terça-feira, 27 de outubro de 2026

Encontros Impossíveis: Stanislaw Ponte Preta (Sílvio Porto)

Dois candidatos, milhões de eleitores contrariados e um país que foi às urnas escolher quem deveria perder. O criador do Festival de Besteira que Assola o País retorna para descobrir se a democracia brasileira está em crise ou se apenas contratou um novo diretor de comédia.

“Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos.” — Stanislaw Ponte Preta

Por Roberto Homem

Na manhã seguinte à eleição presidencial, o Brasil acordou dividido. Os eleitores de Lula comemoravam a vitória. Os de Flávio Bolsonaro procuravam explicações para a derrota. Havia também uma terceira metade, numericamente impossível, mas politicamente bastante representativa, que não gostava de nenhum dos dois candidatos e votara em um deles para impedir que o outro ganhasse.

Foi quando Stanislaw Ponte Preta resolveu reaparecer.

Encontramo-nos numa antiga redação de jornal, dessas que ainda conservam o cheiro de tinta, café requentado e segredos nunca publicados. Sobre a mesa, jornais abertos, pesquisas eleitorais, manchetes, fotografias dos candidatos e uma televisão transmitindo, pela décima segunda vez, a análise de um especialista que havia previsto um resultado diferente.

Stanislaw estava sentado diante de uma máquina de escrever Remington, fumando um cigarro imaginário. Vestia uma camisa de mangas curtas e observava a televisão com a expressão de quem reconhece um velho conhecido num boletim de ocorrência.

Roberto Homem e Stanislaw Ponte Preta na redação imaginária da Pretapress. Ilustração produzida com IA.

Sérgio Porto, o jornalista carioca nascido em 1923, morreu em 1968, aos 45 anos. Mas Stanislaw Ponte Preta, seu alter ego mais famoso, continuou vivo nas páginas dos jornais, nas frases que atravessaram gerações e, sobretudo, na impressionante capacidade brasileira de produzir situações que dispensam a intervenção de humoristas.

Criador do Festival de Besteira que Assola o País, o Febeapá, Stanislaw transformou o autoritarismo, a hipocrisia e a estupidez oficial em matéria-prima de uma sátira devastadora. Sua fictícia agência de notícias, a Pretapress, recolhia acontecimentos tão absurdos que pareciam inventados. Quase nunca eram.

Naquela manhã, o velho cronista examinava o noticiário de 2026 com crescente interesse profissional. Sobre a mesa, um caderno trazia uma inscrição manuscrita:

FEBEAPÁ 2026 — EDIÇÃO PRESIDENCIAL

Abaixo, outra anotação:

Material recebido em excesso. Favor não mandar mais.

A entrevista começou quando lhe perguntei o que achava do resultado eleitoral.

A conversa sobre a eleição presidencial. Ilustração produzida com IA.
SuperPauta — Stanislaw, Lula acaba de vencer a eleição presidencial, mas Flávio Bolsonaro contesta o resultado. Como o senhor interpreta esse desfecho?

Stanislaw — Antes de interpretar, eu queria saber se o resultado é definitivo. Porque aqui no Brasil até a desgraça costuma ter segundo turno.

SuperPauta — Oficialmente, sim. Lula venceu, mas Flávio Bolsonaro não reconheceu a derrota e anunciou que pretende recorrer à Justiça Eleitoral, alegando irregularidades na votação.

Stanislaw — Ah, então o segundo turno ainda não terminou para um dos candidatos! O eleitor já votou, a urna já contou, o tribunal já proclamou o vencedor, mas o derrotado quer saber se não existe uma terceira opção: continuar candidato depois da eleição.

SuperPauta — O eleitor fez sua escolha.

Stanislaw — Fez. O problema é que escolher não significa necessariamente gostar. Tem sujeito que escolhe até qual dente vai arrancar. Nem por isso sai do dentista comemorando.

SuperPauta — As pesquisas mostravam dois candidatos com rejeição em torno de cinquenta por cento. O que significa uma eleição assim?

Stanislaw — Significa que a democracia brasileira inventou uma modalidade de concurso em que o vencedor é aquele que consegue ser detestado por menos gente. Antigamente, o sujeito fazia campanha para conquistar votos. Agora faz campanha para convencer o eleitor de que o adversário é uma calamidade maior. É o Campeonato Nacional de Menos Pior.

SuperPauta — Mas não seria uma simplificação colocar os dois candidatos no mesmo saco?

