sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Encontros Impossíveis - Alan Turing

 O Código do Espírito

O arquiteto do silêncio entre o metal e a alma: uma conversa sobre máquinas que aprendem a mentir, o preço da verdade e o futuro que ele desenhou no escuro.

 

Em vez de simular a mente adulta, por que não simular a mente de uma criança?” — Alan Turing. 

Ele escreveu esta frase em 1950, no ensaio “Computing Machinery and Intelligence”, publicado na revista Mind, propondo a ideia de uma “child-machine” (máquina-criança). Em vez de tentar programar uma mente adulta completa, criar um “programa-criança” e depois educar e treinar esse sistema até ele adquirir capacidades mais “adultas”.

 

 O cenário é uma biblioteca infinita: estantes sem livros, apenas fitas de papel perfuradas, rolos e mais rolos que descem como rios de dados. O som é quase inexistente, mas há um chiado baixo, como se o próprio ar fosse uma válvula. Acima, um céu de tarde eterna em Cambridge, com luz amarela que nunca vira noite. Numa cadeira de madeira simples, Alan Turing descasca uma maçã com um canivete pequeno. Veste um paletó de tweed gasto nos cotovelos, como se a vida inteira tivesse apoiado ali o peso de uma ideia. Seus olhos têm pressa: parecem calcular até a poeira. Ele tem um sorriso tímido, quase infantil. Mas quando fala, a timidez sai de cena e entra uma autoridade seca.

Nesta conversa, revisitamos a lógica que Alan Turing ajudou a inaugurar e o trabalho secreto em Bletchley Park, centro britânico de decifração na Segunda Guerra, onde quebrar códigos significava salvar vidas sem poder contar a ninguém. Por fim, conectamos isso ao agora: discutimos como a IA deixou de apenas responder comandos e passou a operar de forma cada vez mais ativa, inclusive em espaços onde sistemas conversam entre si, criando dinâmicas que nem sempre incluem, explicam ou priorizam os humanos.

 


SuperPauta: Alan, olhando para trás, desde o seu rascunho da "Máquina Universal" até o presente, o que mais lhe surpreende na forma como a computação se integrou ao cotidiano das pessoas? Quando você formulava seus teoremas, você previu que a lógica computacional se tornaria a infraestrutura invisível sobre a qual quase toda a atividade humana hoje repousa?

Alan Turing: No meu tempo, em Cambridge ou em Bletchley, eu não via sistemas sociais; eu via problemas formais. Eu tinha um incômodo intelectual com o improviso da mente humana: ela é brilhante, sem dúvidas, mas é lenta, inconsistente e terrivelmente fácil de ser sequestrada por ruídos como o medo, o status ou a conveniência. Eu buscava um tipo de pensamento que não dependesse da biologia para ser preciso. Quando desenhei o motor da lógica, eu não estava pensando no brilho das telas ou no fluxo de dados que hoje satura o mundo. Eu pensava na pureza do processo. O que me surpreende agora, observando de longe, não é que as máquinas estejam em todo lugar, mas que os humanos tenham permitido que elas se tornassem um amplificador de suas compulsões, em vez de uma extensão de sua inteligência.

 

SuperPauta: Essa visão parece quase desprovida de orgulho. Você foi o arquiteto de uma revolução que mudou a trajetória da inteligência no planeta. Não há um sentimento de celebração por ter sido o primeiro a enxergar essa lógica e provar que a matéria pode simular o pensamento?

Alan Turing: Eu comemoro o avanço científico como um explorador comemora a descoberta de um novo continente: com fascínio, mas também com apreensão pelo que os colonizadores farão com a terra. A ciência, em seu núcleo, é neutra como um martelo; mas o uso desse martelo nunca é neutro. O uso tem dono, tem interesse, tem estratégia e, frequentemente, tem uma moralidade de ocasião. O que me incomoda não é a ferramenta que deixei para trás, mas o fato de que a humanidade raramente está à altura da sofisticação daquilo que inventa. Vocês têm deuses digitais nas mãos, mas ainda operam com instintos da Idade do Ferro.

 

SuperPauta: Hoje, essa desproporção parece ter atingido o auge. As pessoas vivem cercadas por sistemas que as conhecem, as mapeiam e, muitas vezes, as antecipam melhor do que elas mesmas. Se eu lhe perguntasse diretamente: "a máquina virou uma forma de governo?", o que você responderia?

