quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Encontros Impossíveis: Santos Dumont

 Encontros Impossíveis
 

O Ícaro de colarinho alto

 

Em uma Paris suspensa entre séculos, Santos Dumont revisita a infância entre máquinas e nuvens, o teatro dos dirigíveis, a consagração do 14-Bis, a ética do voo público e a dor de ver o céu convertido em arma. Entre elegância, ciência e tristeza, ele responde ao que a História ainda sussurra.

 

Eu naveguei pelo ar quando o mundo dizia que isso era loucura. Mas a loucura maior foi o que os homens fizeram com o meu sonho” – Santos Dumont

  

O ambiente não é terreno. Estamos suspensos em uma plataforma de vime e madeira, semelhante à gôndola do seu dirigível Nº 9, a Baladeuse. Flutuamos suavemente sobre uma Paris atemporal. A Torre Eiffel brilha ao longe como um farol de ferro e memória. Há uma mesa posta, com cadeiras de pernas altíssimas, quase dois metros do chão, como ele gostava de oferecer em seus jantares para que os convidados “sentissem como é voar”. Alberto Santos Dumont está sentado em uma dessas cadeiras elevadas. Veste seu terno risca de giz, o chapéu Panamá levemente amassado e um colarinho alto que parece desenhado não apenas para a moda, mas para a construção de presença. Em certos homens, a elegância não é ornamento, é arquitetura emocional. Ele parece frágil, feito de vidro e nervos. No pulso, um relógio Cartier que parece menos objeto e mais símbolo: o tempo disciplinado para servir ao impossível. Ele sorri com timidez. É o sorriso de quem foi tratado como espetáculo, mas preferia ser apenas um homem que conversa com o vento.

Nesta entrevista, o “Petit Santôs” revisita o menino que aprendeu o idioma das máquinas ainda no universo rural do café, o jovem que transformou Paris em pista de ensaio e o adulto que escolheu a ciência à luz do dia. A disputa histórica com os Wright surge não como guerra de bandeiras, mas como debate sobre método, transparência e destino ético da invenção. O brilho do 14-Bis contrasta com a sombra das guerras. E a volta ao Brasil revela um Santos Dumont ferido no corpo e na esperança, tentando construir uma casa que obedecesse às regras da dignidade quando o próprio corpo já não obedecia às regras do comando. (Roberto Homem)

 


SuperPauta: Petit Santôs, o senhor atravessou a Belle Époque, viu o nascimento do voo moderno e também seus usos mais sombrios. Depois de tanto tempo, o céu ainda é sua casa emocional ou o senhor finalmente encontrou algum repouso em terra firme?

Santos Dumont: (Sorri, um sorriso que não chega aos olhos.) Mon ami, o céu nunca foi apenas um lugar. Era o único refúgio onde minha "estranheza" não importava. Na terra, eu era o "pequeno Santos", o homem dos tiques nervosos, o excêntrico. No ar, eu era apenas intelecto e coragem. Repouso? Não... a terra é muito barulhenta. O único repouso real foi quando meu coração parou de bater. Dizem que ele pesava muito, sabe? Talvez por isso a gravidade sempre tenha brigado tanto comigo.


SuperPauta: Seu avô, François Dumont, era um joalheiro francês que migrou para o Brasil. O senhor diria que herdou dele a obsessão pela precisão, enquanto de seu pai, Henrique, herdou a força para mover montanhas de café?

Santos Dumont: (Olha para as próprias mãos, finas e delicadas.) Você leu minha alma. Papai era força e ambição. Era o vapor, a locomotiva, a terra movida pela teimosia humana. Ele ensinava sem discurso: bastava vê-lo operar um império de máquinas e homens para entender o que significa construir o improvável no chão. Vovô François era a liturgia do detalhe. O brilho do milímetro. O silêncio do ajuste perfeito. Eu fui a soma dos dois: o motor e a joia, o impulso e a medida. Quando fui para Paris, não fui apenas por encantamento. Fui porque a França era, para mim, uma espécie de genealogia técnica. Eu precisava do laboratório europeu para dar corpo ao sonho latino que crescia dentro de mim desde a infância.

 

SuperPauta: No início do século XX, voar era um espanto coletivo, quase mágico. Hoje, o céu virou rota, pressa, logística e até tensão geopolítica. Quando o senhor olha para o céu agora, o que mudou mais: as nuvens ou o modo como a humanidade aprendeu a olhar para elas?

Santos Dumont: As nuvens continuam inocentes. O olhar humano é que envelheceu mal. No meu tempo, quando eu passava com um dirigível sobre Paris, as pessoas interrompiam a pressa. Tiravam o chapéu. Riam. Aplaudiam. Acreditavam que o céu era a promessa de uma espécie de gentileza futura. Hoje vocês olham para cima e veem horários, conexões, atrasos, ameaças. Transformaram o milagre em calendário.

 

SuperPauta: O silêncio das nuvens… o senhor sente falta dele?

Santos Dumont: Sinto falta da honestidade dele. O vento não finge. Ele empurra, ele avisa, ele ameaça, ele protege. Em uma cesta de vime, você aprende uma lição rara: a de que a natureza não precisa de palavras para ser mais clara que muitos homens.


SuperPauta: Se a sua vida tivesse um cheiro, qual seria?

Santos Dumont: O fundo seria café e terra quente de Cabangu. Mas a alma teria outro perfume: o da seda envernizada, do metal aquecido, do hidrogênio que escapa como uma respiração nervosa. E, sim, um leve traço de Paris. Não da Paris dos monumentos, mas da Paris das calçadas. A cidade que aceitava que um brasileiro pequeno pudesse ousar grande.

 

SuperPauta: O senhor foi um esteta da invenção. O que acha do nosso século em termos de elegância?

Santos Dumont: A elegância não é um luxo. É uma forma de respeito. Eu subia num balão de terno como quem entra numa catedral. Não por vaidade, mas por cerimônia com o momento. Hoje parece que confundiram conforto com descuido. A liberdade não exige abandono da forma. Ela só exige que a forma não vire prisão.

 

SuperPauta: O senhor nasceu em Cabangu e cresceu cercado pelo universo do café e das máquinas do seu pai. Há quem diga que o menino Alberto conversava mais com engrenagens do que com colegas. As máquinas eram mesmo a sua primeira linguagem afetiva?

Santos Dumont: Eu nasci em Cabangu, mas meu imaginário cresceu no universo do café e da ambição industrial do meu pai. As crianças podem ser cruéis com quem é quieto, com quem prefere observar o desenho do vento a disputar o barulho do pátio. As máquinas não zombavam de mim. Elas se explicavam. Eu consertava e observava porque, se eu pudesse compreender o mundo mecânico, talvez ninguém notasse o quanto eu ainda não compreendia o mundo íntimo.

