E se Jesus tivesse nascido na Ribeira, crescido nas Rocas, reunido seus apóstolos por concurso e percorrido o Rio Grande do Norte pregando um evangelho de justiça, fraternidade e defesa da vida?
Em Jesus, o papa-jerimum, o médico, jornalista, poeta e memorialista José Fernandes Pedrosa transfere para o território potiguar alguns dos episódios mais conhecidos da trajetória de Cristo. O resultado é uma narrativa construída com humor, irreverência, crítica social e um conhecimento muito particular das cidades, dos costumes e das contradições do Rio Grande do Norte.
A narrativa começa com Maria e José atravessando o sertão nordestino para fugir da seca. Ela, grávida e montada num jumento; ele, carpinteiro, caminhando sob o sol e tentando encontrar um lugar onde o filho possa nascer.
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| Na releitura de José Pedrosa, Maria e José atravessam o sertão nordestino em direção a Natal. Ilustração original: Emanuel Amaral | Recriação colorida com auxílio de inteligência artificial. |
Depois de passarem por maternidades sem condições de atendimento, enfrentarem burocracia, falta de água, greve e escassez de médicos, chegam à Ribeira. É diante do Teatro Alberto Maranhão que nasce o menino anunciado pelos profetas.
A cena reúne o sagrado e o cotidiano: um médico que passava pelo local, um bêbado com uma garrafa de cachaça, uma toalha retirada de um bar e até Câmara Cascudo, que surge para dar as boas-vindas ao recém-nascido.
Um Cristo criado nas Rocas
Os anos passam e Jesus cresce no bairro das Rocas, jogando bola na praia, soltando pipa, disputando partidas de botão e aprendendo a tocar acordeom, flauta, violão, cavaquinho, bandolim, pandeiro, zabumba e triângulo.
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| Criado nas Rocas, Jesus aparece integrado ao cotidiano e aos personagens populares de Natal. Ilustração original: Emanuel Amaral | Recriação colorida com auxílio de inteligência artificial. |
Já adulto, tenta seguir diferentes profissões. Joga como centroavante do ABC, trabalha como garçom, ingressa na polícia, passa pelo matadouro público, atua como auxiliar de enfermagem, vende na feira e chega a ensinar na rede pública. Em todas elas, porém, sua bondade e sua incapacidade de se adaptar às injustiças acabam criando problemas.
O humor nasce justamente desse choque entre os princípios de Cristo e uma sociedade organizada pela esperteza, pela burocracia, pela desigualdade e pelo interesse.
Um evangelho pela geografia potiguar
Depois de passar quarenta dias nas dunas de Genipabu, onde enfrenta as tentações do Demônio, Jesus inicia sua missão. Reúne os apóstolos e segue por diferentes regiões do estado.
O itinerário transforma o Rio Grande do Norte numa espécie de território bíblico reinventado. Natal, Genipabu, Macau, Jardim de Piranhas, Caicó, Alexandria e Mossoró, entre outros lugares, tornam-se cenário de pregações, milagres, conflitos políticos, festas, partidas de futebol e encontros com personagens reconhecíveis da cultura potiguar.
José Pedrosa não utiliza essas localidades apenas como pano de fundo. Cada cidade oferece elementos de sua história, de seus costumes e de seu imaginário. O sertão, o litoral, as dunas, o rio Potengi, as salinas de Macau e as rivalidades do futebol mossoroense passam a integrar a própria construção da narrativa.
Há também referências a figuras como Câmara Cascudo e a tipos populares, jornalistas, políticos, servidores públicos, jogadores, torcedores e personagens de rua. Assim, o livro cria uma cartografia afetiva e satírica do estado.
O riso como forma de crítica
Embora seja leve e frequentemente engraçado, Jesus, o papa-jerimum não se resume a uma sucessão de piadas. A releitura dos episódios bíblicos permite ao autor comentar problemas bastante terrenos.
A dificuldade de acesso à saúde aparece já no nascimento de Jesus. Ao longo da caminhada surgem a burocracia estatal, o oportunismo político, o abandono dos mais pobres, a precarização do serviço público, os privilégios das autoridades, a degradação ambiental e a exploração turística sem limites.
Até os milagres são atravessados por questões sociais. O Cristo imaginado por José Pedrosa procura alimentar os famintos, proteger a natureza, acolher os marginalizados e lembrar aos homens que a fé não pode ser separada da responsabilidade pelo mundo em que vivem.
A irreverência, portanto, não esvazia a mensagem cristã. Ao contrário: muitas vezes é justamente pelo absurdo e pelo riso que o livro recupera ideias como solidariedade, justiça, igualdade e respeito à vida.
Entre o cordel e a paródia bíblica
A narrativa apresenta forte oralidade. Há exageros, trocadilhos, causos, referências populares e situações que lembram a liberdade inventiva da literatura de cordel.
