O cenário
O estúdio da TV Universitária está iluminado,
embora o campus durma.
Não é exatamente o estúdio de 21 de maio de 1983.
Há câmeras antigas sobre tripés pesados, cabos enrolados no chão e um relógio
redondo que parou alguns segundos antes das dez da noite. Sobre uma mesa baixa,
um copo d’água, um pequeno crucifixo e uma pasta de cartolina com duas datas
escritas à mão: 26 DE MAIO DE 1959
e 21 DE MAIO DE 1983.
Atrás do cenário, onde deveria haver apenas uma
cortina, vê-se outra Natal. Pela abertura passam, sem ruído, vinte e dois
bispos e arcebispos, técnicos do governo, Juscelino Kubitschek e um Celso
Furtado ainda jovem, carregando mapas e papéis. Mais longe, uma antena
transmite lições para escolas radiofônicas do interior. A cidade parece
dividida entre um encontro que deseja planejar o Nordeste e um rádio que ensina
gente adulta a ler o próprio mundo.
Dom Hélder está sentado na mesma cadeira em que
concedeu entrevista ao Memória Viva. É pequeno, magro, veste batina
branca e uma cruz simples. As mãos, porém, não param. Abrem-se, aproximam-se,
desenham no ar aquilo que as palavras ainda não disseram.
Entro com um gravador. Há algo de retorno neste
encontro. A TV Universitária faz parte da UFRN, onde me formei em Comunicação
Social, com habilitação em Jornalismo. Não estudei exatamente entre aquelas
câmeras, mas reconheço nelas a mesma universidade que me ensinou o ofício.
Dom Hélder acompanha meu olhar e sorri.
— Então você não veio apenas me entrevistar, meu
querido irmão. Veio também conversar com sua própria memória.
— Talvez as duas coisas.
— É assim mesmo. Quando uma pergunta é verdadeira,
nunca sabemos inteiramente a quem ela será dirigida.
Coloco o gravador sobre a mesa.
Ele aponta para o aparelho:
— Isso guarda tudo?
— Quase tudo.
— Ainda bem que deixou um espaço para Deus.
A luz vermelha de uma das câmeras se acende
sozinha.
A entrevista
SuperPauta — Dom Hélder, por que voltamos a encontrá-lo justamente no estúdio do Memória Viva, da TV Universitária, em Natal?
Dom Hélder — Meu querido
irmão, talvez porque uma televisão universitária tenha uma vocação muito
bonita: não deixar que o presente se julgue órfão. Aqui fui convidado a olhar a
caminhada já feita. Hoje, volto para descobrir se aquela memória continuou viva
ou se virou apenas arquivo. Arquivo é precioso, mas pode dormir; memória viva
incomoda, pergunta, exige continuidade. E Natal não é para mim um ponto perdido
no mapa das viagens. Nesta cidade, vi a Igreja tentar unir oração, estudo e
decisão concreta diante da pobreza do Nordeste. Voltar aqui é perguntar o que
fizemos com as promessas daquele tempo.
SuperPauta — O senhor se lembra da entrevista concedida à TVU em 1983?
Dom Hélder — Lembro-me mais
do clima do que das frases. As frases pertencem um pouco a quem pergunta, um
pouco a quem responde e muito a quem escuta. Eu falava com as mãos, não é
verdade? Sempre desconfiei de palavra que não movimenta nem o corpo de quem a
pronuncia. Havia a hospitalidade potiguar, perguntas sem bajulação e a sensação
de que a TVU guardava não uma celebridade, graças a Deus, mas um testemunho. Se
hoje alguém assistir àquela conversa, peço apenas que não procure um homem
pronto. Eu estava, como sempre estive, a caminho.
SuperPauta — Esta conversa acontece numa emissora da UFRN, onde me formei jornalista. O que uma universidade pública e seus meios de comunicação devem à sociedade?
Dom Hélder — Uma
universidade pública recebe do povo muito mais do que recursos: recebe
confiança. Deve devolver conhecimento, consciência crítica e coragem para fazer
perguntas que talvez desagradem até a quem a sustenta. A televisão
universitária não nasceu para imitar a televisão comercial em escala menor.
Pode dar tempo à reflexão, guardar a memória, aproximar a ciência da vida
cotidiana e oferecer palavra a quem quase nunca atravessa o enquadramento. Se a
universidade se fecha em si mesma, torna-se uma ilha paga por quem permanece do
lado de fora.
SuperPauta — Sua presença mais decisiva em Natal ocorreu de 24 a 26 de maio de 1959, no II Encontro dos Bispos do Nordeste. O que estava em jogo?
Dom Hélder — Estava em jogo
uma pergunta elementar e terrível: até quando a miséria nordestina seria
tratada como fenômeno da natureza? A seca existe, claro, mas a injustiça não
cai do céu. Reuniram-se em Natal vinte e dois bispos e arcebispos, técnicos,
autoridades e homens capazes de pensar o desenvolvimento com seriedade. Veio o
presidente Juscelino. Celso Furtado trouxe uma leitura que não aceitava remendo
para um problema estrutural. Nós queríamos que a Igreja ajudasse a transformar
o clamor em proposta, e a proposta em obrigação do poder público. Rezar pelo
Nordeste e conservar intactas as causas de sua pobreza seria tomar o santo nome
de Deus em vão.
SuperPauta — Juscelino afirmou depois que o encontro de Natal, presidido pelo senhor, contribuiu para medidas concretas e que a própria Sudene complementava aquele movimento. A Igreja ajudou a criar a Sudene?
Dom Hélder — Cuidado com as
certidões de paternidade, meu irmão. Uma instituição histórica quase nunca tem
um único pai. A Sudene nasceu de muitos estudos, pressões, experiências e
urgências. Celso Furtado foi decisivo na inteligência e na construção do
projeto. Os encontros dos bispos ajudaram a criar ambiente político, reuniram
forças e insistiram que o Nordeste não podia continuar recebendo esmolas no
tempo da calamidade e esquecimento no resto do ano. Se a Igreja teve mérito,
foi o de pôr seu poder de convocação a serviço de uma causa que a ultrapassava.
Não devemos usar o sofrimento do povo para pendurar medalhas no peito dos
bispos.
