Encontros Impossíveis
O Tique-Taque do Tempo
A Pequena Notável entre o brilho de Hollywood e a saudade da Lapa: uma conversa sobre o peso do turbante e a alma que ninguém americanizou.
"Disseram
que eu voltei americanizada, mas eu sempre fui a mesma. O meu samba é o mesmo,
a minha alegria é a mesma, e a minha brasilidade está em tudo o que faço"
— Carmen Miranda
O ambiente é uma penumbra luxuosa, onde o veludo de
Beverly Hills se mistura ao cheiro de maresia da Praia da Urca. Ela está sentada
em uma poltrona larga, parecendo ainda menor sem os saltos de vinte
centímetros, mas sua presença corta o ar como um solo de flauta. Maria do Carmo
não usa frutas na cabeça hoje; veste um robe de seda simples, e o olhar, livre
dos cílios postiços pesados, é de uma lucidez que atravessa décadas. É a mulher
que sustentou um império com os ombros, que virou o símbolo de um país inteiro
enquanto lutava para não se perder de si mesma entre comprimidos para dormir e
aplausos para acordar.
Neste encontro, desarmamos o ícone para ouvir a
mulher em uma travessia que começa na descoberta do seu magnetismo entre os
chapéus da Rua do Ouvidor e mergulha na mágoa profunda daquela noite de
silêncio no Cassino da Urca. Caminhamos pelos corredores de Hollywood para entender
o laboratório de estereótipos que a aprisionou em uma caricatura, revelando o
cansaço de ser uma vitrine global e o legado de uma voz que, muito além das
plataformas, sobreviveu a todas as críticas para se tornar a própria imagem da
nossa identidade.
Carmen Miranda: (Sorri com
os olhos, balançando levemente a cabeça) Ah, meu filho... o aplauso é um vício,
o rádio é o trabalho, mas o que me traz de volta mesmo é o som do pandeiro no
sereno. Aquele som seco, de couro esticado, que a gente ouvia nas madrugadas do
Rio. Ele tem o ritmo do meu coração. O aplauso alimenta o ego, mas o pandeiro
alimenta a alma da portuguesa mais brasileira que já pisou nesse mundo. Sabe,
eu cheguei aqui no colo da minha mãe, num navio que parecia uma casca de noz no
meio daquele mar imenso que separa o Minho do Rio de Janeiro. Eu era apenas um
"tico" de gente, com dez meses de vida, vindo de uma aldeia de pedra
em Portugal para esse sol que chega a arder na pele. Às vezes eu penso que o
balanço daquele navio, o som das ondas batendo no casco, foi o meu primeiro
metrônomo. Eu já cheguei com o ritmo da travessia nas veias. Eu sou fruto dessa
mistura: a disciplina e o fado de Portugal, mas com o tempero e a malandragem
que só esse solo brasileiro consegue dar. Quando eu ouço um pandeiro hoje,
parece que ele está chamando tanto a Maria que nasceu lá, quanto a Carmen que
renasceu aqui. É o som que diz que, apesar de tudo, eu estou em casa.
SuperPauta: Se este estúdio impossível fosse uma esquina do Rio, qual você escolheria para encostar o corpo e começar a nossa conversa?
Carmen Miranda: Tinha que
ser na esquina da Rua do Ouvidor com a Avenida, que é como as pessoas chamavam
a Avenida Rio Branco, que havia deixado de ser Avenida Central há pouco tempo.
Ali onde eu vendia chapéus e via a vida passar depressa. Ali eu era apenas a
Maria do Carmo, uma menina com a cabeça cheia de sonhos e as mãos ágeis. Se a
gente começar por ali, você vai entender que tudo o que veio depois — os
milhões, os filmes, as frutas — foi só um chapéu mais enfeitado que eu resolvi
usar.
SuperPauta: Quando você ouve alguém dizer “Carmen Miranda”, sente que estão chamando
você ou chamando um figurino?
Carmen Miranda: (Leva a mão
ao peito, pensativa) É uma pergunta difícil, porque a Carmen acabou virando a
minha pele de fora. Por muito tempo, se eu saísse de casa sem a maquiagem, sem
aquele traço forte nos lábios e as sobrancelhas desenhadas, eu me sentia nua.
