quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Jackson do Pandeiro

 Encontros Impossíveis

 

A orquestra de um homem só

 

Das raízes da fome em Alagoa Grande à técnica revolucionária que transformou o pandeiro em orquestra; os bastidores da relação com Luiz Gonzaga, a dor do esquecimento e uma crítica afiada à música na era digital.

 

"Quem toca em cabaré pode tocar em qualquer lugar." – Jackson do Pandeiro

 

 

Não estamos em um estúdio moderno, mas em uma rádio imaginária suspensa em algum lugar entre a feira de Campina Grande e o cosmos. O ar cheira a fumo de rolo, café fresco e cera de assoalho. Há uma luz ambarina, morna, vinda de válvulas de amplificadores antigos. No centro, sentado em um banquinho de madeira, está José Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro. Ele veste um terno de linho branco impecável, sapatos bicolores que brilham como espelhos e seu inseparável chapéu de aba curta, levemente inclinado para a esquerda (a marca da malandragem elegante). Ele segura um pandeiro velho, de couro de cabra, aquecendo o instrumento com o atrito da própria mão, como quem faz carinho em um bicho arisco. Seus olhos miúdos e vivos observam tudo com a astúcia de quem já passou fome e hoje janta a glória.

Neste encontro impossível e exclusivo – sugerido pelo parceiro potiguar de tantas canções, William Guedes – Jackson revisita as dores da fome em Alagoa Grande e como elas moldaram seu ritmo frenético; discute a "engenharia" por trás de sua técnica revolucionária no pandeiro; relembra a parceria e o amor com Almira Castilho; avalia sua relação com Luiz Gonzaga e o ostracismo durante a Jovem Guarda; e, com a sabedoria de quem vê de longe, analisa o cenário musical moderno, do funk ao autotune, encerrando com uma lição sobre o que é, afinal, ter "suingue".

 


 

SuperPauta: Jackson, muita gente romantiza a pobreza, mas ela tem uma rotina dura. Quando você era menino em Alagoa Grande, como a fome aparecia no dia a dia, e como isso empurrou você para a música?

Jackson: (Para de alisar o pandeiro e olha fundo) A fome, meu filho, não é romântica. A fome é um bicho feio que mora na barriga da gente e não paga aluguel. Lá em Alagoa Grande, a fome tinha hora pra chegar, mas não tinha hora pra sair. A gente comia o que dava, às vezes farinha, às vezes nada. E a música... veja bem, a música foi o jeito que eu achei de enganar esse bicho. Quando eu cantava coco, quando eu via o povo dançando, parecia que a barriga esquecia de roncar. A necessidade faz o sapo pular, né? Eu pulei pra dentro da roda porque percebi cedo: quem diverte os outros, geralmente ganha um prato de comida no final. A fome me deu a pressa, o ritmo ligeiro. Quem tem fome não pode cantar devagar.

 

SuperPauta: Sua mãe, Dona Flora Mourão, é citada como sua primeira grande escola. Para um leitor que não conhece a história dela, o que sua mãe ensinou sobre canto, ritmo e sobrevivência?

Jackson: Minha mãe... (Tira o chapéu num gesto de respeito e o recoloca). Flora Mourão era uma rainha sem coroa. Cantadora de coco de primeira grandeza. Ela não me ensinou em lousa, me ensinou na vida. Ela dizia: "Zezinho, o ritmo tá no pé, mas a alma tá na goela". Ela me ensinou a colocar as palavras umas em cima das outras sem deixar a melodia cair, essa coisa do trava-língua que depois o povo achou que eu inventei. Eu não inventei nada, eu herdei! A sobrevivência vinha junto: a gente cantava pra viver. Se o coco fosse bom, tinha agrado. Se fosse ruim, era vaia. Com Flora, aprendi que o palco é sagrado, seja ele de tábua ou de chão batido.

 

SuperPauta: Existe a história de que você acompanhava cegos nas feiras para aprender ritmo e resistência de repertório. O que essa convivência te ensinou sobre cadência e comunicação com o povo?

Jackson: O cego de feira é o maior músico do mundo, porque ele toca pra quem passa, não pra quem senta. Ele tem que prender o sujeito pelo ouvido em segundos. Eu ia guiando, tocando ganzá, zabumba... Ali eu aprendi a repetição hipnótica. O povo gosta do refrão, gosta daquela batida que entra no coração e fica martelando. E aprendi a resistência. Tocar horas debaixo de sol, sem perder a "divisão". Se você erra o tempo, o povo dispersa. A feira foi minha universidade. O diploma foi o calo na mão.

