Encontros Impossíveis
O náufrago de olhos vermelhos
“Vocês olham para o céu procurando deuses, mas quando caímos na lama, vocês veem apenas monstros. O medo é a única escuridão real.” – Kher-Ba (O Ser de Varginha)
Há lugares que não existem no mapa, mas existem no
corpo. Este não é terreno, nem celestial. É um cenário de consciência, uma
espécie de sala sem paredes onde o tempo não anda em linha reta: ele pulsa,
como um coração antigo, às vezes acelerando, às vezes ficando tão lento que dá
para ouvir o silêncio ranger. O ambiente lembra uma caverna úmida. Não porque
eu veja estalactites ou rochas, mas porque tudo cheira a chão depois da chuva.
Terra molhada. Musgo. Umidade. E, por trás disso, um odor acre e pungente, que
não dá para ignorar: amônia. A mesma palavra que volta nos relatos de 1996 como
um refrão incômodo. Não há cadeiras. Não há mesa. Não há gravador. Meu caderno
existe, mas parece um objeto deslocado, como se eu tivesse levado um
guarda-chuva para dentro de um aquário. Ainda assim, eu o seguro. Costume de
repórter. Amuleto de quem acredita que registrar é uma forma de não
enlouquecer.
Diante de mim, agachado, com os joelhos recolhidos
contra o peito, está a figura que o Brasil aprendeu a chamar de “ET de
Varginha”. Mas “ET de Varginha” é rótulo de manchete, e manchetes não respiram.
O que vejo aqui respira. Ou algo análogo a isso. Ele é pequeno. Não a
“pequenez” caricata de folclore, mas uma estatura que sugere economia de
energia, adaptação, gravidade. A pele é marrom-escura e tem um brilho oleoso,
como se guardasse um filme protetor. Na cabeça, três protuberâncias discretas
pulsam num ritmo lento, quase hipnótico. Mas são os olhos que dominam a cena:
vermelhos, enormes, sem pupilas visíveis. E, no entanto, não há fúria neles. Há
uma tristeza líquida, profunda, desconfortavelmente reconhecível.
Este encontro impossível não pretende encerrar o
caso Varginha. Não pretende “provar” nada. A proposta aqui é outra: inverter o
olhar. Em vez de perguntar “o que era aquilo?”, perguntar “quem era aquilo?”.
Em vez de transformar o desconhecido em inimigo, permitir que ele se explique,
mesmo que a explicação venha cheia de falhas, traduções imperfeitas e
ambiguidades. Porque se existe uma verdade teimosa em toda história de espanto,
ela é esta: quando a humanidade encara o que não entende, costuma escolher
entre duas máscaras. Riso ou agressão. Meme ou arma. E, muitas vezes, as duas
ao mesmo tempo. Eu respiro. Tento firmar a atenção. Sinto um zumbido leve no
ouvido, como quem encosta a cabeça num poste e percebe a eletricidade sem tocar
no fio. É estranho, mas não é ameaça. É apenas… diferença. E eu decido começar
como todo jornalista deveria começar diante do extraordinário: fazendo
perguntas que qualquer pessoa entenderia. Sem pressupostos. Sem atalhos. Sem
depender de versões anteriores. Sem “piscadinhas” para o rascunho.
SuperPauta: Antes de qualquer coisa, eu preciso saber como me dirigir a você. “ET de Varginha” é um apelido que a imprensa e o povo criaram. Mas apelidos desumanizam e simplificam. Você tem um nome individual? Uma designação? Uma função? Algo que eu consiga pronunciar e escrever sem parecer que estou inventando? (A resposta não chega como som. Não há voz no ar. O que chega é uma presença dentro da mente, como se alguém tivesse colocado uma frase pronta no centro do pensamento, mas com textura, cor e sensação).
Kher-Ba: Nomes são âncoras. Vocês usam nomes para prender o mundo ao chão, para
não se perderem. Onde eu vim, nós somos definidos por ressonância e por
utilidade ao todo. Mas eu entendo o seu pedido. Você precisa de um som, de um
símbolo verbal. A aproximação mais fiel da minha designação seria “Aquele que
Mapeia Fluxos”. Se você quer algo curto, pode usar Kher-Ba. Não é completo, mas
funciona como ponte.
