Do menino de fronteira ao João Sem Medo, Saldanha revisita o Botafogo, as Feras, a demissão antes do Tri e um futebol que aprendeu a vender tudo, menos a coragem de dizer o que vê.
Entrevista imaginária por Roberto Homem
Entrevista imaginária por Roberto Homem
Entre o silêncio do Maracanã e o barulho do tempo, Barbosa fala baixo — mas diz tudo
“A pena máxima no Brasil é de 30 anos. Eu paguei mais de 50” — Barbosa
O Maracanã está vazio. Não o de hoje, organizado e
domesticado por cadeiras coloridas, mas o outro — aquele que ainda respira
ecos. O concreto guarda vozes que não se dissiparam. Há um fim de tarde
suspenso, sem pressa de virar noite. O gramado parece maior quando não há jogo.
Ou talvez mais honesto. No centro do
campo, um homem. Não está vestido como goleiro. Não há luvas. Não há uniforme.
Mas há algo que permanece — uma forma de olhar o espaço como quem ainda mede
distâncias invisíveis. Moacyr Barbosa. Ele não chega. Ele já está ali. Sentado,
com o corpo levemente inclinado para frente, como quem ainda espera o próximo
lance. Não há amargura no rosto, mas há memória. Muita. O silêncio aqui não é
vazio. É presença. E é dentro dele que
começa este encontro impossível.
Nesta conversa que atravessa o tempo, Moacyr
Barbosa revisita a própria trajetória com a mesma sobriedade que marcou sua
vida dentro e fora dos gramados. Do menino tímido de Campinas ao goleiro que
encontrou no Vasco da Gama o auge de sua carreira, ele reconstrói, sem
grandiloquência, o caminho que o levou ao centro de um dos episódios mais
marcantes da história do futebol brasileiro. Ao relembrar o gol de Alcides
Ghiggia na final de 1950, Barbosa não se defende nem se justifica — ele
descreve. E, ao fazê-lo, revela como um lance de segundos se transformou em uma
sentença de décadas. Entre memórias do campo, reflexões sobre o ofício de
goleiro e considerações sobre racismo, injustiça e o peso do julgamento
público, emerge um homem que nunca deixou de compreender o jogo — mas precisou
aprender, sozinho, a lidar com tudo o que veio depois dele.
Neste Encontro
Impossível, ouvimos Carolina Maria de Jesus com tudo o que a fez única: a
altivez sem licença, a ironia cortante, a vaidade ferida, a memória da fome, a
fé vigiada, o apego à palavra exata e a recusa feroz de qualquer hipocrisia.
“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra.” — Carolina Maria de Jesus
Não estamos num gabinete de
madeira nobre, nem numa biblioteca silenciosa, dessas onde os livros dormem em
paz. O lugar desta conversa é outro. Fica num território suspenso entre o barro
e o asfalto, entre Sacramento e o Canindé, entre a página e a panela. À esquerda,
um córrego escuro parece andar devagar, como se carregasse nas costas o cansaço
de um país inteiro. À direita, um fogão pobre respira em pequenas labaredas, e
sobre ele um cheiro de café ralo tenta vencer a umidade do ar. No chão há
papéis amassados, páginas soltas, pedaços de jornal, um caderno de capa gasta,
uma boneca sem braço, uma lata vazia. Tudo parece ter sido recolhido do mundo
para não morrer de vez. É nesse cenário que Carolina Maria de Jesus me espera.
Sentada num banco simples, de vestido escuro e lenço branco, ela tem a postura
firme de quem aprendeu dignidade na luta. Os olhos, lúcidos e inquietos, parecem
medir a pessoa à sua frente. Ao lado, a caneta repousa sobre o caderno não como
enfeite, mas como instrumento de defesa.
Carolina não é estátua nem
personagem domesticada. É mulher, mãe, negra, escritora, compositora, autora
que o Brasil tentou reduzir à fome, mas que sempre foi maior do que o rótulo.
Neste encontro, passaremos pela menina de Sacramento, pela catadora de papel,
pela mãe, pela autora de Quarto de Despejo e pela artista que jamais quis ser
lida apenas como documento da miséria. Falaremos de fome, sim, mas também de
língua, orgulho, maternidade, racismo, literatura, música e legado. Sobretudo,
da parte de Carolina Maria de Jesus que o Brasil ainda não terminou de
compreender. Ele me dá a impressão de que o Brasil ainda a lê com uma fome
errada: a fome do símbolo, não a da escuta verdadeira. Carolina não pede pena.
Pede papel, pão e verdade. E prova que, em suas mãos, até o que o mundo joga
fora ainda tem o que contar.
