quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis: Ulysses Guimarães

 O Sr. Diretas e o silêncio das ondas

 


O grande fiador da Constituição atravessa a ditadura, revisita a Constituinte e encara, com espanto crítico, a política do Brasil de 2026 onde quem manda é o algoritmo.

 

"Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo” — Ulysses Guimarães

 

O ambiente é de uma sobriedade absoluta, uma penumbra que sugere tanto o gabinete da Presidência da Câmara quanto a biblioteca de sua casa em São Paulo. Não há o luxo cenográfico de Hollywood, mas a dignidade do couro gasto e o cheiro persistente de papel antigo. A luz é cirúrgica, caindo sobre uma mesa de jacarandá onde repousa um exemplar original da Constituição de 1988, com as margens levemente amareladas. Ulysses Guimarães está impecável: o terno escuro perfeitamente cortado, a camisa branca de colarinho rígido, o cabelo alvo como uma bandeira de paz. Ele não gesticula com pressa; cada movimento das mãos parece desenhar um parágrafo da lei no ar. O olhar é de uma lucidez cortante, o olhar de quem atravessou o oceano de Angra para cobrar o penhor da liberdade.

Com a elegância de quem enfrentou cães e baionetas sem desajustar o nó da gravata, Ulysses revisita a Anticandidatura e a apoteose da Candelária, expondo a ferida de uma transição que, embora necessária, deixou incompleta a promessa de participação popular. Ao confrontar o Brasil de 2026, o “Doutor” fala com severidade republicana diante de novas formas de poder e de representação. Para ele, o Parlamento contemporâneo corre o risco de se perder numa política de vitrine, em que o caráter cede espaço à conveniência e à tirania dos algoritmos. Ulysses descreve, com precisão cirúrgica, a erosão do mandato real: o político que abdica da liderança para se tornar refém do aplauso instantâneo, trocando o debate público pelo desempenho em redes sociais. Entre a memória de Dona Mora e a lucidez de quem fez da Constituição uma obra de resistência, ele nos deixa um alerta: a democracia não sobrevive apenas nas telas, mas na vigilância e na indignação de cidadãos que ainda sabem reconhecer o gosto do sal da liberdade.


 

SuperPauta: Dr. Ulysses, antes do “Senhor Diretas”, há o menino de Rio Claro e da Vila Operária. Que Brasil foi o seu primeiro mestre: o Brasil da ordem e do rito, ou o Brasil que já fervia por mudança?

Ulysses Guimarães: (Ajeita os óculos, com um olhar que mistura memória e exame) Rio Claro foi o meu primeiro mapa-múndi, meu filho. E a Vila Operária foi a minha primeira escola de política, antes mesmo que eu soubesse dar esse nome às coisas. Ali, entre o apito da ferrovia, o entra e sai dos trabalhadores e a disciplina das casas modestas, eu aprendi uma lição que me acompanhou por toda a vida: o Brasil não é uma ideia abstrata, o Brasil tem rosto, tem fadiga, tem horário, tem esperança. Conheci, sim, um Brasil de ordem. Mas não essa ordem de quartel, imposta pela força, que cala e humilha. Falo de outra ordem: a ordem do trabalho, da palavra cumprida, do compromisso com o dia seguinte. Na Vila Operária, a desorganização custava caro demais a quem vivia do próprio esforço. Foi ali que entendi que disciplina e dignidade podem andar juntas, e que a política, quando presta, deve proteger justamente isso: a vida concreta de quem levanta cedo e sustenta o país sem aparecer no retrato oficial. Ao mesmo tempo, já havia no ar o cheiro das transformações. O Brasil mudava devagar, mas mudava. A cidade crescia, as ideias circulavam, o país começava a se ouvir de outro modo. Eu percebia, ainda menino, que havia muitos brasis convivendo lado a lado, às vezes sem se enxergar: o Brasil do trabalho e o Brasil do privilégio, o Brasil do rito e o Brasil da urgência, o Brasil que mandava e o Brasil que esperava ser ouvido. Talvez tenha sido ali que nasceu em mim essa vocação de ponte, essa insistência em fazer a política conversar com a vida real.