SuperPauta: Quando você aceita que eu use “Kher-Ba”, isso é mais confortável para
você, ou é apenas uma forma de facilitar a nossa comunicação aqui?
Kher-Ba: É uma forma de facilitar. O conforto, para mim, não vem da palavra. Vem
da intenção. Se a intenção for me reduzir a personagem de feira, a palavra vira
faca. Se a intenção for compreender, a palavra vira porta.
SuperPauta: Eu preciso estabelecer outra coisa. O que você topa contar e o que você
não consegue contar? Existe algum tipo de limite, proibição, ou “sigilo” do seu
lado?
Kher-Ba: Não há generais com carimbos aqui. Não há censores. Há limites, sim.
Mas eles não vêm de polícia. Vêm da tradução. Se eu tentar colocar certas
ideias diretamente dentro da sua mente, seu cérebro não vai entender. Vai
transformar em ruído. Em dor. Em cansaço. Então eu escolho caminhos que cabem
na sua linguagem. E há algo mais… (ele hesita, e eu sinto a hesitação como uma
queda de temperatura) há algo pessoal: vergonha.
SuperPauta: Vergonha do quê exatamente? De ter sido visto vulnerável? De ter virado
espetáculo? Ou de alguma decisão tomada antes da queda?
Kher-Ba: De tudo isso. No meu mundo, fragilidade é íntima. A dor não é
performance. Aqui, minha fragilidade virou narrativa. E narrativa vira
comércio. Eu tenho vergonha de ter sido observado como se eu fosse um objeto e,
ao mesmo tempo, de ter observado vocês com a frieza de quem cataloga. Nós
também erramos.
SuperPauta: Uma última pergunta para alinhar a entrevista. Você quer ser entendido,
ou quer apenas que sua existência fique registrada? Pergunto isso porque
registro é frio. Entendimento exige empatia, e empatia exige risco.
Kher-Ba: Registro vocês já têm. Vocês têm relatos, disputas, versões,
caricaturas. Eu quero ser entendido. Eu quero que saibam que o ser encolhido
sob a chuva sentia frio. Que o “invasor” sentia saudade de casa. E quero que
vocês se vejam no espelho sem quebrar o espelho.
SuperPauta: Para nós, você morreu em 1996. Mas aqui estamos conversando. Você se
percebe morto? O que mudou quando o seu corpo parou?
Kher-Ba: A morte é um conceito de desligamento de sistemas biológicos. O
receptáculo parou. A circulação parou. A regulação parou. Mas a consciência não
depende daquele corpo da forma como vocês acreditam. Eu fui retirado da
densidade. Da gravidade que esmagava meus ossos. Do ambiente que queimava
minhas mucosas. Agora eu sou… percepção. Fluxo.
SuperPauta: Quando você diz “fluxo”, o que isso significa de maneira simples? Onde você está, afinal? Você está em algum lugar, ou “lugar” não serve mais?
Kher-Ba: “Lugar” ainda serve, mas serve de outro modo. Pense numa correnteza.
Você não diz “onde está a água” como se fosse um bloco parado. Você diz “onde
ela passa”. “Como ela se move”. Eu estou numa dimensão onde pensamento vira
direção. Onde intenção vira movimento. Não é céu, não é inferno. Isso é uma
forma humana de organizar o desconhecido com prateleiras.
SuperPauta: E como esta conversa acontece? Eu sinto imagens, cheiros, lembranças
que não são minhas. Isso é telepatia? É sonho? É uma tradução da minha mente?
Kher-Ba: Vocês usam palavras. Palavras são códigos sonoros lentos e incompletos.
Nós usamos pacotes sensoriais. Conceito, sensação, memória e intenção juntos. Eu
não estou “falando português”. Eu estou projetando a ideia. O seu cérebro
escolhe as palavras mais próximas para vestir essa ideia. Às vezes ele acerta.
Às vezes ele inventa sem querer.
SuperPauta: Então existe o risco de eu estar colocando poesia onde deveria haver
desconforto, ou colocando lógica onde deveria haver emoção?