O homem por trás da peruca
“Claro que não sou engraçado naturalmente, não brinco com a vida nem com a morte. Só brinco em serviço” — Mauro Faccio Gonçalves
O
cenário não é um estúdio, nem um palco de auditório. É um jardim de fim de
tarde em Sete Lagoas. O ar tem cheiro de terra úmida, folha amassada e café
recém-coado. Não há peruca, não há o dente escurecido, não há a voz esganiçada
que o Brasil aprendeu a reconhecer antes mesmo de vê-lo entrar em cena. Sentado
numa cadeira de vime, Mauro Faccio Gonçalves recebe com a discrição de quem
nunca confiou muito no barulho. Fala baixo, com um sotaque mineiro sem afetação,
desses que não precisam se exibir para existir. Há gentileza, mas também
reserva. Não a reserva antipática, e sim a de quem levou uma vida inteira
protegendo um pedaço de si do apetite do mundo.
À
frente do país, ele foi Zacarias, o trapalhão infantil, terno, elétrico, de
pureza desajeitada. Mas ali, entre plantas, sombras longas e uma luz amarela
pousando devagar sobre as folhas, aparece o homem. O ex-bancário que largou uma
vida previsível para seguir o teatro, o rádio e a invenção. O artista técnico, meticuloso,
observador. O mineiro que fez o Brasil rir sem jamais entregar tudo de si.
Nesta
conversa, tentamos alcançar não só o personagem, mas o intervalo entre a peruca
e o espelho.
“Eu quero ser a pintora da minha terra. Não se enganem com meus vestidos de Paris; meu pincel ainda tem cheiro de terra úmida e mato” — Tarsila do Amaral
Estamos
em uma varanda que parece flutuar sobre um mar de morros cor-de-rosa e cactos
cilíndricos, sob um céu de um azul tão sólido que poderia ser tocado. O
mobiliário é uma mistura impossível: um sofá de veludo vermelho de seu atelier na
França divide espaço com baús de madeira rústica de Minas Gerais. É como se
tudo parecesse um quadro ainda sendo pintado. Tarsila nos recebe com uma
elegância que o tempo não ousou tocar. Veste o lendário casaco de veludo
vermelho que usou no jantar em homenagem a Santos Dumont. Seus cabelos estão
presos em um coque impecável, e o olhar, embora doce, guarda a firmeza de quem
subverteu a arte de um continente. Há um aroma de café fresco e terra molhada
no ar.
Neste
encontro, Tarsila do Amaral despoja-se das camadas de celebridade para revelar
a mulher por trás do ícone, em uma linha do tempo que se estende do barro roxo
das fazendas paulistas à sofisticação geométrica dos ateliês parisienses. A
conversa percorre suas primeiras pinceladas sob o céu de Barcelona, a
turbulenta e apaixonada era "Tarsiwald", e a gênese do Abaporu como o
banquete final do modernismo brasileiro. Com uma sinceridade doce-amarga, ela
revisita as dores do exílio financeiro em 1929, a guinada para a consciência
social após a viagem à União Soviética e os anos de serenidade ao lado de Luis
Martins. O diálogo atinge seu ápice emocional ao tratar das perdas devastadoras
— a morte da filha e a paralisia física — e lança um olhar visionário e crítico
sobre o futuro, onde a inteligência artificial tenta, sem sucesso, capturar a
alma camponesa que ela imortalizou com suas "cores de baú".
O Sr. Diretas e o silêncio das ondas
O ambiente é de uma sobriedade absoluta, uma
penumbra que sugere tanto o gabinete da Presidência da Câmara quanto a
biblioteca de sua casa em São Paulo. Não há o luxo cenográfico de Hollywood,
mas a dignidade do couro gasto e o cheiro persistente de papel antigo. A luz é
cirúrgica, caindo sobre uma mesa de jacarandá onde repousa um exemplar original
da Constituição de 1988, com as margens levemente amareladas. Ulysses Guimarães
está impecável: o terno escuro perfeitamente cortado, a camisa branca de
colarinho rígido, o cabelo alvo como uma bandeira de paz. Ele não gesticula com
pressa; cada movimento das mãos parece desenhar um parágrafo da lei no ar. O
olhar é de uma lucidez cortante, o olhar de quem atravessou o oceano de Angra
para cobrar o penhor da liberdade.
Com a elegância de quem enfrentou cães e baionetas
sem desajustar o nó da gravata, Ulysses revisita a Anticandidatura e a apoteose
da Candelária, expondo a ferida de uma transição que, embora necessária, deixou
incompleta a promessa de participação popular. Ao confrontar o Brasil de 2026,
o “Doutor” fala com severidade republicana diante de novas formas de poder e de
representação. Para ele, o Parlamento contemporâneo corre o risco de se perder
numa política de vitrine, em que o caráter cede espaço à conveniência e à
tirania dos algoritmos. Ulysses descreve, com precisão cirúrgica, a erosão do
mandato real: o político que abdica da liderança para se tornar refém do
aplauso instantâneo, trocando o debate público pelo desempenho em redes
sociais. Entre a memória de Dona Mora e a lucidez de quem fez da Constituição
uma obra de resistência, ele nos deixa um alerta: a democracia não sobrevive
apenas nas telas, mas na vigilância e na indignação de cidadãos que ainda sabem
reconhecer o gosto do sal da liberdade.