Stanislaw — Claro que seria. E o saco ainda podia reclamar. Cada candidato tem sua biografia, suas responsabilidades e seus respectivos esqueletos no armário. O que não dá é transformar a eleição numa disputa para saber qual torcida consegue esconder melhor os ossos.

SuperPauta — O eleitor não tem o direito de escolher o candidato que considera menos perigoso?

Stanislaw — Tem todo o direito. O voto defensivo é perfeitamente compreensível. O que eu não entendo é o sujeito votar tapando o nariz e, cinco minutos depois, sair proclamando que acaba de eleger o maior estadista desde Péricles. Se o cidadão escolheu o menos ruim, tudo bem. Só não precisa exigir que a gente ache o escolhido uma maravilha.

SuperPauta — O senhor está dizendo que o eleitor brasileiro perdeu a capacidade crítica?

Stanislaw — Não perdeu. Emprestou ao candidato de estimação e nunca mais conseguiu receber de volta.

SuperPauta — E a paixão política? Não é importante para a democracia?

Stanislaw — Paixão é importante para o namoro, para o samba, para o futebol. Na política também pode ser, desde que o sujeito não confunda o presidente com a própria mãe. Presidente é empregado da população. Tem que prestar contas. O brasileiro é que inventou essa história de contratar o sujeito e depois passar quatro anos o tratando como seu patrão.

SuperPauta — O senhor vê semelhanças entre a política atual e o Brasil que conheceu?

Stanislaw — Vejo algumas diferenças importantes. Na minha época, os políticos também falavam besteira, mas a gente precisava esperar o jornal do dia seguinte para conferir. Agora a besteira chega ao cidadão antes mesmo de o político terminar de falar. O progresso tecnológico é uma coisa extraordinária.

SuperPauta — O Febeapá nasceu em meio ao autoritarismo e às arbitrariedades da ditadura militar. O senhor acha que teria material para uma nova edição?

Os bastidores da Pretapress. Ilustração produzida com IA.
Stanislaw — Material? Meu filho, eu teria que abrir uma filial da Pretapress em cada estado e contratar um computador para separar as besteiras por grau de periculosidade. O problema seria editorial. Antigamente eu selecionava as melhores. Hoje seria preciso selecionar as menos repetidas.

SuperPauta — A política brasileira se tornou mais absurda?

Stanislaw — O absurdo se profissionalizou. Antigamente aparecia um sujeito dizendo uma asneira e a gente ficava espantado. Hoje aparece outro, diz uma asneira maior e ganha seguidores. O primeiro, com inveja, precisa superar o concorrente. É uma espécie de inflação da burrice.

SuperPauta — E as redes sociais?

Stanislaw — São uma maravilha. Deram voz a milhões de brasileiros que antes só conseguiam aborrecer os parentes no almoço de domingo. Agora podem aborrecer o país inteiro, simultaneamente.

SuperPauta — O senhor teria um perfil numa rede social?

Stanislaw — Teria, mas com pseudônimo. Não ia querer que Sérgio Porto ficasse sabendo das coisas que Stanislaw Ponte Preta escreve. O homem tem família.

SuperPauta — Hoje existe também a inteligência artificial. Ela já escreve textos, compõe músicas, produz imagens e imita vozes. Poderia substituir um humorista?

Stanislaw — Poder, pode. O difícil é competir com a inteligência natural dos nossos políticos. A máquina precisa de milhões de informações para produzir uma besteira convincente. O político brasileiro consegue fazer isso com meia dúzia de assessores e um microfone.

SuperPauta — O senhor está conversando comigo numa entrevista impossível, produzida com auxílio de inteligência artificial. Isso não o incomoda?

Stanislaw — De maneira nenhuma. Eu já estou morto, você está entrevistando um defunto e ainda quer discutir a autenticidade da conversa? Meu caro, a inteligência artificial é o menor dos nossos problemas.

Stanislaw e Roberto durante a entrevista. Ilustração produzida com IA.

SuperPauta — A desinformação virou uma arma eleitoral poderosa.

Stanislaw — Virou. Mas não vamos atribuir à tecnologia uma invenção antiga. Mentira política existia quando a correspondência era entregue a cavalo. A novidade é que agora a mentira viaja de avião a jato, enquanto o desmentido vai a pé, procurando o endereço.

SuperPauta — E quando o eleitor descobre que foi enganado?

