segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Encontros impossíveis: Raul Seixas

Encontros Impossíveis

 O Testamento do Maluco Beleza

 

O Maluco Beleza retorna do Trem das Sete, com a mesma ironia que desafiou a ditadura e o misticismo que fundou a Sociedade Alternativa, mantendo esta conversa imaginária com o SuperPauta sobre o pacto com Paulo Coelho, a dor de ser preso por ser ele mesmo, o show caótico em Natal, tudo ao som de gritos distantes de "Toca Raul!"

 

"Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade." — Raul Seixas

 

Este Encontro Impossível nasceu de uma sugestão dupla dos jornalistas e amigos Costa Júnior e Roberto Fontes — dois adeptos fiéis do “Toca Raul!” e fãs da liberdade criativa, da rebeldia poética e da música que cutuca o pensamento. O encontro não é num estúdio, nem num bar. É numa estação de trem. A Estação da Luz, talvez, mas suspensa no tempo, sem passageiros, mergulhada numa névoa que cheira a cigarro e ozônio. Ele está lá, sentado num banco de madeira, rindo sozinho. A velha guitarra apoiada ao lado. Ele não usa a túnica de Gita. Veste o jeans gasto, a bota de cowboy e a jaqueta de couro puída. Ele me olha, sem surpresa, e dá aquela risada inconfundível, que rasga o silêncio. "Demorou, chapa", ele diz, "Pensei que cê não vinha."

Nesta conversa impossível, Raul Seixas, o eterno Maluco Beleza, fala sobre a infância em Salvador, a paixão por Elvis e Gonzaga. Ele detalha a criação da Sociedade Alternativa, o pacto (e o rompimento) com Paulo Coelho, e a tortura no DOPS. Raul também encara os momentos sombrios: o show interrompido em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1983, a prisão em Caieiras por ser confundido com um sósia, e a luta contra o pâncreas e o álcool. No final, ele analisa o "Raulseixismo" e manda um recado para o Brasil do "Toca Raul!". (Roberto Homem)

 


SuperPauta: Raul, onde estamos agora? No “Trem das Sete”, na “Cidade das Estrelas”... ou num sonho teu?

Raul Seixas: (Ele dá uma gargalhada longa). Bicho, se você não sabe, como é que eu vou saber? (risos). Isso aqui é o "Intervalo". O "Não-Lugar". É o "Plunct Plact Zum" da tua cabeça, porra. É o sonho que a gente tá sonhando junto. E sonho que se sonha junto... porra, cê sabe o resto. É a única realidade que interessa. Sacou?

 

SuperPauta: Afinal, o que é ser uma “Metamorfose Ambulante”? Filosofia de vida, provocação, ou uma forma de nunca se prender a nada?

Raul Seixas: É o contrário de ser careta, bicho. O careta é o cara que tem certeza. Certeza é prisão, chapa. É o cara que se bota numa caixa e joga a chave fora. Ser uma metamorfose é ter a coragem de dizer "eu errei" ou "eu mudei". É ter a coragem de ser um idiota hoje e um gênio amanhã, e vice-versa. É a única opinião que eu nunca mudei: a de ter o direito sagrado de mudar de opinião. O resto é estátua. É museu.

 

SuperPauta: Você se via como gênio, profeta, bufão… ou tudo isso junto, num mesmo “maluco beleza”?

Raul Seixas: Tudo junto, chapa. E na mesma hora! (risos). O bufão é o profeta que se leva na gozação. Eu era o cara que falava a verdade rindo, porque se eu falasse sério, ninguém ia escutar. E o gênio... o gênio é só um maluco que arrumou um jeito de ser pago pela própria loucura. "Maluco Beleza" é isso: é o cara que não se leva a sério, mas que leva a vida a sério pra caralho. Porque a vida, bicho, é a maior piada de todas. E tem que ser levada a sério.

 

SuperPauta: Você se sentia mais um “Cowboy Fora da Lei” ou uma “Mosca na Sopa” que insistia em pousar nas verdades do sistema?

