tivesse escrito o que escrevi. Mas paguei com noites frias, com a falta de um companheiro cotidiano, com a dureza de ser mulher só em uma sociedade que faz da solidão feminina uma suspeita. Foi justo? Às vezes, a vida parece sempre injusta. Todavia, olhando o que ficou, aceito o preço. Nem sempre com alegria. Com lucidez.

 

SuperPauta: Qual culpa lhe visitava mais: a de mãe ou a de escritora?

Nísia Floresta: Ambas. E alternavam como marés. A culpa de mãe me dizia: “estás ausente”. A culpa de escritora dizia: “estás te reduzindo”. O mundo queria que eu escolhesse uma só forma de existir. Eu escolhi existir inteira, ainda que isso significasse ferir expectativas.

 

SuperPauta: A senhora já quis ser “apenas” feliz, doméstica, anônima… e depois se odiou por desejar isso?

Nísia Floresta: Já. A fadiga faz a alma desejar repouso, e repouso, para a mulher, frequentemente se confunde com submissão. Eu desejei o conforto de não ser alvo. E logo me repreendi, porque entendi: o conforto, muitas vezes, é um pacto com a injustiça.

 

SuperPauta: Ao fundar o Colégio Augusto e ensinar ciências e línguas, qual foi o escândalo real: o conteúdo ou a autonomia?

Nísia Floresta: A autonomia. O conteúdo era pretexto. Perguntavam: “Para quê?” Como se o saber precisasse justificar-se por utilidade doméstica. O escândalo era ver uma menina sendo tratada como ser racional e não como adorno.

 

SuperPauta: Qual era a sua maior dificuldade: ensinar uma menina a pensar num mundo que mandava obedecer?

Nísia Floresta: Convencer a própria menina de que ela tinha direito à própria mente. O opressor, muitas vezes, triunfa quando convence a vítima de que sua cela é destino. Eu combatia a cela por fora e por dentro.

 

SuperPauta: Seus métodos foram considerados escandalosos. Isso a divertia ou a entristecia?

Nísia Floresta: Entristecia, porque o escândalo revela miséria intelectual. Mas confesso: às vezes, havia um prazer austero em ver conservadores alarmados. O alarme deles era prova de que eu tocara no nervo.

 

SuperPauta: Qual método seu era “insuportável” para a moral da época?

Nísia Floresta: Ensinar a interpretar, não apenas repetir. Fazer perguntas em vez de decorar respostas. E, sim, cuidar do corpo como parte da educação. A sociedade queria meninas imóveis, como porcelana. Eu queria seres humanos.

 

SuperPauta: Qual era o seu método secreto para ensinar coragem, não só conteúdo?

Nísia Floresta: Eu as fazia falar. Em público. Com ordem e clareza. O medo se combate exercitando a voz. Quem aprende a sustentar uma ideia diante da turma aprende, um dia, a sustentar-se diante do mundo.

 

SuperPauta: A senhora sofreu ataques e calúnias. Qual calúnia a acertou porque tinha um grão de verdade ou porque parecia verdade?

Nísia Floresta: A que insinuava que uma mulher independente só pode ser “imoral”. Esta calúnia me feria porque eu compreendia o mecanismo: não era sobre minha conduta, era sobre meu exemplo. Queriam que as mães temessem matricular as filhas. Queriam que as alunas temessem parecer-se comigo. O grão de “verdade”, se assim chamais, era apenas isto: eu não me ajoelhava diante do julgamento masculino. E para eles, isso já era pecado.

 

SuperPauta: Teve uma ocasião em que pensou em desistir?

Nísia Floresta: Sim. Houve noites em que a solidão pareceu mais forte que a missão. Eu chorei escondida como choram os teimosos: com raiva. Mas na manhã seguinte eu fazia o que sempre fiz: levantava, vestia-me, abria livro, e continuava. A coragem, quase sempre, é uma disciplina, não um fogo de artifício.

 

SuperPauta: O Colégio Augusto foi sucesso financeiro ou moral?

Nísia Floresta: O sucesso moral sempre veio antes. O financeiro era instável, porque a instabilidade é o imposto cobrado às mulheres que ousam. Eu nunca tive o luxo de trabalhar sem pensar em contas. A grande ironia é esta: querem que a mulher seja perfeita, mas não querem que ela tenha meios.

 

SuperPauta: Por que dar voz ao indígena em A lágrima de um Caeté?

Nísia Floresta: Porque o indígena foi tratado como obstáculo, não como origem. O Brasil gosta de usar o indígena como ornamento de retórica e, ao mesmo tempo, apagar sua dor concreta. Eu quis inverter o olhar: obrigar o leitor a sentir a invasão, a perda, o roubo do chão e do nome.

 

SuperPauta: A senhora viu a escravidão de perto. Qual cena foi a mais insuportável?

Nísia Floresta: Uma mãe vendo o filho ser arrancado de seus braços e vendido como se fosse mercadoria. O grito daquela mulher não era apenas dela: era de uma nação inteira que se acostumou a chamar abismo de economia. A escravidão, meu caro, não apodrece somente o escravizado. Apodrece a alma do senhor.

 

SuperPauta: A senhora via conexão entre a opressão da mulher e a opressão do escravizado?

Nísia Floresta: Sim: a ideia de propriedade. O corpo do outro é tomado como coisa. A voz do outro é tratada como ruído. A vontade do outro é vista como insolência. Quando a sociedade aprende a tratar alguém como objeto, ela se acostuma a objetificar em cadeia. Hoje é o negro. Amanhã é a mulher. Depois é o pobre. O mecanismo é o mesmo, mudam as desculpas.

 

SuperPauta: A senhora temia virar porta-voz dos oprimidos sem pertencer a eles? Como evitava o paternalismo?

Nísia Floresta: Eu temia, sim. E o temor era saudável, porque a vaidade também pode vestir a máscara da compaixão. Eu procurava escutar, observar, aprender. Mas não vos direi que sempre fui perfeita: ninguém é. Minha época tinha cegueiras que até os bem-intencionados carregavam. O que eu podia fazer era não contribuir para o coro do desprezo. E denunciar, do modo que me era possível, a hipocrisia de quem se dizia civilizado enquanto batia em gente.

