sábado, 26 de setembro de 2026

Capítulo Potiguar — Universo e Vocabulário do Grande Sertão


Há livros que explicam uma obra; outros ensinam o leitor a entrar nela. Universo e Vocabulário do Grande Sertão, de Nei Leandro de Castro, pertence à segunda categoria. Publicado originalmente em 1970, o estudo nasceu de uma pesquisa iniciada em Natal, cinco anos antes, e ainda oferece uma porta de entrada generosa para a linguagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

O ponto decisivo é que Nei não trata as palavras de Rosa como obstáculos a serem removidos. Ao acompanhar neologismos, arcaísmos, regionalismos, sons e construções inesperadas, ele mostra que a linguagem é parte do próprio sertão inventado pelo romance — um sertão que é geografia, memória, imaginação e mundo. 

Um livro para atravessar a linguagem

Em 1965, Nei Leandro de Castro começou, em Natal, a recolher palavras, formas e expressões de Grande Sertão: Veredas. O trabalho recebeu, em 1967, o Prêmio Mário de Andrade, do Instituto Nacional do Livro, e chegou às livrarias em 1970. Nesta segunda edição revista, publicada pela Achiamé em 1982, o autor aprofunda um percurso que não se limita a definir termos difíceis.

O livro se divide em duas partes: O Universo: Veredas e O Vocabulário. A primeira situa o leitor diante do alcance da obra de Guimarães Rosa; a segunda organiza uma investigação minuciosa de palavras, sentidos e hipóteses. Há quase 1.500 vocábulos recolhidos que não apareciam nos dicionários consultados pelo pesquisador.

O sertão como mundo

Para Guimarães Rosa, o sertão nunca foi somente uma região delimitada no mapa. É uma experiência humana: lugar de travessias, impasses morais, violência, desejo, fé e invenção. A linguagem acompanha essa amplitude. Ela não reproduz um falar pronto; cria uma forma de dizer que faz o mundo parecer novo outra vez.

Nei Leandro percebe esse ponto com precisão. Em vez de reduzir Rosa a um autor “difícil”, ele convida o leitor a escutar a arquitetura das frases, o sabor das palavras antigas, a força das expressões populares e a ousadia dos termos inventados. O vocabulário não está à margem do romance: é uma de suas matérias centrais.


Um vocabulário que também conta histórias

O mérito do estudo está justamente em recusar respostas fáceis. Diante de uma palavra rara ou de uma expressão criada por Rosa, Nei Leandro não fecha a questão quando ela permanece aberta. Registra aproximações, possíveis raízes, ressonâncias regionais, arcaicas, indígenas e estrangeiras. Em muitos casos, a ambiguidade é preservada — porque ela também é parte da literatura.

Esse cuidado impede que o livro se transforme em simples glossário. O leitor encontra caminhos de leitura, não uma chave que pretenda encerrar o mistério de Grande Sertão: Veredas. E talvez esteja aí sua atualidade: o estudo ajuda a avançar, mas não elimina a aventura de se perder um pouco pelas veredas.


Natal, cidade de memória e pesquisa

Embora tenha nascido em Caicó, Nei Leandro de Castro costumava definir Natal como sua cidade. Em entrevista concedida ao Zona Sul, em 2010, recordou a chegada à capital potiguar aos cinco anos, as lembranças da Rua Apodi, o futebol no América, o rio Potengi e a descoberta da leitura.

Foi em Natal também que se consolidou parte decisiva de sua formação literária. No Atheneu Norte-Rio-Grandense, recebeu estímulos de Zila Mamede, Newton Navarro e Luiz Rabelo. Mais tarde, no curso de Direito da UFRN, aproximou-se de professores e intelectuais que admirava, entre eles Câmara Cascudo, Américo de Oliveira Costa, Véscio Barreto e Edgar Barbosa.

É nesse ambiente que começou a pesquisa de Universo e Vocabulário do Grande Sertão. Antes de se firmar como romancista, poeta, cronista e publicitário, Nei já exercitava uma leitura paciente, curiosa e rigorosa de uma das obras mais radicais da literatura brasileira.

Recriação com IA de instante da entrevista para o jornal Zona Sul, em 2010. 

Leia também: Entrevista com Nei Leandro de Castro, publicada pelo Zona Sul em 2010.

Ouça o episódio

Neste episódio do Capítulo Potiguar, Nísia e Luís conversam sobre o livro de Nei Leandro de Castro e sobre a linguagem de Guimarães Rosa. Não é uma leitura dramatizada nem um audiolivro: é um convite para acompanhar a obra, suas palavras e suas perguntas.


Conheça o livro

Universo e Vocabulário do Grande Sertão
Nei Leandro de Castro
Achiamé, 2ª edição revista, 1982
205 páginas

Compre o livro na Amazon

Universo e Vocabulário do Grande Sertão é, ao mesmo tempo, fruto de uma pesquisa potiguar e companheiro de viagem para quem deseja reler — ou finalmente encarar — o romance de Guimarães Rosa. Nei Leandro de Castro não simplifica o sertão de Rosa. Faz algo mais valioso: ajuda a perceber que cada palavra pode abrir uma nova vereda.


Nenhum comentário:

Postar um comentário