terça-feira, 15 de setembro de 2026

Encontros Impossíveis: Mané Garrincha



O menino nascido em Pau Grande que driblou marcadores, diagnósticos e a lógica do futebol volta ao velho Juvenal Lamartine para falar da infância, do Botafogo, das Copas de 1958 e 1962, de Pelé, de Elza Soares, da bebida, da exploração dos ídolos e da tarde em que vestiu a camisa 7 do Alecrim. Sem absolvição fácil e sem condenação tardia, Garrincha enfrenta o adversário que nunca conseguiu deixar para trás: a própria história.

Entrevista imaginária por Roberto Homem

O cenário

O Juvenal Lamartine está aceso, embora Natal durma.

Não é o estádio de hoje nem exatamente o de 1968. As arquibancadas de concreto ainda guardam seis mil vozes, mas não há ninguém nelas. O placar marca ALECRIM 0 x 1 SPORT. O relógio parou alguns minutos antes do fim, como se a memória se recusasse a encerrar a partida.

No gramado, um homem baixo veste a camisa 7 do Alecrim. A perna direita se curva para fora; a esquerda, para dentro. Uma é mais curta que a outra. Para qualquer médico, aquilo seria impedimento. Para a bola, nunca foi.

Garrincha está perto da linha lateral, olhando para um passarinho que pousou na trave. Pisa a bola com o pé direito. Não parece triste nem alegre. Parece esperando o marcador.

Chego com um gravador. Ele olha para o aparelho, depois para mim.

— Isso aí marca gol?

— Só guarda a conversa.

— Então pode ligar.

A bola rola alguns centímetros com o vento. Garrincha a detém sem olhar.

A entrevista


SuperPauta — Mané, por que este encontro acontece aqui, no Juvenal Lamartine, e não em Pau Grande, no Maracanã ou em General Severiano?

Garrincha — Você é que marcou, não fui eu. Mas está bom. Eu gostava desses campos assim. A arquibancada perto, o sujeito gritando e a gente escutando. Aqui joguei com a camisa do Alecrim. Foi um jogo só. Para mim, um jogo. Para o povo daqui acho que foi mais, né? Vieram para ver se eu ainda driblava. Todo lugar era isso: “Será que ele ainda é o Garrincha?”. Eu entrava e procurava a bola.

SuperPauta — Foi em 4 de fevereiro de 1968. Mais de seis mil pessoas vieram ver você enfrentar o Sport. O Alecrim perdeu por 1 a 0, gol de Duda. O que ficou daquela tarde?

Garrincha — Rapaz, faz tempo. Ficou a camisa verde, o calor e o campo cheio. Eu já não era aquele de 58, de 62. O joelho não deixava. Mas a bola chegava e eu tentava. Joguei na direita, com a 7, depois entrou o Zezé. O Sport ganhou de um a zero. Duda fez o gol. Eu não fiz gol, não. Mas o povo levantou umas vezes. Então alguma coisa eu fiz.

SuperPauta — Naquele mesmo 1968, o Alecrim conquistaria o Campeonato Potiguar invicto e ficaria conhecido como o “Vingador”. Você sentiu a força daquele time?

Garrincha — Era time bom. Eu é que estava chegando, emprestado para um jogo. Tinha Icário, Burunga, Cândido, Luizinho... os homens conheciam o campo, jogavam juntos. Eu não vim ensinar nada, não. Vim vestir a camisa e jogar. Campeão depois foram eles. Invictos, não foi? Então pronto. Quem ensinou foi o Alecrim.

SuperPauta — Há uma fotografia sua com a camisa do Alecrim. Para muita gente no Rio Grande do Norte, ela vale quase como um troféu. Você entendia o efeito que sua presença causava longe do Rio?

Garrincha — Não entendia muito, não. Saía do hotel, pegava o ônibus, jogava e voltava. Às vezes aparecia um sujeito dizendo: “Você deu um drible assim, assim”. Eu nem lembrava. O povo lembrava mais do que eu. Se guardaram a fotografia até hoje, então eu fiquei um pouquinho aqui. Está bom assim.