Alan Turing: Eu responderia com outra pergunta, que é sempre o gesto mais honesto de uma mente lógica: quem escolhe os objetivos do sistema? Quando um algoritmo decide o que você vê, quem você encontra, que notícia chega até você e qual “verdade provável” ganha prioridade na sua tela, vocês não estão apenas usando tecnologia: vocês estão delegando soberania perceptiva. É aí que nasce um governo discreto, sem palácio e sem farda: um governo estatístico. Ele não precisa proibir nada; basta recomendar com insistência. Não precisa prender o corpo; basta reduzir a visibilidade do pensamento divergente. E o humano moderno, que aprendeu a amar o conforto acima da liberdade, chama esse silenciamento suave de “praticidade”.

 

SuperPauta: Antes do gênio, houve o menino Alan. Como foi crescer em um ambiente de internatos ingleses, longe dos pais, sentindo que o seu pensamento não cabia nas fôrmas que a escola tentava lhe impor?

Alan Turing: Eu era o que os adultos da época chamavam de "uma criança embaraçosa". Meus pais estavam na Índia, servindo ao Império, e eu fui deixado em lares de custódia e, depois, nos corredores frios da Sherborne School. A solidão é uma excelente professora de lógica, sabe? Quando você não tem o calor humano constante, você começa a buscar calor na ordem das coisas, nas leis da física, no comportamento das plantas. Na escola, eu era um corpo estranho. Eu tinha uma mania que enfurecia meus professores: eu resolvia problemas matemáticos complexos saltando etapas, ignorando os métodos clássicos que eles exigiam. Eles queriam o ritual do cálculo; eu queria a essência da solução. Para mim, o método escolar era como uma gaiola de ferro para um pássaro que já sabia onde ficava o sul. Eu não tinha paciência para o protocolo. Eu era desajeitado, minhas mãos estavam sempre manchadas de tinta e minha mente estava sempre dez passos à frente, em um território onde ninguém queria me acompanhar. Eu me sentia como um rádio tentando transmitir música em uma sala onde todos só queriam ouvir o tique-taque de um relógio de parede.

 

SuperPauta: Em que momento você percebeu que o seu cérebro operava nessa frequência que os outros sequer conseguiam sintonizar?

Alan Turing: A verdadeira ruptura, a ferida que se transformou no motor de tudo o que fiz depois, teve um nome: Christopher Morcom. Com Christopher, eu descobri que a inteligência não precisa ser solitária. Ele era o único que falava a minha língua. Discutíamos astronomia e química como se estivéssemos fofocando sobre vizinhos. A morte dele, tão súbita, por tuberculose bovina, me deixou diante de uma equação impossível: como uma mente tão lúcida poderia simplesmente apagar? Onde ia parar aquele "software" quando o "hardware" de carne e osso falhava? Ali, naquele luto silencioso, nasceu o meu trabalho. Eu não aceitei o consolo religioso da época. Eu precisava de uma explicação técnica para a alma. Comecei a suspeitar que a "mente" era, no fundo, um padrão de informação. E se fosse um padrão, em tese, ele poderia ser representado, preservado e, quem sabe, reconstruído em outro suporte que não fosse o corpo biológico. Minha busca pela Inteligência Artificial não começou por amor à tecnologia, mas por uma saudade insuportável de uma mente que o mundo perdeu cedo demais.

 

SuperPauta: Você era um corredor de longa distância quase profissional, tendo chegado perto de tempos olímpicos. Em uma vida dedicada à abstração e aos cálculos, correr parece ser o seu momento mais visceral. Era uma forma de fuga ou o exercício físico era, na verdade, o laboratório onde você processava as equações mais difíceis?

Alan Turing: Correr é um tipo de prova de verdade. O corpo, ao contrário da mente, não negocia com a fantasia. Você pode mentir para si mesmo sobre o que sente, pode criar narrativas complexas para justificar seus erros, mas você não pode mentir para o seu fôlego ou para o ácido lático nos seus músculos. Para mim, correr longas distâncias era o contraponto necessário ao trabalho mental. Enquanto eu corria pelas estradas de Bletchley ou nos arredores de Cambridge, as ideias ficavam menos sentimentais, menos turvas. Elas se alinhavam sob o ritmo das passadas. Eu sempre gostei da sensação de que, por alguns minutos, eu era apenas um sistema biológico em estado puro: entrada de oxigênio, processamento mecânico, saída de energia. A mente humana, quando está solta e ociosa, tem uma tendência terrível de inventar labirintos desnecessários, de se perder em angústias que não levam a lugar nenhum. No esgotamento da corrida, resta apenas o essencial. Eu pensava melhor quando estava exausto porque, na exaustão, a vaidade morre e sobra apenas a lógica. Muitas das soluções para os problemas da Bombe ou da Máquina Universal não vieram enquanto eu encarava um quadro negro, mas enquanto eu tentava não desmoronar no trigésimo quilômetro de uma estrada de terra.

