Encontros Impossíveis
O Maluco Beleza retorna do Trem das Sete, com a mesma ironia que desafiou a ditadura e o misticismo que fundou a Sociedade Alternativa, mantendo esta conversa imaginária com o SuperPauta sobre o pacto com Paulo Coelho, a dor de ser preso por ser ele mesmo, o show caótico em Natal, tudo ao som de gritos distantes de "Toca Raul!"
"Sonho
que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é
realidade." — Raul Seixas
Este Encontro Impossível nasceu de uma sugestão
dupla dos jornalistas e amigos Costa Júnior e Roberto Fontes — dois adeptos
fiéis do “Toca Raul!” e fãs da liberdade criativa, da rebeldia poética e da
música que cutuca o pensamento. O encontro não é num estúdio, nem num bar. É
numa estação de trem. A Estação da Luz, talvez, mas suspensa no tempo, sem
passageiros, mergulhada numa névoa que cheira a cigarro e ozônio. Ele está lá,
sentado num banco de madeira, rindo sozinho. A velha guitarra apoiada ao lado.
Ele não usa a túnica de Gita. Veste o jeans gasto, a bota de cowboy e a
jaqueta de couro puída. Ele me olha, sem surpresa, e dá aquela risada
inconfundível, que rasga o silêncio. "Demorou, chapa", ele diz,
"Pensei que cê não vinha."
Nesta conversa impossível, Raul Seixas, o eterno
Maluco Beleza, fala sobre a infância em Salvador, a paixão por Elvis e Gonzaga.
Ele detalha a criação da Sociedade Alternativa, o pacto (e o rompimento) com
Paulo Coelho, e a tortura no DOPS. Raul também encara os momentos sombrios: o
show interrompido em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1983, a prisão em
Caieiras por ser confundido com um sósia, e a luta contra o pâncreas e o
álcool. No final, ele analisa o "Raulseixismo" e manda um recado para
o Brasil do "Toca Raul!". (Roberto Homem)
SuperPauta: Raul, onde estamos agora? No “Trem das Sete”, na “Cidade das Estrelas”... ou num sonho teu?
Raul Seixas: (Ele dá uma
gargalhada longa). Bicho, se você não sabe, como é que eu vou saber? (risos).
Isso aqui é o "Intervalo". O "Não-Lugar". É o "Plunct
Plact Zum" da tua cabeça, porra. É o sonho que a gente tá sonhando junto.
E sonho que se sonha junto... porra, cê sabe o resto. É a única realidade que
interessa. Sacou?
SuperPauta: Afinal, o que é ser uma “Metamorfose Ambulante”? Filosofia de vida,
provocação, ou uma forma de nunca se prender a nada?
Raul Seixas: É o
contrário de ser careta, bicho. O careta é o cara que tem certeza. Certeza é
prisão, chapa. É o cara que se bota numa caixa e joga a chave fora. Ser uma
metamorfose é ter a coragem de dizer "eu errei" ou "eu
mudei". É ter a coragem de ser um idiota hoje e um gênio amanhã, e
vice-versa. É a única opinião que eu nunca mudei: a de ter o direito sagrado de
mudar de opinião. O resto é estátua. É museu.
SuperPauta: Você se via como gênio, profeta, bufão… ou tudo isso junto, num mesmo “maluco beleza”?
Raul Seixas: Tudo junto,
chapa. E na mesma hora! (risos). O bufão é o profeta que se leva na gozação. Eu
era o cara que falava a verdade rindo, porque se eu falasse sério, ninguém ia
escutar. E o gênio... o gênio é só um maluco que arrumou um jeito de ser pago
pela própria loucura. "Maluco Beleza" é isso: é o cara que não se
leva a sério, mas que leva a vida a sério pra caralho. Porque a vida, bicho, é
a maior piada de todas. E tem que ser levada a sério.
SuperPauta: Você se sentia mais um “Cowboy Fora da Lei” ou uma “Mosca na Sopa” que
insistia em pousar nas verdades do sistema?
Raul Seixas: (Ele coça o
cavanhaque). Eu era a Mosca na Sopa do Cowboy. O Cowboy é o sistema, o
"dono do gado", o careta de terno. Eu era a mosca que pousava na
testa dele, bem na hora da foto oficial, bem na hora que ele ia dar a ordem. Eu
era o imprevisto. O sistema não sabe lidar com o imprevisto, bicho. Ele pira.