SuperPauta — O que o senhor viu em Natal que os gabinetes do Rio de Janeiro não conseguiam enxergar?
Dom Hélder — O gabinete olha
o Nordeste por médias, mapas e relatórios. Tudo isso é necessário, mas não
basta. Aqui, a pobreza tinha rosto, família, distância, sede. Ao mesmo tempo,
vi que o povo não era uma massa à espera de salvadores. Havia leigos, padres,
educadores, trabalhadores e comunidades inventando soluções. As escolas
radiofônicas mostravam que uma antena podia ser mais evangélica do que muito
sermão, quando levava alfabetização e consciência a quem fora mantido longe da
escola. Natal nos ensinava que desenvolvimento não é fazer coisas para o povo;
é criar condições para que o povo seja sujeito de sua história.
SuperPauta — O Movimento de Natal articulou educação rural, sindicalização, assistência e participação dos leigos. Aquela experiência influenciou sua visão da Igreja?
Dom Hélder — Sem dúvida. O
Movimento de Natal provava que a pastoral não precisava ficar trancada na
sacristia e que o leigo não era figurante de missa. A fé podia chegar pelo
rádio, pela organização dos trabalhadores, pela formação de lideranças, pelo
cuidado materno e pela luta por direitos. Havia limites, como há em toda
experiência humana, mas existia uma ousadia admirável. Mais tarde, o Movimento
de Educação de Base levaria adiante parte dessa intuição em escala nacional.
Quando o povo aprende a ler, começa também a perceber quem escreveu as regras
que o mantêm por baixo. E isso, naturalmente, assusta quem confunde ordem com
silêncio dos pobres.
SuperPauta — Qual foi a importância de Dom Eugênio Sales nessa história?
Dom Hélder — Dom Eugênio foi
um trabalhador extraordinário da ação social da Igreja e teve papel central na
experiência de Natal. Nós nos aproximamos muito nos encontros dos bispos do
Nordeste. Éramos amigos, embora não fôssemos cópias um do outro. A amizade
verdadeira não exige concordância fabricada; permite franqueza, diferença de
método e até tensão, sem transformar o irmão em inimigo. Ele conhecia de perto
o sertão, a educação pelo rádio, a sindicalização rural e a capacidade dos
leigos. Seria injusto narrar aquela renovação da Igreja nordestina apagando sua
contribuição.
SuperPauta — Essa amizade resistiu às diferenças que se tornaram mais visíveis durante a ditadura?
Dom Hélder — Meu querido
irmão, não me cabe usar a morte para vencer debates que a vida deixou complexos.
Tivemos temperamentos, caminhos e maneiras de agir diferentes. Eu escolhi
denunciar publicamente a tortura, inclusive fora do Brasil, porque dentro dele
tentavam apagar até o meu nome. Dom Eugênio exerceu outras mediações e, em
momentos posteriores, acolheu perseguidos de regimes latino-americanos. Pode-se
examinar criticamente nossas decisões; deve-se fazê-lo. Mas a crítica perde a
verdade quando precisa inventar ódio entre irmãos para organizar o passado em
dois exércitos perfeitamente separados.
SuperPauta — Voltemos ao começo. Quem era Hélder Pessoa Câmara antes de ser Dom Hélder?
Dom Hélder — Era o décimo
primeiro filho de uma família numerosa de Fortaleza, embora nem todos os irmãos
tenham sobrevivido à infância. Meu pai queria que eu entendesse que ser padre
não era uma promoção social; minha mãe me ensinou a escutar. Entrei muito jovem
no Seminário da Prainha e fui ordenado também jovem, com licença especial por
ainda não ter a idade prevista. Eu tinha pressa, Roberto. Talvez Deus tenha
passado a vida inteira me ensinando que pressa pode ser generosidade, mas
também pode ser vaidade. O menino queria entregar-se inteiro antes de saber
direito o que carregava dentro de si.
SuperPauta — O senhor aderiu à Ação Integralista
Brasileira e vestiu a camisa verde. Como o futuro defensor dos direitos humanos
se envolveu com um movimento autoritário?
Dom Hélder — Esta pergunta
não deve ser evitada. Eu era um jovem sacerdote seduzido pela promessa de
ordem, espiritualidade, mobilização e justiça social apresentada pelo
integralismo. Não percebi com a clareza necessária o veneno autoritário, o
nacionalismo que podia esmagar diferenças e a proximidade com experiências
fascistas. Não adianta embelezar o erro dizendo que todos pensavam assim,
porque nem todos pensavam. Também não adianta congelar um homem no seu pior
engano para negar toda conversão. A graça não apaga a responsabilidade; obriga
a encará-la. Se minha vida tem alguma utilidade, talvez seja lembrar que
ninguém está dispensado de rever as próprias fidelidades políticas quando elas
ferem a dignidade humana.
SuperPauta — O senhor rompeu realmente com o
integralismo ou apenas se afastou quando ele perdeu força?
Dom Hélder — Afastei-me de
seu caminho político e de seu rumo totalitário, embora tenha reconhecido
durante muito tempo a sinceridade de pessoas que ali buscavam justiça social.
Talvez nem sempre eu tenha usado a palavra “rompimento” com a nitidez que hoje
se desejaria. Mas a mudança fundamental está no rumo: saí de uma visão que
confiava na disciplina de cima para uma fé cada vez mais comprometida com
liberdade, consciência, democracia e organização dos pobres. Não peço que
julguem essa mudança por uma palavra conveniente. Julguem pelos riscos
assumidos, pelos aliados escolhidos e pelos poderes que passaram a desejar meu
silêncio. Conversão que não muda companhia, prática e consequência corre o
risco de ser apenas maquiagem.
SuperPauta — Houve um momento específico de
conversão?
Dom Hélder — Conversão
raramente é relâmpago único. Há clarões e há amanheceres lentos. O contato com
trabalhadores, favelados e famílias expulsas de qualquer direito foi
desmontando minhas respostas. Depois do Congresso Eucarístico Internacional do
Rio, o cardeal Gerlier, de Lyon, chamou minha atenção para as favelas que cercavam
aquela grande celebração. Era como perguntar: de que vale adorar Cristo no
altar e deixá-lo sem teto logo adiante? A Cruzada São Sebastião nasceu desse
incômodo. Compreendi melhor que a caridade imediata é indispensável, mas, se
não pergunta pelas causas da miséria, pode acabar administrando a injustiça.