Era como se a Maria do Carmo fosse um fantasma que só existia para a família, e
a Carmen fosse a pessoa real para o resto do mundo. Hollywood criou uma boneca
de engrenagem, e eu tive que aprender a morar dentro dela. Mas com o tempo, o
figurino ficou tão pesado... (faz um gesto de peso nos ombros). Aquelas
pulseiras de ouro não eram só enfeite, elas faziam barulho para eu nunca
esquecer que eu tinha um papel a cumprir. Hoje, aqui, quando você diz meu nome,
eu sinto que estamos chamando a mulher que sobreviveu ao figurino. Mas não se
engane: eu amava aquele brilho. Eu só queria que tivessem amado o que estava
por baixo também.
SuperPauta: Você foi a “Pequena Notável”. O que era mais pesado: o “pequena” ou o
“notável”?
Carmen Miranda: (Risos) O
"notável" exigia uma energia que o "pequena" nem sempre
tinha para dar! Ser notável é um exercício de 24 horas. Você não pode bocejar,
não pode estar triste, não pode estar feia. A "pequena" queria só um
prato de arroz com feijão e um colo de mãe, mas a "notável" tinha que
sacudir os balangandãs para a Fox. O peso da nota era maior que o meu tamanho.
SuperPauta: O cheiro da sua casa de infância era o quê: café fresco, gordura no
fogão, roupa passada ou chuva no quintal?
Carmen Miranda: (Fecha os
olhos e aspira o ar, como se estivesse lá) Era cheiro de café com pão
amanhecido e de goma de passar roupa. Minha mãe, Dona Maria, era uma santa de
paciência, sempre com o ferro quente na mão, alisando os lençóis enquanto o
rádio — quando finalmente tivemos um — trazia as vozes de fora. Mas tinha
também o cheiro da gordura de porco chiando na frigideira e, claro, o perfume
das gardênias que vinha dos quintais vizinhos. O Rio daquela época tinha uma
fragrância de esperança, entende? Mesmo na pobreza, a gente sentia que a vida
ia acontecer. A gente morava em sobrados, com muita gente, muita conversa alta,
muito riso. Era um cheiro de vida compartilhada. Sinto falta daquela
simplicidade, onde o maior luxo era uma lata de doce de goiaba com queijo de
Minas no final da tarde.
SuperPauta: Como a menina Maria do Carmo convencia os pais de que cantar não era “vida de malandro”? Naquela época, o preconceito era enorme.
Carmen Miranda: Rigoroso é
pouco, meu filho! Meu pai era um português de quatro costados, para quem mulher
de respeito só saía de casa para casar ou para a igreja. Para ele, o palco era
o caminho mais curto para a perdição. Eu tive que ser uma atriz antes mesmo de
ser cantora. Eu fingia que as músicas eram só "coisinhas de moça",
cantava em festas de caridade, na escola, sempre com aquele ar de quem não quer
nada. Mas por dentro eu era um vulcão! Quando o dinheiro começou a entrar, e eu
mostrei para ele que uma artista podia ganhar mais do que dez barbeiros juntos,
o coração dele amoleceu um pouquinho pelo lado prático. Mas ele nunca se
acostumou de verdade. Ele via a minha foto nos jornais e balançava a cabeça,
como se dissesse: "Onde foi que eu errei com essa pequena?". No
fundo, ele tinha medo do que o mundo faria comigo. E ele não estava errado,
estava?
SuperPauta: O sotaque português da sua família: você tentou esconder ou percebeu cedo
que ele era o seu tempero secreto?
Carmen Miranda: Eu nunca
escondi, mas eu dei um "banho de loja" nele. Misturei o "ora
pois" com a gíria do malandro da Lapa. Ficou aquela coisa cantada, que o
pessoal lá fora achava que era "exótico" e o pessoal aqui achava que
era "malandragem". No fundo, meu sotaque era uma ponte entre o Minho
e a Praça Onze.
SuperPauta: Qual foi a primeira vez que você percebeu que tinha o tal “It” — não como
vaidade, mas como um poder de presença?
Carmen Miranda: Foi na loja
de chapéus. Uma cliente entrou, eu botei um chapéu na cabeça dela, fiz um
gesto, cantei um versinho e ela comprou o chapéu mais caro sem nem pestanejar.