SuperPauta: Sua obra é cheia de misticismo. No que Raul Seixas realmente acreditava?
Em Deus, em Crowley, em si mesmo ou no caos criador?
Raul Seixas: Eu acredito
no Caos. O Caos é a matéria-prima. Deus é o Caos tentando se organizar, e o
Diabo é o Caos se divertindo. Eu acredito na Vontade. "Faze o que tu
queres" não é "faça o que você gosta", é "descubra a sua
porra de Vontade e faça!". Mesmo que a sua Vontade seja ser um contador
careta. Se for a sua Vontade, tá valendo. O resto é rebanho.
SuperPauta: E essa história de ter “dez mil anos de idade”? Você se sentia um
estranho no próprio tempo?
Raul Seixas: Completamente,
bicho. Totalmente. Eu olhava pros caras nos anos 70, com aquela conversa de
"paz e amor", tudo muito certinho, e eu já tava pensando no caos
quântico. Eu olhava pro jornal e parecia que eu tava lendo sânscrito. Eu me
sentia velho. Eu lembrava de coisas que eu não tinha vivido. Eu não era do meu
tempo. E vendo vocês aí, com essa... internet... (risos)... acho que eu errei o
planeta, chapa.
SuperPauta: Vamos voltar pra Salvador. Quem era o “Raulzito” que morava perto do
cônsul americano só pra ouvir rock?
Raul Seixas: (Um sorriso
largo). Era um pirralho doido! Um "gringo" da Bahia. Eu colei no
cônsul pra ouvir o que ninguém tinha. Elvis, Little Richard, Chuck Berry...
Aquilo era... porra, era uma porrada na orelha! Era uma coisa que te pegava na
espinha. Era a voz do Diabo, e eu adorei! E o melhor: o Diabo falava inglês e
balançava o quadril, porra! (risos).
SuperPLauta: Elvis foi seu primeiro deus? E o que Luiz Gonzaga te ensinou que o rei do rock nunca poderia?
Raul Seixas: Elvis foi o
primeiro profeta. Ele me mostrou que podia ser diferente, que eu não precisava
ser um "cidadão" careta. Mas o Velho Gonzaga... (a voz fica séria). O
Gonzaga me ensinou o chão. Elvis cantava sobre sapatos de camurça azul; Gonzaga
cantava sobre não ter sapato, sobre a "asa branca" que foi embora.
Elvis era a fantasia; Gonzaga era a fome. O rock 'n' roll de verdade, bicho, é
a mistura dos dois: é a fome com a fantasia.
SuperPauta: “Os Panteras” foi o primeiro passo sério. O que tinha de diferente no
rock da Bahia? E como você lidou quando Raulzito e os Panteras (1968)
naufragou? Passou pela cabeça desistir?
Raul Seixas: O rock da
Bahia já era misturado, já era "antropofágico" e a gente nem sabia a
palavra. A gente não tinha a "pureza" dos caras do Rio ou de Sampa. A
gente já botava um tempero. O disco... (ele faz uma careta) ...aquilo foi um
parto! A gente gravou e a gravadora sentou em cima. Naufragou? O barco nem saiu
do porto! Desistir? Desistir, porra? (Ele ri). Desistir é coisa de careta.
Bicho, eu sou teimoso. Eu não sabia como fazer, mas eu sabia o quê fazer. Eu
pensei: "Ah, é? Então vocês vão me engolir. Mas vai ser do meu jeito, com
as minhas pira."
SuperPauta: A mudança pro Rio, pra ser produtor na CBS, te colocou “atrás da mesa”.
Você curtia o poder de apertar os botões?
Raul Seixas: (Um sorriso
malicioso). Ah, eu curtia. Claro que eu curtia! Eu era o lobo cuidando do
galinheiro. Eu era o "esquisito" que tinha a chave do cofre. Eu podia
dizer "sim" ou "não". E eu só dizia "sim" pro que
era doido, pro que era diferente. Eu era o caos dentro da ordem da gravadora. O
único 'Maluco Beleza' de terno e crachá. Era uma piada interna.