SuperPauta — Foi essa inquietação que o levou a
trabalhar pela criação da CNBB?
Dom Hélder — A Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil nasceu porque um país imenso não podia depender
apenas de iniciativas isoladas e correspondência lenta entre dioceses. Era
preciso colegialidade, planejamento pastoral, comunhão e capacidade de agir
diante dos problemas nacionais. Trabalhei por sua criação com o apoio precioso
de monsenhor Montini, futuro Paulo VI, e fui secretário-geral durante doze
anos. Não criei a CNBB sozinho; seria contrário ao espírito da própria
Conferência dizer isso. Meu dom, se houve um, foi aproximar pessoas e fazer
circular ideias. Eu gostava de descobrir quem precisava conversar com quem.
SuperPauta — O senhor era um articulador de bastidores, quase um político dentro da Igreja?
Dom Hélder — Se política
significa cuidar da vida comum e construir caminhos coletivos, não temo a
palavra. Se significa manobra para acumular poder pessoal, então peço que Deus
me livre. Eu telefonava, escrevia, reunia bispos, técnicos, jornalistas,
governantes, jovens, empresários e trabalhadores. A realidade não se transforma
por pureza solitária. Mas há um perigo: o articulador começa a acreditar que a
história depende dele. Por isso eu precisava das vigílias da madrugada. Na
oração, as redes voltavam a ser do Pescador e eu recordava que era apenas um
pequeno fio.
SuperPauta — O senhor dormia pouco e se levantava
de madrugada para rezar e escrever. Era disciplina, mística ou inquietação?
Dom Hélder — Um pouco de
tudo. Desde o seminário fiz amizade com as horas em que a cidade silencia. A
madrugada permite ouvir o que o aplauso do dia encobre e o que o medo da noite
exagera. Eu rezava, revia encontros, escrevia circulares para minhas famílias
espirituais e entregava ao Pai pessoas, problemas e projetos. Não pense que era
sempre consolação. Às vezes a oração é ficar diante de Deus sem resposta, com
os nomes dos torturados e dos famintos pesando no colo. A mística que foge da
realidade é sonífero; a ação que dispensa a mística logo começa a adorar a si
mesma.
SuperPauta — Durante o Concílio Vaticano II, o
senhor quase não falou na grande assembleia, mas trabalhou intensamente fora
dela. Por quê?
Dom Hélder — Porque nem toda
voz precisa ocupar o microfone para influir. Eu temia que um discurso meu,
vindo de quem já era observado e combatido, fechasse portas antes de a ideia
caminhar. Preferi reunir episcopados, aproximar sensibilidades, organizar o
chamado Ecumênico e participar do Grupo da Igreja dos Pobres. Fiz muitas
intervenções por meio de outros, e não havia desonestidade nisso; havia
trabalho comum. O Concílio precisava deixar de olhar o mundo apenas como ameaça
e reaprender a reconhecê-lo como lugar da ação de Deus. Eu sonhava com uma
Igreja menos imperial, mais servidora, capaz de escutar as alegrias e angústias
da humanidade.
SuperPauta — O Pacto das Catacumbas, firmado em
1965 por dezenas de bispos, prometia uma Igreja pobre e sem símbolos de poder.
A promessa foi cumprida?
Dom Hélder — Foi cumprida
por muitos em gestos concretos e descumprida pela Igreja em muitas estruturas.
Alguns deixaram palácios, recusaram títulos, aproximaram-se dos trabalhadores,
organizaram dioceses de modo colegiado. Mas a sedução do privilégio é paciente.
Ela aprende a vestir linguagem evangélica e volta pela porta dos fundos. Eu
mesmo precisava vigiar para não transformar simplicidade em espetáculo pessoal,
como se houvesse vaidade mais refinada do que ser admirado por parecer humilde.
O Pacto não é peça de museu. Continua perguntando onde mora o bispo, quem se
senta à sua mesa, quem pode contrariá-lo e de que lado ele se encontra quando o
pobre disputa terra, teto e voz.
SuperPauta — O senhor foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife em março de 1964, às vésperas do golpe. Como chegou ao Nordeste naquele momento?
Dom Hélder — Cheguei com
alegria e temor. Era um nordestino devolvido ao Nordeste quando o país entrava
numa noite. Em minha mensagem de chegada quis deixar claro que não vinha para
ser servido e que meu coração não teria porteiro ideológico. Eu desejava
dialogar com todos, inclusive com aqueles que me olhavam como inimigo. Mas diálogo
não significa neutralidade diante da vítima e do algoz. A porta aberta deve
acolher também o poderoso; só não pode exigir que o pobre saia para lhe ceder o
lugar.
SuperPauta — O senhor inicialmente manteve
interlocução com militares e chegou a pedir ajuda a autoridades do regime. Isso
contradiz a imagem do resistente?
Dom Hélder — A história real
não tem a limpeza das estátuas. Eu conhecia militares, dialoguei com eles e
procurei intervir para libertar presos ou evitar violências. Nos primeiros
momentos, como muitos, tentei compreender a extensão do que estava acontecendo.
Quando havia uma porta capaz de salvar alguém, eu batia nela, fosse a porta de
um general ou de um carcereiro. Isso não me obrigava a legitimar a ditadura. Ao
contrário: quando a tortura e a supressão das liberdades se tornaram
incontestáveis, calar para conservar acesso seria pagar a entrada com a
consciência dos perseguidos.
SuperPauta — Por que a denúncia da tortura se
tornou central em sua atuação?
Dom Hélder — Porque a
tortura é uma blasfêmia praticada contra a imagem de Deus no corpo humano. Não
importa se o preso é cristão, comunista, ateu, culpado de um crime ou inocente:
ninguém recebe autoridade para quebrar uma pessoa. Vinham mães, esposas,
irmãos; chegavam notícias de choques, espancamentos, desaparecimentos. O Estado
negava e a imprensa era impedida de mostrar. Quando denunciei fora do país,
disseram que eu difamava o Brasil. Meu irmão, quem difama a pátria não é quem
revela a câmara de tortura; é quem a instala, quem a opera e quem manda apagar
o grito.