 

SuperPauta: E quando o senhor chega ao Largo de São Francisco, o que acontece com aquela intuição da Vila Operária? Em que momento o Direito deixa de ser apenas técnica e passa a ser, para o senhor, um instrumento de civilização e um limite contra a barbárie?

Ulysses Guimarães: Quando cheguei a São Paulo, ao Largo de São Francisco, o Direito me deu linguagem para aquilo que a infância já me ensinara por intuição. A Faculdade me ofereceu os livros, os conceitos, a arquitetura da lei. Mas foi Rio Claro que me deu o prumo. O Largo me deu a bússola; a Vila Operária me deu o norte moral. Sem essa origem, o Direito corre o risco de virar ornamento; com ela, ele pode se tornar instrumento de civilização. Foi também por isso que, na vida pública, eu nunca consegui aceitar a ideia de que a lei fosse apenas papel, adorno de gabinete, enfeite de biblioteca. A lei, para mim, sempre foi proteção. Escudo. Limite contra a barbárie. Quando a Constituição é respeitada, o fraco pode respirar. Quando ela é rasgada, o arbítrio entra pela porta da frente com ares de ordem, mas trazendo a desordem moral mais profunda. Então, se o senhor me pergunta qual Brasil eu conheci primeiro, eu lhe respondo: conheci os dois. O Brasil da ordem e o Brasil da mudança. E aprendi cedo que um país só prospera de verdade quando a ordem não serve para congelar injustiças, mas para organizar a transformação. Foi essa lição que eu carreguei para a tribuna, para o Parlamento e para a vida inteira. Porque política, meu caro, não se faz para quem apenas contempla a nação pela janela. Política se faz para quem a constrói com as mãos.

 

SuperPauta: Em que momento o advogado e professor percebeu que não bastava interpretar a lei, era preciso disputar o poder para defendê-la?

Ulysses Guimarães: (Cruza as mãos, como quem organiza um raciocínio antes de uma aula) Ninguém entra de verdade na vida pública por acidente, meu filho. Entra porque, em algum momento, a consciência começa a doer. A advocacia e o magistério me deram o gosto pela ordem jurídica, pela razão, pelo argumento. Mas também me ensinaram um limite: a melhor tese do mundo pode morrer na mesa se a política estiver entregue aos medíocres ou aos violentos. Eu percebi cedo que a lei, sozinha, não se sustenta. Ela precisa de instituições, de votos, de Parlamento, de homens dispostos a defendê-la quando isso custa prestígio, carreira e até amizade. Foi essa percepção que me empurrou para a política. Não fui para a vida pública por fascínio de cargo. Fui porque entendi que, se os homens decentes abandonam a política, depois passam a vida inteira reclamando dos canalhas que a ocuparam. Entrei, como tantos da minha geração, pela via partidária possível do meu tempo, aprendendo por dentro a mecânica do poder, a negociação, a paciência, o valor da palavra empenhada e, sobretudo, o peso da representação. Parlamento não é clube de vaidades, embora muitos o transformem nisso. Parlamento é o lugar onde a sociedade briga consigo mesma sem se matar. Essa é a sua grandeza. A política me ensinou algo que livro nenhum ensina completamente: a diferença entre ter razão e construir maioria. Ter razão é essencial. Mas, sem maioria, a razão pode virar apenas um belo lamento. Eu quis aprender a transformar convicção em força pública. Foi assim que o advogado entrou no plenário e nunca mais saiu.

 

SuperPauta: O senhor veio de uma escola política de negociação, de regimento, de construção de maioria. Não nasceu como um homem de barricada. Então onde aconteceu a virada? Em que momento o político da institucionalidade percebeu que conciliar demais, diante do arbítrio, podia virar cumplicidade?