SuperPauta: Você produziu Sérgio Sampaio, Edy Star, Trio Ternura… sempre rodeado de
gente fora da curva. Você tinha faro pra quem era tão “esquisito” quanto você?
Raul Seixas: Claro,
porra! Bicho reconhece bicho. O Sampaio... porra, "Eu Quero É Botar Meu
Bloco na Rua"? Aquilo é um hino nacional, bicho. O Edy... gênio! Aquele
disco Somos Todos Nós... aquilo era a Sociedade Alternativa antes de eu saber o
nome! Eu olhava pro cara e via se ele tinha o "selo", o "brilho
no olho". Se ele fosse careta demais, se não tivesse a piração, eu mandava
ele... sei lá, cantar no programa do Chacrinha. E olhe lá!
SuperPauta: Chegamos a Krig-Há, Bandolo! (1973). O que significava aquele grito de
guerra?
Raul Seixas: Era o grito
do Tarzan, bicho! Era o grito do selvagem no meio da selva de pedra. Era um
"foda-se!" pro sistema. "Krig-há!" é "Cuidado!".
"Bandolo!" é "O maluco tá chegando!". Era um aviso. E eles
não ouviram.
SuperPauta: Em “Ouro de Tolo”, você chamou de idiota o homem que tinha tudo em pleno milagre econômico. Você foi o primeiro a enxergar o vazio?
Raul Seixas: Eu só
escrevi o que eu tava vendo. Eu tava lá, produtor de gravadora, ganhando o meu
"ouro de tolo", meu salário de produtor, e me sentia um idiota. Um
tédio do caralho. O "milagre" era uma piada. Todo mundo com seu
Corcel 73, feliz da vida, e eu pensando: "É só isso? Essa porra é a
felicidade?". Eu vi que o rei tava nu. E eu era o único bêbado no bar com
coragem de gritar. E o pior: eu tava sóbrio quando escrevi!
SuperPauta: E então aparece Paulo Coelho. Foi um pacto de almas, uma amizade ou um
encontro de egos?
Raul Seixas: Foi tudo
isso. O Paulinho... bicho, o Paulinho era mais louco que eu! Ele era o
"Mago", e eu era o "Maluco". A gente se encontrou e o
universo deu uma balançada. Um precisava do outro. Eu tinha a música, ele tinha
o... o método. A piração organizada. A gente leu Crowley junto, a gente tomou
chá de cogumelo junto, a gente sonhou a Sociedade Alternativa. Foi um pacto,
sim. Um pacto de caos.
SuperPauta: Vamos ser francos: Aleister Crowley e a “Lei de Thelema” — era crença,
marketing ou pura ironia raulseixista?
Raul Seixas: (Ele fica
sério). Era a coisa mais séria que eu já li. O careta lê "Faze o que tu
queres" e acha que é putaria. Idiota! É a coisa mais difícil do mundo! É
sobre você descobrir a sua Verdadeira Vontade. A sua missão. O resto...
marketing? Porra, bicho, eu fui preso por causa disso! Você acha que o DOPS se
importa com marketing? Eles se importavam com a ideia.
SuperPauta: Raul, há quem diga que você fez um pacto de verdade — não com Paulo
Coelho, nem com Crowley, mas com algo mais... digamos, invisível. Isso era
teatro, ou você acreditava que havia mesmo um preço a pagar por tanta lucidez?
Raul Seixas: (Ele acende um cigarro imaginário, o olhar se perde). Tudo tem um preço,
bicho. Quando você abre demais o olho, o mundo te ofusca. Não existe “pacto com
o diabo”; existe pacto com a própria sombra. Eu só aceitei conversar com a
minha. O problema é que quando você traz a sombra pra mesa, ela não vai embora.
Eu brinquei com fogo, e o fogo respondeu. Mas eu nunca tive medo do inferno — o
inferno era eu quando parava de criar. (Ele dá uma risada rouca). O resto é
superstição de quem tem medo de olhar no espelho.
SuperPauta: A “Sociedade Alternativa” era um conceito, um sonho ou um projeto real de
cidade libertária?
Raul Seixas: Começou
como um sonho, virou um conceito e quase virou um projeto. A gente ia comprar
terra em Minas, sim. Ia ser a nossa "Cidade das Estrelas", sem lei,
sem imposto, sem polícia. Cada um sendo o seu próprio rei. Um lugar onde
"faze o que tu queres" não fosse só uma frase num disco, fosse a
porra da lei.