SuperPauta — Antes de ser Garrincha, você era Manuel Francisco dos Santos, menino de Pau Grande. Quem era aquele menino?

Garrincha — Era Mané. Gostava de rio, passarinho, pelada, mato. Trabalhava na fábrica porque todo mundo trabalhava, mas não levava jeito para relógio de ponto. A bola não mandava chegar às sete nem pedia explicação. Você chutava e ela respondia na hora. Pau Grande era pequeno, mas para criança lugar pequeno pode ser o mundo inteiro.

SuperPauta — Você começou a trabalhar muito novo na fábrica de tecidos de Pau Grande. Era um operário que jogava futebol ou um jogador obrigado a ser operário?

Garrincha — Eu era um rapaz que queria jogar bola. A fábrica era porque tinha de trabalhar, todo mundo lá trabalhava. Eu entrava, saía, às vezes chegava atrasado. Não era bom operário, não vou dizer que era. Me protegiam porque eu jogava no time da fábrica. Se não tivesse futebol, acho que já tinham me mandado embora muitas vezes. A bola é que segurava meu emprego.

SuperPauta — E por que você demorou tanto a acreditar que poderia jogar num clube grande?

Garrincha — Porque eu já jogava. Lá tinha campo, tinha jogo, tinha meus amigos. Para que ir ao Rio tomar ônibus, fazer teste, ouvir um homem dizer que minha perna era torta? Eu não ficava pensando em ser famoso. Arati, que jogava comigo, foi quem insistiu. Ele dizia: “Mané, você tem que ir”. Eu dizia: “Depois eu vou”. Um dia fui.

SuperPauta — O apelido veio de um pássaro. Você passou a vida inteira sendo chamado por um nome que não escolheu. Gostava dele?

Garrincha — Quem me chamou foi minha irmã. Garrincha era um passarinho pequeno, ligeiro, desses que o povo acha meio bobo. Pegou. Manuel ficou para documento, médico e bronca. Garrincha era quem entrava no campo. Depois o apelido cresceu mais do que eu. Aí ficou difícil saber onde terminava o homem e começava o passarinho.

SuperPauta — Suas pernas foram tratadas como defeito. Uma diferença de comprimento, joelhos apontando para lados opostos. Como aquilo que parecia incapacidade virou sua maior vantagem?

Garrincha — Não virou, não. Eu já jogava assim desde menino. O médico olhava e dizia que não dava. Mas eu corria, chutava, driblava. O marcador olhava para minha perna e não sabia para onde eu ia. Eu também não ficava pensando na perna. Pensava na bola.

SuperPauta — Antes do Botafogo, outros clubes não enxergaram o jogador que estava ali. Isso feriu você?

Garrincha — Eu voltava para Pau Grande e jogava de novo. Não tinha esse negócio de achar que a vida tinha acabado porque um homem de prancheta não gostou. Talvez fosse timidez, talvez eu nem soubesse fazer teste. Futebol de teste é diferente de futebol de verdade. No teste, o sujeito tenta mostrar que sabe. Eu só sabia quando esquecia que estavam olhando.

SuperPauta — No primeiro treino do Botafogo, você driblou Nilton Santos, já um grande nome da Seleção. Não teve medo de humilhá-lo?

Garrincha — Eu não driblava para humilhar. Driblava porque o gol estava depois dele. Nilton era esperto. Em vez de ficar com raiva, quis que me contratassem. Pensou que era melhor eu jogar do lado dele. E estava certo. Quem entende de futebol não confunde drible com insulto.

SuperPauta — Nilton Santos virou mais do que companheiro?

Garrincha — Virou amigo. Aquele era sério, cuidava das coisas. Eu não cuidava muito. No campo ele falava, orientava. Fora também. Quando eu cheguei, Nilton já era jogador de Seleção. Podia ter ficado zangado com o drible. Que nada. Foi logo falar que era para me contratar. Se ele não fala, vai saber? Talvez eu voltasse para Pau Grande no mesmo dia.

