terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Kher-Ba, o ET de Varginha

 Encontros Impossíveis

O náufrago de olhos vermelhos

Em um limbo cinzento onde o tempo é apenas uma memória, a criatura que protagonizou o maior mistério ufológico do Brasil quebra um silêncio de três décadas. Longe das teorias da conspiração e dos relatórios militares, ele revisita a queda em Minas Gerais, o terror compartilhado num terreno baldio, a agonia em uma mesa de operação e a incompreensão de uma humanidade que, ao encarar o desconhecido, preferiu ver o inimigo. Entre a biologia e o espírito, ele revela o lado de quem não veio invadir, mas apenas naufragou.

 

“Vocês olham para o céu procurando deuses, mas quando caímos na lama, vocês veem apenas monstros. O medo é a única escuridão real.” – Kher-Ba (O Ser de Varginha)

 

Há lugares que não existem no mapa, mas existem no corpo. Este não é terreno, nem celestial. É um cenário de consciência, uma espécie de sala sem paredes onde o tempo não anda em linha reta: ele pulsa, como um coração antigo, às vezes acelerando, às vezes ficando tão lento que dá para ouvir o silêncio ranger. O ambiente lembra uma caverna úmida. Não porque eu veja estalactites ou rochas, mas porque tudo cheira a chão depois da chuva. Terra molhada. Musgo. Umidade. E, por trás disso, um odor acre e pungente, que não dá para ignorar: amônia. A mesma palavra que volta nos relatos de 1996 como um refrão incômodo. Não há cadeiras. Não há mesa. Não há gravador. Meu caderno existe, mas parece um objeto deslocado, como se eu tivesse levado um guarda-chuva para dentro de um aquário. Ainda assim, eu o seguro. Costume de repórter. Amuleto de quem acredita que registrar é uma forma de não enlouquecer.

Diante de mim, agachado, com os joelhos recolhidos contra o peito, está a figura que o Brasil aprendeu a chamar de “ET de Varginha”. Mas “ET de Varginha” é rótulo de manchete, e manchetes não respiram. O que vejo aqui respira. Ou algo análogo a isso. Ele é pequeno. Não a “pequenez” caricata de folclore, mas uma estatura que sugere economia de energia, adaptação, gravidade. A pele é marrom-escura e tem um brilho oleoso, como se guardasse um filme protetor. Na cabeça, três protuberâncias discretas pulsam num ritmo lento, quase hipnótico. Mas são os olhos que dominam a cena: vermelhos, enormes, sem pupilas visíveis. E, no entanto, não há fúria neles. Há uma tristeza líquida, profunda, desconfortavelmente reconhecível.

Este encontro impossível não pretende encerrar o caso Varginha. Não pretende “provar” nada. A proposta aqui é outra: inverter o olhar. Em vez de perguntar “o que era aquilo?”, perguntar “quem era aquilo?”. Em vez de transformar o desconhecido em inimigo, permitir que ele se explique, mesmo que a explicação venha cheia de falhas, traduções imperfeitas e ambiguidades. Porque se existe uma verdade teimosa em toda história de espanto, ela é esta: quando a humanidade encara o que não entende, costuma escolher entre duas máscaras. Riso ou agressão. Meme ou arma. E, muitas vezes, as duas ao mesmo tempo. Eu respiro. Tento firmar a atenção. Sinto um zumbido leve no ouvido, como quem encosta a cabeça num poste e percebe a eletricidade sem tocar no fio. É estranho, mas não é ameaça. É apenas… diferença. E eu decido começar como todo jornalista deveria começar diante do extraordinário: fazendo perguntas que qualquer pessoa entenderia. Sem pressupostos. Sem atalhos. Sem depender de versões anteriores. Sem “piscadinhas” para o rascunho.

 



SuperPauta: Antes de qualquer coisa, eu preciso saber como me dirigir a você. “ET de Varginha” é um apelido que a imprensa e o povo criaram. Mas apelidos desumanizam e simplificam. Você tem um nome individual? Uma designação? Uma função? Algo que eu consiga pronunciar e escrever sem parecer que estou inventando? (A resposta não chega como som. Não há voz no ar. O que chega é uma presença dentro da mente, como se alguém tivesse colocado uma frase pronta no centro do pensamento, mas com textura, cor e sensação).

