Composta em 1980 por Roberto Homem de Siqueira e Vladimir Quintiliano Carvalho da Silva, então conhecido como Gato Seco, “Secas do Sertão” nasceu entre as carteiras do Colégio Salesiano São José e a paisagem castigada por uma das estiagens mais severas da história recente do Rio Grande do Norte.
Algumas canções atravessam os anos tocando no rádio, nos palcos e na memória coletiva. Outras fazem um percurso mais silencioso: permanecem guardadas em cadernos, fitas, arquivos e lembranças, à espera de que alguém lance novamente a linha para pescá-las e trazê-las à superfície.
É para essas obras que nasce Pescando o Passado, nova seção do SuperPauta dedicada a recuperar poemas, letras, músicas, vídeos, áudios e histórias que o tempo guardou — algumas em sua forma original, outras acompanhadas de novos arranjos, interpretações ou leituras.
A primeira pescaria nos leva de volta a 1980.
Roberto Homem e Vladimir "Gato Seco" no início dos anos 1980. Colegas do primeiro ano do antigo segundo grau no Colégio Salesiano São José, em Natal, os dois compuseram “Secas do Sertão” quando ainda eram adolescentes.Naquele ano, eu e Vladimir estudávamos no Colégio Salesiano São José, na Ribeira, em Natal. Cursávamos o primeiro ano do antigo segundo grau, equivalente hoje ao primeiro ano do ensino médio.
Éramos dois adolescentes começando a descobrir que uma música podia fazer mais do que falar de amor. Ela também podia observar a rua, denunciar uma injustiça, contar a vida de quem quase nunca aparecia como protagonista e transformar a realidade em versos.
Vladimir era conhecido na época pelo apelido de Gato Seco. Muitos anos depois, passaria a adotar o nome artístico de Vlad Carvalho.
Foi na casa dos pais dele, Jorge e Socorro, que fizemos “Secas do Sertão”.
Reconstituição da tarde em que “Secas do Sertão” foi composta, em 1980, no quarto de Vladimir Carvalho, na casa de seus pais, Jorge e Socorro, em Natal. Vladimir, ao violão, e Roberto Homem, anotando os versos. Imagem produzida a partir de fotografias dos autores na juventude.O Brasil que havia ao redor
Em 1980, o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar. O general João Baptista Figueiredo ocupava a Presidência, enquanto o país atravessava uma abertura política lenta, cercada de tensões, ameaças e contradições. A Lei da Anistia havia sido aprovada no ano anterior, antigos exilados começavam a retornar e novas vozes procuravam espaço, mas a democracia ainda não havia chegado.
A vida econômica também ficava mais difícil. A inflação corroía os salários, aumentava os preços e obrigava as famílias a refazer continuamente as contas. O chamado “milagre econômico” já havia ficado para trás, e o país começava a entrar na grave crise que marcaria a década.
Não existiam internet, telefone celular ou plataformas digitais. A música chegava principalmente pelo rádio, pela televisão e pelos discos de vinil. Gravar alguma coisa em casa exigia um aparelho de fita cassete — e preservar essa gravação durante décadas era quase um ato de resistência.
Nós ouvíamos Chico Buarque. Embora lançada em 1971, “Construção” continuava impressionando pela arquitetura dos versos, pela repetição das palavras e pela maneira como transformava a morte de um operário em retrato de uma sociedade inteira.
Também curtíamos “Cidadão”, composição de Lúcio Barbosa gravada por Zé Geraldo em 1979. Na canção, um trabalhador contempla os edifícios que ajudou a erguer, mas dos quais permanece socialmente excluído.
E havia “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho, também lançada em 1979, convertendo conformismo, exploração e desigualdade em música popular. Essas canções nos mostravam que era possível contar histórias sociais sem abandonar a poesia.
O sertão entre a sede e o dilúvio
No Rio Grande do Norte, a realidade fornecia um tema impossível de ignorar.
O estado atravessava um ciclo de estiagem iniciado em 1979 e que se prolongaria até 1983. A falta de chuva comprometia plantações, reduzia drasticamente os reservatórios, dizimava rebanhos e empurrava milhares de famílias para a dependência das chamadas frentes de emergência.
A seca não significava apenas a ausência de água. Significava a perda da lavoura, a morte dos animais, o desemprego no campo, a fome, a migração e a espera angustiante por um inverno que podia novamente não chegar.
A imagem das vacas magras junto às cercas, procurando um pasto que já não existia, fazia parte do noticiário e do imaginário nordestino. Foi justamente essa imagem que abriu a nossa canção.
O período ainda reservava uma contradição dolorosa. Em 1981, depois de anos de estiagem, o Rio Grande do Norte enfrentou semanas de chuvas intensas. As águas romperam ou danificaram 104 açudes e barragens, deixaram cidades isoladas e provocaram milhares de desabrigados.
Santa Cruz viveu uma das maiores tragédias de sua história. O rompimento do açude que protegia a cidade desencadeou uma inundação devastadora em 1º de abril daquele ano.
O sertão que implorava pela chuva descobriu, de maneira brutal, que a mesma água capaz de devolver vida à terra também podia destruir casas, estradas e lembranças.
A enchente também mergulhou Natal no escuro. A força das águas no interior derrubou estruturas da rede de transmissão e interrompeu o fornecimento de energia à capital por quatro dias consecutivos. Sem eletricidade, o bombeamento de água ficou comprometido, hospitais recorreram a geradores e o comércio precisou reduzir o funcionamento. Enquanto o sertão padecia com a estiagem prolongada, uma cheia devastadora deixava parte do estado submersa e a capital apagada. Lembro que nós ficamos atordoados com aquela situação. As ruas escuras, sem perspectiva de que a energia voltasse. Foi um período marcante e inesquecível.
