terça-feira, 22 de setembro de 2026

Encontros Impossíveis: Dom Hélder Câmara


O menino cearense que vestiu a camisa verde do integralismo, reviu as próprias certezas e se tornou uma das vozes mais incômodas da Igreja brasileira retorna ao estúdio do Memória Viva, da TV Universitária, em Natal. Diante das câmeras que o receberam em 1983, Dom Hélder fala da fé que não aceita servir de anestesia, da criação da CNBB, do Concílio Vaticano II, da ditadura, da tortura, do assassinato do padre Henrique, da não violência, das contradições da Igreja e da esperança como trabalho. E reencontra a capital potiguar de maio de 1959, quando presidiu o II Encontro dos Bispos do Nordeste e ajudou a aproximar a Igreja, o governo de Juscelino Kubitschek e o pensamento de Celso Furtado na busca de respostas para a miséria nordestina.

Entrevista imaginária por Roberto Homem


O cenário

O estúdio da TV Universitária está iluminado, embora o campus durma.

Não é exatamente o estúdio de 21 de maio de 1983. Há câmeras antigas sobre tripés pesados, cabos enrolados no chão e um relógio redondo que parou alguns segundos antes das dez da noite. Sobre uma mesa baixa, um copo d’água, um pequeno crucifixo e uma pasta de cartolina com duas datas escritas à mão: 26 DE MAIO DE 1959 e 21 DE MAIO DE 1983.

Atrás do cenário, onde deveria haver apenas uma cortina, vê-se outra Natal. Pela abertura passam, sem ruído, vinte e dois bispos e arcebispos, técnicos do governo, Juscelino Kubitschek e um Celso Furtado ainda jovem, carregando mapas e papéis. Mais longe, uma antena transmite lições para escolas radiofônicas do interior. A cidade parece dividida entre um encontro que deseja planejar o Nordeste e um rádio que ensina gente adulta a ler o próprio mundo.

Dom Hélder está sentado na mesma cadeira em que concedeu entrevista ao Memória Viva. É pequeno, magro, veste batina branca e uma cruz simples. As mãos, porém, não param. Abrem-se, aproximam-se, desenham no ar aquilo que as palavras ainda não disseram.

Entro com um gravador. Há algo de retorno neste encontro. A TV Universitária faz parte da UFRN, onde me formei em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Não estudei exatamente entre aquelas câmeras, mas reconheço nelas a mesma universidade que me ensinou o ofício.

 Dom Hélder acompanha meu olhar e sorri.

— Então você não veio apenas me entrevistar, meu querido irmão. Veio também conversar com sua própria memória.

— Talvez as duas coisas.

— É assim mesmo. Quando uma pergunta é verdadeira, nunca sabemos inteiramente a quem ela será dirigida.

 Coloco o gravador sobre a mesa.

Ele aponta para o aparelho:

— Isso guarda tudo?

— Quase tudo.

— Ainda bem que deixou um espaço para Deus.

A luz vermelha de uma das câmeras se acende sozinha.

 

A entrevista

SuperPauta — Dom Hélder, por que voltamos a encontrá-lo justamente no estúdio do Memória Viva, da TV Universitária, em Natal?

Dom Hélder — Meu querido irmão, talvez porque uma televisão universitária tenha uma vocação muito bonita: não deixar que o presente se julgue órfão. Aqui fui convidado a olhar a caminhada já feita. Hoje, volto para descobrir se aquela memória continuou viva ou se virou apenas arquivo. Arquivo é precioso, mas pode dormir; memória viva incomoda, pergunta, exige continuidade. E Natal não é para mim um ponto perdido no mapa das viagens. Nesta cidade, vi a Igreja tentar unir oração, estudo e decisão concreta diante da pobreza do Nordeste. Voltar aqui é perguntar o que fizemos com as promessas daquele tempo.

SuperPauta — O senhor se lembra da entrevista concedida à TVU em 1983?

Dom Hélder — Lembro-me mais do clima do que das frases. As frases pertencem um pouco a quem pergunta, um pouco a quem responde e muito a quem escuta. Eu falava com as mãos, não é verdade? Sempre desconfiei de palavra que não movimenta nem o corpo de quem a pronuncia. Havia a hospitalidade potiguar, perguntas sem bajulação e a sensação de que a TVU guardava não uma celebridade, graças a Deus, mas um testemunho. Se hoje alguém assistir àquela conversa, peço apenas que não procure um homem pronto. Eu estava, como sempre estive, a caminho.

SuperPauta — Esta conversa acontece numa emissora da UFRN, onde me formei jornalista. O que uma universidade pública e seus meios de comunicação devem à sociedade?

Dom Hélder — Uma universidade pública recebe do povo muito mais do que recursos: recebe confiança. Deve devolver conhecimento, consciência crítica e coragem para fazer perguntas que talvez desagradem até a quem a sustenta. A televisão universitária não nasceu para imitar a televisão comercial em escala menor. Pode dar tempo à reflexão, guardar a memória, aproximar a ciência da vida cotidiana e oferecer palavra a quem quase nunca atravessa o enquadramento. Se a universidade se fecha em si mesma, torna-se uma ilha paga por quem permanece do lado de fora.

SuperPauta — Sua presença mais decisiva em Natal ocorreu de 24 a 26 de maio de 1959, no II Encontro dos Bispos do Nordeste. O que estava em jogo?

Dom Hélder — Estava em jogo uma pergunta elementar e terrível: até quando a miséria nordestina seria tratada como fenômeno da natureza? A seca existe, claro, mas a injustiça não cai do céu. Reuniram-se em Natal vinte e dois bispos e arcebispos, técnicos, autoridades e homens capazes de pensar o desenvolvimento com seriedade. Veio o presidente Juscelino. Celso Furtado trouxe uma leitura que não aceitava remendo para um problema estrutural. Nós queríamos que a Igreja ajudasse a transformar o clamor em proposta, e a proposta em obrigação do poder público. Rezar pelo Nordeste e conservar intactas as causas de sua pobreza seria tomar o santo nome de Deus em vão.

