quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Pescando o Passado: o roteiro de 1988 que esperou 38 anos para virar filme

 Escrito numa Olivetti eletrônica e guardado por quase quatro décadas, “O pesadelo de Charles” nasceu como um exercício sem qualquer perspectiva de filmagem. Encontrado por acaso em 2026, o roteiro finalmente chegou à tela com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial.

Esta não é daquelas obras que atravessam o tempo porque nunca deixaram de circular. “O pesadelo de Charles” é justametne o contrário: sobreviveu de maneira mais silenciosa: dobrada dentro de uma pasta, esquecida entre letras, poemas, rascunhos e papéis que eu já nem lembrava possuir.

Encontrei o roteiro na mesma pasta de onde havia retirado “Secas do Sertão”, parceria com Vladimir Carvalho que abriu esta seção do SuperPauta. Eu não estava procurando por ele. Quando vi aquela única página datilografada, reconheci que a havia escrito, mas já não recordava os detalhes da história.

A surpresa foi dupla: reencontrar um texto de 1988 e perceber que, apesar da passagem de 38 anos, ainda havia ali uma pequena história capaz de produzir desconforto, ironia e alguma compaixão.

A página original de “O pesadelo de Charles”, escrita e datilografada por Roberto Homem em 1988. O roteiro permaneceu guardado durante 38 anos.

Uma Olivetti na Escola Técnica

Em 1988, eu ia completar 24 anos, cursava Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e trabalhava na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, a ETFRN. Havia ingressado na instituição em 1984. A escola passaria mais tarde a se chamar CEFET-RN e, desde 2008, integra o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte, o IFRN.

Foi no meu setor da Escola Técnica, a Coordenadoria de Integração Escola-Empresa (CIEE), que datilografei o roteiro, numa Olivetti eletrônica. A lembrança da máquina ajuda a situar aquele tempo: corrigir uma palavra exigia atenção; guardar um texto significava conservar a folha; fazer cinema estava muito além das possibilidades de quem escrevia uma cena por curiosidade e exercício.

Não havia produtor, câmera, elenco ou plano de filmagem. Nunca apresentei o roteiro a um concurso, curso ou grupo de cinema. Ele nasceu sem pretensão alguma, alguns meses depois de uma canção composta com um colega da própria ETFRN, o parceiro Boanerges Cezário.

Reconstituição do ambiente de trabalho na ETFRN em 1988. O roteiro foi datilografado numa máquina eletrônica.

Antes do roteiro, havia “Página Oito”

Boanerges Cezário também havia ingressado na ETFRN no concurso de 1984, embora trabalhasse em outro setor. Em 1988, fizemos juntos “Página Oito”: a letra foi escrita a quatro mãos e a melodia ficou a cargo dele.

O título se referia à página policial do Diário de Natal, órgão da imprensa potiguar no qual eu trabalharia em meados dos anos 1990. Naquele tempo, a página oito era território de crimes, sangue, fotografias fortes e relatos que misturavam tragédia, sensacionalismo e curiosidade popular. A canção procurava reproduzir esse universo. Era, como a própria página, puro sangue.

O Charles da música não correspondia a uma única pessoa. O nome reunia duas referências muito presentes no imaginário da época. De um lado, Charles Bronson, astro dos filmes de ação e vingança que lotavam cinemas e alimentavam a cultura da violência transformada em espetáculo. De outro, Charles Manson, ainda lembrado pela chacina que vitimou Sharon Tate e pelos crimes atribuídos ao grupo conhecido como sua “família”.

Meses depois, transportei deliberadamente aquele nome para o roteiro. O Charles do filme não é o personagem da canção, mas nasce da mesma atmosfera: violência, culpa, fantasia e brutalidade escondidas sob uma narrativa aparentemente segura de si.

PÁGINA OITO

Boanerges Cezário e Roberto Homem — 1988

À noite, o silêncio
Prenúncio para um dia de caos
Poetas e loucos
Conspiram num murmúrio infernal

Nos motéis, na penumbra
Duplo homicídio
A mocinha cravada pela fúria assassina
E o seu macho estourado: calibre 45

Que situação, que situação
Que situação, que situação
(Ah, que situação...)

A boca do lixo na linha final
A “família” de Charles já não é ficção
O retrato de Bronson é pôster de jornal
Violência, sangue, prazer brutal

Seu êxtase sadô liberado afinal
Um êxtase sadô liberado afinal!

Que situação, que situação
Que situação, ô que situação
Que situação...
Que situação...
(Situação...)

“Página Oito” possui uma gravação antiga, feita por Babal Galvão em voz e violão, e também uma versão recente com novo arranjo produzido com inteligência artificial, disponível nas plataformas digitais.

