O prefeito de Sucupira recebe o SuperPauta entre uma promessa de inauguração e uma tentativa de mudar de assunto. Fala de Lula, Flávio Bolsonaro, ministros, aliados, adversários e eleitores com a desenvoltura de quem conhece o negócio por dentro — e com a indignação de quem acha que os concorrentes cresceram demais. No caminho, revisita o cemitério que o consagrou, as irmãs Cajazeiras, Zeca Diabo e o homem que teve a indiscrição de escrever sua história: Dias Gomes.
Entrevista imaginária por Roberto Homem
O cenário
O gabinete da Prefeitura de Sucupira tem duas janelas: uma dá para a praça; a outra, para o cemitério. Odorico prefere a segunda. Diz que a paisagem é mais organizada e que ninguém dali costuma pedir audiência.
Sobre a mesa estão uma fita inaugural, três copos de licor e um celular apoiado num exemplar de O Bem-Amado. A televisão está sem som. Num canto da tela, um candidato sorri. No outro, seu adversário sorri também. Odorico observa os dois com o desconforto de um comerciante diante da abertura de um supermercado.
Dirceu Borboleta testa a conexão. Da antessala vem a voz de Dorotéa Cajazeira: quer saber se a entrevista dará votos. Judicéa pergunta se haverá fotografia. Dulcinéa quer saber de que lado ficará o prefeito.
— Do meu, evidentemente — responde ele. — Se cada qual cuidasse do meu lado, esse país já estaria pacificado.
Ao me ver, levanta-se, ajeita o paletó branco e oferece a mão. — Roberto Homem! Recebo o senhor com satisfação entrevistatícia, desde que as perguntas não prejudiquem o interesse público.— E quem define o interesse público?
— Eu. Para evitar divergências.
Ponho o gravador sobre a mesa. Ele olha o aparelho, depois o celular.— Esse negócio grava tudo?
— Tudo.
— Então vamos precisar de uma versão resumida.
— Que seja, vamos começar.
A entrevista
SuperPauta — Lula e Flávio Bolsonaro chegaram ao segundo turno. O senhor está acompanhando a disputa?
Odorico Paraguaçu — Com preocupação concorrentícia, seu jornalista. Passei a vida sendo apresentado como um escândalo da administração pública. Agora olho para Brasília e descubro que fui um empreendimento familiar de pequeno porte. Meu erro foi não expandir.
SuperPauta — O senhor se considera modesto diante dos políticos nacionais?
Odorico — Modesto, artesanal e quase educativo. Eu queria um defunto para inaugurar um cemitério. Uma unidade. Brasília consegue sepultar uma promessa inteira sem interromper o almoço. Diante daquela gente, sou um trombadinha com medo da professora. Estou no jardim de infância da enganação, ainda recortando fita inaugural com tesoura sem ponta.
SuperPauta — Não está usando os outros para diminuir a própria responsabilidade?
Odorico — Estou usando os outros porque sozinho está ficando difícil. Antigamente eu dizia que a culpa era da oposição. Agora posso dizer que é uma tendência nacional. Dá um conforto estatístico e um desafogo responsabilício.
SuperPauta — Vamos aos nomes: Lula e Flávio Bolsonaro. O que o senhor vê nos dois?
Odorico — Dois modos de organizar a saudade. Um promete a volta de um tempo em que o povo teria sido feliz. O outro oferece o sobrenome como certificado de garantia. Eu, pelo menos, apareço pessoalmente na minha propaganda. Não mando um antepassado nem uma lembrança trabalhar em meu lugar.
SuperPauta — Flávio é filho de Jair Bolsonaro. Isso o torna incapaz de ter um projeto próprio?
Odorico — De maneira nenhuma. Pode ter. Eu gostaria até de conhecer. Mas, se o principal argumento é a filiação, o debate deveria começar com uma certidão de nascimento. O sujeito entra na política dizendo que vai acabar com os privilégios e a primeira vantagem que apresenta é ter nascido na família certa. É uma meritocracia obstetrícia.
SuperPauta — E Lula?
Odorico — Tem uma intimidade com a palavra povo que me causa inveja. Quando diz povo, parece que conhece cada eleitor pelo apelido, ninguém lhe cobra nada. Eu digo povo de Sucupira e já aparece um pescador perguntando pelo posto de saúde. Lula fala como quem está na sala de casa; eu preciso do coreto. É uma vantagem acústica considerável.
SuperPauta — O senhor está elogiando?
Odorico — Estou avaliando a técnica. O problema é o governante acreditar que, porque sabe contar a história do trabalhador, já entregou tudo que o trabalhador precisa. Há discurso que abraça tanto o pobre que não deixa o homem sair para cobrar resultado.
SuperPauta — Lula e Flávio têm seus nomes ligados a controvérsias e escândalos. Como o senhor olha para isso?
Odorico — Com sentimento de inferioridade profissional. Eu tinha Dirceu, as Cajazeiras e uma gazeta me perturbando. Eles têm uma multidão explicando cada embaraço antes mesmo de ouvir a pergunta. O eleitor moderno não recebe apenas um candidato: recebe um departamento de justificativas.
SuperPauta — Mas precisamos distinguir as coisas. As condenações de Lula na Lava Jato foram anuladas por fundamentos processuais, não por uma decisão que o declarasse inocente. No caso de Flávio, a acusação de rachadinha foi arquivada após anulação de provas. Não se pode apresentá-los como condenados por esses casos.
Odorico — Evidentemente. O senhor registra a situação de cada processo com toda a precisão cartorial. Eu estou admirando outra coisa: a capacidade dos partidários de dispensar explicação política com uma resposta jurídica. Pergunta-se a um candidato sobre as companhias, as escolhas, os compromissos; responde um advogado. Quero levar um à próxima sessão da Câmara. Quando me perguntarem pela escola, ele alega incompetência do perguntador.