SuperPauta — Juscelino afirmou depois que o encontro de Natal, presidido pelo senhor, contribuiu para medidas concretas e que a própria Sudene complementava aquele movimento. A Igreja ajudou a criar a Sudene?

Dom Hélder — Cuidado com as certidões de paternidade, meu irmão. Uma instituição histórica quase nunca tem um único pai. A Sudene nasceu de muitos estudos, pressões, experiências e urgências. Celso Furtado foi decisivo na inteligência e na construção do projeto. Os encontros dos bispos ajudaram a criar ambiente político, reuniram forças e insistiram que o Nordeste não podia continuar recebendo esmolas no tempo da calamidade e esquecimento no resto do ano. Se a Igreja teve mérito, foi o de pôr seu poder de convocação a serviço de uma causa que a ultrapassava. Não devemos usar o sofrimento do povo para pendurar medalhas no peito dos bispos.


SuperPauta — O que o senhor viu em Natal que os gabinetes do Rio de Janeiro não conseguiam enxergar?

Dom Hélder — O gabinete olha o Nordeste por médias, mapas e relatórios. Tudo isso é necessário, mas não basta. Aqui, a pobreza tinha rosto, família, distância, sede. Ao mesmo tempo, vi que o povo não era uma massa à espera de salvadores. Havia leigos, padres, educadores, trabalhadores e comunidades inventando soluções. As escolas radiofônicas mostravam que uma antena podia ser mais evangélica do que muito sermão, quando levava alfabetização e consciência a quem fora mantido longe da escola. Natal nos ensinava que desenvolvimento não é fazer coisas para o povo; é criar condições para que o povo seja sujeito de sua história.

SuperPauta — O Movimento de Natal articulou educação rural, sindicalização, assistência e participação dos leigos. Aquela experiência influenciou sua visão da Igreja?

Dom Hélder — Sem dúvida. O Movimento de Natal provava que a pastoral não precisava ficar trancada na sacristia e que o leigo não era figurante de missa. A fé podia chegar pelo rádio, pela organização dos trabalhadores, pela formação de lideranças, pelo cuidado materno e pela luta por direitos. Havia limites, como há em toda experiência humana, mas existia uma ousadia admirável. Mais tarde, o Movimento de Educação de Base levaria adiante parte dessa intuição em escala nacional. Quando o povo aprende a ler, começa também a perceber quem escreveu as regras que o mantêm por baixo. E isso, naturalmente, assusta quem confunde ordem com silêncio dos pobres.

SuperPauta — Qual foi a importância de Dom Eugênio Sales nessa história?

Dom Hélder — Dom Eugênio foi um trabalhador extraordinário da ação social da Igreja e teve papel central na experiência de Natal. Nós nos aproximamos muito nos encontros dos bispos do Nordeste. Éramos amigos, embora não fôssemos cópias um do outro. A amizade verdadeira não exige concordância fabricada; permite franqueza, diferença de método e até tensão, sem transformar o irmão em inimigo. Ele conhecia de perto o sertão, a educação pelo rádio, a sindicalização rural e a capacidade dos leigos. Seria injusto narrar aquela renovação da Igreja nordestina apagando sua contribuição.

SuperPauta — Essa amizade resistiu às diferenças que se tornaram mais visíveis durante a ditadura?

Dom Hélder — Meu querido irmão, não me cabe usar a morte para vencer debates que a vida deixou complexos. Tivemos temperamentos, caminhos e maneiras de agir diferentes. Eu escolhi denunciar publicamente a tortura, inclusive fora do Brasil, porque dentro dele tentavam apagar até o meu nome. Dom Eugênio exerceu outras mediações e, em momentos posteriores, acolheu perseguidos de regimes latino-americanos. Pode-se examinar criticamente nossas decisões; deve-se fazê-lo. Mas a crítica perde a verdade quando precisa inventar ódio entre irmãos para organizar o passado em dois exércitos perfeitamente separados.

SuperPauta — Voltemos ao começo. Quem era Hélder Pessoa Câmara antes de ser Dom Hélder?

Dom Hélder — Era o décimo primeiro filho de uma família numerosa de Fortaleza, embora nem todos os irmãos tenham sobrevivido à infância. Meu pai queria que eu entendesse que ser padre não era uma promoção social; minha mãe me ensinou a escutar. Entrei muito jovem no Seminário da Prainha e fui ordenado também jovem, com licença especial por ainda não ter a idade prevista. Eu tinha pressa, Roberto. Talvez Deus tenha passado a vida inteira me ensinando que pressa pode ser generosidade, mas também pode ser vaidade. O menino queria entregar-se inteiro antes de saber direito o que carregava dentro de si.

SuperPauta — O senhor aderiu à Ação Integralista Brasileira e vestiu a camisa verde. Como o futuro defensor dos direitos humanos se envolveu com um movimento autoritário?

Dom Hélder — Esta pergunta não deve ser evitada. Eu era um jovem sacerdote seduzido pela promessa de ordem, espiritualidade, mobilização e justiça social apresentada pelo integralismo. Não percebi com a clareza necessária o veneno autoritário, o nacionalismo que podia esmagar diferenças e a proximidade com experiências fascistas. Não adianta embelezar o erro dizendo que todos pensavam assim, porque nem todos pensavam. Também não adianta congelar um homem no seu pior engano para negar toda conversão. A graça não apaga a responsabilidade; obriga a encará-la. Se minha vida tem alguma utilidade, talvez seja lembrar que ninguém está dispensado de rever as próprias fidelidades políticas quando elas ferem a dignidade humana.

SuperPauta — O senhor rompeu realmente com o integralismo ou apenas se afastou quando ele perdeu força?

Dom Hélder — Afastei-me de seu caminho político e de seu rumo totalitário, embora tenha reconhecido durante muito tempo a sinceridade de pessoas que ali buscavam justiça social. Talvez nem sempre eu tenha usado a palavra “rompimento” com a nitidez que hoje se desejaria. Mas a mudança fundamental está no rumo: saí de uma visão que confiava na disciplina de cima para uma fé cada vez mais comprometida com liberdade, consciência, democracia e organização dos pobres. Não peço que julguem essa mudança por uma palavra conveniente. Julguem pelos riscos assumidos, pelos aliados escolhidos e pelos poderes que passaram a desejar meu silêncio. Conversão que não muda companhia, prática e consequência corre o risco de ser apenas maquiagem.