Raul Seixas: (Ele coça o cavanhaque). Eu era a Mosca na Sopa do Cowboy. O Cowboy é o sistema, o "dono do gado", o careta de terno. Eu era a mosca que pousava na testa dele, bem na hora da foto oficial, bem na hora que ele ia dar a ordem. Eu era o imprevisto. O sistema não sabe lidar com o imprevisto, bicho. Ele pira.

 

SuperPauta: Sua obra é cheia de misticismo. No que Raul Seixas realmente acreditava? Em Deus, em Crowley, em si mesmo ou no caos criador?

Raul Seixas: Eu acredito no Caos. O Caos é a matéria-prima. Deus é o Caos tentando se organizar, e o Diabo é o Caos se divertindo. Eu acredito na Vontade. "Faze o que tu queres" não é "faça o que você gosta", é "descubra a sua porra de Vontade e faça!". Mesmo que a sua Vontade seja ser um contador careta. Se for a sua Vontade, tá valendo. O resto é rebanho.

 

SuperPauta: E essa história de ter “dez mil anos de idade”? Você se sentia um estranho no próprio tempo?

Raul Seixas: Completamente, bicho. Totalmente. Eu olhava pros caras nos anos 70, com aquela conversa de "paz e amor", tudo muito certinho, e eu já tava pensando no caos quântico. Eu olhava pro jornal e parecia que eu tava lendo sânscrito. Eu me sentia velho. Eu lembrava de coisas que eu não tinha vivido. Eu não era do meu tempo. E vendo vocês aí, com essa... internet... (risos)... acho que eu errei o planeta, chapa.

 

SuperPauta: Vamos voltar pra Salvador. Quem era o “Raulzito” que morava perto do cônsul americano só pra ouvir rock?

Raul Seixas: (Um sorriso largo). Era um pirralho doido! Um "gringo" da Bahia. Eu colei no cônsul pra ouvir o que ninguém tinha. Elvis, Little Richard, Chuck Berry... Aquilo era... porra, era uma porrada na orelha! Era uma coisa que te pegava na espinha. Era a voz do Diabo, e eu adorei! E o melhor: o Diabo falava inglês e balançava o quadril, porra! (risos).

 

SuperPLauta: Elvis foi seu primeiro deus? E o que Luiz Gonzaga te ensinou que o rei do rock nunca poderia?

Raul Seixas: Elvis foi o primeiro profeta. Ele me mostrou que podia ser diferente, que eu não precisava ser um "cidadão" careta. Mas o Velho Gonzaga... (a voz fica séria). O Gonzaga me ensinou o chão. Elvis cantava sobre sapatos de camurça azul; Gonzaga cantava sobre não ter sapato, sobre a "asa branca" que foi embora. Elvis era a fantasia; Gonzaga era a fome. O rock 'n' roll de verdade, bicho, é a mistura dos dois: é a fome com a fantasia.

 

SuperPauta: “Os Panteras” foi o primeiro passo sério. O que tinha de diferente no rock da Bahia? E como você lidou quando Raulzito e os Panteras (1968) naufragou? Passou pela cabeça desistir?

Raul Seixas: O rock da Bahia já era misturado, já era "antropofágico" e a gente nem sabia a palavra. A gente não tinha a "pureza" dos caras do Rio ou de Sampa. A gente já botava um tempero. O disco... (ele faz uma careta) ...aquilo foi um parto! A gente gravou e a gravadora sentou em cima. Naufragou? O barco nem saiu do porto! Desistir? Desistir, porra? (Ele ri). Desistir é coisa de careta. Bicho, eu sou teimoso. Eu não sabia como fazer, mas eu sabia o quê fazer. Eu pensei: "Ah, é? Então vocês vão me engolir. Mas vai ser do meu jeito, com as minhas pira."

 

SuperPauta: A mudança pro Rio, pra ser produtor na CBS, te colocou “atrás da mesa”. Você curtia o poder de apertar os botões?

Raul Seixas: (Um sorriso malicioso). Ah, eu curtia. Claro que eu curtia! Eu era o lobo cuidando do galinheiro. Eu era o "esquisito" que tinha a chave do cofre. Eu podia dizer "sim" ou "não". E eu só dizia "sim" pro que era doido, pro que era diferente. Eu era o caos dentro da ordem da gravadora. O único 'Maluco Beleza' de terno e crachá. Era uma piada interna.