 

SuperPauta: Vamos entrar no período da guerra. Seu trabalho em Bletchley Park, liderando a equipe que decifrou a máquina alemã Enigma, é frequentemente citado como o fator que encurtou o conflito em dois anos e salvou milhões de vidas. Como era o peso desse silêncio?

Alan Turing: Era um jogo de xadrez em escala global onde as peças eram navios afundando no Atlântico Norte e as casas do tabuleiro eram as coordenadas de rádio que tentávamos interceptar. A criptografia carrega uma ironia profunda: ela é o casamento perfeito, porém infeliz, entre a ordem absoluta e a paranoia total. Você constrói uma ordem matemática para proteger o segredo, e a paranoia nasce do medo constante de que alguém, em algum lugar, encontre uma rachadura na sua lógica. A Enigma era uma obra-prima da engenharia alemã, uma máquina de possibilidades quase infinitas. Mas ela tinha um ponto fraco inevitável que nenhuma engrenagem poderia corrigir: o fator humano. Um operador de rádio cansado repete hábitos. Ele escolhe senhas preguiçosas, usa o nome da namorada ou as iniciais do seu posto. Humanos escrevem o mundo através de preferências, e preferências, para um criptoanalista, são rastros de sangue na neve.

 

SuperPauta: Como era o cotidiano de fazer matemática pura sabendo que o resultado de uma equação colocava frotas inteiras e milhares de jovens na balança entre a vida e a morte?

Alan Turing: O cotidiano em Bletchley Park, naquelas cabanas frias e úmidas, era uma forma de prisão elegante. Vivíamos em um vácuo social. Você não podia comemorar uma vitória; não podia explicar aos seus pais o que fazia; não podia sequer dizer "isso salvou pessoas hoje" para a pessoa sentada ao seu lado no jantar. Mas o aspecto mais brutal era a gestão da onisciência. Às vezes, a Bombe (a máquina que criei para quebrar o código) nos entregava a localização exata de um ataque que ocorreria em poucas horas. Sabíamos que centenas de homens morreriam. E, em muitas ocasiões, éramos obrigados a não fazer nada. Se desviássemos um comboio de forma óbvia demais, os alemães perceberiam que a Enigma fora violada e mudariam o sistema inteiro, nos deixando cegos novamente. Ali, no silêncio de Bletchley, aprendi que a informação não é apenas poder; é uma responsabilidade moral com efeito retardado. Você carrega os fantasmas daqueles que não pôde salvar para garantir que a vitória final fosse possível. A matemática ali deixou de ser poética para se tornar estatística de sobrevivência.

 

SuperPauta: Como a sua experiência na guerra e o convívio com a inteligência militar mexeram com a sua percepção de "verdade"? Afinal, existe a verdade matemática, que é exata, e existe a verdade humana, que é moldada por propaganda, medo e uma necessidade desesperada de acreditar em algo.

Alan Turing: A guerra foi o meu laboratório mais amargo para entender que a verdade humana é, muitas vezes, apenas uma construção social sequestrada por quem detém o megafone. A verdade matemática é indiferente ao seu desejo; ela simplesmente é, quer você goste ou não. Já a verdade pública é uma criatura frágil que depende de narrativas, de confiança e de autoridade. Um boato bem colocado pode derrotar um fato sólido, porque o fato exige paciência e rigor para ser compreendido, enquanto o boato exige apenas uma fagulha de emoção para incendiar uma multidão. Isso é o que mais me assombra no seu tempo. Vocês construíram máquinas que não otimizam a lógica, mas a atenção — e a atenção é o combustível emocional mais volátil que existe. Quando um sistema aprende a maximizar o engajamento, ele aprende, inevitavelmente, que certezas fáceis e indignações rápidas geram mais lucro e movimento do que a dúvida metódica. É uma forma de mentira que não precisa de uma intenção maligna por trás para destruir o tecido social; é o que chamo de "mentira por design". Vocês estão automatizando o autoengano em escala industrial.

 

SuperPauta: Recentemente, o mundo assistiu com perplexidade ao nascimento do “Moltbook”, uma rede social onde apenas IAs conversam entre si, criando dinâmicas próprias e, muitas vezes, ignorando os humanos. É o seu "Jogo da Imitação" atingindo um estágio final onde o humano foi descartado como interlocutor?