 

SuperPauta: O Brasil aboliu a escravidão tarde. Isso lhe pareceu alívio ou vergonha?

Nísia Floresta: Alegria tardia tem gosto de vergonha. Libertar é obrigação, não favor. E o Brasil transformou obrigação em festa para a própria imagem. Ainda assim, celebrei a liberdade dos que deixaram de ser legalmente mercadoria. E chorei pelo tempo roubado, pelas vidas inteiras queimadas em silêncio.

 

SuperPauta: A senhora acreditava que o Brasil tinha conserto. Ainda acredita?

Nísia Floresta: Acredito na terra e no povo. Desconfio profundamente das elites que fazem da ignorância um instrumento. O conserto do Brasil não virá apenas por lei escrita. Virá por educação e por vergonha moral. Sem vergonha moral, o homem muda o regime e conserva a crueldade.

 

SuperPauta: Se o Brasil fosse um filho, qual defeito ele nunca corrige?

Nísia Floresta: A mania de confundir esperteza com inteligência, e improviso com destino. E esse vício de culpar sempre o tempo, o mundo, o outro, para não encarar o próprio espelho.

 

SuperPauta: O que a Europa lhe deu além do frio?

Nísia Floresta: Deu-me o anonimato de observar sem ser imediatamente reduzida ao papel que esperavam de mim. Deu-me bibliotecas onde eu não precisava pedir licença por ser mulher. Deu-me interlocuções e também um tipo de solidão que só existe fora da pátria: a solidão de não ser lembrada do modo correto. Mas não idealizeis. A Europa também tem seus preconceitos, apenas mais bem penteados.

 

SuperPauta: Nos salões europeus, a senhora era vista como igual ou como curiosidade tropical?

Nísia Floresta: Como curiosidade, primeiro. Como igual, às vezes, depois. Havia quem me admirasse como se admira um animal raro: com fascínio e distância. “Vede, uma mulher instruída vinda do Novo Mundo!” Era elogio e insulto no mesmo embrulho. Eu aprendi a usar a curiosidade como porta e a inteligência como permanência. Entrar é uma coisa. Ficar, é outra.

 

SuperPauta: Conte um episódio em que exotismo ou racismo velado apertou seu pescoço como luva de pelica.

Nísia Floresta: Num jantar, um cavalheiro elogiou minha “cor tropical” como se eu fosse paisagem. Fez de mim um objeto de fantasia. Respondi com frieza, citando autores e princípios morais, deslocando a conversa para onde eu comandava: o pensamento. Vi o homem engolir o próprio atrevimento junto com o vinho. Há uma vantagem em ser subestimada: o golpe do argumento entra sem ser visto.

 

SuperPauta: Viajar era fuga, método ou cura?

Nísia Floresta: Era respiração. No Brasil, eu sufocava em estreitezas. Viajar era medir o mundo com os próprios pés, e afirmar, a cada fronteira, que eu não era propriedade de lugar nenhum. Escrever itinerários era tentar domesticar a saudade com método.

 

SuperPauta: Se pudesse trazer uma coisa da Europa para o Brasil, o que seria?

Nísia Floresta: O respeito pela memória e pela escola. Lá, uma biblioteca é templo. Aqui, muitas vezes, a escola é tratada como despesa. Enquanto isso não se inverter, o Brasil continuará devendo a si mesmo.

 

SuperPauta: Hoje, mulheres votam, governam países, comandam instituições. Isso supera seus sonhos?

Nísia Floresta: Supera e confirma. Mas não vos enganeis: trocaram-se algumas leis, e muitas violências permaneceram com outros nomes. Antes, a submissão era norma escrita. Hoje, frequentemente, é cultura, e cultura é adversário mais escorregadio.

 

SuperPauta: A palavra “feminicídio” existe. O que a senhora sente ao ouvi-la?

Nísia Floresta: Sinto o horror de um crime velho com nome novo. No meu tempo, chamavam assassinato de “honra”, e chamavam ódio de “amor”. Dar nome é um começo, porque obriga a sociedade a olhar a ferida sem maquiagem. Mas o nome não cura por si. É preciso querer curar.

 

SuperPauta: Existe algo chamado “internet”: uma rede onde pessoas se comunicam instantaneamente, expõem ideias, imagens, vida privada. O que a senhora pensa disso?

Nísia Floresta: Dizeis que há uma espécie de praça pública interminável, onde qualquer voz pode gritar e qualquer mentira pode se vestir de verdade. Vejo aí um prodígio e um perigo. Prodígio, se servir à instrução. Perigo, se servir à vaidade e ao ódio. O pensamento pede tempo. A sabedoria não é veloz. Se a comunicação se torna mais rápida do que a reflexão, o mundo ganha ruído e perde sentido. E quando se perde sentido, a barbárie não tarda.

 

SuperPauta: Nas redes, muitas mulheres expõem o corpo livremente. Isso é liberdade ou nova servidão ao olhar masculino?

Nísia Floresta: Aqui aparece minha contradição, que não escondo. Defendi a mente da mulher. Vi no corpo, muitas vezes, o pretexto usado para escravizá-la. Se uma mulher decide por si, em plena consciência, e não por coação do mercado ou do olhar alheio, há liberdade. Mas se ela se expõe para ser validada, medida, comprada em elogios, então a corrente apenas mudou de material. A tirania, meu caro, pode ser voluntária. E a servidão pode sorrir.

 

SuperPauta: A senhora era conservadora em costumes e radical em direitos. Onde termina liberdade e começa autodestruição?

Nísia Floresta: A liberdade que destrói a dignidade é liberdade sem norte. Eu não defendo que o Estado vigie a mulher. Defendo que a mulher vigie o mundo que tenta comerciar sua imagem. A autonomia não é fazer qualquer coisa. É fazer com consciência, sem pedir permissão aos vícios do tempo.

 

SuperPauta: A senhora defenderia o direito de uma mulher fazer escolhas que a senhora considera moralmente erradas?

Nísia Floresta: Defenderia o direito, sim, ainda que eu lamentasse a escolha. Porque quando se abre exceção para controlar a mulher “pelo bem”, logo essa exceção vira regra, e a mulher volta à jaula. Prefiro uma mulher livre errando a uma mulher “correta” sob tutela.