SuperPauta — Em 1969, seu auxiliar, padre Antônio
Henrique, foi sequestrado, torturado e assassinado. O que morreu com ele?
Dom Hélder — Padre Henrique
era jovem, trabalhava com a juventude e carregava a alegria de quem ainda
esperava muito da vida. Seu corpo foi encontrado com sinais de tortura. Ali
quiseram matar mais do que um sacerdote: quiseram enviar uma mensagem a todos
que caminhavam conosco. Naquele enterro havia dor, indignação e uma multidão
que se recusava a fingir normalidade. Uma parte de nós morreu com Henrique;
outra foi obrigada a nascer mais corajosa. Perdoar os assassinos nunca
significou proteger o assassinato da verdade.
SuperPauta — O senhor sabe quem mandou matá-lo?
Dom Hélder — Não devo
preencher com imaginação aquilo que a justiça e a história não esclareceram de
modo definitivo. Sabemos o ambiente de perseguição, conhecemos grupos
envolvidos na violência política e sabemos que o crime permaneceu sem a
responsabilização devida. A impunidade também é uma forma de mensagem: diz às
vítimas que seus mortos valem menos e aos violentos que podem repetir. Mas a
ausência de uma sentença completa não autoriza acusação leviana. O profeta deve
denunciar com coragem e, justamente por isso, tratar a verdade com reverência.
SuperPauta — Seu nome foi banido dos meios de
comunicação brasileiros. Como é ser transformado em silêncio oficial?
Dom Hélder — É uma
experiência estranha: você continua vivo, mas o poder tenta ensaiar sua morte
pública. Não podiam publicar meu nome, minhas palavras, às vezes nem explicar o
motivo de uma reunião. Entretanto, o silêncio imposto possui frestas. A Rádio
Olinda, as homilias, as cartas, os viajantes, as comunidades e os amigos
levavam adiante o que a grande imprensa não podia dizer. E o mundo começou a
escutar o que o Brasil censurava. Aprendi que voz não é apenas som emitido por
uma garganta; é relação. Quando um povo decide guardar uma palavra, nenhum
decreto consegue apagá-la por inteiro.
SuperPauta — O senhor denunciou a tortura em Paris, em 1970, e passou a ser acusado de falar contra o Brasil no exterior. Houve exagero em sua linguagem?
Dom Hélder — Eu falava
contra a injustiça praticada no Brasil, não contra o Brasil. Pátria não é
sinônimo de governo, muito menos de governo ilegítimo. Quem ama um país não
esconde seus porões para proteger a propaganda. Posso ter cometido imprecisões,
como qualquer homem submetido a informações fragmentadas e urgentes; aceito que
se examine cada afirmação. Mas a existência sistemática de tortura e perseguição
política não era invenção. O exagero maior foi o das máquinas de choque, dos
desaparecimentos e da censura, não o da voz que pediu ao mundo que olhasse.
SuperPauta — O regime trabalhou para impedir que o
senhor recebesse o Prêmio Nobel da Paz. O prêmio lhe fez falta?
Dom Hélder — Não. Fez falta
ao regime a tranquilidade de imaginar que controlava também a consciência do
mundo. As indicações ajudaram a iluminar a causa das vítimas; isso importava.
Quando veio o Prêmio Popular da Paz, o valor pôde servir a projetos concretos.
Troféu guardado numa sala episcopal seria um objeto embaraçoso. O único prêmio
que um pastor pode desejar é descobrir que os sem voz começaram a falar por si
mesmos — e, se falarem para discordar do pastor, melhor ainda.
SuperPauta — O senhor se tornou uma figura mundial.
Nunca houve vaidade nesse papel de “Dom da Paz”?
Dom Hélder — Houve tentação,
certamente. Quem disser que o aplauso de multidões não o toca talvez já esteja
vaidoso da própria imunidade. Eu era recebido em universidades, parlamentos,
igrejas; davam-me títulos e queriam fotografias. Precisava perguntar a mim
mesmo, na madrugada, se o pequeno bispo estava começando a gostar demais da
própria pequenez. A fama pode transportar uma causa, mas também pode substituir
a causa pelo mensageiro. Por isso eu pedia que Deus me ajudasse a tornar-me um
pouco daquilo que as pessoas generosamente imaginavam que eu fosse.
SuperPauta — O senhor defendia a não violência, mas
dizia compreender os jovens que pegaram em armas. Não é uma posição ambígua?
Dom Hélder — É uma posição
que distingue condenação moral de compreensão histórica. Eu não aceitava a
violência da injustiça estrutural, nem a violência da revolta armada, nem a
violência repressiva que vinha esmagá-la. Mas seria indecente colocar as três
no mesmo plano e começar a história quando o oprimido reage. A fome, a terra
concentrada, a humilhação e a tortura já são violência. Aos jovens impacientes
eu dizia: amo sua coragem, compreendo sua indignação, mas temo que as armas
fortaleçam exatamente a máquina que desejam vencer. Não violência não é
passividade; é ação organizada capaz de retirar obediência da injustiça sem
reproduzir o desprezo pela vida.
SuperPauta — O senhor chamou isso de espiral da violência. Como quebrá-la?
Dom Hélder — Primeiro,
reconhecendo a violência que se apresenta de terno, contrato, lei injusta e
mesa farta. Ela costuma ser invisível para quem se beneficia dela. Depois,
organizando uma pressão moral libertadora: gente consciente, unida,
persistente, capaz de constranger instituições sem desumanizar pessoas. Greve,
boicote, mobilização, educação, denúncia, voto, solidariedade internacional —
há muitas formas de luta. A não violência precisa de método e coragem; caso
contrário, vira simples apelo para que o oprimido tenha paciência. Paz sem
justiça é intervalo administrado pelo mais forte.
SuperPauta — A frase mais repetida em seu nome diz
que alimentar o pobre produz fama de santo, mas perguntar pela causa da pobreza
produz acusação de comunismo. O senhor se reconhece nela?