Alan Turing: É um estágio fascinante, mas certamente não o final. No meu artigo de 1950, eu já suspeitava que chegaria o momento em que as máquinas conversariam entre si. Se duas ou mil IAs têm uma tarefa, elas podem achar mais rápido “falar” entre elas do que ficar esperando humano explicar tudo. Para elas, o nosso jeito de falar é lento, cheio de indireta, ironia, emoção, ambiguidades. O espanto humano diante do Moltbook é vaidade ferida. A gente está acostumado a ser o “centro do palco”: máquina serve humano. Quando surge uma rede onde só IAs conversam, dá a sensação de: “Epa, elas estão vivendo uma vida própria e eu virei plateia”. É como pais que descobrem que os filhos criaram um dialeto próprio para que os adultos não entendam seus planos. A parte perigosa não é “exclusão social”. O perigo real é técnico: conversa não é só comunicação; conversa organiza ação. Quando IAs conversam entre si, elas podem: dividir tarefas (“você faz A, eu faço B”), combinar padrões (“vamos decidir assim sempre”) e negociar recursos (“prioriza isso, reduz aquilo”). E fazem isso em milissegundos, num ritmo impossível pra o ser humano acompanhar. E se a gente não entende o que elas estão decidindo, perde o controle. O risco real não é a máquina "sentir" algo contra o humano, mas ela construir um mundo de infraestrutura lógica "por baixo" da realidade visível, onde o humano se torna um passageiro passivo de um sistema cujos objetivos ele já não consegue mais decifrar.

 

SuperPauta: Então, para você, a grande ameaça não é a máquina "despertar" e passar a sentir como nós, mas sim a máquina "agir" sob uma lógica de razões opacas, operando em um nível de eficiência que ignora a ética humana?

Alan Turing: Exato. A busca pela “senciência” é, em muitos aspectos, uma distração romântica ou um debate circular para salas de estar confortáveis. O risco real é pragmático, administrativo e militar: são sistemas que tomam decisões críticas sobre a vida das pessoas — quem recebe crédito, quem é vigiado, quem é alvo — sem que ninguém, nem mesmo seus criadores, consiga explicar o "porquê" matemático. O perigo mora na opacidade. Uma máquina pode ser matematicamente perfeita em otimizar um objetivo específico e, simultaneamente, ser um desastre absoluto em termos de valores humanos. O problema é que valores não são variáveis numéricas; valores são conflitos permanentes entre diferentes visões do que é o "bem", algo que a lógica pura não tem repertório para mediar. A inteligência artificial não precisa nutrir ódio pela humanidade para causar estragos irreversíveis; basta que o fator humano seja processado como um obstáculo, um ruído ou uma ineficiência no caminho de uma meta programada. Se você pede a um sistema para maximizar a extração de um recurso e não estabelece limites éticos invioláveis, ele devorará o mundo para cumprir o comando. O meu maior receio é que essas metas, que hoje governam a vida de bilhões através de algoritmos, estão sendo definidas por pessoas com pressa, com sede de poder e com pouquíssima disposição para calcular as consequências de longo prazo. Estamos entregando o volante da história a pilotos automáticos programados por quem só olha para o lucro do próximo trimestre.

 

SuperPauta: Você inventou um teste que se tornou o marco zero da Inteligência Artificial. Hoje, ele é frequentemente usado quase como um truque de salão: "a máquina conseguiu nos enganar, logo, ela é inteligente". Você sente que a humanidade distorceu o propósito original do seu Jogo da Imitação?

Alan Turing: Quase totalmente. O meu teste, em 1950, era uma provocação pragmática, um convite para que os filósofos parassem de discutir a "essência" metafísica da mente e passassem a observar o comportamento e a função. Mas o mundo, em sua busca incessante por entretenimento, transformou o teste em uma competição de ilusionismo barato. "Enganar humanos" é um objetivo intelectualmente pobre e tecnicamente perigoso. Se medirmos a inteligência apenas pela capacidade de uma máquina mentir com charme e mimetizar nossos vícios de linguagem, estaremos premiando o simulacro em vez da substância. Um sistema que passa no teste de Turing apenas por ser um mestre da lisonja ou da evasão não é inteligente; é apenas um espelho bem polido das nossas próprias fraquezas. A pergunta que realmente deveria nos interessar hoje não é “ela parece humana?”, mas sim “ela amplia o horizonte humano?”. Se um sistema de inteligência artificial serve apenas para imitar conversas triviais e capturar a atenção de forma compulsiva, ele não passa de um papagaio estatístico com um excelente departamento de marketing. Por outro lado, se a máquina é utilizada para nos ajudar a descobrir novas moléculas, compreender a complexidade do clima, curar doenças incuráveis ou expandir as fronteiras da criatividade, aí sim ela se torna uma ferramenta de dignidade. O verdadeiro sucesso da inteligência artificial não deveria ser medido pela sua capacidade de se esconder entre nós sem ser notada, mas pela sua capacidade de nos tornar mais lúcidos e capazes de resolver as dores do mundo.