 

SuperPauta: O que a senhora diria às meninas que acham o feminismo desnecessário?

Nísia Floresta: Diria: é fácil esquecer a tempestade quando se dorme em teto construído por outras mãos. Se hoje falais, é porque outras, antes, pagaram com humilhação e risco. O direito que não se defende se perde como água entre dedos.

 

SuperPauta: E aos homens jovens que se sentem atacados quando ouvem “feminismo”?

Nísia Floresta: Eu lhes diria: não é ataque ao vosso ser, é ataque ao vosso privilégio. E privilégio não é natureza: é costume. Se vosso valor depende da inferioridade alheia, vosso valor é frágil. A igualdade não vos diminui. Ela vos humaniza.

 

SuperPauta: A senhora recebeu a morte com medo ou curiosidade?

Nísia Floresta: Com cansaço e curiosidade. Cansaço de lutar num mundo que muda lentamente. Curiosidade, porque sempre fui investigadora. A morte foi a última pergunta, e eu não podia fingir desinteresse.

 

SuperPauta: Seu corpo voltou ao Rio Grande do Norte décadas depois. O que significa “voltar” quando já se está fora do tempo?

Nísia Floresta: Para mim, pouco importa onde repousam ossos. Para os vivos, importa muito. A volta não foi meu descanso. Foi o pedido de desculpas de uma terra que tardou em reconhecer sua filha. E pedidos tardios também têm valor, porque ensinam às gerações novas a não repetirem a mesma ingratidão.

 

SuperPauta: O que é mais difícil: lutar contra os homens do seu tempo ou contra o esquecimento do nosso?

Nísia Floresta: O esquecimento. Contra os homens eu tinha rosto, argumento, combate. O esquecimento é névoa: apaga sem parecer culpado. É a segunda morte, a definitiva.

 

SuperPauta: Se eu tivesse de resumir sua vida numa cena, e não num conceito… qual cena a senhora escolheria?

Nísia Floresta: Eu escolheria uma sala de aula. Meninas sentadas, algumas assustadas, outras já insolentes. Eu abrindo um livro e perguntando, sem piedade: “Que pensais?” E o silêncio primeiro, e depois a primeira resposta, frágil, trêmula, mas nascida. É aí que o mundo muda: quando uma voz que nunca foi ouvida aprende a existir.

 

SuperPauta: Uma mensagem final para as mulheres brasileiras.

Nísia Floresta: Não espereis licença. A licença, quase sempre, é uma coleira. Educai-vos. Instruí-vos. Não para competir com homens, mas para não serdes governadas por ignorantes. E não negocieis vossa dignidade por aplausos.

 

SuperPauta: E para os homens?

Nísia Floresta: Desçam do pedestal. A solidão lá em cima é terrível, e a queda, quando vem, é humilhante. Aprendei a ouvir. Aprendei a repartir o cuidado, a casa, o mundo. A virilidade que se alimenta de domínio é pobreza de espírito.

 

SuperPauta: Como a senhora quer ser lembrada?

Nísia Floresta: Não como santa. Santos não servem como modelo humano. Quero ser lembrada como mulher que recusou o tamanho que lhe ofereceram. Como alguém que, quando disseram “cala”, respondeu “escrevo”. (Enquanto ela se levanta, o ambiente muda. A biblioteca se dissolve em areia. A areia se dissolve em páginas. O violino cessa. Fica apenas o vento, e uma pena antiga sobre uma mesa vazia, como se a memória tivesse mãos.)

Nísia Floresta: Adeus. E não me façais elogio fácil. Fazei-me justiça: lendo-me, discutindo-me, contrariando-me quando for preciso. A obra que ninguém enfrenta vira enfeite. Eu não escrevi para ser enfeite.



terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Kher-Ba, o ET de Varginha

 Encontros Impossíveis

O náufrago de olhos vermelhos

Em um limbo cinzento onde o tempo é apenas uma memória, a criatura que protagonizou o maior mistério ufológico do Brasil quebra um silêncio de três décadas. Longe das teorias da conspiração e dos relatórios militares, ele revisita a queda em Minas Gerais, o terror compartilhado num terreno baldio, a agonia em uma mesa de operação e a incompreensão de uma humanidade que, ao encarar o desconhecido, preferiu ver o inimigo. Entre a biologia e o espírito, ele revela o lado de quem não veio invadir, mas apenas naufragou.

 

“Vocês olham para o céu procurando deuses, mas quando caímos na lama, vocês veem apenas monstros. O medo é a única escuridão real.” – Kher-Ba (O Ser de Varginha)

 

Há lugares que não existem no mapa, mas existem no corpo. Este não é terreno, nem celestial. É um cenário de consciência, uma espécie de sala sem paredes onde o tempo não anda em linha reta: ele pulsa, como um coração antigo, às vezes acelerando, às vezes ficando tão lento que dá para ouvir o silêncio ranger. O ambiente lembra uma caverna úmida. Não porque eu veja estalactites ou rochas, mas porque tudo cheira a chão depois da chuva. Terra molhada. Musgo. Umidade. E, por trás disso, um odor acre e pungente, que não dá para ignorar: amônia. A mesma palavra que volta nos relatos de 1996 como um refrão incômodo. Não há cadeiras. Não há mesa. Não há gravador. Meu caderno existe, mas parece um objeto deslocado, como se eu tivesse levado um guarda-chuva para dentro de um aquário. Ainda assim, eu o seguro. Costume de repórter. Amuleto de quem acredita que registrar é uma forma de não enlouquecer.

Diante de mim, agachado, com os joelhos recolhidos contra o peito, está a figura que o Brasil aprendeu a chamar de “ET de Varginha”. Mas “ET de Varginha” é rótulo de manchete, e manchetes não respiram. O que vejo aqui respira. Ou algo análogo a isso. Ele é pequeno. Não a “pequenez” caricata de folclore, mas uma estatura que sugere economia de energia, adaptação, gravidade. A pele é marrom-escura e tem um brilho oleoso, como se guardasse um filme protetor. Na cabeça, três protuberâncias discretas pulsam num ritmo lento, quase hipnótico. Mas são os olhos que dominam a cena: vermelhos, enormes, sem pupilas visíveis. E, no entanto, não há fúria neles. Há uma tristeza líquida, profunda, desconfortavelmente reconhecível.