 

SuperPauta: Você trabalhou como padeiro, pintor e fez muitos bicos pesados antes de viver de música. Que lições do trabalho braçal entraram no seu jeito de tocar e cantar?

Jackson: O braço que sova a massa é o mesmo que bate no couro. Ser padeiro me deu força no pulso, essa munheca que não cansa. (Gira o pulso no ar, mostrando a flexibilidade). E os serviços duros da vida me ensinaram humildade e uma vontade danada de não ficar preso a eles pra sempre. Todo trabalho tem ritmo. A enxada tem um tempo forte e um fraco. O pincel na parede tem um chiado, shhh-shhh. Eu trouxe esses sons todos pro pandeiro. O meu pandeiro tem som de trabalho, não é som de dondoca.

 

SuperPauta: Em que momento você percebeu, com clareza, que música não era só prazer, era ofício e comida na mesa?

Jackson: Foi quando o dinheiro do cachê pagou mais que a diária da padaria. E quando eu vi que, com o pandeiro na mão, as pessoas me olhavam diferente. Deixava de ser o "Zezinho filho da coqueira" pra ser o artista. Ali eu vi: é isso aqui. É a minha ferramenta. Troquei a pá pelo pandeiro e nunca mais olhei pra trás.

 

SuperPauta: Você costuma dizer que “nasceu com o ritmo”. Mas a técnica se constrói. Quais foram seus primeiros mestres reais, formais ou informais?

Jackson: Mestre formal? Nenhum. Meus mestres foram os tocadores de coco da Paraíba, os repentistas, o rádio chiando jazz americano que a gente ouvia de vez em quando. Mas se for pra citar um nome, digo a necessidade de ser ouvido. Eu tive que criar um jeito de tocar que cobrisse o buraco dos outros instrumentos. Eu aprendi olhando, roubando com o olho. Vi um baterista tocar e pensei: "Posso fazer isso num couro só". E fiz.

 

SuperPauta: Alagoa Grande te deu o chão; Campina Grande te deu o palco. Como era Campina naquele tempo para um artista jovem do interior?

Jackson: Campina era a metrópole do sertão! Era luz elétrica, era cassino, era rádio. Chegar em Campina foi como chegar em Nova York pra mim. Lá eu me refinei. Deixei de ser matuto brabo pra virar artista de terno. Campina me deu a malícia da cidade, o jogo de cintura do cassino Eldorado. Foi lá que o José Gomes virou o embrião do Jackson.

 

SuperPauta – Muita gente acha que "Jackson" é nome artístico sofisticado, mas a origem é bem mais pitoresca. É verdade que você queria ser caubói de cinema?

Jackson: (Solta uma gargalhada alta) É verdade, sim senhor! Quando eu era moleque, eu não queria ser músico, eu queria ser o Jack Perry! Era um ator de faroeste americano que eu via no cinema mudo. O homem era valente, montava no cavalo e atirava sem olhar. Eu achava aquilo o máximo. Aí eu comecei a assinar "Jack" nas brincadeiras. O povo na Paraíba, com aquele sotaque gostoso, começou a chamar "Jaque", "Jaqueson"... Eu já era ‘Jack’ por causa dos filmes. O rádio só oficializou o apelido. Veja só a ironia: eu querendo ser caubói americano e virei o rei da música nordestina. Mas o chapéu... o chapéu eu mantive, só troquei o modelo!

 

SuperPauta: Dizem que, apesar do tamanho pequeno, você era "brabo" e tinha o pavio curto, principalmente com ciúmes. Tem uma história lendária envolvendo sua esposa Almira e o poderoso Assis Chateaubriand. O que aconteceu naquele dia?

Jackson: (Ajeita o nó da gravata, fingindo seriedade) Rapaz, aquilo foi fogo na roupa! Chatô era o dono do Brasil na época, dono dos Diários Associados, meu patrão. Teve uma festa chique para uns gringos e a gente foi. O "Velho" (Chatô), muito dado, muito empolgado, foi cumprimentar a Almira e tascou um beijo na mão dela, subindo pro braço... Eu não contei até três! O sangue subiu. Eu fechei a cara, estufei o peito – que não era muito grande, mas a raiva aumentava – e já ia tirar satisfação. "O senhor pode ser dono do jornal, mas da minha mulher, não!". (Risos). Almira teve que me segurar, os amigos entraram no meio... "Calma, Jackson, é o homem!". Eu sou daquele tipo: mexeu comigo, eu aguento; mexeu com os meus, o tempo fecha. O homem poderoso ali, pra mim, não valia um tostão se faltasse com o respeito.