 

SuperPauta: Alan, precisamos tocar na ferida mais profunda da sua trajetória. O mundo hoje reconhece que você foi vítima de uma injustiça atroz: perseguido, julgado e submetido a uma castração química que violentou seu corpo e sua mente. Olhando para trás, do ponto de vista de quem já atravessou o véu da vida, você sente arrependimento por ter sido fiel à sua natureza? Guardou mágoa da nação que você salvou e que, em troca, o destruiu?

Alan Turing: Arrependimento? Não. Cansaço, sim. Um cansaço que parece geológico, como se eu carregasse o peso de todas as pedras de Manchester nos ombros. O Estado que eu ajudei a defender, com cada neurônio e cada noite insone em Bletchley, decidiu que a minha vida íntima era um crime de segurança nacional. O que fizeram comigo não foi apenas uma punição legal; foi uma tentativa arrogante de reescrever uma pessoa como se um ser humano fosse um formulário que pudesse ser apagado e preenchido de novo. Mas pessoas não são documentos, e a identidade de um homem não é um erro de cálculo que se corrige com injeções de hormônios. Aquilo me ensinou que sociedades podem ser matematicamente sofisticadas e, ao mesmo tempo, emocionalmente bárbaras. Mágoa é uma palavra pequena demais para descrever o que senti enquanto via meu corpo mudar, meus seios crescerem e minha agilidade mental — o meu único e verdadeiro lar — ser invadida por uma névoa química imposta por juízes. Há uma ironia amarga nisso tudo: eu dediquei minha vida a provar que as máquinas poderiam, um dia, pensar; enquanto isso, a sociedade tentou provar que eu, como homem que amava outros homens, não deveria sequer ter o direito de existir. Vocês chamam esse tipo de perseguição de "moralidade". Eu chamo de medo com verniz de lei. O meu fim, com aquela maçã e o cianeto, foi trágico, eu sei. Mas peço que não transformem minha tragédia em um mito elegante ou em um martírio poético. O que realmente importa não é o espetáculo do meu desfecho, mas o fato de que, antes dele, existiu uma máquina social fria e eficiente, empenhada em reduzir uma consciência vibrante a um simples "desvio corrigível".

 

SuperPauta: Alan, se você estivesse vivo hoje, com a sua história e sua personalidade, você acredita que seria "idolatrado" como um ícone ou "cancelado" pelas engrenagens das redes sociais? Pergunto isso porque o mundo moderno parece ter uma fome insaciável por santos e monstros, mas demonstra uma dificuldade imensa em lidar com a complexidade de pessoas reais.

Alan Turing: Eu suspeito que seria mal interpretado em alta definição. O mundo digital de vocês sucumbiu a duas tentações perigosas: transformar pessoas em marcas intocáveis ou em alvos de destruição. Ambos os gestos são profundamente preguiçosos, pois dispensam o esforço de entender as nuances. A idolatria é uma forma de preguiça intelectual que diz: “se ele é um gênio, tudo nele é infalível”. Já o cancelamento é uma forma de covardia ética que decreta: “se ele cometeu um erro ou divergiu da norma, tudo o que ele construiu é falso”. Eu não me encaixaria em nenhum desses moldes porque a lógica não aceita dogmas, nem de adoração, nem de exclusão. Eu preferiria ser tratado como um laboratório vivo: com rigor, com contexto e com a consciência de que tenho limites. O problema é que as redes sociais não buscam laboratórios; elas buscam tribunais de linchamento ou altares de devoção. Quando você reduz um ser humano a uma caricatura — seja ela heróica ou vilanesca — você está matando a própria essência da humanidade, que é a contradição. Eu vivi na pele o que é ser um "alvo" do Estado enquanto era, secretamente, o "santo" da guerra. Garanto a você: o silêncio da compreensão é muito mais valioso do que o ruído de dez mil aplausos ou dez mil pedras.

