sábado, 19 de setembro de 2026

Capítulo Potiguar: Jesus, o papa-jerimum


E se Jesus tivesse nascido na Ribeira, crescido nas Rocas, reunido seus apóstolos por concurso e percorrido o Rio Grande do Norte pregando um evangelho de justiça, fraternidade e defesa da vida?

Em Jesus, o papa-jerimum, o médico, jornalista, poeta e memorialista José Fernandes Pedrosa transfere para o território potiguar alguns dos episódios mais conhecidos da trajetória de Cristo. O resultado é uma narrativa construída com humor, irreverência, crítica social e um conhecimento muito particular das cidades, dos costumes e das contradições do Rio Grande do Norte.

A narrativa começa com Maria e José atravessando o sertão nordestino para fugir da seca. Ela, grávida e montada num jumento; ele, carpinteiro, caminhando sob o sol e tentando encontrar um lugar onde o filho possa nascer.

Na releitura de José Pedrosa, Maria e José atravessam o sertão nordestino em direção a Natal. Ilustração original: Emanuel Amaral | Recriação colorida com auxílio de inteligência artificial.

Depois de passarem por maternidades sem condições de atendimento, enfrentarem burocracia, falta de água, greve e escassez de médicos, chegam à Ribeira. É diante do Teatro Alberto Maranhão que nasce o menino anunciado pelos profetas.

A cena reúne o sagrado e o cotidiano: um médico que passava pelo local, um bêbado com uma garrafa de cachaça, uma toalha retirada de um bar e até Câmara Cascudo, que surge para dar as boas-vindas ao recém-nascido. 

Um Cristo criado nas Rocas

Os anos passam e Jesus cresce no bairro das Rocas, jogando bola na praia, soltando pipa, disputando partidas de botão e aprendendo a tocar acordeom, flauta, violão, cavaquinho, bandolim, pandeiro, zabumba e triângulo.

Criado nas Rocas, Jesus aparece integrado ao cotidiano e aos personagens populares de Natal. Ilustração original: Emanuel Amaral | Recriação colorida com auxílio de inteligência artificial.

Já adulto, tenta seguir diferentes profissões. Joga como centroavante do ABC, trabalha como garçom, ingressa na polícia, passa pelo matadouro público, atua como auxiliar de enfermagem, vende na feira e chega a ensinar na rede pública. Em todas elas, porém, sua bondade e sua incapacidade de se adaptar às injustiças acabam criando problemas.

O humor nasce justamente desse choque entre os princípios de Cristo e uma sociedade organizada pela esperteza, pela burocracia, pela desigualdade e pelo interesse.

Um evangelho pela geografia potiguar

Depois de passar quarenta dias nas dunas de Genipabu, onde enfrenta as tentações do Demônio, Jesus inicia sua missão. Reúne os apóstolos e segue por diferentes regiões do estado.

A caminhada de Jesus transforma cidades e paisagens do Rio Grande do Norte em território de uma narrativa bíblica reinventada. Ilustração original: Emanuel Amaral | Recriação colorida com auxílio de inteligência artificial.

O itinerário transforma o Rio Grande do Norte numa espécie de território bíblico reinventado. Natal, Genipabu, Macau, Jardim de Piranhas, Caicó, Alexandria e Mossoró, entre outros lugares, tornam-se cenário de pregações, milagres, conflitos políticos, festas, partidas de futebol e encontros com personagens reconhecíveis da cultura potiguar.

José Pedrosa não utiliza essas localidades apenas como pano de fundo. Cada cidade oferece elementos de sua história, de seus costumes e de seu imaginário. O sertão, o litoral, as dunas, o rio Potengi, as salinas de Macau e as rivalidades do futebol mossoroense passam a integrar a própria construção da narrativa.

Há também referências a figuras como Câmara Cascudo e a tipos populares, jornalistas, políticos, servidores públicos, jogadores, torcedores e personagens de rua. Assim, o livro cria uma cartografia afetiva e satírica do estado.

O riso como forma de crítica

Embora seja leve e frequentemente engraçado, Jesus, o papa-jerimum não se resume a uma sucessão de piadas. A releitura dos episódios bíblicos permite ao autor comentar problemas bastante terrenos.

A dificuldade de acesso à saúde aparece já no nascimento de Jesus. Ao longo da caminhada surgem a burocracia estatal, o oportunismo político, o abandono dos mais pobres, a precarização do serviço público, os privilégios das autoridades, a degradação ambiental e a exploração turística sem limites.

Até os milagres são atravessados por questões sociais. O Cristo imaginado por José Pedrosa procura alimentar os famintos, proteger a natureza, acolher os marginalizados e lembrar aos homens que a fé não pode ser separada da responsabilidade pelo mundo em que vivem.

A irreverência, portanto, não esvazia a mensagem cristã. Ao contrário: muitas vezes é justamente pelo absurdo e pelo riso que o livro recupera ideias como solidariedade, justiça, igualdade e respeito à vida.

Entre o cordel e a paródia bíblica

A narrativa apresenta forte oralidade. Há exageros, trocadilhos, causos, referências populares e situações que lembram a liberdade inventiva da literatura de cordel.

