Da menina que cantava no rádio à mulher que transformou interpretação em autoria, Elis revisita os festivais, Tom Jobim, a ditadura, a maternidade, o preço da perfeição e uma indústria musical que aprendeu a corrigir vozes — mas nem sempre sabe o que fazer com a verdade.
Entrevista imaginária por Roberto Homem
O cenário
O estúdio está quase escuro. Não pertence a uma emissora, a uma gravadora ou a um teatro conhecido, embora carregue vestígios de todos eles. À esquerda, um piano de cauda espera com a tampa aberta. À direita, uma cortina vermelha respira devagar, empurrada por um vento que não deveria existir ali. No centro, há apenas um microfone antigo, um banco alto e um círculo de luz branca sobre o chão.
Atrás do vidro da técnica, as fitas giram sem operador. Em cada volta, devolvem fragmentos de tempos diferentes: a vibração de um auditório de rádio em Porto Alegre, o coro impaciente de um festival, uma risada durante “Águas de Março”, o silêncio denso de um teatro nos anos de chumbo. Nenhum trecho chega a se completar. É como se a memória, antes de virar música, ainda procurasse a tonalidade certa.
Elis Regina entra sem anúncio. Está de preto, os cabelos curtos, os pés firmes no chão. Não traz o sorriso aberto das capas nem a solenidade que a posteridade costuma impor aos mortos célebres. Aproxima-se do microfone, experimenta a distância com os olhos e dá dois toques secos na haste.
— Está muito alto — diz.
Baixo um pouco.
Ela testa novamente. Em vez de falar, sustenta uma nota curta, quase sem vibrato. As fitas atrás do vidro parecem parar para ouvi-la. Quando o som desaparece, Elis sorri de leve.
— Agora sim. O silêncio está afinado.