Kher-Ba: Nomes são âncoras. Vocês usam nomes para prender o mundo ao chão, para não se perderem. Onde eu vim, nós somos definidos por ressonância e por utilidade ao todo. Mas eu entendo o seu pedido. Você precisa de um som, de um símbolo verbal. A aproximação mais fiel da minha designação seria “Aquele que Mapeia Fluxos”. Se você quer algo curto, pode usar Kher-Ba. Não é completo, mas funciona como ponte.

 

SuperPauta: Quando você aceita que eu use “Kher-Ba”, isso é mais confortável para você, ou é apenas uma forma de facilitar a nossa comunicação aqui?

Kher-Ba: É uma forma de facilitar. O conforto, para mim, não vem da palavra. Vem da intenção. Se a intenção for me reduzir a personagem de feira, a palavra vira faca. Se a intenção for compreender, a palavra vira porta.


SuperPauta: Eu preciso estabelecer outra coisa. O que você topa contar e o que você não consegue contar? Existe algum tipo de limite, proibição, ou “sigilo” do seu lado?

Kher-Ba: Não há generais com carimbos aqui. Não há censores. Há limites, sim. Mas eles não vêm de polícia. Vêm da tradução. Se eu tentar colocar certas ideias diretamente dentro da sua mente, seu cérebro não vai entender. Vai transformar em ruído. Em dor. Em cansaço. Então eu escolho caminhos que cabem na sua linguagem. E há algo mais… (ele hesita, e eu sinto a hesitação como uma queda de temperatura) há algo pessoal: vergonha.

 

SuperPauta: Vergonha do quê exatamente? De ter sido visto vulnerável? De ter virado espetáculo? Ou de alguma decisão tomada antes da queda?

Kher-Ba: De tudo isso. No meu mundo, fragilidade é íntima. A dor não é performance. Aqui, minha fragilidade virou narrativa. E narrativa vira comércio. Eu tenho vergonha de ter sido observado como se eu fosse um objeto e, ao mesmo tempo, de ter observado vocês com a frieza de quem cataloga. Nós também erramos.

 

SuperPauta: Uma última pergunta para alinhar a entrevista. Você quer ser entendido, ou quer apenas que sua existência fique registrada? Pergunto isso porque registro é frio. Entendimento exige empatia, e empatia exige risco.

Kher-Ba: Registro vocês já têm. Vocês têm relatos, disputas, versões, caricaturas. Eu quero ser entendido. Eu quero que saibam que o ser encolhido sob a chuva sentia frio. Que o “invasor” sentia saudade de casa. E quero que vocês se vejam no espelho sem quebrar o espelho.

 

SuperPauta: Para nós, você morreu em 1996. Mas aqui estamos conversando. Você se percebe morto? O que mudou quando o seu corpo parou?

Kher-Ba: A morte é um conceito de desligamento de sistemas biológicos. O receptáculo parou. A circulação parou. A regulação parou. Mas a consciência não depende daquele corpo da forma como vocês acreditam. Eu fui retirado da densidade. Da gravidade que esmagava meus ossos. Do ambiente que queimava minhas mucosas. Agora eu sou… percepção. Fluxo.

 

SuperPauta: Quando você diz “fluxo”, o que isso significa de maneira simples? Onde você está, afinal? Você está em algum lugar, ou “lugar” não serve mais?

Kher-Ba: “Lugar” ainda serve, mas serve de outro modo. Pense numa correnteza. Você não diz “onde está a água” como se fosse um bloco parado. Você diz “onde ela passa”. “Como ela se move”. Eu estou numa dimensão onde pensamento vira direção. Onde intenção vira movimento. Não é céu, não é inferno. Isso é uma forma humana de organizar o desconhecido com prateleiras.

 

SuperPauta: E como esta conversa acontece? Eu sinto imagens, cheiros, lembranças que não são minhas. Isso é telepatia? É sonho? É uma tradução da minha mente?

Kher-Ba: Vocês usam palavras. Palavras são códigos sonoros lentos e incompletos. Nós usamos pacotes sensoriais. Conceito, sensação, memória e intenção juntos. Eu não estou “falando português”. Eu estou projetando a ideia. O seu cérebro escolhe as palavras mais próximas para vestir essa ideia. Às vezes ele acerta. Às vezes ele inventa sem querer.