 

SuperPauta: Seu pai, Henrique Dumont, foi um gigante do café e um entusiasta da modernidade. Depois do acidente que o deixou com limitações físicas, o senhor sentiu que precisava desafiar a gravidade também por ele?

Santos Dumont: A primeira herança foi o acesso às máquinas e à disciplina do trabalho. A segunda foi o exemplo de dignidade diante do corpo traído. Talvez eu quisesse vencer a gravidade que o prendeu. Talvez eu quisesse dizer a ele, com uma invenção: “o mundo não termina onde as pernas falham”. No ar, a doença não tem o mesmo poder sobre a imagem do homem.

 

SuperPauta: Júlio Verne povoou a imaginação de uma geração inteira com balões, viagens impossíveis e tecnologia como aventura. Em que medida a ficção ensinou ao senhor a transformar sonho em projeto?

Santos Dumont: Verne foi o meu primeiro aeródromo. A imaginação dele era organizada. Não era fantasia desleixada. Era fantasia com régua e bússola. Eu não queria só sonhar com balões. Eu queria saber de que tecido eles seriam feitos, como seria o motor, quanto pesaria o risco.

 

SuperPauta: Antes do avião, o senhor foi balonista e construtor de dirigíveis. Para o leitor entender melhor essa virada: qual é a diferença sensorial e filosófica entre ser levado pelo vento num balão e controlar o vento com um dirigível?

Santos Dumont: O balão esférico é silêncio e entrega. Você não voa; você é voado. É uma paz uterina. Você ouve os cães latindo lá embaixo, sente o cheiro do café nas casas. Mas eu não queria ser uma folha ao vento. Eu queria ser o vento. O dirigível, e depois o avião, trouxeram o barulho, a vibração, a fúria do motor. Foi o fim da paz, mas foi o início da liberdade. O progresso é sempre barulhento.

 

SuperPauta: Em sua casa, o senhor servia jantares em mesas e cadeiras de quase dois metros de altura. Isso era excentricidade ou pedagogia?

Santos Dumont: (Ri suavemente, ajeitando a gravata.) Os dois. Meus convidados subiam por escadas. Eles ficavam nervosos. Eu queria que sentissem, nem que fosse por uma hora, como era o meu mundo. Tirar o chão dos pés de uma pessoa muda a perspectiva dela. Lá de cima, os problemas parecem menores. E, confesso, eu me divertia vendo a aristocracia parisiense tentando manter a pose enquanto se equilibrava para tomar a sopa. A ciência às vezes precisa de teatro para treinar o futuro do público.

 

SuperPauta: Muitos biógrafos falam da sua elegância como marca pessoal e também como forma de presença num mundo de grandes industriais e engenheiros. O dândi Santos Dumont era apenas estilo ou também proteção emocional?

Santos Dumont: (Ajeita a gravata instintivamente.) A elegância é uma forma de polidez, mas sim... era também um disfarce. Eu tinha 1,52m de altura. Era um homem minúsculo num século de gigantes industriais. Eu precisava que olhassem para o meu chapéu, para o meu colarinho, para os meus balões... para qualquer lugar que não fosse a minha fragilidade. A elegância me dava uma moldura. E uma moldura protege o quadro do olhar invasivo.

 


SuperPauta: O senhor foi um dos primeiros inventores-celebridades globais. Como era lidar com a imprensa e com a curiosidade pública?

Santos Dumont: A imprensa tem duas asas. Uma celebra. A outra simplifica até o excesso. Quando eu voava, eu via jornalistas como testemunhas úteis. Eles ajudavam o público a acreditar na realidade do impossível. Mas a celebridade tem um preço que não aparece na fotografia. Ela transforma o homem em símbolo permanente. E símbolos não têm direito ao cansaço. Eu precisava ser impecável mesmo quando estava exausto. Ser elegante mesmo quando estava com medo. Havia dias em que eu sentia que a cidade amava mais o “Petit Santôs” do que o Alberto.

 

SuperPauta: O senhor se sentia deslocado na França?

Santos Dumont: Eu era um brasileiro com sotaque e bolso forte, o que já faz de alguém um personagem. Mas Paris gosta de personagens. Eu fui adotado pela cidade como se fosse um primo excêntrico, daqueles que ninguém entende completamente, mas que todos querem no jantar.

 

SuperPauta: A riqueza financiou o sonho ou ampliou a solidão?

Santos Dumont: Os dois. Eu não devia satisfações a investidores. Isso me deu liberdade. Mas também fez com que muitos se aproximassem do mito, não do homem. A autonomia tem seu preço emocional.

 

SuperPauta: O Prêmio Deutsch exigia contornar a Torre Eiffel e retornar em tempo determinado, diante de juízes e da imprensa. Naquele voo do Nº 6, o senhor sentiu mais medo ou mais senso de missão histórica?

Santos Dumont: Foi trabalho. A glória vem depois, quando o corpo já obedeceu à técnica. No instante do risco, você é apenas um funcionário da física.

 

SuperPauta: Em 1902, no acidente do dirigível Nº 5, o senhor ficou preso na fachada do Trocadero, diante de uma multidão. O que aquele episódio ensinou sobre os limites entre audácia e imprudência?

Santos Dumont: O som. Lembro do som da quilha de madeira se partindo como um osso. Crrrac! E depois, o silêncio do hidrogênio vazando. Eu fiquei pendurado, vendo os parisienses lá embaixo. Não vi a vida passar diante dos olhos; vi apenas a falha técnica. Pensei: "Deveria ter reforçado a válvula". Foi ali que a infância acabou. O céu me disse: "Eu sou lindo, Alberto, mas eu posso te matar se você me desrespeitar". Ali eu entendi que o céu tem dentes. Fiquei suspenso entre a vida e a madeira rangendo. Mas os parisienses tinham um humor quase insolente com o perigo. Transformaram meu acidente num drama com plateia e até gentileza. A cidade me ensinou a não ter vergonha de errar em público, desde que eu voltasse melhor.

 

SuperPauta: Por que o senhor pintava balões de amarelo e usava seda envernizada?

Santos Dumont: Porque a beleza também é parte da engenharia. Uma máquina bonita conquista aliados. E eu precisava conquistar o mundo não só pelo resultado, mas pela sedução do caminho.

 

SuperPauta: Há relatos de que o senhor pousava o
dirigível como quem estaciona um automóvel para tomar café, justamente para normalizar o voo aos olhos da cidade. Aquilo era demonstração tecnológica, provocação elegante ou uma lição pública de futuro?

