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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis - Alan Turing

 O Código do Espírito

O arquiteto do silêncio entre o metal e a alma: uma conversa sobre máquinas que aprendem a mentir, o preço da verdade e o futuro que ele desenhou no escuro.

 

Em vez de simular a mente adulta, por que não simular a mente de uma criança?” — Alan Turing. 

Ele escreveu esta frase em 1950, no ensaio “Computing Machinery and Intelligence”, publicado na revista Mind, propondo a ideia de uma “child-machine” (máquina-criança). Em vez de tentar programar uma mente adulta completa, criar um “programa-criança” e depois educar e treinar esse sistema até ele adquirir capacidades mais “adultas”.

 

 O cenário é uma biblioteca infinita: estantes sem livros, apenas fitas de papel perfuradas, rolos e mais rolos que descem como rios de dados. O som é quase inexistente, mas há um chiado baixo, como se o próprio ar fosse uma válvula. Acima, um céu de tarde eterna em Cambridge, com luz amarela que nunca vira noite. Numa cadeira de madeira simples, Alan Turing descasca uma maçã com um canivete pequeno. Veste um paletó de tweed gasto nos cotovelos, como se a vida inteira tivesse apoiado ali o peso de uma ideia. Seus olhos têm pressa: parecem calcular até a poeira. Ele tem um sorriso tímido, quase infantil. Mas quando fala, a timidez sai de cena e entra uma autoridade seca.

Nesta conversa, revisitamos a lógica que Alan Turing ajudou a inaugurar e o trabalho secreto em Bletchley Park, centro britânico de decifração na Segunda Guerra, onde quebrar códigos significava salvar vidas sem poder contar a ninguém. Por fim, conectamos isso ao agora: discutimos como a IA deixou de apenas responder comandos e passou a operar de forma cada vez mais ativa, inclusive em espaços onde sistemas conversam entre si, criando dinâmicas que nem sempre incluem, explicam ou priorizam os humanos.

 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Kher-Ba, o ET de Varginha

 Encontros Impossíveis

O náufrago de olhos vermelhos

Em um limbo cinzento onde o tempo é apenas uma memória, a criatura que protagonizou o maior mistério ufológico do Brasil quebra um silêncio de três décadas. Longe das teorias da conspiração e dos relatórios militares, ele revisita a queda em Minas Gerais, o terror compartilhado num terreno baldio, a agonia em uma mesa de operação e a incompreensão de uma humanidade que, ao encarar o desconhecido, preferiu ver o inimigo. Entre a biologia e o espírito, ele revela o lado de quem não veio invadir, mas apenas naufragou.

 

“Vocês olham para o céu procurando deuses, mas quando caímos na lama, vocês veem apenas monstros. O medo é a única escuridão real.” – Kher-Ba (O Ser de Varginha)

 

Há lugares que não existem no mapa, mas existem no corpo. Este não é terreno, nem celestial. É um cenário de consciência, uma espécie de sala sem paredes onde o tempo não anda em linha reta: ele pulsa, como um coração antigo, às vezes acelerando, às vezes ficando tão lento que dá para ouvir o silêncio ranger. O ambiente lembra uma caverna úmida. Não porque eu veja estalactites ou rochas, mas porque tudo cheira a chão depois da chuva. Terra molhada. Musgo. Umidade. E, por trás disso, um odor acre e pungente, que não dá para ignorar: amônia. A mesma palavra que volta nos relatos de 1996 como um refrão incômodo. Não há cadeiras. Não há mesa. Não há gravador. Meu caderno existe, mas parece um objeto deslocado, como se eu tivesse levado um guarda-chuva para dentro de um aquário. Ainda assim, eu o seguro. Costume de repórter. Amuleto de quem acredita que registrar é uma forma de não enlouquecer.

Diante de mim, agachado, com os joelhos recolhidos contra o peito, está a figura que o Brasil aprendeu a chamar de “ET de Varginha”. Mas “ET de Varginha” é rótulo de manchete, e manchetes não respiram. O que vejo aqui respira. Ou algo análogo a isso. Ele é pequeno. Não a “pequenez” caricata de folclore, mas uma estatura que sugere economia de energia, adaptação, gravidade. A pele é marrom-escura e tem um brilho oleoso, como se guardasse um filme protetor. Na cabeça, três protuberâncias discretas pulsam num ritmo lento, quase hipnótico. Mas são os olhos que dominam a cena: vermelhos, enormes, sem pupilas visíveis. E, no entanto, não há fúria neles. Há uma tristeza líquida, profunda, desconfortavelmente reconhecível.