SuperPauta — Houve um momento específico de conversão?

Dom Hélder — Conversão raramente é relâmpago único. Há clarões e há amanheceres lentos. O contato com trabalhadores, favelados e famílias expulsas de qualquer direito foi desmontando minhas respostas. Depois do Congresso Eucarístico Internacional do Rio, o cardeal Gerlier, de Lyon, chamou minha atenção para as favelas que cercavam aquela grande celebração. Era como perguntar: de que vale adorar Cristo no altar e deixá-lo sem teto logo adiante? A Cruzada São Sebastião nasceu desse incômodo. Compreendi melhor que a caridade imediata é indispensável, mas, se não pergunta pelas causas da miséria, pode acabar administrando a injustiça.

SuperPauta — Foi essa inquietação que o levou a trabalhar pela criação da CNBB?

Dom Hélder — A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nasceu porque um país imenso não podia depender apenas de iniciativas isoladas e correspondência lenta entre dioceses. Era preciso colegialidade, planejamento pastoral, comunhão e capacidade de agir diante dos problemas nacionais. Trabalhei por sua criação com o apoio precioso de monsenhor Montini, futuro Paulo VI, e fui secretário-geral durante doze anos. Não criei a CNBB sozinho; seria contrário ao espírito da própria Conferência dizer isso. Meu dom, se houve um, foi aproximar pessoas e fazer circular ideias. Eu gostava de descobrir quem precisava conversar com quem.


SuperPauta — O senhor era um articulador de bastidores, quase um político dentro da Igreja?

Dom Hélder — Se política significa cuidar da vida comum e construir caminhos coletivos, não temo a palavra. Se significa manobra para acumular poder pessoal, então peço que Deus me livre. Eu telefonava, escrevia, reunia bispos, técnicos, jornalistas, governantes, jovens, empresários e trabalhadores. A realidade não se transforma por pureza solitária. Mas há um perigo: o articulador começa a acreditar que a história depende dele. Por isso eu precisava das vigílias da madrugada. Na oração, as redes voltavam a ser do Pescador e eu recordava que era apenas um pequeno fio.

SuperPauta — O senhor dormia pouco e se levantava de madrugada para rezar e escrever. Era disciplina, mística ou inquietação?

Dom Hélder — Um pouco de tudo. Desde o seminário fiz amizade com as horas em que a cidade silencia. A madrugada permite ouvir o que o aplauso do dia encobre e o que o medo da noite exagera. Eu rezava, revia encontros, escrevia circulares para minhas famílias espirituais e entregava ao Pai pessoas, problemas e projetos. Não pense que era sempre consolação. Às vezes a oração é ficar diante de Deus sem resposta, com os nomes dos torturados e dos famintos pesando no colo. A mística que foge da realidade é sonífero; a ação que dispensa a mística logo começa a adorar a si mesma.

SuperPauta — Durante o Concílio Vaticano II, o senhor quase não falou na grande assembleia, mas trabalhou intensamente fora dela. Por quê?

Dom Hélder — Porque nem toda voz precisa ocupar o microfone para influir. Eu temia que um discurso meu, vindo de quem já era observado e combatido, fechasse portas antes de a ideia caminhar. Preferi reunir episcopados, aproximar sensibilidades, organizar o chamado Ecumênico e participar do Grupo da Igreja dos Pobres. Fiz muitas intervenções por meio de outros, e não havia desonestidade nisso; havia trabalho comum. O Concílio precisava deixar de olhar o mundo apenas como ameaça e reaprender a reconhecê-lo como lugar da ação de Deus. Eu sonhava com uma Igreja menos imperial, mais servidora, capaz de escutar as alegrias e angústias da humanidade.

SuperPauta — O Pacto das Catacumbas, firmado em 1965 por dezenas de bispos, prometia uma Igreja pobre e sem símbolos de poder. A promessa foi cumprida?

Dom Hélder — Foi cumprida por muitos em gestos concretos e descumprida pela Igreja em muitas estruturas. Alguns deixaram palácios, recusaram títulos, aproximaram-se dos trabalhadores, organizaram dioceses de modo colegiado. Mas a sedução do privilégio é paciente. Ela aprende a vestir linguagem evangélica e volta pela porta dos fundos. Eu mesmo precisava vigiar para não transformar simplicidade em espetáculo pessoal, como se houvesse vaidade mais refinada do que ser admirado por parecer humilde. O Pacto não é peça de museu. Continua perguntando onde mora o bispo, quem se senta à sua mesa, quem pode contrariá-lo e de que lado ele se encontra quando o pobre disputa terra, teto e voz.


SuperPauta — O senhor foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife em março de 1964, às vésperas do golpe. Como chegou ao Nordeste naquele momento?

Dom Hélder — Cheguei com alegria e temor. Era um nordestino devolvido ao Nordeste quando o país entrava numa noite. Em minha mensagem de chegada quis deixar claro que não vinha para ser servido e que meu coração não teria porteiro ideológico. Eu desejava dialogar com todos, inclusive com aqueles que me olhavam como inimigo. Mas diálogo não significa neutralidade diante da vítima e do algoz. A porta aberta deve acolher também o poderoso; só não pode exigir que o pobre saia para lhe ceder o lugar.

SuperPauta — O senhor inicialmente manteve interlocução com militares e chegou a pedir ajuda a autoridades do regime. Isso contradiz a imagem do resistente?

Dom Hélder — A história real não tem a limpeza das estátuas. Eu conhecia militares, dialoguei com eles e procurei intervir para libertar presos ou evitar violências. Nos primeiros momentos, como muitos, tentei compreender a extensão do que estava acontecendo. Quando havia uma porta capaz de salvar alguém, eu batia nela, fosse a porta de um general ou de um carcereiro. Isso não me obrigava a legitimar a ditadura. Ao contrário: quando a tortura e a supressão das liberdades se tornaram incontestáveis, calar para conservar acesso seria pagar a entrada com a consciência dos perseguidos.