Santos Dumont: Era pedagogia divertida. Eu queria provar que o voo não seria apenas heroísmo. Seria rotina. Uma invenção só muda a humanidade quando deixa de assustar o cotidiano.

 

SuperPauta: Em 23 de outubro de 1906, no Campo de Bagatelle, em Paris, o 14-Bis decolou diante de especialistas, imprensa e público, num dos marcos do voo mais pesado que o ar. No segundo exato em que o chão deixou de segurá-lo, o que aconteceu dentro do senhor?

Santos Dumont: Um silêncio interno que ainda consigo ouvir. Eu não era mais leve que o ar. Eu era pesado, e estava vencendo o mundo pela força da ideia. Ali eu percebi que o homem não precisava pedir licença à gravidade. Precisava entender a gramática dela.

 

SuperPauta: O 14-Bis desafia o olhar moderno com sua configuração que os franceses chamaram de canard — pato — porque ele voava com o "pescoço" esticado, ou seja, com os lemes de direção à frente das asas, e não atrás. Para nós, parece que ele voava de costas. Essa escolha de colocar o comando à frente dos olhos foi técnica pura ou o senhor precisava "ver" o vento sendo cortado antes mesmo dele tocar as asas?

Santos Dumont: O nome pegou, não é? Um pato desengonçado. Mas eu precisava ver o ar. Eu queria estar exposto ao vento, como um marinheiro no convés, sentindo a turbulência antes que ela tocasse as asas principais. Muitos aviões nasceram depois com o pudor de esconder o piloto. Eu não queria pudor. Eu queria testemunho.

 

SuperPauta: Aquela manchete, “o homem conquistou o ar”, ainda faz sentido?

Santos Dumont: Faz, mas é incompleta. O ar não foi conquistado à força. Foi convencido. Ele se abriu quando viu que a inteligência podia ser mais leve que o medo.

 

SuperPauta: Para o leitor que chega agora a essa polêmica: os irmãos Wright realizaram voos experimentais anteriores nos Estados Unidos, mas em condições diferentes e com menos demonstrações públicas. O senhor sempre defendeu que voo legítimo deveria ter decolagem autônoma e comprovação aberta. Hoje, como o senhor define essa diferença sem transformar a história em briga de bandeiras?

Santos Dumont: (Endurece com elegância.) Eu não disputo fatos, disputo ética. Eu voei à luz do dia, em Bagatelle, para o mundo ver. Não patenteie nada. Os Wright voaram escondidos, com catapultas, querendo contratos militares. Uma invenção que não pode ser vista nasce incompleta, porque ainda não pertence ao mundo. Eu queria dar o voo à humanidade; eles queriam vender o voo. A minha invenção nasceu pública; a deles nasceu negócio.

 

SuperPauta: A decolagem autônoma é detalhe técnico ou detalhe moral?

Santos Dumont: Para mim, moral. O avião deve nascer capaz de sair do chão por si mesmo. Sem truques de palco. Eu queria uma solução que pudesse ser repetida por qualquer país, sem depender de segredo industrial.

 

SuperPauta: Se o senhor encontrasse Orville e Wilbur hoje?

Santos Dumont: Eu diria: “Não escolhemos o mesmo caminho para o mesmo céu”. E depois faria a pergunta que nunca coube nos jornais: “Vocês também temeram o uso que fariam da nossa vitória?”.

 

SuperPauta: Depois do 14-Bis, o senhor criou a Demoiselle, leve, ágil e relativamente acessível. E publicou seus planos, permitindo que outros a reproduzissem. Isso foi uma visão precoce de tecnologia aberta? Por que para o senhor o ar não podia ter dono?

Santos Dumont: Porque o ar é vasto demais para ter dono. Eu não queria ser o guardião de uma porta. Queria ser o homem que entregou as chaves e disse: “Façam melhor”.

 

SuperPauta: O senhor nos deu o relógio de pulso e o chuveiro de água quente. Essas invenções revelam um homem que buscava conforto na terra?

Santos Dumont: O relógio foi necessidade. Eu não podia tirar as mãos do manche para ver as horas no bolso. Louis Cartier resolveu isso para mim. Era sobre controle. Já o chuveiro... (Suspira) Eu sentia muito frio. A casa em Petrópolis, "A Encantada", era meu ninho, mas eu precisava de calor. Inventei o chuveiro aquecido a álcool porque, no fundo, eu sempre fui uma criatura que buscava aquecer o corpo e a alma. Nem o Palácio de Buckingham tinha aquilo! É a prova de que a engenharia também serve para o carinho consigo mesmo.

 

SuperPauta: O senhor se sentiu culpado ao ver aviões como armas?

Santos Dumont: Eu me senti ferido. Culpado é uma palavra pesada. Mas eu carreguei essa sombra dentro do tórax por anos. Eu inventei um caminho. Os homens escolheram a direção.

 

SuperPauta: Em 1926, o senhor fez um apelo dramático à Liga das Nações para proibir o uso de aviões na guerra. O senhor se sentia um profeta gritando no deserto?

Santos Dumont: Eu me sentia um pai vendo o filho virar monstro. Escrevi cartas, publiquei manifestos. Disse: "Por favor, não usem minhas asas para matar". Eles me chamaram de ingênuo. Disseram que eu não entendia de geopolítica. Eu entendia de humanidade! Mas a Liga das Nações... era um clube de surdos. Aquilo começou a me matar muito antes do meu corpo desistir.

 

SuperPauta: O senhor destruiu muitos papéis e projetos. Dizem que queimou as plantas do seu planador. Foi raiva?

Santos Dumont: Foi proteção. (Sua voz treme.) Quando vi o que fizeram na Primeira Guerra... cavalheiros jogando dardos de aço lá de cima... eu percebi que cada desenho meu era uma sentença de morte em potencial. Eu me senti como um pai que descobre que seu filho virou um assassino. Queimei os projetos para que a inocência deles não fosse corrompida. Se a humanidade queria se matar, que não usasse a minha caligrafia para isso.

 

(A Baladeuse segue suspensa sobre Paris, mas o brilho da cidade parece mudar de temperatura. O relógio no pulso de Dumont continua marcando horas com a serenidade dos objetos que não entendem tragédias. O inventor, porém, entende. Há um momento em que a conversa deixa de ser sobre máquinas e passa a ser sobre o cansaço de ter sido visionário cedo demais.)

 

SuperPauta: A esclerose múltipla. Como um homem que dominou máquinas lidou com a rebeldia do corpo?

Santos Dumont: Com surpresa e disciplina. É cruel perceber que você pode dominar o ar, mas não consegue negociar com o próprio passo. Eu era piloto de tudo, menos de mim mesmo.