Este encontro impossível não pretende encerrar o caso Varginha. Não pretende “provar” nada. A proposta aqui é outra: inverter o olhar. Em vez de perguntar “o que era aquilo?”, perguntar “quem era aquilo?”. Em vez de transformar o desconhecido em inimigo, permitir que ele se explique, mesmo que a explicação venha cheia de falhas, traduções imperfeitas e ambiguidades. Porque se existe uma verdade teimosa em toda história de espanto, ela é esta: quando a humanidade encara o que não entende, costuma escolher entre duas máscaras. Riso ou agressão. Meme ou arma. E, muitas vezes, as duas ao mesmo tempo. Eu respiro. Tento firmar a atenção. Sinto um zumbido leve no ouvido, como quem encosta a cabeça num poste e percebe a eletricidade sem tocar no fio. É estranho, mas não é ameaça. É apenas… diferença. E eu decido começar como todo jornalista deveria começar diante do extraordinário: fazendo perguntas que qualquer pessoa entenderia. Sem pressupostos. Sem atalhos. Sem depender de versões anteriores. Sem “piscadinhas” para o rascunho.

 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Clarice Lispector

 Encontros Impossíveis

O mistério atrás da porta

Na penumbra de um Rio de Janeiro atemporal, Clarice fala sobre a guerra na Ucrânia, as cicatrizes do fogo, a recusa ao feminismo de rótulo e a fome de Macabéa.


Sou tão misteriosa que não me entendo” — Clarice Lispector

  

O Rio de Janeiro lá fora insiste em ser solar, barulhento, vivo. Mas aqui, neste apartamento no Leme que parece flutuar entre o passado e o agora, o tempo é uma substância espessa. O ar cheira a cigarro e a um perfume antigo, algo como madeira e flores secas. Há uma tensão silenciosa, como se o ambiente estivesse prestes a quebrar.

Venho de um encontro leve com Fernando Sabino, amigo íntimo desta mulher que agora me encara. Se Sabino era o abraço do Rio, Clarice é o abismo. Ela está sentada na poltrona, protegendo a mão direita — marcada por um incêndio trágico — com um xale sutil. Seus olhos amendoados, levemente felinos, não me convidam; eles me interrogam. Há uma máquina de escrever Olympia sobre a mesa e, ao lado, um maço de cigarros pela metade.

Ela não sorri, mas também não é hostil. É apenas... intensa. Como se estivesse tentando decidir se sou uma visita ou um personagem que ela precisa decifrar. “Eu sou tão misteriosa que não me entendo.” — a frase ecoa antes mesmo de começarmos. Respiro fundo. Entrar no mundo de Clarice Lispector exige coragem. (Roberto Homem)

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Encontros Impossíveis – São Francisco de Assis

Encontros Impossíveis

O Canto do Irmão Sol

São Francisco retorna com a humildade que desarmou lobos e reis, mantendo esta conversa imaginária com o SuperPauta sobre a alegria na pobreza, a fraternidade universal e a força que nasce da simplicidade do coração

Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas.” — São Francisco de Assis


 

O ar na sala parecia vibrar em uma harmonia suave, como a quietude após a oração. Em meio à luz baixa, a figura de São Francisco de Assis se materializou. Não havia pompa, apenas o tecido grosseiro de seu hábito e um sorriso que desarmava. Não havia pompa, apenas o tecido áspero do hábito e um sorriso que desarmava. Seu olhar — que, embora cego nos últimos dias, via além das formas — irradiava uma luz serena. Moveu-se com a graça de quem encontrou a paz interior. Ao sentar-se, fez a cadeira simples parecer um trono, não pela vaidade, mas pela humildade que o revestia. Com um leve aceno de cabeça, abençoou o ambiente e deu início à conversa. Sua voz era terna, mas firme, com a ressonância de quem sempre buscou viver o Evangelho: "Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras."

A sugestão de trazer São Francisco de Assis para esta série partiu do amigo Florian Madruga, nascido a 4 de outubro – dia consagrado ao santo. Neste novo encontro imaginário, São Francisco, de quem Florian é devoto, conta como abandonou a vida de luxo para abraçar a pobreza, fala sobre o poder do abraço no leproso que mudou tudo, e ensina que a verdadeira alegria não está nos milagres, mas na paciência diante das ofensas. Ele recorda o momento em que recebeu as marcas de Cristo — os estigmas — no Monte Alverne, dois anos antes de morrer, e explica que toda a Criação é sua família. Por fim, deixa um recado sobre a importância de viver o Evangelho com a vida, não apenas com palavras, e mostra que a simplicidade é o único caminho seguro. (Roberto Homem)