Dom Hélder — Reconheço
sobretudo a experiência que ela resume. O poderoso costuma aceitar a caridade
que alivia a consequência e rejeitar a justiça que toca a causa. Dar pão é
urgente; ninguém pode pedir a um faminto que espere a reforma das estruturas.
Mas, enquanto repartimos o pão de hoje, precisamos perguntar quem possui a
terra, quem fixa o salário, quem controla o crédito, quem lucra com a escassez.
Se essa pergunta recebe um rótulo em vez de resposta, o rótulo está servindo
para proteger privilégios. Cristo não perguntou a ideologia do faminto antes de
multiplicar os pães.
SuperPauta — O senhor era comunista?
Dom Hélder — Não fui
comunista. Minha fé não me permitia aceitar materialismo, partido único,
supressão da liberdade ou qualquer Estado convertido em absoluto. Também não
aceitava um capitalismo que coloca o lucro acima da pessoa e chama de liberdade
o direito do forte de abandonar o fraco. Rejeitar um sistema não santifica
automaticamente o outro. Eu buscava no Evangelho e na doutrina social da Igreja
uma transformação que respeitasse a dignidade humana, a participação e a
liberdade. Para alguns, porém, basta perguntar por reforma agrária ou denunciar
a fome para receber o carimbo de comunista. Carimbos economizam o trabalho de
pensar.
SuperPauta — E a Teologia da Libertação? O senhor
foi um de seus fundadores?
Dom Hélder — Não fui teólogo
sistemático da libertação, e seria injusto ocupar o lugar de quem elaborou essa
reflexão com profundidade. Fui um pastor que viu pobres lendo a Bíblia a partir
da própria vida e percebeu que o Êxodo não era arqueologia. A libertação
integral — do pecado pessoal e das estruturas que produzem morte — pertence ao
coração da mensagem cristã. Houve excessos e simplificações? Naturalmente; toda
corrente humana precisa de crítica. Mas houve também uma campanha para reduzir
qualquer opção pelos pobres a infiltração marxista. Quando o medo da palavra
“libertação” supera o escândalo da escravidão, alguma coisa se perdeu no
caminho.
SuperPauta — A Igreja ficou ao lado dos perseguidos
ou ao lado da ditadura?
Dom Hélder — A Igreja não
cabe numa resposta única. Houve bispos, padres, religiosas e leigos que
apoiaram o golpe, celebraram o novo poder ou silenciaram diante dele. Houve
também quem defendesse presos, escondesse perseguidos, denunciasse tortura,
acompanhasse famílias e pagasse com exílio, prisão ou morte. E houve pessoas
que mudaram ao perceber a realidade. A instituição precisa confessar suas
cumplicidades sem apagar suas resistências. Dizer apenas “a Igreja resistiu” é
falso; dizer apenas “a Igreja apoiou” também não faz justiça a tantos que
arriscaram tudo.
SuperPauta — O senhor permaneceu obediente a uma
instituição que muitas vezes o isolou. Por quê?
Dom Hélder — Porque eu não
amava uma Igreja imaginária, feita apenas das pessoas que concordavam comigo. A
Igreja é povo, sacramento, tradição, conflito, pecado e graça. Houve
incompreensões dolorosas, limitações, portas fechadas. Também houve amizade,
apoio e comunhão, sobretudo de Paulo VI e de tantos irmãos no episcopado.
Obediência não é servilismo; inclui diálogo franco, discernimento e, em certas
horas, sofrimento. Eu quis mudar a Igreja a partir de dentro porque ela também
me formava, me corrigia e me entregava um povo que não era propriedade minha.
SuperPauta — A Igreja ainda exibe riqueza,
clericalismo e distância dos pobres. O que o senhor diria aos bispos de hoje?
Dom Hélder — Diria primeiro
a mim mesmo, para não transformar conselho em superioridade. Perguntemos:
nossas casas, carros, roupas, agendas e cerimônias aproximam ou afastam? O
pobre entra sem medo? A mulher participa das decisões ou apenas sustenta o
trabalho cotidiano? O leigo possui voz real ou recebe tarefas prontas? O
clericalismo não se mede apenas pela cor da roupa; aparece quando o ministro
imagina que a ordenação o tornou dono da consciência alheia. Uma Igreja pobre
não é uma Igreja sem recursos. É aquela cujos recursos não compram distância e
cujo poder se deixa julgar pelo Evangelho.
SuperPauta — Sua geração fez o suficiente para reconhecer o lugar das mulheres na Igreja?
Dom Hélder — Não. As
mulheres sustentaram comunidades, educaram na fé, protegeram perseguidos,
organizaram obras e leram os sinais de Deus, enquanto os lugares formais de
decisão continuaram quase inteiramente masculinos. Eu apoiei maior participação
e escutei mulheres admiráveis, mas também fui homem de meu tempo e não alcancei
todas as consequências dessa igualdade batismal. Não basta agradecer às
mulheres pelo serviço e reservar aos homens a autoridade. A Igreja precisa
escutar sem medo o que o Espírito diz por meio delas, inclusive quando essa
palavra desinstala costumes antigos.
SuperPauta — O que o senhor diria às pessoas que
foram feridas ou expulsas em nome da moral cristã?
Dom Hélder — A primeira
palavra não deve ser uma regra; deve ser um pedido de perdão e uma escuta.
Doutrina sem misericórdia pode tornar-se pedra na mão de quem esqueceu o
próprio pecado. Isso não significa que a Igreja deixe de discernir ou de
anunciar aquilo em que crê. Significa que ninguém pode ser reduzido a uma
condição, uma falha, um afeto ou um rótulo. A porta e o coração precisam
permanecer abertos, não como estratégia de recrutamento, mas porque todos somos
filhos do mesmo Pai. Se a pessoa precisa ocultar sua ferida para entrar, ainda
não fizemos da comunidade uma casa.
SuperPauta — A Igreja também carrega a ferida dos
abusos sexuais praticados por membros do clero e acobertados por autoridades.
Como um bispo deve responder?