SuperPauta — E Didi?

Garrincha — Didi sabia onde a bola tinha de cair. Eu ficava aberto e ele mandava. Não precisava gritar. Ele olhava e eu sabia. Botafogo tinha muito jogador bom: Nilton, Didi, Quarentinha, Zagallo... Depois Amarildo. Por isso é errado contar como se eu pegasse a bola sozinho lá atrás e fizesse tudo. Primeiro alguém tinha de me dar a bola.

SuperPauta — Mas você às vezes esperava o marcador voltar para driblá-lo outra vez. Isso não era crueldade?

Garrincha — Eu achava graça. Passava, esperava o homem voltar e ia de novo. Não era para ofender, não. Era porque eu gostava da jogada e o povo ria. O marcador devia ficar danado comigo. Hoje eu entendo. Na hora eu só queria continuar com a bola.

SuperPauta — Você ganhou o apelido de Alegria do Povo. A alegria era sua ou era a alegria que você dava aos outros?

Garrincha — Dentro do campo eu me divertia. O povo também. Então era dos dois. Fora do campo já era outra coisa. Esse nome, Alegria do Povo, é bonito. Eu gostava. Mas o jogo acabava, né? A torcida ia embora e eu ia cuidar da minha vida. Nem sempre tinha alegria nela.

SuperPauta — Em 1958, você começou a Copa no banco e entrou no terceiro jogo, contra a União Soviética, ao lado de Pelé. Sentiu que ali mudava a história?

Garrincha — Não. Eu pensei: agora vou jogar. Só isso. Peguei a bola, fui para cima, chutei na trave. Depois teve outra bola na trave e o Vavá fez o gol. Dizem que foram três minutos muito grandes. Na hora ninguém contou três minutos, não. A gente queria fazer o gol.

SuperPauta — Na final contra a Suécia, dois gols de Vavá nasceram de jogadas suas pela direita. Você percebia que o Brasil estava deixando para trás o trauma de 1950?

Garrincha — Eu não pensava em 1950. Eu nem estava lá. O pessoal falava, claro, mas eu pensava no lateral da Suécia. Passei uma vez, cruzei e Vavá fez. Depois fiz de novo e ele fez de novo. Se desse certo, eu repetia. Sempre fui assim.

SuperPauta — E Pelé? O país gosta de transformar grandes jogadores em rivais, mesmo quando jogaram juntos.

Garrincha — Pelé era um grande jogador. Grande mesmo. Ele fazia as coisas dele e eu fazia as minhas. Juntos nós não perdemos, não é isso? Então pronto. Agora ficam perguntando quem foi melhor. Que nada. Eu jogava de ponta, ele jogava lá no meio. Tinha bola para os dois.

SuperPauta — Na entrevista de 1981, quando perguntaram se Pelé o visitava, você respondeu com mágoa e o chamou de “safado”. Era ressentimento?

Garrincha — Eu estava chateado. Falei, falei mesmo. O sujeito pergunta se ele vai lá, eu digo que não vai. Naquele tempo sumiu muita gente. Pelé também tinha a vida dele, eu sei. Mas eu queria que aparecesse como amigo, não como rei. Amigo bate na porta. Depois podem dizer que eu fui injusto. Pode ser. Naquele dia era o que eu sentia.

SuperPauta — Em 1962, Pelé se machucou e você assumiu o protagonismo. Fez gols, criou jogadas, foi decisivo. Foi ali que você percebeu que podia conduzir uma seleção?

Garrincha — Sozinho, não. Tinha Amarildo, Vavá, Zagallo, Didi, Zito, Nilton, Gilmar. Pelé machucou e eu tive de fazer mais coisa. Contra a Inglaterra fiz dois. Um de cabeça, olha só. Contra o Chile fiz mais dois. A bola entrava. Eu estava bem. Aí disseram que eu carreguei o time. Carreguei nada; o time correu junto.

