O homem por trás da peruca
“Claro que não sou engraçado naturalmente, não brinco com a vida nem com a morte. Só brinco em serviço” — Mauro Faccio Gonçalves
O
cenário não é um estúdio, nem um palco de auditório. É um jardim de fim de
tarde em Sete Lagoas. O ar tem cheiro de terra úmida, folha amassada e café
recém-coado. Não há peruca, não há o dente escurecido, não há a voz esganiçada
que o Brasil aprendeu a reconhecer antes mesmo de vê-lo entrar em cena. Sentado
numa cadeira de vime, Mauro Faccio Gonçalves recebe com a discrição de quem
nunca confiou muito no barulho. Fala baixo, com um sotaque mineiro sem afetação,
desses que não precisam se exibir para existir. Há gentileza, mas também
reserva. Não a reserva antipática, e sim a de quem levou uma vida inteira
protegendo um pedaço de si do apetite do mundo.
À
frente do país, ele foi Zacarias, o trapalhão infantil, terno, elétrico, de
pureza desajeitada. Mas ali, entre plantas, sombras longas e uma luz amarela
pousando devagar sobre as folhas, aparece o homem. O ex-bancário que largou uma
vida previsível para seguir o teatro, o rádio e a invenção. O artista técnico, meticuloso,
observador. O mineiro que fez o Brasil rir sem jamais entregar tudo de si.
Nesta
conversa, tentamos alcançar não só o personagem, mas o intervalo entre a peruca
e o espelho.
SuperPauta: Mauro, ouvir
sua voz sem o filtro do Zacarias já é, por si só, um acontecimento. O Brasil
conheceu o riso, mas quase nunca conheceu o homem. Como foi viver tantos anos
sendo mais reconhecido pela máscara do que pelo rosto?
Mauro Gonçalves: Isso acontece
mesmo. No começo, a gente acha até bonito, porque vê o personagem crescer, o
povo gostar, as crianças chamarem na rua. É uma resposta muito generosa. Mas
depois vem o outro lado. As pessoas passam a procurar o Zacarias o tempo todo,
e nem sempre eu estava disposto a ser o Zacarias fora de cena. Eu era mais
quieto, mais reservado. Gostava do meu canto. Então havia uma diferença grande
entre o que o público esperava e o que eu era no dia a dia. O personagem me deu
muita coisa boa: carinho, reconhecimento, trabalho. Mas também tirou um pouco
da minha paz. Quando o personagem fica famoso demais, o homem vai ficando meio
escondido. E eu sempre gostei de discrição. Nunca tive vocação para viver me
mostrando.
SuperPauta: Antes da fama
nacional, havia o menino de Sete Lagoas. O que desse menino sobreviveu no
artista?
Mauro Gonçalves: Acho que muita coisa. Principalmente o jeito de observar. Menino tímido presta atenção em tudo. Fica mais calado, escuta mais, repara no jeito das pessoas falarem, andarem, rirem, implicarem umas com as outras. Às vezes aprende mais assim do que se estivesse querendo aparecer. Eu sempre fui muito disso, de olhar primeiro, entender primeiro. Sete Lagoas ficou muito em mim nesse sentido. A vida no interior ensina um certo compasso. A pessoa aprende a reparar mais, a ouvir mais, a desconfiar um pouco do excesso. Eu trouxe isso comigo. Mesmo depois de muitos anos no Rio, de televisão, de estúdio, de filme, essa parte nunca saiu de mim. Acho que o Zacarias tem um pouco desse menino também. Ele era exagerado por fora, claro, mas por dentro tinha uma certa inocência, uma certa doçura, um jeito meio espantado de olhar o mundo, que eu conheci muito na gente simples. Nunca pensei nele como um personagem vazio. Sempre achei que havia ali alguma coisa humana, alguma coisa de verdade. Talvez seja isso que o público sentia, mesmo sem pensar muito nisso.
SuperPauta: E quando foi
que esse menino de Sete Lagoas, tão observador e tão reservado, percebeu que
podia subir num palco e fazer os outros rirem?