Stanislaw — Aí depende. Se foi enganado pelo adversário, exige prisão. Se foi pelo candidato dele, diz que a declaração foi tirada de contexto. O contexto, aliás, virou uma espécie de salvo-conduto nacional.

SuperPauta — Stanislaw, preciso lhe apresentar um personagem que o senhor não conheceu: Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

Stanislaw — Pelo nome, parece protagonista de romance policial italiano. Mas, sendo banqueiro brasileiro, imagino que a história tenha mais personagens do que uma novela das oito.

SuperPauta — O caso envolve suspeitas de fraudes financeiras, relações com políticos, magistrados, empresários, festas luxuosas e pagamentos milionários.

Stanislaw — Espere um pouco. Isso é um escândalo bancário ou o programa de uma excursão da alta sociedade? Porque, se tiver tudo isso, o sujeito não administrava um banco. Administrava uma agência de relacionamentos institucionais com serviços financeiros anexos.

SuperPauta — Reportagens revelaram ligações do banqueiro com integrantes do Supremo Tribunal Federal. Há registros de viagens, contratos com pessoas próximas a ministros e encontros sociais.

Stanislaw — Meu caro, eu sempre soube que a Justiça era cega. Não sabia que precisava de avião particular para se locomover. Mas vamos separar as coisas: conhecer banqueiro não é crime. Receber convite também não prova corrupção. Agora, quando começam a aparecer tantas relações entre quem tem dinheiro e quem tem poder, o cidadão tem o direito de perguntar quem está pagando a conta e por quê.

SuperPauta — O procurador-geral da República apareceu numa fotografia com Vorcaro, numa reunião em Londres, com uísque e charutos. Ele afirmou que o encontro foi breve e banal.


Stanislaw — Breve e banal? Então está explicado. O problema é que a República anda frequentando lugares onde até a banalidade parece custar uma fortuna. Na minha época, o sujeito ia ao botequim, pedia uma cerveja e discutia política. Agora vai a Londres, acende um charuto e precisa de uma nota oficial para explicar a conversa.

SuperPauta — Mas uma fotografia não prova favorecimento.

Stanislaw — Evidentemente. E eu não quero condenar ninguém por fumar charuto. Até porque, nesse ritmo, daqui a pouco vão querer processar o fabricante do uísque por associação criminosa. O que precisa ser investigado é a relação entre os interesses privados e as decisões públicas. O resto é fumaça. Em alguns casos, literalmente.

SuperPauta — O Supremo também enfrenta uma crise de credibilidade por causa dessas revelações.

Stanislaw — E isso é gravíssimo. Um tribunal precisa ter autoridade para julgar até o sujeito mais poderoso do país. Mas autoridade não se compra na loja de togas. É preciso cultivá-la com independência, transparência e comportamento compatível com o cargo.

SuperPauta — Há quem use esses episódios para atacar o próprio STF e defender soluções autoritárias.

Stanislaw — Aí está outra besteira nacional. Descobrem que uma instituição precisa ser fiscalizada e concluem que o melhor é acabar com ela. É como encontrar um médico incompetente e decidir fechar todos os hospitais. A República precisa de Justiça independente, não de ministros acima de perguntas nem de governantes acima da lei.

SuperPauta — Surgiram também reportagens sobre festas privadas organizadas por Vorcaro, algumas com mulheres contratadas e suspeitas de exploração sexual.

Stanislaw — Nesse ponto, meu caro, a piada fica séria. Uma coisa é o luxo indecente de gente poderosa. Outra é a possibilidade de mulheres terem sido exploradas ou coagidas. Isso exige investigação rigorosa. O humorista pode ridicularizar os poderosos, mas não deve transformar possíveis vítimas em atração de cabaré.

SuperPauta — O senhor acredita que essas relações ajudam a explicar a desconfiança da população nas instituições?

Stanislaw — Naturalmente. O cidadão comum precisa enfrentar fila, preencher formulário, apresentar comprovante e esperar resposta. Aí abre o jornal e encontra gente poderosa circulando entre banqueiros, autoridades e festas exclusivas. É compreensível que pergunte se existe uma República para quem paga imposto e outra para os que ocupam altos cargos.


SuperPauta — O nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, também aparece em investigações e acusações políticas.