Este encontro impossível não pretende encerrar o caso Varginha. Não pretende “provar” nada. A proposta aqui é outra: inverter o olhar. Em vez de perguntar “o que era aquilo?”, perguntar “quem era aquilo?”. Em vez de transformar o desconhecido em inimigo, permitir que ele se explique, mesmo que a explicação venha cheia de falhas, traduções imperfeitas e ambiguidades. Porque se existe uma verdade teimosa em toda história de espanto, ela é esta: quando a humanidade encara o que não entende, costuma escolher entre duas máscaras. Riso ou agressão. Meme ou arma. E, muitas vezes, as duas ao mesmo tempo. Eu respiro. Tento firmar a atenção. Sinto um zumbido leve no ouvido, como quem encosta a cabeça num poste e percebe a eletricidade sem tocar no fio. É estranho, mas não é ameaça. É apenas… diferença. E eu decido começar como todo jornalista deveria começar diante do extraordinário: fazendo perguntas que qualquer pessoa entenderia. Sem pressupostos. Sem atalhos. Sem depender de versões anteriores. Sem “piscadinhas” para o rascunho.

 



SuperPauta: Antes de qualquer coisa, eu preciso saber como me dirigir a você. “ET de Varginha” é um apelido que a imprensa e o povo criaram. Mas apelidos desumanizam e simplificam. Você tem um nome individual? Uma designação? Uma função? Algo que eu consiga pronunciar e escrever sem parecer que estou inventando? (A resposta não chega como som. Não há voz no ar. O que chega é uma presença dentro da mente, como se alguém tivesse colocado uma frase pronta no centro do pensamento, mas com textura, cor e sensação).

Kher-Ba: Nomes são âncoras. Vocês usam nomes para prender o mundo ao chão, para não se perderem. Onde eu vim, nós somos definidos por ressonância e por utilidade ao todo. Mas eu entendo o seu pedido. Você precisa de um som, de um símbolo verbal. A aproximação mais fiel da minha designação seria “Aquele que Mapeia Fluxos”. Se você quer algo curto, pode usar Kher-Ba. Não é completo, mas funciona como ponte.

 

SuperPauta: Quando você aceita que eu use “Kher-Ba”, isso é mais confortável para você, ou é apenas uma forma de facilitar a nossa comunicação aqui?

Kher-Ba: É uma forma de facilitar. O conforto, para mim, não vem da palavra. Vem da intenção. Se a intenção for me reduzir a personagem de feira, a palavra vira faca. Se a intenção for compreender, a palavra vira porta.


SuperPauta: Eu preciso estabelecer outra coisa. O que você topa contar e o que você não consegue contar? Existe algum tipo de limite, proibição, ou “sigilo” do seu lado?

Kher-Ba: Não há generais com carimbos aqui. Não há censores. Há limites, sim. Mas eles não vêm de polícia. Vêm da tradução. Se eu tentar colocar certas ideias diretamente dentro da sua mente, seu cérebro não vai entender. Vai transformar em ruído. Em dor. Em cansaço. Então eu escolho caminhos que cabem na sua linguagem. E há algo mais… (ele hesita, e eu sinto a hesitação como uma queda de temperatura) há algo pessoal: vergonha.

 

SuperPauta: Vergonha do quê exatamente? De ter sido visto vulnerável? De ter virado espetáculo? Ou de alguma decisão tomada antes da queda?

Kher-Ba: De tudo isso. No meu mundo, fragilidade é íntima. A dor não é performance. Aqui, minha fragilidade virou narrativa. E narrativa vira comércio. Eu tenho vergonha de ter sido observado como se eu fosse um objeto e, ao mesmo tempo, de ter observado vocês com a frieza de quem cataloga. Nós também erramos.

 

SuperPauta: Uma última pergunta para alinhar a entrevista. Você quer ser entendido, ou quer apenas que sua existência fique registrada? Pergunto isso porque registro é frio. Entendimento exige empatia, e empatia exige risco.

Kher-Ba: Registro vocês já têm. Vocês têm relatos, disputas, versões, caricaturas. Eu quero ser entendido. Eu quero que saibam que o ser encolhido sob a chuva sentia frio. Que o “invasor” sentia saudade de casa. E quero que vocês se vejam no espelho sem quebrar o espelho.

 

SuperPauta: Para nós, você morreu em 1996. Mas aqui estamos conversando. Você se percebe morto? O que mudou quando o seu corpo parou?

Kher-Ba: A morte é um conceito de desligamento de sistemas biológicos. O receptáculo parou. A circulação parou. A regulação parou. Mas a consciência não depende daquele corpo da forma como vocês acreditam. Eu fui retirado da densidade. Da gravidade que esmagava meus ossos. Do ambiente que queimava minhas mucosas. Agora eu sou… percepção. Fluxo.

 

SuperPauta: Quando você diz “fluxo”, o que isso significa de maneira simples? Onde você está, afinal? Você está em algum lugar, ou “lugar” não serve mais?

Kher-Ba: “Lugar” ainda serve, mas serve de outro modo. Pense numa correnteza. Você não diz “onde está a água” como se fosse um bloco parado. Você diz “onde ela passa”. “Como ela se move”. Eu estou numa dimensão onde pensamento vira direção. Onde intenção vira movimento. Não é céu, não é inferno. Isso é uma forma humana de organizar o desconhecido com prateleiras.

 

SuperPauta: E como esta conversa acontece? Eu sinto imagens, cheiros, lembranças que não são minhas. Isso é telepatia? É sonho? É uma tradução da minha mente?

Kher-Ba: Vocês usam palavras. Palavras são códigos sonoros lentos e incompletos. Nós usamos pacotes sensoriais. Conceito, sensação, memória e intenção juntos. Eu não estou “falando português”. Eu estou projetando a ideia. O seu cérebro escolhe as palavras mais próximas para vestir essa ideia. Às vezes ele acerta. Às vezes ele inventa sem querer.

 

SuperPauta: Então existe o risco de eu estar colocando poesia onde deveria haver desconforto, ou colocando lógica onde deveria haver emoção?

