Em “Ilações, causos e impressões”, Boanerges Cezário transforma mais de três décadas como oficial de justiça em crônicas de humor, memória e reflexão.
Há profissões que quase sempre chegam ao público reduzidas a uma imagem. No caso do oficial de justiça, é a figura de alguém que bate à porta para entregar um papel. Boanerges Cezário conhece essa caricatura por dentro — e passa boa parte de “Ilações, causos e impressões: aconteceu assim porque assim aconteceu” desmontando-a com histórias, ironia e experiência de rua.
Aposentado em 2025, depois de mais de três décadas na Justiça Federal do Rio Grande do Norte, Boanerges reúne no livro episódios inspirados no cotidiano profissional, reflexões sobre as transformações do Judiciário e situações em que a solenidade da lei esbarra na imprevisibilidade da vida. O resultado não é um tratado jurídico nem um memorial burocrático. É uma conversa bem-humorada entre quem viveu os fatos e quem aceita escutá-los.
O homem por trás do mandado
Nos textos, o mandado é apenas o ponto de partida. Ao sair do processo e chegar à rua, a ordem judicial encontra medo, resistência, vaidade, solidariedade, mal-entendidos e personagens que nenhum formulário seria capaz de prever. É nesse território que Boanerges constrói suas crônicas: menos interessado na letra fria dos autos do que nas pessoas alcançadas por ela.
O livro também contesta a velha definição do oficial de justiça como simples “entregador de papel”. A função exige leitura do ambiente, capacidade de negociação, prudência e sensibilidade. Quem cumpre a decisão judicial precisa, muitas vezes, compreender em poucos minutos um conflito que se formou durante anos.
Zé Bidu e a filosofia do agreste
A voz mais característica da obra é Zé Bidu, apresentado como “o apedeuta filósofo do agreste potiguar”. Alter ego, conselheiro e comentarista, ele aparece para olhar os acontecimentos por um ângulo enviesado, misturando sabedoria popular, exagero, trocadilho e provocação.
As “morais da estória” que encerram muitas crônicas não oferecem lições comportadas. Funcionam como uma última piscadela ao leitor. Às vezes resumem o caso; em outras, desviam dele e criam uma nova piada. Essa liberdade dá unidade a textos que passeiam por diligências improváveis, atendimento ao público, tecnologia, trabalho remoto, patrimônio digital e até um samba sobre telecitação.
Entre o causo e a mudança
O humor não impede que o livro registre uma transformação profunda. Boanerges atravessou a passagem do processo em papel para os sistemas eletrônicos, dos endereços físicos para as comunicações digitais e do oficial solitário em campo para uma atividade cada vez mais apoiada por bancos de dados e ferramentas tecnológicas.
Essa mudança amplia possibilidades, mas também exige novas competências. Ao tratar de citações a distância, inclusão digital, créditos de carbono e ativos estressados, o autor mostra que a profissão não ficou parada no tempo. Entre uma lembrança e outra, o livro pergunta que oficial de justiça será necessário para um mundo em que perto e longe já não significam a mesma coisa.
Um livro para além do Judiciário
Embora dialogue diretamente com colegas de profissão, “Ilações, causos e impressões” não exige familiaridade com tribunais. Seu assunto mais amplo é o encontro entre instituições e pessoas — e tudo o que pode acontecer quando uma regra abstrata precisa ganhar forma numa casa, numa rua ou numa conversa.
Boanerges escreve com a oralidade de quem conta um caso à mesa, sem esconder o gosto pelo exagero nem a vontade de provocar. Por trás das piadas, permanece uma defesa do serviço público como compromisso com a sociedade e do bom senso como ferramenta indispensável para fazer justiça.
A segunda edição do Capítulo Potiguar
Na nova edição do Capítulo Potiguar, Nísia e Luís conversam sobre o humor, os personagens, a experiência profissional e as mudanças do Judiciário presentes no livro de Boanerges Cezário.
Não se trata de audiolivro nem de leitura dramatizada. É uma conversa de apresentação e análise da obra, preparada para preservar as surpresas das crônicas.
O episódio foi produzido com auxílio de inteligência artificial e não contém spoilers relevantes.
Ouça o episódio
Conheça o livro
“Ilações, causos e impressões: aconteceu assim porque assim aconteceu”, de Boanerges Cezário, está disponível em edição impressa.
A Justiça pode começar numa decisão escrita. Mas é quando sai do papel e encontra gente que a história realmente começa.
Marcadores sugeridos: Capítulo Potiguar, Literatura Potiguar, Crônica, Boanerges Cezário

Nenhum comentário:
Postar um comentário