 

SuperPauta: “A Encantada”, em Petrópolis.

Santos Dumont: Era uma casa que obedecia onde meu corpo já não obedecia. Os degraus recortados não eram capricho. Eram estratégia de dignidade. Quando a doença tenta humilhar, você responde com arquitetura.

 

SuperPauta: O senhor não teve esposa nem filhos. A versão oficial sempre foi a dedicação à ciência. Mas, olhando para trás, houve também uma sensação de que a vida doméstica tradicional não cabia no seu desenho de mundo?

Santos Dumont: (Fica em silêncio por um longo tempo. O vento agita a toalha da mesa.) Você leu meus biógrafos, não leu? Eles procuram romances, procuram segredos. A verdade é menos escandalosa e mais triste: eu era um homem de lastro leve. Para subir, o balonista precisa jogar fora os sacos de areia. A família, o casamento, as convenções de um marido... tudo isso é lastro. É peso. Eu precisava ser volátil. E havia... a solidão essencial. Havia partes de mim que eu não conseguia compartilhar com ninguém, nem em Paris, nem no Rio. Eu tinha Aída, tinha amigos leais, mas o amor terreno exige uma aterrissagem que eu nunca soube fazer. Eu casei com o vento. E o vento é um amante que não deixa herdeiros.

 

SuperPauta: Em 1932, o Brasil viveu a Revolução Constitucionalista, um conflito interno que colocou brasileiros contra brasileiros. O senhor estava no Guarujá e viu aviões sendo usados nesse enfrentamento. Como foi testemunhar o céu, que o senhor imaginou como símbolo de progresso, participar de uma guerra entre irmãos?

Santos Dumont: (Seus olhos se enchem de lágrimas.) O zumbido... eu conhecia o motor. Era o meu motor. Mas o alvo eram meus irmãos. Eu vi o "Campo de Marte" atacando. Vi aviões brasileiros jogando bombas sobre brasileiros. O motor que eu ajudei a criar... o zumbido era o mesmo de Bagatelle, mas a missão era a morte. Ali, no Hotel La Plage, eu entendi que tinha falhado. A gravidade moral pesou mais que a física. Minha depressão, que já era uma companheira fiel, tomou conta de tudo.

 

SuperPauta: Muitos relatos dizem que, nesse momento, a dor ética se tornou insuportável para o senhor. A decisão de partir foi desespero, protesto ou exaustão de alguém que já tinha carregado o mundo inteiro dentro do peito?

Santos Dumont: Eu fui ao banheiro do Grand Hôtel La Plage. Não havia corda. Usei minhas gravatas. Duas gravatas vermelhas de seda. (Ele toca o pescoço levemente.) Veja a ironia: o símbolo da minha vaidade e elegância foi o instrumento do meu silêncio. Eu não queria morrer; eu queria apenas parar de ouvir o barulho da minha própria culpa. Foi silêncio. Foi meu último voo, mon ami. Um voo para dentro.

 

SuperPauta: O senhor se vestiu com extremo cuidado naquele dia.

Santos Dumont: A elegância pode ser uma forma de despedida digna. Quando o mundo perde a forma moral, às vezes o homem tenta preservar a forma pessoal. Não por vaidade. Por último senso de ordem.

 

SuperPauta: O céu virou corredor aéreo intenso. Isso lhe agrada?

Santos Dumont: Me impressiona e me entristece. O progresso veio. Mas trouxe barulho demais e poesia de menos.

 

SuperPauta: O que acha dos drones?

Santos Dumont: São inevitáveis. Mas me pergunto o que acontece com a alma do voo quando o piloto desaparece da história. O risco humano também era parte do encanto e da responsabilidade.

 

SuperPauta: Hoje, a aviação é essencial para a economia global, mas também enfrenta críticas por seu impacto climático. Se o senhor estivesse no século XXI, sua grande obsessão seria o avião elétrico, combustíveis limpos ou uma nova ética internacional do ar?

Santos Dumont: Se eu estivesse aí, talvez a minha obsessão fosse um motor que respeitasse o futuro. A técnica não pode crescer como se o planeta fosse infinito.

 

SuperPauta: O Brasil atual forma talentos científicos, mas ainda oferece poucos caminhos estáveis para pesquisa e inovação. O que o Santos Dumont, que uniu sonho e método, diria a um jovem brasileiro que sente que precisa vencer mais burocracia do que equações?

Santos Dumont: Eu diria algo que talvez soe antigo, mas é urgente. Não negociem o direito de imaginar. A falta de investimento não pode virar falta de coragem. O Brasil tem um talento que não cabe em estatísticas. Mas talento sem ecossistema vira exílio. Se eu tivesse esperado um ambiente perfeito, eu não teria saído do chão. Façam barulho com método. E não deixem que a mediocridade administrativa se disfarce de realismo. O impossível nunca pediu autorização.

 

SuperPauta: Para encerrar no espírito desta série: olhando sua vida inteira, o que pesou mais, Alberto, a gravidade física que o senhor venceu ou a gravidade moral que o mundo impôs ao seu sonho?

Santos Dumont: A tristeza. A gravidade você aprende a calcular. A tristeza às vezes não respeita matemática.

 

SuperPauta: Qual foi seu maior acerto que não seja o avião?

Santos Dumont: Ter acreditado na partilha. Eu não queria uma invenção trancada num cofre. Eu queria uma invenção que corresse solta, como vento bom.

 

SuperPauta: E seu maior erro?

Santos Dumont: Imaginar que o coração humano evoluiria tão rápido quanto os motores.

 

SuperPauta: Alberto, dizem que seu coração foi retirado pelo médico e conservado em uma esfera dourada. Dizem que ele pesava mais fora do corpo do que dentro. O senhor finalmente se perdoou?

Santos Dumont: (Ele se levanta. O olhar agora é sereno, quase transparente.) Um coração cheio de sonhos pesa. Um coração cheio de arrependimentos pesa ainda mais. Talvez o Dr. Haberfield quisesse entender como tanto sentimento cabia num órgão tão pequeno. Se me perdoei? Eu entendi que não somos deuses. Eu dei as asas. O homem escolheu as garras. Hoje, aqui de cima, onde o ar é rarefeito e puro, eu já não sinto o peso daquele coração na esfera de ouro. Sinto apenas a leveza que busquei a vida toda. (Ele coloca o chapéu. Olha para o horizonte.) Agora, se me dá licença... o vento está favorável. E um aviador nunca deixa o vento esperando.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Encontros impossíveis: Tim Maia

 Encontros Impossíveis


O Síndico da Eternidade


 

Entre risadas trovejantes e a acústica perfeita do além, o Síndico abre o jogo sobre a fase Racional, as brigas com Roberto Carlos e a fome de viver. Uma jam session exclusiva onde o grave bate direto na alma

 

“O segredo do meu sucesso é o equilíbrio. Metade das minhas músicas é esquenta-sovaco, e metade é mela-cueca.” – Tim Maia

 

O ambiente não tem paredes. Tem som. Um som tão perfeito que parece uma entidade com diploma de engenharia cósmica. A acústica se estende ao infinito, mas sem aquele eco chato de ginásio vazio e sem microfonia traindo ninguém. O chão não é chão, é uma espécie de palco-lagoa de luz: reflete tudo, como se a realidade tivesse passado um verniz de estúdio importado.