 

SuperPauta: Outra coisa que o povo comenta é a sua relação com aviões. Você viajou o Brasil todo, mas dizem que tinha pavor de voar. Teve alguma viagem que te fez prometer nunca mais tirar o pé do chão?

Jackson: Dizem que eu tinha medo de avião, mas respeitava era a lei da gravidade. Deus fez o homem sem asa por um motivo, meu filho. Teve uma vez que me convenceram a entrar num teco-teco pra fazer show no interior. O bicho balançava mais que pandeiro na mão de iniciante. Eu olhava pra baixo, via as vaquinhas desse tamaninho, e suava frio. Eu me agarrei no banco e prometi pra Padim Ciço: "Se eu descer vivo, nunca mais subo nisso". Cumpri a promessa boa parte da vida. Eu dizia pros empresários: "Se for pra ir de avião, eu não vou. O Jackson vai de ônibus, de carro, de jegue, mas vai pelo chão". O ritmo precisa de terra firme.

 

SuperPauta: Falando em andanças pelo Nordeste, o SuperPauta é muito lido no Rio Grande do Norte, terra de gente valente. Você teve uma convivência muito próxima com um ícone potiguar, o Elino Julião. Como foi essa amizade e o que você achava dele como artista?

Jackson: (O rosto se ilumina num sorriso largo) Ah, o Elino! Aquele potiguar era meu afilhado, um irmão que a vida me deu. Elino Julião, lá de Timbaúba dos Batistas! Ele veio pro Rio de Janeiro tentar a vida e acabou indo morar lá em casa. Dividimos o teto e o feijão. Eu vi de perto o talento daquele cabra. Ele tinha uma voz que parecia um trovão alegre, um jeito de cantar forró que era só dele, muito autêntico. Eu ajudei no que pude, apresentei ele na rádio, na gravadora Philips... Eu dizia: "Escutem esse menino do Rio Grande do Norte que ele tem ouro na garganta". Ele era a prova de que o Nordeste é um celeiro que não acaba mais. Tenho um orgulho danado de ter empurrado o barco dele no começo. O Rio Grande do Norte tem que ter muito orgulho de Elino.

 

SuperPauta: A religiosidade nordestina era forte e cotidiana. Ela atravessou sua música como fé, como cultura popular ou como cenário humano?

Jackson: Tudo misturado. O Padre Cícero, o "Padim Ciço", é nosso advogado. A fé no Nordeste não é coisa de domingo, é de todo dia. Nas minhas letras, nas músicas que gravei, a religião aparece como refúgio e como identidade. É o cenário onde o povo vive. Sem fé, o sertanejo já tinha virado pó. Eu sempre carreguei minha devoção, mas sem beatice. Minha oração também era o ritmo.

 

SuperPauta: Você começou na bateria e depois fez do pandeiro um universo. O que essa mudança significou artisticamente?

Jackson: Liberdade. A bateria te prende numa cadeira, lá no fundo do palco. O pandeiro me trouxe pra frente, pra "boca do lixo", pertinho do povo. Artisticamente, foi o desafio de reduzir uma orquestra inteira para uma mão só. Na bateria eu tinha bumbo, caixa, prato. No pandeiro, o dedão é o bumbo, a ponta dos dedos é a caixa, as platinelas (pequenas chapas de metal encaixadas no aro do pandeiro) são os pratos. Eu compactei o som. Virei uma banda de bolso.

 

SuperPauta: Há uma frase sua famosa sobre baterista ser “músico de terceira classe”. Era provocação, humor ou uma crítica real à hierarquia dos palcos?

Jackson: (Sorriso de canto de boca) Era provocação com fundo de verdade. Naquele tempo, o cantor era o rei, o solista era o príncipe, e o baterista... era o carregador de piano. Ninguém olhava pro baterista. Eu não queria ser terceira classe, eu queria ser primeira! Eu queria brilhar. E com o pandeiro na mão, dançando e cantando, ninguém podia tirar o olho de mim.

 

SuperPauta: Dizem que você afinava o pandeiro no fogo. Isso era necessidade prática de palco ou parte do ritual de buscar o som perfeito?

