Por Roberto Homem
O menino que esperava os gibis chegarem a Caicó tornou-se um dos pioneiros da pesquisa brasileira sobre histórias em quadrinhos. Seu livro de 1970 ganha novas leituras à luz de uma entrevista concedida ao SuperPauta em 2013.
Em Caicó, um menino aguardava a chegada de um caminhão vindo de Recife. Seu Benedito trazia mercadorias variadas e, entre elas, revistas em quadrinhos. O garoto ficava de plantão na calçada, esperando os gibis. Batman, Super-Homem, Tarzan, Fantasma e Mandrake chegavam ao sertão em páginas impressas. O menino se chamava Moacy da Costa Cirne.
Décadas depois, seria poeta, ensaísta, professor da Universidade Federal Fluminense e um dos principais nomes da reflexão brasileira sobre os quadrinhos. Mas nunca perderia o vínculo afetivo com aquela descoberta infantil. Na entrevista publicada pelo SuperPauta em 1º de dezembro de 2013, recordou que era conhecido em Caicó como “o menino do gibi”.
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| Moacy Cirne, em outubro de 2013. Foto: acervo pessoal de Roberto Homem. |
Um livro que mudou a conversa
Publicado originalmente pela Editora Vozes em 1970, A explosão criativa dos quadrinhos apareceu num ambiente em que as histórias em quadrinhos ainda eram frequentemente tratadas como leitura menor. Moacy não se limitou a defender os gibis. Perguntou como funcionava aquela linguagem: de que modo as imagens organizavam o tempo, como os balões transformavam a fala em forma visual e como a cultura de massa participava das disputas de ideias.
Seu livro percorre a importância social dos quadrinhos, a estética dos balões, a força gráfica das onomatopeias, o ritmo visual, a tradição narrativa de personagens como Ferdinando, Tarzan, Flash Gordon e Mandrake, além das vanguardas, da metalinguagem e das relações com o poema/processo.
O autor via nos quadrinhos uma expressão artística capaz de invenção, mas não ignorava os valores e ideologias que circulavam em suas histórias. Essa combinação entre experimentação formal e crítica cultural distingue o livro.
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| O encontro na casa de Moacy Cirne. Foto: acervo pessoal de Roberto Homem. |
Quando a palavra vira imagem
Um balão não é apenas o lugar onde se escreve uma fala. Seu contorno, tamanho e posição podem transmitir medo, surpresa, irritação ou movimento. Às vezes, o próprio balão participa da ação, como nos exemplos de Gato Félix e Snoopy examinados por Moacy.
As onomatopeias também são mais do que ruídos escritos. Um BANG! ou um CRASH! pode ocupar a página como forma plástica. O som, embora não seja ouvido, torna-se visível. Já o ritmo visual depende da sucessão dos quadros, dos cortes e da maneira como o leitor preenche mentalmente o intervalo entre as imagens.
A análise não era apenas impressionista. Moacy reuniu exemplos e observações sistemáticas, tratando a página de quadrinhos como uma construção que merecia investigação própria.
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| Onomatopeias: o som transformado em desenho. |
O cinema, outra paixão
Antes de estudar a linguagem dos quadrinhos, Moacy havia se apaixonado pelo cinema. Na infância, frequentava o Cine Pax, em Caicó. Contava com prazer episódios envolvendo o gerente, seu Clóvis, e as restrições de idade que mudavam de uma sessão para outra.
Na entrevista, recordou a frustração dos garotos impedidos de assistir a Gilda no domingo, apenas para descobrirem que, na segunda-feira, a exibição do mesmo filme era liberada. A explicação de seu Clóvis era que domingo era dia de família; segunda, de gandaia.
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| Um dos momentos da conversa. Foto: acervo pessoal de Roberto Homem. |
Em Natal, Moacy escreveu sobre cinema na Tribuna do Norte, numa coluna compartilhada com Paulo de Tarso. Segundo seu próprio relato, foi por volta de 1967 que um texto sobre linguagem cinematográfica o levou a enxergar os quadrinhos como campo de investigação.
A poesia que não cabia no verso
Moacy também participou da renovação da poesia brasileira. Ao lado de artistas como Falves Silva e Anchieta Fernandes, acompanhou as experiências da poesia concreta e buscou novos procedimentos. Sua mudança para o Rio de Janeiro, em 1967, aproximou-o de Wlademir Dias-Pino e do poema/processo.
Nesse movimento, a poesia ultrapassava a organização tradicional dos versos e explorava signos, sequências, espaços e relações visuais. O capítulo final de A explosão criativa dos quadrinhos examina justamente o diálogo entre os quadrinhos e essas experiências. Para Moacy, não bastava imitar a aparência de uma revista: interessava investigar a estrutura da linguagem.
Na entrevista, ele também esclareceu sua relação com Câmara Cascudo. A geração dos jovens experimentalistas queria seguir outros caminhos, mas isso não significava, necessariamente, hostilidade pessoal ao grande pesquisador potiguar. Cascudo, segundo Moacy, manteve-se discretamente à margem da polêmica.