 

SuperPauta: Então existe o risco de eu estar colocando poesia onde deveria haver desconforto, ou colocando lógica onde deveria haver emoção?

Kher-Ba: Sim. E existe o risco de você se defender. Vocês se defendem de tudo que ameaça a imagem que vocês têm de vocês mesmos.

 

SuperPauta: Vou perguntar de um jeito que eu ou qualquer leitor entenda. Você sente raiva, dor, saudade ou medo como a gente? Ou eu estou colocando sentimentos humanos em você quando talvez a sua mente funcione de outro jeito?

Kher-Ba: Eu sinto. Mas não como vocês. O medo é universal. É o alarme de preservação. A saudade também é constante. No meu caso, saudade não é falta de um indivíduo. É falta de uma harmonia. Vocês são ilhas. Cada mente trancada num crânio, tentando adivinhar a outra por gestos e palavras. No meu mundo, nós somos rede. Oceano. E quando eu caí aí, eu fiquei sozinho pela primeira vez. Isso foi a maior dor que eu já experimentei.

 

SuperPauta: Você sente raiva do que aconteceu?

Kher-Ba: Eu senti no começo. A raiva é uma chama que consome energia. Eu precisava de energia para sobreviver. Depois, a raiva virou pergunta. Por que vocês preferem ver inimigo no desconhecido? E há algo que me irrita em vocês, sim.

 

SuperPauta: O que irrita?

Kher-Ba: Vocês transformam tudo em disputa de torcida. Verdade contra mentira. Crente contra cético. Herói contra vilão. Vocês não suportam o “talvez”. O “talvez” é onde mora a inteligência.

 

SuperPauta: Você está sozinho agora, ou está conectado a outros como você? Os outros que caíram com você estão aí também?

 

Kher-Ba: Não estou sozinho. Meus companheiros retornaram ao fluxo antes de mim. Mas aqui a individualidade é menos rígida. Eu sou Kher-Ba, e sou parte de um todo. O universo, do lado de cá, é tão povoado quanto o físico. Vocês só não percebem.

 

SuperPauta: De onde você veio? Seu mundo é um planeta físico, como a Terra, ou é um habitat artificial, ou algo que existe em outro tipo de “realidade”?

Kher-Ba: É um mundo físico. Denso. Ele orbita uma estrela velha que vocês chamariam de anã vermelha. A luz lá não é branca e agressiva como a do seu Sol. É um crepúsculo permanente. Uma luz avermelhada, suave.

 

SuperPauta: Descreva a paisagem do seu planeta com detalhes que qualquer pessoa consiga imaginar: como é o céu, a luz, o solo, a vegetação se existir, o cheiro do ar e como são as cidades ou abrigos de vocês. Se eu estivesse lá por cinco minutos, o que me chocaria primeiro?

Kher-Ba: O peso. A gravidade. Você pisaria e sentiria o chão puxando seu corpo com força. Seu peito pareceria menor. Sua respiração ficaria curta. O céu, quando aparece, não tem o azul de vocês. Ele é escuro. A luz é baixa e vermelha, como fim de tarde que nunca termina. Não há florestas verdes. A fotossíntese lá segue outros caminhos. Vocês veriam cores que chamariam de ocre, roxo escuro, marrom, cobre. Há estruturas, sim, mas nossas cidades não são torres. Elas são cavidades. Abrigos escavados e integrados ao solo. Vocês desafiam o mundo. Nós negociamos com ele. O cheiro do ar tem vapores que vocês chamariam de tóxicos. Sulfurosos. Amônia em proporções que queimariam suas mucosas.

 

SuperPauta: E seus olhos vermelhos e grandes. Isso tem a ver com essa luz?

Kher-Ba: Sim. Eles captam espectros que os seus olhos não captam. No meu mundo, ver infravermelho é sobreviver. Vocês associam vermelho a perigo porque vocês colocam moral na cor. Isso é um hábito cultural. Não é uma lei do universo.

 

SuperPauta: A sua espécie respira oxigênio como nós?