Ouça a versão do Spotify, interpretada pela banda de IA Arkamundi, no álbum "Cezário & Homem: Cadernos de Canções 1980s", que reúne parcerias minhas com Boanerges naquela década. 

Uma vida inventada diante de um copo

O roteiro cabe numa única página. Depois de um estampido, Charles aparece sentado numa cadeira, com um copo de uísque na mão, conversando com um velho amigo. Ele recorda o gol mais bonito de sua vida, uma eleição triunfal, as mulheres que o desejavam e a amizade que teria sobrevivido a tudo.

Mas as imagens não confirmam suas palavras. Elas revelam outra realidade.

Charles não está exatamente mentindo sobre o que aconteceu. Ele parece narrar a vida que poderia ter vivido caso não tivesse passado vinte anos na prisão por um crime cometido pelo próprio amigo. O craque que recebe um passe de Zico e dribla os zagueiros diante de 120 mil pessoas é, na realidade, um preso disputando uma partida improvisada sob a vigilância de guardas. O prefeito eleito de Natal é o presidente escolhido por uma associação de alcoólicos dentro da cadeia. As mulheres são parte da fantasia; por trás dela existe a violência que sofreu no cárcere.

O contraste entre a fala e a imagem é o mecanismo central do filme. Charles transforma trauma em façanha e humilhação em glória. Conta uma versão da própria vida capaz de lhe devolver, ainda que por poucos minutos, aquilo que lhe foi roubado.

Assista a “O pesadelo de Charles”

“O pesadelo de Charles”. Roteiro escrito em 1988 e transformado em filme em 2026.

Atenção: a partir deste ponto, o texto comenta o desfecho do filme. Recomenda-se assistir antes de continuar a leitura.

O amigo que não responde

O estampido ouvido no início não é apenas um recurso para criar atmosfera. É o disparo que matou o homem a quem Charles dirige todo o monólogo.

O amigo já está morto. Charles fala com o cadáver como se ainda estivesse diante de alguém capaz de escutá-lo. A escolha torna ainda mais perturbadora a serenidade com que recorda a antiga amizade.

Esse homem havia assassinado a esposa de Charles depois que ela se recusou a manter relações sexuais com ele. Em seguida, forjou provas e fez com que o amigo passasse vinte anos na prisão por um crime que não cometera. Ainda assim, Charles insiste em dizer que não consegue sentir raiva.

A frase parece anunciar o perdão. O corpo no chão revela outra coisa.

Charles não superou o passado. Também não recuperou os anos perdidos. O que faz é construir uma biografia imaginária diante daquele que destruiu sua vida. Somente depois de narrar tudo o que poderia ter sido ele encerra, à bala, a amizade que afirma preservar.

As fotografias, o copo de uísque e a cadeira vazia ajudam a recompor uma amizade atravessada por culpa, vingança e vinte anos de prisão.

Quando a tecnologia alcançou o papel

Em 1988, filmar esse roteiro exigiria recursos que eu não tinha. Em 2026, a situação era outra. A antiga folha datilografada serviu de base para a criação das cenas, das personagens e dos ambientes com ferramentas de inteligência artificial. As imagens foram animadas, receberam narração, trilha sonora e montagem.

A tecnologia não criou a história. Também não substituiu a decisão humana sobre o que mostrar, esconder, cortar ou preservar. Ela ofereceu meios para realizar um filme que havia nascido antes mesmo de computadores pessoais, internet, redes sociais ou plataformas de vídeo fazerem parte da vida cotidiana.

Há uma pequena ironia nisso. Um roteiro datilografado numa Olivetti eletrônica encontrou, quase quatro décadas depois, as ferramentas capazes de colocá-lo em movimento.


O PESADELO DE CHARLES

Roteiro e concepção original: Roberto Homem

Roteiro escrito em: 1988

Realização audiovisual: 2026

Imagens criadas o ChatGPT

Animações: Grok

Trilha sonora criada com Suno

Montagem: CapCut

O que permaneceu na pasta

“O pesadelo de Charles” não estava esperando conscientemente para ser filmado. Era apenas uma folha entre muitas outras. Talvez seja justamente isso que torne seu retorno tão significativo.

Quando guardamos um texto, não preservamos somente as palavras. Guardamos também a pessoa que éramos ao escrevê-lo, as referências daquele tempo, as máquinas que usávamos, os lugares onde trabalhávamos e as possibilidades que ainda não existiam.

Em 1988, Charles coube numa página. Em 2026, saiu da pasta, ganhou rosto, voz, movimento e finalmente contou seu pesadelo.

Pescando o Passado
Poemas, letras, músicas, roteiros e histórias que o tempo guardou.

Conheça a página da série.

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