SuperPauta: A ditadura achou que era sério e levou vocês pro DOPS. Prisão, exílio, tortura. O que o sistema mais temia: a música ou a liberdade que vocês pregavam?
Raul Seixas: (O olhar
dele escurece). Eles temiam a ideia. A música era só o veículo. O militar tem
medo do que ele não controla. O militar não lê filosofia, ele vê subversão. E a
gente pregava o incontrolável: a liberdade individual. Eles não entendiam a
Sociedade Alternativa, e por isso achavam que era... sei lá, comunismo,
terrorismo. No DOPS, o cara me deu um choque e perguntou: "O que significa
Krig-há, Bandolo?". (Ele ri, amargo). E eu ria! Eu ria de nervoso, porra.
E o cara ficava mais puto. 'Que porra é Krig-há?!'. Nem eu sabia direito,
porra! Foi ali que eu vi que a piada tinha ficado séria. Foi ali que o Maluco
Beleza virou "terrorista".
SuperPauta: Depois veio Gita (1974), e você virou uma espécie de Deus pro público.
Quando você disse “Eu sou a luz das estrelas, eu sou a cor do luar” — era
misticismo ou megalomania com poesia?
Raul Seixas: É
misticismo, bicho. É o Bhagavad Gita. É o que o Krishna diz: "Eu sou
tudo". Eu não tava dizendo que eu, Raul, era Deus. Eu tava dizendo que
Deus estava em mim. E em você. E no mendigo da esquina. Era uma aula de
panteísmo, e a galera entendeu como se eu fosse o Messias. Começaram a me pedir
milagre, bicho! E o único milagre que eu sabia fazer era transformar água em...
bom, deixa pra lá. (risos). Fazer o quê?
SuperPauta: E por que a parceria com Paulo Coelho terminou? Foi briga, cansaço ou
divergência de caminhos espirituais?
Raul Seixas: Porque duas
estrelas não brilham na mesma galáxia por muito tempo. O Paulinho é um cara...
pragmático. Ele queria organizar a magia, vender a magia. E eu, porra, eu sou o
caos. Eu queria viver a magia, me queimar nela. A gente começou a bater cabeça.
O ego era grande, dos dois lados. A gente fez o que tinha que fazer. O
"Novo Aeon" foi nosso último filho. Depois, o trem foi pra linhas
diferentes. Sem drama, mas sem volta.
SuperPauta: Hoje ele é um dos escritores mais lidos do planeta. Você o aplaude ou
acha irônico ver um ex-sócio de rebeldia virando guru de milionários?
Raul Seixas: (Gargalhada
alta). Eu acho é massa! Porra, o Paulinho tá fazendo o que ele quer! É a Lei de
Thelema pura! Ele descobriu a Vontade dele: ser um guru milionário. E tá
fazendo! Quem sou eu pra julgar? Ele tá nadando no "Ouro de Tolo"
dele. E eu aposto que ele ainda se sente um idiota de vez em quando. (pisca)
SuperPauta: Você conheceu John Lennon em Nova York. Como foi esse encontro entre dois
rebeldes que sonhavam com um mundo diferente?
Raul Seixas: (Um sorriso
nostálgico). Foi rápido. No corredor do hotel. Eu tava lá com o Jerry Lee
Lewis, uma doideira, o cara quebrou o piano. Trombei com o Lennon e a Yoko. A gente
trocou... (ele estala os dedos) ...uma energia. Eu disse: "Eu sou da
Sociedade Alternativa". E ele: "Eu sou de 'Imagine'". A gente
entendeu. Foi um "oi" de dez mil anos. Não precisou falar mais nada.
SuperPauta: E já que estamos neste “outro plano”, você e Lennon voltaram a se
encontrar? Elvis aparece por aí de vez em quando?
Raul Seixas: Bicho, aqui
não tem essa de "encontrar". Aqui não tem tempo, chapa. Então não tem
"encontrar". Aqui todo mundo tá. Elvis, Lennon, Gonzaga... a gente é
vizinho. A gente tá o tempo todo batendo papo. O problema é que aqui não tem
uísque... (risos). Mas também não tem dor de cabeça. Empate técnico.