SuperPauta: Essa é uma pergunta justa. Porque eu nunca fui, de fato, um homem do gesto inconsequente. Sempre acreditei na política como mediação, na lei como caminho, no Parlamento como arena civilizada. Mas há uma linha que não pode ser cruzada. Quando o poder começa a rasgar a legalidade e a chamar isso de “ordem”, o dever de um democrata deixa de ser apenas negociar. Passa a ser resistir. A virada não foi uma explosão teatral. Foi um acúmulo de evidências. Cassações, intimidações, censura, medo espalhado como método de governo. Aos poucos, foi ficando claro que não se tratava de corrigir excessos de um sistema, mas de enfrentar um projeto de poder que queria domesticar a sociedade e humilhar a política. Havia quem acreditasse que era possível administrar a exceção com boas maneiras. Eu não. Exceção que se instala e se organiza não quer diálogo, quer obediência. E a obediência, em política, é uma tentação perigosa: começa como prudência e termina como covardia. Eu mudei, sim. Mas não mudei de método, mudei de função histórica. Continuei homem da institucionalidade, do regimento, da tribuna, da palavra. Apenas compreendi que, naquele tempo, defender as instituições exigia enfrentamento. O regimento deixou de ser apenas técnica parlamentar e virou trincheira. A tribuna deixou de ser apenas palco de discurso e virou território de resistência. Foi aí que a política, para mim, ganhou um novo nome: responsabilidade histórica.

 

SuperPauta: Em 1965, o regime extinguiu os partidos e impôs o bipartidarismo, com uma engenharia pensada para dar aparência de democracia: de um lado, a legenda de sustentação do governo; de outro, um partido tolerado para funcionar como oposição sob controle. O MDB nasceu, aos olhos de muitos, para ser vitrine, enfeite, “decoração” do sistema. Como o senhor conseguiu transformar essa oposição consentida na maior frente de resistência política à ditadura?

Ulysses Guimarães: Foi um exercício de paciência bíblica, de persistência e de imaginação política. Eles queriam uma oposição de gabinete, domesticada, que fizesse discursos polidos para as paredes e aceitasse, em silêncio, o papel de figurante da História. Eu disse aos meus companheiros: se nos deram um palco para simular pluralismo, então vamos ocupá-lo com tanta verdade que o público esqueça o diretor da peça. O MDB virou uma frente, não apenas um partido. Era o ônibus onde cabia todo mundo que tinha repulsa à opressão: liberais, trabalhistas, democratas de várias tradições, gente da universidade, sindicalistas, homens e mulheres da vida comum que talvez discordassem em quase tudo, mas concordavam no essencial: o Brasil não podia se acostumar à mordaça. Nós transformamos a “oposição permitida” em uma oposição incômoda, depois indispensável, e por fim insuportável para o regime. Não era teatro. Era combate institucional. Guerrilha parlamentar, sim, mas feita com regimento, voto, denúncia, articulação, coragem e presença. Cada palavra defendida na tribuna, cada manobra regimental legítima, cada recusa em normalizar o absurdo era uma forma de dizer ao país: a democracia está ferida, mas não morreu. E havia uma dimensão humana que pouca gente via de fora. O gabinete não era só gabinete. Muitas vezes era refúgio, balcão de socorro, lugar onde chegavam pedidos, denúncias, angústias, perseguidos, famílias desesperadas. Aquilo parecia um “pronto-socorro dos perseguidos” e o telefone funcionava como serviço público permanente. Isso diz muito sobre o que o MDB se tornou. Eu não buscava o poder imediato. Buscava algo mais difícil: a consciência nacional. Poder se toma ou se perde num calendário. Consciência se constrói no tempo, palavra por palavra, até que um povo volte a reconhecer a própria voz. E consciência, meu caro, não se prende em quartel.

 

SuperPauta: Sob censura, sobretudo quando o regime apertava o cerco, falar em público podia custar mandato, liberdade e até vida. O senhor aprendeu a dizer por metáforas, por ironia, por silêncio calculado, ou preferia o enfrentamento direto? E qual era, de fato, o preço de cada palavra naquela época?

