quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Pescando o Passado - Sebo de Ponta


Aberto no quintal de uma casa em Ponta Negra, o sebo que montei com meu cunhado Neneto virou bar e palco, e ganhou exposição e histórias. Uma filmagem reencontrada resgatou um pedaço daqueles dias.

Por Roberto Homem


Eu procurava uma coisa e encontrei outra. Vasculhando os arquivos do computador, tentava localizar uma filmagem que haviam feito no lançamento do Jornalzinho do Sebo Vermelho, realizado no nosso Sebo de Ponta. O vídeo procurado não apareceu. Em compensação, encontrei outro, este gravado por mim, com mais de nove minutos de cenas daquele lugar.

As imagens têm as limitações de um registro caseiro antigo e desgastado pelo tempo. Mas guardam pessoas, movimentos e momentos que a memória, sozinha, já não conseguiria reproduzir do mesmo jeito. Resolvi separar alguns trechos e contar um pouco da história que existe em volta deles.

Pelas minhas lembranças, o Sebo de Ponta abriu em 1991 e funcionou até meados de 1992. Ficava numa casa por trás de onde hoje funciona o Vilarte, na Avenida Praia de Ponta Negra, em Natal. No lugar da casa está hoje o Condomínio Residencial Porto Verão.

Um emprego, um conselho e um orçamento apertado

A história do sebo se mistura com a minha vida profissional. Em 1984, depois de um ano de estágio no Núcleo de Cadastro da Caixa Econômica Federal, assumi o cargo de agente administrativo na antiga Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte. Havia sido aprovado no concurso do ano anterior. Trabalhei na Coordenadoria de Integração Escola-Empresa até pedir demissão, em 1990.

Eu tinha passado em outro concurso, para jornalista do Governo do Rio Grande do Norte, durante a gestão de Geraldo Melo. Lembro que o edital previa uma remuneração equivalente a dez salários mínimos, com jornada de trinta horas semanais. Era um pouco menos do que eu recebia na Escola Técnica, onde chegava a esse valor somando o que recebia por ocupar um cargo de chefia. Mas fui seduzido pela oportunidade de trabalhar na minha profissão e, imaginava eu, ter tempo para outra atividade e aumentar a renda.

Quando contei o plano a meu pai, ele tentou me demover da ideia: como trocar um emprego federal por um estadual? Eu tinha argumentos. Mas a realidade mostrou que meu pai é quem tinha a razão. Os salários atrasavam e o valor recebido perdia poder de compra. Na minha lembrança, em menos de um ano, o que correspondia a dez salários mínimos havia encolhido para cerca de um e meio.

Eu havia me casado em janeiro de 1990. O dinheiro foi apertando, e o apartamento alugado no Condomínio Parque das Acácia II acabou dando lugar à casa do meu sogro. Foi naquele período de contas difíceis que eu e meu cunhado Aderson Neto, o Neneto, resolvemos abrir um sebo para complementar o orçamento.

A banda chegou pela faixa

Havia um quarto isolado no quintal da casa do pai de Neneto, Adersinho, meu sogro. Foi ali que começamos. Colecionador de livros e discos, separei alguns volumes e boa parte dos meus elepês para formar o acervo. Na semana da inauguração, ainda compramos discos da coleção de Airton de Castro, irmão de Nei Leandro.

Espalhamos faixas por Ponta Negra anunciando a abertura. Uma delas levou à nossa porta um grupo de jovens que eu nunca tinha visto. Perguntaram se já havíamos contratado alguém para tocar na inauguração. Dissemos que não. Eles tinham uma banda de rock e se ofereceram.

Expliquei que não tínhamos dinheiro para contratar ninguém. A solução veio deles: tocariam em troca de algumas cervejas. Não lembro o nome da banda nem de seus integrantes. Lembro do acordo e do resultado: naquela inauguração, ganhamos mais vendendo cerveja e tira-gosto do que negociando livros e discos.

O público tinha dado uma sugestão bastante prática. Resolvemos ouvi-la. O Sebo de Ponta passou a funcionar também como bar.