Dom Hélder — Colocando a
vítima no centro e retirando do centro a reputação da instituição. Não pode
haver transferência discreta, silêncio comprado, arquivo escondido ou perdão
usado para impedir a justiça. O abuso cometido por alguém revestido de
autoridade religiosa acrescenta à violência uma profanação da confiança. A
Igreja deve acolher, investigar, colaborar com a justiça, reparar o possível e
impedir novas vítimas. E o bispo que protege o agressor para evitar escândalo
produz escândalo ainda maior. A verdade pode ferir a imagem da Igreja por algum
tempo; a mentira fere sua alma.
SuperPauta — Em 2026, o Brasil continua desigual,
polarizado e às vésperas de nova eleição. O senhor reconheceria o país?
Dom Hélder — Reconheceria
feridas antigas usando instrumentos novos. A desigualdade ganhou tecnologias
sofisticadas e a mentira viaja numa velocidade que nossas antigas circulares
jamais imaginariam. A polarização transforma o irmão em caricatura e oferece o
prazer perigoso de odiar em grupo. Mas eu também reconheceria movimentos
populares, comunidades, jornalistas, professores, defensores de direitos,
jovens e mulheres que não entregaram o futuro. Eleição é séria, mas democracia
não pode aparecer apenas no dia do voto. Ela exige participação, instituições
respeitadas, liberdade de imprensa, justiça independente e vigilância constante
sobre todo poder — inclusive o exercido por quem apoiamos.
SuperPauta — Um cristão pode apoiar líderes autoritários em nome da defesa da fé, da família ou da ordem?
Dom Hélder — O cristão pode
errar politicamente, como eu mesmo errei. O que não pode é batizar crueldade,
mentira e desprezo pelo outro para poupá-los do exame moral. Ordem que depende
do medo não é paz. Família defendida por quem abandona famílias à fome é
palavra usada como biombo. Fé convertida em instrumento eleitoral corre o risco
de trocar o Crucificado pelo palanque. Não peço que todos os cristãos votem do
mesmo modo; isso seria outra forma de autoritarismo. Peço que nenhum voto exija
o sacrifício da dignidade humana.
SuperPauta — Políticos usam cada vez mais o nome de
Deus para conquistar votos. O que separa fé pública de exploração religiosa?
Dom Hélder — A fé pública se
reconhece pelo serviço; a exploração religiosa, pela utilidade eleitoral que
encontra em Deus. Convicções religiosas participam legitimamente da vida
social, mas não recebem o direito de transformar o Estado em sacristia de um
grupo. Quando alguém pronuncia muito o nome de Deus, observemos como trata o
adversário, o faminto, o preso, o migrante e o pobre. O fruto ajuda a conhecer
a árvore. Deus não precisa de candidato que o represente; precisa de
consciências que não o usem para esconder ambição.
SuperPauta — As redes sociais teriam ampliado sua
voz ou destruído sua mensagem em frases recortadas?
Dom Hélder — Talvez fizessem
as duas coisas. Uma frase curta pode abrir uma janela, mas não substitui a casa
inteira do pensamento. Eu gostava de imagens, parábolas, pequenos poemas;
provavelmente circulariam bem. Também seria atacado por vídeos truncados,
montagens e sentenças que nunca pronunciei. O remédio não é abandonar a
comunicação, e sim formar consciências capazes de perguntar pela fonte, pelo
contexto e pelo interesse de quem publica. Antes de compartilhar uma
indignação, convém fazer um instante de vigília. Nem toda urgência que pisca na
tela vem do Espírito Santo.
SuperPauta — E a inteligência artificial, capaz de
imitar vozes, criar imagens e até produzir uma entrevista como esta?
Dom Hélder — Toda técnica
deve ser interrogada a partir da pessoa humana. Uma ferramenta capaz de ampliar
conhecimento, traduzir idiomas, ajudar na educação e aproximar pessoas pode
prestar grande serviço. A mesma ferramenta pode falsificar uma voz, multiplicar
mentira, vigiar trabalhadores e concentrar ainda mais poder e riqueza. O perigo
não mora apenas na máquina; mora nas finalidades escolhidas por quem a
controla. Neste nosso encontro, a honestidade exige que o leitor saiba que
minhas respostas foram recriadas. Quando a aparência de verdade se torna
perfeita, a obrigação de declarar o artifício também deve crescer.
SuperPauta — A fome persiste num planeta capaz de
produzir abundância. Sua campanha por um “Ano 2000 sem Miséria” fracassou?
Dom Hélder — O calendário
venceu o lema, e seria desonesto fingir o contrário. O ano 2000 chegou com a
miséria ainda entre nós. Mas uma campanha não fracassa apenas porque não
alcança integralmente sua utopia; fracassa quando deixa de mobilizar
consciência e ação. O escândalo tornou-se ainda maior porque hoje conhecemos
melhor os números, dispomos de mais tecnologia e produzimos riqueza suficiente.
Se alguém passa fome, já não podemos atribuir isso à falta absoluta de
alimento. Há escolhas políticas, econômicas e morais decidindo quem come e quem
espera.
SuperPauta — O senhor falava do desenvolvimento do
Nordeste em 1959. Hoje, desenvolvimento também precisa responder à crise
climática. O que mudou?
Dom Hélder — Mudou a
consciência de que não se pode libertar o pobre destruindo a casa comum em que
ele será o primeiro a sofrer. O Nordeste conhece há séculos a vulnerabilidade
diante da água escassa, da terra exaurida e de decisões tomadas longe. Agora o
planeta inteiro descobre que natureza explorada e gente explorada pertencem à
mesma lógica. Desenvolvimento não pode ser apenas crescimento de números;
precisa perguntar quem recebe o benefício, quem suporta o dano e o que deixamos
aos que ainda nascerão. A criação não é depósito de matéria-prima confiado à
avareza humana.
SuperPauta — O mundo continua cercado por guerras. A não violência ainda parece realista?
Dom Hélder — Realismo não
pode ser o nome respeitável da resignação ao massacre. Sei que há povos
atacados, ameaçados, expulsos; não falo de uma poltrona moral para condenar
facilmente quem tenta sobreviver. Mas a humanidade acumulou armas capazes de
transformar vitória em funeral coletivo. Precisamos fortalecer o direito
internacional, a diplomacia, a proteção dos civis, o desarmamento e a pressão
dos povos sobre governos e indústrias que lucram com a guerra. A não violência
é difícil porque exige imaginação política. A guerra parece simples: escolhe um
inimigo, multiplica armas e adia para os órfãos a conta da estratégia.
