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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Kher-Ba, o ET de Varginha

 Encontros Impossíveis

O náufrago de olhos vermelhos

Em um limbo cinzento onde o tempo é apenas uma memória, a criatura que protagonizou o maior mistério ufológico do Brasil quebra um silêncio de três décadas. Longe das teorias da conspiração e dos relatórios militares, ele revisita a queda em Minas Gerais, o terror compartilhado num terreno baldio, a agonia em uma mesa de operação e a incompreensão de uma humanidade que, ao encarar o desconhecido, preferiu ver o inimigo. Entre a biologia e o espírito, ele revela o lado de quem não veio invadir, mas apenas naufragou.

 

“Vocês olham para o céu procurando deuses, mas quando caímos na lama, vocês veem apenas monstros. O medo é a única escuridão real.” – Kher-Ba (O Ser de Varginha)

 

Há lugares que não existem no mapa, mas existem no corpo. Este não é terreno, nem celestial. É um cenário de consciência, uma espécie de sala sem paredes onde o tempo não anda em linha reta: ele pulsa, como um coração antigo, às vezes acelerando, às vezes ficando tão lento que dá para ouvir o silêncio ranger. O ambiente lembra uma caverna úmida. Não porque eu veja estalactites ou rochas, mas porque tudo cheira a chão depois da chuva. Terra molhada. Musgo. Umidade. E, por trás disso, um odor acre e pungente, que não dá para ignorar: amônia. A mesma palavra que volta nos relatos de 1996 como um refrão incômodo. Não há cadeiras. Não há mesa. Não há gravador. Meu caderno existe, mas parece um objeto deslocado, como se eu tivesse levado um guarda-chuva para dentro de um aquário. Ainda assim, eu o seguro. Costume de repórter. Amuleto de quem acredita que registrar é uma forma de não enlouquecer.

Diante de mim, agachado, com os joelhos recolhidos contra o peito, está a figura que o Brasil aprendeu a chamar de “ET de Varginha”. Mas “ET de Varginha” é rótulo de manchete, e manchetes não respiram. O que vejo aqui respira. Ou algo análogo a isso. Ele é pequeno. Não a “pequenez” caricata de folclore, mas uma estatura que sugere economia de energia, adaptação, gravidade. A pele é marrom-escura e tem um brilho oleoso, como se guardasse um filme protetor. Na cabeça, três protuberâncias discretas pulsam num ritmo lento, quase hipnótico. Mas são os olhos que dominam a cena: vermelhos, enormes, sem pupilas visíveis. E, no entanto, não há fúria neles. Há uma tristeza líquida, profunda, desconfortavelmente reconhecível.

Este encontro impossível não pretende encerrar o caso Varginha. Não pretende “provar” nada. A proposta aqui é outra: inverter o olhar. Em vez de perguntar “o que era aquilo?”, perguntar “quem era aquilo?”. Em vez de transformar o desconhecido em inimigo, permitir que ele se explique, mesmo que a explicação venha cheia de falhas, traduções imperfeitas e ambiguidades. Porque se existe uma verdade teimosa em toda história de espanto, ela é esta: quando a humanidade encara o que não entende, costuma escolher entre duas máscaras. Riso ou agressão. Meme ou arma. E, muitas vezes, as duas ao mesmo tempo. Eu respiro. Tento firmar a atenção. Sinto um zumbido leve no ouvido, como quem encosta a cabeça num poste e percebe a eletricidade sem tocar no fio. É estranho, mas não é ameaça. É apenas… diferença. E eu decido começar como todo jornalista deveria começar diante do extraordinário: fazendo perguntas que qualquer pessoa entenderia. Sem pressupostos. Sem atalhos. Sem depender de versões anteriores. Sem “piscadinhas” para o rascunho.