quinta-feira, 29 de outubro de 2026


Uma pintora de origem polonesa, um livro centenário, uma entrevista esquecida no computador e as lembranças de oito anos percorrendo as feiras literárias do Brasil.

Por Roberto Homem | SuperPauta

A entrevista que reapareceu

Tenho descoberto que a memória possui seus próprios esconderijos. Às vezes está numa fotografia amarelada, numa carta guardada entre as páginas de um livro ou numa gravação que sobreviveu a sucessivas mudanças de computador.

Foi assim que reencontrei Sofia Dyminski.

Eu procurava material para mais um episódio do Pescando o Passado quando apareceu, entre meus arquivos, um vídeo gravado em outubro de 2010, durante a Bienal do Livro do Paraná, em Curitiba.

Na tela, uma senhora de cabelos brancos, fala pausada e sotaque marcado pelo tempo respondia à minha pergunta:

“Por que a senhora resolveu traduzir esse livro?”

A resposta começava muito longe dali, antes mesmo de ela conhecer o Brasil. E tinha como personagem principal seu pai, um imigrante polonês que comprara um livro antigo para tentar descobrir como era o país onde pretendia construir uma nova vida.

Sofia Dyminski (1918–2011), artista plástica de origem polonesa que construiu sua trajetória no Paraná e dedicou cerca de vinte anos à tradução de uma obra sobre a imigração.

Aquela senhora era Sofia Dyminski, artista plástica de reconhecida trajetória no Paraná. Na ocasião, participava do lançamento de Imigrantes Poloneses no Brasil em 1891, obra do padre Zygmunt Chelmicki, publicada pelo Senado Federal com tradução feita por ela.

Escrevi um texto sobre o lançamento, publicado pela Agência Senado em 11 de outubro de 2010, e gravei uma breve entrevista.

Pouco mais de três meses depois, Sofia morreria.

Eu não tinha como imaginar, naquele encontro, que estava produzindo um registro de seus últimos meses de vida. Muito menos que, dezesseis anos depois, voltaria a ouvir sua voz para contar esta história.

Uma vida entre livros, viagens e reportagens

Para explicar como fui parar diante de Sofia Dyminski naquela tarde de Curitiba, preciso voltar a 2003.

Naquele ano, fui convidado para cobrir a participação do Senado Federal na II Bienal Nacional do Livro de Natal. O convite teve uma razão bastante prática: eu era potiguar, conhecia a imprensa local e poderia facilitar a divulgação das atividades do estande.

O Senado participava de eventos literários desde 1996, quando foi criada a Comissão de Feiras de Livro do Senado Federal, destinada a divulgar ao público os trabalhos da instituição nos campos cultural e social, além de publicações nas áreas de legislação e política.

A experiência de Natal foi o início de uma longa temporada pelas estradas e aeroportos do Brasil.

Entre 2003 e 2010, trabalhei em feiras e bienais de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Belém, Campo Grande, Curitiba, Salvador, Recife, Natal, Mossoró, São Luís, João Pessoa, Imperatriz e outras cidades.

Entre 2003 e 2010, Roberto Homem participou da cobertura jornalística e das atividades dos estandes do Senado em feiras e bienais de diversas cidades brasileiras.

Minha função ia muito além de produzir notícias para os veículos de comunicação do Senado ou divulgar os acontecimentos na imprensa local.

Eu também vendia livros, atendia visitantes, trabalhava no caixa e ajudava a organizar o acervo nos estandes. Dependendo da necessidade, era repórter, vendedor, balconista, repositor e auxiliar de montagem.

Conheci, portanto, as feiras dos dois lados do balcão.

Naquela época, eu já era jornalista e leitor apaixonado, mas ainda não tinha publicado meus próprios livros. Era um escritor inédito, convivendo durante semanas com lançamentos, autores, editoras, leitores e milhares de exemplares que circulavam pelos corredores.

Os títulos de legislação estavam entre os mais procurados no estande do Senado. A Constituição Federal atualizada era presença constante na lista dos campeões de vendas. Mas havia também grande interesse por obras como Conselhos aos Governantes, História da Literatura Ocidental e Memórias d'O Tico-Tico.