 

SuperPauta: Você produziu Sérgio Sampaio, Edy Star, Trio Ternura… sempre rodeado de gente fora da curva. Você tinha faro pra quem era tão “esquisito” quanto você?

Raul Seixas: Claro, porra! Bicho reconhece bicho. O Sampaio... porra, "Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua"? Aquilo é um hino nacional, bicho. O Edy... gênio! Aquele disco Somos Todos Nós... aquilo era a Sociedade Alternativa antes de eu saber o nome! Eu olhava pro cara e via se ele tinha o "selo", o "brilho no olho". Se ele fosse careta demais, se não tivesse a piração, eu mandava ele... sei lá, cantar no programa do Chacrinha. E olhe lá!

 

SuperPauta: Chegamos a Krig-Há, Bandolo! (1973). O que significava aquele grito de guerra?

Raul Seixas: Era o grito do Tarzan, bicho! Era o grito do selvagem no meio da selva de pedra. Era um "foda-se!" pro sistema. "Krig-há!" é "Cuidado!". "Bandolo!" é "O maluco tá chegando!". Era um aviso. E eles não ouviram.

 

SuperPauta: Em “Ouro de Tolo”, você chamou de idiota o homem que tinha tudo em pleno milagre econômico. Você foi o primeiro a enxergar o vazio?

Raul Seixas: Eu só escrevi o que eu tava vendo. Eu tava lá, produtor de gravadora, ganhando o meu "ouro de tolo", meu salário de produtor, e me sentia um idiota. Um tédio do caralho. O "milagre" era uma piada. Todo mundo com seu Corcel 73, feliz da vida, e eu pensando: "É só isso? Essa porra é a felicidade?". Eu vi que o rei tava nu. E eu era o único bêbado no bar com coragem de gritar. E o pior: eu tava sóbrio quando escrevi!

 

SuperPauta: E então aparece Paulo Coelho. Foi um pacto de almas, uma amizade ou um encontro de egos?

Raul Seixas: Foi tudo isso. O Paulinho... bicho, o Paulinho era mais louco que eu! Ele era o "Mago", e eu era o "Maluco". A gente se encontrou e o universo deu uma balançada. Um precisava do outro. Eu tinha a música, ele tinha o... o método. A piração organizada. A gente leu Crowley junto, a gente tomou chá de cogumelo junto, a gente sonhou a Sociedade Alternativa. Foi um pacto, sim. Um pacto de caos.

 

SuperPauta: Vamos ser francos: Aleister Crowley e a “Lei de Thelema” — era crença, marketing ou pura ironia raulseixista?

Raul Seixas: (Ele fica sério). Era a coisa mais séria que eu já li. O careta lê "Faze o que tu queres" e acha que é putaria. Idiota! É a coisa mais difícil do mundo! É sobre você descobrir a sua Verdadeira Vontade. A sua missão. O resto... marketing? Porra, bicho, eu fui preso por causa disso! Você acha que o DOPS se importa com marketing? Eles se importavam com a ideia.

 

SuperPauta: Raul, há quem diga que você fez um pacto de verdade — não com Paulo Coelho, nem com Crowley, mas com algo mais... digamos, invisível. Isso era teatro, ou você acreditava que havia mesmo um preço a pagar por tanta lucidez?

Raul Seixas: (Ele acende um cigarro imaginário, o olhar se perde). Tudo tem um preço, bicho. Quando você abre demais o olho, o mundo te ofusca. Não existe “pacto com o diabo”; existe pacto com a própria sombra. Eu só aceitei conversar com a minha. O problema é que quando você traz a sombra pra mesa, ela não vai embora. Eu brinquei com fogo, e o fogo respondeu. Mas eu nunca tive medo do inferno — o inferno era eu quando parava de criar. (Ele dá uma risada rouca). O resto é superstição de quem tem medo de olhar no espelho.

 

SuperPauta: A “Sociedade Alternativa” era um conceito, um sonho ou um projeto real de cidade libertária?

Raul Seixas: Começou como um sonho, virou um conceito e quase virou um projeto. A gente ia comprar terra em Minas, sim. Ia ser a nossa "Cidade das Estrelas", sem lei, sem imposto, sem polícia. Cada um sendo o seu próprio rei. Um lugar onde "faze o que tu queres" não fosse só uma frase num disco, fosse a porra da lei.