“Secas do Sertão” foi composta antes desse grande desastre de 1981. Por isso, guarda a esperança quase absoluta de quem via a chuva apenas como salvação. É um retrato daquele instante: a terra rachada, o gado enfraquecido, o vaqueiro aflito e a expectativa de que as primeiras águas devolvessem o verde, o plantio e a vida.
Da terra castigada à chuva esperada: ilustração inspirada nas imagens de “Secas do Sertão”, composta por Vlad Carvalho e Roberto Homem em 1980.
Assista e ouça “Secas do Sertão”
Secas do Sertão
Vlad Carvalho e Roberto Homem — 1980
As vacas magras sobrevivem com a seca
Ao pé da cerca, sob o sol do sertão
Sem ver o pasto, nem a água ao seu lado
Só a tristeza em cada coração
Terras rachadas, parecia um deserto
Bem muito perto da solidão
Sem ver o lindo verde
Sem ver sua plantação
O desespero, preso em um alto grito
Um berro forte de estourar a garganta
Diz, clama e chama o vaqueiro aflito
Implora, rogando: acabe essa matança
E finalmente vem a chuva esperada
E os animais ressuscitam sobre a mata
Chegou a chuva, acalmando a nossa luta
Toda marcada pelas secas do sertão
Quando acordam, veem tudo diferente
Todos contentes, plantando capim
Uma corrente pelos rios vai passando
Admirados, todos ficam olhando
Felicidade voltou a pairar
E eu vou parar de cantar
Esperar outra seca chegar
Pra com ela poder me inspirar
E finalmente vem a chuva esperada
E os animais ressuscitam sobre a mata
Chegou a chuva, acalmando a nossa luta
Toda marcada pelas secas do sertão
Chegou a chuva, acalmando a nossa luta
Toda marcada pelas secas do sertão
A letra datilografada de “Secas do Sertão”, preservada por mais de quatro décadas no arquivo pessoal de Roberto Homem.
A parceria reencontrada
A vida seguiu seu curso e nos levou por caminhos diferentes. Somente muitos anos depois, em 2007, reencontrei Vladimir em Natal.
Fui visitá-lo em sua casa, em Lagoa Nova. Depois saímos e fomos para um barzinho. Entre conversa, lembranças e música, fizemos uma nova parceria: “Estrela do Meu Amor”.
Vinte e sete anos separavam aquela composição de “Secas do Sertão”. Gato Seco agora assinava artisticamente como Vlad Carvalho, mas o impulso de criar continuava vivo.
Desse reencontro nasceu nossa segunda parceria. A canção começava assim: “Morro de medo, que seja cedo / ou fique tarde...”. Sua história, porém, merece outra pescaria.
Nesse intervalo, Vladimir também havia desenvolvido uma parceria importante com o compositor e violonista Joca Costa, de quem foi aluno. Em 2005, os dois participaram do Forraço realizado em Santa Cruz com “Dor Nordestina”.
O processo de criação da dupla misturava letra e melodia. Vladimir começava a construir a canção e, quando encontrava alguma dificuldade, Joca se juntava a ele, contribuindo simultaneamente com palavras e música. Não havia uma fronteira rígida entre quem escrevia e quem compunha: a obra avançava pela colaboração.
Em 2008, a parceria conquistou o Forraço com “Primaverou”, interpretada pela cantora Diana Cravo.
Da seca à primavera, a trajetória parece fechar um pequeno círculo poético. A primeira música que fizemos, em 1980, esperava a chuva. Quase três décadas depois, uma canção de Vlad Carvalho e Joca Costa anunciava no próprio título que a primavera finalmente havia chegado.
O que permanece
Ouvir hoje “Secas do Sertão” é escutar mais do que uma composição juvenil.
A letra carrega as limitações, a franqueza e até a ironia de dois adolescentes descobrindo como transformar o mundo ao redor em canção. O verso final — “Esperar outra seca chegar / Pra com ela poder me inspirar” — tem a irreverência própria da idade. Visto à distância, porém, também sugere algo que só compreenderíamos plenamente depois: o artista muitas vezes recolhe sua matéria justamente nos acontecimentos que gostaria que nunca se repetissem.
A seca passou, voltou outras vezes e continua sendo uma ameaça. O sertão mudou, ganhou novos reservatórios, adutoras e tecnologias de convivência com o semiárido, mas a segurança hídrica ainda permanece como desafio.
A canção ficou.
Quarenta e seis anos depois: Roberto Homem e Vladimir Carvalho entre os retratos da juventude e o presente. A amizade e a música atravessaram o tempo.Quarenta e seis anos depois, nós a retiramos do arquivo não para fingir que o tempo parou, mas para perceber quanto dele continua vivendo dentro de uma letra.
É esta a proposta de Pescando o Passado: lançar a linha sobre as águas da memória e descobrir que algumas criações não desapareceram. Estavam apenas esperando a hora de voltar.
Pescando o Passado
Poemas, letras e canções que o tempo guardou.
Conheça a página da série.



Lembro bem dessa música, na época vivíamos a cantá-la pelos recantos do Salesiano. Uma lembrança maravilhosa dessa amizade que perdura até hoje. Parabéns aos dois pelo belo poema e pela linda canção.
ResponderExcluirÉ verdade, Almir. Foi um sucesso sem nunca ter sido sequer tocada. Pois era só a capella
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