Stanislaw — A política brasileira tem uma peculiaridade: os filhos dos presidentes acabam adquirindo importância nacional mesmo sem terem sido eleitos presidente. É uma espécie de extensão familiar do mandato. Mas é preciso apurar o que cada um fez. Parentesco não é prova de crime, embora também não seja salvo-conduto.

SuperPauta — E o presidente deve responder politicamente por suspeitas envolvendo familiares?

Stanislaw — Deve responder às perguntas pertinentes, sem dúvida. Mas responder não significa ser automaticamente culpado pelo que um parente possa ter feito. O que não pode é a família presidencial virar assunto proibido para investigação ou pergunta jornalística.

SuperPauta — Do outro lado, Vorcaro aparece ligado ao financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro admitiu ter pedido recursos para a produção e negou irregularidades. A Polícia Federal investiga a movimentação do dinheiro.

Stanislaw — Ora, vejam só! O Brasil finalmente encontrou o seu mecenas de auditório. Enquanto o povo chora a falta de verbas, o nosso banqueiro de cabeceira resolveu bancar a odisseia cinematográfica da família: um blockbuster político direto para o streaming da Polícia Federal. O jovem Flávio, com a modéstia de quem pede apenas um cafezinho na padaria, confessou que pediu uns trocados emprestados para o filme do 'capitão'. Afinal, quem nunca precisou de um patrocínio de banco para rodar uma superprodução de ficção científica com fundo de verdade? É o famoso suspense financeiro de família: o banqueiro entra com o capital, a família entra com o roteiro de capa e espada, e o contribuinte, como sempre, assiste de camarote e paga a pipoca.

SuperPauta — O projeto envolve valores milionários e movimentações internacionais sob investigação.

Stanislaw — Pelo menos o título é apropriado. “Dark Horse”, azarão. O problema é descobrir de onde veio a ração, quem pagou a cocheira e por que o animal precisou atravessar tantas fronteiras financeiras antes de chegar à tela.

SuperPauta — Os dois candidatos trocaram acusações sobre esses casos durante a campanha.

Stanislaw — É o espetáculo mais brasileiro que existe: cada lado entra no palco carregando uma pilha de documentos contra o adversário e uma borracha gigantesca para apagar os problemas do próprio grupo.

SuperPauta — O senhor acha que os escândalos perderam a capacidade de indignar o eleitor?

Stanislaw — Não perderam. Foram distribuídos por torcida. O escândalo do adversário é prova da decadência moral da República. O do nosso candidato é perseguição, coincidência ou assunto que precisa ser melhor contextualizado. O eleitor indignado virou especialista em indignação seletiva.

SuperPauta — Como o senhor resumiria esse momento?

Stanislaw — Ora, vejam que injustiça com o pobre Montesquieu! O barão francês passou a vida inteira quebrando a cabeça para dividir o Estado em três caixinhas bonitinhas — Executivo, Legislativo e Judiciário — e esqueceu o quarto poder da República: o balcão de negócios. No Brasil moderno, a separação dos Poderes foi atualizada com sucesso. O Executivo governa (ou tenta, entre um decreto e um escândalo), o Legislativo legisla (e fiscaliza o próprio bolso), o Judiciário julga (quando a papelada não prescreve)... e o banqueiro assume o departamento de relações públicas da família real, fazendo empréstimo até para a sessão da tarde cinematográfica. Montesquieu foi um visionário, mas não contava com a criatividade do trânsito livre entre a Faria Lima e o altar da pátria. É a trindade sagrada da República: o governo, o caixa e a descaração.

SuperPauta — O senhor incluiria tudo isso no novo Febeapá?

Stanislaw — Incluiria, mas com uma dificuldade. O Febeapá nasceu para registrar a besteira oficial. Agora as histórias misturam política, finanças, cinema, charutos, aviões e suspeitas de crimes graves. Já não sei se estou organizando um livro de humor, um inquérito policial ou a programação de um festival internacional.

SuperPauta — E qual seria o título desse capítulo?

Stanislaw — Muito simples: “A República era uma festa. Só esqueceram de convidar o contribuinte”.

SuperPauta — Por que o brasileiro parece sempre à procura de um salvador da pátria?

Stanislaw — Porque salvar a pátria dá menos trabalho do que lavar a louça da administração. O salvador promete o céu em comício; o administrador tem que cuidar de escola, asfalto, esgoto e déficit público. Administrar é um tédio, falta à beça apelo cinematográfico.

SuperPauta — Mas alguns líderes conseguem estabelecer uma ligação emocional verdadeira com a população.