Jackson: Necessidade pura! O couro de cabra, quando o tempo esfria ou quando a umidade sobe, ele amolece. Fica com som de papelão molhado. O fogo estica o couro, deixa ele tinindo, agudo, pronto pra responder. Era um ritual, sim. Chegar no bar ou no camarim, acender um jornal e passar o instrumento no calor... O cheiro do couro queimado já avisava: o Jackson vai tocar. Hoje com essas peles de plástico... (faz cara de desgosto) é prático, mas não tem alma.

 

SuperPauta: Você chamava alguns músicos de “quadrados” e outros de “frouxos”. O que isso queria dizer, na prática, dentro de um ensaio?

Jackson: "Quadrado" é aquele músico que toca igual metrônomo, tique-taque-tique-taque. Não tem balanço, não tem ginga. Tá certo, mas tá morto. O "frouxo" é pior: é o que atrasa, que não segura o rojão, que deixa o ritmo cair. Eu não suportava nenhum dos dois. Comigo tinha que ser "em cima", arrochado, mas com molejo. Eu era exigente mesmo. Música frouxa ninguém dança.

 

SuperPauta: Se você tivesse ficado na bateria, ainda assim existiria o “Jackson do Pandeiro” ou o pandeiro foi o passaporte do seu destino?

Jackson: Não existiria. O Jackson baterista seria um bom músico de orquestra, talvez. Mas o Jackson do Pandeiro, o artista completo, só existiu porque o pandeiro me permitiu dançar, cantar e reger a banda ao mesmo tempo. O pandeiro não foi meu instrumento, foi minha alforria.

 

SuperPauta: A Rádio Jornal do Commercio, em Recife, foi seu primeiro grande palco de massa. Para o leitor entender a linha do tempo: você chegou à cidade no fim dos anos 40, se firmou no rádio, gravou seus primeiros discos em 1953, como “Sebastiana” e “Forró em Limoeiro”, e logo depois rumou para o Rio. Como foi conquistar uma capital marcada pelo frevo sendo um artista do coco e do ritmo paraibano?

Jackson: Recife era o caldeirão. Terra de músico valente, ouvido treinado e carnaval que não perdoa amador. Eu cheguei com meu coco, meu rojão, e não fui pedir benção de joelhos. Fui mostrar serviço. O frevo era primo elétrico, eu só vinha com outro sotaque. No rádio, eu aprendi a segurar plateia. Em 1953 veio a chance de botar o ritmo no disco e fazer o povo do Brasil inteiro escutar aquele fuá. Aí o Rio virou o próximo passo natural. Mas o que me abriu porta mesmo foi isso: eu não tentei virar frevista do nada. Eu entrei como eu era. E o Recife entendeu.

 

SuperPauta: “Sebastiana” virou marco nacional. Quando você gravou, você sentiu que ali havia algo diferente ou foi surpresa total?

Jackson: Sinceramente? Eu sabia que era boa, engraçada, tinha aquele refrão forte "A, E, I, O, U, Y...". Mas o estouro que foi... isso ninguém prevê. Foi um susto. De repente, o Brasil inteiro estava cantando. "Sebastiana" tinha a mistura certa: humor, ritmo dançante e uma história que todo mundo entendia.

 

SuperPauta: Chegar ao Rio nos anos 1950 era como entrar no centro do império cultural brasileiro. O choque foi mais social, musical ou de preconceito regional?

Jackson: Foi de preconceito, sem dúvida. O Rio era lindo, mas olhava pro nordestino como "o paraíba", o servente de obra. Eles não esperavam que um "cabeça chata" pudesse chegar lá vestindo terno de linho, sapatos brilhando e dando aula de ritmo. Musicalmente, eu não tive medo. Eu sabia que botava muito sambista no bolso no quesito divisão. Mas socialmente, tive que me impor. Minha elegância era minha armadura.

 

SuperPauta: A parceria com Almira Castilho uniu vida pessoal e espetáculo. Para quem não conhece essa história: ela era cantora e dançarina, e vocês formaram uma dupla muito popular. O que Almira acrescentou à sua presença cênica e ao alcance da sua música?

Jackson: Almira... (suspira, olhar distante). Nos anos 1950, Almira somou dança, carisma e cena ao meu ritmo… A gente se completava do jeito que o povo entende rápido: alegria, festa e coração batendo no mesmo compasso. A gente se uniu no palco e na vida naquela fase de ascensão nacional. Ela me ensinou a conversar melhor com a plateia, a sorrir na hora certa, a transformar a música em espetáculo inteiro, não só em som. E isso ajudou minha música a chegar em mais gente. Quando a dupla se desfez, doeu, claro. Quando a vida pessoal e o palco pedem estradas diferentes, a dor é dupla. Mas eu sempre reconheci: Almira foi parte importante da minha história.

