O homem por trás da peruca
“Claro que não sou engraçado naturalmente, não brinco com a vida nem com a morte. Só brinco em serviço” — Mauro Faccio Gonçalves
O
cenário não é um estúdio, nem um palco de auditório. É um jardim de fim de
tarde em Sete Lagoas. O ar tem cheiro de terra úmida, folha amassada e café
recém-coado. Não há peruca, não há o dente escurecido, não há a voz esganiçada
que o Brasil aprendeu a reconhecer antes mesmo de vê-lo entrar em cena. Sentado
numa cadeira de vime, Mauro Faccio Gonçalves recebe com a discrição de quem
nunca confiou muito no barulho. Fala baixo, com um sotaque mineiro sem afetação,
desses que não precisam se exibir para existir. Há gentileza, mas também
reserva. Não a reserva antipática, e sim a de quem levou uma vida inteira
protegendo um pedaço de si do apetite do mundo.
À
frente do país, ele foi Zacarias, o trapalhão infantil, terno, elétrico, de
pureza desajeitada. Mas ali, entre plantas, sombras longas e uma luz amarela
pousando devagar sobre as folhas, aparece o homem. O ex-bancário que largou uma
vida previsível para seguir o teatro, o rádio e a invenção. O artista técnico, meticuloso,
observador. O mineiro que fez o Brasil rir sem jamais entregar tudo de si.
Nesta
conversa, tentamos alcançar não só o personagem, mas o intervalo entre a peruca
e o espelho.