No prefácio, o médico e escritor Iaperi Araújo define a obra como uma “verdadeira saga nordestina”, construída a partir das histórias contadas pelo povo e das tradições da literatura regional.
O narrador participa constantemente da brincadeira. Faz comentários, conversa com o leitor, atualiza episódios bíblicos e mistura tempos históricos sem a preocupação de esconder os anacronismos. É nesse jogo que personagens e acontecimentos conhecidos ganham novas funções dentro do universo potiguar.
O texto não pretende reconstituir a vida de Cristo nem substituir a narrativa religiosa. Sua proposta é imaginar o que aconteceria se aquela história atravessasse o sertão e encontrasse nossas instituições, nossos costumes, nossas rivalidades e nossas formas particulares de enfrentar as dificuldades.
Entre a medicina, o jornalismo e a literatura
José Fernandes Pedrosa nasceu em Alexandria, no Oeste potiguar, e mudou-se ainda criança para Mossoró, onde estudou e começou sua vida profissional. Também viveu em Recife, trabalhando nos Diários Associados, com passagem pelo Diário de Pernambuco e pela TV Rádio Clube.
Formado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, exerceu a Ortopedia em Mossoró e Natal e integrou o quadro de saúde da Polícia Militar. Mais tarde, já radicado em Brasília, passou a atuar também na área da Psiquiatria. A essa formação acrescentou o curso de Jornalismo, concluído na Universidade Potiguar.
Médico, jornalista, poeta e memorialista, Pedrosa desenvolveu uma produção que transitou por diferentes gêneros. Além do romance Jesus, o papa-jerimum, publicou a biografia Clóvis Sarinho, personagem e narrador da história da medicina; organizou a coletânea de poesia popular Versos sacânicos; escreveu o cordel Como fazer um deputado, os versos de Dieta da poesia, artigos médicos reunidos em Álcool, uso e abuso e as coleções Pensamentos bem-humorados e Pensamentos edificantes.
Essa trajetória ajuda a compreender a combinação presente em Jesus, o papa-jerimum. O conhecimento da medicina aparece na crítica à precariedade da saúde; o jornalismo, na observação das instituições e dos tipos sociais; a poesia popular e o cordel, na oralidade, no exagero e no humor. O romance não foi, portanto, uma experiência isolada, mas parte de uma obra marcada pelo encontro entre ciência, memória, cultura popular e sátira.
José Pedrosa morreu em Brasília, em 19 de março de 2021, em decorrência de complicações da Covid-19. Sua produção permanece como testemunho de um autor capaz de abordar assuntos sérios sem abrir mão da irreverência e do riso. Fonte: Território Livre/Tribuna do Norte
O podcast sobre o livro
Nesta edição do Capítulo Potiguar, Nísia e Luís conversam sobre a viagem proposta por José Pedrosa, o humor da narrativa, a presença da cultura popular e as críticas sociais escondidas — ou nem tanto — nas aventuras do Cristo papa-jerimum.
É bom lembrar que não se trata de audiolivro nem de leitura dramatizada. É uma conversa de apresentação e análise da obra, produzida com auxílio de inteligência artificial.
Atenção: o episódio comenta acontecimentos importantes do livro e contém spoilers, inclusive sobre a parte final da narrativa.
Ouça o episódio
Conheça o livro
Jesus, o papa-jerimum, de José Fernandes Pedrosa, foi publicado originalmente em 2000. O exemplar dessa primeira edição apresentado nesta matéria tem 98 páginas, revisão de Maria José Fernandes Diniz, diagramação eletrônica de Alessandro Amaral e capa e ilustrações de Emanuel Amaral. A impressão foi realizada pela Cartgraf Editora.
Em 2015, a obra ganhou uma segunda edição pelo Clube de Autores. Catalogada em formato A5 e com 128 páginas, essa edição passou a ser oferecida em versões impressa e digital e continua disponível para venda. As diferenças de paginação podem decorrer do novo projeto editorial, não sendo possível afirmar, apenas com os dados disponíveis, que o texto tenha sido ampliado.
As imagens que acompanham esta matéria foram recriadas em cores, com auxílio de inteligência artificial, a partir das ilustrações originais de Emanuel Amaral. Procurou-se preservar o humor, a composição e as principais características visuais dos desenhos publicados no livro.
Mais do que imaginar Jesus nascido no Rio Grande do Norte, José Pedrosa pergunta o que aconteceria se sua mensagem encontrasse nossas filas, nossas instituições, nossos preconceitos, nossas rivalidades e nossa capacidade de transformar adversidade em humor.
Neste evangelho potiguar, o caminho começa na Ribeira, atravessa o sertão e termina lembrando que nenhuma fé faz sentido quando se afasta da justiça, da solidariedade e da defesa da vida.
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