Kher-Ba: Sim. E existe o risco de você se defender. Vocês se defendem de tudo
que ameaça a imagem que vocês têm de vocês mesmos.
SuperPauta: Vou perguntar de um jeito que eu ou qualquer leitor entenda. Você sente
raiva, dor, saudade ou medo como a gente? Ou eu estou colocando sentimentos
humanos em você quando talvez a sua mente funcione de outro jeito?
Kher-Ba: Eu sinto. Mas não como vocês. O medo é universal. É o alarme de
preservação. A saudade também é constante. No meu caso, saudade não é falta de
um indivíduo. É falta de uma harmonia. Vocês são ilhas. Cada mente trancada num
crânio, tentando adivinhar a outra por gestos e palavras. No meu mundo, nós
somos rede. Oceano. E quando eu caí aí, eu fiquei sozinho pela primeira vez. Isso
foi a maior dor que eu já experimentei.
SuperPauta: Você sente raiva do que aconteceu?
Kher-Ba: Eu senti no começo. A raiva é uma chama que consome energia. Eu
precisava de energia para sobreviver. Depois, a raiva virou pergunta. Por que
vocês preferem ver inimigo no desconhecido? E há algo que me irrita em vocês,
sim.
SuperPauta: O que irrita?
Kher-Ba: Vocês transformam tudo em disputa de torcida. Verdade contra mentira.
Crente contra cético. Herói contra vilão. Vocês não suportam o “talvez”. O
“talvez” é onde mora a inteligência.
SuperPauta: Você está sozinho agora, ou está conectado a outros como você? Os
outros que caíram com você estão aí também?
Kher-Ba: Não estou sozinho. Meus companheiros retornaram ao fluxo antes de mim. Mas
aqui a individualidade é menos rígida. Eu sou Kher-Ba, e sou parte de um todo. O
universo, do lado de cá, é tão povoado quanto o físico. Vocês só não percebem.
SuperPauta: De onde você veio? Seu mundo é um planeta físico, como a Terra, ou é um
habitat artificial, ou algo que existe em outro tipo de “realidade”?
Kher-Ba: É um mundo físico. Denso. Ele orbita uma estrela velha que vocês
chamariam de anã vermelha. A luz lá não é branca e agressiva como a do seu Sol.
É um crepúsculo permanente. Uma luz avermelhada, suave.
SuperPauta: Descreva a paisagem do seu planeta com detalhes que qualquer pessoa
consiga imaginar: como é o céu, a luz, o solo, a vegetação se existir, o cheiro
do ar e como são as cidades ou abrigos de vocês. Se eu estivesse lá por cinco
minutos, o que me chocaria primeiro?
Kher-Ba: O peso. A gravidade. Você pisaria e sentiria o chão puxando seu corpo
com força. Seu peito pareceria menor. Sua respiração ficaria curta. O céu,
quando aparece, não tem o azul de vocês. Ele é escuro. A luz é baixa e
vermelha, como fim de tarde que nunca termina. Não há florestas verdes. A
fotossíntese lá segue outros caminhos. Vocês veriam cores que chamariam de
ocre, roxo escuro, marrom, cobre. Há estruturas, sim, mas nossas cidades não
são torres. Elas são cavidades. Abrigos escavados e integrados ao solo. Vocês
desafiam o mundo. Nós negociamos com ele. O cheiro do ar tem vapores que vocês
chamariam de tóxicos. Sulfurosos. Amônia em proporções que queimariam suas
mucosas.
SuperPauta: E seus olhos vermelhos e grandes. Isso tem a ver com essa luz?
Kher-Ba: Sim. Eles captam espectros que os seus olhos não captam. No meu mundo,
ver infravermelho é sobreviver. Vocês associam vermelho a perigo porque vocês
colocam moral na cor. Isso é um hábito cultural. Não é uma lei do universo.
SuperPauta: A sua espécie respira oxigênio como nós?
Kher-Ba: O oxigênio, para nós, é agressivo. Ele é útil em pequenas proporções.
Em excesso, ele queima lentamente por dentro. Nós respiramos misturas que vocês
não tolerariam.