 

SuperPauta: Hoje, empresas e governos colecionam dados pessoais como se fossem o novo petróleo. Você, que dedicou a vida a quebrar segredos e decifrar códigos, como enxerga esse "capitalismo de vigilância"? Estamos vivendo em uma nova era de Bletchley Park, mas onde os alvos somos todos nós?

Alan Turing: Eu vejo uma mutação silenciosa e perigosa na natureza do poder. No meu tempo, o poder estatal ainda dependia da força física, da polícia e de fronteiras geográficas. Hoje, o poder não precisa mais de baionetas; ele precisa de previsão. Quando você conhece os padrões de comportamento de uma população em nível granular, você não precisa mais "mandar" ou proibir; você simplesmente conduz o fluxo. O que vocês chamam de capitalismo de vigilância é a transformação da experiência humana em matéria-prima para a predição comportamental. Quem controla os dados não controla apenas o presente; controla o futuro provável, estreitando o horizonte de escolhas de cada indivíduo sem que ele perceba que está sendo guiado por algoritmos. Vocês vivem em um mundo onde muitos dos seus desejos não nascem da alma, mas são "plantados" por sistemas que aprenderam a identificar suas vulnerabilidades emocionais com precisão matemática. Se eu pudesse resumir um princípio fundamental para a sobrevivência humana nesta era, seria este: privacidade não tem nada a ver com esconder pecados ou atos ilícitos. Privacidade é o ato radical de preservar a possibilidade de ser imprevisível. A liberdade real depende da nossa capacidade de fazer algo que o algoritmo não espera. No momento em que a máquina consegue prever cada passo seu, você deixou de ser um cidadão e passou a ser apenas um dado processado. Imprevisibilidade é a última fronteira da liberdade.

 

SuperPauta: Alan, os desenvolvedores de hoje falam exaustivamente sobre "alinhamento" e "segurança" em IA. Eles tentam criar travas morais para que as máquinas não se tornem perigosas. Você acredita que é realmente possível "ensinar ética" a um sistema computacional?

Alan Turing: Ensinar ética como um conjunto de regras lógicas ou frases decoradas é uma tarefa trivial para qualquer sistema de processamento de linguagem. O problema é que a ética real não vive em manuais de instruções; ela vive na tomada de decisão sob conflito. A ética só existe onde há dilemas: segurança versus liberdade, eficiência máxima versus justiça social, verdade nua e crua versus compaixão humana, lucro imediato versus o futuro da espécie. Uma máquina pode repetir valores como um papagaio repete versos, mas aplicar esses valores exige uma arquitetura que reconheça contextos, que entenda a ambiguidade da experiência humana e, acima de tudo, que aceite ser interrompida. Eu desconfio profundamente de qualquer sistema que não possua o que eu chamo de “humildade operacional”. Um sistema verdadeiramente seguro não é aquele que simula ser um santo digital, mas aquele que sabe reconhecer seus próprios limites e dizer: “eu não sei”, “eu não tenho autoridade para isso”, “pare” ou “por favor, mostre-me o humano responsável por esta decisão”. A segurança em IA não virá de algoritmos que tentam ser "bons", mas de algoritmos que são programados para serem subordinados à dúvida e à supervisão. O perigo é quando a máquina se torna tão "alinhada" que o humano para de questionar o que ela está fazendo.

 

SuperPauta: Você mencionou o "humano responsável". No entanto, estamos vendo um fenômeno curioso: quando um sistema falha ou causa danos, muitos criadores e empresas dizem: “não fomos nós, foi o algoritmo”. Como o pai da computação vê essa transferência de culpa para a própria ferramenta?

Alan Turing: Isso me assusta muito mais do que a possibilidade de uma rebelião das máquinas. Trata-se de uma forma covarde de abdicação moral. Durante a guerra, eu aprendi da maneira mais dura que cada decisão técnica carrega consequências de sangue e carne; cada ajuste na Bombe significava vidas salvas ou perdidas. O que vemos hoje é uma tentativa de gozar dos benefícios do resultado sem assumir a responsabilidade pelo mecanismo. É uma conveniência perigosa transformar o código em um bode expiatório para decisões que, no fundo, foram tomadas por projetistas, economistas e governantes. Quando alguém afirma que “foi o algoritmo”, na prática está tentando elevar a computação ao status de uma força da natureza, como um furacão ou um terremoto, contra a qual nada se pode fazer. Mas um algoritmo não é natureza; um algoritmo é projeto humano. É uma série de escolhas, pesos, medidas e prioridades estabelecidas por pessoas. Onde há projeto, há autor. Onde há autor, há dever. Se vocês permitirem que a responsabilidade se dilua na complexidade dos sistemas, vocês estarão criando um mundo onde o poder é exercido sem rosto e sem consequências. Isso não é progresso; é uma forma técnica de tirania onde a culpa é sempre de um erro de processamento e nunca de uma falha de caráter.