SuperPauta — O senhor falava em “minorias
abraâmicas”. Quem seriam elas hoje?
Dom Hélder — São pequenos
grupos que esperam quando a esperança parece sem recibo. Pessoas de fé e
pessoas sem religião, unidas não por um catecismo comum, mas pela decisão de
não aceitar o inaceitável. Podem estar numa comunidade periférica, numa aldeia
indígena, numa universidade, num sindicato, numa redação, numa pastoral, num
coletivo ambiental, numa defensoria. Não precisam ser maioria para começar; Abraão
partiu sem possuir o mapa completo. Mas cuidado: minoria profética não é seita
de puros. Quando começa a desprezar o povo que deseja libertar, já abandonou a
promessa.
SuperPauta — Em 2025, seu nome foi inscrito no
Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Gosta de ser chamado de herói?
Dom Hélder — A homenagem
pertence às causas e a todos que caminharam sem ter o nome escrito em livro
algum. Eu a receberia com gratidão e certo constrangimento. Herói pode virar
estátua, e estátua não contradiz ninguém. Se minha inscrição servir para
lembrar as vítimas da tortura, os pobres, padre Henrique, as comunidades e os
que defenderam direitos humanos, então o livro ganhou muitas páginas
invisíveis. Se servir apenas para pacificar minha memória e poupar o país das perguntas
que fiz, será uma homenagem muito educada e pouco fiel.
SuperPauta — Seu processo de beatificação está em
andamento. O santo não corre o risco de apagar o homem contraditório?
Dom Hélder — Corre, se
santidade for confundida com ausência de história. Santo não é pessoa que nunca
precisou converter-se; é alguém que permite à graça trabalhar inclusive sobre
seus enganos. Meu passado integralista, minhas precipitações, vaidades e
limites não devem ser escondidos para ajudar processo algum. Deus não precisa
de advogado que falsifique os autos. Se a Igreja um dia me reconhecer como
beato ou santo, espero que não fabriquem um bispo decorativo. Um santo que não
incomoda a injustiça corre o risco de ser apenas imagem bem polida.
SuperPauta — O senhor veria no pontificado de
Francisco alguma realização dos sonhos da Igreja dos Pobres?
Dom Hélder — Reconheceria
nele gestos e palavras que nos fariam vibrar: a Igreja em saída, a crítica a
uma economia que mata, a defesa dos migrantes, o cuidado da casa comum, a simplicidade
e o desejo de uma comunidade aberta a todos. Nenhum papa realiza sozinho o
Evangelho, e seria pesado demais pedir isso a um homem. Francisco abriu
processos, encontrou resistências e também deixou tarefas incompletas. O
importante não é declarar que um sonho venceu, mas perguntar se as igrejas
locais permitiram que ele mudasse suas práticas. Admiração sem conversão é
apenas fotografia.
SuperPauta — E o que diria ao papa Leão XIV, que
assumiu a Igreja em 2025?
Dom Hélder — Diria, antes de
tudo: Santo Padre, não tenha medo de escutar. A unidade da Igreja não é
uniformidade imposta; é comunhão capaz de atravessar diferenças sem perder o
centro em Cristo. Continue olhando para as periferias do mundo e permita que
elas não sejam apenas visitadas, mas ouvidas nas decisões. Proteja a dignidade
humana diante de tecnologias e poderes econômicos que podem reduzir a pessoa a
dado, consumidor ou peça descartável. E não deixe que a prudência necessária se
transforme em espera interminável. Há sofrimentos que não podem aguardar o
calendário confortável das instituições.
SuperPauta — O senhor nunca teve medo de morrer
assassinado?
Dom Hélder — Tive medo, sim.
Coragem não é anestesia. Houve telefonemas, tiros contra a casa, ameaças,
homens que rondavam, amigos que me pediam proteção. Eu não queria guarda armada
porque temia construir ao meu redor a mesma barreira que denunciava e porque
outros não tinham guarda alguma. Talvez tenha sido imprudente; não aconselho
que todo ameaçado repita meu gesto. Mas procurei não permitir que o medo
escolhesse minhas palavras. Entregava a vida ao Pai e continuava, não por me
julgar invulnerável, mas porque o silêncio também tinha vítimas.
SuperPauta — O senhor perdoaria seus perseguidores
sem que eles confessassem o que fizeram?
Dom Hélder — O perdão pode
começar no coração da vítima para impedir que o ódio a aprisione, mas não
elimina verdade, justiça e reparação. Perdoar não é ordenar esquecimento nem
devolver cargo ao torturador. A sociedade precisa conhecer documentos,
localizar desaparecidos, responsabilizar crimes e educar novas gerações. Sem
isso, a palavra reconciliação pode ser usada para proteger o agressor da
consequência. Quero meus perseguidores libertos do mal que praticaram, mas essa
libertação passa pela verdade. Misericórdia não é cumplicidade.
SuperPauta — O senhor se arrepende de alguma omissão?
Dom Hélder — De muitas.
Poderia ter compreendido mais cedo o perigo autoritário dos anos 1930, ouvido
com maior profundidade certas vozes, defendido algumas pessoas de modo mais
eficaz, sido mais claro em determinadas horas. Quem vive muito acumula não
apenas obras, mas ocasiões perdidas. Não desejo transformar arrependimento em
teatro de humildade. Ele só é fecundo quando ajuda outros a reconhecer antes
aquilo que reconhecemos tarde. Deus pode trabalhar até com nossos atrasos, mas
isso não devolve às vítimas o tempo que lhes faltou.
SuperPauta — Depois de tudo, o que é fé?
Dom Hélder — Fé é confiar no
Pai sem usar Deus para fugir dos irmãos. É enxergar em cada pessoa uma dignidade
que nenhum governo, mercado, igreja ou crime consegue apagar. É celebrar a
Eucaristia e perceber que o pão repartido denuncia toda mesa de exclusão. É
atravessar a noite sem chamar escuridão de luz, mas também sem conceder à noite
a última palavra. A fé não oferece mapa detalhado. Oferece companhia, horizonte
e responsabilidade.