Ulysses Guimarães: O preço era a liberdade e, muitas vezes, a vida. E não apenas a de quem falava. Em tempos de exceção, uma palavra podia comprometer uma carreira, provocar uma cassação, expor uma família, acender a perseguição sobre muita gente. Por isso, falar não era vaidade. Era responsabilidade. Mas a política, meu caro, também é a arte de dizer o que precisa ser dito sem oferecer ao censor o pretexto perfeito para calar. Eu usava a retórica como esgrima. Havia a estocada frontal, quando ela se impunha; havia o florete da ironia; havia a metáfora, que atravessava a muralha porque o censor, muitas vezes, só enxerga a superfície das palavras. A censura é literal. Ela caça vocábulos proibidos, mas não sabe o que fazer com o silêncio eloquente, com a pausa que denuncia, com a frase que parece obediente e sai da tribuna como acusação. Em certos momentos, isso era técnica de sobrevivência da verdade. Mas houve ocasiões em que a metáfora não bastava. Quando eu dizia que “o povo tem fome”, não era ornamento de discurso, era realidade batendo à porta do Parlamento. Não era poesia, era cobrança. Havia horas em que falar com excessiva elegância podia ser uma forma de omissão. Eu alternava, portanto, linguagem e choque, precisão e ênfase. Não por gosto teatral, mas por dever político. E batia de frente, sim, quando era necessário, usando a própria liturgia do cargo contra eles. A ditadura sabia lidar com o grito desordenado, porque o reprimia. Tinha mais dificuldade diante de um homem que conhecia o regimento, respeitava a forma e, ainda assim, desmontava o arbítrio por dentro. Eles tinham a força bruta. Nós tínhamos a palavra organizada. E, numa tribuna, uma palavra bem colocada pode não derrubar um regime naquele dia, mas impede que o regime tenha a última palavra.

 

SuperPauta: Em 1973, o senhor lançou a “Anticandidatura” à Presidência, num sistema em que o Colégio Eleitoral já vinha desenhado para produzir o resultado desejado pelos militares. O senhor estava tentando ganhar votos, constranger a farsa ou disputar a consciência do país?

Ulysses Guimarães: Eu estava tentando ganhar a dignidade, meu caro, e devolver um pouco de dignidade à política. Votos, naquela engenharia autoritária, eram número previamente domesticado. O Colégio Eleitoral, naquela circunstância, não era arena de escolha real, era mecanismo de homologação. Participar daquilo como quem participa de uma eleição normal seria uma forma de capitulação moral. A Anticandidatura nasceu justamente para romper essa normalidade de fachada. Se não podíamos vencer no colégio deles, podíamos desmascarar o jogo diante do país. Fomos pelo Brasil não como candidatos no sentido clássico, mas como mensageiros de uma denúncia. Éramos, sim, mascates da democracia. Íamos de cidade em cidade dizer o óbvio que o regime queria tornar invisível: não há eleição de verdade sem povo, sem liberdade, sem disputa autêntica. Eu não queria os votos dos congressistas biônicos. Queria algo mais importante naquele momento: o voto de confiança da consciência nacional. Queria que o brasileiro entendesse que a política não precisava se ajoelhar diante da fraude apenas porque a fraude vestia gravata e carimbo oficial. Foi ali que o MDB começou a deixar de ser apenas uma sigla tolerada e se transformou em movimento. A Anticandidatura não foi uma campanha para conquistar um cargo. Foi uma campanha para impedir que o país perdesse de vez o senso do ridículo e o hábito da indignação.

 

SuperPauta: Em Salvador, em 1978, a cena correu o país: cães lançados contra parlamentares, e o senhor reagindo com a frase que virou símbolo, “Baioneta não é voto. Cachorro não é urna.” O que passou pela cabeça do senhor naquele instante, diante daquela demonstração de força bruta?

Ulysses Guimarães: (Os olhos brilham, mas a voz sai controlada) Passou a certeza de que eles estavam derrotados no essencial. Quando um governo precisa mobilizar cães contra representantes políticos, ele pode até conservar a força, mas já perdeu a autoridade moral. É um poder que ainda oprime, porém já não convence. Eu senti uma calma muito nítida. Não porque eu fosse de pedra, mas porque a cena dizia mais sobre eles do que sobre nós. O medo, ali, seria legítimo. A vergonha era deles. Naquele instante, a resposta não podia ser apenas física, tinha de ser política e simbólica. A frase precisava devolver ao país a medida do absurdo. “Baioneta não é voto. Cachorro não é urna.” Não era efeito de tribuna. Era uma tradução imediata da degradação que estava diante de todos. Eu não sentia raiva dos cães. Sentia indignação contra a baixeza de quem os usava como instrumento de intimidação. E percebi, na hora, que aquela imagem viajaria. A violência deles tinha produzido, sem querer, uma fotografia moral do regime. O que ficou para mim daquele episódio foi uma lição simples: a política não se faz sem coragem, mas também não se faz com bravata. Faz-se com presença. Com firmeza. Com a recusa de recuar justamente quando o poder quer transformar o medo em método.