SuperPauta — Na semifinal contra o Chile você fez dois gols, deu passe, foi expulso e ainda levou uma pedrada na saída. Aquela partida mostra um Garrincha diferente do brincalhão?

Garrincha — Foi jogo duro. Os chilenos batiam, o estádio todo contra a gente. Eu fiz os gols, depois levei pontapé, dei também e fui embora. Na saída jogaram uma pedra e pegou em mim. Brincadeira tem hora. Quando o jogo apertava eu queria ganhar. Eu ria, driblava, mas não estava ali para perder.

SuperPauta — Você foi expulso na semifinal contra o Chile, mas pôde disputar a final. A glória também dependia de decisões tomadas fora do campo?

Garrincha — Futebol sempre teve sala fechada. A gente joga noventa minutos e depois descobre que tem homem decidindo papel, suspensão, dinheiro, convocação. Eu dei um pontapé, fui expulso e achei que não jogaria. Joguei. Não vou fingir que entendi tudo. Jogador muitas vezes é o último a saber do negócio feito com o nome dele.

SuperPauta — Você entrou com febre na final e o Brasil venceu a Tchecoslováquia por 3 a 1. O corpo já começava a cobrar?

Garrincha — Naquela final era febre. Depois veio o joelho, e o joelho não foi embora. Jogador aprende cedo a jogar com dor porque sempre existe alguém dizendo que dá para aguentar mais uma partida. Quando você é importante, a pergunta não é “você está bem?”. É “você consegue entrar?”. E a gente entra.

SuperPauta — Entre o Garrincha campeão de 1962 e o da Copa de 1966 há uma distância enorme. O que aconteceu em quatro anos?

Garrincha — Aconteceu o joelho. Aconteceu muito jogo, muita excursão, injeção para entrar em campo. Eu engordei, parei, voltava, doía de novo. Em 66 eu ainda fiz gol na Bulgária. Foi meu último pela Seleção. Depois perdemos para a Hungria. Minha primeira derrota com a camisa do Brasil. Ali eu já sabia que não era a mesma coisa. Sabia, sim. Só não queria parar.

SuperPauta — Aquela derrota para a Hungria também foi a única de sua carreira pela Seleção. Você guardou isso?

Garrincha — Guardei porque todo mundo me lembrava. Cinquenta jogos e uma derrota, não foi? Mas derrota é derrota. Não adianta dizer que foi uma só quando ela chega na Copa. Eu saí triste. E depois não voltei mais para a Seleção. Ninguém chega dizendo: “Este é o último jogo”. Se dissesse, a gente olhava melhor em volta.

SuperPauta — Seu joelho foi infiltrado repetidamente. Você se sentiu usado pelo Botafogo e pelo futebol?

Garrincha — Olha, eu gostava do Botafogo. Não vou falar mal da camisa. Mas teve médico que mandou jogar, teve dirigente que queria excursão, tinha dinheiro de jogo. Davam injeção e eu entrava. Depois doía mais. Eu também aceitava. Queria jogar. Nunca tive muita sorte de ter gente séria cuidando de tudo para mim. Quando fui ver, o joelho estava acabado.


SuperPauta — Você assinava contratos sem compreender bem os valores e aceitava gratificações muito menores do que o dinheiro que ajudava a gerar. Foi ingenuidade ou exploração?

Garrincha — Foi as duas coisas. Eu não olhava contrato. Se mandassem assinar, eu assinava. Queria saber se ia jogar. Aí tinha gente que cuidava do meu dinheiro e cuidava melhor para ela do que para mim, entende? Eu também errei. Devia perguntar, devia aprender. Mas o sujeito ver que eu não sabia e aproveitar, isso não está certo.

SuperPauta — Quando saiu do Botafogo para o Corinthians, em 1966, você acreditava que recomeçaria?