 

SuperPauta: A ditadura achou que era sério e levou vocês pro DOPS. Prisão, exílio, tortura. O que o sistema mais temia: a música ou a liberdade que vocês pregavam?

Raul Seixas: (O olhar dele escurece). Eles temiam a ideia. A música era só o veículo. O militar tem medo do que ele não controla. O militar não lê filosofia, ele vê subversão. E a gente pregava o incontrolável: a liberdade individual. Eles não entendiam a Sociedade Alternativa, e por isso achavam que era... sei lá, comunismo, terrorismo. No DOPS, o cara me deu um choque e perguntou: "O que significa Krig-há, Bandolo?". (Ele ri, amargo). E eu ria! Eu ria de nervoso, porra. E o cara ficava mais puto. 'Que porra é Krig-há?!'. Nem eu sabia direito, porra! Foi ali que eu vi que a piada tinha ficado séria. Foi ali que o Maluco Beleza virou "terrorista".

 

SuperPauta: Depois veio Gita (1974), e você virou uma espécie de Deus pro público. Quando você disse “Eu sou a luz das estrelas, eu sou a cor do luar” — era misticismo ou megalomania com poesia?

Raul Seixas: É misticismo, bicho. É o Bhagavad Gita. É o que o Krishna diz: "Eu sou tudo". Eu não tava dizendo que eu, Raul, era Deus. Eu tava dizendo que Deus estava em mim. E em você. E no mendigo da esquina. Era uma aula de panteísmo, e a galera entendeu como se eu fosse o Messias. Começaram a me pedir milagre, bicho! E o único milagre que eu sabia fazer era transformar água em... bom, deixa pra lá. (risos). Fazer o quê?

 

SuperPauta: E por que a parceria com Paulo Coelho terminou? Foi briga, cansaço ou divergência de caminhos espirituais?

Raul Seixas: Porque duas estrelas não brilham na mesma galáxia por muito tempo. O Paulinho é um cara... pragmático. Ele queria organizar a magia, vender a magia. E eu, porra, eu sou o caos. Eu queria viver a magia, me queimar nela. A gente começou a bater cabeça. O ego era grande, dos dois lados. A gente fez o que tinha que fazer. O "Novo Aeon" foi nosso último filho. Depois, o trem foi pra linhas diferentes. Sem drama, mas sem volta.

 

SuperPauta: Hoje ele é um dos escritores mais lidos do planeta. Você o aplaude ou acha irônico ver um ex-sócio de rebeldia virando guru de milionários?

Raul Seixas: (Gargalhada alta). Eu acho é massa! Porra, o Paulinho tá fazendo o que ele quer! É a Lei de Thelema pura! Ele descobriu a Vontade dele: ser um guru milionário. E tá fazendo! Quem sou eu pra julgar? Ele tá nadando no "Ouro de Tolo" dele. E eu aposto que ele ainda se sente um idiota de vez em quando. (pisca)

 

SuperPauta: Você conheceu John Lennon em Nova York. Como foi esse encontro entre dois rebeldes que sonhavam com um mundo diferente?

Raul Seixas: (Um sorriso nostálgico). Foi rápido. No corredor do hotel. Eu tava lá com o Jerry Lee Lewis, uma doideira, o cara quebrou o piano. Trombei com o Lennon e a Yoko. A gente trocou... (ele estala os dedos) ...uma energia. Eu disse: "Eu sou da Sociedade Alternativa". E ele: "Eu sou de 'Imagine'". A gente entendeu. Foi um "oi" de dez mil anos. Não precisou falar mais nada.

 

SuperPauta: E já que estamos neste “outro plano”, você e Lennon voltaram a se encontrar? Elvis aparece por aí de vez em quando?

Raul Seixas: Bicho, aqui não tem essa de "encontrar". Aqui não tem tempo, chapa. Então não tem "encontrar". Aqui todo mundo tá. Elvis, Lennon, Gonzaga... a gente é vizinho. A gente tá o tempo todo batendo papo. O problema é que aqui não tem uísque... (risos). Mas também não tem dor de cabeça. Empate técnico.