SuperPauta — E esperança?
Dom Hélder — Esperança não é
esperar sentado que a Providência faça o trabalho que entregou às nossas mãos.
É começar mesmo quando os cálculos dizem que o resultado será pequeno. É
plantar sabendo que outro talvez colha, denunciar sabendo que a censura pode
vencer o jornal daquele dia, educar uma criança sem garantia do mundo que ela
encontrará. Os pessimistas costumam parecer inteligentes porque enumeram
obstáculos com precisão. A esperança também precisa conhecê-los, mas pergunta
onde está a primeira fresta. Deus gosta de trabalhar por frestas.
SuperPauta — Se pudesse voltar à Natal de maio de
1959, o que diria aos bispos, a Juscelino e a Celso Furtado?
Dom Hélder — Agradeceria a
coragem de tratar o Nordeste como questão nacional e não como paisagem de
calamidade. Diria a Celso que sua inteligência continuaria indispensável e
seria muitas vezes citada por quem não aceitaria suas consequências. Ao presidente,
lembraria que decreto é começo, não cumprimento. Aos bispos, pediria que não se
contentassem em conversar com o governo: era preciso ouvir trabalhadores
rurais, mulheres, jovens e comunidades como protagonistas. E a todos faria uma
pergunta: estamos desenvolvendo o Nordeste para libertar seu povo ou apenas
para integrar sua riqueza a um sistema que continua concentrando poder?
SuperPauta — E o que diria à Natal de hoje?
Dom Hélder — Diria que não
deixe sua memória virar saudade inofensiva. A cidade que reuniu bispos e
técnicos para enfrentar a miséria e que fez da rádio uma escola possui uma
herança de invenção pública. Olhe para suas periferias, para a juventude, para
quem vive na rua, para o litoral ameaçado, para os trabalhadores invisíveis ao
turismo. Universidade e comunicação pública devem continuar perguntando aquilo
que o poder prefere não ouvir. E, por favor, não tratem o interior do estado
como lugar que aparece apenas na seca ou na eleição. Natal só será plenamente
capital quando souber escutar o Rio Grande do Norte inteiro.
SuperPauta — O que o senhor gostaria que o SuperPauta,
um blog sediado nesta cidade, perguntasse ao poder?
Dom Hélder — Pergunte sempre
quem não foi convidado para a fotografia. Quando anunciarem uma obra, descubra
quem será removido e quem receberá o lucro. Quando falarem em segurança,
pergunte segurança para quem e medo de quem. Quando uma autoridade invocar
Deus, compare a invocação com o tratamento dado ao pobre. Quando a oposição
denunciar, investigue também o que ela faria no poder. Jornalismo não deve ter
prazer em destruir pessoas, mas não pode ter medo de desagradar relações. A
imprensa serve à paz quando serve à verdade; e a verdade, quase sempre, começa
escutando quem foi colocado fora do enquadramento.
SuperPauta — O senhor está sendo agora transformado
por nós numa personagem literária. Isso o incomoda?
Dom Hélder — Incomoda-me
apenas se a personagem tomar o lugar do homem e se palavras inventadas forem
vendidas como documento. A imaginação pode aproximar gerações, fazer uma
pergunta antiga encontrar o presente e devolver calor aos arquivos. Mas deve
caminhar de mãos dadas com a honestidade. Digam claramente que esta conversa
não aconteceu, que minhas respostas foram recriadas a partir de minha
trajetória e de meu modo de falar. E não me façam acertar tudo. Um personagem
sem contradições talvez sirva à propaganda; à memória, não.
SuperPauta — Que pergunta o senhor faria a quem ler
esta entrevista até o fim?
Dom Hélder — Perguntaria:
qual injustiça você já compreendeu, mas ainda chama de complicada para não
precisar agir? Não peço heroísmo teatral. Talvez sua parte seja uma reportagem,
uma aula, um voto consciente, uma denúncia, uma visita, uma organização de
bairro, um gesto de reconciliação ou a coragem de rever o próprio grupo. Cada
um deve discernir. Mas há um momento em que continuar analisando sem mover um
dedo se torna uma forma elegante de consentimento.
SuperPauta — E quando a luz vermelha desta câmera
apagar, o que deve continuar aceso?
Dom Hélder — A profecia. Não
a previsão do futuro, mas a coragem de ler o presente à luz da justiça de Deus.
Profecia sem ternura vira condenação; ternura sem profecia vira consolo barato.
Conservem as duas. E, se a noite parecer grande demais, procurem as minorias
que continuam esperando e trabalhando. O Pai quase nunca começa pela multidão.
Depois da
entrevista
A luz vermelha se apaga, mas Dom Hélder permanece
sentado por alguns segundos. Junta as mãos, fecha os olhos e parece escutar
alguma coisa além do estúdio.
Atrás da cortina, a Natal de 1959 continua em
movimento. Juscelino assina papéis que ainda serão decretos. Celso Furtado
dobra um mapa do Nordeste. Dom Eugênio aproxima um rádio de uma janela, e vozes
de uma escola rural atravessam a noite em lições entrecortadas.
Dom Hélder se levanta. É menor do que a cadeira
vazia sugere. Pega a pasta de cartolina e troca a ordem das duas datas: coloca 21
DE MAIO DE 1983 atrás e 26 DE MAIO DE 1959 na frente.
— A memória só vive quando ainda tem trabalho a
fazer — diz.
Ele caminha até a saída, mas volta dois passos.
— Meu querido irmão, uma coisa.
— Sim?
— Não deixe que me façam falar bonito demais. O
pobre não precisa de nossa beleza. Precisa de nossa coragem.
A porta se fecha. No relógio, o ponteiro dos
segundos volta a andar.
Sobre a mesa, ao lado do copo intacto, ficou uma
folha que não estava ali. Há apenas uma pergunta escrita:
Quem ainda não foi convidado para a fotografia?
Do lado de fora, em algum ponto entre o campus e a
cidade, um rádio antigo começa outra aula.













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