Garrincha — Acreditava. O Corinthians tinha uma torcida enorme e estava muito tempo sem ganhar título. Quando cheguei, foi aquela festa. Só que meu joelho não ficou novo porque trocou a camisa. Joguei pouco. Teve jogo bom, teve vaia, teve confusão. Fui embora. O pessoal esperava o Garrincha do Botafogo e eu também esperava. Nenhum dos dois apareceu.

SuperPauta — Em 1968 você também foi à Colômbia defender o Junior de Barranquilla. Ficou apenas uma partida. Por quê?

Garrincha — Fui para jogar. O estádio encheu, como enchia quando eu chegava nesses lugares. Mas eu estava pesado, longe de casa, com saudade dos filhos. Joguei uma partida e acabou. Barranquilla me tratou bem. O problema não era a cidade. Eu é que já não conseguia ficar muito tempo em lugar nenhum.

SuperPauta — Hoje jogadores têm empresários, assessores, contratos milionários e controle da própria imagem. Você teria sobrevivido melhor no futebol atual?

Garrincha — Ganhava mais, isso ganhava. Agora, se ia viver melhor, não sei. Hoje filmam tudo. Se eu saísse de uma concentração, no outro minuto já estava aparecendo. Teria empresário, advogado, esse pessoal todo. Podia ajudar. Podia também aparecer outro querendo ganhar em cima. Sempre aparece.

SuperPauta — E dentro de campo? Com vídeo, estatística, marcação treinada e VAR, ainda haveria lugar para Garrincha?

Garrincha — Tem lateral? Tem linha de fundo? Então tem lugar. O vídeo ia mostrar que eu saía pela direita. Mas o marcador daquele tempo também sabia. Eu ia assim mesmo. Estatística eu não entendo. Vão contar quantas vezes perdi a bola? Pode contar. Tem de contar também quando o estádio levantou.

SuperPauta — O drible está desaparecendo?

Garrincha — Tem drible, sim. O menino nasce driblando. Depois chega o técnico e manda tocar logo. Eu tive técnico que deixava fazer. Feola deixava, o pessoal do Botafogo deixava. Se mandassem eu tocar toda hora, eu tocava umas duas. Na terceira esquecia e ia para cima.

SuperPauta — Você obedecia aos treinadores?

Garrincha — Obedecia. Do meu jeito, mas obedecia. Se mandasse marcar o lateral, eu voltava um pouco. Depois via a bola lá na frente e ia embora. Técnico sabia que não adiantava encher minha cabeça de coisa. Dizia: “Mané, faz o que você sabe”. Essa era uma instrução boa.

SuperPauta — Dizem que, antes de alguns jogos da Copa de 1958, você perguntava aos companheiros se os adversários já tinham combinado o resultado. Essa história é verdadeira ou virou lenda?

Garrincha — Contam tanta coisa... Essa aí aumentaram muito. Eu sabia que era Copa do Mundo, sabia que tinha de ganhar. Podia não saber o nome de todo jogador russo, mas bobo eu não era. O pessoal gostava de me fazer mais inocente do que eu era. Algumas histórias são boas. Só não precisa acreditar em todas.

SuperPauta — Depois do Botafogo, vieram Corinthians, Atlético Junior, Flamengo, Olaria e jogos de exibição por muitos lugares. Era vontade de continuar jogando ou dificuldade de aceitar que o Garrincha de antes já não existia?

Garrincha — Eu queria jogar. Sempre quis. No Flamengo tentei, no Olaria tentei, depois fui para esses jogos pelo Brasil. Era o que eu sabia fazer. Quando acaba, o sujeito acorda no domingo e não tem concentração, não tem vestiário, não tem torcida. Fica esquisito. Aí chamavam para um jogo em Minas, outro no Nordeste, eu ia. Se tivesse bola, eu ia.

SuperPauta — Vestir a camisa do Flamengo depois de ser o maior ídolo do Botafogo pareceu uma traição?