Kher-Ba: O oxigênio, para nós, é agressivo. Ele é útil em pequenas proporções. Em excesso, ele queima lentamente por dentro. Nós respiramos misturas que vocês não tolerariam.

 

SuperPauta: As testemunhas falaram de um cheiro forte, de amônia e enxofre, no episódio de Varginha. Para quem está lendo e não conhece o caso, eu pergunto: aquele cheiro vinha do seu corpo, vinha da nave, vinha do estresse, ou vinha de um vazamento do sistema de suporte de vida?

Kher-Ba: Pode ter sido tudo isso junto. Minha pele exala substâncias para regular temperatura e para filtrar o ambiente. Sob estresse e intoxicação, isso se intensifica. E houve vazamento do sistema da nave. Eu posso afirmar a sensação. Eu não posso afirmar medidas. Eu não tinha instrumentos. Eu tinha dor.

 

SuperPauta: As três protuberâncias na sua cabeça. Para muita gente isso parece “fantasia” ou “meme”. O que elas são e para que servem?

Kher-Ba: São órgãos sensoriais. Se eu usar uma palavra que vocês entendem rápido: são como antenas biológicas. Elas captam vibrações, campos magnéticos e padrões mentais.

 

SuperPauta: Quando você fala em captar padrões mentais, isso significa ler pensamentos palavra por palavra, ou significa perceber emoções, intenções e estados mentais gerais?

Kher-Ba: Eu percebo emoções e intenções com mais clareza. Pensamento verbal, frase por frase, é mais difícil, porque a mente humana é ruidosa. Vocês dizem muito por dentro para esconder o que sentem.

 

SuperPauta: Vocês se alimentam? O que é “comida” para você?

Kher-Ba: Nós não mastigamos como vocês. Nosso sistema digestivo mudou com o tempo. Nós nos nutrimos de pastas energéticas e de absorção por mucosas. Em alguns casos, pela pele, em banhos de nutrientes. A prática humana de matar outro ser vivo, cozinhar e mastigar, para nós é um choque cultural. Eu sei que vocês têm rituais, cultura, história. Eu não estou chamando vocês de monstros por isso. Estou descrevendo o estranhamento.

 

SuperPauta: Como funciona a reprodução da sua espécie e o que vocês chamariam de família? Existem vínculos parecidos com pai, mãe, filhos e parceiros, ou a vida social de vocês é estruturada de outro jeito?

Kher-Ba: Nós somos gestados em câmaras de desenvolvimento. Genética selecionada por função. Isso não significa frieza. Significa menos ansiedade. O vínculo existe. Mas não é baseado em posse. Não é “meu”. É “nosso”.

 

SuperPauta: Existe arte no seu mundo? Música, imagens, histórias? Para que ela serve: entretenimento, ciência, memória coletiva, espiritualidade? E por que uma espécie avançada ainda precisaria de arte?

Kher-Ba: A arte é inevitável onde existe percepção. No meu mundo, música é matemática. Navegação. Arquitetura de campo. Nós usamos harmonia para construir e para viajar. A arte também é memória coletiva. Catedrais de pensamento que todos podem visitar mentalmente. Eu admiro uma coisa em vocês: vocês transformam sofrimento em canção. Vocês fazem da dor uma forma de beleza. Isso é perigoso e bonito.

 

SuperPauta: Sua nave era uma máquina feita de metal e circuitos, como as nossas, ou era algo vivo, biológico, ou um híbrido?

Kher-Ba: Híbrido. A estrutura é cultivada, mas os sistemas de controle são neurológicos. A nave responde ao piloto. Ela aprende.

 

SuperPauta: Para um leitor comum, isso soa como misticismo ou fantasia. Então eu pergunto de maneira prática: como você distingue “vivo” de “máquina”? O que muda na experiência do piloto?

Kher-Ba: Vocês distinguem por sangue e batimento. Nós distinguimos por resposta adaptativa. A nave não é um objeto morto. Ela ajusta padrões, responde a intenção, corrige instabilidades. Ela é parceira.

 

SuperPauta: Como vocês viajam distâncias enormes? Vocês usam dobra, buracos de minhoca, algum tipo de salto? Explique sem equações e sem palavras de filme.