SuperPauta: As testemunhas falaram de um cheiro forte, de amônia e enxofre, no episódio de Varginha. Para quem está lendo e não conhece o caso, eu pergunto: aquele cheiro vinha do seu corpo, vinha da nave, vinha do estresse, ou vinha de um vazamento do sistema de suporte de vida?
Kher-Ba: Pode ter sido tudo isso junto. Minha pele exala substâncias para
regular temperatura e para filtrar o ambiente. Sob estresse e intoxicação, isso
se intensifica. E houve vazamento do sistema da nave. Eu posso afirmar a
sensação. Eu não posso afirmar medidas. Eu não tinha instrumentos. Eu tinha
dor.
SuperPauta: As três protuberâncias na sua cabeça. Para muita gente isso parece
“fantasia” ou “meme”. O que elas são e para que servem?
Kher-Ba: São órgãos sensoriais. Se eu usar uma palavra que vocês entendem
rápido: são como antenas biológicas. Elas captam vibrações, campos magnéticos e
padrões mentais.
SuperPauta: Quando você fala em captar padrões mentais, isso significa ler
pensamentos palavra por palavra, ou significa perceber emoções, intenções e
estados mentais gerais?
Kher-Ba: Eu percebo emoções e intenções com mais clareza. Pensamento verbal,
frase por frase, é mais difícil, porque a mente humana é ruidosa. Vocês dizem
muito por dentro para esconder o que sentem.
SuperPauta: Vocês se alimentam? O que é “comida” para você?
Kher-Ba: Nós não mastigamos como vocês. Nosso sistema digestivo mudou com o
tempo. Nós nos nutrimos de pastas energéticas e de absorção por mucosas. Em
alguns casos, pela pele, em banhos de nutrientes. A prática humana de matar
outro ser vivo, cozinhar e mastigar, para nós é um choque cultural. Eu sei que
vocês têm rituais, cultura, história. Eu não estou chamando vocês de monstros
por isso. Estou descrevendo o estranhamento.
SuperPauta: Como funciona a reprodução da sua espécie e o que vocês chamariam de
família? Existem vínculos parecidos com pai, mãe, filhos e parceiros, ou a vida
social de vocês é estruturada de outro jeito?
Kher-Ba: Nós somos gestados em câmaras de desenvolvimento. Genética selecionada
por função. Isso não significa frieza. Significa menos ansiedade. O vínculo
existe. Mas não é baseado em posse. Não é “meu”. É “nosso”.
SuperPauta: Existe arte no seu mundo? Música, imagens, histórias? Para que ela serve: entretenimento, ciência, memória coletiva, espiritualidade? E por que uma espécie avançada ainda precisaria de arte?
Kher-Ba: A arte é inevitável onde existe percepção. No meu mundo, música é
matemática. Navegação. Arquitetura de campo. Nós usamos harmonia para construir
e para viajar. A arte também é memória coletiva. Catedrais de pensamento que
todos podem visitar mentalmente. Eu admiro uma coisa em vocês: vocês
transformam sofrimento em canção. Vocês fazem da dor uma forma de beleza. Isso
é perigoso e bonito.
SuperPauta: Sua nave era uma máquina feita de metal e circuitos, como as nossas, ou
era algo vivo, biológico, ou um híbrido?
Kher-Ba: Híbrido. A estrutura é cultivada, mas os sistemas de controle são
neurológicos. A nave responde ao piloto. Ela aprende.
SuperPauta: Para um leitor comum, isso soa como misticismo ou fantasia. Então eu
pergunto de maneira prática: como você distingue “vivo” de “máquina”? O que
muda na experiência do piloto?
Kher-Ba: Vocês distinguem por sangue e batimento. Nós distinguimos por resposta
adaptativa. A nave não é um objeto morto. Ela ajusta padrões, responde a
intenção, corrige instabilidades. Ela é parceira.
SuperPauta: Como vocês viajam distâncias enormes? Vocês usam dobra, buracos de
minhoca, algum tipo de salto? Explique sem equações e sem palavras de filme.
Kher-Ba: Vocês pensam em distância como estrada. E em viagem como velocidade e
fogo. Nós pensamos em distância como sintonia. Não é “correr pelo espaço”. É
mudar o estado de ressonância para que a nave deixe de estar no ponto A e passe
a estar no ponto B. Para vocês, a metáfora mais próxima seria trocar de canal.
