Encontros Impossíveis
O Ícaro de colarinho alto
Em uma Paris suspensa entre séculos, Santos Dumont revisita a infância entre máquinas e nuvens, o teatro dos dirigíveis, a consagração do 14-Bis, a ética do voo público e a dor de ver o céu convertido em arma. Entre elegância, ciência e tristeza, ele responde ao que a História ainda sussurra.
“Eu naveguei
pelo ar quando o mundo dizia que isso era loucura. Mas a loucura maior foi o
que os homens fizeram com o meu sonho” – Santos Dumont
O ambiente não é terreno. Estamos suspensos em uma
plataforma de vime e madeira, semelhante à gôndola do seu dirigível Nº 9, a
Baladeuse. Flutuamos suavemente sobre uma Paris atemporal. A Torre Eiffel
brilha ao longe como um farol de ferro e memória. Há uma mesa posta, com
cadeiras de pernas altíssimas, quase dois metros do chão, como ele gostava de
oferecer em seus jantares para que os convidados “sentissem como é voar”. Alberto
Santos Dumont está sentado em uma dessas cadeiras elevadas. Veste seu terno risca
de giz, o chapéu Panamá levemente amassado e um colarinho alto que parece
desenhado não apenas para a moda, mas para a construção de presença. Em certos
homens, a elegância não é ornamento, é arquitetura emocional. Ele parece
frágil, feito de vidro e nervos. No pulso, um relógio Cartier que parece menos
objeto e mais símbolo: o tempo disciplinado para servir ao impossível. Ele
sorri com timidez. É o sorriso de quem foi tratado como espetáculo, mas
preferia ser apenas um homem que conversa com o vento.
Nesta entrevista, o “Petit Santôs” revisita o
menino que aprendeu o idioma das máquinas ainda no universo rural do café, o
jovem que transformou Paris em pista de ensaio e o adulto que escolheu a
ciência à luz do dia. A disputa histórica com os Wright surge não como guerra
de bandeiras, mas como debate sobre método, transparência e destino ético da
invenção. O brilho do 14-Bis contrasta com a sombra das guerras. E a volta ao
Brasil revela um Santos Dumont ferido no corpo e na esperança, tentando
construir uma casa que obedecesse às regras da dignidade quando o próprio corpo
já não obedecia às regras do comando. (Roberto Homem)
SuperPauta: Petit Santôs, o senhor atravessou a Belle Époque, viu o nascimento do voo moderno e também seus usos mais sombrios. Depois de tanto tempo, o céu ainda é sua casa emocional ou o senhor finalmente encontrou algum repouso em terra firme?
Santos Dumont: (Sorri, um sorriso que não chega aos olhos.) Mon ami, o céu nunca foi apenas um lugar. Era o único refúgio onde minha "estranheza" não importava. Na terra, eu era o "pequeno Santos", o homem dos tiques nervosos, o excêntrico. No ar, eu era apenas intelecto e coragem. Repouso? Não... a terra é muito barulhenta. O único repouso real foi quando meu coração parou de bater. Dizem que ele pesava muito, sabe? Talvez por isso a gravidade sempre tenha brigado tanto comigo.
SuperPauta: Seu avô, François Dumont, era um joalheiro francês que migrou para o Brasil. O senhor diria que herdou dele a obsessão pela precisão, enquanto de seu pai, Henrique, herdou a força para mover montanhas de café?
Santos Dumont: (Olha para as próprias mãos, finas e delicadas.)
Você leu minha alma. Papai era força e ambição. Era o vapor, a locomotiva, a
terra movida pela teimosia humana. Ele ensinava sem discurso: bastava vê-lo
operar um império de máquinas e homens para entender o que significa construir
o improvável no chão. Vovô François era a liturgia do detalhe. O brilho do
milímetro. O silêncio do ajuste perfeito. Eu fui a soma dos dois: o motor e a
joia, o impulso e a medida. Quando fui para Paris, não fui apenas por
encantamento. Fui porque a França era, para mim, uma espécie de genealogia
técnica. Eu precisava do laboratório europeu para dar corpo ao sonho latino que
crescia dentro de mim desde a infância.
SuperPauta: No início do século XX, voar era um espanto
coletivo, quase mágico. Hoje, o céu virou rota, pressa, logística e até tensão
geopolítica. Quando o senhor olha para o céu agora, o que mudou mais: as nuvens
ou o modo como a humanidade aprendeu a olhar para elas?