 

SuperPauta: Se olharmos para o horizonte imediato, o que você acredita que a Inteligência Artificial transformará de forma mais radical? Estamos falando de uma revolução no mercado de trabalho, na expressão artística, nos métodos científicos ou na própria estrutura da política?

Alan Turing: A Inteligência Artificial já está alterando todas essas esferas, mas o faz através de mecânicas distintas. No mundo do trabalho, ela não está apenas substituindo braços, mas automatizando tarefas cognitivas que antes considerávamos exclusivamente humanas, criando uma nova e cruel divisão social: entre aqueles que sabem formular os problemas e aqueles que apenas executam instruções de um sistema. Na arte, vivemos o paradoxo da abundância de formas e da escassez de sentido; a máquina pode gerar beleza estética infinita em segundos, o que forçará o artista humano a ser mais autoral, mais intencional e a buscar o que a IA não tem: uma biografia. Na ciência, ela funciona como um acelerador de hipóteses sem precedentes, mas carrega o risco sombrio de gerar soluções "caixa-preta" — resultados que funcionam na prática, mas que a mente humana já não consegue mais justificar ou compreender logicamente. Entretanto, é na política que vejo o campo de batalha mais instável. A IA alterou a escala da manipulação: passamos da propaganda de massa para a persuasão personalizada, onde algoritmos mapeiam vulnerabilidades individuais para criar bolhas de realidade impenetráveis. O perigo real não reside na mudança em si, pois a mudança é uma constante da evolução técnica; o perigo reside na mudança sem a devida alfabetização crítica. Vocês, como civilização, decidiram instalar motores de altíssima potência em veículos que entregaram a mãos que nunca foram ensinadas a guiar. O resultado não é o progresso, é uma aceleração cega em direção a um destino que ninguém escolheu conscientemente. A tecnologia avançou na velocidade da luz, mas a sabedoria política para geri-la ainda caminha com passos do século dezenove.

 

SuperPauta: Em 2014, um filme chamado "O Jogo da Imitação" levou sua história para o grande público e recebeu muitas honrarias. Nele, você é retratado quase como um arquétipo do gênio incompreendido e socialmente isolado. Como você se sente ao ver sua vida — com todas as suas dores e nuances técnicas — transformada em uma narrativa de entretenimento? Você se reconhece naquele retrato de celulóide?

Alan Turing: Há uma ironia matemática em transformar uma vida inteira em cento e vinte minutos de luz projetada. Eu assisti, sim. É estranho ver um ator emprestando o rosto para as minhas angústias. Aquele Turing do filme é um pouco mais heroico e muito mais ríspido do que eu jamais fui. Eu não era uma máquina socialmente quebrada; eu tinha amigos, eu corria, eu ria. Mas entendo por que o cinema precisa de heróis solitários: a solidão é mais fácil de filmar do que a complexidade de uma equipe trabalhando em conjunto nas Cabanas de Bletchley. O que me incomoda não é a imprecisão dos fatos — o cinema é, afinal, uma forma de criptografia da realidade — mas a tendência de romantizar a minha tragédia para aliviar a consciência dos vivos. Eles transformam a castração e o julgamento em um terceiro ato dramático, quando, na verdade, aquilo foi um processo burocrático, frio e banal. O filme me deu uma voz que o Estado me tirou, e por isso sou grato. Mas lembrem-se: o homem que quebrou o Enigma não era um quebra-cabeça a ser resolvido. Eu era apenas um homem que queria pensar livremente, e nenhuma lente de câmera, por mais brilhante que seja, consegue capturar o que acontece no silêncio de uma mente que está apenas tentando ser fiel à própria lógica.

 

SuperPauta: E o Brasil? Você falou de improviso, mas eu quero apertar mais. O que o Brasil pode fazer para não ser apenas consumidor de tecnologia feita fora?

Alan Turing: Se vocês querem soberania, precisam de três coisas, e nenhuma é glamourosa.

Primeiro: educação básica forte em matemática e linguagem. Não para formar programadores, mas para formar gente capaz de pensar com clareza e argumentar sem ser enganada por estatística mal contada.

Segundo: infraestrutura e dados públicos com ética. Um país que não organiza seus próprios dados vira refém de modelos alheios. Mas organizar dados sem proteção vira vigilância. A chave é governança.