Sobre nuvens densas que lembram espuma de cerveja em fase de missão, existe uma mesa de som que não é mesa, é ideia pura. E ao redor dela flutuam instrumentos que não são instrumentos, são possibilidades. Um baixo que ronca sozinho com groove gorduroso, uma bateria que respira no tempo certo, um naipe de metais que aquece como caldeira de escola de samba.

No centro, como se o universo tivesse sido montado apenas para comportar um corpo maior que a própria lenda, está ele. Tim Maia. Veste um caftã branco impecável, colar de sementes coloridas no pescoço e anéis que brilham com ironia. Em uma mão, um copo de whisky que misteriosamente nunca esvazia. Na outra, um livro volumoso que ele usa apenas para abanar o rosto, num gesto de rei impaciente com o calor da eternidade.

Ele ajusta um botão invisível na mesa de som e grita para o nada, como quem chama a luz do palco com um palavrão afetuoso: “Agora sim, bicho! Agora o grave tá batendo no peito de Deus! Corta o agudo, dá ganho no médio e deixa o pau quebrar!” Uma risada profunda, daquelas que vêm do diafragma, atravessa o estúdio celestial. Eu me aproximo com o meu bloco de notas que também não é bloco de notas. É um passaporte. E começamos esta conversa, uma sugestão do amigo e parceiro potiguar Ítalo Filho. (Roberto Homem)



 

SuperPauta: Tim, é uma honra! Estamos num lugar onde o som é tecnicamente perfeito. O senhor, que brigou tanto com técnicos de som no Brasil, finalmente está satisfeito com o retorno?

Tim Maia: (Solta uma gargalhada rouca, ajeita o caftã e aponta para as caixas de som invisíveis) Aqui o bagulho é sério, brother. Aqui não tem aquele técnico da TV Globo com cara de "não vai dar não", nem aquele som de lata de sardinha que a gente pegava no interior. Aqui eu peço grave e o universo responde com educação e dedicação. O retorno aqui é intra-auricular, intra-alma, intra-tudo! Mas vou te falar uma verdade meio herética, Roberto... A perfeição cansa. Fica tudo muito limpinho, muito "clayderman", sabe? Às vezes eu sinto falta de um chiado, de um cabo com mau contato, só pra eu poder gritar: "Cadê o retorno, porra?!". (Risos). A paz eterna é bonita, é relax, mas o swing do improviso, aquela adrenalina de resolver o problema na hora H... isso dá mais fome. E você sabe que o Tim Maia sempre teve fome. (Ele estala os dedos e um baixo invisível responde com um "vum" que faz as nuvens tremerem).

 

SuperPauta: Vamos voltar ao começo, onde essa fome nasceu. Tijuca, Rua Matoso. O apelido "Tião Marmiteiro". O que aquele garoto sonhava enquanto carregava as marmitas pela rua?

Tim Maia: Rapaz, tu desenterrou o "Tião Marmiteiro"... Eu sonhava em comer, bicho! Fome é a mãe da criatividade e a avó do groove. Mas ali na Matoso, a "gangue" sonhava alto. Eu, Roberto, Erasmo, Jorge Ben... A gente era moleque sem dinheiro, mas com ambição de incêndio. Eu entregava marmita, sentia o cheiro do feijão, mas na minha cabeça eu tava num conversível, com terno de seda, cantando rock and roll. A Tijuca era o nosso Mississippi, entende? A gente não tinha os instrumentos da Fender, não tinha os amplificadores Marshall, mas tinha a garganta. E eu sabia, lá no fundo do meu estômago, que a minha garganta era maior que meu bolso e maior que o bairro todo. O sonho era sair dali, dominar o mundo e nunca mais ter que pedir fiado na padaria. O sonho era ser bacana.

 

SuperPauta: Você foi muito cedo para os Estados Unidos. Sem falar inglês, com pouco dinheiro e muita coragem. Foi lá que o Sebastião virou Tim? O que os EUA te deram e o que te tiraram?

Tim Maia: Me deram o soul na veia, man. Me deram a malandragem do som. Eu cheguei lá achando que sabia cantar, mas quando liguei o rádio, quando vi os "negão" cantando na igreja ou na rua, eu entendi tudo. Eu aprendi que cantar não é acertar a nota bonitinha igual cantor de coral. Cantar é sangrar com elegância. Eu vi o Motown, vi o Stax, vi gente cantando como se estivesse cobrando uma dívida de Deus. Mas eles me tiraram a inocência, sacou? Fui preso por "vadiagem", fui deportado como um zé-ninguém. Voltei pro Brasil humilhado, magro — acredita? Eu era magro, parecia um fiapo! — mas voltei com um tesouro na mala: o balanço, o feeling. Ninguém no Brasil sabia o que era aquilo. Aqui era só Bossa Nova, banquinho e violão, "o barquinho vai, o barquinho vem"... Eu cheguei botando o pé na porta com o som pesado. Eu era uma mala cheia de soul andando.

 

SuperPauta: Quando você voltou, o Roberto Carlos já era o Rei da Jovem Guarda. Existe essa lenda urbana sobre as botas que você "pegou emprestado" e uma mágoa por ele não ter te ajudado no início. O que é fato e o que é lenda nessa relação de amor e ódio?

Tim Maia: (Faz uma careta cômica, depois ri) As botas... Digamos que foi um empréstimo não-autorizado por tempo indeterminado e sem previsão de devolução. (Gargalhada). Mas falando sério, brother, eu fiquei magoado sim. Fiquei puto! Eu tava na merda, dormindo na rua, comendo pão dormido, e o "Bob" lá de carrão, cantando "Splish Splash". Ele era o Rei, e eu era o bobo da corte que ficou do lado de fora do castelo. Mas a vida é um LP com dois lados, né? Ele gravou "Não Vou Ficar", que é minha, e estourou. Eu tive que provar que não precisava da Jovem Guarda, que aquilo era música de playboy tomar sorvete. Eu queria fazer música pra transar, pra sofrer, pra dançar de verdade. A gente se amava e se odiava. Ele tinha a coroa, mas eu tinha o cetro da música negra. No fundo, a gente sabia que um precisava da história do outro pra existir. Ele foi esperto, eu fui inevitável.

