Encontros Impossíveis
A
orquestra de um homem só
Das
raízes da fome em Alagoa Grande à técnica revolucionária que transformou o
pandeiro em orquestra; os bastidores da relação com Luiz Gonzaga, a dor do
esquecimento e uma crítica afiada à música na era digital.
"Quem toca em cabaré pode tocar em qualquer lugar." – Jackson do Pandeiro
Não estamos em um estúdio
moderno, mas em uma rádio imaginária suspensa em algum lugar entre a feira de
Campina Grande e o cosmos. O ar cheira a fumo de rolo, café fresco e cera de
assoalho. Há uma luz ambarina, morna, vinda de válvulas de amplificadores
antigos. No centro, sentado em um banquinho de madeira, está José Gomes Filho,
o Jackson do Pandeiro. Ele veste
um terno de linho branco impecável, sapatos bicolores que brilham como espelhos
e seu inseparável chapéu de aba curta, levemente inclinado para a esquerda (a
marca da malandragem elegante). Ele segura um pandeiro velho, de couro de
cabra, aquecendo o instrumento com o atrito da própria mão, como quem faz
carinho em um bicho arisco. Seus olhos miúdos e vivos observam tudo com a
astúcia de quem já passou fome e hoje janta a glória.
Neste encontro impossível e exclusivo
– sugerido pelo parceiro potiguar de tantas canções, William Guedes – Jackson
revisita as dores da fome em Alagoa Grande e como elas moldaram seu ritmo
frenético; discute a "engenharia" por trás de sua técnica
revolucionária no pandeiro; relembra a parceria e o amor com Almira Castilho;
avalia sua relação com Luiz Gonzaga e o ostracismo durante a Jovem Guarda; e,
com a sabedoria de quem vê de longe, analisa o cenário musical moderno, do funk
ao autotune, encerrando com uma lição sobre o que é, afinal, ter
"suingue".
SuperPauta: Jackson,
muita gente romantiza a pobreza, mas ela tem uma rotina dura. Quando você era
menino em Alagoa Grande, como a fome aparecia no dia a dia, e como isso
empurrou você para a música?
Jackson: (Para de alisar o pandeiro e
olha fundo) A fome, meu filho, não é romântica. A fome é um bicho feio que mora
na barriga da gente e não paga aluguel. Lá em Alagoa Grande, a fome tinha hora
pra chegar, mas não tinha hora pra sair. A gente comia o que dava, às vezes
farinha, às vezes nada. E a música... veja bem, a música foi o jeito que eu
achei de enganar esse bicho. Quando eu cantava coco, quando eu via o povo
dançando, parecia que a barriga esquecia de roncar. A necessidade faz o sapo
pular, né? Eu pulei pra dentro da roda porque percebi cedo: quem diverte os
outros, geralmente ganha um prato de comida no final. A fome me deu a pressa, o
ritmo ligeiro. Quem tem fome não pode cantar devagar.
SuperPauta: Sua mãe, Dona Flora Mourão, é citada como sua primeira grande escola. Para um leitor que não conhece a história dela, o que sua mãe ensinou sobre canto, ritmo e sobrevivência?
Jackson: Minha mãe... (Tira o chapéu num
gesto de respeito e o recoloca). Flora Mourão era uma rainha sem coroa.
Cantadora de coco de primeira grandeza. Ela não me ensinou em lousa, me ensinou
na vida. Ela dizia: "Zezinho, o ritmo tá no pé, mas a alma tá na
goela". Ela me ensinou a colocar as palavras umas em cima das outras sem
deixar a melodia cair, essa coisa do trava-língua que depois o povo achou que
eu inventei. Eu não inventei nada, eu herdei! A sobrevivência vinha junto: a
gente cantava pra viver. Se o coco fosse bom, tinha agrado. Se fosse ruim, era
vaia. Com Flora, aprendi que o palco é sagrado, seja ele de tábua ou de chão
batido.