Ali eu vi que eu tinha um imã. Não era beleza — eu nunca me achei uma beldade
—, era uma eletricidade. Se eu entrasse num quarto, o quarto virava meu.
SuperPauta: Os chapéus que você fazia na Rua do Ouvidor tinham
o quê que os outros não tinham? Foi ali que você aprendeu a moldar a sua
própria imagem?
Carmen Miranda: Eu não vendia apenas feltro e
palha; eu vendia "pose". Uma cliente entrava na loja desanimada, e eu
dizia: "Dona fulana, experimente esse aqui, mas use assim, meio de lado,
com o olhar de quem manda no marido". Eu percebi cedo que a moda é uma
armadura. Eu pegava um pedacinho de fita, uma pluma barata, e dava um nó que
mudava o rosto da pessoa. Foi na loja da Madame Guimarães que eu entendi que a
estética é um poder. Se você se veste como uma rainha, as pessoas te tratam
como tal. Aqueles turbantes que o mundo inteiro copiou depois, eles nasceram
ali, naquela vontade de pegar o que é simples e transformar em algo notável. Eu
já estava "desenhando" a Carmen Miranda enquanto limpava o balcão da
loja.
SuperPauta: “Taí” foi o estouro que mudou tudo. O que foi mais
assustador naquele momento: o sucesso rápido ou a sensação de que agora você
estava sendo vigiada por milhares de olhos?
Carmen Miranda: O sucesso é um susto, meu filho.
Num dia eu era a Maria que pegava bonde, no outro eu não podia mais andar na
rua sem que me arrancassem um pedaço do vestido. "Taí" foi como um
vendaval. Eu gravava um disco e, antes da cera esfriar, já estava tocando em
todas as esquinas. O que mais me assustou foi perceber que eu não me pertencia
mais. O público cria uma imagem de você e você fica escrava de ser aquela
pessoa 24 horas por dia. Se eu estava triste, tinha que sorrir. Se eu estava
cansada, tinha que sambar. Eu virei propriedade do Brasil antes de fazer vinte
anos. Era um amor imenso, mas um amor que sufocava, como um abraço apertado
demais que não deixa a gente respirar.
SuperPauta: Noel Rosa e Assis Valente. Dois gênios, duas visões sobre você. O Noel
via a sua alma, mas o Assis... ele parecia escrever para a sua vertigem, para a
sua pressa de viver, não?
Carmen Miranda: (O olhar fica úmido) O Noel... ah, o Noel era o cronista da alma. Ele
via que por trás da minha "bossa", tinha uma compreensão da tristeza
suburbana. Ele me deu músicas que eram como conversas de portão. Já o Assis...
o Assis era o meu espelho mais perigoso. Ele escrevia aquela alegria explosiva,
"Brasil Pandeiro", "E o Mundo Não se Acabou", mas era uma
alegria que parecia estar sempre na beira de um abismo. A gente se entendia no
desespero. O Assis queria que o Brasil fosse grande, colorido, pulsante, porque
por dentro dele era tudo muito escuro. Eu cantava a luz dele para ele não se
apagar. Quando eu cantava Assis, eu sentia que estava equilibrando um prato de
porcelana num fio de arame. Era uma vertigem maravilhosa e terrível ao mesmo
tempo.
SuperPauta: Qual foi o maior sacrifício para ser a “Rainha do Rádio”?
Carmen Miranda: Foi abdicar
do direito de ser triste. Uma rainha não pode chorar em público. Eu tinha que
estar sempre com o sorriso "número 4", aquele que mostra todos os
dentes. O sacrifício foi a minha espontaneidade. Eu virei uma máquina de
alegria, e máquinas não descansam.
SuperPauta: Carmen, vamos falar da sua imagem. Suas plataformas de vinte centímetros: eram apenas para compensar a altura física ou havia uma altura simbólica ali? O que você ganhava quando subia naqueles tamancos?
