Uma leitura de Sátiras e Epigramas de Zé Areia, de Veríssimo de Melo, e de sua adaptação em quadrinhos.
Por Roberto Homem
Um homem entra numa casa e anuncia que vai almoçar e jantar com o amigo. O dono responde que ali não entra “côrno”. O visitante não discute, não pede desculpas e não recua. Faz apenas uma pergunta:
— E você dorme na calçada?
A cena cabe em poucas linhas de Sátiras e Epigramas de Zé Areia, de Veríssimo de Melo. A resposta devolve o insulto ao autor e muda quem está exposto ao riso. É um mecanismo que reaparece nas páginas do livro: alguém tenta diminuir Zé Areia; ele encontra, dentro da própria provocação, a frase que pode virar o jogo.
Mas reduzir essa plaquete a um repertório de piadas seria deixar de ler uma parte decisiva do que ela guarda. Entre cafés, barbearias, repartições e calçadas, aparece uma Natal na qual um homem pobre circula entre figuras conhecidas, procura trabalho, vende rifas, contrai dívidas e se defende com a língua. O humor abre a porta. A vida precária permanece dentro da sala.
O homem antes da lenda
Zé Areia existiu. Na apresentação da obra, Veríssimo reproduz um depoimento de Luís da Câmara Cascudo que o identifica como José Antônio Areia Filho, nascido em 1901 e morto em 31 de janeiro de 1972. Cascudo o descreve como barbeiro intermitente e biscateiro, dono de uma capacidade singular de reagir às tentativas de humilhação. É nessa condição, e não na de um personagem inventado para contar anedotas, que precisamos começar a leitura.
Seu território no livro inclui a Ribeira, as Rocas, a Cidade Alta, a Praia do Meio e o Alecrim. A Tavares de Lira reaparece como lugar de encontros, comércio, bebida e conversa. São espaços identificáveis, embora os casos não tenham o compromisso documental de uma reportagem acompanhada de datas, registros e versões confrontadas.
O próprio prefácio o lembra como ex-Rei Momo. Sua fama atravessava ambientes: os interlocutores incluem comerciantes, jornalistas, escritores e políticos. Djalma Marinho, Café Filho, Newton Navarro, Raimundo Nonato e Oswaldo Lamartine aparecem nessa rede de histórias. Isso não torna cada episódio automaticamente comprovado. Mostra, antes, como uma figura popular podia ocupar a memória de pessoas muito diferentes.
A distinção importa: o homem foi real; o conjunto de histórias que se formou em torno dele pertence também à tradição oral. Uma graça pode ser lembrada com outras palavras, deslocada de lugar ou atribuída a outro sujeito. Veríssimo deixa essa possibilidade à vista quando registra uma piada de ônibus que também era atribuída a Renato Caldas. O compilador não esconde a dúvida de autoria.
Veríssimo de Melo sabia o que estava recolhendo
Nascido em Natal em 9 de julho de 1921, Veríssimo Pinheiro de Melo morreu em 18 de agosto de 1996. Foi antropólogo, folclorista, jornalista, professor, advogado e juiz. Sua atuação na UFRN e sua participação na criação do Instituto de Antropologia, origem do Museu Câmara Cascudo, ajudam a entender o olhar com que reuniu esses relatos.
Na pesquisa da cultura popular, uma conversa, um gesto ou uma resposta improvisada podem revelar formas de convivência que não aparecem nos documentos oficiais. O livro de Zé Areia é uma amostra concreta desse interesse. Veríssimo apresenta os episódios com economia, frequentemente informa quem lhe contou o caso e preserva o desfecho na fala do personagem.
Há uma proximidade pessoal em passagens narradas na primeira pessoa. Em outras, ele nomeia testemunhas ou transmissores: Luiz Tavares, Rômulo Leite, José Alexandre Garcia Filho, Newton Navarro. A plaquete registra, portanto, tanto a figura central quanto a circulação de sua memória.
A Biblioteca Setorial Veríssimo de Melo, no Museu Câmara Cascudo da UFRN, conserva seu acervo particular, doado pela família em 2007. Entre as dedicatórias ali descritas está uma de meu tio-avô Homero Homem, em O agrimensor da aurora, que menciona seu apreço pelos trabalhos de Veríssimo sobre parlendas, cantos e adivinhas. A relação aproxima autores que a leitura potiguar muitas vezes reencontra por caminhos diferentes.
Um livro que quase chegou tarde demais
A história da publicação acrescenta uma camada dolorosa às piadas. Na apresentação da segunda edição, Veríssimo informa que o folheto surgiu em 1972, após uma conversa com o editor Carlos Lima e uma sugestão de Câmara Cascudo: guardar alguma coisa das sátiras de Zé Areia.