Mauro Gonçalves: Isso não veio
de uma vez, não. Não foi aquele tipo de decisão clara, como quem acorda de
manhã e resolve mudar de vida. Foi acontecendo aos poucos. Primeiro vem uma
brincadeira aqui, uma imitação ali, uma vontade de repetir um jeito de falar
que a gente viu na rua, em casa, no trabalho. A pessoa vai fazendo aquilo meio
sem perceber que está treinando. Eu nunca fui o sujeito espalhafatoso fora de
cena. Nunca fui de chegar dominando ambiente. Mas eu gostava muito de observar
os tipos, os sotaques, as manias. E, quando comecei a experimentar isso mais de
perto, vi que tinha algum jeito para a coisa. Não era vontade de aparecer. Era
vontade de acertar o tom, de construir um tipo, de ver se aquela figura parava
de pé. O palco, o rádio e depois a televisão foram me mostrando isso. Às vezes,
a pessoa é tímida na vida e solta na criação. Em mim, acho que isso ajudou.
Como eu falava menos no cotidiano, acabava guardando mais material por dentro.
Quando vinha a hora de fazer, aquilo saía de outro jeito.
SuperPauta: Antes de o
Brasil inteiro conhecer o Zacarias, houve Sete Lagoas, depois Belo Horizonte, e
uma vida que ainda parecia seguir um caminho mais convencional. Como foi essa
saída de Minas do interior para a capital, e quando percebeu que o teatro, o
rádio e o humor estavam começando a falar mais alto?
Mauro Gonçalves: Foi tudo muito
aos poucos. Em Sete Lagoas eu já gostava dessas coisas. Já fazia teatro, já
tinha vontade de representar, de imitar, de brincar com tipos. Mas cidade do
interior também empurra a gente para uma vida mais certa, mais arrumada.
Ninguém pensa logo em viver de arte como se fosse a coisa mais natural do
mundo. Quando fui para Belo Horizonte, fui com a ideia de estudar, de abrir um
caminho respeitável para mim. A mudança já era grande. Sair de Sete Lagoas, que
tinha outro compasso, e chegar à capital mexeu muito comigo. Belo Horizonte
tinha mais movimento, mais possibilidades, mais gente, mais estímulo. E foi ali
que essa parte artística, que já existia, começou a pedir mais espaço de verdade.
Não foi uma decisão heroica, dessas muito bonitas de contar depois. Foi mais
uma coisa que foi crescendo. O rádio foi entrando, o teatro foi ficando mais
presente, e eu fui percebendo que aquilo me chamava de um jeito que outras
atividades não chamavam. Ao mesmo tempo, eu continuava sendo um homem
cauteloso. Então demorei um pouco para aceitar que o rumo podia ser esse mesmo.
Mas, no fundo, a mudança já estava acontecendo.
SuperPauta: Em Belo
Horizonte, o senhor chegou a estudar arquitetura. Em que momento percebeu que
aquele caminho já não bastava e que o rádio, a televisão e o trabalho artístico
estavam ocupando o lugar principal?
Mauro Gonçalves: Eu gostava da
arquitetura, sim. Gostava de desenho, de forma, dessas coisas de composição.
Não era um caminho falso, nem escolhido de qualquer jeito. Só que, ao mesmo
tempo, o rádio foi me pegando muito. Ali eu podia experimentar voz, tempo,
intenção, personagem. Para uma pessoa tímida, isso tinha uma vantagem grande:
eu podia me expressar sem precisar me expor do mesmo jeito. Aos poucos fui
sentindo que era ali que eu ficava mais inteiro. Dava trabalho, claro. Nada
veio fácil. E ainda havia essa preocupação prática de ter segurança, de ganhar
a vida, de não fazer uma aposta irresponsável. Por isso eu nunca vivi essa
mudança como rompimento romântico. Foi mais uma passagem gradual, com medo e
dúvida juntos. Mas chegou um ponto em que insistir só no caminho mais seguro
começou a fazer menos sentido. O trabalho artístico me cansava, mas me animava
também. Eu via que havia alguma coisa minha ali, alguma coisa que não aparecia
inteira em outros lugares. Acho que foi nesse momento que entendi que não
adiantava empurrar aquilo para depois. A arte já tinha entrado de vez.