 

SuperPauta: No auge das Diretas Já, o Comício da Candelária reuniu uma multidão histórica no Rio, estimada em até um milhão de pessoas. O senhor estava no palanque como uma das vozes centrais daquele movimento. Que sensação foi viver aquele momento e, dias depois, ver a emenda Dante de Oliveira naufragar na Câmara entre pressões, ausências e cálculo político?

Ulysses Guimarães: É uma sensação difícil de traduzir sem recorrer ao mar: como ver a maré da História subir diante dos seus olhos e, de repente, encontrar diques erguidos pelo medo e pelo cálculo. A Candelária foi, sem dúvida, um dos momentos mais belos da minha vida pública. Não porque eu estivesse acima da multidão, mas porque, naquele dia, ninguém estava acima de ninguém. O povo não me seguia. O povo se reconhecia. Eu era apenas o microfone de uma nação que tinha redescoberto a própria voz. Ali havia algo que o regime não sabia mais produzir: legitimidade. A praça dizia, com o corpo de centenas de milhares de brasileiros, que o país queria voltar a escolher o próprio destino. Aquilo não era apenas um comício. Era uma reaparição da soberania popular. Por isso a derrota da emenda doeu tanto. Não foi apenas uma derrota regimental. Foi a prova de que, mesmo diante de uma vontade nacional tão visível, ainda havia uma máquina de poder funcionando para conter a transição plena. Houve medo, houve cálculo, houve conveniência, houve ausências que valiam voto. Muitos olharam para a rua e, em vez de se deixarem iluminar por ela, preferiram se proteger na penumbra do arranjo. Eu não me senti traído por Tancredo. Tancredo era, como poucos, um homem da travessia possível. Sabia que, em certos momentos, a política exige passos laterais para evitar o precipício. A saída pelo Colégio Eleitoral foi, para muitos de nós, um remédio amargo. Amargo, mas necessário, se o objetivo era impedir que o país recaísse na violência aberta. Mas não escondo: meu coração ficou na Candelária. Porque ali estava o Brasil que eu desejava ver vencer por inteiro, sem mediação, sem tutela, sem meias-liberdades. A emenda caiu, mas a praça venceu no tempo. A Câmara negou naquele dia. A História acabou concedendo.

 

SuperPauta: Antes da Candelária, houve uma virada decisiva: as Diretas deixaram de ser apenas um tema do Parlamento e se tornaram um movimento de massa. Em que momento o senhor percebeu que a rua tinha assumido a liderança da História?

Ulysses Guimarães: Eu percebi quando a política saiu do paletó e entrou no peito do povo. No começo, as Diretas pareciam um debate de plenário, uma tese jurídica, um assunto de gabinetes. De repente, aquilo virou vida: virou família na praça, trabalhador de uniforme, estudante com cartaz, artista com voz, dona de casa com indignação. A rua não estava pedindo um favor; estava reivindicando um direito. Foi aí que eu entendi que a liderança já não era de ninguém em particular. Era do país. Nós, no palanque, éramos apenas instrumentos de amplificação. A multidão não queria “um líder”. Queria voltar a ser autora do próprio destino. E quando um povo decide isso, meu caro, não há regimento, tanque ou gabinete que consiga desinventar a História.

 

SuperPauta: “Constituição Cidadã”. Na promulgação, o senhor bradou “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo”, como um juramento contra o arbítrio. Hoje, depois de o STF declarar inconstitucional o que ficou conhecido como “orçamento secreto” (RP9) e impor regras de transparência, ainda se discute a mesma lógica: dinheiro público circulando sem luz suficiente, com autoria difusa e critérios frágeis. Isso é o fortalecimento do Legislativo que o senhor sonhou ou é uma forma de captura da República?