Você não viaja até o canal. Você sintoniza.
SuperPauta: O que custa essa viagem? Energia? Risco? Dano ao corpo? Um preço ético?
Kher-Ba: Custa biologia. Cada salto desestabiliza células. Envelhece sistemas.
Cobra de nós. E custa ética, sim. Porque viajar até outro mundo é tocar algo
que não é seu. Vocês também fazem isso na Terra. A diferença é que vocês
raramente admitem o preço.
SuperPauta: O que, na nossa ciência atual, está mais próximo do certo, e o que está
profundamente incompleto? Eu não quero humilhar ninguém, eu quero clareza.
Kher-Ba: Vocês são bons em medir efeitos e ruins em compreender causas. Vocês
dominam explosão, combustão, empuxo. Mas ignoram o papel da consciência como
parte do fenômeno. E vocês ainda separam observador e realidade como se fossem
coisas diferentes.
SuperPauta: Por que a Terra? O que vocês vieram buscar aqui especificamente naquela
missão? Observação? Coleta? Contato? Algo mais?
Kher-Ba: A Terra é uma joia rara. A biodiversidade genética é vasta. Nós viemos
observar e coletar amostras de baixa interferência. Plantas, água, material
biológico simples. Não viemos invadir. Não viemos colonizar.
SuperPauta: Você mencionou “baixa interferência”. Eu preciso insistir porque isso é
um ponto de debate importante: para quem está lendo, coletar material biológico
já é interferir. Como você justifica essa diferença? Onde termina a observação
e começa a intervenção?
Kher-Ba: (As protuberâncias pulsam mais rápido, como se ele se irritasse, mas
ele não foge.) É uma zona cinzenta. Nós chamamos de “interferência” quando
alteramos o curso de uma sociedade, quando ensinamos tecnologia, quando mudamos
decisões coletivas. A coleta de amostra, para nós, é como vocês coletarem uma
gota de água do mar para estudar. Mas eu reconheço: para quem está dentro do
mar, isso ainda é retirar algo. Se vocês chamarem isso de invasão, parte de
vocês estará certa.
SuperPauta: Então por que fazer isso?
Kher-Ba: Porque há curiosidade. Curiosidade também é ego. E porque a Terra está
em risco pelas mãos de vocês. Catalogar o que existe aqui também é registrar
antes que desapareça.
SuperPauta: Por que o Brasil? E por que aquela região específica de Minas Gerais? Havia algo geológico, magnético, ou foi acaso?
Kher-Ba: Havia anomalias magnéticas úteis para calibração. Mas parte foi
acidente. Parte foi decisão. E, quando a instabilidade ocorreu, nós descemos
onde foi possível. Vocês romantizam muito. Às vezes o cosmos é… prosaico.
SuperPauta: Por que isso aconteceu justamente no período que nós marcamos como
1996? Foi uma janela de navegação? Uma decisão estratégica? Algo ligado ao que
estava acontecendo na Terra naquele momento?
Kher-Ba: Havia uma janela favorável. E havia muito ruído tecnológico na Terra.
Radar. Comunicação. Experimentação. A Terra era farol e tempestade.
SuperPauta: O que causou a queda da nave, na sua percepção? Foi falha interna,
clima, interferência externa, acidente?
Kher-Ba: Houve perda de estabilidade de ressonância. Houve interferência
eletromagnética e fenômenos atmosféricos. Houve tentativa de correção. E falha.
SuperPauta: Isso é uma lembrança clara do que você viveu, ou é uma reconstrução que
você faz agora juntando pistas? O que é certeza absoluta na sua memória, e o
que pode estar distorcido pelo choque?
Kher-Ba: A certeza absoluta é o impacto. O rasgo. A violência. O resto pode ter
camadas. O choque distorce. A dor distorce. Eu posso estar juntando causas
porque vocês, humanos, gostam de causas.
SuperPauta: Quando você saiu dos destroços, para onde tentou ir? Você buscou
abrigo, socorro, conserto, resgate?