As feiras eram igualmente oportunidades para lançamentos das Edições do Senado e iniciativas de inclusão, como a entrega de publicações em braile a entidades de apoio às pessoas com deficiência visual.

Nessas andanças todas, duas cidades guardo com especial carinho: Belém, com sua Feira Pan-Amazônica do Livro, e Porto Alegre, cuja feira se estendia por cerca de vinte dias. Eram longas temporadas de trabalho, mas também de descobertas.

Gente que encontrei pelo caminho

As feiras proporcionavam encontros improváveis.

O cantor Falcão visita o estande do Senado na 17ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em agosto de 2004

Em agosto de 2010, por exemplo, acompanhei o lançamento do  Anteprojeto do Novo Código de Processo Civil, com a presença de Luiz Fux na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Ele presidiu a comissão de juristas que elaborou a proposta que baseou o posterior Código de Processo Civil (CPC). Em março de 2011, Fux foi empossado ministro do STF. Também recebemos visitantes como Belchior e o cantor Falcão, além de senadores, escritores, artistas e personagens das mais variadas áreas.

A convivência com os colegas também deixou lembranças inesquecíveis. Entre os companheiros de trabalho estavam Britto Gomes, Carlyle Madruga, Florian Madruga e Josias Wanzeller. Este último merece um capítulo especial.

Funcionário da gráfica do Senado, Josias cultivava uma paixão pelo teatro popular de bonecos. Viajava com seu espetáculo de mamulengo, O Casamento de Tião Sem Sorte e Chiquinha Muito Prazer, que apresentava nas feiras, em escolas e em instituições das cidades visitadas.

Eu costumava ajudá-lo.

Josias fazendo a cena em que o padre realiza o casamento de Chiquinha Muito Prazer e Tião Sem Sorte

Em novembro de 2004, durante uma de nossas temporadas em Porto Alegre, fomos ao Hospital da Criança Santo Antônio, da Santa Casa, onde Josias apresentou seus bonecos a crianças internadas, inclusive em tratamento contra o câncer.

Guardo até hoje a emoção de ver aqueles pequenos pacientes, submetidos a uma rotina tão difícil, abrirem sorrisos espontâneos diante das brincadeiras.

Fui àquela cidade para trabalhar numa feira de livros. Mas uma das experiências mais marcantes da viagem aconteceu longe dos corredores e estandes, diante de um pequeno teatro de mamulengos.

Revisitando meus arquivos, também reencontrei uma entrevista com Josias publicada no jornal Zona Sul, em março de 2005.

Mas essa é outra história, que merece seu próprio episódio.

As feiras ainda me ofereciam uma vantagem adicional: quando surgia uma oportunidade, aproveitava as viagens para entrevistar personagens que acabariam nas páginas do jornal O Zona Sul, de Natal.

Era uma maneira de reunir dois trabalhos que sempre me deram prazer: o jornalismo e a descoberta de histórias.

A pintora que veio de longe

Voltemos a Curitiba, em outubro de 2010.

Sofia Winklewski Dyminski nasceu em 1918, numa família de origem polonesa. Chegou ao Brasil em 1929, ainda criança, e viveu parte da juventude no litoral paranaense, especialmente em Paranaguá. Mais tarde, fixou residência em Curitiba.


A experiência da imigração marcou profundamente sua vida. Mas o Brasil também lhe ofereceu um novo universo de imagens, cores e personagens.

O litoral do Paraná, seus pescadores, suas mulheres, as paisagens da Serra do Mar e a vegetação tropical apareceriam com frequência em sua pintura.

Sofia estudou com Guido Viaro, um dos nomes importantes da arte moderna paranaense, e participou do ambiente artístico que se desenvolveu em Curitiba ao longo do século XX.

Sua produção reuniu paisagens, figuras humanas, cenas do cotidiano, pintura religiosa e experiências com diferentes técnicas. Participou de exposições individuais e coletivas e recebeu prêmios e homenagens, incluindo o título de cidadã honorária de Curitiba, em 1982.