Garrincha — Para alguns botafoguenses, pareceu. Para mim era trabalho e vontade de jogar. Eu não deixei de gostar do Botafogo. Uma camisa não apaga a outra. O Flamengo me deu uma chance quando muita gente dizia que eu tinha acabado. Joguei pouco, é verdade. Fiz até gol, mas o joelho não ajudava. O torcedor pensa com o coração. Eu precisava pensar com a vida.

SuperPauta — E o Olaria, seu último clube profissional?

Garrincha — Foi bom porque era no Rio e eu ainda podia entrar em campo. A torcida ia para ver. Às vezes tinha mais gente por minha causa do que pelo jogo. Eu sabia disso. Não era mais para campeonato grande, mas ainda dava um drible, fazia uma jogada. Oficialmente parei ali. Oficialmente. Porque depois continuei jogando onde chamavam.

SuperPauta — Nos anos 1970, você viajou com os Milionários, equipe de veteranos que fazia exibições pelo país. Aquilo era sobrevivência ou ainda era futebol?

Garrincha — Era os dois. Pagavam alguma coisa e eu jogava. Tinha campo ruim, viagem comprida, hotel simples. Mas chegava lá e tinha menino, velho, família inteira esperando. Para muita cidade era a única vez que iam ver Garrincha. Eu já não corria como antes. Dava para fazer uma graça. O povo ficava contente e eu também.

SuperPauta — Foi nesse período que você chegou a Natal. O público veio ver a lenda, mas encontrou um homem em declínio. Isso doía?

Garrincha — Doía mais o joelho. O sujeito queria ver 1962 outra vez. Eu também queria, ora. Mas não dava. Naquele dia fiz o que podia. O Alecrim me chamou, o povo foi e eu joguei. Se depois eles lembraram melhor do que foi, deixa. Torcedor guarda do jeito dele.

SuperPauta — Você se lembra de ter ouvido algo sobre Natal antes daquele jogo?

Garrincha — Sabia que era longe, no Nordeste, e que o Alecrim era o time verde. Depois conheci o Juvenal Lamartine cheio. Jogador viajava muito e conhecia a cidade pelo hotel, pelo ônibus e pelo estádio. Isso é ruim, né? Às vezes eu ia embora sem saber a praia que tinha ali. Mas do povo no campo eu lembro. Era barulhento.

SuperPauta — Preciso falar de Elza Soares. A história de vocês foi tratada como escândalo, romance, tragédia e espetáculo público. Quem foi Elza para você?

Garrincha — Elza foi uma mulher que gostou de mim. Gostou mesmo. O pessoal botou tudo na conta dela: que eu saí do Botafogo, que eu bebia, que deixei minha casa. Que nada. Eu já bebia, eu fiz minhas escolhas. Ela tentou me tratar, levou médico, brigou comigo para eu parar. Sofreu muito. Eu também fiz ela sofrer. Isso eu sei.

SuperPauta — Você deixou Nair e as filhas. Durante muito tempo, sua imagem de homem simples serviu para suavizar comportamentos que feriram mulheres e crianças. A lenda recebeu desculpas que o homem não deveria receber?

Garrincha — Recebeu. Diziam: “O Mané é assim”. Mas eu não era menino, não. Nair ficou com as meninas, cuidando de tudo, e eu fui embora. Eu ajudava como podia, às vezes não ajudava como devia. Não vou inventar uma desculpa bonita agora. Elas têm razão de cobrar. Uma coisa é o povo gostar do jogador. Outra é a família ter de aguentar o homem.

SuperPauta — Você teve muitos filhos e nem sempre esteve presente. Na entrevista de 1981, mostrou com orgulho a fotografia de Ulf, seu filho sueco, que você nunca chegou a conhecer. Como alguém pode sentir orgulho de um filho ausente?

Garrincha — Pode. Eu olhava a fotografia e diziam que ele era ponta-direita. Aí eu ficava contente. Queria conhecer. Não conheci. Tinha a lei de lá, tinha dinheiro, tinha distância, tinha um monte de coisa. Mas também faltou eu ir atrás direito. Filho não vive de fotografia do pai. Eu sei. Só que, quando mostrava a foto, era o jeito que eu tinha de trazer ele para perto um pouquinho.