Kher-Ba: Sim. E existe o risco de você se defender. Vocês se defendem de tudo que ameaça a imagem que vocês têm de vocês mesmos.

 

SuperPauta: Vou perguntar de um jeito que eu ou qualquer leitor entenda. Você sente raiva, dor, saudade ou medo como a gente? Ou eu estou colocando sentimentos humanos em você quando talvez a sua mente funcione de outro jeito?

Kher-Ba: Eu sinto. Mas não como vocês. O medo é universal. É o alarme de preservação. A saudade também é constante. No meu caso, saudade não é falta de um indivíduo. É falta de uma harmonia. Vocês são ilhas. Cada mente trancada num crânio, tentando adivinhar a outra por gestos e palavras. No meu mundo, nós somos rede. Oceano. E quando eu caí aí, eu fiquei sozinho pela primeira vez. Isso foi a maior dor que eu já experimentei.

 

SuperPauta: Você sente raiva do que aconteceu?

Kher-Ba: Eu senti no começo. A raiva é uma chama que consome energia. Eu precisava de energia para sobreviver. Depois, a raiva virou pergunta. Por que vocês preferem ver inimigo no desconhecido? E há algo que me irrita em vocês, sim.

 

SuperPauta: O que irrita?

Kher-Ba: Vocês transformam tudo em disputa de torcida. Verdade contra mentira. Crente contra cético. Herói contra vilão. Vocês não suportam o “talvez”. O “talvez” é onde mora a inteligência.

 

SuperPauta: Você está sozinho agora, ou está conectado a outros como você? Os outros que caíram com você estão aí também?

 

Kher-Ba: Não estou sozinho. Meus companheiros retornaram ao fluxo antes de mim. Mas aqui a individualidade é menos rígida. Eu sou Kher-Ba, e sou parte de um todo. O universo, do lado de cá, é tão povoado quanto o físico. Vocês só não percebem.

 

SuperPauta: De onde você veio? Seu mundo é um planeta físico, como a Terra, ou é um habitat artificial, ou algo que existe em outro tipo de “realidade”?

Kher-Ba: É um mundo físico. Denso. Ele orbita uma estrela velha que vocês chamariam de anã vermelha. A luz lá não é branca e agressiva como a do seu Sol. É um crepúsculo permanente. Uma luz avermelhada, suave.

 

SuperPauta: Descreva a paisagem do seu planeta com detalhes que qualquer pessoa consiga imaginar: como é o céu, a luz, o solo, a vegetação se existir, o cheiro do ar e como são as cidades ou abrigos de vocês. Se eu estivesse lá por cinco minutos, o que me chocaria primeiro?

Kher-Ba: O peso. A gravidade. Você pisaria e sentiria o chão puxando seu corpo com força. Seu peito pareceria menor. Sua respiração ficaria curta. O céu, quando aparece, não tem o azul de vocês. Ele é escuro. A luz é baixa e vermelha, como fim de tarde que nunca termina. Não há florestas verdes. A fotossíntese lá segue outros caminhos. Vocês veriam cores que chamariam de ocre, roxo escuro, marrom, cobre. Há estruturas, sim, mas nossas cidades não são torres. Elas são cavidades. Abrigos escavados e integrados ao solo. Vocês desafiam o mundo. Nós negociamos com ele. O cheiro do ar tem vapores que vocês chamariam de tóxicos. Sulfurosos. Amônia em proporções que queimariam suas mucosas.

 

SuperPauta: E seus olhos vermelhos e grandes. Isso tem a ver com essa luz?

Kher-Ba: Sim. Eles captam espectros que os seus olhos não captam. No meu mundo, ver infravermelho é sobreviver. Vocês associam vermelho a perigo porque vocês colocam moral na cor. Isso é um hábito cultural. Não é uma lei do universo.

 

SuperPauta: A sua espécie respira oxigênio como nós?

Kher-Ba: O oxigênio, para nós, é agressivo. Ele é útil em pequenas proporções. Em excesso, ele queima lentamente por dentro. Nós respiramos misturas que vocês não tolerariam.

 

SuperPauta: As testemunhas falaram de um cheiro forte, de amônia e enxofre, no episódio de Varginha. Para quem está lendo e não conhece o caso, eu pergunto: aquele cheiro vinha do seu corpo, vinha da nave, vinha do estresse, ou vinha de um vazamento do sistema de suporte de vida?

Kher-Ba: Pode ter sido tudo isso junto. Minha pele exala substâncias para regular temperatura e para filtrar o ambiente. Sob estresse e intoxicação, isso se intensifica. E houve vazamento do sistema da nave. Eu posso afirmar a sensação. Eu não posso afirmar medidas. Eu não tinha instrumentos. Eu tinha dor.

 

SuperPauta: As três protuberâncias na sua cabeça. Para muita gente isso parece “fantasia” ou “meme”. O que elas são e para que servem?

Kher-Ba: São órgãos sensoriais. Se eu usar uma palavra que vocês entendem rápido: são como antenas biológicas. Elas captam vibrações, campos magnéticos e padrões mentais.

 

SuperPauta: Quando você fala em captar padrões mentais, isso significa ler pensamentos palavra por palavra, ou significa perceber emoções, intenções e estados mentais gerais?

Kher-Ba: Eu percebo emoções e intenções com mais clareza. Pensamento verbal, frase por frase, é mais difícil, porque a mente humana é ruidosa. Vocês dizem muito por dentro para esconder o que sentem.

 

SuperPauta: Vocês se alimentam? O que é “comida” para você?

Kher-Ba: Nós não mastigamos como vocês. Nosso sistema digestivo mudou com o tempo. Nós nos nutrimos de pastas energéticas e de absorção por mucosas. Em alguns casos, pela pele, em banhos de nutrientes. A prática humana de matar outro ser vivo, cozinhar e mastigar, para nós é um choque cultural. Eu sei que vocês têm rituais, cultura, história. Eu não estou chamando vocês de monstros por isso. Estou descrevendo o estranhamento.

 

SuperPauta: Como funciona a reprodução da sua espécie e o que vocês chamariam de família? Existem vínculos parecidos com pai, mãe, filhos e parceiros, ou a vida social de vocês é estruturada de outro jeito?