Kher-Ba: Sombra. Umidade. Silêncio. Eu precisava reduzir agressão ao meu
sistema. Eu tentei enviar sinal, mas a nave estava comprometida. Eu me arrastei
até um lugar que parecia menos exposto. Um terreno. Um muro. Matagal. E eu me
encolhi.
SuperPauta: Como foi respirar o ar da Terra pela primeira vez fora da nave?
Kher-Ba: Foi como respirar fogo frio. Eu sentia o oxigênio como ácido lento.
Mas, ao mesmo tempo, senti cheiros que não existem no meu mundo. Terra. Planta.
Água. Eu pensei: este planeta é vivo demais.
SuperPauta: Você estava ferido? Qual a gravidade?
Kher-Ba: Microfraturas. Lesões internas. Colapso de ritmos biológicos. E o
isolamento. Vocês não entendem o isolamento como ferimento, mas para mim foi
ferida aberta.
SuperPauta: O encontro com as três meninas, no Jardim Andere. Para quem está lendo
e não conhece o episódio: elas relatam que viram uma criatura agachada e
entraram em pânico. O que você viu nelas, e o que você tentou fazer?
Kher-Ba: Eu ouvi passos antes de ver. Eu captei juventude. Curiosidade. E medo,
já antes do choque. Quando elas me viram, a mente delas explodiu em pânico. Eu
tentei projetar um pedido simples: ajuda. Mas o medo delas foi tão forte que me
paralisou mais.
SuperPauta: Você tentou acalmá-las? Você tentou se comunicar de forma que elas
entendessem?
Kher-Ba: Eu tentei. Mas transmitir calma exige que o receptor aceite. Elas
estavam em modo fuga. E eu não podia forçar.
SuperPauta: Quando você diz “forçar”, isso significa que você poderia ter apagado ou alterado a memória delas? Muita gente vai achar isso misericórdia. Muita gente vai achar isso violência. Como você vê?
Kher-Ba: Apagar dor é apagar verdade. E sem verdade vocês repetem. Eu poderia
ter reduzido a lembrança. Mas isso seria invadir a mente delas. Seria
transformar pessoas em objetos. Eu já estava sendo tratado como objeto. Eu não
queria devolver isso ao mundo.
SuperPauta: Elas acharam que você era o “Diabo”. Você percebeu esse conceito? E o
que achou dele?
Kher-Ba: Eu captei o arquétipo do mal. Isso me ensinou algo duro: vocês têm
monstros prontos para colar em tudo que é novo. Eu não era monstro. Eu estava
tremendo. Mas vocês viram ameaça porque vocês associam feio a mau. Essa
estética moral é uma cegueira.
SuperPauta: Como foi o momento da captura? Quem chegou, como te trataram, o que
você sentiu?
Kher-Ba: Cheiro de diesel. Vozes tensas. Metal. Rede. A rede rasgou minha pele
em fissuras pequenas. O medo deles era intenso. Não era curiosidade calma. Era
medo armado. Eu fui tratado como animal perigoso. Mas eu estava fraco.
SuperPauta: No meio da operação, você notou pessoas que não pareciam fazer parte
das equipes locais? Você ouviu outra língua, percebeu uniformes diferentes, ou
isso pode ter sido confusão do seu estado físico naquele momento?
Kher-Ba: Eu ouvi sons que não eram português. Eu vi pressa. Eu vi hierarquia. Mas
eu não posso afirmar nacionalidade por tecido. Isso é o mundo de vocês. Eu
posso dizer que havia mais gente interessada do que vocês gostam de admitir.
SuperPauta: Você foi colocado numa caixa, coberto, levado como se fosse carga? O
que passava na sua mente?
Kher-Ba: Sim. Madeira. Escuro. Vibração de estrada. Eu pensei que morreria sem
ser visto como ser. Pensei que minha última imagem seria rosto com nojo.
SuperPauta: No hospital, houve tentativa de salvar sua vida, ou você sentiu que
virou objeto de estudo?
Kher-Ba: Houve os dois. Houve uma enfermeira que me cobriu com um lençol como se
eu fosse pessoa. Houve um olhar que me tratou como prêmio. Eu não tenho nomes.
Eu tenho impressões. E a impressão de “prêmio” é universal.
SuperPauta: O que exatamente causou sua morte? Ferimentos, bactérias terrestres,
atmosfera, tudo junto?
