quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Pescando o Passado: o samba para Zila que perdeu o Carnaval no sorteio

Em 1991, “Canção do Sonho Oceânico”, de Babal Galvão e Roberto Homem, levou a poesia de Zila Mamede à avenida com a Imperatriz Alecrinense. Trinta e cinco anos depois, um folder guardado devolve à memória a música, o desfile e um vice-campeonato decidido pela sorte.

Vasculhando minha pasta de tesouros antigos, encontrei quatro páginas que sobreviveram a mudanças, esquecimentos e ao desgaste do papel. Formam o folder que a Imperatriz Alecrinense no Samba distribuiu no Carnaval de Natal de 1991, quando desfilou com o enredo “Zila Mamede — Canção do Sonho Oceânico”.

Ali estão o desenho da capa, a letra do samba, a descrição das alas e dos carros alegóricos, os nomes de quem trabalhou no barracão e os anúncios de um comércio natalense que já pertence a outra época. Para mim, no entanto, aquelas folhas guardam algo ainda mais pessoal: o começo de uma parceria musical que já atravessa 36 anos.

Quando encontrei Babal

Eu havia ingressado na Fundação José Augusto em 1990 e trabalhava na Assessoria de Imprensa. Babal Galvão também estava na instituição, como coordenador do Núcleo de Música. Foi ali que nos conhecemos e começamos a compor juntos — parceria que dura até hoje.

Reconstituição ilustrativa de Babal Galvão e Roberto Homem compondo juntos nos anos 1990

Certo dia, Babal me convidou para escrever a letra de um samba com o qual disputaríamos o concurso da Imperatriz Alecrinense. A escola havia escolhido como tema Zila Mamede, poeta, jornalista e bibliotecária que morrera em 1985, aos 57 anos.

Escrevi a letra. Babal criou a melodia e sugeriu alguns ajustes. O samba agradou e venceu a seletiva.

Babal já era um grande nome da música potiguar. Mas era a primeira vez que uma composição minha deixava a intimidade do papel e dos pequenos círculos de amigos para ser cantada por uma escola de samba inteira. Não era apenas uma homenagem biográfica. A letra procurava entrar no universo poético de Zila, povoado pelo mar, por peixes, siris, cavalos-marinhos, arraias, sereias, corais e palavras submersas.

A avenida que ouvi pelo rádio

Reconstituição: Roberto Homem acompanha pelo rádio o desfile da Imperatriz Alecrinense, em 1991

No dia do desfile, tomei uma decisão da qual me arrependeria. Eu tinha um sebo em Ponta Negra e fiquei trabalhando. Vendíamos livros e discos, promovíamos shows e também servíamos bebidas. Com o tempo, o lugar acabou virando mais bar do que sebo.

Enquanto a Imperatriz Alecrinense entrava na avenida, eu permanecia atrás do balcão.

A Rádio Cabugi transmitia o desfile das escolas de samba. Consegui ouvir uma parte. Até hoje recordo o arrepio de escutar a parceria com Babal sendo cantada na avenida — e, junto com ele, a certeza de que eu deveria estar lá.

Perdi a visão das alas, das fantasias e dos carros. Restaram a voz do locutor, o som captado pela rádio e aquela estranha mistura de orgulho e ausência. Às vezes, a memória também se constrói com aquilo que não vimos.

Dez de todos — e um título decidido pela sorte

Reconstituição do desfile feita a partir de trecho da letra da música

Na apuração, a Imperatriz Alecrinense recebeu nota 10 dos dois julgadores em todos os quesitos. A principal adversária, Balanço do Morro, recebeu uma nota 9; todas as demais foram 10.

Seria natural imaginar que a regularidade absoluta da Imperatriz lhe daria o título. O regulamento daquele Carnaval, porém, determinava que, entre as duas notas de cada quesito, apenas a maior seria considerada. Como o 9 da Balanço do Morro estava acompanhado por um 10 no mesmo quesito, foi descartado.

As duas escolas terminaram empatadas com a pontuação máxima válida. Sem outro critério capaz de separá-las, o campeonato foi decidido por sorteio. A Balanço do Morro ficou com o título; a Imperatriz Alecrinense, com o vice-campeonato.

Nota de memória: o folder comprova o enredo, a letra, a autoria e a concepção do desfile. A descrição das notas, da regra de descarte e do sorteio é o relato que conservo da apuração de 1991.

