Lembranças do Salesiano entre a torcida, a disciplina e as peças que a memória troca
Por Roberto Homem
Nesta semana, a pescaria foi num conjunto de velhas fotografias do Salesiano. Algumas já estavam comigo; outras chegaram pelas conversas com os amigos. Mesmo em arquivos digitais, elas conservam as marcas dos retratos de papel: cores desbotadas, manchas, rostos que pedem um segundo olhar.
Estudei ali da quarta série ao pré-vestibular, de 1975 a 1982. Rever aquelas turmas e aqueles times me deu saudade e vontade de contar algumas histórias que testemunhei. As fotos trouxeram lembranças; os amigos ajudaram a corrigir o que eu julgava lembrar.
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| Recriação com Inteligência Artificial do gol de Jesses |
Passei boa parte da vida guardando na memória um gol de Plínio Sanderson. A imagem era embaçada, mas o resultado permanecia nítido: Salesiano 1 x 0 Marista. Uma semifinal dos JERNs, no campo do maior rival. Nossa torcida estava lá. E, na minha lembrança, Plínio havia decidido a partida com um gol de falta.
Até que resolvi conversar com ele, para escrever este texto.
O gol não tinha sido de Plínio. Era de Jesses. Mas foi mesmo de falta.
Décadas de comemoração silenciosa com o nome errado.
O ano também precisou de revisão. Eu situava a partida em 1981, mas Plínio já havia trocado de escola em 1979. A reconstrução nos levou a 1977 ou 1978. Ainda falta cravar a data.
Plínio, porém, tinha uma participação importante naquele jogo. Uma participação que, por alguns instantes, poderia ter estragado tudo.
O herói e o pênalti
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| Reconstituição com IA do pênalti cometido por Plínio |
Segundo ele me contou, já no fim da partida, Cacá Bufão (Carlos Teodorico) deu bobeira e Juquinha, do time adversário, avançou sozinho para marcar. Plínio estava na lateral esquerda. Pulou para derrubá-lo.
Pênalti.
O Salesiano já vencia por um a zero. O Marista tinha a chance de empatar dentro de casa, quase no fim. O cobrador desperdiçou.
Plínio resumiu o desfecho:
— Depois que o zagueiro deles perdeu, virei o herói do jogo.
Eu havia conservado o herói e lhe dado o gol de outro.
O pós-jogo
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| Recriação com IA da comemoração |
A direção do Salesiano havia liberado as turmas das aulas para que pudéssemos assistir à partida. Eu, Tales de Natal, Guilherme da Escócia, Einar Antunes, Odailson Seabra e Márcio Guedes estávamos entre os torcedores.
Tales e Guilherme trouxeram de volta um pedaço da história que não aparecia na minha lembrança embaçada: a comemoração.
Parte do grupo saiu pelas ruas do centro em direção ao Salesiano aos gritos. Plantas do jardim do Marista foram pisoteadas. A euforia de vencer o clássico na casa do adversário ganhou ares de arruaça.
Fernando Jussier ainda acrescentou outra pitada de vandalismo. O portão do Marista teria sido quebrado a pontapés. Ele recorda ainda que ao chegarmos ao Salesiano fomos recebidos por um dos padres, que já havia tomado conhecimento da arruaça:
— Vocês são uns animais... Uns bandidos... Uns delinquentes! Como vocês fizeram uma coisa dessas?
Eu guardava o gol — com o autor errado. Meus amigos lembravam também dos estragos. Jussier, além disso, das consequências. Ou pelo menos parte delas.
O craque da minha memória
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| Montagem com IA de imagens de Plínio Sanderson |
Também guardava Plínio como um craque, um camisa dez clássico. Ele tratou de corrigir mais essa impressão: disse que era o mais perna de pau daquele time. Jogava na lateral esquerda, com colegas dois ou três anos mais velhos. Segundo sua lembrança, o professor Reginaldo Lins o convocara pensando também nos anos seguintes, quando os demais deixariam a equipe.
A essa altura, a busca por pistas para preencher as lacunas da história já havia virado uma reconstrução coletiva. Plínio e Marco Lima, com a autoridade de terem feito parte do time. Eu, Tales de Natal, Guilherme da Escócia, Einar Antunes, Odailson Seabra e Márcio Guedes, com a memória de quem assistiu e torceu muito.
Odailson, Márcio e Ivo Netto ajudaram a recuperar o nome e a história de Jesses. Fernando Molick foi o primeiro a identificar pela foto Marco Lima como o goleiro daquela equipe. Os nomes que faltavam foram voltando por partes, entre mensagens, palpites e correções. Até que a escalação da fotografia ganhou seu último nome: Maurício Rands, o atleta misterioso que depois voltou para Recife. Marconi Clímaco, que em algum momento jogou com esse time, foi outro que contribuiu com informações sobre o episódio.
Uma foto, porém, não resolve sozinha a história de um jogo. Foi preciso cruzar lembranças, distinguir os times de cada ano e devolver cada personagem ao seu lugar.