SuperPauta: Existe
a história de que você acompanhava cegos nas feiras para aprender ritmo e
resistência de repertório. O que essa convivência te ensinou sobre cadência e
comunicação com o povo?
Jackson: O cego de feira é o maior músico
do mundo, porque ele toca pra quem passa, não pra quem senta. Ele tem que
prender o sujeito pelo ouvido em segundos. Eu ia guiando, tocando ganzá,
zabumba... Ali eu aprendi a repetição hipnótica. O povo gosta do refrão, gosta
daquela batida que entra no coração e fica martelando. E aprendi a resistência.
Tocar horas debaixo de sol, sem perder a "divisão". Se você erra o
tempo, o povo dispersa. A feira foi minha universidade. O diploma foi o calo na
mão.
SuperPauta: Você
trabalhou como padeiro, pintor e fez muitos bicos pesados antes de viver de
música. Que lições do trabalho braçal entraram no seu jeito de tocar e cantar?
Jackson: O braço que sova a massa é o
mesmo que bate no couro. Ser padeiro me deu força no pulso, essa munheca que
não cansa. (Gira o pulso no ar, mostrando a flexibilidade). E os serviços duros
da vida me ensinaram humildade e uma vontade danada de não ficar preso a eles
pra sempre. Todo trabalho tem ritmo. A enxada tem um tempo forte e um fraco. O
pincel na parede tem um chiado, shhh-shhh. Eu trouxe esses sons todos pro
pandeiro. O meu pandeiro tem som de trabalho, não é som de dondoca.
SuperPauta: Em que
momento você percebeu, com clareza, que música não era só prazer, era ofício e
comida na mesa?
Jackson: Foi quando o dinheiro do cachê
pagou mais que a diária da padaria. E quando eu vi que, com o pandeiro na mão,
as pessoas me olhavam diferente. Deixava de ser o "Zezinho filho da
coqueira" pra ser o artista. Ali eu vi: é isso aqui. É a minha ferramenta.
Troquei a pá pelo pandeiro e nunca mais olhei pra trás.
SuperPauta: Você costuma dizer que “nasceu com o ritmo”. Mas a técnica se constrói. Quais foram seus primeiros mestres reais, formais ou informais?
Jackson: Mestre formal? Nenhum. Meus
mestres foram os tocadores de coco da Paraíba, os repentistas, o rádio chiando
jazz americano que a gente ouvia de vez em quando. Mas se for pra citar um
nome, digo a necessidade de ser ouvido. Eu tive que criar um jeito de tocar que
cobrisse o buraco dos outros instrumentos. Eu aprendi olhando, roubando com o
olho. Vi um baterista tocar e pensei: "Posso fazer isso num couro
só". E fiz.
SuperPauta: Alagoa
Grande te deu o chão; Campina Grande te deu o palco. Como era Campina naquele
tempo para um artista jovem do interior?
Jackson: Campina era a metrópole do
sertão! Era luz elétrica, era cassino, era rádio. Chegar em Campina foi como
chegar em Nova York pra mim. Lá eu me refinei. Deixei de ser matuto brabo pra
virar artista de terno. Campina me deu a malícia da cidade, o jogo de cintura
do cassino Eldorado. Foi lá que o José Gomes virou o embrião do Jackson.
SuperPauta – Muita
gente acha que "Jackson" é nome artístico sofisticado, mas a origem é
bem mais pitoresca. É verdade que você queria ser caubói de cinema?
Jackson: (Solta
uma gargalhada alta) É verdade, sim senhor! Quando eu era moleque, eu não
queria ser músico, eu queria ser o Jack Perry! Era um ator de faroeste
americano que eu via no cinema mudo. O homem era valente, montava no cavalo e
atirava sem olhar. Eu achava aquilo o máximo. Aí eu comecei a assinar
"Jack" nas brincadeiras. O povo na Paraíba, com aquele sotaque
gostoso, começou a chamar "Jaque", "Jaqueson"... Eu já era
‘Jack’ por causa dos filmes. O rádio só oficializou o apelido. Veja só a
ironia: eu querendo ser caubói americano e virei o rei da música nordestina.