Kher-Ba: Vocês pensam em distância como estrada. E em viagem como velocidade e fogo. Nós pensamos em distância como sintonia. Não é “correr pelo espaço”. É mudar o estado de ressonância para que a nave deixe de estar no ponto A e passe a estar no ponto B. Para vocês, a metáfora mais próxima seria trocar de canal. Você não viaja até o canal. Você sintoniza.

 

SuperPauta: O que custa essa viagem? Energia? Risco? Dano ao corpo? Um preço ético?

Kher-Ba: Custa biologia. Cada salto desestabiliza células. Envelhece sistemas. Cobra de nós. E custa ética, sim. Porque viajar até outro mundo é tocar algo que não é seu. Vocês também fazem isso na Terra. A diferença é que vocês raramente admitem o preço.

 

SuperPauta: O que, na nossa ciência atual, está mais próximo do certo, e o que está profundamente incompleto? Eu não quero humilhar ninguém, eu quero clareza.

Kher-Ba: Vocês são bons em medir efeitos e ruins em compreender causas. Vocês dominam explosão, combustão, empuxo. Mas ignoram o papel da consciência como parte do fenômeno. E vocês ainda separam observador e realidade como se fossem coisas diferentes.

 

SuperPauta: Por que a Terra? O que vocês vieram buscar aqui especificamente naquela missão? Observação? Coleta? Contato? Algo mais?

Kher-Ba: A Terra é uma joia rara. A biodiversidade genética é vasta. Nós viemos observar e coletar amostras de baixa interferência. Plantas, água, material biológico simples. Não viemos invadir. Não viemos colonizar.

 

SuperPauta: Você mencionou “baixa interferência”. Eu preciso insistir porque isso é um ponto de debate importante: para quem está lendo, coletar material biológico já é interferir. Como você justifica essa diferença? Onde termina a observação e começa a intervenção?

Kher-Ba: (As protuberâncias pulsam mais rápido, como se ele se irritasse, mas ele não foge.) É uma zona cinzenta. Nós chamamos de “interferência” quando alteramos o curso de uma sociedade, quando ensinamos tecnologia, quando mudamos decisões coletivas. A coleta de amostra, para nós, é como vocês coletarem uma gota de água do mar para estudar. Mas eu reconheço: para quem está dentro do mar, isso ainda é retirar algo. Se vocês chamarem isso de invasão, parte de vocês estará certa.

 

SuperPauta: Então por que fazer isso?

Kher-Ba: Porque há curiosidade. Curiosidade também é ego. E porque a Terra está em risco pelas mãos de vocês. Catalogar o que existe aqui também é registrar antes que desapareça.

 

SuperPauta: Por que o Brasil? E por que aquela região específica de Minas Gerais? Havia algo geológico, magnético, ou foi acaso?

Kher-Ba: Havia anomalias magnéticas úteis para calibração. Mas parte foi acidente. Parte foi decisão. E, quando a instabilidade ocorreu, nós descemos onde foi possível. Vocês romantizam muito. Às vezes o cosmos é… prosaico.

 

SuperPauta: Por que isso aconteceu justamente no período que nós marcamos como 1996? Foi uma janela de navegação? Uma decisão estratégica? Algo ligado ao que estava acontecendo na Terra naquele momento?

Kher-Ba: Havia uma janela favorável. E havia muito ruído tecnológico na Terra. Radar. Comunicação. Experimentação. A Terra era farol e tempestade.

 

SuperPauta: O que causou a queda da nave, na sua percepção? Foi falha interna, clima, interferência externa, acidente?

Kher-Ba: Houve perda de estabilidade de ressonância. Houve interferência eletromagnética e fenômenos atmosféricos. Houve tentativa de correção. E falha.

 

SuperPauta: Isso é uma lembrança clara do que você viveu, ou é uma reconstrução que você faz agora juntando pistas? O que é certeza absoluta na sua memória, e o que pode estar distorcido pelo choque?

Kher-Ba: A certeza absoluta é o impacto. O rasgo. A violência. O resto pode ter camadas. O choque distorce. A dor distorce. Eu posso estar juntando causas porque vocês, humanos, gostam de causas.