Santos Dumont: As nuvens continuam inocentes. O olhar humano é
que envelheceu mal. No meu tempo, quando eu passava com um dirigível sobre
Paris, as pessoas interrompiam a pressa. Tiravam o chapéu. Riam. Aplaudiam.
Acreditavam que o céu era a promessa de uma espécie de gentileza futura. Hoje
vocês olham para cima e veem horários, conexões, atrasos, ameaças.
Transformaram o milagre em calendário.
SuperPauta: O silêncio das nuvens… o senhor sente falta dele?
Santos Dumont: Sinto falta da honestidade dele. O vento não finge. Ele empurra, ele avisa, ele ameaça, ele protege. Em uma cesta de vime, você aprende uma lição rara: a de que a natureza não precisa de palavras para ser mais clara que muitos homens.
SuperPauta: Se a sua vida tivesse um cheiro, qual seria?
Santos Dumont: O fundo seria café e terra quente de Cabangu. Mas
a alma teria outro perfume: o da seda envernizada, do metal aquecido, do
hidrogênio que escapa como uma respiração nervosa. E, sim, um leve traço de
Paris. Não da Paris dos monumentos, mas da Paris das calçadas. A cidade que
aceitava que um brasileiro pequeno pudesse ousar grande.
SuperPauta: O senhor foi um esteta da invenção. O que acha do
nosso século em termos de elegância?
Santos Dumont: A elegância não é um luxo. É uma forma de
respeito. Eu subia num balão de terno como quem entra numa catedral. Não por
vaidade, mas por cerimônia com o momento. Hoje parece que confundiram conforto
com descuido. A liberdade não exige abandono da forma. Ela só exige que a forma
não vire prisão.
SuperPauta: O senhor nasceu em Cabangu e cresceu cercado pelo
universo do café e das máquinas do seu pai. Há quem diga que o menino Alberto
conversava mais com engrenagens do que com colegas. As máquinas eram mesmo a
sua primeira linguagem afetiva?
Santos Dumont: Eu nasci em Cabangu, mas meu imaginário cresceu no
universo do café e da ambição industrial do meu pai. As crianças podem ser
cruéis com quem é quieto, com quem prefere observar o desenho do vento a
disputar o barulho do pátio. As máquinas não zombavam de mim. Elas se
explicavam. Eu consertava e observava porque, se eu pudesse compreender o mundo
mecânico, talvez ninguém notasse o quanto eu ainda não compreendia o mundo
íntimo.
SuperPauta: Seu pai, Henrique Dumont, foi um gigante do café e um entusiasta da modernidade. Depois do acidente que o deixou com limitações físicas, o senhor sentiu que precisava desafiar a gravidade também por ele?
Santos Dumont: A primeira herança foi o acesso às máquinas e à
disciplina do trabalho. A segunda foi o exemplo de dignidade diante do corpo
traído. Talvez eu quisesse vencer a gravidade que o prendeu. Talvez eu quisesse
dizer a ele, com uma invenção: “o mundo não termina onde as pernas falham”. No
ar, a doença não tem o mesmo poder sobre a imagem do homem.
SuperPauta: Júlio Verne povoou a imaginação de uma geração
inteira com balões, viagens impossíveis e tecnologia como aventura. Em que
medida a ficção ensinou ao senhor a transformar sonho em projeto?
Santos Dumont: Verne foi o meu primeiro aeródromo. A imaginação
dele era organizada. Não era fantasia desleixada. Era fantasia com régua e
bússola. Eu não queria só sonhar com balões. Eu queria saber de que tecido eles
seriam feitos, como seria o motor, quanto pesaria o risco.
SuperPauta: Antes do avião, o senhor foi balonista e
construtor de dirigíveis. Para o leitor entender melhor essa virada: qual é a
diferença sensorial e filosófica entre ser levado pelo vento num balão e
controlar o vento com um dirigível?
Santos Dumont: O balão esférico é silêncio e entrega. Você não
voa; você é voado. É uma paz uterina. Você ouve os cães latindo lá embaixo,
sente o cheiro do café nas casas. Mas eu não queria ser uma folha ao vento. Eu
queria ser o vento. O dirigível, e depois o avião, trouxeram o barulho, a
vibração, a fúria do motor. Foi o fim da paz, mas foi o início da liberdade. O
progresso é sempre barulhento.