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| Roberto Fontes e Abimael Silva também participaram da entrevista. Foto: acervo pessoal de Roberto Homem. |
O professor de Caicó
Na Universidade Federal Fluminense, Moacy ensinou comunicação a gerações de estudantes. Falava tanto sobre o Seridó que passou a ser chamado de “o professor de Caicó”. Uma de suas histórias favoritas era a aula em que levou chouriço para os alunos experimentarem e inventou, por brincadeira, que o doce só teria efeito afrodisíaco se consumido à meia-noite de uma sexta-feira.
A ligação com a terra natal também atravessou a literatura. Em 69 poemas de Chico Doido de Caicó, o personagem ganhou tal aparência de realidade que, quando sua morte fictícia foi anunciada, uma estudante chegou a chorar. Chico Doido ultrapassou o livro e chegou ao teatro, interpretado por Leon Góes. O ator, que também é diretor, também deverá levar Chico Doido às telas do cinema.
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| Chico Doido de Caicó também deverá virar filme |
A entrevista de outubro de 2013
A entrevista nasceu de um telefonema. Eu estava embarcando em Brasília para Natal quando liguei para meu amigo Roberto Fontes, perguntando se haveria alguém interessante para conversarmos durante minha passagem pela cidade. No desembarque, ele tinha a resposta: Moacy Cirne aceitara nos receber às seis da tarde.
Deixei a mala no apartamento dos meus pais e seguimos para o compromisso. Eu ainda não conhecia Moacy pessoalmente. Abimael Silva, do Sebo Vermelho, também participou do encontro, especialmente quando a conversa chegou a Chico Doido de Caicó.
Durante quase duas horas, Moacy falou com disposição e humor. Reconstituiu cenas da infância, viagens, aulas, cinemas, estádios, livros e personagens. Recordou o Fluminense, as experiências poéticas, os amigos e as histórias que o Seridó continuava lhe oferecendo.
O menino do gibi diante do tablet
Quando o assunto chegou aos quadrinhos digitais, Moacy disse que não acompanhava muito as novas versões. Continuava preferindo o papel. Até o iPhone utilizado para gravar a entrevista lhe parecia um objeto estranho.
Eu havia levado um tablet e abri nele a capa de um e-book do italiano Milo Manara, desenhista que Moacy admirava. Ele observou a novidade com curiosidade, mas não mudou sua preferência pelos livros impressos.
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| Moacy diante do tablet. Foto: acervo pessoal de Roberto Homem. |
Era uma cena reveladora, sem contradição obrigatória: um pesquisador atento às revoluções da linguagem podia continuar ligado ao suporte que alimentara sua paixão desde a infância.
O livro que ele ainda lançaria
Na entrevista, Moacy falou de um livro que estava para sair pelo Sebo Vermelho: Seridó, Seridós, uma reunião de histórias de cidades da região. Contou, entre outras, a do fazendeiro que atribuía uma gravidez ao poder dos sonhos e a do goleiro que defendeu um pênalti de costas para o batedor.
A conversa ocorreu em 11 de outubro de 2013 e foi publicada no SuperPauta em 1º de dezembro. Em 14 de dezembro de 2013, voltei a encontrar Moacy no Sebo Vermelho, durante o lançamento de Seridó, Seridós. Ele autografou um exemplar para mim. Uma fotografia preserva aquele momento.
| O autógrafo de Seridó, Seridós, em 14 de dezembro de 2013. Foto: acervo pessoal de Roberto Homem. |
Vinte e oito dias depois, em 11 de janeiro de 2014, Moacy Cirne morreu em Natal, aos 70 anos. O encontro de dezembro seria nosso último.
Uma obra que continua circulando
Em 2024, a editora Marca de Fantasia relançou A explosão criativa dos quadrinhos em edição digital de 85 páginas, como primeiro volume da Biblioteca Cirneana. A publicação traz apresentação de Waldomiro Vergueiro e foi viabilizada com autorização da família do autor.
A importância histórica do livro não exige que todas as avaliações de 1970 sejam tomadas como definitivas. O que permanece vivo é a disposição de investigar uma linguagem popular com rigor, curiosidade e consciência crítica. Balões, imagens, sequências, ideologia, invenção: as perguntas de Moacy continuam produtivas.
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| Henfil: humor e crítica nos quadrinhos. |
“Vamos conhecer Caicó!”
Ao final da entrevista, pedi a Moacy um recado para os leitores do SuperPauta. Ele poderia ter escolhido uma frase sobre a arte, a poesia ou o futuro dos quadrinhos. Preferiu responder: “Vamos conhecer Caicó!”
Depois de tantos livros, cidades, movimentos artísticos e aulas universitárias, o menino do gibi ainda apontava para o lugar onde sua história começara.









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