 

SuperPauta: Quando você saiu dos destroços, para onde tentou ir? Você buscou abrigo, socorro, conserto, resgate?

Kher-Ba: Sombra. Umidade. Silêncio. Eu precisava reduzir agressão ao meu sistema. Eu tentei enviar sinal, mas a nave estava comprometida. Eu me arrastei até um lugar que parecia menos exposto. Um terreno. Um muro. Matagal. E eu me encolhi.

 

SuperPauta: Como foi respirar o ar da Terra pela primeira vez fora da nave?

Kher-Ba: Foi como respirar fogo frio. Eu sentia o oxigênio como ácido lento. Mas, ao mesmo tempo, senti cheiros que não existem no meu mundo. Terra. Planta. Água. Eu pensei: este planeta é vivo demais.

 

SuperPauta: Você estava ferido? Qual a gravidade?

Kher-Ba: Microfraturas. Lesões internas. Colapso de ritmos biológicos. E o isolamento. Vocês não entendem o isolamento como ferimento, mas para mim foi ferida aberta.

 

SuperPauta: O encontro com as três meninas, no Jardim Andere. Para quem está lendo e não conhece o episódio: elas relatam que viram uma criatura agachada e entraram em pânico. O que você viu nelas, e o que você tentou fazer?

Kher-Ba: Eu ouvi passos antes de ver. Eu captei juventude. Curiosidade. E medo, já antes do choque. Quando elas me viram, a mente delas explodiu em pânico. Eu tentei projetar um pedido simples: ajuda. Mas o medo delas foi tão forte que me paralisou mais.

 

SuperPauta: Você tentou acalmá-las? Você tentou se comunicar de forma que elas entendessem?

Kher-Ba: Eu tentei. Mas transmitir calma exige que o receptor aceite. Elas estavam em modo fuga. E eu não podia forçar.

 

SuperPauta: Quando você diz “forçar”, isso significa que você poderia ter apagado ou alterado a memória delas? Muita gente vai achar isso misericórdia. Muita gente vai achar isso violência. Como você vê?

Kher-Ba: Apagar dor é apagar verdade. E sem verdade vocês repetem. Eu poderia ter reduzido a lembrança. Mas isso seria invadir a mente delas. Seria transformar pessoas em objetos. Eu já estava sendo tratado como objeto. Eu não queria devolver isso ao mundo.

 

SuperPauta: Elas acharam que você era o “Diabo”. Você percebeu esse conceito? E o que achou dele?

Kher-Ba: Eu captei o arquétipo do mal. Isso me ensinou algo duro: vocês têm monstros prontos para colar em tudo que é novo. Eu não era monstro. Eu estava tremendo. Mas vocês viram ameaça porque vocês associam feio a mau. Essa estética moral é uma cegueira.

 

SuperPauta: Como foi o momento da captura? Quem chegou, como te trataram, o que você sentiu?

Kher-Ba: Cheiro de diesel. Vozes tensas. Metal. Rede. A rede rasgou minha pele em fissuras pequenas. O medo deles era intenso. Não era curiosidade calma. Era medo armado. Eu fui tratado como animal perigoso. Mas eu estava fraco.

 

SuperPauta: No meio da operação, você notou pessoas que não pareciam fazer parte das equipes locais? Você ouviu outra língua, percebeu uniformes diferentes, ou isso pode ter sido confusão do seu estado físico naquele momento?

Kher-Ba: Eu ouvi sons que não eram português. Eu vi pressa. Eu vi hierarquia. Mas eu não posso afirmar nacionalidade por tecido. Isso é o mundo de vocês. Eu posso dizer que havia mais gente interessada do que vocês gostam de admitir.

 

SuperPauta: Você foi colocado numa caixa, coberto, levado como se fosse carga? O que passava na sua mente?

Kher-Ba: Sim. Madeira. Escuro. Vibração de estrada. Eu pensei que morreria sem ser visto como ser. Pensei que minha última imagem seria rosto com nojo.

 

SuperPauta: No hospital, houve tentativa de salvar sua vida, ou você sentiu que virou objeto de estudo?

Kher-Ba: Houve os dois. Houve uma enfermeira que me cobriu com um lençol como se eu fosse pessoa. Houve um olhar que me tratou como prêmio. Eu não tenho nomes. Eu tenho impressões. E a impressão de “prêmio” é universal.