Santos Dumont: (Ri suavemente, ajeitando a gravata.) Os dois.
Meus convidados subiam por escadas. Eles ficavam nervosos. Eu queria que
sentissem, nem que fosse por uma hora, como era o meu mundo. Tirar o chão dos
pés de uma pessoa muda a perspectiva dela. Lá de cima, os problemas parecem
menores. E, confesso, eu me divertia vendo a aristocracia parisiense tentando
manter a pose enquanto se equilibrava para tomar a sopa. A ciência às vezes
precisa de teatro para treinar o futuro do público.
SuperPauta: Muitos biógrafos falam da sua elegância como marca
pessoal e também como forma de presença num mundo de grandes industriais e
engenheiros. O dândi Santos Dumont era apenas estilo ou também proteção
emocional?
Santos Dumont: (Ajeita a gravata instintivamente.) A elegância é
uma forma de polidez, mas sim... era também um disfarce. Eu tinha 1,52m de
altura. Era um homem minúsculo num século de gigantes industriais. Eu precisava
que olhassem para o meu chapéu, para o meu colarinho, para os meus balões...
para qualquer lugar que não fosse a minha fragilidade. A elegância me dava uma
moldura. E uma moldura protege o quadro do olhar invasivo.
Santos Dumont: A imprensa tem duas asas. Uma celebra. A outra
simplifica até o excesso. Quando eu voava, eu via jornalistas como testemunhas
úteis. Eles ajudavam o público a acreditar na realidade do impossível. Mas a
celebridade tem um preço que não aparece na fotografia. Ela transforma o homem
em símbolo permanente. E símbolos não têm direito ao cansaço. Eu precisava ser
impecável mesmo quando estava exausto. Ser elegante mesmo quando estava com
medo. Havia dias em que eu sentia que a cidade amava mais o “Petit Santôs” do
que o Alberto.
SuperPauta: O senhor se sentia deslocado na França?
Santos Dumont: Eu era um brasileiro com sotaque e bolso forte, o
que já faz de alguém um personagem. Mas Paris gosta de personagens. Eu fui
adotado pela cidade como se fosse um primo excêntrico, daqueles que ninguém
entende completamente, mas que todos querem no jantar.
SuperPauta: A riqueza financiou o sonho ou ampliou a solidão?
Santos Dumont: Os dois. Eu não devia satisfações a investidores.
Isso me deu liberdade. Mas também fez com que muitos se aproximassem do mito,
não do homem. A autonomia tem seu preço emocional.
Santos Dumont: Foi trabalho. A glória vem depois, quando o corpo
já obedeceu à técnica. No instante do risco, você é apenas um funcionário da
física.
SuperPauta: Em 1902, no acidente do dirigível Nº 5, o senhor
ficou preso na fachada do Trocadero, diante de uma multidão. O que aquele
episódio ensinou sobre os limites entre audácia e imprudência?
Santos Dumont: O som. Lembro do som da quilha de madeira se
partindo como um osso. Crrrac! E depois, o silêncio do hidrogênio vazando. Eu
fiquei pendurado, vendo os parisienses lá embaixo. Não vi a vida passar diante
dos olhos; vi apenas a falha técnica. Pensei: "Deveria ter reforçado a
válvula". Foi ali que a infância acabou. O céu me disse: "Eu sou
lindo, Alberto, mas eu posso te matar se você me desrespeitar". Ali eu
entendi que o céu tem dentes. Fiquei suspenso entre a vida e a madeira rangendo.
Mas os parisienses tinham um humor quase insolente com o perigo. Transformaram
meu acidente num drama com plateia e até gentileza. A cidade me ensinou a não
ter vergonha de errar em público, desde que eu voltasse melhor.
SuperPauta: Por que o senhor pintava balões de amarelo e usava
seda envernizada?
Santos Dumont: Porque a beleza também é parte da engenharia. Uma
máquina bonita conquista aliados. E eu precisava conquistar o mundo não só pelo
resultado, mas pela sedução do caminho.
Santos Dumont: Era pedagogia divertida. Eu queria provar que o
voo não seria apenas heroísmo. Seria rotina. Uma invenção só muda a humanidade
quando deixa de assustar o cotidiano.