 

SuperPauta: Entrar na Rádio Nacional significava ser ouvido pelo país. Você sentiu necessidade de “adequar” algo do seu estilo ou a sua força foi justamente não ceder?

Jackson: Tentaram, viu? Diziam: "Jackson, canta mais devagar, o povo do Sul não entende". Eu dizia: "Se eu cantar devagar, não sou eu". Minha força foi bater o pé. Eu trouxe o Norte pro Sul sem pedir desculpa. E o povo gostou justamente porque era diferente, era ágil, era vivo. Não cedi um milímetro na minha toada.

 

SuperPauta: Além da sua voz, as gravações dessa época têm arranjos incríveis de metais e percussão. Como era sua relação com os maestros e arranjadores no estúdio? Eles entendiam sua "linguagem de bicho"?

Jackson: No começo, eles ficavam doidos! Eu chegava pro maestro e dizia: "Aqui eu quero um som de quem tá descendo ladeira correndo". E eles: "Mas que nota é essa, Jackson?". Eu cantava a frase dos metais com a boca: Pararatim-bum!. Aos poucos, eles entenderam que meu ouvido era a partitura. Grandes maestros, como o Severino Araújo, passaram a me respeitar. Eles escreviam o que eu intuía. Eu fui o regente sem batuta.

 

SuperPauta: Luiz Gonzaga foi o Rei do Baião e você o Rei do Ritmo. Vocês eram personagens distintos: ele mais solene com o gibão, você mais malandro com o terno e o chapéu de palhinha. Onde esses dois mundos se encontravam?

Jackson: Se encontravam na raiz e na poeira da estrada. A sanfona dele chorava a saudade do sertão, e meu pandeiro marcava a alegria da feira. O gibão dele era o cangaço; meu terno era a malandragem da cidade. Eram as duas caras do nordestino. A gente se respeitava muito, mas tinha aquela ciumeira sadia, né? Ele olhava e pensava: "Esse paraibano tá incomodando". E eu pensava: "Tenho que fazer mais bonito que o Velho Lua".

 

SuperPauta: Se ele entrasse aqui agora, qual seria sua primeira frase, sem cerimônia?

Jackson: Eu diria: "Ô Lua, afina essa sanfona que o pandeiro já tá quente! E vê se não atravessa, que hoje eu tô com a gota serena!" (Gargalhada).

 

SuperPauta: Nos anos 1960, a Jovem Guarda dominou. Você criticou aquela música como “cópia” e “frouxa”. Olhando com distância histórica, mantém isso ou faria alguma concessão?

Jackson: (Coça a cabeça, pensativo) Olha... eu fui duro na época. Era o calor do momento. Eu via aquela meninada cantando versão de música americana, "iê-iê-iê", sem balanço brasileiro, e aquilo me doía. Parecia música de elevador perto de um coco de roda. Hoje... hoje eu vejo que eles tinham o valor deles, trouxeram a guitarra elétrica, falaram com a juventude. Mas o ritmo? Ah, o ritmo continuou frouxo. Nisso eu não mudo, não. Faltava molho.

 

SuperPauta: Como foi sentir o silêncio da indústria quando os holofotes mudaram de direção?

Jackson: O silêncio faz barulho, viu? É ruim. Você tá acostumado com o telefone tocando, show todo dia, e de repente... nada. Diziam que eu era "velho", "ultrapassado". Isso magoa. O artista vive de aplauso. Quando o aplauso para, a gente murcha. Foi um tempo difícil, de beber um pouco mais pra esquecer, de duvidar do próprio taco.

 

SuperPauta: O encontro com Gilberto Gil e o impacto de “Chiclete com Banana” reabriram portas. O que você viu na Tropicália: respeito profundo ou uma juventude “usando seu fogo para acender a própria fogueira”?

Jackson: No começo, desconfiei. "O que esses cabeludos querem comigo?". Mas quando Gil veio falar comigo, vi respeito no olho dele. Eles queriam beber na fonte. Entenderam o que eu fazia. A Tropicália foi antropofagia, né? Eles me comeram pra se fortalecer (risos). Mas foi bom. "Chiclete com Banana" explicou o Brasil: a gente aceita o estrangeiro, mas tem que ter o nosso borogodó. Gil me devolveu pro palco com dignidade.

 

SuperPauta: O que dói mais em um artista: a crítica dura ou a ausência de escuta?