Eu atuando como DJ do Sebo de Ponta


Um batente promovido a palco

Quando o bar engrenou, passamos a promover shows. Marconi, primo de Neneto e um dos nossos principais clientes, nos emprestou dinheiro para melhorar o espaço. Ele, por sinal, foi nosso melhor cliente: comprou uma parte considerável da minha coleção de elepês.

Com o empréstimo, fizemos um telhado e um batente largo, que generosamente passamos a chamar de palco. Fechamos a parte de trás com esteiras de sisal compradas por pouco dinheiro no Mercado do Alecrim, improvisamos tomadas e construímos uma mureta meio bamba. Era com essa estrutura que recebíamos os artistas.

Acertamos com uma dupla para se apresentar durante várias semanas. Avany Peixoto e Bruno Barros prepararam um repertório maravilhoso e fizeram muito sucesso por lá: Bruno ao violão, Avany cantando. Entre as músicas, lembro de "Que loucura" e "Um girassol da cor do seu cabelo", entre tantas outras. A estrutura era improvisada; o prazer de ouvir os dois, não. 

Avany Peixoto e Bruno Barros no Sebo de Ponta, em Natal, no início dos anos 1990. Imagens do acervo de Roberto Homem.

Cátia de França entrou pela portinha

Eu era fã de Cátia de França desde o começo dos anos 1980. Conheci sua música ouvindo a Rádio Poti, numa programação que lembro ser anunciada como padrão FM: algumas músicas seguidas, uma propaganda, mais músicas. Foi ali que ouvi Estilhaços. Fui atrás do disco e comprei também o anterior, Vinte palavras girando ao redor do sol.

Levei meu toca-discos para o sebo e, enquanto o bar funcionava, fazia as vezes de DJ. Numa noite de semana, estava justamente tocando Cátia quando minha amiga Nathalie Câmara entrou pela portinha com a própria Cátia de França.

Nathalie e Ana Cristina Felipe estavam promovendo um show dela em Natal. Sabendo da minha admiração, Nathalie a levou ao sebo para beber e comer alguma coisa. A surpresa me deixou tão emocionado que, ao entrar na cozinha para preparar o pedido, me ajoelhei e agradeci a Deus pela oportunidade.

Peguei o maior copo que havia na casa e preparei uma caipirinha caprichada para Cátia. Nathalie queria cerveja. Eu também. Levei tudo à mesa e, pouco depois, vi Cátia derramando a bebida numa parte de areia perto de onde estávamos.

Fiquei sentido. Disse que, se ela não tivesse gostado, bastava falar: eu preparava outra. Não precisava derramar. Sorrindo, ela explicou que costumava oferecer a primeira dose ao santo. Aliviado, respondi que devia ter avisado: eu teria feito uma dose menor para não deixar o santo embriagado. E fui fazer outra caipirinha...

Conversamos, ouvimos música e, lá pelas tantas, Cátia perguntou se havia um violão. Havia. Meio surrado e sem duas cordas, mas havia. Fui buscá-lo, fazendo de conta que não lembrava daquele detalhe.

Ela colocou o instrumento no colo, passou a mão pelas cordas e percebeu a falta. Provoquei: e não dava para tocar assim mesmo? Cátia afinou o violão e começou. Com aquela batida só dela, parecia que o instrumento, em vez de quatro cordas, tinha umas dez.

Mais tarde, perguntou o que havia para comer. Achei melhor sairmos. Se insistissem em ficar, o cozinheiro seria eu, que me defendia mal e porcamente entre filé de merluza, batatas fritas e ovos de codorna, os itens do nosso cardápio.

Rodamos por Ponta Negra e encontramos tudo fechado. Fomos terminar num bar perto da Escola Técnica, com uma daquelas balanças de farmácia na entrada. Brinquei que ali o sistema devia ser diferente: a pessoa se pesava ao entrar e ao sair, e pagava pela diferença.

No dia seguinte, almoçamos em Ponta Negra, no restaurante Peixe na Telha. Dessa parte do encontro ficou uma fotografia, com Cátia, Costa Júnior e eu.



Toinho, das aulas ao salão

Dois garçons trabalharam conosco: Toinho e Charles. Minha amizade com Toinho vinha de antes. Meus pais o haviam contratado para serviços de vigilância e jardinagem em nossa casa. Tínhamos a mesma idade e acabamos amigos. Mesmo quando ele já não trabalhava lá, continuávamos nos encontrando.