 

SuperPauta: Você sempre teve uma relação de amor e ódio com a indústria fonográfica. Roubou fitas master da Polydor, processou gravadoras... O que a indústria musical brasileira não entendia sobre você?

Tim Maia: (Dá uma longa tragada num charuto que aparece do nada) A indústria, bicho... Eles queriam um produto. Um Tim Maia embalado, com prazo de validade, que cantasse "Gostava Tanto de Você" pra sempre. Só que eu não sou pacote de biscoito! Eu sou mercado inteiro, feira livre com barraca de som! Quando eu fiz o disco "Racional", eles disseram: "Tim, isso é suicídio comercial". E quer saber? Na época, foi mesmo! Não vendeu porra nenhuma! (Gargalhada). As rádios não tocavam, as lojas devolviam. Eu tinha que vender disco no sinal de trânsito, na porta do show... O povo queria romântico, eu dava alienígena. Mas hoje, qualquer DJ hipster em Londres paga 500 dólares num vinil original. A indústria pensa no lucro do trimestre; eu pensava na eternidade. E as fitas? Roubei? Claro que roubei! Entrei na gravadora, peguei o que era meu e saí andando. É meu, porra! Eu cantei, suei, gritei, compus naquele estúdio. Se eles não queriam pagar os royalties direito, eu recuperava o patrimônio na mão grande. Eles chamavam de roubo; eu chamava de justiça social com groove! Eles ficavam com o contrato, eu ficava com a arte. Quem saiu ganhando no final?

 

SuperPauta: Falando em gravar, como era seu processo criativo? De onde vinham as músicas?

Tim Maia: Processo? (Esfrega a testa) Eu não tinha processo, tinha urgência! As melhores músicas não vinham com hora marcada. Eu andava com um gravadorzinho cassete no bolso o dia inteiro. A melodia vinha na cabeça — no meio do trânsito, comendo um sanduíche, tomando banho — e eu gravava na hora cantando em "inglês de gringo bêbado", o meu famoso embromation. "Não Quero Dinheiro", por exemplo, eu fiz porque tava de saco cheio de música complicada. Eu queria um negócio simples, que até criança cantasse. Gravei a melodia cantarolando "da-ra-ra-ra" e sabia que aquilo ia pagar minhas contas. Já as tristes... ah, essas vinham do coração partido. "Réu Confesso" e essas baladas todas eram culpa das minhas brigas, principalmente com a Janete. A mulher me dava um fora, eu chegava em casa destruído, chorando whisky, pegava o violão e a música saía pronta em dez minutos. Era a minha terapia: a vida me dava um soco, eu devolvia em forma de hit.

 

SuperPauta: E nesse caminho, houve um momento de ruptura total. A fase "Racional". O senhor largou as drogas, vestiu branco, raspou a cabeça. Hoje, com essa visão privilegiada, aquilo foi iluminação ou delírio?

Tim Maia: Foi a busca mais sincera e o tombo mais bonito da minha vida. Eu tava podre, bicho. Bebia, cheirava, comia até explodir. Quando li aquele livro, o "Universo em Desencanto", eu quis acreditar que existia uma fórmula mágica, uma imunização racional pra me salvar de mim mesmo. E musicalmente? Please! Não tem discussão. É o som mais puro, mais cristalino que eu fiz. Voz limpa, arranjos que parecem geometria sagrada. O baixo do Racional não anda, ele desfila! O problema é que eu fui buscar a cura num lugar onde tinha um guru picareta. O ser humano quer acreditar em milagre, quer que um disco voador desça e pague os boletos. Quando a ficha caiu e eu vi que era guéri-guéri, eu voltei pro uísque, pra picanha e pros meus pecados com ódio! O pêndulo foi pro outro lado com força total. Mas o som... ah, o som eu não renego. Eu renego a ingenuidade, mas a música era divina.

 

SuperPauta: Você sempre foi perfeccionista com a sua banda, a Vitória Régia. Dizem que você multava os músicos que erravam. Tem alguma história específica de ensaio ou turnê que marcou essa relação de general com seus soldados?

Tim Maia: A Vitória Régia não era uma banda, era uma instituição! Era o meu exército de salvação sonora. Eu podia estar doidão, podia ter virado a noite, mas na hora do "um, dois, três, quatro", o som tinha que ser um relógio suíço com molho brasileiro. Te conto uma que foi em Brasília. A gente tava num hotel podre, calor de 40 graus, ar-condicionado zuado. Eu mandei: "Ensaiamos às 10 da manhã". Cheguei 10h15 - atrasado, mas ainda era eu - e o baixista tava dormindo. Mandei jogar balde de água. O cara acordou aos berros, peguei o contrabaixo dele e falei: "Olha aqui, seu animal. Essa corda solta aqui é a sua mãe te chamando pra jantar. Essa outra é sua namorada te traindo. Toca com sentimento ou toca desempregado!". No show daquela noite, o filho da puta tocou como se tivesse visto Deus! Depois veio me agradecer chorando. Disse que nunca tinha entendido o que era tocar com alma. Eu só falei: "Agora entendeu. Amanhã atrasa de novo e eu jogo é você na piscina!" (Gargalhada monumental). Educação musical do Síndico: amor no coração e porrada na costela!

 

SuperPauta: Você teve músicos incríveis passando pela banda - Hyldon, Cassiano, depois sua sobrinha Lucinha... Como era ver esses talentos sob seu comando?

Tim Maia: Hyldon... aquele desgraçado cantava bonito demais, quase me fazia ciúme! (Risos). Mas olha, eu sempre reconheci talento. O Cassiano era um gênio do violão, um arranjador do caralho. O problema é que gênio também é teimoso. Uma vez ele insistiu num acorde que eu odiei. Brigamos feio, quase partimos pra cima. No dia seguinte, ele chegou com o mesmo acorde, mas uma oitava acima. Ficou perfeito! Aí eu falei: "Viu, seu burro? Só precisava ouvir o chefe!". Mas brincadeiras à parte, eu era orgulhoso deles. A Lucinha, minha sobrinha... aquela menina tinha uma voz que parecia vinho caro. Eu ficava puto porque ela era tímida. Gritava: "Abra a boca, porra! Você é sangue meu, não canta como passarinho com dor de barriga!". Quando ela soltava, arrepiava até o diabo. Senti mais orgulho dela do que de mim mesmo.