Mas o chapéu... o chapéu eu mantive, só troquei o modelo!
SuperPauta: Dizem
que, apesar do tamanho pequeno, você era "brabo" e tinha o pavio
curto, principalmente com ciúmes. Tem uma história lendária envolvendo sua
esposa Almira e o poderoso Assis Chateaubriand. O que aconteceu naquele dia?
Jackson: (Ajeita
o nó da gravata, fingindo seriedade) Rapaz, aquilo foi fogo na roupa! Chatô era
o dono do Brasil na época, dono dos Diários Associados, meu patrão. Teve uma
festa chique para uns gringos e a gente foi. O "Velho" (Chatô), muito
dado, muito empolgado, foi cumprimentar a Almira e tascou um beijo na mão dela,
subindo pro braço... Eu não contei até três! O sangue subiu. Eu fechei a cara,
estufei o peito – que não era muito grande, mas a raiva aumentava – e já ia
tirar satisfação. "O senhor pode ser dono do jornal, mas da minha mulher,
não!". (Risos). Almira teve que me segurar, os amigos entraram no meio...
"Calma, Jackson, é o homem!". Eu sou daquele tipo: mexeu comigo, eu
aguento; mexeu com os meus, o tempo fecha. O homem poderoso ali, pra mim, não
valia um tostão se faltasse com o respeito.
SuperPauta: Outra
coisa que o povo comenta é a sua relação com aviões. Você viajou o Brasil todo,
mas dizem que tinha pavor de voar. Teve alguma viagem que te fez prometer nunca
mais tirar o pé do chão?
Jackson: Dizem
que eu tinha medo de avião, mas respeitava era a lei da gravidade. Deus fez o
homem sem asa por um motivo, meu filho. Teve uma vez que me convenceram a
entrar num teco-teco pra fazer show no interior. O bicho balançava mais que
pandeiro na mão de iniciante. Eu olhava pra baixo, via as vaquinhas desse
tamaninho, e suava frio. Eu me agarrei no banco e prometi pra Padim Ciço:
"Se eu descer vivo, nunca mais subo nisso". Cumpri a promessa boa
parte da vida. Eu dizia pros empresários: "Se for pra ir de avião, eu não
vou. O Jackson vai de ônibus, de carro, de jegue, mas vai pelo chão". O
ritmo precisa de terra firme.
SuperPauta: Falando em andanças pelo Nordeste, o SuperPauta é muito lido no Rio Grande do Norte, terra de gente valente. Você teve uma convivência muito próxima com um ícone potiguar, o Elino Julião. Como foi essa amizade e o que você achava dele como artista?
Jackson: (O
rosto se ilumina num sorriso largo) Ah, o Elino! Aquele potiguar era meu
afilhado, um irmão que a vida me deu. Elino Julião, lá de Timbaúba dos
Batistas! Ele veio pro Rio de Janeiro tentar a vida e acabou indo morar lá em
casa. Dividimos o teto e o feijão. Eu vi de perto o talento daquele cabra. Ele
tinha uma voz que parecia um trovão alegre, um jeito de cantar forró que era só
dele, muito autêntico. Eu ajudei no que pude, apresentei ele na rádio, na
gravadora Philips... Eu dizia: "Escutem esse menino do Rio Grande do Norte
que ele tem ouro na garganta". Ele era a prova de que o Nordeste é um
celeiro que não acaba mais. Tenho um orgulho danado de ter empurrado o barco
dele no começo. O Rio Grande do Norte tem que ter muito orgulho de Elino.
SuperPauta: A
religiosidade nordestina era forte e cotidiana. Ela atravessou sua música como
fé, como cultura popular ou como cenário humano?