Kher-Ba: Nós somos gestados em câmaras de desenvolvimento. Genética selecionada por função. Isso não significa frieza. Significa menos ansiedade. O vínculo existe. Mas não é baseado em posse. Não é “meu”. É “nosso”.

 

SuperPauta: Existe arte no seu mundo? Música, imagens, histórias? Para que ela serve: entretenimento, ciência, memória coletiva, espiritualidade? E por que uma espécie avançada ainda precisaria de arte?

Kher-Ba: A arte é inevitável onde existe percepção. No meu mundo, música é matemática. Navegação. Arquitetura de campo. Nós usamos harmonia para construir e para viajar. A arte também é memória coletiva. Catedrais de pensamento que todos podem visitar mentalmente. Eu admiro uma coisa em vocês: vocês transformam sofrimento em canção. Vocês fazem da dor uma forma de beleza. Isso é perigoso e bonito.

 

SuperPauta: Sua nave era uma máquina feita de metal e circuitos, como as nossas, ou era algo vivo, biológico, ou um híbrido?

Kher-Ba: Híbrido. A estrutura é cultivada, mas os sistemas de controle são neurológicos. A nave responde ao piloto. Ela aprende.

 

SuperPauta: Para um leitor comum, isso soa como misticismo ou fantasia. Então eu pergunto de maneira prática: como você distingue “vivo” de “máquina”? O que muda na experiência do piloto?

Kher-Ba: Vocês distinguem por sangue e batimento. Nós distinguimos por resposta adaptativa. A nave não é um objeto morto. Ela ajusta padrões, responde a intenção, corrige instabilidades. Ela é parceira.

 

SuperPauta: Como vocês viajam distâncias enormes? Vocês usam dobra, buracos de minhoca, algum tipo de salto? Explique sem equações e sem palavras de filme.

Kher-Ba: Vocês pensam em distância como estrada. E em viagem como velocidade e fogo. Nós pensamos em distância como sintonia. Não é “correr pelo espaço”. É mudar o estado de ressonância para que a nave deixe de estar no ponto A e passe a estar no ponto B. Para vocês, a metáfora mais próxima seria trocar de canal. Você não viaja até o canal. Você sintoniza.

 

SuperPauta: O que custa essa viagem? Energia? Risco? Dano ao corpo? Um preço ético?

Kher-Ba: Custa biologia. Cada salto desestabiliza células. Envelhece sistemas. Cobra de nós. E custa ética, sim. Porque viajar até outro mundo é tocar algo que não é seu. Vocês também fazem isso na Terra. A diferença é que vocês raramente admitem o preço.

 

SuperPauta: O que, na nossa ciência atual, está mais próximo do certo, e o que está profundamente incompleto? Eu não quero humilhar ninguém, eu quero clareza.

Kher-Ba: Vocês são bons em medir efeitos e ruins em compreender causas. Vocês dominam explosão, combustão, empuxo. Mas ignoram o papel da consciência como parte do fenômeno. E vocês ainda separam observador e realidade como se fossem coisas diferentes.

 

SuperPauta: Por que a Terra? O que vocês vieram buscar aqui especificamente naquela missão? Observação? Coleta? Contato? Algo mais?

Kher-Ba: A Terra é uma joia rara. A biodiversidade genética é vasta. Nós viemos observar e coletar amostras de baixa interferência. Plantas, água, material biológico simples. Não viemos invadir. Não viemos colonizar.

 

SuperPauta: Você mencionou “baixa interferência”. Eu preciso insistir porque isso é um ponto de debate importante: para quem está lendo, coletar material biológico já é interferir. Como você justifica essa diferença? Onde termina a observação e começa a intervenção?

Kher-Ba: (As protuberâncias pulsam mais rápido, como se ele se irritasse, mas ele não foge.) É uma zona cinzenta. Nós chamamos de “interferência” quando alteramos o curso de uma sociedade, quando ensinamos tecnologia, quando mudamos decisões coletivas. A coleta de amostra, para nós, é como vocês coletarem uma gota de água do mar para estudar. Mas eu reconheço: para quem está dentro do mar, isso ainda é retirar algo. Se vocês chamarem isso de invasão, parte de vocês estará certa.

 

SuperPauta: Então por que fazer isso?

Kher-Ba: Porque há curiosidade. Curiosidade também é ego. E porque a Terra está em risco pelas mãos de vocês. Catalogar o que existe aqui também é registrar antes que desapareça.

 

SuperPauta: Por que o Brasil? E por que aquela região específica de Minas Gerais? Havia algo geológico, magnético, ou foi acaso?

Kher-Ba: Havia anomalias magnéticas úteis para calibração. Mas parte foi acidente. Parte foi decisão. E, quando a instabilidade ocorreu, nós descemos onde foi possível. Vocês romantizam muito. Às vezes o cosmos é… prosaico.

 

SuperPauta: Por que isso aconteceu justamente no período que nós marcamos como 1996? Foi uma janela de navegação? Uma decisão estratégica? Algo ligado ao que estava acontecendo na Terra naquele momento?

Kher-Ba: Havia uma janela favorável. E havia muito ruído tecnológico na Terra. Radar. Comunicação. Experimentação. A Terra era farol e tempestade.

 

SuperPauta: O que causou a queda da nave, na sua percepção? Foi falha interna, clima, interferência externa, acidente?

Kher-Ba: Houve perda de estabilidade de ressonância. Houve interferência eletromagnética e fenômenos atmosféricos. Houve tentativa de correção. E falha.

 

SuperPauta: Isso é uma lembrança clara do que você viveu, ou é uma reconstrução que você faz agora juntando pistas? O que é certeza absoluta na sua memória, e o que pode estar distorcido pelo choque?

Kher-Ba: A certeza absoluta é o impacto. O rasgo. A violência. O resto pode ter camadas. O choque distorce. A dor distorce. Eu posso estar juntando causas porque vocês, humanos, gostam de causas.

 

SuperPauta: Quando você saiu dos destroços, para onde tentou ir? Você buscou abrigo, socorro, conserto, resgate?