Ulysses Guimarães: Se é secreto, é indecente. O dinheiro público não pode ter capuz. A República não foi feita para funcionar no escuro, porque no escuro prosperam o compadrio, a chantagem e a desmoralização da política. O Legislativo precisa ser forte, sim. Forte para fiscalizar, legislar, sustentar o debate público, conter abusos do Executivo quando necessário, defender a federação com critérios republicanos. Mas não para virar uma usina opaca de distribuição de verbas, em que ninguém sabe com clareza quem pediu, por que pediu, para onde foi e qual resultado entregou. O orçamento é o coração administrativo do Estado. Quando ele é fatiado sem transparência, a democracia vira varejo: troca-se apoio por verba, convicção por conveniência, interesse público por cálculo miúdo. E isso corrói o mandato. Porque o parlamentar deixa de responder ao cidadão e passa a responder ao mecanismo. E não me venham com a desculpa das etiquetas. Não basta trocar o número da rubrica para preservar a mesma prática. Se a Constituição exige publicidade, impessoalidade e moralidade, então o mínimo é simples: autoria explícita, destinação explícita, critérios públicos, rastreabilidade e prestação de contas. Sem isso, não é  fortalecimento do Parlamento. É captura do Estado por dentro. A Constituição Cidadã foi desenhada para impedir tutelas. Tutela de armas, tutela de gabinetes e também tutela de sombras. O povo tem direito de saber. O povo tem direito de ver. E o político, meu caro, não pode ter medo do povo nem pode governar escondido dele.

 

SuperPauta: Vamos aos seus contemporâneos. Como o senhor define Leonel Brizola e Antônio Carlos Magalhães, o ACM?

Ulysses Guimarães: Brizola era a paixão em estado bruto, um patriota de combustão contínua. Tinha virtudes que não se fabricam em gabinete: coragem, presença, ligação orgânica com a ideia de povo. Era capaz de incendiar consciências quando o país precisava acordar. Mas a mesma energia que mobilizava também dificultava a costura. Brizola era mais talhado para o clarão do embate do que para o ponto miúdo do acordo. Em política, às vezes, você precisa do trovão. Outras vezes, precisa da ponte. O ACM era outra escola. Representava um poder vertical, eficiente, disciplinador, que entende a política como máquina e comando. Tinha senso de operação e de resultado, isso é inegável. Mas via a autoridade como algo que se impõe, não como algo que se constrói pelo convencimento. Eu o enfrentei muitas vezes porque ali havia dois conceitos de República: o dele, baseado na força da engrenagem; o meu, baseado na força da ideia. Ele era mestre da máquina. Eu tentava ser servidor do princípio.

 

SuperPauta: E a figura do Sarney nesse período de travessia?

Ulysses Guimarães: Quanto ao Sarney, eu diria que foi a travessia possível. Depois da morte de Tancredo, o país ficou diante de um abismo institucional. Sarney virou a ponte, com todas as ambiguidades que uma ponte carrega: não é o destino, mas é o que impede a queda. Muitos o criticaram, e parte dessas críticas é compreensível. Mas é preciso reconhecer: ele manteve o fio civil quando ainda havia sombra de quartel no horizonte. A democracia brasileira, naquele momento, não precisava de pureza retórica. Precisava de continuidade institucional para não voltar à estaca zero.

 

SuperPauta: O senhor viveu o tempo do rádio e do jornal, em que a palavra tinha tempo de maturar. O que diria de um deputado de 2026 que faz política quase só por “cortes”, por frases de efeito e performance em rede, falando mais para a própria bolha do que para a nação?

Ulysses Guimarães: Diria que isso é um mandato cenográfico. Um representante não é um artista de aplauso, é um mediador da vida pública. Política exige debate, contraditório, convencimento, capacidade de ouvir e de ser contestado. Quando o homem público se contenta em falar apenas para convertidos, ele abandona a República e passa a administrar plateias. Os “cortes” são fragmentos: arrancam a ideia do seu contexto e vendem emoção no lugar de argumento. E emoção sem responsabilidade é matéria-prima do autoritarismo, porque dispensa prova, dispensa prudência e dispensa diálogo. A democracia vive de fricção civilizada; sem ela, o que sobra é o monólogo do aplauso fácil. E há um agravante: a mentira mudou de escala. No meu tempo, ela corria a pé; hoje, ela viaja em rede, multiplicada por máquinas que premiam o escândalo e castigam a nuance. Como governar um país em que a verdade vira torcida, e não verificação? Nesse ambiente, o autoritarismo não precisa de tanques. Ele pode vestir terno, falar manso e operar por algoritmos, manipulando medo, raiva e ressentimento.