 

SuperPauta: Os anos 80 chegaram, o rock mudou. Você se sentiu envelhecendo antes do tempo?

Raul Seixas: Eu me senti... cansado. O rock dos 80 ficou muito "limpo". Muito gel no cabelo, muita bateria eletrônica. Parecia comercial de refrigerante. Eu era sujo, porra. Eu era analógico. Eu gostava do chiado do vinil. Os caras tavam fazendo música com... com máquina de calcular. Eu era um "Cowboy Fora da Lei" num mundo de "New Wave". Eu era um dinossauro na discoteca.

 

SuperPauta: O álcool foi combustível, anestesia ou sentença?

Raul Seixas: (Ele para de sorrir. A resposta é séria e lenta). Foi os três. Começou como combustível, pra ter coragem de subir no palco e ser o "Raul Seixas" que todo mundo queria. Porque o "Raul Seixas" era foda, o Raulzito nem tanto. Virou anestesia, pra aguentar a dor de... de tudo. A dor do pâncreas, a dor da solidão, a dor de não ser entendido. E no fim... (ele suspira) ...no fim, foi a porra da sentença. O Diabo sempre cobra a conta, bicho. E a minha veio com juros.

 

SuperPauta: Você falava muito em discos voadores, reencarnação, outras dimensões... No fundo, você acreditava em vida após a morte — ou era só mais uma metáfora pra escapar da caretice do real?

Raul Seixas: Eu não acreditava, eu sabia, bicho. Mas não do jeito que o povo pensa. A morte é só uma mudança de estação. Você sai do “Trem das Sete” e entra no “Expresso da Eternidade”. O que eu chamava de “disco voador” era isso: uma consciência que te tira do trilho. Quando o corpo morre, a alma pega carona. Eu só não sabia que o bilhete era só de ida.

 

SuperPauta: Você sabia que o fim estava próximo? A solidão te acompanhou até o último acorde?

Raul Seixas: Eu sabia. O corpo avisa. Eu olhava no espelho e via um fantasma me olhando de volta. Eu tava... transparente. Mas eu não tinha medo, eu tinha pressa. Eu queria gravar mais um. A parceria com o Marcelo [Nova] foi isso. Eu tinha pressa. A solidão... porra, bicho, solidão é ter um milhão de fãs e não ter ninguém pra te levar no hospital. Eu morri como eu vivi: cercado de gente e sozinho pra caralho.

 

SuperPauta: Em 1982, você foi preso em Caieiras (SP) porque acharam que era um imitador de si mesmo. O que dói mais: ser preso pela ditadura ou por ser você mesmo?

Raul Seixas: (Ele explode na gargalhada). Isso é o Brasil, bicho! Isso é o puro suco do Brasil! Ser preso pela ditadura é "currículo". Mas ser preso porque a polícia acha que você é um imitador de si mesmo? Isso é o atestado de que o Brasil é uma piada pronta! Eu tô lá, em Caieiras, doente, e os caras me prendem! Eu tentei explicar: 'Mas, porra, eu sou o Raul Seixas!'. E o policial: 'E eu sou o Elvis Presley!'. (risos). Doeu na hora, mas é a minha melhor história. É a prova da minha tese: o mundo é uma grande gozação.

 

SuperPauta: E aquele show em Natal, em 1983? Você subiu ao palco e o público se revoltou. O que passava pela sua cabeça naquele momento?

Raul Seixas: (O riso some de novo. Ele olha para o chão). Natal.... Ah, bicho. (Ele balança a cabeça). Aquilo doeu. Aquilo doeu de verdade. Eu subi no palco, e eu não tava ali. Eu tava doente, porra. Eu não era um deus, eu era um homem com o pâncreas me comendo por dentro. Eu olhava pra multidão e via eles me vaiando, jogando copo... e eu não entendia. Eu pensava: "Mas... sou eu. Sou o Raul. Vocês não tão vendo que eu tô morrendo aqui na frente de vocês?".

 

SuperPauta: O público achava que você estava bêbado, a equipe dizia que eram remédios. O que realmente aconteceu naquela noite potiguar?