Carmen Miranda: (Ri,
olhando para os próprios pés agora descalços) Ah, meu filho, o salto era a
minha fortaleza! Imagine só: eu, com um metro e cinquenta e dois, entrando num
set de filmagem em Hollywood cercada de "girafas" loiras de um metro
e oitenta. Se eu ficasse no chão, eu desaparecia no tapete! A plataforma me
dava o pedestal que o destino não me deu no berço. Mas não era só altura, era
"poder". Quando eu subia naqueles sapatos, meu quadril mudava de lugar,
o meu centro de gravidade virava outro e o samba saía mais
"invocado". Era como se eu dissesse ao mundo: "Olhem para cima,
porque a pequena aqui é gigante!". Mas o preço... ah, os juros o corpo
cobrou depois. Meus pés viviam em carne viva, e minha coluna, coitada, era um
tique-taque de dor constante. Eu era uma gigante de gesso que não podia
tropeçar.
SuperPauta: E o turbante com frutas? Foi uma ideia sua, uma intuição de momento ou
uma estratégia calculada para vender uma "exuberância" que o mundo
queria comprar?
Carmen Miranda: Foi um "estalo" de quem conhece o povo. Eu vi as baianas de
verdade, as vendedoras de acarajé com seus tabuleiros na cabeça, e vi ali uma
nobreza que nenhuma rainha da Europa tinha. O turbante nasceu de um amor
profundo por essa estética negra, mas eu, como boa chapeleira que era, resolvi
"temperar". Botei as frutas, as flores, as lantejoulas... virou uma
arquitetura! O segredo de engenharia era o equilíbrio; eu tinha que mexer o
corpo todo, mas o pescoço ficava firme como uma coluna de mármore. Hollywood
adorou porque eles queriam o "exótico", o colorido, a festa eterna. O
que começou como uma homenagem virou o meu uniforme de guerra. Se eu tirasse o
turbante, parecia que eu tirava a minha luz. Eu virei a "mulher da
quitanda" mais cara do mundo, mas por dentro, às vezes, eu só queria
desamarrar aquele pano e deixar o cabelo solto ao vento da Urca.
SuperPauta: O que as baianas de verdade te diziam com o olhar quando te viam
estilizada? E o que você respondia sem usar palavras?
Carmen Miranda: No começo,
eu sentia uma desconfiança. "O que essa branquinha está fazendo com as
nossas roupas?". Mas eu respondia com o respeito do meu samba. Eu não
estava zombando, eu estava exaltando. Eu dizia com os olhos: "Eu sou o
alto-falante de vocês". E quando eu comecei a levar o nome delas para o
mundo, elas me deram a benção. O meu turbante era uma homenagem, nunca uma
fantasia.
SuperPauta: No navio rumo aos Estados Unidos, em 1939, o que você levou na mala que
não era palpável? Havia mais medo do que promessa naquela travessia?
Carmen Miranda: Eu levei uma responsabilidade que pesava mais que todos os meus baús de
figurino. Eu levei o medo de ser uma "fogo de palha". Sabe, meu
filho, eu deixei o Rio sendo a Rainha, e estava indo para uma terra onde eu era
ninguém, apenas uma "novidade" latina. No navio, eu olhava para o mar
e pensava: "E se eles não entenderem o meu balanço? E se o meu inglês for
uma piada?". Eu levei uma promessa que fiz a mim mesma: eu não voltaria
derrotada. Lee Shubert me prometeu o mundo, mas eu sabia que americanos são
práticos — se você não dá lucro, eles te esquecem no dia seguinte. E quando eu
digo “Lee Shubert”, não é qualquer homem: era um grande produtor e dono de
teatros, um imperador da Broadway, daqueles que abrem portas, mas também fecham
sem avisar. Foi ele quem me viu no Brasil e me chamou para estrear lá em 1939,
no palco deles. Eu viajei com o coração apertado, rezando para que a minha
"bossa" fosse universal. Eu não estava indo apenas para cantar; eu
estava indo para provar que o Brasil não era só uma mancha no mapa.
SuperPauta: Aprender inglês “na marra” foi uma tortura? Qual foi a palavra ou expressão que mais doeu aprender e repetir para o público americano?
Carmen Miranda: (Faz uma
careta engraçada) O inglês era um bicho de sete cabeças! Mas o que doeu não foi
a gramática, foi o papel que me colocaram para fazer. Eles queriam que eu
falasse errado de propósito. Eles achavam "cute" (bonitinho) quando
eu trocava o "V" pelo "B" ou quando eu não conseguia
pronunciar frases longas. A expressão que mais me doeu foi o "I can't say
it". Os roteiristas escreviam isso para eu dizer toda vez que havia uma
palavra difícil. Eu me sentia uma tonta, uma boneca de ventríloquo. Eu
estudava, eu me esforçava para falar direito, mas o diretor dizia: "Não,
Carmen, fale como uma latina confusa". Eles me pagavam milhões para eu ser
menos inteligente do que eu era. Foi uma luta constante entre a minha dignidade
e o contrato da Fox.