SuperPauta: O rádio foi muito importante na sua formação. O que você aprendeu ali que depois levou para o Zacarias?
Mauro Gonçalves: Aprendi muita
coisa. O rádio foi uma escola muito boa porque ali a gente precisava fazer tudo
pela voz. Não tinha rosto, não tinha gesto, não tinha figurino ajudando. Então
era no jeito de falar, no tempo da frase, na pausa, na respiração, que o
personagem começava a aparecer. Isso me ajudou muito depois. Quando fui para a
televisão, eu já levava essa preocupação com ritmo, com intenção, com o jeito
certo de soltar uma palavra. O Zacarias não nasceu só da peruca ou do dente
pintado. Ele nasceu muito dessa parte de dentro, desse cuidado com a voz, com o
susto, com a afobação, com o jeito de reagir. O rádio me ensinou a ouvir melhor
o personagem antes de mostrar ele aos outros.
SuperPauta: E quando você
sentiu que aquele personagem começava a tomar forma de verdade? Como o Zacarias
foi aparecendo no seu corpo, na sua voz, no seu jeito de entrar em cena?
Mauro Gonçalves: Foi aparecendo
aos poucos. Eu nunca tive esse negócio de sentar e dizer: “Agora vou inventar
um personagem assim, assim, assim.” Em geral, comigo, as coisas iam surgindo
devagar. Eu já trazia muita observação de Minas, de gente simples, de sujeito
tímido, meio acanhado, mas engraçado sem querer. O rádio também me ajudou muito
nisso, porque me ensinou a procurar o tom da voz, o tempo da frase, a reação
certa. Quando comecei a fazer o tipo, fui vendo o que combinava com ele e o que
não combinava. A voz foi afinando, o jeito de andar foi ficando mais miúdo,
mais nervoso, meio descompassado. Depois vieram os elementos mais visíveis, que
o público guarda mais fácil. Mas isso tudo só funcionava porque por dentro já
havia um temperamento. O Zacarias, para mim, nunca foi só fantasia. Ele tinha
um jeito de sentir o mundo. Acho que o principal era a inocência. Eu não queria
fazer um personagem só para ser motivo de gozação. Queria que ele tivesse
doçura, uma fragilidade até, mas sem perder a graça. Talvez por isso ele tenha
chegado tão perto das crianças. Criança percebe quando o tipo vem carregado de
maldade e quando vem carregado de afeto.
SuperPauta: O dente
escurecido, a peruca, o jeito de andar, a risadinha... tudo isso ficou muito
marcado no imaginário do público. Em que momento o senhor percebeu que aquele
tipo tinha encontrado um caminho muito forte?
Mauro Gonçalves: A gente vai
percebendo devagar. No começo, está muito ocupado em fazer funcionar. Em
acertar o tom, em entender o personagem, em ver o que fica bom e o que fica
demais. Mas chega uma hora em que o público começa a devolver isso com muita
clareza. A criança reconhece de longe, repete gesto, repete voz, espera aquilo
acontecer. Acho que foi aí que percebi que o Zacarias tinha encontrado o lugar
dele. Não por causa de um elemento só, da peruca ou do dente, mas pelo
conjunto. Quando essas coisas todas se juntaram, o personagem ficou mais
inteiro. O público entendia muito rápido quem ele era. Mas eu nunca pensei
nisso como fórmula. Eu pensava mais em acertar o tipo, em dar verdade a ele. O
resto foi vindo com a resposta das pessoas.
SuperPauta: E quando houve o encontro com Renato, Dedé e Mussum, o que mudou? O Zacarias já chegou pronto ao quarteto ou foi sendo ajustado dentro daquela convivência?
