Todo mapa é também uma prisão:
mostra os caminhos
e inventa as fronteiras.
Em 2025, deparei-me com uma postagem sobre a quarta edição do Prémio de Poesia de Oeiras, realizado em Portugal e aberto a autores de todos os países de língua portuguesa.
Ao ler o regulamento, uma informação despertou imediatamente meu interesse: aquela edição prestaria homenagem a D. Dinis, o rei trovador. Percebi ali uma possibilidade. Não ainda um livro, talvez nem mesmo um projeto definido, mas uma direção.
A ideia foi amadurecendo devagar. Vieram os primeiros rascunhos, as imagens medievais, os castelos, as torres, os cavaleiros e os vassalos. Mas, à medida que os poemas avançavam, aquele universo começou a atravessar o presente. As armaduras chegaram ao sofá, os brasões entraram no elevador, as torres passaram a vigiar celulares e as antigas formas de servidão reapareceram em contratos, metas, notificações e telas acesas.
Durante a escrita, compreendi que o livro precisava ser dividido em três partes — ou três territórios de um mesmo mapa.
Cavalaria do Cotidiano
Imagens medievais invadem a vida doméstica e urbana. O cavaleiro veste moletom, o dragão pode ser um despertador e uma mensagem no celular adquire a solenidade de um selo de cera.
Atlântico Dobrado
O mar deixa de representar apenas distância. Torna-se língua, memória, travessia, saudade e desencontro. Brasil e Portugal aparecem como margens diferentes de um mesmo idioma, separados pela água e aproximados pelas palavras.
Manual do Servo e do Cerco
O livro chega ao presente mais imediato. O sujeito contemporâneo surge cercado por contratos, algoritmos, vigilância, urgências, telas e catástrofes climáticas. Ainda assim, continua escrevendo, plantando, denunciando, lembrando e resistindo.
Quando o resultado do prêmio foi divulgado, em maio de 2026, e a obra não estava entre as contempladas, precisei decidir o que fazer com aquele trabalho. Poderia deixá-lo guardado como um manuscrito escrito para um concurso. Mas isso significaria aceitar que o percurso do livro terminasse na mesma fronteira que lhe dera origem.
Foi então que percebi que Cartografia do Cerco precisava romper o próprio cerco.
O livro ganhou uma edição física, lançada pela Uiclap, e uma versão digital, publicada na Amazon. Deixou de ser uma obra destinada a uma comissão julgadora e passou a buscar aquilo que todo livro verdadeiramente deseja: leitores.
A estreia do Capítulo Potiguar
Para abrir o Capítulo Potiguar, escolhi justamente essa obra. A nova seção do SuperPauta nasce para apresentar livros, autores e outras expressões culturais do Rio Grande do Norte por meio de conversas produzidas com o auxílio de inteligência artificial.
No episódio inaugural, Nísia e Luís percorrem os três cadernos de Cartografia do Cerco, comentam suas imagens, aproximações históricas, tensões contemporâneas e a maneira como o livro transforma o cotidiano em território poético.
Não se trata de um audiolivro nem de uma leitura dramatizada dos poemas. É uma conversa de análise e interpretação sobre a obra.
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Talvez um livro não consiga derrubar todas as muralhas.
Mas pode nomeá-las.
E, quando uma fronteira recebe um nome, já começa a deixar de ser invisível.

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