Plínio contou ainda que ele e Jesses eram parecidos, a ponto de serem confundidos. Talvez isso tenha ajudado a embaralhar meu arquivo. Talvez não. Não tenho como saber.
Jesses Roberto Leite era mineiro, estudou e morou em Natal e depois se mudou para o Paraná, onde morreu em 24 de abril de 2024, aos 63 anos. Não pôde participar dessa conversa que lhe devolveu o gol.
Depois da vitória sobre o Marista, o Salesiano enfrentou o Santa Águeda, de Ceará-Mirim, na final. Perdemos nos pênaltis e ficamos com o vice-campeonato. Mas foi aquela semifinal que permaneceu comigo: vencer o Marista no campo do Marista.
Agora Jesses recuperou seu gol. Plínio continua na história. E a lembrança, que eu carregava sozinho, voltou com a ajuda dos amigos.
A 6ª “A” estremece a terra
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| Imagem aperfeiçoada com IA. Em pé: Wagner, Tales, Ernani, Nélson, Marcone, Sérgio Vargas, Roberto e Ronald. Agachados: Claudio Mesquita, Odailson, Márcio Guedes, Guilherme, Carlinhos e Fábio |
Na sexta série, nossa turma já tinha aprendido a fazer barulho.
Nos jogos internos do Salesiano de 1977, a sexta série A cantava em todas as modalidades um grito de guerra criado por Tales de Natal:
Ei, quem vem lá
Venha morena, me abraçar
Tango, dois cinco
Sinal de guerra
A sexta "A" estremece a terra.
O dois cinco era o número de Tales na chamada: 25. O “Tango” também se referia a ele: Tales de Natal Gondim de Oliveira. Cantávamos em qualquer jogo da 6ª A, estivesse Tales jogando ou não.
Naquele tempo, Tales era franzino, baixinho. Hoje é um homenzarrão alto e musculoso. Mesmo levando desvantagem no porte físico, nos esportes, já dava show.
Mais tarde, foi o levantador da equipe do primeiro ano que derrotou o time do pré-vestibular no voleibol. Para quem estava começando o científico, vencer os mais velhos tinha um gosto especial.
O grito de guerra ganhou agora uma versão musical produzida com inteligência artificial, a partir da composição de Tales de Natal.
Assista a “Sinal de Guerra” também no YouTube.
Antes que esqueça, registro que entre os jogos e as aulas, circulavam apelidos os mais diversos: Foguinho, Madeira, Palito, Maranha, Tapioca, Auau, Charuto, Rato Branco, Carniça, Jarrão, Gato Seco... Alguns nomes ainda chegam à memória antes dos nomes de batismo.
Quando as meninas chegaram
Quando entrei no Salesiano, o colégio era masculino. As meninas estudavam no Maria Auxiliadora. Em 1979, quando estávamos na oitava série, nossa etapa passou a receber alunas; no científico já havia turmas mistas.
Conversando com algumas pessoas, entre elas Eloísa e Paula, duas que fizeram parte dessa turma feminina inicial, chegamos a outros nomes além dos delas: Flávia, Márcia Cabral, Evanya, Giselda, Taciana, Ana Teresa, Soraya, Moema e Lireda. Outras que podem ter entrado também naquele ano são Ana Paula, Livia, Murce, Temes e Virgínia.
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| Reconstituição feita por IA a partir de foto da época |
Mesmo em quantidade pequena, a chegada feminina foi suficiente para alterar o ambiente de um bando de meninos acostumados a conviver quase exclusivamente com outros meninos. Nós nos achávamos muito experientes para algumas coisas, mas éramos profundamente despreparados para outras.
Digo isso olhando para trás. Mas a chegada delas merece também a versão de quem entrou naquele colégio, porque a nossa é apenas metade da história.
Eloísa fez a seguinte reflexão:
— Se não estou enganada, na 8ª A do Salesiano eram 30 homens e 10 mulheres! Eu vinha de um colégio de freiras onde a proporção era o contrário. A grandissíssima maioria era mulher. Mas, como sempre gostei de conversar e tinha facilidade de fazer amizades, foi tranquilo. A convivência com todos foi muito boa, apesar dessa grande inversão. E, olhando para trás, ainda permanece o encantamento de ter estudado no Salé, pois éramos uma turma legal e um mundo novo para mim.
Naquele tempo, havia muita brincadeira, muita sacanagem e uma convivência que, em certos momentos, obedecia à lei da selva. Nas mangueiras, íamos fumar escondido. Dentro das salas e no pátio, cada um aprendia a se virar entre a disciplina dos adultos e a pressão da própria turma. A chegada das garotas foi um ingrediente a mais nesse caldo todo.
Elegantemente vestido
No pré-vestibular, tínhamos aulas aos sábados pela manhã. Nesses dias, não era necessário usar farda.
Num desses sábados, fui de calça jeans, camiseta cavada e sandália japonesa. Mizael, coordenador de disciplina, me repreendeu. "Aquilo era um desrespeito", ele disse.
Perguntei o que havia de errado. Ele apontou a sandália e a camiseta. Respondi que desconhecia a regra que proibia ir de sandália e camiseta no sábado.