Mauro Gonçalves: Não, pronto
ele não chegou, não. Personagem quase nunca chega pronto. Ele vai se ajeitando
também conforme encontra os outros. Quando fui trabalhar com eles, percebi logo
que cada um tinha uma energia muito própria. O Renato tinha aquela força de
condução, o Dedé tinha um ritmo muito bom de cena, muito prático, e o Mussum
tinha uma liberdade muito particular. Então eu fui entendendo onde o Zacarias
respirava melhor naquele conjunto. Algumas coisas eu já trazia comigo, claro. A
voz, a delicadeza do tipo, aquele nervosinho mais infantil. Mas, dentro do
grupo, o personagem foi encontrando melhor a medida dele. Isso é natural. Uma
coisa é o tipo sozinho. Outra coisa é ele funcionando no meio de três
comediantes muito fortes, cada um puxando para um lado. A convivência ajudou
muito nisso. O quarteto tinha contraste, e contraste é bom para humor. O
Zacarias foi ganhando mais clareza ali. Acho que o público começou a entender
melhor quem ele era justamente porque ele aparecia ao lado de figuras tão
diferentes.
SuperPauta: E qual era, na
sua avaliação, a função do Zacarias naquele quarteto? Onde achava que ele fazia
mais diferença?
Mauro Gonçalves: Acho que ele
entrava com uma nota mais doce. Havia trapalhada em todos, claro, mas cada um “trapalhava”
de um jeito. O Zacarias trazia uma ingenuidade importante. Ele era o mais
assustado, o mais afobado, às vezes o mais frágil também. Isso criava um tipo
de humor um pouco diferente. Eu nunca gostei da ideia de fazer um bobo sem
alma. Então tentava dar a ele alguma ternura. Mesmo quando apanhava da
situação, quando era enrolado ou quando virava motivo de riso, eu procurava não
tirar dele aquela parte mais humana. Acho que isso ajudou muito na ligação com
as crianças. Elas viam graça, mas também viam carinho naquele jeito. Dentro do
grupo, isso equilibrava um pouco as coisas. O humor não ficava só na esperteza
ou no deboche. Havia também esse lado mais inocente, mais desarmado.
SuperPauta: Muita gente
via no Zacarias um personagem infantil, mas ele era cheio de precisão. Havia
muito cálculo técnico por trás daquela aparente espontaneidade?
Mauro Gonçalves: Havia, sim.
Espontaneidade demais, em televisão, às vezes não dura nem dois minutos. A
pessoa precisa saber onde entrar, onde parar, onde deixar o outro falar, onde
segurar uma reação. Humor tem muito de tempo. Um segundo a mais ou a menos muda
tudo. No caso do Zacarias, como ele parecia mais solto, mais nervosinho, talvez
desse a impressão de que era tudo improvisado. Mas não era. Tinha muito cuidado
ali. O jeito de olhar, o susto, a aflição, a corrida, o tom da voz, tudo isso
precisava ter uma medida. Se passasse, ficava excessivo. Se faltasse, perdia a
graça. Acho até que esse contraste ajudava. Por fora, ele parecia desgovernado.
Por dentro, eu tentava manter o controle. Talvez tenha sido esse equilíbrio que
fez o personagem durar.
SuperPauta: O público via uma família em cena. Fora das câmeras, como era a convivência de vocês quatro no dia a dia?
Mauro Gonçalves: Tinha de tudo,
como acontece em qualquer convivência longa. Havia muita intimidade, porque a
gente trabalhava demais junto. Filme, televisão, viagem, ensaio, reunião,
gravação... era muita hora dividida. Então, de um jeito ou de outro, acaba
virando uma espécie de família mesmo. E família, você sabe como é: tem afeto,
tem implicância, tem brincadeira, tem hora boa e tem hora cansativa também. Eu
era mais quieto. Nunca fui o mais barulhento do grupo fora de cena. Gostava de
observar, de ficar um pouco mais no meu canto. Mas acompanhava tudo. O Renato
era muito concentrado no trabalho, muito atento ao funcionamento das coisas. O
Dedé era muito ágil, muito prático, muito presente. O Mussum tinha uma alegria
muito própria, um jeito muito dele de aliviar o ambiente. Então havia
convivência real, sim. Não era um quarteto montado só para fotografia. Mas
também não era uma amizade de romance, dessas sem ruído. Tinha verdade, e
verdade sempre vem misturada.
SuperPauta: Em 1983, o
grupo passou por uma crise séria. Separação, ruído, disputa, cansaço. O que aquela
rachadura ensinou a vocês?