Jackson: Tudo misturado. O Padre Cícero,
o "Padim Ciço", é nosso advogado. A fé no Nordeste não é coisa de
domingo, é de todo dia. Nas minhas letras, nas músicas que gravei, a religião
aparece como refúgio e como identidade. É o cenário onde o povo vive. Sem fé, o
sertanejo já tinha virado pó. Eu sempre carreguei minha devoção, mas sem
beatice. Minha oração também era o ritmo.
SuperPauta: Você
começou na bateria e depois fez do pandeiro um universo. O que essa mudança
significou artisticamente?
Jackson: Liberdade. A bateria te prende
numa cadeira, lá no fundo do palco. O pandeiro me trouxe pra frente, pra
"boca do lixo", pertinho do povo. Artisticamente, foi o desafio de
reduzir uma orquestra inteira para uma mão só. Na bateria eu tinha bumbo,
caixa, prato. No pandeiro, o dedão é o bumbo, a ponta dos dedos é a caixa, as
platinelas (pequenas chapas de metal encaixadas no aro do pandeiro) são os
pratos. Eu compactei o som. Virei uma banda de bolso.
SuperPauta: Há uma
frase sua famosa sobre baterista ser “músico de terceira classe”. Era
provocação, humor ou uma crítica real à hierarquia dos palcos?
Jackson: (Sorriso de canto de boca) Era
provocação com fundo de verdade. Naquele tempo, o cantor era o rei, o solista
era o príncipe, e o baterista... era o carregador de piano. Ninguém olhava pro
baterista. Eu não queria ser terceira classe, eu queria ser primeira! Eu queria
brilhar. E com o pandeiro na mão, dançando e cantando, ninguém podia tirar o
olho de mim.
SuperPauta: Dizem
que você afinava o pandeiro no fogo. Isso era necessidade prática de palco ou
parte do ritual de buscar o som perfeito?
Jackson: Necessidade pura! O couro de
cabra, quando o tempo esfria ou quando a umidade sobe, ele amolece. Fica com
som de papelão molhado. O fogo estica o couro, deixa ele tinindo, agudo, pronto
pra responder. Era um ritual, sim. Chegar no bar ou no camarim, acender um jornal
e passar o instrumento no calor... O cheiro do couro queimado já avisava: o
Jackson vai tocar. Hoje com essas peles de plástico... (faz cara de desgosto) é
prático, mas não tem alma.
SuperPauta: Você
chamava alguns músicos de “quadrados” e outros de “frouxos”. O que isso queria
dizer, na prática, dentro de um ensaio?
Jackson: "Quadrado" é aquele
músico que toca igual metrônomo, tique-taque-tique-taque. Não tem
balanço, não tem ginga. Tá certo, mas tá morto. O "frouxo" é pior: é
o que atrasa, que não segura o rojão, que deixa o ritmo cair. Eu não suportava
nenhum dos dois. Comigo tinha que ser "em cima", arrochado, mas com
molejo. Eu era exigente mesmo. Música frouxa ninguém dança.
SuperPauta: Se você tivesse ficado na bateria, ainda assim existiria o “Jackson do Pandeiro” ou o pandeiro foi o passaporte do seu destino?
Jackson: Não existiria. O Jackson
baterista seria um bom músico de orquestra, talvez. Mas o Jackson do Pandeiro,
o artista completo, só existiu porque o pandeiro me permitiu dançar, cantar e
reger a banda ao mesmo tempo. O pandeiro não foi meu instrumento, foi minha
alforria.
SuperPauta: A Rádio
Jornal do Commercio, em Recife, foi seu primeiro grande palco de massa. Para o
leitor entender a linha do tempo: você chegou à cidade no fim dos anos 40, se
firmou no rádio, gravou seus primeiros discos em 1953, como “Sebastiana” e
“Forró em Limoeiro”, e logo depois rumou para o Rio. Como foi conquistar uma
capital marcada pelo frevo sendo um artista do coco e do ritmo paraibano?