Foi quando recebi a orientação:
— Você tem que vir elegantemente vestido.
Na sexta-feira seguinte, passei na casa de Fernando Jussier. Ele pegou o paletó cinza com que o pai havia se casado. Era antigo. Nos punhos, as traças já tinham feito alguns furos.
De lá, fomos para a casa de Hélderes, em Ponta Negra. Houve música, conversa e, provavelmente, cachaça. Dormimos no alpendre. Pela manhã, pegamos o ônibus para o colégio.
Cheguei de paletó.
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| Reconstituição da cena feita por IA |
No pátio, alunos de outras turmas e alguns colegas me cercaram. A risadagem chamou a atenção de Mizael, que estava em sua sala no primeiro andar. Ele desceu para saber que palhaçada era aquela.
Me chamou de engraçadinho. Perguntou o que era aquilo.
— Você pensa que é quem?
Expliquei que estava apenas seguindo a orientação dele. E lembrei que no sábado anterior, ele havia exigido que eu fosse elegantemente vestido.
Depois do carão, assisti às aulas normalmente, com o paletó cinza do casamento do pai de Jussier e os punhos furados pelas traças.
O espírito da cachaça
A convivência com os professores também tinha capítulos fora do colégio.
Carlos, de química, dava as últimas aulas da sexta-feira e as primeiras do sábado. Depois da aula da sexta, íamos à Casa da Música. Às vezes, encontrávamos nosso mestre por lá, já devidamente com a química dentro do corpo.
Com João Alfredo, professor de educação física conhecido como João Bolão, a história foi além do encontro no bar. Meus amigos fizeram uma aposta com ele: eu beberia mais.
A disputa aconteceu no bar do Lourival, na ladeira do Poti, em frente ao prédio onde funcionava o Diário de Natal.
Depois de dois “burrinhos”, como chamávamos naquela época as meias garrafas de cachaça, fiquei completamente embriagado. João tomou ainda um terceiro e continuou consciente, no grau.
Diante do meu estado, disse que um espírito havia baixado em mim.
Meus amigos me conduziram até o Fusca dele. Fomos à beira da praia, em Areia Preta. Dois amigos me seguravam enquanto João dançava e cantava ao meu redor, numa encenação para tirar o espírito.
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| Recriação da cena feita por IA |
Depois de alguns minutos, perguntou:
— Sabe qual espírito baixou nele?
E respondeu:
— O espírito da cachaça.
Caiu na gargalhada.
Dali, fomos ao Costelinha, um bar em frente ao Marista. Eu fiquei dormindo no banco traseiro do Fusca. Eles foram beber.
Quando voltaram, eu tinha vomitado o carro. Inclusive as cadernetas de chamada do professor.
Depois me levaram para casa.
No sábado, logo cedo, fui ao colégio. Tinha aula de educação física.
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| Reconstituição feita por IA |
A partir daquele dia, João passou a mandar um aluno fazer a chamada. Na minha interpretação, para não precisar pegar naquela caderneta. Eu havia perdido a disputa e deixado uma lembrança bastante material da derrota.
Padre Sabino
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| Reconstituição feita com IA |
Na quinta série, nossa sala ficava perto da marcenaria de Bigode. Três colegas eram muito calados. Mesmo quando falavam, falavam baixo. Sentavam no fundo.
Certa ocasião, Sabino mandou os três irem para a frente e foi para o fundo da sala. Pediu que falassem alto. Eles continuaram falando baixinho. Mandou que gritassem.
A cada grito, a turma respondia com vaias mais altas. Quanto mais gritavam, mais vaias recebiam.
Não guardo o desfecho da cena. Guardo os três diante da turma e o barulho dos demais. Hoje, a lembrança também me faz pensar em como podia ser difícil estar ali para quem não tinha facilidade de se impor.
Sabino viria a marcar a história de Mãe Luíza com seu trabalho junto à comunidade. Minha memória escolar conserva esse homem de jeans e cabelos longos, mas conserva também uma sala de aula e três meninos que falavam baixo. Uma lembrança não elimina a outra.
Quem ficou na fotografia
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| Eu e Vladimir: antes e depois |
Foi também no Salesiano que comecei a escrever com Vladimir Quintiliano, o Gato Seco. Nossa parceria em “Secas do Sertão”, de 1980, já apareceu neste Pescando o Passado. Entre aulas, jogos e encontros, havia espaço para tentar dizer alguma coisa com música.
Hoje, participo de um grupo de amigos que concluíram o segundo grau por lá. As conversas devolvem nomes, episódios e versões. Uma fotografia pode trazer alguém de volta. Uma pergunta pode mudar o dono de um gol.
Durante décadas, não precisei consultar ninguém para ter certeza de que Plínio havia marcado contra o Marista. Bastou procurá-lo para que a certeza desmoronasse — e a história ganhasse um pênalti no fim, uma cobrança perdida e outro autor para a falta.
Aos colegas daquela época, fica o convite: tragam as fotos e contem o que lembram. Inclusive quando a lembrança de vocês contrariar a minha.
Foi assim que Jesses recuperou seu gol.














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