Havia algo singular naquele percurso. A menina que atravessara o oceano conservou suas raízes europeias, mas encontrou no cotidiano brasileiro boa parte dos temas de sua pintura.

No vídeo que gravei, a sobrinha de Sofia, Halina Dyminska Paul, interrompe por alguns instantes nossa conversa sobre imigração para mostrar imagens das obras da tia.

Fala das mulheres, das bananeiras da Serra da Graciosa, das pescadoras e de seus trabalhos religiosos. Sofia, acompanhando a apresentação, intervém discretamente:

“Foi eu que fiz.”

A frase curta, preservada com sua espontaneidade, é também uma assinatura.


As paisagens do Paraná, as mulheres pescadoras e a vegetação tropical estão entre os temas presentes na produção artística de Sofia Dyminski. 

Um livro comprado para conhecer o Brasil

A história do livro que Sofia traduzira começava no século XIX.

O padre polonês Zygmunt Chelmicki percorreu o Brasil em 1891, interessado nas condições enfrentadas pelos imigrantes de seu país. Eram tempos de grandes movimentos migratórios, quando famílias europeias atravessavam o Atlântico atraídas por promessas de terras, trabalho e uma vida melhor.

Mas a realidade encontrada por muitos colonos estava longe de corresponder às expectativas.

A obra de Chelmicki registrou experiências e dificuldades daqueles pioneiros, oferecendo informações que se tornariam valiosas para o estudo da imigração polonesa.

Décadas depois, um exemplar desse livro chegou às mãos do pai de Sofia.

A família pensava em emigrar para o Brasil. Ele, porém, sabia muito pouco sobre o destino escolhido. Desconhecia o clima, os costumes e as condições de vida.

Encontrou num sebo um exemplar antigo do livro de Chelmicki e decidiu comprá-lo.

O volume acompanhou a história familiar e permaneceu durante anos na biblioteca de seu proprietário.

Até que, muito tempo depois, Sofia voltou a encontrá-lo.

Imigrantes Poloneses no Brasil em 1891, de Zygmunt Chelmicki, traduzido por Sofia Dyminski e publicado pelo Senado Federal em 2010.

Vinte anos para realizar um sonho

Ao folhear os livros que haviam pertencido ao pai, Sofia teve uma ideia aparentemente simples: traduzir a obra para o português.

O que parecia uma tarefa doméstica acabou se transformando num empreendimento de cerca de vinte anos.

Na reportagem que escrevi em 2010, sua sobrinha Halina Dyminska Paul contou que Sofia chegou a interromper o trabalho depois de ser amedrontada por pessoas que ameaçaram deportá-la para a Polônia caso continuasse a tradução.

Assustada, guardou as anotações.

Mais tarde, incentivada pela sobrinha e pelo marido dela, Luiz Gonzaga Paul, retomou o projeto.

Luiz ficou responsável pela revisão, editoração e coordenação geral. Ao começar a revisar o material, percebeu que as diferenças entre a estrutura das frases polonesas e o português o estavam levando a reescrever o texto.

Não quis assumir indevidamente a autoria da tradução.

Conversou com Sofia, explicou o problema e sugeriu que ela revisasse novamente o trabalho.

Ela foi além: refez toda a tradução, datilografando numa velha máquina de escrever.

Imagino o esforço necessário para uma senhora já idosa enfrentar páginas e páginas de um texto histórico, trabalhando palavra por palavra, frase por frase, para entregar ao leitor brasileiro uma obra que considerava importante.

A publicação pelo Senado, em 2010, representou a conclusão daquela longa jornada.

No sábado, 9 de outubro, o estande da instituição na Bienal do Livro do Paraná recebeu poloneses e descendentes para o lançamento.

A tradutora autografou exemplares e se tornou a personagem principal da tarde.

Foi ali que a entrevistei.

Em 9 de outubro de 2010, Sofia Dyminski participou do lançamento da tradução durante a Bienal do Livro do Paraná, no estande do Senado Federal.

A voz que ficou

Minha primeira pergunta foi direta:

“Por que a senhora resolveu traduzir esse livro?”

Sofia começou falando do desejo de seu pai de emigrar e da completa falta de informações que ele tinha sobre o Brasil.