 

SuperPauta: Dona Mora era discreta e reservada e tinha um poder raro: o silêncio e o olhar que “organizam a sala” sem precisar de discurso. Ela era sua bússola íntima, seu freio e sua fortaleza. Que ética ela lhe ensinou em casa? E, se pudesse comentar o Brasil de hoje, o que ela diria ao senhor?

Ulysses Guimarães: A Mora tinha uma sabedoria que não cabe em comício. Ela não precisava disputar espaço. Ela estabelecia o espaço. E isso, em política, é mais valioso do que parece. O que ela me ensinou foi uma ética cotidiana, quase doméstica, mas absolutamente republicana: não confundir poder com grandeza. Não confundir barulho com coragem. E não confundir esperteza com inteligência. Ela tinha horror ao exibicionismo moral. Quando a política sujava tudo, ela devolvia a medida humana. Quando a vaidade ameaçava, ela colocava um espelho na minha frente, sem levantar a voz. E tinha, sobretudo, a disciplina do silêncio. Um silêncio de autoridade, não de omissão. Sobre o Brasil de hoje, ela talvez dissesse duas coisas, em sequência, como só ela saberia dizer. Primeiro: “Ulysses, vá descansar, você já fez a sua parte.” E logo depois, me entregaria o terno, porque a Mora sempre soube que descanso, em democracia, é um luxo curto: “Levanta, que a República está chamando.”

 

SuperPauta: Se a Mora falava com os olhos, o senhor falou com a Constituição. Para quem está começando na vida pública, qual é a regra de ouro da ética que não aparece no regimento, mas decide o destino de um mandato?

Ulysses Guimarães: A regra é simples e difícil: não faça no escuro o que você não teria coragem de defender à luz do dia. O que não aceita assinatura não merece existir. Ética não é discurso de posse. É hábito. Está no jeito de tratar o adversário, no jeito de usar o dinheiro público, no jeito de aceitar limites. E está, principalmente, numa pergunta que todo político deveria se fazer antes de cada decisão: “Se eu explicar isso ao povo, sem truque e sem maquiagem, eu me sustento em pé?” Quando a resposta é não, a política vira esperteza. E esperteza repetida vira ruína.

 

SuperPauta: Para fechar, Dr. Ulysses: o Brasil ficou sem despedida. Seu desaparecimento no mar permanece como um silêncio na história. Sem romantizar nem inventar sentido para o que foi mistério e dor, o que o senhor gostaria que permanecesse: qual lembrança o senhor quer que o país guarde quando pensa no seu nome?

Ulysses Guimarães: O mar tem uma grandeza que não pede interpretação. O que aconteceu pertence aos fatos e à memória dos meus. Não cabe transformar ausência em enfeite. Se, apesar disso, meu nome ficou ligado à ideia de travessia, que seja por uma razão decente: porque eu ajudei o Brasil a atravessar da exceção para a legalidade. Eu gostaria de ser lembrado não como mito, mas como servidor de um princípio: a democracia precisa de instituições, e instituições precisam de cidadãos vigilantes. Meu maior erro foi acreditar, às vezes, que a letra da lei bastaria para educar o caráter. A lei é indispensável, mas ela não substitui a virtude. Meu maior acerto foi não ter desistido quando os cães latiram e quando a covardia parecia mais confortável do que a coragem. Se eu pudesse deixar uma última frase ao brasileiro de 2026, seria esta: não tenham medo do futuro. Tenham vergonha da apatia. A democracia não é um estado de espírito. É um exercício diário de responsabilidade.

 

SuperPauta: Dr. Ulysses, muito obrigado. A sua voz ainda faz ecoar as colunas de Brasília.

Ulysses Guimarães: Obrigado, meu filho. E cuidem dessa Constituição. Ela é a linha que separa vocês do abismo.



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