Mauro Gonçalves: Ensinou que
convivência longa não se sustenta só com talento. Precisa de paciência também,
de respeito, de medida. Quando um grupo trabalha muito, ganha muito tamanho e
passa muito tempo junto, as coisas começam a pesar. O cansaço pesa, as
diferenças pesam, as vaidades também aparecem. Isso tudo é humano. A crise
mostrou um pouco disso. Mostrou que a força do quarteto era real, mas que ela
não resolvia tudo sozinha. Havia amizade, havia costume, havia história junto,
mas havia também desgaste. Uma coisa não anulava a outra. E acho que também
ensinou que, apesar dos problemas, existia ali uma combinação muito rara. Às
vezes a pessoa só percebe com mais clareza o valor do que tem quando aquilo
ameaça se desfazer.
SuperPauta: Você sentia
que a crise era mais por dinheiro, por comando, por reconhecimento, ou por um
acúmulo de tudo isso?
Mauro Gonçalves: Essas coisas
quase nunca vêm separadas. Quando um grupo chega àquele tamanho, dinheiro,
poder de decisão, visibilidade e cansaço começam a se misturar. Às vezes a
discussão parece ser sobre uma coisa, mas no fundo já é sobre várias ao mesmo
tempo. Havia desgaste, sim. Havia insatisfação, sim. Cada um sentia de um
jeito. E também havia muito acúmulo de tempo, de pressão, de responsabilidade.
O público vê o programa pronto, o filme pronto, a alegria pronta. Mas, para
aquilo existir, havia muita engrenagem por trás, e engrenagem também esquenta. Eu
não gosto de simplificar dizendo que foi só isso ou só aquilo. Seria mais
fácil, mas não seria justo. Era um período em que muita coisa já estava pesada
ao mesmo tempo.
SuperPauta: Quando veio a separação, o que mais doeu: o rompimento profissional ou a sensação de que aquela família estava se desfazendo? E o que fez entender que ainda valia a pena voltar?
Mauro Gonçalves: Acho que as
duas coisas. Profissionalmente, era duro porque a gente sabia a força que tinha
junto. Não era um grupo qualquer. Havia ali uma combinação muito particular,
uma comunicação muito forte com o público. Ver aquilo interrompido doía. Mas
também havia um lado humano, claro. Por mais que existissem atritos, era gente
que convivia havia muito tempo, que tinha dividido muita coisa. Então não era
só uma questão de agenda ou contrato. Tinha afeto misturado, memória misturada,
costume misturado. Quando um grupo assim se parte, não se parte só o trabalho.
Parte-se um jeito de viver. Ao mesmo tempo, havia uma consciência muito clara
de que juntos a gente fazia uma coisa rara. Nem sempre rara quer dizer fácil.
Às vezes quer dizer justamente o contrário. Mas havia alguma coisa ali que
merecia ser preservada. Também chega uma hora em que a pessoa cansa da briga,
do ruído, do orgulho, da tensão. E começa a lembrar mais do que funcionava do
que do que feriu. Talvez tenha havido um pouco disso. Voltar não apaga o que
aconteceu. Não transforma atrito em conto de fadas. Mas, em certos casos,
voltar é reconhecer que ainda existe alguma coisa de valor maior do que a mágoa
do momento.
SuperPauta: Quando o
quarteto se reencontrou, voltou igual?
Mauro Gonçalves: Igual, não.
Essas coisas não voltam iguais. Quem diz que volta, enfeita. Volta com marca,
volta com cuidado, volta com uma certa memória do que aconteceu. Mas isso não
quer dizer que volte pior. Às vezes volta mais consciente. A reconciliação não
apaga a cicatriz, mas ensina a conviver com ela. Acho que foi um pouco assim.
Havia ainda a força do grupo, havia ainda a resposta do público, havia ainda
vontade de fazer dar certo. Só que já não existia mais a mesma inocência de
antes.
SuperPauta: Havia também
um contraste que chamava atenção. Fora de cena, você era mais silencioso, mais
discreto, mais recolhido do que a imagem pública sugeria. Isso incomodava?