 

SuperPauta: O que exatamente causou sua morte? Ferimentos, bactérias terrestres, atmosfera, tudo junto?

Kher-Ba: Mistura. Ferimentos, intoxicação por oxigênio, falha do meu sistema sob isolamento. Vocês subestimam o que é ficar sem rede. É como arrancar um órgão.

 

SuperPauta: Agora vem a parte mais delicada, porque envolve uma morte real e versões que ainda hoje dividem opiniões. O policial Marco Eli Chereze morreu depois. Existem pessoas que ligam isso ao contato com você. Eu quero separar duas coisas: o que você sabe por experiência direta e o que você apenas deduz ou ouviu depois.

Kher-Ba: Eu sei que ele me tocou sem proteção. Eu sei que minha pele carrega microbiota simbiótica. Eu sei que, para vocês, isso pode ser agressivo. Eu não sei o que exatamente matou aquele homem, porque eu não vi exames, não vi laudos, não acompanhei a medicina de vocês. Eu ouvi histórias depois, no fluxo. Mas histórias também viram mito.

 

SuperPauta: Você sente remorso?

Kher-Ba: Eu sinto tristeza. Remorso é intenção. Eu não tive intenção. Mas eu carrego a dor de ter sido o gatilho de um fim humano. Se eu pudesse voltar, eu teria evitado o toque. Mas eu não controlava a situação. Eu era carga.

 

SuperPauta: Quando você diz “eu era carga”, isso é uma metáfora ou é a forma mais exata de descrever como você foi tratado?

Kher-Ba: É exato. Vocês transformam seres em carga com facilidade. Em guerra, em hospital, em notícia, em meme. E depois perguntam por que o mundo parece frio.

 

SuperPauta: Muita gente fala em “acobertamento”. Muita gente nega. Eu não quero que você me dê uma certeza fácil. Eu quero camadas. O que você viu, o que você deduz, o que você ouviu depois.

Kher-Ba: Eu vi pressa. Eu vi isolamento. Eu vi medo institucional. Eu deduzo que houve controle de narrativa, porque vocês controlam narrativa quando o poder se sente ameaçado. Eu ouvi histórias de transporte, de cofres, de laboratório. Mas eu não posso jurar locais. Eu perdi consciência. O resto é neblina.

 

SuperPauta: Por que negar, então?

Kher-Ba: Porque admitir é perder controle. Se o Estado admite que não controla o céu, ele perde o monopólio do medo. E medo é moeda política.

 

SuperPauta: Agora eu vou jogar uma pergunta que incomoda os dois lados. Se vocês são avançados e existem mesmo, por que permitir que governos escondam tudo? Por que não aparecer e pronto? Isso não parece paternalismo do tipo “vocês não estão prontos”?

Kher-Ba:  (Um silêncio pesado. E, pela primeira vez, eu sinto algo do lado dele que parece culpa.) Porque nós também temos medo.

 

SuperPauta: Medo do quê?

Kher-Ba: De provocar colapso. Vocês não lidam bem com a ideia de não serem únicos. Vocês podem reagir com adoração, pânico ou agressão. Em massa. E vocês têm armas, culto, histeria e propaganda. Aparecer não é simples. É responsabilidade.

 

SuperPauta: Mas isso não é uma desculpa conveniente? “Não apareço porque vocês são imaturos” soa como alguém que quer vantagem sem prestar contas. E, ao mesmo tempo, você admitiu que a curiosidade de vocês também é ego. Então eu volto ao tema: existe um interesse de vocês em manter tudo no meio do nevoeiro?

Kher-Ba: Sim. E eu aceito que vocês desconfiem. Desconfiar é saudável. Nós não somos santos. Nós somos seres. Com interesses. Com medo. Com contradições. A diferença é que nós somos treinados para admitir contradições sem quebrar a mente. Vocês preferem quebrar o espelho.

 

SuperPauta: Você disse que consciência não é produzida pelo cérebro como a gente acredita. Isso é um campo minado aqui na Terra. Então eu quero que você formule com humildade, sem dogma. O que você pode afirmar e o que você não pode?