SuperPauta: Em 23 de outubro de 1906, no Campo de Bagatelle,
em Paris, o 14-Bis decolou diante de especialistas, imprensa e público, num dos
marcos do voo mais pesado que o ar. No segundo exato em que o chão deixou de
segurá-lo, o que aconteceu dentro do senhor?
Santos Dumont: Um silêncio interno que ainda consigo ouvir. Eu
não era mais leve que o ar. Eu era pesado, e estava vencendo o mundo pela força
da ideia. Ali eu percebi que o homem não precisava pedir licença à gravidade.
Precisava entender a gramática dela.
SuperPauta: O 14-Bis desafia o olhar moderno com sua
configuração que os franceses chamaram de canard — pato — porque ele voava com
o "pescoço" esticado, ou seja, com os lemes de direção à frente das
asas, e não atrás. Para nós, parece que ele voava de costas. Essa escolha de
colocar o comando à frente dos olhos foi técnica pura ou o senhor precisava
"ver" o vento sendo cortado antes mesmo dele tocar as asas?
Santos Dumont: O nome pegou, não é? Um pato desengonçado. Mas eu
precisava ver o ar. Eu queria estar exposto ao vento, como um marinheiro no
convés, sentindo a turbulência antes que ela tocasse as asas principais. Muitos
aviões nasceram depois com o pudor de esconder o piloto. Eu não queria pudor.
Eu queria testemunho.
SuperPauta: Aquela manchete, “o homem conquistou o ar”, ainda
faz sentido?
Santos Dumont: Faz, mas é incompleta. O ar não foi conquistado à
força. Foi convencido. Ele se abriu quando viu que a inteligência podia ser
mais leve que o medo.
SuperPauta: Para o leitor que chega agora a essa polêmica: os irmãos Wright realizaram voos experimentais anteriores nos Estados Unidos, mas em condições diferentes e com menos demonstrações públicas. O senhor sempre defendeu que voo legítimo deveria ter decolagem autônoma e comprovação aberta. Hoje, como o senhor define essa diferença sem transformar a história em briga de bandeiras?
Santos Dumont: (Endurece com elegância.) Eu não disputo fatos,
disputo ética. Eu voei à luz do dia, em Bagatelle, para o mundo ver. Não
patenteie nada. Os Wright voaram escondidos, com catapultas, querendo contratos
militares. Uma invenção que não pode ser vista nasce incompleta, porque ainda
não pertence ao mundo. Eu queria dar o voo à humanidade; eles queriam vender o
voo. A minha invenção nasceu pública; a deles nasceu negócio.
Santos Dumont: Para mim, moral. O avião deve nascer capaz de sair
do chão por si mesmo. Sem truques de palco. Eu queria uma solução que pudesse
ser repetida por qualquer país, sem depender de segredo industrial.
SuperPauta: Se o senhor encontrasse Orville e Wilbur hoje?
Santos Dumont: Eu diria: “Não escolhemos o mesmo caminho para o
mesmo céu”. E depois faria a pergunta que nunca coube nos jornais: “Vocês
também temeram o uso que fariam da nossa vitória?”.
SuperPauta: Depois do 14-Bis, o senhor criou a Demoiselle,
leve, ágil e relativamente acessível. E publicou seus planos, permitindo que
outros a reproduzissem. Isso foi uma visão precoce de tecnologia aberta? Por
que para o senhor o ar não podia ter dono?
Santos Dumont: Porque o ar é vasto demais para ter dono. Eu não
queria ser o guardião de uma porta. Queria ser o homem que entregou as chaves e
disse: “Façam melhor”.
Santos Dumont: O relógio foi necessidade. Eu não podia tirar as
mãos do manche para ver as horas no bolso. Louis Cartier resolveu isso para
mim. Era sobre controle. Já o chuveiro... (Suspira) Eu sentia muito frio. A
casa em Petrópolis, "A Encantada", era meu ninho, mas eu precisava de
calor. Inventei o chuveiro aquecido a álcool porque, no fundo, eu sempre fui
uma criatura que buscava aquecer o corpo e a alma. Nem o Palácio de Buckingham
tinha aquilo! É a prova de que a engenharia também serve para o carinho consigo
mesmo.
SuperPauta: O senhor se sentiu culpado ao ver aviões como
armas?