Jackson: Recife era o caldeirão. Terra de
músico valente, ouvido treinado e carnaval que não perdoa amador. Eu cheguei
com meu coco, meu rojão, e não fui pedir benção de joelhos. Fui mostrar
serviço. O frevo era primo elétrico, eu só vinha com outro sotaque. No rádio,
eu aprendi a segurar plateia. Em 1953 veio a chance de botar o ritmo no disco e
fazer o povo do Brasil inteiro escutar aquele fuá. Aí o Rio virou o próximo
passo natural. Mas o que me abriu porta mesmo foi isso: eu não tentei virar
frevista do nada. Eu entrei como eu era. E o Recife entendeu.
SuperPauta: “Sebastiana”
virou marco nacional. Quando você gravou, você sentiu que ali havia algo
diferente ou foi surpresa total?
Jackson: Sinceramente? Eu sabia que era
boa, engraçada, tinha aquele refrão forte "A, E, I, O, U, Y...". Mas
o estouro que foi... isso ninguém prevê. Foi um susto. De repente, o Brasil
inteiro estava cantando. "Sebastiana" tinha a mistura certa: humor,
ritmo dançante e uma história que todo mundo entendia.
SuperPauta: Chegar
ao Rio nos anos 1950 era como entrar no centro do império cultural brasileiro.
O choque foi mais social, musical ou de preconceito regional?
Jackson: Foi de preconceito, sem dúvida.
O Rio era lindo, mas olhava pro nordestino como "o paraíba", o
servente de obra. Eles não esperavam que um "cabeça chata" pudesse
chegar lá vestindo terno de linho, sapatos brilhando e dando aula de ritmo.
Musicalmente, eu não tive medo. Eu sabia que botava muito sambista no bolso no
quesito divisão. Mas socialmente, tive que me impor. Minha elegância era minha
armadura.
SuperPauta: A
parceria com Almira Castilho uniu vida pessoal e espetáculo. Para quem não
conhece essa história: ela era cantora e dançarina, e vocês formaram uma dupla
muito popular. O que Almira acrescentou à sua presença cênica e ao alcance da
sua música?
Jackson: Almira... (suspira, olhar
distante). Nos anos 1950, Almira somou dança, carisma e cena ao meu ritmo… A
gente se completava do jeito que o povo entende rápido: alegria, festa e
coração batendo no mesmo compasso. A gente se uniu no palco e na vida naquela
fase de ascensão nacional. Ela me ensinou a conversar melhor com a plateia, a
sorrir na hora certa, a transformar a música em espetáculo inteiro, não só em
som. E isso ajudou minha música a chegar em mais gente. Quando a dupla se
desfez, doeu, claro. Quando a vida pessoal e o palco pedem estradas diferentes,
a dor é dupla. Mas eu sempre reconheci: Almira foi parte importante da minha
história.
SuperPauta: Entrar na Rádio Nacional significava ser ouvido pelo país. Você sentiu necessidade de “adequar” algo do seu estilo ou a sua força foi justamente não ceder?
Jackson: Tentaram, viu? Diziam:
"Jackson, canta mais devagar, o povo do Sul não entende". Eu dizia:
"Se eu cantar devagar, não sou eu". Minha força foi bater o pé. Eu
trouxe o Norte pro Sul sem pedir desculpa. E o povo gostou justamente porque
era diferente, era ágil, era vivo. Não cedi um milímetro na minha toada.
SuperPauta: Além da
sua voz, as gravações dessa época têm arranjos incríveis de metais e percussão.
Como era sua relação com os maestros e arranjadores no estúdio? Eles entendiam
sua "linguagem de bicho"?
Jackson: No começo, eles ficavam doidos!
Eu chegava pro maestro e dizia: "Aqui eu quero um som de quem tá descendo
ladeira correndo". E eles: "Mas que nota é essa, Jackson?". Eu
cantava a frase dos metais com a boca: Pararatim-bum!. Aos poucos, eles
entenderam que meu ouvido era a partitura. Grandes maestros, como o Severino
Araújo, passaram a me respeitar. Eles escreviam o que eu intuía. Eu fui o regente
sem batuta.