Jackson: A ausência de escuta. A crítica, mesmo ruim, mostra que alguém te ouviu. O silêncio é a morte em vida. Ser ignorado é como se você não existisse mais. Isso mata mais que qualquer doença.

SuperPauta: A tecnologia hoje corrige voz e alinha ritmo. Para um músico de precisão como você, isso ajuda ou atrapalha a alma da música?

Jackson: Se o sujeito não sabe cantar e o computador canta por ele... é trapaça. É vender gato por lebre. O ritmo tem que tá no sangue, não na máquina. Hoje tá tudo muito "quadrado", muito limpo. Falta o suor, falta a respiração. A música tá parecendo comida de plástico: bonita, mas sem gosto.

 

SuperPauta: A internet democratizou o estúdio. O que se ganha e o que se perde quando qualquer pessoa pode lançar música imediatamente?

Jackson: Ganha-se a chance de ouvir talentos que estariam escondidos nos cafundós. Mas perde-se o filtro, a qualidade. Antigamente, pra gravar um disco, você tinha que ser bom, tinha que passar pelo crivo da rádio, do diretor artístico. Hoje, qualquer bobagem vira sucesso e semana que vem ninguém lembra. É muita espuma e pouco sabão.

 

SuperPauta: Os ritmos nordestinos atravessaram o pop, o rap, o trap e o funk. Você vê parentesco entre a repetição hipnótica do funk e a insistência rítmica do coco?

Jackson: Vejo, sim! O funk tem a batida do maculelê, do coco. É o tambor chamando. A batida é forte, é boa pra dançar. O que me incomoda às vezes é a pobreza da letra. A gente falava de duplo sentido, tinha uma malícia inteligente. Hoje é tudo muito explícito. Mas o ritmo? O ritmo é parente nosso, com certeza. É a batida do coração do povo pobre.

 

SuperPauta: Se lançasse “Chiclete com Banana” hoje, o alvo mudaria? Quem é o “Tio Sam” contemporâneo?

Jackson: O Tio Sam hoje não é só os Estados Unidos. É essa cultura globalizada que quer deixar tudo igual, tudo com cara de fast-food. O alvo seria essa mania de desvalorizar o que é nosso pra copiar o que vem de fora, seja da América, da Europa ou da Ásia. A gente continua querendo botar bep-bop no nosso samba sem saber sambar direito.

 

SuperPauta: A diabetes te acompanhou no fim da vida. Como a fragilidade do corpo mudou sua relação com a música, que exige tanta energia física?

Jackson: Foi uma luta. O espírito queria pular, o corpo pedia arrego. A diabetes foi me comendo por dentro. Eu tentava não demonstrar, mas no palco, às vezes, a vista escurecia. Foi me ensinando que a gente não é de ferro. Mas eu preferia morrer no palco do que numa cama de hospital.

 

SuperPauta: Qual foi seu dia mais feliz?

Jackson: O dia que ouvi minha voz na rádio pela primeira vez em Recife. Eu andando na rua e o rádio do boteco tocando Jackson. Eu parei, olhei pro céu e pensei: "Venci a fome, mãe". Aquele dia teve gosto de mel.

SuperPauta: Lenine já te comparou ao “Michael Jackson brasileiro”. Como você recebe esse exagero carinhoso?

Jackson: (Ri) O xará americano? Ele dançava bem, fazia aquele passo deslizando... mas eu queria ver ele segurar um rojão de coco, cantando trava-língua e tocando pandeiro ao mesmo tempo, sem perder o fôlego! É um elogio bonito. Mostra que o ritmo não tem fronteira. Se ele é o Rei do Pop, eu sou o Rei do "Tudop": toco tudo e dou nó em pingo d'água.

 

SuperPauta: Se você pudesse gravar uma última música hoje, qual recado deixaria com o pandeiro?

Jackson: Eu gravaria um coco bem ligeiro, dizendo pra moçada: "Não deixem o samba morrer, não deixem o coco acabar, e aprendam a tocar instrumento de verdade!". O recado seria: respeitem a raiz, porque árvore sem raiz cai no primeiro vento.

 

SuperPauta: Para encerrar, Jackson: descreva o gesto final. O que você faz agora?

Jackson: (Ele se levanta devagar, ajeita o terno impecável. Pega o pandeiro com a mão esquerda. O polegar da direita corre pelo couro fazendo um zumbido grave, como um trovão distante. De repente, TÁ! Um estalo seco. Ele pisca com malandragem, gira o pandeiro no dedo indicador e diz:) O resto... vocês completam com o corpo. Fui!





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