Toinho chegou a assistir várias aulas de Jornalismo comigo. Às vezes, a lista de presença passava por ele. Como não sabia ler nem escrever, fazia uns riscos e entregava ao próximo.

Numa visita da turma ao Diário de Natal, ele foi junto. Luiz Maria Alves nos recebeu com o tradicional revólver na cintura, como lembro de vê-lo, e apresentou a oficina, a redação, a Rádio Poti e as demais dependências. Ao final, chamou um fotógrafo para registrar a visita.

No dia seguinte, a fotografia saiu na primeira página, anunciando a visita dos alunos de Jornalismo. Na frente de todos, de braços abertos e sorrindo, estava Toinho.

Anos depois, no sebo, ele também sabia ocupar a cena. Um dos trechos da filmagem foi feito já no começo da madrugada, depois de tudo arrumado, com o salão vazio. Na radiola tocavam os Titãs. Toinho dançava, cigarro na mão, ao som de "Jesus não tem dentes no país dos banguelas". O resto da performance é melhor deixar por conta do vídeo.

Depois do expediente, Toinho dança ao som dos Titãs no Sebo de Ponta, em Natal, no início dos anos 1990. Filmagem de Roberto Homem.

Charles morava perto de Neneto. Uma vez, apareceu num programa policial de televisão depois de ser detido numa ocorrência envolvendo a tentativa de roubo de um relógio. Na entrevista, citou o trabalho no sebo como credencial. Foi uma publicidade que não havíamos encomendado.

Depois do episódio, conversamos e decidimos lhe dar outra chance. Charles continuou trabalhando conosco e sempre se comportou com correção. É justo que essa parte também fique registrada.

Arte nas camisetas, jornal no quintal

Pedro Pereira realizou no sebo uma exposição de arte-camiseta. Também recebemos o lançamento do Jornalzinho do Sebo Vermelho, do amigo Abimael. Eram ocasiões de casa cheia e muita conversa.

Anos depois, entrevistei Pedro Pereira para o jornal Zona Sul. A entrevista pode ser lida aqui.  Na ocasião, era o ano de 2011, ele me deu essa declaração. "A arte-camiseta ainda é o meu laboratório, até hoje. Sempre foi. Com o passar do tempo, descobri que a arte em tela ou em camiseta tem o mesmo valor. Hoje pinto em camiseta e em tela. Minha sobrevivência vem dessas duas vertentes das artes plásticas. Talvez a minha missão seja desmistificar a arte convencional".

 Quando ele expôs no Sebo, o quarto onde tínhamos começado a vender livros e discos já abrigava uma variedade de encontros que não fazia parte de nenhum plano inicial.

Exposição de Arte-Camiseta de Pedro Pereira no Sebo de Ponta, em Natal, no início dos anos 1990. Registro original de Roberto Homem.

O que ficou no arquivo

Em meados de 1992, o sebo já andava mal das pernas. Os shows fixos tinham acabado, o movimento diminuíra e fomos seguindo até decidir encerrar as atividades. Não sei precisar o dia. As datas ficaram menos nítidas que algumas cenas.

Lembro do batente que chamávamos de palco, das esteiras do Alecrim, dos discos que vendi, de Avany e Bruno tocando, de Cátia com meu violão desfalcado e de Toinho dançando depois do expediente.

Ainda não encontrei a filmagem do lançamento do Jornalzinho do Sebo Vermelho. Mas a busca me devolveu essas outras imagens. Mais de três décadas depois, abri o arquivo e lá estava Toinho, outra vez no salão.

Sobre os registros: as datas são aproximadas, reconstruídas a partir das minhas lembranças. Os três vídeos são recortes de uma filmagem feita por mim no Sebo de Ponta. Algumas fotografias são recriações de IA. 



2 comentários:

  1. Grande resgate de um ambiente cultural

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  2. Muito bom esse resgate de um passado inesquecivel. Frequentei o Sebo de Ponta e testemunhei coisas maravilhosas, como por exemplo, Avanir dando um show em suas apresentações

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