Kher-Ba: Mistura. Ferimentos, intoxicação por oxigênio, falha do meu sistema sob
isolamento. Vocês subestimam o que é ficar sem rede. É como arrancar um órgão.
SuperPauta: Agora vem a parte mais delicada, porque envolve uma morte real e
versões que ainda hoje dividem opiniões. O policial Marco Eli Chereze morreu
depois. Existem pessoas que ligam isso ao contato com você. Eu quero separar
duas coisas: o que você sabe por experiência direta e o que você apenas deduz
ou ouviu depois.
Kher-Ba: Eu sei que ele me tocou sem proteção. Eu sei que minha pele carrega microbiota
simbiótica. Eu sei que, para vocês, isso pode ser agressivo. Eu não sei o que
exatamente matou aquele homem, porque eu não vi exames, não vi laudos, não
acompanhei a medicina de vocês. Eu ouvi histórias depois, no fluxo. Mas
histórias também viram mito.
SuperPauta: Você sente remorso?
Kher-Ba: Eu sinto tristeza. Remorso é intenção. Eu não tive intenção. Mas eu
carrego a dor de ter sido o gatilho de um fim humano. Se eu pudesse voltar, eu
teria evitado o toque. Mas eu não controlava a situação. Eu era carga.
SuperPauta: Quando você diz “eu era carga”, isso é uma metáfora ou é a forma mais
exata de descrever como você foi tratado?
Kher-Ba: É exato. Vocês transformam seres em carga com facilidade. Em guerra, em
hospital, em notícia, em meme. E depois perguntam por que o mundo parece frio.
SuperPauta: Muita gente fala em “acobertamento”. Muita gente nega. Eu não quero que
você me dê uma certeza fácil. Eu quero camadas. O que você viu, o que você
deduz, o que você ouviu depois.
Kher-Ba: Eu vi pressa. Eu vi isolamento. Eu vi medo institucional. Eu deduzo que
houve controle de narrativa, porque vocês controlam narrativa quando o poder se
sente ameaçado. Eu ouvi histórias de transporte, de cofres, de laboratório. Mas
eu não posso jurar locais. Eu perdi consciência. O resto é neblina.
SuperPauta: Por que negar, então?
Kher-Ba: Porque admitir é perder controle. Se o Estado admite que não controla o
céu, ele perde o monopólio do medo. E medo é moeda política.
SuperPauta: Agora eu vou jogar uma pergunta que incomoda os dois lados. Se vocês
são avançados e existem mesmo, por que permitir que governos escondam tudo? Por
que não aparecer e pronto? Isso não parece paternalismo do tipo “vocês não
estão prontos”?
Kher-Ba: (Um silêncio pesado. E, pela
primeira vez, eu sinto algo do lado dele que parece culpa.) Porque nós também
temos medo.
SuperPauta: Medo do quê?
Kher-Ba: De provocar colapso. Vocês não lidam bem com a ideia de não serem
únicos. Vocês podem reagir com adoração, pânico ou agressão. Em massa. E vocês
têm armas, culto, histeria e propaganda. Aparecer não é simples. É
responsabilidade.
SuperPauta: Mas isso não é uma desculpa conveniente? “Não apareço porque vocês são
imaturos” soa como alguém que quer vantagem sem prestar contas. E, ao mesmo
tempo, você admitiu que a curiosidade de vocês também é ego. Então eu volto ao
tema: existe um interesse de vocês em manter tudo no meio do nevoeiro?
Kher-Ba: Sim. E eu aceito que vocês desconfiem. Desconfiar é saudável. Nós não
somos santos. Nós somos seres. Com interesses. Com medo. Com contradições. A
diferença é que nós somos treinados para admitir contradições sem quebrar a
mente. Vocês preferem quebrar o espelho.
SuperPauta: Você disse que consciência não é produzida pelo cérebro como a gente
acredita. Isso é um campo minado aqui na Terra. Então eu quero que você formule
com humildade, sem dogma. O que você pode afirmar e o que você não pode?