O plano previa entregar metade dos exemplares ao próprio boêmio, para que os vendesse. Ele soube da iniciativa e chegou a ver as provas. Morreu antes de aproveitar a publicação. Sua companheira recebeu parte da edição e vendeu exemplares a pessoas amigas. Veríssimo encerra essa passagem com a hipótese de que aquilo teria sido sua única herança.
A segunda edição, ampliada, apareceu em novembro de 1979, com o apoio de Antônio Mariano da Silva. O exemplar usado neste Capítulo Potiguar foi publicado pelo Sebo Vermelho em novembro de 2007 e reproduz essa edição de 1979. São etapas diferentes da circulação da obra.
A pequena herança de papel continua chegando a outros leitores. Há nisso uma resposta prática à inquietação de Cascudo: o que restaria de Zé Areia quando desaparecessem aqueles que o conheceram? Parte da resposta está no trabalho de recolher, editar, reeditar e ler.
A resposta como defesa e como artimanha
Nem toda história permite apresentar Zé Areia como um justiceiro. Em algumas, ele devolve agressões; em outras, tenta sair de situações criadas por suas próprias condutas. O livro ganha quando essa diferença permanece visível.
Em “O fiador”, o aluguel não é pago e o proprietário procura Djalma Marinho, que havia dado a garantia. Avisado da cobrança, Zé Areia manda dizer ao locador que tem fiador. O recurso é engraçado porque transforma a proteção concedida por um amigo em argumento para transferir a ele o problema.
Em “Uma dívida”, a lógica se inverte de outra maneira. Zé Areia pediu cem cruzeiros e recebeu cinquenta. Passa a dizer que Djalma lhe deve os cinquenta restantes. A frase rearranja a conta a seu favor, sem que isso a torne justa.
Já em “Quem gosta de certas coisas”, a resposta é uma defesa direta. Um auxiliar manda que ele ofereça um vira-lata a Luiz de Barros, pois Luiz gostaria de coisas que não prestam. Ao sair, Zé Areia devolve: é por isso que Luiz gosta tanto daquele auxiliar. A agressão encontra o caminho de volta.
O talento está na velocidade e no aproveitamento da palavra que o outro entregou. Às vezes, uma pergunta é suficiente. Às vezes, é preciso transformar um objeto, uma obrigação ou uma conta em outra coisa. As histórias permitem rir e, ao mesmo tempo, perceber o oportunismo, as relações de favor e os desequilíbrios sociais que alimentam as cenas.
Um jornal de cabeça para baixo
Em “Jornal de cabeça para baixo”, Luiz Tavares encontra Zé Areia folheando um jornal à porta do Natal-Clube. Querendo chamá-lo de analfabeto, observa que o jornal está de cabeça pra baixo. A resposta vem sem explicação nem constrangimento:
— E mole.
A frase mínima frustra a tentativa de fazê-lo passar vergonha. O episódio não demonstra que ele estivesse lendo o jornal: mostra sua habilidade de escapar da armadilha verbal. O que seria prova de uma limitação vira ocasião para uma bravata.
Quando o gracejo deixa aparecer a tristeza
A bebida atravessa a coletânea. Serve ao cenário e ao efeito cômico, mas também aparece ligada ao sofrimento. O sofrimento associado à bebida também precisa entrar na leitura, sem que se transforme a autodestruição em sinal de liberdade.
Em “O glosador”, o mote sobre beber cachaça lembrando de alguém produz versos de abandono e dor. Uma das estrofes começa:
Sendo triste, faço graça,
banco o palhaço na vida.
O homem que faz a roda rir se apresenta como alguém que sofre. A glosa não apaga os outros casos; acrescenta uma perspectiva à figura que eles construíram. A graça pode ser recurso de convivência e também forma de encobrir a ferida.
“O bom Jesus e a cruz”, transmitido por Newton Navarro, segue por essa abertura. Diante de uma procissão, Zé Areia pede que sua cruz seja transformada em madeira de cortiça. O pedido é impossível e preciso: ele quer continuar carregando a vida, desde que ela pese menos.
O caso final, “Recado ao governador”, torna essa leitura ainda mais difícil de esquecer. Doente, esperando uma pensão que não vinha, ele teria mandado a monsenhor Walfredo Gurgel a promessa de viver apenas mais uns dois anos se o pagamento fosse autorizado.
A fórmula pode provocar o riso. O que ela põe em cena, contudo, é um homem oferecendo a própria expectativa de vida como argumento para receber ajuda. O encerramento do livro conserva a rapidez de espírito e deixa à mostra a falta de amparo.
O humor de seu tempo
As histórias de Zé Areia nasceram nas conversas de uma Natal de outras décadas e foram reunidas em livro pela primeira vez em 1972. Seu vocabulário pertence àquele ambiente: a pilhéria de rua, o duplo sentido, os apelidos e as provocações pessoais faziam parte da sociabilidade que Veríssimo procurou registrar.