 

SuperPauta: Vamos tocar numa polêmica clássica: os atrasos e os shows cancelados. Muita gente ia aos seus shows pela música, mas também esperando o imprevisível. Você era irresponsável ou estava se protegendo de algo?

Tim Maia: Era tudo junto misturado no liquidificador da ansiedade, bicho. Eu era um animal de palco, mas tinha um pânico, uma fobia que batia na hora H. Eu olhava praquela multidão e pensava: "Se o som estiver uma merda, eles não vão ouvir o Tim Maia, vão ouvir barulho". Eu tinha um respeito sagrado pela minha voz. Se o retorno não funcionasse, eu me sentia nu em praça pública. Dizem que eu dava o cano... Eu digo que eu me preservava. O Síndico não bate ponto, o Síndico resolve problemas! Às vezes o problema era eu mesmo. Eu preferia ficar no hotel vendo TV e comendo pudim do que encarar a expectativa de 10 mil pessoas se eu não estivesse 100%. Era medo? Era. Mas eu chamava de "exigência artística extrema". (Pisca o olho).

 

SuperPauta: Falando em shows pelo Brasil, você rodou o país todo. O senhor tem alguma memória específica do Nordeste? O público de lá tem uma energia diferente? Lembro de histórias sobre passagens por Natal...

Tim Maia: (Abre um sorriso largo, os olhos brilham) Ah, o Nordeste... O Nordeste é a Motown brasileira com dendê, sol e pimenta! Natal... eu lembro de Natal! Terra bonita, brother. Aquele sol que racha a moleira e um vento que não para nunca, parece ventilador de Deus no máximo. Fiz uns shows lá... ou quase fiz, né? (Risos). O público potiguar e nordestino em geral, eles não ouvem a música só com o ouvido, eles ouvem com o corpo, com o poro. Eles entendem a sofrência do soul porque o nordestino já nasce com o blues na veia. A vida lá é dura, mas o sorriso é largo. Lembro de comer uns camarões lá que pareciam lagostas, e umas lagostas que pareciam dinossauros! O som batia, o ginásio fervia – um calor do cão! – e a galera cantava junto num tom que arrepiava. Saudade daquela terra, saudade daquele mela-cueca bom que a gente fazia lá.

 

SuperPauta: Sua relação com a comida era quase tão famosa quanto com a música. Teve um período vegetariano na fase Racional, mas depois voltou com tudo. Qual era seu prato favorito, aquele que era sua "música para o estômago"?

Tim Maia: (Esfrega as mãos, visivelmente animado) Ahhh, agora você tocou no ponto sensível! Irmão, depois que eu abandonei a seita, eu fiz um pacto com a carne. Picanha, claro, mas não qualquer picanha. Tem que ser da peça certa, mal passada - se vier bem passada eu mando de volta e ainda xingo o cozinheiro! Mas meu segredo era o feijão. Feijão preto, daqueles que cozinha o dia todo, com linguiça calabresa, pé de porco... O negócio ficava tão grosso que a colher ficava em pé! Comia com arroz branco, farofa crocante e uma cerveja bem gelada. Isso era sinfonia, bicho! Uma vez no Rio, achei um restaurante que fazia um feijão que parecia o da minha avó. Fiquei uma semana indo todo dia. No último dia, o dono veio com respeito: "Seu Tim, quer a receita?". Eu disse: "Quero é que você me adote!". (Risos). Comida é afeto, é memória. Minha pança era meu diário sentimental.

 

SuperPauta: Muitas pessoas não sabem, mas você era um técnico de som brilhante, montava seus próprios equipamentos. Como surgiu essa paixão pela engenharia do som?

Tim Maia: Necessidade, filho! No começo ninguém sabia mixar meu som direito. Eu ouvia uma coisa na minha cabeça e chegava na gravação parecendo panela batendo. Aí eu pensei: "Se quer algo bem feito, faça você mesmo!". Comecei a estudar, desmontar equipamento, queimar placa, tomar choque que me deixava com cabelo em pé por uma semana! (Risos). Mas aprendi. Na Seroma, montamos um estúdio que era nossa fortaleza. Eu sabia cada parafuso, cada fio, cada fantasma que assombrava aquelas máquinas. Uma vez um engenheiro americano veio me visitar, viu minha mesa personalizada e falou: "This is... unusual". Unusual porra! Era genial! O cara ficou três dias me observando, anotando tudo. Depois soube que voltou pros EUA e usou minhas gambiarras num disco do Stevie Wonder. Eu devia ter cobrado royalties, bicho! Mas é isso: meu ouvido era meu diploma. Universidade da Rua Matoso com especialização em Porrada Sonora!

 

SuperPauta: Tim, suas músicas românticas, como "Azul da Cor do Mar" e "Dia de Domingo", são hinos. Você cantava sobre um amor que você vivia ou um amor que você desejava ter?

Tim Maia: Você tá querendo psicanalisar o Síndico, né? (Gira o gelo no copo, pensativo). Olha, eu tive muitas paixões. Muitas mulheres, muita confusão. Mas o amor, aquele de filme, de ficar de mão dada vendo novela e comendo pipoca... esse fugiu de mim. Ou eu fugi dele. Eu era difícil, ciumento, possessivo, doido de pedra. Quem aguenta o Tim Maia? Nem o Tim Maia aguentava o Tim Maia em certos dias! Eu cantava o amor que eu queria merecer, não o que eu tinha. A música era meu pedido de desculpas pro universo e minha carta de esperança. Quando eu gritava "Eu Amo Você", era verdade absoluta naquele segundo. Depois... depois voltava a bagunça, a solidão no motel, a fuga. A solidão é o preço que a gente paga por ser livre demais.

 

SuperPauta: Você sempre teve uma postura crítica sobre o racismo e a política no Brasil. Como vê o cenário musical de hoje? O Funk, o Rap, o Trap... eles são seus herdeiros?

Tim Maia: Demorou, hein? O Brasil é um país que dança, mas pisa no pé de quem toca. O racismo aqui sempre foi velado, aquele "racismo cordial", no sorrisinho. Eu falava na lata: "Este país é uma colônia que não deu certo". Hoje? Eu vejo essa molecada do Rap, do Funk... Mano Brown, essa turma nova. Eles têm a atitude. O som mudou, usam muita máquina, muito computador... Eu sou velho de guerra, prefiro metal, sopro de verdade, bateria orgânica. Mas a raiva? A vontade de vencer vindo da favela? Isso é herança minha, sim. Eu abri a porta no chute, eles entraram e tão decorando a casa. Só acho que podiam usar menos autotune e soltar mais a garganta, bicho! Tem que gritar, tem que desafinar com estilo! Computador não tem alma, quem tem alma é gente!