Contou como o velho livro fora comprado e permanecera durante anos entre os pertences da família.

Então recordou o momento em que decidiu traduzir a obra:

“Um dia eu estava olhando, olhando os livros que pertenciam ao meu pai, e eu pensei: ‘Eu vou traduzir esse livro’.”

Queria, explicou, que as novas gerações soubessem como haviam chegado os primeiros imigrantes.

E usou uma expressão que resume o sentimento que a levou ao trabalho:

“Os verdadeiros sofredores.”

Para Sofia, era importante mostrar que aqueles homens e mulheres não haviam encontrado uma recepção acolhedora. Tinham enfrentado dificuldades, desencontros e condições muito diferentes das que imaginavam.

A pintura guardava as paisagens e os personagens do país que a recebeu. A tradução recuperava as experiências daqueles que chegaram antes dela.

Duas maneiras de preservar a memória.

A entrevista é breve. Sofia hesita em algumas palavras, repete expressões, procura organizar as lembranças. Ao seu lado,  sobrinha Halina Dyminska Paul intervém, apresenta imagens de seus quadros e comenta sua produção artística.

Hoje, são justamente esses detalhes que conferem ao registro sua força.

Não se trata de um discurso preparado para a posteridade, mas de uma conversa espontânea, captada no movimento de uma feira de livros.

Entrevista de Roberto Homem com Sofia Dyminski, gravada durante a Bienal do Livro do Paraná, em outubro de 2010. Arquivo pessoal.

Sofia Dyminski morreu em Curitiba, em 31 de janeiro de 2011, aos 92 anos, pouco mais de três meses depois daquele lançamento.

Deixou uma obra artística ligada às paisagens e aos personagens do Paraná. Deixou também a tradução que ajudou a preservar a memória dos imigrantes poloneses e seus descendentes.

Não sei se a gravação que fiz está entre suas últimas entrevistas. É possível que existam outras, realizadas naquele mesmo período. O que sei é que aquele encontro aconteceu nos últimos meses de sua vida.

Durante muito tempo, o arquivo permaneceu esquecido entre minhas gravações.

Ao reencontrá-lo, voltei mentalmente às feiras de livros, aos companheiros de viagem, aos corredores cheios de gente, às caixas de exemplares, aos autógrafos e às histórias que cruzaram meu caminho.

Lembrei também de quantas vezes o jornalista registra acontecimentos sem imaginar o destino que terão suas palavras e imagens.

Em 2010, a entrevista com Sofia era parte de uma cobertura rotineira. Em 2026, transformou-se num documento de memória.

Há uma coincidência que me agrada nessa história.

O pai de Sofia comprou um livro antigo porque desejava conhecer um país distante. A filha reencontrou aquele livro e decidiu traduzi-lo para que outras pessoas conhecessem a experiência dos imigrantes.

Eu, por minha vez, reencontrei uma gravação antiga e resolvi recuperar a história daquela mulher.

São três encontros separados pelo tempo, ligados pela mesma vontade de não deixar que certas experiências desapareçam.

Talvez seja isso, afinal, que fazemos quando escrevemos, pintamos, traduzimos ou guardamos uma velha entrevista.

Tentamos oferecer ao futuro alguma coisa que o passado ainda tem a dizer.

E foi assim que Sofia Dyminski voltou a conversar comigo, dezesseis anos depois, em mais um Pescando o Passado.


Para conhecer mais

O livro: Imigrantes Poloneses no Brasil em 1891, de Zygmunt Chelmicki, tradução de Sofia Dyminski. Edição do Senado Federal, 2010.

Leia gratuitamente o livro completo na Biblioteca Digital do Senado.

A reportagem original: Sofia Dyminski autografa livro no estande do Senado na Bienal do Paraná, reportagem de Roberto Homem publicada pela Agência Senado em 11 de outubro de 2010.

Leia a reportagem original na Agência Senado.

Pescando o Passado é uma série do SuperPauta dedicada à recuperação de histórias, personagens, documentos e lembranças do arquivo pessoal de Roberto Homem.

superpauta.blogspot.com

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