Kher-Ba: Eu posso afirmar a minha experiência. Eu existo sem o corpo. Isso não “prova” tudo. Mas indica que a consciência não é apenas lixo químico. Vocês tratam a consciência como subproduto. Como fumaça. E vocês sofrem por isso.

 

SuperPauta: O tempo, para você, é linear? Passado, presente e futuro? Ou é outra coisa?

Kher-Ba: O tempo é paisagem. Vocês caminham por trilhas. Às vezes, por trauma, vocês ficam presos num lugar da paisagem. Vocês chamam isso de lembrança. Ou saudade.

 

SuperPauta: Se você pudesse dar uma pista verificável em vinte anos, algo que um leitor comum pudesse cobrar sem virar fé, qual seria?

Kher-Ba: Vocês vão medir correlações entre consciência e fenômenos físicos sem cair em superstição. Vocês vão chamar de “efeito do observador ampliado”. Isso vai irritar metade dos cientistas de vocês. E irritar cientista é bom quando a irritação vira pesquisa, não vira perseguição.

 

SuperPauta: Depois de tudo, você consegue perdoar as pessoas envolvidas? As meninas, os que capturaram você, os que esconderam o caso? Se perdoa, é empatia, é indiferença evoluída, ou é outra coisa?

Kher-Ba: Perdão implica ofensa pessoal. Eu senti tristeza. Eu senti medo. Eu não senti ódio como vocês sentem. Mas eu quero que vocês discutam algo mais difícil do que perdão. Responsabilidade.

 

SuperPauta: Responsabilidade de quem?

Kher-Ba:  Da criança que grita. Do soldado que obedece. Do médico que cala. Do jornalista que romantiza. Do ufólogo que exagera. Do cético que ridiculariza. Vocês gostam de escolher um vilão porque vilão simplifica. A verdade quase sempre é distribuída.

 

SuperPauta: Qual é o maior erro da humanidade, na sua visão?

Kher-Ba: A separação. Vocês vivem como se o planeta fosse cenário e não corpo. Vocês acham que o que fazem ao vizinho, ao rio, à floresta, não volta. Volta.

 

SuperPauta: Você falou de dor, medo, tecnologia, política, segredo. Agora eu quero uma coisa que quase ninguém pergunta: o que você achou bonito na Terra?

Kher-Ba: A chuva. A água caindo do céu é um milagre planetário. E a coragem de vocês de seguir vivendo depois do medo. As meninas… elas voltaram para casa e continuaram. Isso me comove. Vocês são frágeis e teimosos. Às vezes a teimosia salva.

 

SuperPauta: Qual parte do que aconteceu depois, na cultura humana, mais te diverte ou mais te humilha? A imprensa, os memes, os bonecos, as versões?

Kher-Ba: O boneco é engraçado. Vocês transformaram trauma em “fofo”. Isso é uma forma de domesticar o medo.  Eu aceito ser mascote se isso ajudar vocês a dormir. Mas eu desprezo quando vocês vendem medo como entretenimento. Medo dá clique. Eu aprendi isso rápido.

 

SuperPauta: Mensagem final. Eu peço uma imagem, não uma frase bonita. E peço que seja para qualquer leitor: o crente, o cético, o curioso e o indiferente.

Kher-Ba: Imaginem uma criança perdida na lama, tremendo, sob chuva. E imaginem que vocês têm duas opções: a pedra ou a mão. Quando o desconhecido cair de novo, porque vai cair, escolham a mão. Chamem médicos, não armas. Chamem filosofia, não gritos. E olhem para o céu sem pedir salvadores. Peçam maturidade. O universo não é palco de heróis. É vizinhança. Se vocês continuarem tratando vizinho como inimigo, vão morrer sozinhos no próprio planeta.


(A conexão se desfaz como fumaça. O cheiro de amônia desaparece de repente, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível. Fica apenas um silêncio comum, quase banal. E é aí que a vida real dá seu golpe: uma notificação qualquer, o café esfriando, o mundo pedindo pressa. Eu fico alguns segundos parado, com uma sensação incômoda, que não sei se é literária ou fisiológica: a de que eu não entrevistei um “monstro”, nem um “anjo”. Eu entrevistei um espelho. E o espelho respondeu.)



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