Santos Dumont: Eu me senti ferido. Culpado é uma palavra pesada.
Mas eu carreguei essa sombra dentro do tórax por anos. Eu inventei um caminho.
Os homens escolheram a direção.
Santos Dumont: Eu me sentia um pai vendo o filho virar monstro.
Escrevi cartas, publiquei manifestos. Disse: "Por favor, não usem minhas
asas para matar". Eles me chamaram de ingênuo. Disseram que eu não
entendia de geopolítica. Eu entendia de humanidade! Mas a Liga das Nações...
era um clube de surdos. Aquilo começou a me matar muito antes do meu corpo
desistir.
SuperPauta: O senhor destruiu muitos papéis e projetos. Dizem
que queimou as plantas do seu planador. Foi raiva?
Santos Dumont: Foi proteção. (Sua voz treme.) Quando vi o que
fizeram na Primeira Guerra... cavalheiros jogando dardos de aço lá de cima...
eu percebi que cada desenho meu era uma sentença de morte em potencial. Eu me
senti como um pai que descobre que seu filho virou um assassino. Queimei os
projetos para que a inocência deles não fosse corrompida. Se a humanidade
queria se matar, que não usasse a minha caligrafia para isso.
(A Baladeuse segue suspensa sobre Paris, mas o brilho da cidade parece
mudar de temperatura. O relógio no pulso de Dumont continua marcando horas com
a serenidade dos objetos que não entendem tragédias. O inventor, porém,
entende. Há um momento em que a conversa deixa de ser sobre máquinas e passa a
ser sobre o cansaço de ter sido visionário cedo demais.)
SuperPauta: A esclerose múltipla. Como um homem que dominou
máquinas lidou com a rebeldia do corpo?
Santos Dumont: Com surpresa e disciplina. É cruel perceber que
você pode dominar o ar, mas não consegue negociar com o próprio passo. Eu era
piloto de tudo, menos de mim mesmo.
SuperPauta: “A Encantada”, em Petrópolis.
Santos Dumont: Era uma casa que obedecia onde meu corpo já não
obedecia. Os degraus recortados não eram capricho. Eram estratégia de
dignidade. Quando a doença tenta humilhar, você responde com arquitetura.
SuperPauta: O senhor não teve esposa nem filhos. A versão oficial sempre foi a dedicação à ciência. Mas, olhando para trás, houve também uma sensação de que a vida doméstica tradicional não cabia no seu desenho de mundo?
Santos Dumont: (Fica em silêncio por um longo tempo. O vento
agita a toalha da mesa.) Você leu meus biógrafos, não leu? Eles procuram
romances, procuram segredos. A verdade é menos escandalosa e mais triste: eu
era um homem de lastro leve. Para subir, o balonista precisa jogar fora os sacos
de areia. A família, o casamento, as convenções de um marido... tudo isso é
lastro. É peso. Eu precisava ser volátil. E havia... a solidão essencial. Havia
partes de mim que eu não conseguia compartilhar com ninguém, nem em Paris, nem
no Rio. Eu tinha Aída, tinha amigos leais, mas o amor terreno exige uma
aterrissagem que eu nunca soube fazer. Eu casei com o vento. E o vento é um
amante que não deixa herdeiros.
SuperPauta: Em 1932, o Brasil viveu a Revolução
Constitucionalista, um conflito interno que colocou brasileiros contra
brasileiros. O senhor estava no Guarujá e viu aviões sendo usados nesse
enfrentamento. Como foi testemunhar o céu, que o senhor imaginou como símbolo
de progresso, participar de uma guerra entre irmãos?
Santos Dumont: (Seus olhos se enchem de lágrimas.) O zumbido...
eu conhecia o motor. Era o meu motor. Mas o alvo eram meus irmãos. Eu vi o
"Campo de Marte" atacando. Vi aviões brasileiros jogando bombas sobre
brasileiros. O motor que eu ajudei a criar... o zumbido era o mesmo de Bagatelle,
mas a missão era a morte. Ali, no Hotel La Plage, eu entendi que tinha falhado.
A gravidade moral pesou mais que a física. Minha depressão, que já era uma
companheira fiel, tomou conta de tudo.