SuperPauta: Luiz
Gonzaga foi o Rei do Baião e você o Rei do Ritmo. Vocês eram personagens
distintos: ele mais solene com o gibão, você mais malandro com o terno e o
chapéu de palhinha. Onde esses dois mundos se encontravam?
Jackson: Se encontravam
na raiz e na poeira da estrada. A sanfona dele chorava a saudade do sertão, e
meu pandeiro marcava a alegria da feira. O gibão dele era o cangaço; meu terno
era a malandragem da cidade. Eram as duas caras do nordestino. A gente se
respeitava muito, mas tinha aquela ciumeira sadia, né? Ele olhava e pensava:
"Esse paraibano tá incomodando". E eu pensava: "Tenho que fazer
mais bonito que o Velho Lua".
SuperPauta: Se ele
entrasse aqui agora, qual seria sua primeira frase, sem cerimônia?
Jackson: Eu
diria: "Ô Lua, afina essa sanfona que o pandeiro já tá quente! E vê se não
atravessa, que hoje eu tô com a gota serena!" (Gargalhada).
SuperPauta: Nos
anos 1960, a Jovem Guarda dominou. Você criticou aquela música como “cópia” e
“frouxa”. Olhando com distância histórica, mantém isso ou faria alguma
concessão?
Jackson: (Coça a cabeça, pensativo)
Olha... eu fui duro na época. Era o calor do momento. Eu via aquela meninada
cantando versão de música americana, "iê-iê-iê", sem balanço
brasileiro, e aquilo me doía. Parecia música de elevador perto de um coco de
roda. Hoje... hoje eu vejo que eles tinham o valor deles, trouxeram a guitarra
elétrica, falaram com a juventude. Mas o ritmo? Ah, o ritmo continuou frouxo.
Nisso eu não mudo, não. Faltava molho.
SuperPauta: Como
foi sentir o silêncio da indústria quando os holofotes mudaram de direção?
Jackson: O silêncio faz barulho, viu? É
ruim. Você tá acostumado com o telefone tocando, show todo dia, e de repente...
nada. Diziam que eu era "velho", "ultrapassado". Isso
magoa. O artista vive de aplauso. Quando o aplauso para, a gente murcha. Foi um
tempo difícil, de beber um pouco mais pra esquecer, de duvidar do próprio taco.
SuperPauta: O encontro com Gilberto Gil e o impacto de “Chiclete com Banana” reabriram portas. O que você viu na Tropicália: respeito profundo ou uma juventude “usando seu fogo para acender a própria fogueira”?
Jackson: No começo, desconfiei. "O
que esses cabeludos querem comigo?". Mas quando Gil veio falar comigo, vi
respeito no olho dele. Eles queriam beber na fonte. Entenderam o que eu fazia.
A Tropicália foi antropofagia, né? Eles me comeram pra se fortalecer (risos).
Mas foi bom. "Chiclete com Banana" explicou o Brasil: a gente aceita
o estrangeiro, mas tem que ter o nosso borogodó. Gil me devolveu pro palco com
dignidade.
SuperPauta: O que
dói mais em um artista: a crítica dura ou a ausência de escuta?
Jackson: A ausência de escuta. A crítica,
mesmo ruim, mostra que alguém te ouviu. O silêncio é a morte em vida. Ser
ignorado é como se você não existisse mais. Isso mata mais que qualquer doença.
SuperPauta:
A tecnologia hoje corrige voz e alinha ritmo. Para um músico de precisão
como você, isso ajuda ou atrapalha a alma da música?
Jackson: Se o
sujeito não sabe cantar e o computador canta por ele... é trapaça. É vender
gato por lebre. O ritmo tem que tá no sangue, não na máquina. Hoje tá tudo
muito "quadrado", muito limpo. Falta o suor, falta a respiração. A
música tá parecendo comida de plástico: bonita, mas sem gosto.