SuperPauta: O dinheiro compensava a saudade do feijão com arroz ou a saudade era uma
conta que o cachê de Hollywood nunca fechava?
Carmen Miranda: O dinheiro
comprava a mansão, mas a mansão era vazia. Eu mandava buscar café do Brasil,
mandava buscar disco de samba, mas o cheiro da rua eu não conseguia importar. O
cachê pagava as contas da minha família inteira, mas não pagava a minha solidão
de domingo à tarde.
SuperPauta: O silêncio do Cassino da Urca, quando você voltou em 1940, é uma das
cenas mais tristes da nossa história cultural. Onde aquela frieza do público
bateu mais forte em você?
Carmen Miranda: (A voz fica
mais baixa e grave) Bateu bem no meio do peito, onde mora a criança que quer
agrado. Eu entrei naquele palco com o coração saindo pela boca, louca para abraçar
o meu povo. E o que eu recebi? Um silêncio gelado, um olhar de julgamento.
Parecia que eu tinha cometido um crime por ter feito sucesso lá fora. A elite
sentada nas mesas me olhava como se eu fosse uma traidora, uma
"vendida". Eles disseram que eu voltei "americanizada"
porque eu botei umas palavras em inglês no meio do samba. Ora, eu estava apenas
vivendo a minha vida! Chorei tanto naquela noite que achei que meus olhos iam
secar. Foi ali que eu percebi que o Brasil é um pai que ama o filho, mas não
perdoa se o filho cresce e vai embora de casa. "Disseram que eu voltei
americanizada" foi o meu grito de defesa, mas a cicatriz nunca fechou de
verdade.
SuperPauta: Você acha que o Brasil tem esse hábito de amar o artista até ele
atravessar a fronteira e virar uma “ameaça”?
Carmen Miranda: O Brasil
ama o sucesso, mas tem pavor da autonomia. Quando você sai e brilha sozinha,
parece que você está dizendo que o Brasil é pequeno. E não é! Eu só queria
levar o Brasil na minha mala. Mas aqui, se você não sofre com o povo o tempo
todo, parece que você não é mais do povo. É uma cobrança cruel.
SuperPauta: Carmen, essa dor parece ter moldado a sua
resistência. Vamos continuar? Quero entrar agora nos bastidores mais sombrios e
naquela noite final em 1955.
Carmen Miranda: Vamos, meu filho. A verdade é um
remédio amargo, mas é o único que cura a saudade. Pode perguntar.
SuperPauta: Carmen, dizem que o sucesso é uma ilha cercada de gente, mas onde a gente
janta sozinha. É verdade que você sustentava uma legião de amigos e família?
Quando foi que você percebeu que o "amor", para muitos ao seu redor,
vinha com um boleto bancário anexado?
Carmen Miranda: (Solta um riso curto, sem muita alegria) Ah, meu filho... eu não era uma
mulher, eu era uma empresa! Uma multinacional de uma pessoa só. Eu amava a
minha família mais que tudo, e vindo da pobreza que viemos, meu maior prazer
era abrir a bolsa e dizer: "Pode escolher o que quiser". Comprei
casas, joias, paguei estudos, viagens... Mas o preço disso é que você deixa de
ser a filha, a irmã ou a amiga, e vira a "provedora". Eu sentia que
se eu parasse de balançar o pandeiro, a engrenagem de muita vida parava também.
Isso cria um peso nos ombros que turbante nenhum explica. Teve gente que só se
aproximava de mim para ver o que sobrava da mesa. O amor era verdadeiro, eu
quero acreditar que sim, mas ele era muito bem alimentado pelo meu talão de
cheques. No fim das contas, a solidão é você saber que, se a luz apagar, muita
gente vai embora procurar outro holofote que esteja aceso.
SuperPauta: Quando as luzes de Beverly Hills se apagavam e o silêncio tomava a sua mansão, qual era o seu medo mais feio? Aquele que você não contava nem para a sua mãe, Dona Maria?