Algumas expressões podem causar desconforto ao leitor de hoje. Isso pede uma leitura atenta ao período, capaz de reconhecer tanto as mudanças de sensibilidade quanto o valor desse registro. Veríssimo recolhia um repertório oral, com suas irreverências e asperezas, antes que ele desaparecesse junto com quem o havia produzido.
A transmissão dessas histórias também ajuda a compreender certas imprecisões. Em “Na Batalha da Borracha”, Café Filho aparece como vice-presidente ao encaminhar Zé Areia para a campanha. A mobilização ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial; Café assumiu a Vice-Presidência em 1951. É possível que a lembrança tenha associado ao personagem o cargo pelo qual ele se tornou mais conhecido, embora o relato não permita esclarecer essa diferença.
Esses desencontros são comuns na memória oral e não diminuem o interesse da coletânea. Seu valor está sobretudo na preservação de uma voz, de uma maneira de responder e de um mundo de relações que os documentos oficiais raramente conseguem guardar.
Zé Areia em outros livros
O próprio Veríssimo oferece duas portas de entrada. Em Ontem, de Câmara Cascudo, publicado em Natal pela Imprensa Universitária em 1972, está o depoimento sobre Zé Areia transcrito na apresentação. É um retrato de alguém que o conheceu, com atenção à personalidade e à forma de reagir.
Uns fesceninos, de Oswaldo Lamartine de Faria, publicado em 1970, é citado na coletânea como fonte de uma paródia e de um galanteio. Sua presença permite enxergar Zé Areia também no trânsito entre improvisação popular, poesia e humor erótico.
Outra leitura é Uma história das Rocas, de Ciro Pedroza, publicada pelo Sebo Vermelho e lançada em 2022. Um trecho reproduzido no projeto O que é que Natal tem? recupera o personagem e a história do trabalho no seringal, citando Veríssimo. Essa referência é importante por situá-lo na memória do bairro, mas não constitui uma confirmação independente do caso que retoma.
A edição em prosa de 2007 e a versão em quadrinhos de 2013, publicadas pelo Sebo Vermelho. Composição recriada por IA a partir dos exemplares fotografados.Da palavra ao quadrinho
A edição em quadrinhos do Sebo Vermelho, datada de novembro de 2013, acrescenta outro modo de reencontrar Zé Areia. Os créditos identificam Carlos Alberto como responsável pelos desenhos, Alexandre Oliveira pela capa e Abimael Silva como editor.
Abimael também aparece dentro da narrativa. Na abertura de “No tempo da guerra...”, apresenta-se ao leitor e surge num avião, conduzindo o relato sobre o trabalho de Zé Areia como barbeiro no Campo de Parnamirim e a venda de animais aos norte-americanos.
A passagem para os quadrinhos muda a experiência de leitura: aquilo que Veríssimo organiza em pequenos relatos ganha rostos, cenários e movimento. O desenhista precisa dar forma ao que a prosa deixa à imaginação. Temos, assim, duas etapas da preservação: o resgate das histórias e sua adaptação para outra linguagem.
As duas edições não se substituem. Lidas lado a lado, mostram como uma figura da memória de Natal pode alcançar leitores por caminhos diferentes. A resposta rápida continua sendo o centro do caso, mas os desenhos acrescentam uma interpretação visual do personagem e de seu mundo.
Recriação por IA da história “No tempo da guerra...”, página que apresenta Abimael Silva como narrador. Baseada nos quadrinhos de Carlos Alberto.
O Sebo Vermelho também faz parte desta história
No exemplar fotografado, o editor é Abimael Silva. Esse crédito merece ser lido como parte do percurso da obra. A preservação de um livro depende também de quem decide colocá-lo novamente em circulação quando os primeiros exemplares se tornam difíceis de encontrar.
Notícia do SINSP/RN, publicada em 4 de abril de 2022, informou que Uma história das Rocas era o 580º livro editado e lançado pelo Sebo Vermelho. O dado tem data e se refere ao catálogo editorial; não é uma contagem atual, nem uma afirmação de que todos os títulos tratam exclusivamente do estado. Ainda assim, dá dimensão ao trabalho editorial do sebo.
Aqui, o sebo aparece no ponto em que sua ação se torna concreta: um leitor tem nas mãos uma edição de 2007 que mantém acessíveis relatos recolhidos décadas antes. Entre o homem da rua e esse leitor houve testemunhas, um pesquisador, editores e reedições. Cada elo interfere no que consegue atravessar o tempo.
Zé Areia não precisava de uma página para responder. Precisou que alguém a escrevesse para que sua voz alcançasse quem nunca o viu. Ao fechar o livro, ficam as réplicas, mas fica também uma pergunta: quanto da memória de Natal ainda depende de alguém perceber, a tempo, que aquela conversa merece ser guardada?









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