Mauro Gonçalves: Incomodava um
pouco, sim. Não por maldade das pessoas, mas porque o público se acostuma com a
figura que vê na televisão. Então muita gente imaginava que eu fosse o Zacarias
o tempo inteiro, daquele jeito mais aceso, mais agitado, mais espalhado. E eu
não era. Eu sempre fui mais quieto, mais observador, mais de ficar no meu
canto. No começo, a gente até entende isso com certa ternura. O personagem
entra na casa das pessoas, faz parte da infância delas, da rotina delas. É
natural que elas misturem um pouco as coisas. Mas, com o tempo, isso também cansa,
porque o homem vai ficando escondido atrás da figura. E eu nunca gostei muito
dessa obrigação de estar em festa o tempo todo. O personagem era expansivo. Eu,
não. Eu gostava mais de silêncio do que de alarde.
SuperPauta: Você sentia
que precisava se proteger da curiosidade das pessoas para não ser engolido pela
imagem do personagem?
Mauro Gonçalves: Sentia. E acho
que isso foi ficando mais forte com o tempo. Quando a fama cresce muito, ela
começa a pedir da pessoa uma disponibilidade permanente. Todo mundo quer um
pedaço seu, uma confirmação, uma repetição daquilo que conhece. E eu não tinha
feitio para isso. Nunca tive. Então fui aprendendo a me proteger do meu jeito,
sem escândalo, sem fazer manifesto, sem transformar isso numa questão pública.
Apenas fui guardando mais certas partes da minha vida. Era uma necessidade
mesmo. Não era pose. Era defesa. Eu sabia fazer o meu trabalho, sabia entrar em
cena, sabia entregar o personagem. Mas também precisava preservar um espaço em
que eu pudesse simplesmente ser eu, sem expectativa em cima, sem representação
o tempo todo.
SuperPauta: Ser ídolo de
crianças tornava essa divisão ainda mais difícil?
Mauro Gonçalves: Tornava,
porque aí a responsabilidade aumentava. Quando o personagem entra muito forte
no universo infantil, ele deixa de ser só um tipo de humor. Vira quase uma
presença afetiva. Isso é muito bonito, muito generoso, mas também exige
cuidado. Eu sentia isso. Sabia que o Zacarias ocupava um lugar especial para
muitas crianças. Então havia essa preocupação de não deixar que o personagem
perdesse a inocência, de não deixar que ele virasse uma coisa mais cínica, mais
agressiva, mais vulgar. Eu zelava por isso. Talvez por causa desse lugar que
ele ocupava, eu tenha ficado ainda mais atento ao que mostrava e ao que não
mostrava. Havia um compromisso ali, mesmo que ninguém precisasse dizer isso em
voz alta.
SuperPauta: Você sempre protegeu muito a vida pessoal. Mas houve casamento, houve paternidade, houve uma vida afetiva real por trás do personagem. Esse lado mais íntimo ajudava a manter o Mauro de pé fora da televisão?
Mauro Gonçalves: Ajudava, sim.
A vida da gente não se resume ao que aparece. Eu fui casado, tive minha
família, tive minha filha, tive esse lado mais doméstico, mais meu, que para
mim era muito importante. Era ali que eu voltava a ser só uma pessoa comum, sem
precisar corresponder ao que o público esperava do personagem. Eu sempre
precisei muito dessa separação. Uma coisa era o trabalho, a televisão, o
personagem, o barulho. Outra coisa era a parte de casa, de afeto, de
intimidade. Isso me ajudava a não me perder completamente dentro da figura do
Zacarias. Nem tudo podia ser palco. E também havia uma responsabilidade ali.
Quando a pessoa tem família, passa a olhar a própria vida de outro jeito. Fica
mais cuidadosa, mais consciente do que preserva. No meu caso, isso sempre foi
muito forte. Eu nunca tive vocação para transformar sentimento em vitrine.
SuperPauta: Na reta final
da sua vida, o público começou a notar uma mudança física muito forte. O
emagrecimento chamou atenção, e junto com ele vieram comentários cruéis e muita
especulação. Como você viveu aquele período?