Stanislaw — Lógico. O carisma existe, é força da natureza. O perigo é quando o eleitor assina uma procuração em branco com firma reconhecida no cartório da fé. Um governante pode ser amado, idolatrado e ainda assim ter a obrigação de explicar onde gastou o tostão do contribuinte. Aliás, quanto mais amor, mais pontualidade na prestação de contas.


SuperPauta — O senhor acha que a imprensa cumpre bem seu papel?

Stanislaw — Às vezes cumpre. Outras, parece torcida organizada que trocou a camisa do time pela gravata de grife. O ofício do jornalista é desconfiar de todo mundo: do governo, da oposição, do empresário que paga o anúncio e, sobretudo, do próprio entusiasmo. Principalmente desse último.

SuperPauta — E o jornalismo independente?

Stanislaw — Independência não é atestado de “ser do contra” por esporte. É poder falar a verdade doa a quem doer: elogiar quando merece, descer o sarrafo quando precisa, e não engolir o próprio editorial só porque o sujeito elogiado pagou o jantar.

SuperPauta — Hoje qualquer pessoa pode publicar sua opinião e se apresentar como jornalista.

Stanislaw — Publicar texto na internet hoje em dia é que nem tomar água: qualquer um faz. O problema é a apuração. A diferença entre o jornalismo e o boato é que o primeiro levanta a bunda da cadeira e vai atrás dos fatos; o segundo fica sentado esperando a informação cair na bandeja.

SuperPauta — O senhor acredita que ainda existe espaço para o humor político?

Stanislaw — Mais do que nunca, a matéria-prima transborda. Mas o humorista precisa tomar cuidado para não bater ponto no RH de partido político. O dia em que ele só consegue achar graça nos defeitos do adversário e blindar o seu candidato de estimação, deve mudar de crachá. Provavelmente assessor parlamentar pague melhor.

SuperPauta — O humor também pode ser cruel, preconceituoso e injusto. Sua própria obra tem passagens que hoje seriam questionadas.

Stanislaw — E devem ser questionadas sem piedade. O cronista não tem direito adquirido à impunidade só porque arrancou risadas no século passado. O contexto da época explica muita coisa, mas não passa pano para tudo. Eu prefiro mil vezes ser lido com senso crítico do que virar estátua de bronze intocável em praça pública.

SuperPauta — Stanislaw, enquanto conversávamos, terminou a apuração. Lula foi reeleito presidente da República, com 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro ficou com 48,21%. Uma diferença de mais de quatro milhões de votos.

Stanislaw — Pois é. Quatro milhões e tanto de votos de diferença e ainda tem gente procurando uma lupa para encontrar a vitória do outro lado. O brasileiro inventou uma modalidade extraordinária de matemática: a conta está certa, o resultado está publicado, mas o candidato derrotado pede para trocar a operação.

SuperPauta — Flávio Bolsonaro anunciou que não reconhece o resultado e pretende pedir a anulação da eleição.

Stanislaw — Está vendo? O sujeito perde a eleição e resolve impugnar o eleitor. Antigamente, quando alguém perdia no jogo, levava a bola para casa. Agora quer levar a urna, o mesário, o tribunal e, se couber no porta-malas, a Constituição.

SuperPauta — O senhor não acha legítimo questionar judicialmente eventuais irregularidades?

Stanislaw — Legítimo, evidentemente. A Justiça existe para isso. O que não se pode é confundir o direito de recorrer com o direito de vencer. Quem denuncia uma irregularidade precisa apresentar provas e demonstrar suas consequências. Do contrário, a eleição vira uma partida em que o perdedor exige prorrogação até conseguir fazer mais gols.

SuperPauta — A principal reclamação de Flávio envolve a decisão de prorrogar o horário de votação em algumas seções eleitorais.

Stanislaw — Uma maravilha. O país passou meses discutindo quem deveria governar os próximos quatro anos e terminou discutindo quem podia votar durante mais duas horas. Já estou vendo o título da Pretapress: “Candidato perde eleição e culpa o relógio”.

SuperPauta — Mas a prorrogação provocou controvérsia e foi determinada por um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Stanislaw — Então que se examine a decisão, que se apurem os fatos e que se respeite o devido processo. Agora, não me venham transformar dúvida em prova por decreto partidário. Até porque me contaram que os dois lados pediram prorrogação em determinadas localidades. Parece que o problema não era exatamente a hora de fechar a votação. Era a hora de abrir o resultado.