SuperPauta: Os anos 80 chegaram, o rock mudou. Você se sentiu envelhecendo antes do tempo?
Raul Seixas: Eu me
senti... cansado. O rock dos 80 ficou muito "limpo". Muito gel no
cabelo, muita bateria eletrônica. Parecia comercial de refrigerante. Eu era
sujo, porra. Eu era analógico. Eu gostava do chiado do vinil. Os caras tavam
fazendo música com... com máquina de calcular. Eu era um "Cowboy Fora da
Lei" num mundo de "New Wave". Eu era um dinossauro na discoteca.
SuperPauta: O álcool foi combustível, anestesia ou sentença?
Raul Seixas: (Ele para
de sorrir. A resposta é séria e lenta). Foi os três. Começou como combustível,
pra ter coragem de subir no palco e ser o "Raul Seixas" que todo
mundo queria. Porque o "Raul Seixas" era foda, o Raulzito nem tanto.
Virou anestesia, pra aguentar a dor de... de tudo. A dor do pâncreas, a dor da
solidão, a dor de não ser entendido. E no fim... (ele suspira) ...no fim, foi a
porra da sentença. O Diabo sempre cobra a conta, bicho. E a minha veio com
juros.
SuperPauta: Você falava muito em discos voadores, reencarnação, outras dimensões...
No fundo, você acreditava em vida após a morte — ou era só mais uma metáfora
pra escapar da caretice do real?
Raul Seixas: Eu não acreditava, eu sabia, bicho. Mas não do jeito que o povo pensa. A
morte é só uma mudança de estação. Você sai do “Trem das Sete” e entra no
“Expresso da Eternidade”. O que eu chamava de “disco voador” era isso: uma
consciência que te tira do trilho. Quando o corpo morre, a alma pega carona. Eu
só não sabia que o bilhete era só de ida.
SuperPauta: Você sabia que o fim estava próximo? A solidão te acompanhou até o último
acorde?
Raul Seixas: Eu sabia. O
corpo avisa. Eu olhava no espelho e via um fantasma me olhando de volta. Eu
tava... transparente. Mas eu não tinha medo, eu tinha pressa. Eu queria gravar
mais um. A parceria com o Marcelo [Nova] foi isso. Eu tinha pressa. A
solidão... porra, bicho, solidão é ter um milhão de fãs e não ter ninguém pra
te levar no hospital. Eu morri como eu vivi: cercado de gente e sozinho pra
caralho.
SuperPauta: Em 1982, você foi preso em Caieiras (SP) porque acharam que era um
imitador de si mesmo. O que dói mais: ser preso pela ditadura ou por ser você
mesmo?
Raul Seixas: (Ele
explode na gargalhada). Isso é o Brasil, bicho! Isso é o puro suco do Brasil!
Ser preso pela ditadura é "currículo". Mas ser preso porque a polícia
acha que você é um imitador de si mesmo? Isso é o atestado de que o Brasil é
uma piada pronta! Eu tô lá, em Caieiras, doente, e os caras me prendem! Eu
tentei explicar: 'Mas, porra, eu sou o Raul Seixas!'. E o policial: 'E eu sou o
Elvis Presley!'. (risos). Doeu na hora, mas é a minha melhor história. É a
prova da minha tese: o mundo é uma grande gozação.
SuperPauta: E aquele show em Natal, em 1983? Você subiu ao palco e o público se
revoltou. O que passava pela sua cabeça naquele momento?
Raul Seixas: (O riso
some de novo. Ele olha para o chão). Natal.... Ah, bicho. (Ele balança a
cabeça). Aquilo doeu. Aquilo doeu de verdade. Eu subi no palco, e eu não tava
ali. Eu tava doente, porra. Eu não era um deus, eu era um homem com o pâncreas
me comendo por dentro. Eu olhava pra multidão e via eles me vaiando, jogando
copo... e eu não entendia. Eu pensava: "Mas... sou eu. Sou o Raul. Vocês
não tão vendo que eu tô morrendo aqui na frente de vocês?".
SuperPauta: O público achava que você estava bêbado, a equipe dizia que eram
remédios. O que realmente aconteceu naquela noite potiguar?