SuperPauta: A
internet democratizou o estúdio. O que se ganha e o que se perde quando
qualquer pessoa pode lançar música imediatamente?
Jackson: Ganha-se a chance de ouvir
talentos que estariam escondidos nos cafundós. Mas perde-se o filtro, a
qualidade. Antigamente, pra gravar um disco, você tinha que ser bom, tinha que
passar pelo crivo da rádio, do diretor artístico. Hoje, qualquer bobagem vira sucesso
e semana que vem ninguém lembra. É muita espuma e pouco sabão.
SuperPauta: Os
ritmos nordestinos atravessaram o pop, o rap, o trap e o funk. Você vê
parentesco entre a repetição hipnótica do funk e a insistência rítmica do coco?
Jackson: Vejo, sim! O funk tem a batida
do maculelê, do coco. É o tambor chamando. A batida é forte, é boa pra dançar.
O que me incomoda às vezes é a pobreza da letra. A gente falava de duplo
sentido, tinha uma malícia inteligente. Hoje é tudo muito explícito. Mas o
ritmo? O ritmo é parente nosso, com certeza. É a batida do coração do povo
pobre.
SuperPauta: Se
lançasse “Chiclete com Banana” hoje, o alvo mudaria? Quem é o “Tio Sam”
contemporâneo?
Jackson: O Tio Sam hoje não é só os
Estados Unidos. É essa cultura globalizada que quer deixar tudo igual, tudo com
cara de fast-food. O alvo seria essa mania de desvalorizar o que é nosso pra
copiar o que vem de fora, seja da América, da Europa ou da Ásia. A gente
continua querendo botar bep-bop no nosso samba sem saber sambar direito.
SuperPauta: A
diabetes te acompanhou no fim da vida. Como a fragilidade do corpo mudou sua
relação com a música, que exige tanta energia física?
Jackson: Foi uma luta. O espírito queria
pular, o corpo pedia arrego. A diabetes foi me comendo por dentro. Eu tentava
não demonstrar, mas no palco, às vezes, a vista escurecia. Foi me ensinando que
a gente não é de ferro. Mas eu preferia morrer no palco do que numa cama de
hospital.
SuperPauta: Qual foi seu dia mais feliz?
Jackson: O dia que ouvi minha voz na
rádio pela primeira vez em Recife. Eu andando na rua e o rádio do boteco
tocando Jackson. Eu parei, olhei pro céu e pensei: "Venci a fome,
mãe". Aquele dia teve gosto de mel.
SuperPauta: Lenine
já te comparou ao “Michael Jackson brasileiro”. Como você recebe esse exagero
carinhoso?
Jackson: (Ri) O
xará americano? Ele dançava bem, fazia aquele passo deslizando... mas eu queria
ver ele segurar um rojão de coco, cantando trava-língua e tocando pandeiro ao
mesmo tempo, sem perder o fôlego! É um elogio bonito. Mostra que o ritmo não
tem fronteira. Se ele é o Rei do Pop, eu sou o Rei do "Tudop": toco
tudo e dou nó em pingo d'água.
SuperPauta: Se você
pudesse gravar uma última música hoje, qual recado deixaria com o pandeiro?
Jackson: Eu gravaria um coco bem ligeiro,
dizendo pra moçada: "Não deixem o samba morrer, não deixem o coco acabar,
e aprendam a tocar instrumento de verdade!". O recado seria: respeitem a
raiz, porque árvore sem raiz cai no primeiro vento.
SuperPauta: Para
encerrar, Jackson: descreva o gesto final. O que você faz agora?
Jackson: (Ele se levanta devagar, ajeita
o terno impecável. Pega o pandeiro com a mão esquerda. O polegar da direita
corre pelo couro fazendo um zumbido grave, como um trovão distante. De repente,
TÁ! Um estalo seco. Ele pisca com malandragem, gira o pandeiro no dedo
indicador e diz:) O resto... vocês completam com o corpo. Fui!










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