Kher-Ba: Sombra. Umidade. Silêncio. Eu precisava reduzir agressão ao meu sistema. Eu tentei enviar sinal, mas a nave estava comprometida. Eu me arrastei até um lugar que parecia menos exposto. Um terreno. Um muro. Matagal. E eu me encolhi.

 

SuperPauta: Como foi respirar o ar da Terra pela primeira vez fora da nave?

Kher-Ba: Foi como respirar fogo frio. Eu sentia o oxigênio como ácido lento. Mas, ao mesmo tempo, senti cheiros que não existem no meu mundo. Terra. Planta. Água. Eu pensei: este planeta é vivo demais.

 

SuperPauta: Você estava ferido? Qual a gravidade?

Kher-Ba: Microfraturas. Lesões internas. Colapso de ritmos biológicos. E o isolamento. Vocês não entendem o isolamento como ferimento, mas para mim foi ferida aberta.

 

SuperPauta: O encontro com as três meninas, no Jardim Andere. Para quem está lendo e não conhece o episódio: elas relatam que viram uma criatura agachada e entraram em pânico. O que você viu nelas, e o que você tentou fazer?

Kher-Ba: Eu ouvi passos antes de ver. Eu captei juventude. Curiosidade. E medo, já antes do choque. Quando elas me viram, a mente delas explodiu em pânico. Eu tentei projetar um pedido simples: ajuda. Mas o medo delas foi tão forte que me paralisou mais.

 

SuperPauta: Você tentou acalmá-las? Você tentou se comunicar de forma que elas entendessem?

Kher-Ba: Eu tentei. Mas transmitir calma exige que o receptor aceite. Elas estavam em modo fuga. E eu não podia forçar.

 

SuperPauta: Quando você diz “forçar”, isso significa que você poderia ter apagado ou alterado a memória delas? Muita gente vai achar isso misericórdia. Muita gente vai achar isso violência. Como você vê?

Kher-Ba: Apagar dor é apagar verdade. E sem verdade vocês repetem. Eu poderia ter reduzido a lembrança. Mas isso seria invadir a mente delas. Seria transformar pessoas em objetos. Eu já estava sendo tratado como objeto. Eu não queria devolver isso ao mundo.

 

SuperPauta: Elas acharam que você era o “Diabo”. Você percebeu esse conceito? E o que achou dele?

Kher-Ba: Eu captei o arquétipo do mal. Isso me ensinou algo duro: vocês têm monstros prontos para colar em tudo que é novo. Eu não era monstro. Eu estava tremendo. Mas vocês viram ameaça porque vocês associam feio a mau. Essa estética moral é uma cegueira.

 

SuperPauta: Como foi o momento da captura? Quem chegou, como te trataram, o que você sentiu?

Kher-Ba: Cheiro de diesel. Vozes tensas. Metal. Rede. A rede rasgou minha pele em fissuras pequenas. O medo deles era intenso. Não era curiosidade calma. Era medo armado. Eu fui tratado como animal perigoso. Mas eu estava fraco.

 

SuperPauta: No meio da operação, você notou pessoas que não pareciam fazer parte das equipes locais? Você ouviu outra língua, percebeu uniformes diferentes, ou isso pode ter sido confusão do seu estado físico naquele momento?

Kher-Ba: Eu ouvi sons que não eram português. Eu vi pressa. Eu vi hierarquia. Mas eu não posso afirmar nacionalidade por tecido. Isso é o mundo de vocês. Eu posso dizer que havia mais gente interessada do que vocês gostam de admitir.

 

SuperPauta: Você foi colocado numa caixa, coberto, levado como se fosse carga? O que passava na sua mente?

Kher-Ba: Sim. Madeira. Escuro. Vibração de estrada. Eu pensei que morreria sem ser visto como ser. Pensei que minha última imagem seria rosto com nojo.

 

SuperPauta: No hospital, houve tentativa de salvar sua vida, ou você sentiu que virou objeto de estudo?

Kher-Ba: Houve os dois. Houve uma enfermeira que me cobriu com um lençol como se eu fosse pessoa. Houve um olhar que me tratou como prêmio. Eu não tenho nomes. Eu tenho impressões. E a impressão de “prêmio” é universal.

 

SuperPauta: O que exatamente causou sua morte? Ferimentos, bactérias terrestres, atmosfera, tudo junto?

Kher-Ba: Mistura. Ferimentos, intoxicação por oxigênio, falha do meu sistema sob isolamento. Vocês subestimam o que é ficar sem rede. É como arrancar um órgão.

 

SuperPauta: Agora vem a parte mais delicada, porque envolve uma morte real e versões que ainda hoje dividem opiniões. O policial Marco Eli Chereze morreu depois. Existem pessoas que ligam isso ao contato com você. Eu quero separar duas coisas: o que você sabe por experiência direta e o que você apenas deduz ou ouviu depois.

Kher-Ba: Eu sei que ele me tocou sem proteção. Eu sei que minha pele carrega microbiota simbiótica. Eu sei que, para vocês, isso pode ser agressivo. Eu não sei o que exatamente matou aquele homem, porque eu não vi exames, não vi laudos, não acompanhei a medicina de vocês. Eu ouvi histórias depois, no fluxo. Mas histórias também viram mito.

 

SuperPauta: Você sente remorso?

Kher-Ba: Eu sinto tristeza. Remorso é intenção. Eu não tive intenção. Mas eu carrego a dor de ter sido o gatilho de um fim humano. Se eu pudesse voltar, eu teria evitado o toque. Mas eu não controlava a situação. Eu era carga.

 

SuperPauta: Quando você diz “eu era carga”, isso é uma metáfora ou é a forma mais exata de descrever como você foi tratado?

Kher-Ba: É exato. Vocês transformam seres em carga com facilidade. Em guerra, em hospital, em notícia, em meme. E depois perguntam por que o mundo parece frio.

 

SuperPauta: Muita gente fala em “acobertamento”. Muita gente nega. Eu não quero que você me dê uma certeza fácil. Eu quero camadas. O que você viu, o que você deduz, o que você ouviu depois.