No prefácio, o médico e escritor Iaperi Araújo define a obra como uma “verdadeira saga nordestina”, construída a partir das histórias contadas pelo povo e das tradições da literatura regional.

O narrador participa constantemente da brincadeira. Faz comentários, conversa com o leitor, atualiza episódios bíblicos e mistura tempos históricos sem a preocupação de esconder os anacronismos. É nesse jogo que personagens e acontecimentos conhecidos ganham novas funções dentro do universo potiguar.

O texto não pretende reconstituir a vida de Cristo nem substituir a narrativa religiosa. Sua proposta é imaginar o que aconteceria se aquela história atravessasse o sertão e encontrasse nossas instituições, nossos costumes, nossas rivalidades e nossas formas particulares de enfrentar as dificuldades.

Entre a medicina, o jornalismo e a literatura

José Fernandes Pedrosa reuniu em sua trajetória a medicina, o jornalismo, a literatura e o interesse pela cultura popular. Recriação ilustrada com auxílio de inteligência artificial, baseada em fotografia do autor.
 
José Fernandes Pedrosa nasceu em Alexandria, no Oeste potiguar, e mudou-se ainda criança para Mossoró, onde estudou e começou sua vida profissional. Também viveu em Recife, trabalhando nos Diários Associados, com passagem pelo Diário de Pernambuco e pela TV Rádio Clube.

Formado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, exerceu a Ortopedia em Mossoró e Natal e integrou o quadro de saúde da Polícia Militar. Mais tarde, já radicado em Brasília, passou a atuar também na área da Psiquiatria. A essa formação acrescentou o curso de Jornalismo, concluído na Universidade Potiguar.

Médico, jornalista, poeta e memorialista, Pedrosa desenvolveu uma produção que transitou por diferentes gêneros. Além do romance Jesus, o papa-jerimum, publicou a biografia Clóvis Sarinho, personagem e narrador da história da medicina; organizou a coletânea de poesia popular Versos sacânicos; escreveu o cordel Como fazer um deputado, os versos de Dieta da poesia, artigos médicos reunidos em Álcool, uso e abuso e as coleções Pensamentos bem-humorados e Pensamentos edificantes.

Essa trajetória ajuda a compreender a combinação presente em Jesus, o papa-jerimum. O conhecimento da medicina aparece na crítica à precariedade da saúde; o jornalismo, na observação das instituições e dos tipos sociais; a poesia popular e o cordel, na oralidade, no exagero e no humor. O romance não foi, portanto, uma experiência isolada, mas parte de uma obra marcada pelo encontro entre ciência, memória, cultura popular e sátira.

José Pedrosa morreu em Brasília, em 19 de março de 2021, em decorrência de complicações da Covid-19. Sua produção permanece como testemunho de um autor capaz de abordar assuntos sérios sem abrir mão da irreverência e do riso. Fonte: Território Livre/Tribuna do Norte 

O podcast sobre o livro

Nesta edição do Capítulo Potiguar, Nísia e Luís conversam sobre a viagem proposta por José Pedrosa, o humor da narrativa, a presença da cultura popular e as críticas sociais escondidas — ou nem tanto — nas aventuras do Cristo papa-jerimum.

É bom lembrar que não se trata de audiolivro nem de leitura dramatizada. É uma conversa de apresentação e análise da obra, produzida com auxílio de inteligência artificial.

Atenção: o episódio comenta acontecimentos importantes do livro e contém spoilers, inclusive sobre a parte final da narrativa.

Ouça o episódio


Conheça o livro

Publicado originalmente em 2000, Jesus, o papa-jerimum ganhou uma segunda edição pelo Clube de Autores em 2015. Composição visual criada com auxílio de inteligência artificial a partir de fotografia do exemplar original.

Jesus, o papa-jerimum
, de José Fernandes Pedrosa, foi publicado originalmente em 2000. O exemplar dessa primeira edição apresentado nesta matéria tem 98 páginas, revisão de Maria José Fernandes Diniz, diagramação eletrônica de Alessandro Amaral e capa e ilustrações de Emanuel Amaral. A impressão foi realizada pela Cartgraf Editora.

Em 2015, a obra ganhou uma segunda edição pelo Clube de Autores. Catalogada em formato A5 e com 128 páginas, essa edição passou a ser oferecida em versões impressa e digital e continua disponível para venda. As diferenças de paginação podem decorrer do novo projeto editorial, não sendo possível afirmar, apenas com os dados disponíveis, que o texto tenha sido ampliado.

As imagens que acompanham esta matéria foram recriadas em cores, com auxílio de inteligência artificial, a partir das ilustrações originais de Emanuel Amaral. Procurou-se preservar o humor, a composição e as principais características visuais dos desenhos publicados no livro.

Mais do que imaginar Jesus nascido no Rio Grande do Norte, José Pedrosa pergunta o que aconteceria se sua mensagem encontrasse nossas filas, nossas instituições, nossos preconceitos, nossas rivalidades e nossa capacidade de transformar adversidade em humor.

Neste evangelho potiguar, o caminho começa na Ribeira, atravessa o sertão e termina lembrando que nenhuma fé faz sentido quando se afasta da justiça, da solidariedade e da defesa da vida.

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