Mauro Gonçalves: Foi um período
muito duro. Primeiro porque o corpo já vinha dando sinal de fraqueza, e isso
por si só mexe muito com a pessoa. Depois porque, quando a imagem pública é
muito conhecida, qualquer mudança vira assunto. O que era para ser cuidado
virou comentário. O que era para ser recolhimento virou curiosidade. Eu sempre
fui discreto. Nunca gostei de expor dificuldade, doença, fragilidade. Então
aquilo me pesou bastante. Não só pelo mal-estar físico, mas pelo excesso de
ruído em volta. A pessoa já está se sentindo diminuída, mais fraca, e ainda
precisa lidar com suposição, manchete, invasão. Isso cansa demais. O pior não é
nem o boato em si. O pior é a sensação de que, num momento delicado, o outro
deixa de olhar para você como pessoa e passa a olhar só como notícia.
SuperPauta: Aqueles boatos
sobre Aids foram especialmente cruéis, porque misturavam ignorância, preconceito
e sensacionalismo. Isso feriu o senhor profundamente?
Mauro Gonçalves: Feriu, sim.
Muito. Não gosto de falar disso com raiva, porque a raiva já não resolve nada.
Mas feriu. Naquele tempo, esse tipo de assunto vinha carregado de medo,
julgamento e maldade. Então não era só uma fofoca qualquer. Era uma coisa que
atingia a dignidade da pessoa. Eu sofri mais por esse lado. Pela falta de
delicadeza. Pela facilidade com que inventavam, repetiam, apontavam. E eu nunca
fui um homem de escândalo. Sempre vivi tentando preservar um pouco de silêncio
em volta de mim. Quando esse silêncio foi rompido desse jeito, doeu. Numa hora
dessas, a pessoa entende o valor de ser tratada com respeito. Às vezes é só
isso que ela precisa.
SuperPauta: Em momentos assim, o que o sustentava por dentro? A sua fé teve um papel importante?
Mauro Gonçalves: Teve, sim.
Muito. Eu sempre fui uma pessoa de fé. Não dessas que fazem alarde, mas de fé
mesmo, de recolhimento, de conversa íntima com Deus, de necessidade de
acreditar que a vida não se resume ao que a gente vê por fora. Isso me ajudou
muito. Quando o corpo enfraquece e o barulho do mundo aumenta, a pessoa precisa
de algum eixo. O meu sempre foi muito por aí. Na oração, no silêncio, nessa
ideia de que a gente é mais do que a aparência do momento, mais do que a
doença, mais do que o que dizem da gente. A fé não tirava a dor, claro. Não
tirava o medo, nem o cansaço. Mas me dava um jeito de atravessar tudo isso sem
perder inteiramente o centro.
SuperPauta: Hoje, olhando
para trás, você gostaria que aquele fim fosse lembrado menos pelos boatos e
mais pelo que o senhor construiu em vida?
Mauro Gonçalves: Sem dúvida.
Doença faz parte da vida, fim faz parte da vida, mas ninguém merece ser
resumido ao período em que esteve mais frágil. Eu prefiro que se lembrem do
trabalho, do carinho que houve com o público, da alegria que procurei levar, e
também do homem que existia por trás da figura. Se a pessoa lembrar de mim só
pelo sofrimento, fica pouco. A vida foi maior do que isso. Teve esforço, teve
criação, teve amizade, teve afeto, teve muita entrega. O fim é uma parte. Não
pode ser a história inteira.
SuperPauta: E, para
encerrar este encontro, como você gostaria de ser lembrado pelo Brasil?
Mauro Gonçalves: Com carinho.
Acho que é isso. Não preciso de muita coisa além disso. Carinho já basta. Se
lembrarem de mim como alguém que tentou fazer bem o seu trabalho, que levou
alegria sem cinismo, que preservou a própria delicadeza num meio muito
barulhento, eu já fico satisfeito. O Zacarias foi muito amado, e isso é uma
graça enorme. Mas, se couber também um pouco de compreensão para o Mauro,
melhor ainda. Porque por trás da peruca, do dente pintado e da correria havia
só um homem tentando fazer direito a parte dele. E isso, para mim, já seria uma
boa memória.