Kher-Ba: Eu vi pressa. Eu vi isolamento. Eu vi medo institucional. Eu deduzo que houve controle de narrativa, porque vocês controlam narrativa quando o poder se sente ameaçado. Eu ouvi histórias de transporte, de cofres, de laboratório. Mas eu não posso jurar locais. Eu perdi consciência. O resto é neblina.

 

SuperPauta: Por que negar, então?

Kher-Ba: Porque admitir é perder controle. Se o Estado admite que não controla o céu, ele perde o monopólio do medo. E medo é moeda política.

 

SuperPauta: Agora eu vou jogar uma pergunta que incomoda os dois lados. Se vocês são avançados e existem mesmo, por que permitir que governos escondam tudo? Por que não aparecer e pronto? Isso não parece paternalismo do tipo “vocês não estão prontos”?

Kher-Ba:  (Um silêncio pesado. E, pela primeira vez, eu sinto algo do lado dele que parece culpa.) Porque nós também temos medo.

 

SuperPauta: Medo do quê?

Kher-Ba: De provocar colapso. Vocês não lidam bem com a ideia de não serem únicos. Vocês podem reagir com adoração, pânico ou agressão. Em massa. E vocês têm armas, culto, histeria e propaganda. Aparecer não é simples. É responsabilidade.

 

SuperPauta: Mas isso não é uma desculpa conveniente? “Não apareço porque vocês são imaturos” soa como alguém que quer vantagem sem prestar contas. E, ao mesmo tempo, você admitiu que a curiosidade de vocês também é ego. Então eu volto ao tema: existe um interesse de vocês em manter tudo no meio do nevoeiro?

Kher-Ba: Sim. E eu aceito que vocês desconfiem. Desconfiar é saudável. Nós não somos santos. Nós somos seres. Com interesses. Com medo. Com contradições. A diferença é que nós somos treinados para admitir contradições sem quebrar a mente. Vocês preferem quebrar o espelho.

 

SuperPauta: Você disse que consciência não é produzida pelo cérebro como a gente acredita. Isso é um campo minado aqui na Terra. Então eu quero que você formule com humildade, sem dogma. O que você pode afirmar e o que você não pode?

Kher-Ba: Eu posso afirmar a minha experiência. Eu existo sem o corpo. Isso não “prova” tudo. Mas indica que a consciência não é apenas lixo químico. Vocês tratam a consciência como subproduto. Como fumaça. E vocês sofrem por isso.

 

SuperPauta: O tempo, para você, é linear? Passado, presente e futuro? Ou é outra coisa?

Kher-Ba: O tempo é paisagem. Vocês caminham por trilhas. Às vezes, por trauma, vocês ficam presos num lugar da paisagem. Vocês chamam isso de lembrança. Ou saudade.

 

SuperPauta: Se você pudesse dar uma pista verificável em vinte anos, algo que um leitor comum pudesse cobrar sem virar fé, qual seria?

Kher-Ba: Vocês vão medir correlações entre consciência e fenômenos físicos sem cair em superstição. Vocês vão chamar de “efeito do observador ampliado”. Isso vai irritar metade dos cientistas de vocês. E irritar cientista é bom quando a irritação vira pesquisa, não vira perseguição.

 

SuperPauta: Depois de tudo, você consegue perdoar as pessoas envolvidas? As meninas, os que capturaram você, os que esconderam o caso? Se perdoa, é empatia, é indiferença evoluída, ou é outra coisa?

Kher-Ba: Perdão implica ofensa pessoal. Eu senti tristeza. Eu senti medo. Eu não senti ódio como vocês sentem. Mas eu quero que vocês discutam algo mais difícil do que perdão. Responsabilidade.

 

SuperPauta: Responsabilidade de quem?

Kher-Ba:  Da criança que grita. Do soldado que obedece. Do médico que cala. Do jornalista que romantiza. Do ufólogo que exagera. Do cético que ridiculariza. Vocês gostam de escolher um vilão porque vilão simplifica. A verdade quase sempre é distribuída.

 

SuperPauta: Qual é o maior erro da humanidade, na sua visão?

Kher-Ba: A separação. Vocês vivem como se o planeta fosse cenário e não corpo. Vocês acham que o que fazem ao vizinho, ao rio, à floresta, não volta. Volta.

 

SuperPauta: Você falou de dor, medo, tecnologia, política, segredo. Agora eu quero uma coisa que quase ninguém pergunta: o que você achou bonito na Terra?

Kher-Ba: A chuva. A água caindo do céu é um milagre planetário. E a coragem de vocês de seguir vivendo depois do medo. As meninas… elas voltaram para casa e continuaram. Isso me comove. Vocês são frágeis e teimosos. Às vezes a teimosia salva.

 

SuperPauta: Qual parte do que aconteceu depois, na cultura humana, mais te diverte ou mais te humilha? A imprensa, os memes, os bonecos, as versões?

Kher-Ba: O boneco é engraçado. Vocês transformaram trauma em “fofo”. Isso é uma forma de domesticar o medo.  Eu aceito ser mascote se isso ajudar vocês a dormir. Mas eu desprezo quando vocês vendem medo como entretenimento. Medo dá clique. Eu aprendi isso rápido.

 

SuperPauta: Mensagem final. Eu peço uma imagem, não uma frase bonita. E peço que seja para qualquer leitor: o crente, o cético, o curioso e o indiferente.

Kher-Ba: Imaginem uma criança perdida na lama, tremendo, sob chuva. E imaginem que vocês têm duas opções: a pedra ou a mão. Quando o desconhecido cair de novo, porque vai cair, escolham a mão. Chamem médicos, não armas. Chamem filosofia, não gritos. E olhem para o céu sem pedir salvadores. Peçam maturidade. O universo não é palco de heróis. É vizinhança. Se vocês continuarem tratando vizinho como inimigo, vão morrer sozinhos no próprio planeta.


(A conexão se desfaz como fumaça. O cheiro de amônia desaparece de repente, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível. Fica apenas um silêncio comum, quase banal. E é aí que a vida real dá seu golpe: uma notificação qualquer, o café esfriando, o mundo pedindo pressa. Eu fico alguns segundos parado, com uma sensação incômoda, que não sei se é literária ou fisiológica: a de que eu não entrevistei um “monstro”, nem um “anjo”. Eu entrevistei um espelho. E o espelho respondeu.)