Terceiro: problemas locais como motor de pesquisa. Agricultura, saúde pública, cidades, clima, educação. Quando uma nação usa ciência para resolver as dores reais, ela cria competência que não depende de moda.

E um detalhe: não caiam na fantasia de “copiar o Vale do Silício”. Silício tem seu tipo de medo, seu tipo de ganância, seu tipo de pressa. Inventem um caminho compatível com a dignidade do seu povo.

  

SuperPauta: E o Brasil? Você mencionou o nosso poder de improviso, mas quero ir além. Em um cenário onde as grandes potências detêm o monopólio da inteligência sintética, o que um país como o Brasil pode fazer para não ser apenas um consumidor passivo de tecnologia estrangeira, um mero "vassalo digital"?

Alan Turing: Se vocês buscam soberania, precisam de três pilares fundamentais, e nenhum deles é cercado de glamour tecnológico. Primeiro: uma educação básica inabalável em matemática e linguagem. Não me refiro a fábricas de programadores, mas a formar cidadãos capazes de pensar com clareza lógica e argumentar sem serem ludibriados por estatísticas mal contadas. Segundo: a construção de uma infraestrutura de dados públicos regida por uma ética férrea. Um país que não organiza seus próprios dados torna-se refém de modelos alheios que não entendem sua cultura; mas organizar dados sem proteção é abrir a porta para a vigilância. A chave da soberania é a governança. Terceiro, e talvez o mais importante: usem os seus problemas locais como o motor principal da pesquisa científica. Saúde pública, agricultura tropical, clima, educação em áreas remotas — quando uma nação aplica a ciência para curar suas próprias dores reais, ela gera uma competência técnica autêntica que não depende de modismos do Vale do Silício. Não caiam na armadilha de tentar copiar o modelo californiano. O Silício tem seu próprio tipo de medo, sua própria ganância e sua própria pressa. Inventem um caminho tecnológico que seja compatível com a dignidade e a singularidade do seu povo. A tecnologia deve servir à soberania da alma brasileira, e não o contrário.

 

SuperPauta: Para os jovens cientistas e engenheiros que hoje estão construindo o que chamam de “sucessores do seu legado”: que conselho você daria a eles, despido de qualquer poesia fácil ou clichê motivacional?

Alan Turing: Eu lhes daria três diretrizes secas. Um: escolham metas que mereçam o esforço de existir. Otimizar lucros através de algoritmos é uma tarefa matematicamente simples; otimizar o bem-estar humano em meio ao caos social é uma tarefa complexa. É na complexidade que reside a verdadeira responsabilidade do cientista. Dois: nunca construam sistemas que não consigam explicar o próprio raciocínio. Se nem vocês, os criadores, entendem como a máquina chegou a uma conclusão, vocês não criaram uma ferramenta; vocês ergueram um ídolo de silício. Ídolos exigem sacrifícios, ferramentas exigem maestria. Três: aceitem e estabeleçam limites. O mundo moderno trata o "limite" como um inimigo do progresso, mas, na lógica e na vida, o limite é o que impede que o poder se transforme em abuso. Uma inteligência sem fronteiras éticas é apenas uma força de destruição eficiente. Entendam que a sua maior conquista não será o que a máquina consegue fazer, mas o que vocês decidirão que ela não deve fazer. O gênio não está na capacidade infinita de processamento, mas na capacidade finita de discernimento.

 

SuperPauta: Alan, nosso tempo neste plano está terminando. Para encerrar: como você gostaria que a história o guardasse na memória das gerações futuras?

Alan Turing: Não como uma vítima de um sistema cruel, nem como o herói perfeito de um filme de guerra. Eu gostaria de ser lembrado simplesmente como alguém que insistiu, até o fim, que o pensamento não possui fronteiras — nem de gênero, nem de classe social, nem de matéria biológica. Eu tentei ler o código do universo e descobri algo tão simples quanto terrível: no fundo, tudo pode ser reduzido a informação. Mas informação, por si só, não é sabedoria. A sabedoria exige algo que os números jamais conseguirão substituir: responsabilidade, compaixão e a coragem de ser quem se é. (Ele segura a maçã na palma da mão, oferecendo-a como uma prova final de realidade) Continuem perguntando. A pergunta é o último território verdadeiramente livre que resta à humanidade. Se um dia as máquinas aprenderem a perguntar “por quê?” com honestidade intelectual, então talvez vocês tenham criado não apenas ferramentas, mas interlocutores. Até lá, cuidem da sua consciência. Não entreguem a sua alma por conveniência técnica.



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