 

SuperPauta: Você sempre misturou tudo: soul, rock, baião, samba... Houve alguma resistência do público ou da crítica com essas fusões?

Tim Maia: Crítica? (Faz gesto obsceno). Crítica é que nem hemorroida: fica atrás dando incômodo. O povo brasileiro é esperto, bicho. Quando eu botei guitarra rock em "Primavera", o povo abraçou. Quando eu meti um baião no meio do soul, o puro sangue nordestino que tava em São Paulo começou a chorar no show. A música não tem fronteira, tem porto. Eu era o navio mercante do som! Trazia soul dos EUA, levava samba pra fora... Só os puristas que reclamavam. Tinha um crítico que escreveu: "Tim Maia polui o soul com elementos regionais". Mandei uma carta: "Seu idiota, o soul já é regional do Mississippi! Vai tomar seu cafezinho e ouvir música de elevador!". O Brasil é mestiço, porra! Meu som é mestiço! Se fosse puro, era água mineral, e eu quero é cachaça com gosto de tudo!

 

SuperPauta: Além da música, você era um intelectual autodidata. Sua casa era cheia de livros, discos, equipamentos. Como era o Tim Maia fora dos holofotes, na sua intimidade?

Tim Maia: Intelectual é palavra forte, hein? Eu era curioso. Um bisbilhoteiro do conhecimento! (Ajeita o caftã). Minha casa parecia loja de penhores: pilha de livro sobre física quântica do lado de disco do Ray Charles, equipamento de som alemão com manual em japonês, revistinha de fofoca... Eu lia tudo! De filosofia a manual de conserto de geladeira. Uma noite eu tava lendo um negócio sobre teoria das cordas, aí pensei: "Porra, as cordas do universo são como as cordas do baixo! Tudo vibra, tudo tem frequência!". Fiz uma música inteira nessa noite. Depois destruí porque achei que ficou muito cabeça. Mas era isso: minha mente era um liquidificador ligado no turbo. Às três da manhã eu tava montando mesa de som, às cinco tava cozinhando macarrão com queijo e ouvindo ópera. Solidão? Tinha. Mas tédio? Nunca! O Síndico era seu próprio parque de diversões.

 

SuperPauta: Se pudesse fazer um disco hoje, com qualquer músico vivo ou morto, quem estaria nessa banda dos sonhos?

Tim Maia: (Pensa, contando nos dedos) Na bateria, o John Bonham do Led Zeppelin - aquele animal batia como se estivesse matando cobra! No baixo, o Larry Graham do Sly & Family Stone, inventor do slap! Guitarra... talvez o Jimi Hendrix. O bicho era sujo, tocava com distorção demais, mas tinha um feeling de negão. Só que ia ter que prometer não queimar a guitarra no final, porque instrumento é caro e eu não sou sócio da Fender, porra! (Risos). Nos metais, os caras da Earth, Wind & Fire - aqueles arranjos são de outro planeta! E pra cantar comigo... a Aretha Franklin, claro! A Rainha! Mas ela teria que aceitar que em algumas músicas eu que fazia o vocal principal, senão ia dar briga de ego! (Gargalhada). E o produtor seria eu, óbvio! Com assistência do Quincy Jones só pra fazer café e elogiar meu trabalho.

 

SuperPauta: Você viveu o "triatlo" intensamente: comer, beber e fumar. Se pudesse voltar no tempo com a sabedoria de agora, teria mudado algo para ficar mais tempo conosco?

Tim Maia: (Fica em silêncio por um longo momento. O semblante perde o ar cômico e ganha uma gravidade serena) Todo mundo espera que eu diga "Sim, eu comeria alface, correria na orla e beberia água de coco". Claro que eu queria ter vivido mais. Queria ter visto meu filho crescer mais, queria ter gravado mais discos, queria ter xingado mais gente. Morrer é chato pra caramba, interrompe os planos. Mas... se eu não fosse exagerado, eu não seria o Tim Maia. Minha música era grande porque eu era grande. Meu som era gordo porque minha alma era gorda. Se eu fosse um cara regrado, magrinho, que dorme às dez da noite, eu seria um contador, não o Síndico. Eu queimei a vela nas duas pontas e no meio, com um maçarico! Foi rápido, foi confuso, mas iluminou a sala toda, não iluminou?

 

SuperPauta: O que o Tim Maia de 2025 diria para o Sebastião Rodrigues Maia de 15 anos, aquele garoto da Tijuca com fome de mundo?

Tim Maia: (Silêncio longo. Sua voz fica mais suave, menos performática) Diria... "Segura essa fome, Tião. Não deixa ninguém te dizer que é demais. Quando sentirem inveja, é porque você tá no caminho certo. Aprende a ler contrato antes de assinar - essa eu não aprendi direito. Cuida melhor do seu coração, literal e figurativamente. E... aproveita cada segundo da viagem, porque ela é mais importante que o destino. Ah, e compra dólar em 1970, que depois sobe!" (Risos que se transformam numa tosse gostosa). Mas sério: diria pra ele confiar na própria garganta. E que um dia, ele vai olhar pra trás e ver que valeu cada queda, cada briga, cada nota cantada com a alma aberta. O menino da marmita vai alimentar um país inteiro com sua voz. E isso, meu irmão... isso não tem preço.

 

SuperPauta: Iluminou o país inteiro, Tim. Que mensagem final o Síndico deixa para quem ficou lá embaixo, nesse Brasil que anda tão desafinado?

Tim Maia: (Levanta-se com dificuldade, mas com imponência. Abre os braços abraçando o estúdio infinito) A mensagem é simples e direta, sem guéri-guéri: Mais grave, mais agudo, mais eco, mais retorno e muito mais amor! Não levem a vida tão a sério, porque ninguém sai vivo dela mesmo. Leiam bons livros — mas cuidado com os gurus de capa branca! —, escutem música alta, dancem mesmo se forem gordos, magros, tortos ou mancos. E por favor... (aponta o dedo indicador para mim, com um sorriso maroto) ...não peçam picanha bem passada e não deixem ninguém baixar o volume da vida de vocês. Valeu, brother!

 

SuperPauta: Obrigado, Tim.

Tim Maia: Falou. Agora dá licença que eu vou ali fazer uma jam com o Marvin Gaye e o James Brown. E se o Jim Morrison aparecer pedindo cerveja, eu mando ele pastar, porque aqui a bebida é minha! (O som aumenta, os metais explodem em fanfarra, e Tim Maia some numa névoa dourada, deixando apenas o eco de sua risada e o groove de um baixo que parece nunca ter fim.)