Carmen Miranda: (Olha para as mãos, apertando os dedos) Era o medo de ser esquecida
estando viva. O medo de que, sem a maquiagem, sem o batom exagerado que
desenhava um sorriso que eu nem sempre sentia, eu não passasse de uma
portuguesa baixinha e comum. Eu olhava no espelho no camarim, depois de tirar
os cílios postiços que pesavam uma tonelada, e via uma mulher exausta, com
olheiras que nem o melhor pó de arroz de Hollywood escondia. Meu medo era que o
mundo descobrisse que a Carmen Miranda era um truque de mágica. E que, se o
truque parasse, ninguém ia querer saber da Maria do Carmo. Eu tinha pavor de
ser vista como "velha" ou "ultrapassada". Em Hollywood, se
você não é a novidade do verão, você é o lixo do inverno. Eu vivia fugindo
desse fantasma, correndo numa esteira que não parava nunca.
SuperPauta: E o Dave Sebastian? Foi o seu grande erro, o seu grande amor ou apenas um
mal-entendido que você aceitou para não ter que jantar sozinha em frente àquela
piscina enorme?
Carmen Miranda: (Suspira profundamente) O Dave foi o meu porto que acabou virando
tempestade. Eu queria um marido, entende? Queria uma casa que não fosse um
hotel, queria alguém para me dar o braço e dizer "vamos descansar".
Mas ele não entendia a minha alma. Ele era um homem de negócios, um americano
frio que via em mim o contrato, não a mulher. Ele tinha ciúmes do meu brilho,
mas não abria mão do meu dinheiro. Foi um casamento de aparências que me custou
muita lágrima. Eu me sentia presa. Eu, que sempre fui um pássaro que voava
alto, me vi numa gaiola onde o dono da chave não sabia nem assobiar um samba. Aceitei
o Dave porque o silêncio daquela casa em Beverly Hills era ensurdecedor. Eu
preferia uma briga alta a um silêncio vazio. Mas hoje, eu sei: é melhor estar
sozinha do que acompanhada por quem só ama a sua sombra. A Carmen foi minha sentença. Eu casei com o Dave buscando um refúgio,
mas ele também queria a Carmen, não a Maria. Eu queria alguém que me visse de
pijama, sem maquiagem, e dissesse: "Você é linda, Carminha". Mas todo
mundo queria a estrela. Ser mulher foi um luxo que eu não pude pagar.
SuperPauta: Falemos dos "socorros químicos", Carmen. Sem romantismo, só com
a verdade. Os remédios para acordar e os remédios para dormir... em que momento
a muleta virou uma armadilha?
Carmen Miranda: Começou de mansinho.
"Carmen, você tem que filmar às 5 da manhã, toma isso para
despertar". "Carmen, você está muito agitada, toma isso para
dormir". Hollywood é uma fábrica que não desliga a luz. Eu virei uma
escrava das pílulas coloridas. Tinha a pílula da alegria, a pílula do descanso,
a pílula da disposição... Eu não sabia mais o que era um sono natural ou um
despertar de verdade. Meu corpo virou um laboratório. Eu estava sempre
"elétrica" ou "apagada". Não tinha mais meio-termo. Os
médicos de estúdio receitavam como se fosse bala de hortelã. Foi uma armadilha
silenciosa. Eu achava que tinha o controle, mas o remédio é um patrão muito
cruel. Ele te dá a energia hoje, mas te cobra a vida com juros amanhã. E eu
paguei esses juros com o meu coração.
SuperPauta: Naquela noite de agosto de 1955, no programa de Jimmy Durante... você
sentiu que o seu corpo estava se despedindo? Quando você caiu de joelhos no
palco, após aquele número frenético, o que passou pela sua cabeça?
Carmen Miranda: (Fica em silêncio por um longo tempo, os olhos perdidos) Eu senti um
frio... um frio que não era do ar-condicionado do estúdio. Meu peito parecia um
tamborim sendo tocado por um mestre de bateria apressado demais. Quando eu caí,
minha primeira reação foi o brio. "Carmen, levanta, não estraga o
show!". Eu levantei, sorri, terminei o número... mas por dentro, eu já não
estava mais lá. Eu senti que a corda tinha esticado até o limite e arrebentado.