SuperPauta — Por que a denúncia da tortura se tornou central em sua atuação?

Dom Hélder — Porque a tortura é uma blasfêmia praticada contra a imagem de Deus no corpo humano. Não importa se o preso é cristão, comunista, ateu, culpado de um crime ou inocente: ninguém recebe autoridade para quebrar uma pessoa. Vinham mães, esposas, irmãos; chegavam notícias de choques, espancamentos, desaparecimentos. O Estado negava e a imprensa era impedida de mostrar. Quando denunciei fora do país, disseram que eu difamava o Brasil. Meu irmão, quem difama a pátria não é quem revela a câmara de tortura; é quem a instala, quem a opera e quem manda apagar o grito.

SuperPauta — Em 1969, seu auxiliar, padre Antônio Henrique, foi sequestrado, torturado e assassinado. O que morreu com ele?

Dom Hélder — Padre Henrique era jovem, trabalhava com a juventude e carregava a alegria de quem ainda esperava muito da vida. Seu corpo foi encontrado com sinais de tortura. Ali quiseram matar mais do que um sacerdote: quiseram enviar uma mensagem a todos que caminhavam conosco. Naquele enterro havia dor, indignação e uma multidão que se recusava a fingir normalidade. Uma parte de nós morreu com Henrique; outra foi obrigada a nascer mais corajosa. Perdoar os assassinos nunca significou proteger o assassinato da verdade.

SuperPauta — O senhor sabe quem mandou matá-lo?

Dom Hélder — Não devo preencher com imaginação aquilo que a justiça e a história não esclareceram de modo definitivo. Sabemos o ambiente de perseguição, conhecemos grupos envolvidos na violência política e sabemos que o crime permaneceu sem a responsabilização devida. A impunidade também é uma forma de mensagem: diz às vítimas que seus mortos valem menos e aos violentos que podem repetir. Mas a ausência de uma sentença completa não autoriza acusação leviana. O profeta deve denunciar com coragem e, justamente por isso, tratar a verdade com reverência.

SuperPauta — Seu nome foi banido dos meios de comunicação brasileiros. Como é ser transformado em silêncio oficial?

Dom Hélder — É uma experiência estranha: você continua vivo, mas o poder tenta ensaiar sua morte pública. Não podiam publicar meu nome, minhas palavras, às vezes nem explicar o motivo de uma reunião. Entretanto, o silêncio imposto possui frestas. A Rádio Olinda, as homilias, as cartas, os viajantes, as comunidades e os amigos levavam adiante o que a grande imprensa não podia dizer. E o mundo começou a escutar o que o Brasil censurava. Aprendi que voz não é apenas som emitido por uma garganta; é relação. Quando um povo decide guardar uma palavra, nenhum decreto consegue apagá-la por inteiro.


SuperPauta — O senhor denunciou a tortura em Paris, em 1970, e passou a ser acusado de falar contra o Brasil no exterior. Houve exagero em sua linguagem?

Dom Hélder — Eu falava contra a injustiça praticada no Brasil, não contra o Brasil. Pátria não é sinônimo de governo, muito menos de governo ilegítimo. Quem ama um país não esconde seus porões para proteger a propaganda. Posso ter cometido imprecisões, como qualquer homem submetido a informações fragmentadas e urgentes; aceito que se examine cada afirmação. Mas a existência sistemática de tortura e perseguição política não era invenção. O exagero maior foi o das máquinas de choque, dos desaparecimentos e da censura, não o da voz que pediu ao mundo que olhasse.

SuperPauta — O regime trabalhou para impedir que o senhor recebesse o Prêmio Nobel da Paz. O prêmio lhe fez falta?

Dom Hélder — Não. Fez falta ao regime a tranquilidade de imaginar que controlava também a consciência do mundo. As indicações ajudaram a iluminar a causa das vítimas; isso importava. Quando veio o Prêmio Popular da Paz, o valor pôde servir a projetos concretos. Troféu guardado numa sala episcopal seria um objeto embaraçoso. O único prêmio que um pastor pode desejar é descobrir que os sem voz começaram a falar por si mesmos — e, se falarem para discordar do pastor, melhor ainda.

SuperPauta — O senhor se tornou uma figura mundial. Nunca houve vaidade nesse papel de “Dom da Paz”?

Dom Hélder — Houve tentação, certamente. Quem disser que o aplauso de multidões não o toca talvez já esteja vaidoso da própria imunidade. Eu era recebido em universidades, parlamentos, igrejas; davam-me títulos e queriam fotografias. Precisava perguntar a mim mesmo, na madrugada, se o pequeno bispo estava começando a gostar demais da própria pequenez. A fama pode transportar uma causa, mas também pode substituir a causa pelo mensageiro. Por isso eu pedia que Deus me ajudasse a tornar-me um pouco daquilo que as pessoas generosamente imaginavam que eu fosse.

SuperPauta — O senhor defendia a não violência, mas dizia compreender os jovens que pegaram em armas. Não é uma posição ambígua?

Dom Hélder — É uma posição que distingue condenação moral de compreensão histórica. Eu não aceitava a violência da injustiça estrutural, nem a violência da revolta armada, nem a violência repressiva que vinha esmagá-la. Mas seria indecente colocar as três no mesmo plano e começar a história quando o oprimido reage. A fome, a terra concentrada, a humilhação e a tortura já são violência. Aos jovens impacientes eu dizia: amo sua coragem, compreendo sua indignação, mas temo que as armas fortaleçam exatamente a máquina que desejam vencer. Não violência não é passividade; é ação organizada capaz de retirar obediência da injustiça sem reproduzir o desprezo pela vida.

SuperPauta — O senhor chamou isso de espiral da violência. Como quebrá-la?