A regra foi cumprida. Isso não impede a sensação, ainda hoje, de que havia uma diferença entre alcançar a pontuação máxima pela escolha unânime de todos os jurados e alcançá-la depois do descarte de uma nota menor. No papel oficial, empate. Na memória de quem torcia pela escola do Alecrim, uma vitória que escapou numa pedra, numa cédula ou em qualquer objeto usado para entregar o campeonato à sorte.

Eu já havia perdido o desfile por uma escolha minha. Depois, vi a escola perder o título por um sorteio. Talvez por isso a história tenha ficado guardada com tanta nitidez.

A terceira página do folder preserva a letra do samba-enredo, o retrato de Zila Mamede e os créditos de Babal e Roberto Homem de Siqueira.

A letra que foi para a avenida

CANÇÃO DO SONHO OCEÂNICO

Homenagem a Zila Mamede — Babal Galvão e Roberto Homem de Siqueira

É bom abrir alas que a Imperatriz já chegou
contando a história que Zila Mamede criou

O Atlântico chamou pra fazer arte
e ensinar a sua parte
na escola de cultura
dos habitantes do mar
desde esse dia peixes e siris
cavalos-marinhos, arraias e sereias
espalham poesias em suas bolhas de ar

Zila
a saudade que doeu por sua ausência
gerou
um pranto derramado com cadência
Zila
entrou no time “Poetas de Netuno”
fez do tubarão um seu aluno
aprendiz do verso popular

Foi sem avisar
morar no oceano
entre ouriços e lagostas
nos recifes de corais
compor palavras submersas
que acalantem o mar trazendo paz

É bom abrir alas que a Imperatriz já chegou
contando a história que Zila Mamede criou

Nota: a transcrição respeita a letra impressa no folder de 1991, com atualização de maiúsculas e pontuação e a correção de uma evidente falha tipográfica de concordância (“palavras submersa” para “palavras submersas”).

Ouça “Canção do Sonho Oceânico”

O papel devolve a história; a gravação devolve a música. A versão disponível nas plataformas digitais permite ouvir hoje o samba que a Imperatriz Alecrinense levou à avenida em 1991.

O roteiro do desfile detalhava treze alas e cinco carros alegóricos. Mar, corais, ouriços, peixes, piratas, gaivotas e sereias transformavam em imagens o universo oceânico associado à poesia de Zila.

O Carnaval guardado em quatro páginas

Panfleto original distribuído na avenida. Ele motivou nosso "Pescando o Passado" da semana

O folder ajuda a reconstituir o desfile que não vi. A comissão de frente representava “os príncipes nas sete cores do arco-íris, abrindo as portas do mar”. Depois vinham o mar, as baianas, os sargaços, os corais, os caramujos, os habitantes do mar, as ondas, os peixes, os piratas, os ouriços, as gaivotas e o feitiço dos olhos das sereias.

Cinco carros completavam a narrativa. A concepção era de Carlos Sérgio Borges, também identificado no folder como carnavalesco. O documento registra ainda dirigentes, profissionais do barracão, destaques, fundadores, apoiadores e comerciantes que ajudaram a colocar a escola na rua.

A última página registra os fundadores, a equipe do barracão, os agradecimentos e os apoios culturais da Imperatriz Alecrinense em 1991.

É essa soma de criação artística, trabalho comunitário e comércio de bairro que torna o impresso tão precioso. Não é apenas uma lembrança minha ou de Babal. É um pequeno arquivo da cultura popular de Natal.

CANÇÃO DO SONHO OCEÂNICO

Homenagem a Zila Mamede

Letra: Roberto Homem de Siqueira

Melodia: Babal Galvão

Escola: Imperatriz Alecrinense no Samba

Carnaval: Natal, 1991

Concepção do enredo e carnavalesco: Carlos Sérgio Borges

Resultado: vice-campeã do Grupo Principal

Zila volta para uma conversa impossível

Imagem de IA gerada para ilustrar o "Encontro Impossível" com Zila Mamede

A presença de Zila Mamede no SuperPauta não termina neste samba. Em 2025, sentei-me diante dela para um Encontro Impossível. Na conversa imaginária, a poeta retorna para falar de Natal, do mar, dos livros, da memória e da própria ausência.

Em 1991, tentamos devolvê-la à avenida como personagem de um sonho oceânico. Décadas depois, ela reapareceu numa entrevista que nunca poderia ter acontecido. Entre uma homenagem e outra, ficou o mar — e agora também este folder, resgatado da pasta para que a história volte a circular.

Pescando o Passado
Poemas, letras, músicas, roteiros e histórias que o tempo guardou. É o TBT do SuperPauta!

Conheça a página da série.

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