Raul Seixas: Era tudo
junto, chapa. Era a verdade. Eu tava bêbado, sim. Mas eu tava bêbado pra
aguentar a dor dos remédios, que não faziam mais efeito. Eu tava doente. O
público de Natal não viu um bêbado; viu um homem morrendo. E eles não
entenderam. Eles queriam o "Mito", e eu só era o Raul. Eu queria dar
o rock pra eles, e eles me deram... porra, eles me deram vaia. Eu cancelei o
show. Eu nunca esqueci aquilo. Foi um soco na alma.
SuperPauta: Essas cenas, como a de Caieiras e a de Natal, te feriam ou confirmavam que ninguém entendia nada?
Raul Seixas: Confirmavam.
Confirmavam que eu tava certo desde "Ouro de Tolo". Ninguém entende
porra nenhuma. Eles amam o ídolo, mas eles matam o homem. Eles querem o
milagre, mas não querem saber da dor do santo.
SuperPauta: Você foi casado cinco vezes. O que essas mulheres viam em você? E o que
você buscava nelas?
Raul Seixas: Elas viam o
que elas queriam ver. Umas viam o gênio, outras viam o coitadinho, outras viam
o profeta. O que eu buscava? (Ele sorri). Um esconderijo. Um colo. Alguém que
arrumasse a minha mala e dissesse que ia ficar tudo bem, mesmo que fosse
mentira. Eu buscava uma âncora, bicho. Mas eu era um barco furado.
SuperPauta: A parceria com Marcelo Nova foi seu último respiro? Ele te resgatou ou
apenas te acompanhou até a última estação?
Raul Seixas: O Marcelão
foi o último sócio. Ele me tirou da lama, bicho. Ele foi no meu apartamento,
olhou pro meu estado deplorável, a garrafa de cachaça na mão... e não teve nojo.
Ele viu o músico. Ele não teve medo do "Raul Seixas" ferrado. Ele me
resgatou, sim. E me acompanhou com dignidade até o fim. Ele me deu um motivo
pra levantar da cama: gravar um último rock 'n' roll.
SuperPauta: A Panela do Diabo. O nome foi piada com teu pâncreas ou confissão de que
o inferno já tinha endereço?
Raul Seixas: (Risos).
Foi as duas coisas! Meu pâncreas já era a "panela do diabo" há muito
tempo! Era rir da própria desgraça. Se o inferno existe, ele é aqui. E se ele é
aqui, bota um rock pra tocar, caralho!
SuperPauta: E “Carimbador Maluco”? Foi divertido entrar no imaginário infantil depois
de tanto escandalizar adultos?
Raul Seixas: Foi genial!
"Plunct Plact Zum"! Eu adorei! Os caretas piraram: "Raul se
vendeu pra Globo!". Bicho, eu não me vendi, eu invadi! Eu tava lá, no meio
das crianças, falando de carimbo, de espaço... era a Sociedade Alternativa pra
quem ainda não sabia ler. Foi minha maior sacanagem.
SuperPauta: A música “Nuit” soa como despedida. Era o fim chegando de mansinho?
Raul Seixas: Aquela
música... (ele olha para as mãos) ...aquela música é o meu atestado. O Marcelo
[Nova] teve que segurar a onda. A voz já não tinha força. Era um sussurro.
"Eu parti, o navio...". Eu sabia. Eu tava me despedindo. Era o último
'Krig-há'. O apito final do trem.
SuperPauta: Você se
arrepende de algo que fez… ou do que deixou de fazer?
Raul Seixas: Arrependimento
é ouro de tolo, bicho. Eu fiz o que eu quis. Eu bebi o que eu quis, amei quem
eu quis, cantei o que eu quis. Arrependimento é pra quem não viveu. Me
arrependo de não ter mandado mais gente à merda. De resto... faria tudo de
novo. Talvez com um pâncreas melhor.
SuperPauta: Qual foi o maior "Ouro de Tolo" que você comprou na vida?
Raul Seixas: Achar que
eu podia controlar o "Raul Seixas". O personagem. Eu criei o bicho, e
o bicho me comeu.
SuperPauta: Seus fãs viraram quase uma religião, o “Raulseixismo”. O que você acha
desse culto? E o eterno grito “Toca Raul!” — te diverte ou te assombra?