Dom Hélder — Primeiro, reconhecendo a violência que se apresenta de terno, contrato, lei injusta e mesa farta. Ela costuma ser invisível para quem se beneficia dela. Depois, organizando uma pressão moral libertadora: gente consciente, unida, persistente, capaz de constranger instituições sem desumanizar pessoas. Greve, boicote, mobilização, educação, denúncia, voto, solidariedade internacional — há muitas formas de luta. A não violência precisa de método e coragem; caso contrário, vira simples apelo para que o oprimido tenha paciência. Paz sem justiça é intervalo administrado pelo mais forte.

SuperPauta — A frase mais repetida em seu nome diz que alimentar o pobre produz fama de santo, mas perguntar pela causa da pobreza produz acusação de comunismo. O senhor se reconhece nela?

Dom Hélder — Reconheço sobretudo a experiência que ela resume. O poderoso costuma aceitar a caridade que alivia a consequência e rejeitar a justiça que toca a causa. Dar pão é urgente; ninguém pode pedir a um faminto que espere a reforma das estruturas. Mas, enquanto repartimos o pão de hoje, precisamos perguntar quem possui a terra, quem fixa o salário, quem controla o crédito, quem lucra com a escassez. Se essa pergunta recebe um rótulo em vez de resposta, o rótulo está servindo para proteger privilégios. Cristo não perguntou a ideologia do faminto antes de multiplicar os pães.

SuperPauta — O senhor era comunista?

Dom Hélder — Não fui comunista. Minha fé não me permitia aceitar materialismo, partido único, supressão da liberdade ou qualquer Estado convertido em absoluto. Também não aceitava um capitalismo que coloca o lucro acima da pessoa e chama de liberdade o direito do forte de abandonar o fraco. Rejeitar um sistema não santifica automaticamente o outro. Eu buscava no Evangelho e na doutrina social da Igreja uma transformação que respeitasse a dignidade humana, a participação e a liberdade. Para alguns, porém, basta perguntar por reforma agrária ou denunciar a fome para receber o carimbo de comunista. Carimbos economizam o trabalho de pensar.

SuperPauta — E a Teologia da Libertação? O senhor foi um de seus fundadores?

Dom Hélder — Não fui teólogo sistemático da libertação, e seria injusto ocupar o lugar de quem elaborou essa reflexão com profundidade. Fui um pastor que viu pobres lendo a Bíblia a partir da própria vida e percebeu que o Êxodo não era arqueologia. A libertação integral — do pecado pessoal e das estruturas que produzem morte — pertence ao coração da mensagem cristã. Houve excessos e simplificações? Naturalmente; toda corrente humana precisa de crítica. Mas houve também uma campanha para reduzir qualquer opção pelos pobres a infiltração marxista. Quando o medo da palavra “libertação” supera o escândalo da escravidão, alguma coisa se perdeu no caminho.

SuperPauta — A Igreja ficou ao lado dos perseguidos ou ao lado da ditadura?

Dom Hélder — A Igreja não cabe numa resposta única. Houve bispos, padres, religiosas e leigos que apoiaram o golpe, celebraram o novo poder ou silenciaram diante dele. Houve também quem defendesse presos, escondesse perseguidos, denunciasse tortura, acompanhasse famílias e pagasse com exílio, prisão ou morte. E houve pessoas que mudaram ao perceber a realidade. A instituição precisa confessar suas cumplicidades sem apagar suas resistências. Dizer apenas “a Igreja resistiu” é falso; dizer apenas “a Igreja apoiou” também não faz justiça a tantos que arriscaram tudo.

SuperPauta — O senhor permaneceu obediente a uma instituição que muitas vezes o isolou. Por quê?

Dom Hélder — Porque eu não amava uma Igreja imaginária, feita apenas das pessoas que concordavam comigo. A Igreja é povo, sacramento, tradição, conflito, pecado e graça. Houve incompreensões dolorosas, limitações, portas fechadas. Também houve amizade, apoio e comunhão, sobretudo de Paulo VI e de tantos irmãos no episcopado. Obediência não é servilismo; inclui diálogo franco, discernimento e, em certas horas, sofrimento. Eu quis mudar a Igreja a partir de dentro porque ela também me formava, me corrigia e me entregava um povo que não era propriedade minha.

SuperPauta — A Igreja ainda exibe riqueza, clericalismo e distância dos pobres. O que o senhor diria aos bispos de hoje?

Dom Hélder — Diria primeiro a mim mesmo, para não transformar conselho em superioridade. Perguntemos: nossas casas, carros, roupas, agendas e cerimônias aproximam ou afastam? O pobre entra sem medo? A mulher participa das decisões ou apenas sustenta o trabalho cotidiano? O leigo possui voz real ou recebe tarefas prontas? O clericalismo não se mede apenas pela cor da roupa; aparece quando o ministro imagina que a ordenação o tornou dono da consciência alheia. Uma Igreja pobre não é uma Igreja sem recursos. É aquela cujos recursos não compram distância e cujo poder se deixa julgar pelo Evangelho.


SuperPauta — Sua geração fez o suficiente para reconhecer o lugar das mulheres na Igreja?

Dom Hélder — Não. As mulheres sustentaram comunidades, educaram na fé, protegeram perseguidos, organizaram obras e leram os sinais de Deus, enquanto os lugares formais de decisão continuaram quase inteiramente masculinos. Eu apoiei maior participação e escutei mulheres admiráveis, mas também fui homem de meu tempo e não alcancei todas as consequências dessa igualdade batismal. Não basta agradecer às mulheres pelo serviço e reservar aos homens a autoridade. A Igreja precisa escutar sem medo o que o Espírito diz por meio delas, inclusive quando essa palavra desinstala costumes antigos.

SuperPauta — O que o senhor diria às pessoas que foram feridas ou expulsas em nome da moral cristã?

Dom Hélder — A primeira palavra não deve ser uma regra; deve ser um pedido de perdão e uma escuta. Doutrina sem misericórdia pode tornar-se pedra na mão de quem esqueceu o próprio pecado. Isso não significa que a Igreja deixe de discernir ou de anunciar aquilo em que crê. Significa que ninguém pode ser reduzido a uma condição, uma falha, um afeto ou um rótulo. A porta e o coração precisam permanecer abertos, não como estratégia de recrutamento, mas porque todos somos filhos do mesmo Pai. Se a pessoa precisa ocultar sua ferida para entrar, ainda não fizemos da comunidade uma casa.