Raul Seixas: Era tudo junto, chapa. Era a verdade. Eu tava bêbado, sim. Mas eu tava bêbado pra aguentar a dor dos remédios, que não faziam mais efeito. Eu tava doente. O público de Natal não viu um bêbado; viu um homem morrendo. E eles não entenderam. Eles queriam o "Mito", e eu só era o Raul. Eu queria dar o rock pra eles, e eles me deram... porra, eles me deram vaia. Eu cancelei o show. Eu nunca esqueci aquilo. Foi um soco na alma.

 

SuperPauta: Essas cenas, como a de Caieiras e a de Natal, te feriam ou confirmavam que ninguém entendia nada?

Raul Seixas: Confirmavam. Confirmavam que eu tava certo desde "Ouro de Tolo". Ninguém entende porra nenhuma. Eles amam o ídolo, mas eles matam o homem. Eles querem o milagre, mas não querem saber da dor do santo.

 

SuperPauta: Você foi casado cinco vezes. O que essas mulheres viam em você? E o que você buscava nelas?

Raul Seixas: Elas viam o que elas queriam ver. Umas viam o gênio, outras viam o coitadinho, outras viam o profeta. O que eu buscava? (Ele sorri). Um esconderijo. Um colo. Alguém que arrumasse a minha mala e dissesse que ia ficar tudo bem, mesmo que fosse mentira. Eu buscava uma âncora, bicho. Mas eu era um barco furado.

 

SuperPauta: A parceria com Marcelo Nova foi seu último respiro? Ele te resgatou ou apenas te acompanhou até a última estação?

Raul Seixas: O Marcelão foi o último sócio. Ele me tirou da lama, bicho. Ele foi no meu apartamento, olhou pro meu estado deplorável, a garrafa de cachaça na mão... e não teve nojo. Ele viu o músico. Ele não teve medo do "Raul Seixas" ferrado. Ele me resgatou, sim. E me acompanhou com dignidade até o fim. Ele me deu um motivo pra levantar da cama: gravar um último rock 'n' roll.

 

SuperPauta: A Panela do Diabo. O nome foi piada com teu pâncreas ou confissão de que o inferno já tinha endereço?

Raul Seixas: (Risos). Foi as duas coisas! Meu pâncreas já era a "panela do diabo" há muito tempo! Era rir da própria desgraça. Se o inferno existe, ele é aqui. E se ele é aqui, bota um rock pra tocar, caralho!

 

SuperPauta: E “Carimbador Maluco”? Foi divertido entrar no imaginário infantil depois de tanto escandalizar adultos?

Raul Seixas: Foi genial! "Plunct Plact Zum"! Eu adorei! Os caretas piraram: "Raul se vendeu pra Globo!". Bicho, eu não me vendi, eu invadi! Eu tava lá, no meio das crianças, falando de carimbo, de espaço... era a Sociedade Alternativa pra quem ainda não sabia ler. Foi minha maior sacanagem.

 

SuperPauta: A música “Nuit” soa como despedida. Era o fim chegando de mansinho?

Raul Seixas: Aquela música... (ele olha para as mãos) ...aquela música é o meu atestado. O Marcelo [Nova] teve que segurar a onda. A voz já não tinha força. Era um sussurro. "Eu parti, o navio...". Eu sabia. Eu tava me despedindo. Era o último 'Krig-há'. O apito final do trem.

 

SuperPauta: Você se arrepende de algo que fez… ou do que deixou de fazer?

Raul Seixas: Arrependimento é ouro de tolo, bicho. Eu fiz o que eu quis. Eu bebi o que eu quis, amei quem eu quis, cantei o que eu quis. Arrependimento é pra quem não viveu. Me arrependo de não ter mandado mais gente à merda. De resto... faria tudo de novo. Talvez com um pâncreas melhor.

 

SuperPauta: Qual foi o maior "Ouro de Tolo" que você comprou na vida?

Raul Seixas: Achar que eu podia controlar o "Raul Seixas". O personagem. Eu criei o bicho, e o bicho me comeu.

 

SuperPauta: Seus fãs viraram quase uma religião, o “Raulseixismo”. O que você acha desse culto? E o eterno grito “Toca Raul!” — te diverte ou te assombra?