SuperPauta — Garrinchinha, seu filho com Elza, morreu ainda criança, num acidente. Essa perda aproximou ou afastou vocês?

Garrincha — Aquilo acabou com nós dois. Filho morrer não tem explicação. Ele tinha nove anos. Depois disso a casa ficou diferente, tudo ficou diferente. Eu bebia mais, Elza sofria do jeito dela. Não foi a única coisa que separou a gente, mas foi uma dor grande demais. Tem coisa que o sujeito não sabe carregar.

SuperPauta — O álcool também costuma aparecer na sua história como destino inevitável, quase uma parte folclórica do personagem. Era?

Garrincha — Não. Graça tem para quem conta. Para quem bebe assim não tem. Comecei cedo em Pau Grande. Depois era para comemorar, para dormir, porque estava triste, porque estava alegre. Qualquer coisa servia. Quando o médico proibiu, eu dizia: “Não, obrigado, não posso beber”. Dizia. Parar é que era difícil. Sempre aparecia também alguém oferecendo cerveja, querendo beber com Garrincha.

SuperPauta — Em 1969, você dirigia no acidente em que morreu Rosária, mãe de Elza. Como se vive depois de uma culpa dessas?

Garrincha — Não sei responder direito. Eu estava dirigindo. Chovia, o carro virou, dona Rosária morreu. Era mãe da Elza. Isso ficou comigo. Você pode dizer acidente, pode dizer que não quis. Claro que não quis. Mas aconteceu comigo no volante. Depois eu fechava o olho e lembrava. Bebia também para não lembrar. Só que a bebida trazia tudo de volta.

SuperPauta — Também houve violência dentro de casa. É importante dizer isso porque a doença não pode virar absolvição. O que você responde?

Garrincha — O que eu vou responder? Fiz coisa errada. Bebida não manda bater em ninguém. Eu é que fiz. Elza não tinha de aguentar. Quando ela foi embora, tinha razão de ir. É ruim falar, mas é pior fingir que não aconteceu. O jogador fazia o povo rir. O homem, dentro de casa, fez gente chorar. Os dois era eu.

SuperPauta — Em 1973, o Maracanã se encheu para sua despedida. Foi homenagem ou o país tentando pagar tarde demais uma dívida?

Garrincha — Foi homenagem. Aquilo eu senti. O Maracanã cheio, todo mundo chamando. Quando saí, chorei. Não dava para não chorar. Disseram que era jogo de gratidão. Eu agradeci também. Ali eu vi que o povo não tinha esquecido. Depois cada um voltou para casa. A vida continuou e ficou difícil outra vez. Mas aquela noite foi bonita.

SuperPauta — Na entrevista de 1981, você disse uma frase dolorosa: “Do Garrincha todo mundo gosta. Eu quero ver gostar do Manoel dos Santos”. Qual era a diferença entre os dois?

Garrincha — Garrincha entrava no campo e resolvia. Aí vinha todo mundo: “O que você quer? O que você precisa?”. Manoel precisava depois, quando não jogava mais. Aí prometiam e não davam, entende? Sumia amigo, sumia dirigente, sumia telefone. Gostar do Garrincha era fácil. Ele dava alegria. Manoel às vezes dava trabalho.

SuperPauta — Houve alguém que permaneceu?

Garrincha — Houve. Não vou dizer que todo mundo abandonou. Tinha minhas irmãs, tinha gente de Pau Grande, alguns companheiros, a Elza ajudou muito enquanto esteve comigo. Giulite Coutinho pagava minha casa e não queria propaganda. Ele dizia que a CBF me devia. Quando eu adoeci, apareceu. Amigo é esse. Não é o que chega para tirar fotografia quando o estádio está cheio.

SuperPauta — Você trabalhou com crianças no fim da vida. O que tentava ensinar?