Quando cheguei em casa, naquela noite, e subi as escadas, cada degrau parecia
uma montanha. Eu deitei na minha cama, olhei para o teto e pensei: "Enfim,
silêncio". Não houve medo, sabe? Houve um alívio. O espetáculo tinha
acabado. A pequena notável finalmente podia fechar os olhos e não ter que
acordar para ser ninguém além de si mesma.
SuperPauta: O seu enterro parou o Rio. Meio milhão de pessoas cantando seus sambas pelas ruas. Você esperava que, depois de tanta briga e de ser chamada de "americanizada", o Brasil fosse te abraçar com tanto fervor na despedida?
Carmen Miranda: (Lágrimas brilham nos olhos) Eu não imaginava... eu morri achando que
eles ainda estavam zangados comigo. Quando eu vi lá de cima — ou de onde quer
que a gente olhe — aquela multidão, aquele mar de gente cantando "Adeus,
Batucada", eu chorei o que não tinha chorado em vida. Ali eu entendi que o
povo brasileiro perdoa tudo, menos a falta de amor. E eles sabiam que eu os
amava. Eles sabiam que cada sacolejo de ombro que eu dei na América foi para
dizer "olha como o meu povo é lindo". O Brasil me buscou de volta. Me
tiraram do chão frio de Los Angeles e me botaram no colo quente do Rio. Foi o
meu maior Carnaval. O mais triste e o mais bonito. Ali eu fiz as pazes com a
minha terra.
SuperPauta: Carmen, hoje o mundo é muito diferente. Cantoras brasileiras como a
Anitta tentam furar a mesma parede internacional que você atravessou há quase
90 anos. O que você diria para essas meninas que querem levar o Brasil na mala,
mas enfrentam um mercado que ainda gosta de rotular tudo o que vem do sul?
Carmen Miranda: (Endireita a postura, com um brilho de admiração) Eu olho para essas
moças e sinto uma vontade louca de dar um abraço em cada uma! Eu diria:
"Minha filha, não peça licença. Entre com o pé na porta, mas não deixe que
troquem a sua alma por um contrato". O mundo continua querendo nos
rotular, querendo que a gente seja apenas o "tempero", mas nós somos
o prato principal! O que eu fiz de sapatos e turbantes, elas fazem hoje com a
batida do funk, com a coragem de mostrar o corpo e a voz sem medo. A parede
continua lá, mas elas têm ferramentas que eu não tive. O segredo é o mesmo da
minha época: seja tão única que eles não consigam te ignorar. Mas cuidado com a
exaustão; o palco é um palco, a vida é outra coisa. Não deixem que a
"estrela" mate a mulher.
SuperPauta: O “It” que você tinha, aquela presença
magnética, hoje parece ter sido substituído pelos “likes” e pelos seguidores
nas redes sociais. Você acha que a tecnologia mudou a essência do artista ou o
brilho continua sendo o mesmo?
Carmen
Miranda: (Dá uma risada curta, mas
logo fica séria, olhando para o vazio) Ah, meu filho... eu vejo essa gente hoje
e parece que todo mundo carrega um pequeno Cassino da Urca no bolso, onde o
aplauso vem em forma de números. Mas veja bem: número no papel nunca foi
sinônimo de estrela no céu. Você pode ter milhões desses tais "seguidores"
e, ainda assim, quando entra num recinto, ninguém sentir um arrepio. O
"It" não é algo que se aperta num botão; é uma eletricidade, uma
voltagem que Deus coloca em algumas pessoas e que não precisa de fio nenhum
para acender. Sabe o que me assusta nesse tempo de vocês? É que não há mais
mistério. Hoje em dia, o artista mostra o que comeu no café, mostra a cama
desfeita, mostra até o bocejo. Na minha época, a gente guardava o segredo a
sete chaves para que, quando a cortina subisse, o público sentisse que estava
vendo um milagre, entende? Se eu tivesse essas ferramentas, talvez eu ficasse
tonta. Eu ia querer mostrar meus ensaios de madrugada, o passo a passo de um
turbante novo... mas o meu coração? Ah, esse ia continuar trancado num cofre de
platina. Esse brilho que vocês buscam na tela de um aparelhinho é uma luz fria.