Raul Seixas: (Gargalhada). O "Raulseixismo" é a minha maior piada! Eu passei a vida fugindo de dogma e os caras criam um pra mim! (risos). O "Toca Raul!"? Bicho, isso é o "Aleluia" dos ateus. É o "socorro" disfarçado de gozação. É o grito do Maluco Beleza. É a prova de que eu não passei em branco. Eu acho é massa!

 

SuperPauta: Por que você acha que ainda fala tanto à juventude?

Raul Seixas: Porque eu não menti pra eles. Porque eu cantei a dúvida. O jovem é dúvida pura. O adulto careta tá cheio de certeza. Eu não dei resposta, eu dei pergunta. E eu disse que tá tudo bem ser uma "metamorfose ambulante", tá tudo bem não saber. Eles olham pro mundo careta e precisam de um hino. Eu escrevi alguns.

 

SuperPauta: O que é liberdade, afinal: fazer o que queres ou ser quem se é?

Raul Seixas: Fazer o que tu queres é ser quem se é. Uma coisa é a outra. Mas pra isso, tu tem que saber quem tu é. E essa é a porra do trabalho de uma vida inteira.

 

SuperPauta: Como você enxerga o rock que veio depois de você — Legião, Titãs, Cazuza — e essa música de hoje, do funk ao trap?

Raul Seixas: A galera de Brasília foi massa. O Renato [Russo] era um poeta do caralho, o Cazuza era a anarquia pura. Eles beberam na minha fonte, e eu acho isso uma honra. O funk? O trap? É o novo "Krig-há, Bandolo!". É o grito do morro, é a realidade. É sujo, é feio, é urgente. Tem mais rock 'n' roll num baile funk do que em muito showzinho de banda cover. É rock 'n' roll.

 

SuperPauta: A internet é a “Sociedade Alternativa” que você sonhou ou virou só o “Metrô Linha 743” mais veloz?

Raul Seixas: É os dois. É a ferramenta perfeita pro "Faze o que tu queres". Mas virou o Metrô na hora do rush. Todo mundo gritando, ninguém se ouvindo. E virou a maior fábrica de careta que eu já vi. Todo mundo com medo de ser "cancelado". "Cancelado", bicho? Que porra é essa? No meu tempo, se você não era "cancelado" (a gente chamava de "censurado"), é porque você tava fazendo alguma coisa errada!

 

SuperPauta: E se Raul vivesse hoje, teria perfil nas redes sociais? Você seria um influenciador, um cancelado… ou criaria sua própria rede alternativa?

Raul Seixas: (Ele ri). Eu seria cancelado todo dia antes do café da manhã! Eu ia ser expulso do Twitter. Eu ia criar a "Rede Social Alternativa", e ela ia ser hackeada no dia seguinte. Eu ia ser um inferno.

 

SuperPauta: O que você diria ao Brasil de agora, dividido e cansado de utopias?

Raul Seixas: Eu diria: "Parem de procurar um Messias, porra!". Parem de procurar um "Pai" pra salvar vocês, seja ele de direita ou de esquerda. Seja o seu próprio salvador. O Brasil tá dividido porque todo mundo quer ter certeza. Desconfiem. Duvidem. Pensem por si mesmos. Não tenham medo de mudar de opinião.

 

SuperPauta: Qual música sua melhor define o Brasil de hoje?

Raul Seixas: "Ouro de Tolo". Sempre. Todo mundo com seu celular novo na mão, se sentindo um idiota no trânsito.

 

SuperPauta: E se o “Disco Voador” passar de novo... você ainda pega carona?

Raul Seixas: Bicho, eu sou o disco voador.

 

SuperPauta: Raul Seixas, qual é a tua mensagem final pra quem ainda tenta te decifrar?

Raul Seixas: (Ele pega a guitarra, afina uma corda imaginária e olha para mim. O sorriso é gentil, mas ainda irônico). Mensagem? Não tem mensagem. A mensagem é você. Pare de me decifrar. Vá se decifrar, chapa. O que você acha de mim não é problema meu. E quando você achar que entendeu... mude de opinião. (Ele bate um acorde dissonante e encerra a conversa).

 




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