Garrincha — Ensinava a dominar, passar, chutar. Drible cada um acha o seu. Eu mostrava, mas não dava para ensinar minha perna para o menino. Gostava de ficar com eles porque menino não pergunta quanto dinheiro você perdeu nem por que parou. Quer a bola. Se você dá a bola, acabou o assunto.

SuperPauta — Você também disse que gostaria de ser treinador. Que técnico seria Garrincha?

Garrincha — Queria tentar. Mas tinha de ser time bom, organizado. Não bom só de jogador; bom de apoio. Porque treinador tirar dinheiro do bolso para pagar passagem do jogador, comprar tênis, aí não dá. Eu ia deixar ponta driblar, isso ia. Mas também ia mandar treinar. O pessoal pensa que eu não gostava de treino. Eu gostava de treino com bola.

SuperPauta — Você morreu em 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos. No cortejo, escreveram: “Obrigado, Garrincha, por você ter vivido”. Isso consola ou revolta?

Garrincha — Bonita, não é? “Obrigado por você ter vivido.” Agora, tinha muita gente no enterro que podia ter aparecido antes. Não estou reclamando do povo. O povo sempre gostou. Falo dos homens que mandavam, que prometiam. Morto recebe muita homenagem. Vivo precisava de ajuda.

SuperPauta — Brasília deu seu nome a um estádio monumental. Você se reconhece naquele tamanho?

Garrincha — É grande demais para mim. Eu era de Pau Grande. Jogava numa faixa ali pela direita. Mas fico contente, claro. Estádio bonito com meu nome. Só espero que deixem os pontas jogar. Se não tiver ponta, pelo menos um menino que tente um drible. Aí está certo.

SuperPauta — Se pudesse falar com um garoto que hoje é chamado de “novo Garrincha”, o que diria?

Garrincha — Para não ser novo Garrincha. Seja ele mesmo. E leia o contrato. Eu não lia. Cuide do joelho, escute médico bom, guarde dinheiro. Se aparecer amigo demais quando você faz gol, espere perder um jogo para ver quantos ficam. Agora, com a bola, brinque. Se tirar isso, não adianta fazer tudo certo e jogar triste.

SuperPauta — Afinal, quem foi maior: Garrincha ou Mané?

Garrincha — Para o povo, Garrincha. Para mim... não sei. Garrincha jogava noventa minutos. Manoel ficava depois. Era mais difícil ser Manoel. Garrincha sabia o que fazer: pegava a bola e ia pela direita. Manoel nem sempre sabia para onde ir.

SuperPauta — E se eu lhe devolver a bola agora?

Garrincha — Arrume um marcador.



O passarinho deixa a trave. Garrincha empurra a bola pela linha lateral e espera que eu me aproxime. Dou dois passos. Ele inclina o corpo para a esquerda.

Eu sei que irá para a direita.

Todo mundo sabe.

Mesmo assim, quando tento alcançá-lo, há apenas a camisa verde se afastando, a arquibancada vazia se levantando e uma risada que o tempo ainda não conseguiu marcar.

No placar, o resultado não muda.

Mas já não parece uma derrota.

Nota editorial

Esta é uma entrevista imaginária. Não são transcrições nem declarações literais, exceto a epígrafe, identificada como tal. Os acontecimentos históricos mencionados — a infância em Pau Grande, a carreira no Botafogo, as Copas de 1958, 1962 e 1966, a passagem por outros clubes, a relação com Elza Soares, o alcoolismo, o acidente de 1969, a despedida no Maracanã e a morte em 1983 — servem de base factual para uma conversa que nunca aconteceu.

O amistoso em Natal ocorreu em 4 de fevereiro de 1968, no Estádio Juvenal Lamartine. Garrincha vestiu a camisa 7 do Alecrim contra o Sport Recife, que venceu por 1 a 0, gol de Duda. Mais de seis mil pessoas assistiram à partida. Garrincha foi substituído por Zezé. Meses depois, sem relação direta com aquele resultado, o Alecrim conquistou invicto o Campeonato Potiguar de 1968.

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