O brilho que dura é aquele que vem da alma e que faz a pessoa lá na última fila
do teatro sentir que eu estou cantando só para ela. A tecnologia é um
alto-falante maravilhoso, mas se a voz não tiver alma, o que sobra é só
barulho.
SuperPauta: O Brasil de hoje é uma mistura frenética de
samba, funk, pop e eletrônico. Você sente que o país que você representou —
aquele Brasil de aquarela e pandeiro — ainda existe ou ele se transformou em
algo que você não reconhece?
Carmen
Miranda: Ele se transformou, e que
bom! O Brasil que não muda vira museu, e o nosso país é uma festa de rua. Eu
ouço essas batidas novas e sinto o mesmo "tique-taque" do meu tempo,
só que com outra roupagem. O samba é a raiz, mas a árvore cresceu e deu frutos
que eu nem imaginava. O Brasil de hoje é mais barulhento, mais misturado,
talvez mais sofrido também, mas a alegria continua sendo a nossa maior
rebeldia. Eu reconheço o Brasil em qualquer lugar onde alguém sorri apesar da
dor. Pode mudar o ritmo, pode mudar a gíria, mas o "molho" brasileiro
é eterno.
SuperPauta: Você se tornou um ícone absoluto para a
comunidade LGBTQIA+. O que você sente ao saber que a sua imagem deu a tantas
pessoas a coragem de serem extravagantes, de serem elas mesmas, em um mundo que
muitas vezes exige o cinza?
Carmen
Miranda: (Um sorriso terno e
genuíno surge em seu rosto) Isso é o que mais me emociona. Saber que a minha
"montação", o meu exagero, as minhas cores, serviram de escudo para
quem só queria ser livre. Eu sempre fui uma "excluída" de certa forma
— a portuguesa que não era de Portugal, a brasileira que não era do Brasil...
eu entendo o que é não caber num lugar só. Se o meu turbante ajudou alguém a
levantar a cabeça e dizer "eu existo e eu brilho", então valeu a pena
cada gota de suor naquele palco. A extravagância é uma forma de liberdade. Onde
houver uma drag queen se pintando, onde houver alguém querendo botar cor no
mundo, eu estarei lá, dando uma piscadinha de incentivo.
SuperPauta: O que você quer que o mundo entenda, de uma vez por todas: por trás de cada fruta, de cada lantejoula e de cada "I love you" de cinema, quem era a mulher que respirava ali embaixo?
Carmen Miranda: (Olha fixamente para o entrevistador, com uma serenidade absoluta) Havia uma mulher que trabalhava duro. Uma mulher que acordava cedo, que tinha medo de errar, que sustentava o mundo com um sorriso porque não podia decepcionar ninguém. Havia uma Maria do Carmo que amava o mar, que queria ter tido filhos, que gostava de conversar até o dia clarear e que nunca, nem por um segundo, deixou de se sentir aquela menina da Rua do Ouvidor. Por trás da Carmen Miranda, havia uma brasileira que deu a vida para que o mundo soubesse que nós temos um sol que não se apaga. Eu fui uma embaixadora da alegria, mas por dentro, eu era apenas uma saudade que cantava.
SuperPauta: Para fechar, sem slogan, Carmen: o que é que a
baiana tem que o mundo nunca vai conseguir copiar… porque não cabe em vitrine
nenhuma e não tem contrato que compre?
Carmen
Miranda: (Ela se levanta
lentamente, ajeita o robe de seda com a mesma elegância com que ajeitava o
turbante. Faz um gesto suave com as mãos, as unhas impecáveis, e sussurra) A
baiana tem a graça de quem cai e levanta sambando. O mundo pode copiar o
figurino, pode imitar o sotaque, pode até fabricar as frutas, mas ninguém
consegue copiar o balanço que a gente faz para desviar da tristeza. O que a
baiana tem é o "que de quem não tem nada, mas sente que tem tudo". É
o mistério de ser luz em meio à sombra. Isso não se vende, meu filho. Isso a
gente ganha de Deus quando nasce nesse chão verde e amarelo. (Ela manda um
beijo estalado para o ar, e a imagem começa a se dissipar suavemente). Até
logo, Brasil!









Nenhum comentário:
Postar um comentário