SuperPauta — A Igreja também carrega a ferida dos abusos sexuais praticados por membros do clero e acobertados por autoridades. Como um bispo deve responder?

Dom Hélder — Colocando a vítima no centro e retirando do centro a reputação da instituição. Não pode haver transferência discreta, silêncio comprado, arquivo escondido ou perdão usado para impedir a justiça. O abuso cometido por alguém revestido de autoridade religiosa acrescenta à violência uma profanação da confiança. A Igreja deve acolher, investigar, colaborar com a justiça, reparar o possível e impedir novas vítimas. E o bispo que protege o agressor para evitar escândalo produz escândalo ainda maior. A verdade pode ferir a imagem da Igreja por algum tempo; a mentira fere sua alma.

SuperPauta — Em 2026, o Brasil continua desigual, polarizado e às vésperas de nova eleição. O senhor reconheceria o país?

Dom Hélder — Reconheceria feridas antigas usando instrumentos novos. A desigualdade ganhou tecnologias sofisticadas e a mentira viaja numa velocidade que nossas antigas circulares jamais imaginariam. A polarização transforma o irmão em caricatura e oferece o prazer perigoso de odiar em grupo. Mas eu também reconheceria movimentos populares, comunidades, jornalistas, professores, defensores de direitos, jovens e mulheres que não entregaram o futuro. Eleição é séria, mas democracia não pode aparecer apenas no dia do voto. Ela exige participação, instituições respeitadas, liberdade de imprensa, justiça independente e vigilância constante sobre todo poder — inclusive o exercido por quem apoiamos.

SuperPauta — Um cristão pode apoiar líderes autoritários em nome da defesa da fé, da família ou da ordem?

Dom Hélder — O cristão pode errar politicamente, como eu mesmo errei. O que não pode é batizar crueldade, mentira e desprezo pelo outro para poupá-los do exame moral. Ordem que depende do medo não é paz. Família defendida por quem abandona famílias à fome é palavra usada como biombo. Fé convertida em instrumento eleitoral corre o risco de trocar o Crucificado pelo palanque. Não peço que todos os cristãos votem do mesmo modo; isso seria outra forma de autoritarismo. Peço que nenhum voto exija o sacrifício da dignidade humana.

SuperPauta — Políticos usam cada vez mais o nome de Deus para conquistar votos. O que separa fé pública de exploração religiosa?

Dom Hélder — A fé pública se reconhece pelo serviço; a exploração religiosa, pela utilidade eleitoral que encontra em Deus. Convicções religiosas participam legitimamente da vida social, mas não recebem o direito de transformar o Estado em sacristia de um grupo. Quando alguém pronuncia muito o nome de Deus, observemos como trata o adversário, o faminto, o preso, o migrante e o pobre. O fruto ajuda a conhecer a árvore. Deus não precisa de candidato que o represente; precisa de consciências que não o usem para esconder ambição.

SuperPauta — As redes sociais teriam ampliado sua voz ou destruído sua mensagem em frases recortadas?

Dom Hélder — Talvez fizessem as duas coisas. Uma frase curta pode abrir uma janela, mas não substitui a casa inteira do pensamento. Eu gostava de imagens, parábolas, pequenos poemas; provavelmente circulariam bem. Também seria atacado por vídeos truncados, montagens e sentenças que nunca pronunciei. O remédio não é abandonar a comunicação, e sim formar consciências capazes de perguntar pela fonte, pelo contexto e pelo interesse de quem publica. Antes de compartilhar uma indignação, convém fazer um instante de vigília. Nem toda urgência que pisca na tela vem do Espírito Santo.

SuperPauta — E a inteligência artificial, capaz de imitar vozes, criar imagens e até produzir uma entrevista como esta?

Dom Hélder — Toda técnica deve ser interrogada a partir da pessoa humana. Uma ferramenta capaz de ampliar conhecimento, traduzir idiomas, ajudar na educação e aproximar pessoas pode prestar grande serviço. A mesma ferramenta pode falsificar uma voz, multiplicar mentira, vigiar trabalhadores e concentrar ainda mais poder e riqueza. O perigo não mora apenas na máquina; mora nas finalidades escolhidas por quem a controla. Neste nosso encontro, a honestidade exige que o leitor saiba que minhas respostas foram recriadas. Quando a aparência de verdade se torna perfeita, a obrigação de declarar o artifício também deve crescer.

SuperPauta — A fome persiste num planeta capaz de produzir abundância. Sua campanha por um “Ano 2000 sem Miséria” fracassou?

Dom Hélder — O calendário venceu o lema, e seria desonesto fingir o contrário. O ano 2000 chegou com a miséria ainda entre nós. Mas uma campanha não fracassa apenas porque não alcança integralmente sua utopia; fracassa quando deixa de mobilizar consciência e ação. O escândalo tornou-se ainda maior porque hoje conhecemos melhor os números, dispomos de mais tecnologia e produzimos riqueza suficiente. Se alguém passa fome, já não podemos atribuir isso à falta absoluta de alimento. Há escolhas políticas, econômicas e morais decidindo quem come e quem espera.

SuperPauta — O senhor falava do desenvolvimento do Nordeste em 1959. Hoje, desenvolvimento também precisa responder à crise climática. O que mudou?

Dom Hélder — Mudou a consciência de que não se pode libertar o pobre destruindo a casa comum em que ele será o primeiro a sofrer. O Nordeste conhece há séculos a vulnerabilidade diante da água escassa, da terra exaurida e de decisões tomadas longe. Agora o planeta inteiro descobre que natureza explorada e gente explorada pertencem à mesma lógica. Desenvolvimento não pode ser apenas crescimento de números; precisa perguntar quem recebe o benefício, quem suporta o dano e o que deixamos aos que ainda nascerão. A criação não é depósito de matéria-prima confiado à avareza humana.


SuperPauta — O mundo continua cercado por guerras. A não violência ainda parece realista?