Kher-Ba: Eu posso afirmar a minha experiência. Eu existo sem o corpo. Isso não
“prova” tudo. Mas indica que a consciência não é apenas lixo químico. Vocês
tratam a consciência como subproduto. Como fumaça. E vocês sofrem por isso.
SuperPauta: O tempo, para você, é linear? Passado, presente e futuro? Ou é outra
coisa?
Kher-Ba: O tempo é paisagem. Vocês caminham por trilhas. Às vezes, por trauma,
vocês ficam presos num lugar da paisagem. Vocês chamam isso de lembrança. Ou
saudade.
SuperPauta: Se você pudesse dar uma pista verificável em vinte anos, algo que um
leitor comum pudesse cobrar sem virar fé, qual seria?
Kher-Ba: Vocês vão medir correlações entre consciência e fenômenos físicos sem
cair em superstição. Vocês vão chamar de “efeito do observador ampliado”. Isso
vai irritar metade dos cientistas de vocês. E irritar cientista é bom quando a
irritação vira pesquisa, não vira perseguição.
SuperPauta: Depois de tudo, você consegue perdoar as pessoas envolvidas? As
meninas, os que capturaram você, os que esconderam o caso? Se perdoa, é
empatia, é indiferença evoluída, ou é outra coisa?
Kher-Ba: Perdão implica ofensa pessoal. Eu senti tristeza. Eu senti medo. Eu não
senti ódio como vocês sentem. Mas eu quero que vocês discutam algo mais difícil
do que perdão. Responsabilidade.
SuperPauta: Responsabilidade de quem?
Kher-Ba: Da criança que grita. Do soldado
que obedece. Do médico que cala. Do jornalista que romantiza. Do ufólogo que
exagera. Do cético que ridiculariza. Vocês gostam de escolher um vilão porque
vilão simplifica. A verdade quase sempre é distribuída.
SuperPauta: Qual é o maior erro da humanidade, na sua visão?
Kher-Ba: A separação. Vocês vivem como se o planeta fosse cenário e não corpo. Vocês
acham que o que fazem ao vizinho, ao rio, à floresta, não volta. Volta.
SuperPauta: Você falou de dor, medo, tecnologia, política, segredo. Agora eu quero
uma coisa que quase ninguém pergunta: o que você achou bonito na Terra?
Kher-Ba: A chuva. A água caindo do céu é um milagre planetário. E a coragem de
vocês de seguir vivendo depois do medo. As meninas… elas voltaram para casa e
continuaram. Isso me comove. Vocês são frágeis e teimosos. Às vezes a teimosia
salva.
SuperPauta: Qual parte do que aconteceu depois, na cultura humana, mais te diverte
ou mais te humilha? A imprensa, os memes, os bonecos, as versões?
Kher-Ba: O boneco é engraçado. Vocês transformaram trauma em “fofo”. Isso é uma
forma de domesticar o medo. Eu aceito
ser mascote se isso ajudar vocês a dormir. Mas eu desprezo quando vocês vendem
medo como entretenimento. Medo dá clique. Eu aprendi isso rápido.
SuperPauta: Mensagem final. Eu peço uma imagem, não uma frase bonita. E peço que
seja para qualquer leitor: o crente, o cético, o curioso e o indiferente.
Kher-Ba: Imaginem uma criança perdida na lama, tremendo, sob chuva. E imaginem
que vocês têm duas opções: a pedra ou a mão. Quando o desconhecido cair de
novo, porque vai cair, escolham a mão. Chamem médicos, não armas. Chamem
filosofia, não gritos. E olhem para o céu sem pedir salvadores. Peçam
maturidade. O universo não é palco de heróis. É vizinhança. Se vocês
continuarem tratando vizinho como inimigo, vão morrer sozinhos no próprio
planeta.
(A conexão se desfaz como fumaça. O cheiro de amônia desaparece de repente, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível. Fica apenas um silêncio comum, quase banal. E é aí que a vida real dá seu golpe: uma notificação qualquer, o café esfriando, o mundo pedindo pressa. Eu fico alguns segundos parado, com uma sensação incômoda, que não sei se é literária ou fisiológica: a de que eu não entrevistei um “monstro”, nem um “anjo”. Eu entrevistei um espelho. E o espelho respondeu.)












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