SuperPauta — O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, afirmou que a segurança da eleição não foi comprometida.

Stanislaw — E olhe que não se trata de um sujeito conhecido por frequentar o diretório do PT. O homem foi indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro. Se nem isso basta para convencer os inconformados, talvez o problema já não seja a confiança no árbitro. É a dificuldade de aceitar o placar.

SuperPauta — Há quem veja na atitude de Flávio uma tentativa de repetir o comportamento do pai, Jair Bolsonaro, depois da derrota de 2022.

Stanislaw — A política brasileira descobriu a sucessão hereditária da inconformidade. O pai perde e não reconhece. O filho perde e também não reconhece. Se continuar assim, daqui a pouco a família vai pedir ao cartório que registre a derrota como bem de família, transmitido de geração em geração.

SuperPauta — Mas são quase sessenta milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro. Não seria injusto tratar toda essa gente como inimiga da democracia?

Stanislaw — Seria uma injustiça monumental. O cidadão tem todo o direito de votar em quem quiser, inclusive num candidato de quem eu não goste. Quase sessenta milhões de votos não podem ser tratados como uma nota de rodapé. Uma coisa é respeitar o eleitor derrotado. Outra, muito diferente, é dar ao candidato derrotado o direito de desrespeitar os demais eleitores. Democracia não exige unanimidade. Exige que a minoria possa continuar discordando sem precisar fingir que virou maioria.

SuperPauta — E Lula? O que o senhor diria ao presidente reeleito?

Stanislaw — Primeiro, que guarde os fogos de artifício e comece a procurar as contas para pagar. Ganhar uma eleição não é receber um certificado de santidade. É assumir uma obrigação. Lula venceu, mas não ganhou o direito de governar sem crítica, de esquecer as promessas ou de tratar os adversários como intrusos na República. E, com quase metade dos votos válidos do outro lado, faria bem em lembrar que o Brasil não cabe inteiro numa festa de vitória.

SuperPauta — O senhor acha possível reconciliar um país tão dividido?

Stanislaw — Reconciliar não é obrigar todo mundo a pensar igual. Isso seria uma ditadura com decoração de festa de aniversário. O país precisa aprender uma coisa elementar: adversário político não é inimigo pessoal, e eleição não é guerra civil com urna eletrônica. O cidadão pode discordar do presidente, criticá-lo todos os dias e ainda assim respeitar o resultado. Aliás, é justamente para isso que serve a democracia.

SuperPauta — Depois de tudo o que aconteceu, qual seria a manchete da Pretapress para a eleição de 2026?

Stanislaw — Tenho duas. A primeira: “BRASIL ELEGE PRESIDENTE; DERROTADO PEDE REVISÃO DA MATEMÁTICA”. A segunda é mais curta: “URNAS ENCERRAM ELEIÇÃO, MAS CANDIDATO PEDE TEMPO EXTRA PARA PERDER”.

SuperPauta — E o que o senhor escreveria na última página do novo Febeapá?

Stanislaw — Que o Brasil realizou uma eleição, proclamou um vencedor e, no dia seguinte, continuou discutindo se a eleição havia terminado. É uma contribuição extraordinária à ciência política: inventamos o resultado provisório permanente.

SuperPauta — Para encerrar, Stanislaw: quem venceu, afinal, o Festival de Besteira que Assola o País?

Stanislaw — Meu caro, não confunda as competições. A eleição presidencial foi vencida por Lula. Isso está nas urnas. Já o Febeapá não tem vencedor definitivo. É um campeonato de pontos corridos, disputado diariamente por políticos, autoridades, bajuladores e cidadãos que desaprenderam a desconfiar dos próprios ídolos.


Fez uma pausa, puxou a folha da Remington e acrescentou:

Stanislaw — E anote aí: o sujeito pode até se recusar a reconhecer a derrota. O que não pode é exigir que a democracia também feche os olhos.

Ajeitou os papéis, examinou mais uma vez o resultado eleitoral e voltou à máquina de escrever. Antes de bater a primeira tecla, olhou para mim:

Stanislaw — Agora, se você me dá licença, preciso trabalhar. O Brasil acaba de eleger um presidente, mas o Festival de Besteira já está preparando a próxima edição.

Na folha em branco, escreveu apenas:

FEBEAPÁ 2026

Fim da eleição. Continua o festival.


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