Dom Hélder — Realismo não pode ser o nome respeitável da resignação ao massacre. Sei que há povos atacados, ameaçados, expulsos; não falo de uma poltrona moral para condenar facilmente quem tenta sobreviver. Mas a humanidade acumulou armas capazes de transformar vitória em funeral coletivo. Precisamos fortalecer o direito internacional, a diplomacia, a proteção dos civis, o desarmamento e a pressão dos povos sobre governos e indústrias que lucram com a guerra. A não violência é difícil porque exige imaginação política. A guerra parece simples: escolhe um inimigo, multiplica armas e adia para os órfãos a conta da estratégia.

SuperPauta — O senhor falava em “minorias abraâmicas”. Quem seriam elas hoje?

Dom Hélder — São pequenos grupos que esperam quando a esperança parece sem recibo. Pessoas de fé e pessoas sem religião, unidas não por um catecismo comum, mas pela decisão de não aceitar o inaceitável. Podem estar numa comunidade periférica, numa aldeia indígena, numa universidade, num sindicato, numa redação, numa pastoral, num coletivo ambiental, numa defensoria. Não precisam ser maioria para começar; Abraão partiu sem possuir o mapa completo. Mas cuidado: minoria profética não é seita de puros. Quando começa a desprezar o povo que deseja libertar, já abandonou a promessa.

SuperPauta — Em 2025, seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Gosta de ser chamado de herói?

Dom Hélder — A homenagem pertence às causas e a todos que caminharam sem ter o nome escrito em livro algum. Eu a receberia com gratidão e certo constrangimento. Herói pode virar estátua, e estátua não contradiz ninguém. Se minha inscrição servir para lembrar as vítimas da tortura, os pobres, padre Henrique, as comunidades e os que defenderam direitos humanos, então o livro ganhou muitas páginas invisíveis. Se servir apenas para pacificar minha memória e poupar o país das perguntas que fiz, será uma homenagem muito educada e pouco fiel.

SuperPauta — Seu processo de beatificação está em andamento. O santo não corre o risco de apagar o homem contraditório?

Dom Hélder — Corre, se santidade for confundida com ausência de história. Santo não é pessoa que nunca precisou converter-se; é alguém que permite à graça trabalhar inclusive sobre seus enganos. Meu passado integralista, minhas precipitações, vaidades e limites não devem ser escondidos para ajudar processo algum. Deus não precisa de advogado que falsifique os autos. Se a Igreja um dia me reconhecer como beato ou santo, espero que não fabriquem um bispo decorativo. Um santo que não incomoda a injustiça corre o risco de ser apenas imagem bem polida.

SuperPauta — O senhor veria no pontificado de Francisco alguma realização dos sonhos da Igreja dos Pobres?

Dom Hélder — Reconheceria nele gestos e palavras que nos fariam vibrar: a Igreja em saída, a crítica a uma economia que mata, a defesa dos migrantes, o cuidado da casa comum, a simplicidade e o desejo de uma comunidade aberta a todos. Nenhum papa realiza sozinho o Evangelho, e seria pesado demais pedir isso a um homem. Francisco abriu processos, encontrou resistências e também deixou tarefas incompletas. O importante não é declarar que um sonho venceu, mas perguntar se as igrejas locais permitiram que ele mudasse suas práticas. Admiração sem conversão é apenas fotografia.

SuperPauta — E o que diria ao papa Leão XIV, que assumiu a Igreja em 2025?

Dom Hélder — Diria, antes de tudo: Santo Padre, não tenha medo de escutar. A unidade da Igreja não é uniformidade imposta; é comunhão capaz de atravessar diferenças sem perder o centro em Cristo. Continue olhando para as periferias do mundo e permita que elas não sejam apenas visitadas, mas ouvidas nas decisões. Proteja a dignidade humana diante de tecnologias e poderes econômicos que podem reduzir a pessoa a dado, consumidor ou peça descartável. E não deixe que a prudência necessária se transforme em espera interminável. Há sofrimentos que não podem aguardar o calendário confortável das instituições.

SuperPauta — O senhor nunca teve medo de morrer assassinado?

Dom Hélder — Tive medo, sim. Coragem não é anestesia. Houve telefonemas, tiros contra a casa, ameaças, homens que rondavam, amigos que me pediam proteção. Eu não queria guarda armada porque temia construir ao meu redor a mesma barreira que denunciava e porque outros não tinham guarda alguma. Talvez tenha sido imprudente; não aconselho que todo ameaçado repita meu gesto. Mas procurei não permitir que o medo escolhesse minhas palavras. Entregava a vida ao Pai e continuava, não por me julgar invulnerável, mas porque o silêncio também tinha vítimas.

SuperPauta — O senhor perdoaria seus perseguidores sem que eles confessassem o que fizeram?

Dom Hélder — O perdão pode começar no coração da vítima para impedir que o ódio a aprisione, mas não elimina verdade, justiça e reparação. Perdoar não é ordenar esquecimento nem devolver cargo ao torturador. A sociedade precisa conhecer documentos, localizar desaparecidos, responsabilizar crimes e educar novas gerações. Sem isso, a palavra reconciliação pode ser usada para proteger o agressor da consequência. Quero meus perseguidores libertos do mal que praticaram, mas essa libertação passa pela verdade. Misericórdia não é cumplicidade.


SuperPauta — O senhor se arrepende de alguma omissão?

Dom Hélder — De muitas. Poderia ter compreendido mais cedo o perigo autoritário dos anos 1930, ouvido com maior profundidade certas vozes, defendido algumas pessoas de modo mais eficaz, sido mais claro em determinadas horas. Quem vive muito acumula não apenas obras, mas ocasiões perdidas. Não desejo transformar arrependimento em teatro de humildade. Ele só é fecundo quando ajuda outros a reconhecer antes aquilo que reconhecemos tarde. Deus pode trabalhar até com nossos atrasos, mas isso não devolve às vítimas o tempo que lhes faltou.

SuperPauta — Depois de tudo, o que é fé?