Raul Seixas: (Gargalhada).
O "Raulseixismo" é a minha maior piada! Eu passei a vida fugindo de
dogma e os caras criam um pra mim! (risos). O "Toca Raul!"? Bicho,
isso é o "Aleluia" dos ateus. É o "socorro" disfarçado de
gozação. É o grito do Maluco Beleza. É a prova de que eu não passei em branco.
Eu acho é massa!
SuperPauta: Por que você acha que ainda fala tanto à juventude?
Raul Seixas: Porque eu
não menti pra eles. Porque eu cantei a dúvida. O jovem é dúvida pura. O adulto
careta tá cheio de certeza. Eu não dei resposta, eu dei pergunta. E eu disse
que tá tudo bem ser uma "metamorfose ambulante", tá tudo bem não
saber. Eles olham pro mundo careta e precisam de um hino. Eu escrevi alguns.
SuperPauta: O que é liberdade, afinal: fazer o que queres ou ser quem se é?
Raul Seixas: Fazer o que
tu queres é ser quem se é. Uma coisa é a outra. Mas pra isso, tu tem que saber
quem tu é. E essa é a porra do trabalho de uma vida inteira.
SuperPauta: Como você enxerga o rock que veio depois de você — Legião, Titãs, Cazuza
— e essa música de hoje, do funk ao trap?
Raul Seixas: A galera de
Brasília foi massa. O Renato [Russo] era um poeta do caralho, o Cazuza era a
anarquia pura. Eles beberam na minha fonte, e eu acho isso uma honra. O funk? O
trap? É o novo "Krig-há, Bandolo!". É o grito do morro, é a
realidade. É sujo, é feio, é urgente. Tem mais rock 'n' roll num baile funk do
que em muito showzinho de banda cover. É rock 'n' roll.
SuperPauta: A internet é a “Sociedade Alternativa” que você sonhou ou virou só o
“Metrô Linha 743” mais veloz?
Raul Seixas: É os dois.
É a ferramenta perfeita pro "Faze o que tu queres". Mas virou o Metrô
na hora do rush. Todo mundo gritando, ninguém se ouvindo. E virou a maior
fábrica de careta que eu já vi. Todo mundo com medo de ser
"cancelado". "Cancelado", bicho? Que porra é essa? No meu
tempo, se você não era "cancelado" (a gente chamava de
"censurado"), é porque você tava fazendo alguma coisa errada!
SuperPauta: E se Raul vivesse hoje, teria perfil nas redes sociais? Você seria um
influenciador, um cancelado… ou criaria sua própria rede alternativa?
Raul Seixas: (Ele ri).
Eu seria cancelado todo dia antes do café da manhã! Eu ia ser expulso do
Twitter. Eu ia criar a "Rede Social Alternativa", e ela ia ser
hackeada no dia seguinte. Eu ia ser um inferno.
SuperPauta: O que você diria ao Brasil de agora, dividido e cansado de utopias?
Raul Seixas: Eu diria:
"Parem de procurar um Messias, porra!". Parem de procurar um
"Pai" pra salvar vocês, seja ele de direita ou de esquerda. Seja o
seu próprio salvador. O Brasil tá dividido porque todo mundo quer ter certeza.
Desconfiem. Duvidem. Pensem por si mesmos. Não tenham medo de mudar de opinião.
SuperPauta: Qual música sua melhor define o Brasil de hoje?
Raul Seixas: "Ouro
de Tolo". Sempre. Todo mundo com seu celular novo na mão, se sentindo um
idiota no trânsito.
SuperPauta: E se o “Disco Voador” passar de novo... você ainda pega carona?
Raul Seixas: Bicho, eu sou
o disco voador.
SuperPauta: Raul Seixas, qual é a tua mensagem final pra quem ainda tenta te
decifrar?
Raul Seixas: (Ele pega a
guitarra, afina uma corda imaginária e olha para mim. O sorriso é gentil, mas
ainda irônico). Mensagem? Não tem mensagem. A mensagem é você. Pare de me
decifrar. Vá se decifrar, chapa. O que você acha de mim não é problema meu. E quando
você achar que entendeu... mude de opinião. (Ele bate um acorde dissonante e
encerra a conversa).










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