SuperPauta: Muitos relatos dizem que, nesse momento, a dor ética se tornou insuportável para o senhor. A decisão de partir foi desespero, protesto ou exaustão de alguém que já tinha carregado o mundo inteiro dentro do peito?
Santos Dumont: Eu fui ao banheiro do Grand Hôtel La Plage. Não
havia corda. Usei minhas gravatas. Duas gravatas vermelhas de seda. (Ele toca o
pescoço levemente.) Veja a ironia: o símbolo da minha vaidade e elegância foi o
instrumento do meu silêncio. Eu não queria morrer; eu queria apenas parar de
ouvir o barulho da minha própria culpa. Foi silêncio. Foi meu último voo, mon
ami. Um voo para dentro.
SuperPauta: O senhor se vestiu com extremo cuidado naquele
dia.
Santos Dumont: A elegância pode ser uma forma de despedida digna.
Quando o mundo perde a forma moral, às vezes o homem tenta preservar a forma
pessoal. Não por vaidade. Por último senso de ordem.
SuperPauta: O céu virou corredor aéreo intenso. Isso lhe
agrada?
Santos Dumont: Me impressiona e me entristece. O progresso veio.
Mas trouxe barulho demais e poesia de menos.
SuperPauta: O que acha dos drones?
Santos Dumont: São inevitáveis. Mas me pergunto o que acontece
com a alma do voo quando o piloto desaparece da história. O risco humano também
era parte do encanto e da responsabilidade.
SuperPauta: Hoje, a aviação é essencial para a economia
global, mas também enfrenta críticas por seu impacto climático. Se o senhor
estivesse no século XXI, sua grande obsessão seria o avião elétrico,
combustíveis limpos ou uma nova ética internacional do ar?
Santos Dumont: Se eu estivesse aí, talvez a minha obsessão fosse
um motor que respeitasse o futuro. A técnica não pode crescer como se o planeta
fosse infinito.
SuperPauta: O Brasil atual forma talentos científicos, mas
ainda oferece poucos caminhos estáveis para pesquisa e inovação. O que o Santos
Dumont, que uniu sonho e método, diria a um jovem brasileiro que sente que
precisa vencer mais burocracia do que equações?
Santos Dumont: Eu diria algo que talvez soe antigo, mas é
urgente. Não negociem o direito de imaginar. A falta de investimento não pode
virar falta de coragem. O Brasil tem um talento que não cabe em estatísticas.
Mas talento sem ecossistema vira exílio. Se eu tivesse esperado um ambiente
perfeito, eu não teria saído do chão. Façam barulho com método. E não deixem
que a mediocridade administrativa se disfarce de realismo. O impossível nunca
pediu autorização.
SuperPauta: Para encerrar no espírito desta série: olhando sua vida inteira, o que pesou mais, Alberto, a gravidade física que o senhor venceu ou a gravidade moral que o mundo impôs ao seu sonho?
Santos Dumont: A tristeza. A gravidade você aprende a calcular. A
tristeza às vezes não respeita matemática.
SuperPauta: Qual foi seu maior acerto que não seja o avião?
Santos Dumont: Ter acreditado na partilha. Eu não queria uma
invenção trancada num cofre. Eu queria uma invenção que corresse solta, como
vento bom.
SuperPauta: E seu maior erro?
Santos Dumont: Imaginar que o coração humano evoluiria tão rápido
quanto os motores.
SuperPauta: Alberto, dizem que seu coração foi retirado pelo
médico e conservado em uma esfera dourada. Dizem que ele pesava mais fora do
corpo do que dentro. O senhor finalmente se perdoou?
Santos Dumont: (Ele se levanta. O olhar agora é sereno, quase
transparente.) Um coração cheio de sonhos pesa. Um coração cheio de
arrependimentos pesa ainda mais. Talvez o Dr. Haberfield quisesse entender como
tanto sentimento cabia num órgão tão pequeno. Se me perdoei? Eu entendi que não
somos deuses. Eu dei as asas. O homem escolheu as garras. Hoje, aqui de cima,
onde o ar é rarefeito e puro, eu já não sinto o peso daquele coração na esfera
de ouro. Sinto apenas a leveza que busquei a vida toda. (Ele coloca o chapéu.
Olha para o horizonte.) Agora, se me dá licença... o vento está favorável. E um
aviador nunca deixa o vento esperando.