Dom Hélder — Fé é confiar no Pai sem usar Deus para fugir dos irmãos. É enxergar em cada pessoa uma dignidade que nenhum governo, mercado, igreja ou crime consegue apagar. É celebrar a Eucaristia e perceber que o pão repartido denuncia toda mesa de exclusão. É atravessar a noite sem chamar escuridão de luz, mas também sem conceder à noite a última palavra. A fé não oferece mapa detalhado. Oferece companhia, horizonte e responsabilidade.

SuperPauta — E esperança?

Dom Hélder — Esperança não é esperar sentado que a Providência faça o trabalho que entregou às nossas mãos. É começar mesmo quando os cálculos dizem que o resultado será pequeno. É plantar sabendo que outro talvez colha, denunciar sabendo que a censura pode vencer o jornal daquele dia, educar uma criança sem garantia do mundo que ela encontrará. Os pessimistas costumam parecer inteligentes porque enumeram obstáculos com precisão. A esperança também precisa conhecê-los, mas pergunta onde está a primeira fresta. Deus gosta de trabalhar por frestas.

SuperPauta — Se pudesse voltar à Natal de maio de 1959, o que diria aos bispos, a Juscelino e a Celso Furtado?

Dom Hélder — Agradeceria a coragem de tratar o Nordeste como questão nacional e não como paisagem de calamidade. Diria a Celso que sua inteligência continuaria indispensável e seria muitas vezes citada por quem não aceitaria suas consequências. Ao presidente, lembraria que decreto é começo, não cumprimento. Aos bispos, pediria que não se contentassem em conversar com o governo: era preciso ouvir trabalhadores rurais, mulheres, jovens e comunidades como protagonistas. E a todos faria uma pergunta: estamos desenvolvendo o Nordeste para libertar seu povo ou apenas para integrar sua riqueza a um sistema que continua concentrando poder?

SuperPauta — E o que diria à Natal de hoje?

Dom Hélder — Diria que não deixe sua memória virar saudade inofensiva. A cidade que reuniu bispos e técnicos para enfrentar a miséria e que fez da rádio uma escola possui uma herança de invenção pública. Olhe para suas periferias, para a juventude, para quem vive na rua, para o litoral ameaçado, para os trabalhadores invisíveis ao turismo. Universidade e comunicação pública devem continuar perguntando aquilo que o poder prefere não ouvir. E, por favor, não tratem o interior do estado como lugar que aparece apenas na seca ou na eleição. Natal só será plenamente capital quando souber escutar o Rio Grande do Norte inteiro.

SuperPauta — O que o senhor gostaria que o SuperPauta, um blog sediado nesta cidade, perguntasse ao poder?

Dom Hélder — Pergunte sempre quem não foi convidado para a fotografia. Quando anunciarem uma obra, descubra quem será removido e quem receberá o lucro. Quando falarem em segurança, pergunte segurança para quem e medo de quem. Quando uma autoridade invocar Deus, compare a invocação com o tratamento dado ao pobre. Quando a oposição denunciar, investigue também o que ela faria no poder. Jornalismo não deve ter prazer em destruir pessoas, mas não pode ter medo de desagradar relações. A imprensa serve à paz quando serve à verdade; e a verdade, quase sempre, começa escutando quem foi colocado fora do enquadramento.

SuperPauta — O senhor está sendo agora transformado por nós numa personagem literária. Isso o incomoda?

Dom Hélder — Incomoda-me apenas se a personagem tomar o lugar do homem e se palavras inventadas forem vendidas como documento. A imaginação pode aproximar gerações, fazer uma pergunta antiga encontrar o presente e devolver calor aos arquivos. Mas deve caminhar de mãos dadas com a honestidade. Digam claramente que esta conversa não aconteceu, que minhas respostas foram recriadas a partir de minha trajetória e de meu modo de falar. E não me façam acertar tudo. Um personagem sem contradições talvez sirva à propaganda; à memória, não.

SuperPauta — Que pergunta o senhor faria a quem ler esta entrevista até o fim?

Dom Hélder — Perguntaria: qual injustiça você já compreendeu, mas ainda chama de complicada para não precisar agir? Não peço heroísmo teatral. Talvez sua parte seja uma reportagem, uma aula, um voto consciente, uma denúncia, uma visita, uma organização de bairro, um gesto de reconciliação ou a coragem de rever o próprio grupo. Cada um deve discernir. Mas há um momento em que continuar analisando sem mover um dedo se torna uma forma elegante de consentimento.

SuperPauta — E quando a luz vermelha desta câmera apagar, o que deve continuar aceso?

Dom Hélder — A profecia. Não a previsão do futuro, mas a coragem de ler o presente à luz da justiça de Deus. Profecia sem ternura vira condenação; ternura sem profecia vira consolo barato. Conservem as duas. E, se a noite parecer grande demais, procurem as minorias que continuam esperando e trabalhando. O Pai quase nunca começa pela multidão.

Depois da entrevista

A luz vermelha se apaga, mas Dom Hélder permanece sentado por alguns segundos. Junta as mãos, fecha os olhos e parece escutar alguma coisa além do estúdio.

Atrás da cortina, a Natal de 1959 continua em movimento. Juscelino assina papéis que ainda serão decretos. Celso Furtado dobra um mapa do Nordeste. Dom Eugênio aproxima um rádio de uma janela, e vozes de uma escola rural atravessam a noite em lições entrecortadas.

Dom Hélder se levanta. É menor do que a cadeira vazia sugere. Pega a pasta de cartolina e troca a ordem das duas datas: coloca 21 DE MAIO DE 1983 atrás e 26 DE MAIO DE 1959 na frente.

— A memória só vive quando ainda tem trabalho a fazer — diz.

Ele caminha até a saída, mas volta dois passos.

— Meu querido irmão, uma coisa.

— Sim?

— Não deixe que me façam falar bonito demais. O pobre não precisa de nossa beleza. Precisa de nossa coragem.

A porta se fecha. No relógio, o ponteiro dos segundos volta a andar.

Sobre a mesa, ao lado do copo intacto, ficou uma folha que não estava ali. Há apenas uma pergunta escrita:

Quem ainda não foi convidado para a fotografia?

Do lado de fora, em algum ponto entre o campus e a cidade, um rádio antigo começa outra aula.



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