SuperPauta — O senhor está confundindo prestação de contas com julgamento criminal.
Odorico — Eu confundo quando me favorece. O senhor é que não pode confundir. Se fizer meu serviço, vou ter que nomeá-lo.
SuperPauta — E a militância que só enxerga suspeitas no adversário?
Odorico — Uma maravilha administrativa. Se a denúncia é contra o outro, já vem acompanhada de sentença. Se é contra o nosso, precisa de perícia, recurso e uma explicação sobre o contexto histórico. As Cajazeiras faziam isso com três cadeiras e uma garrafa de licor. Hoje a pessoa faz em rede, sem nem oferecer bebida.
SuperPauta — Afinal, a quem o senhor apoiaria?
Odorico — Estou aguardando uma confabulância programática.
SuperPauta — Que confabulância?
Odorico — Quem vai esclarecer o meu lugar no programa. Uma secretaria, uma autarquia, alguma coisa com carro. Não posso tomar posição antes de esclarecer meus assentamentos cargatícios.
SuperPauta — Isso é oportunismo.
Odorico — Dito pelo adversário, sim. Dito pelo aliado, é construção de maioria. A política tem dessas sutilezas vocabulares. Eu inventava palavras; eles inventaram assessorias para escolher as que já existem.
(Da antessala, Dorotéa anuncia que dois representantes de partidos telefonaram. Odorico manda dizer a ambos que está em reunião com a sociedade civil)
SuperPauta — Mas eu estou sozinho aqui — observo.
Odorico — E queria quantos? O café sai do orçamento.
SuperPauta — Entre o primeiro e o segundo turno, as alianças mudam depressa. Como o senhor reconhece um acordo de ocasião?
Odorico — Pela fotografia. Quanto mais o aliado xingou ontem, mais perto fica do candidato hoje. É para caberem os dois na imagem e os insultos ficarem de fora. Depois dizem que houve amadurecimento. Em Sucupira, quando uma fruta amadurece naquela velocidade, a gente desconfia do cheiro.
SuperPauta — E o discurso de que esta é a eleição mais importante de nossas vidas?
Odorico — Eu também usava. Na seguinte, repetia. Nunca faltou eleitor com vida suficiente para cair de novo. Agora, existe perigo real, existe escolha séria. O abuso é cobrar silêncio sobre todos os defeitos do nosso candidato como entrada obrigatória para combater o outro. Eu gostaria muito dessa cláusula. Poderia governar quatro anos mostrando uma fotografia do adversário.
SuperPauta — O senhor também passaria a campanha falando em Deus, família e liberdade?
Odorico — Depende do auditório. As Cajazeiras sempre apreciaram a moralidade em pronunciamento público. O problema começa quando alguém pede para visitar os bastidores. Eu prefiro a família brasileira como conceito. Uma família de verdade pergunta onde o sujeito passou a noite.
SuperPauta — E a defesa dos pobres?
Odorico — Importantíssima. Mas um pobre que deixa de precisar de favor fica muito desembaraçado. Começa a exigir, comparar, trocar de candidato. Para certos governantes, o progresso ideal é o eleitor melhorar de vida sem perder a gratidão nem o número do gabinete. Eu chamaria isso de emancipação supervisionada.
SuperPauta — O senhor parece mais interessado em dependência do que em políticas públicas.
Odorico — Pois agradeço que tenha percebido antes de eu precisar explicar. Direito funciona mesmo quando o eleitor não gosta do prefeito. Favor exige que ele sorria para mim. O senhor há de compreender minha preferência.
SuperPauta — Vamos ao STF e ao Judiciário. O senhor gosta de juiz que faz política?
Odorico — Se fizer a minha, tenho grande respeito institucional. Se fizer a do outro, vejo uma ameaça à separação dos Poderes. Estou lhe confessando minha régua, que cabe no bolso e muda de tamanho conforme o réu.
SuperPauta — Essa é também a régua de muita gente que acusa os tribunais de tomar partido. Mas e quando o juiz realmente abandona a distância que o cargo exige?
Odorico — Aí complica a vida do profissional eleito. O homem quer a autoridade do juiz e a popularidade do candidato, mas sem passar pelo desagradável serviço de pedir voto. Quer subir no palanque e continuar chamando aquilo de bancada. É uma intrometência togatícia nos negócios do palanque.
SuperPauta — O senhor está preocupado com a imparcialidade ou com a concorrência?
Odorico — Com a concorrência. A imparcialidade é sua preocupação; não me atribua virtudes que vão prejudicar meu depoimento.
SuperPauta — Dá para dizer que o Judiciário inteiro tomou partido nesta eleição?
Odorico — Inteiro é uma palavra muito trabalhosa. O senhor teria de examinar decisões, condutas e nomes. Eu não examinaria coisa nenhuma: diria inteiro no comício, porque rende mais aplauso. Mas o senhor veio entrevistar um demagogo; não precisava matricular-se no curso.
SuperPauta — Então qual crítica o senhor sustenta?
Odorico — Quando um magistrado transforma o cargo em espetáculo pessoal, ele me oferece uma desculpa excelente. Posso fugir da pergunta sobre meu governo e passar meia hora falando da vaidade dele. Se quer proteger a autoridade da Justiça, convém não facilitar meu serviço. Eu exploro uma câmera até sem ter razão. Imagine com ajuda.
SuperPauta — E um juiz que combina o jogo com a acusação?
Odorico — Eu mandaria uma cesta de agradecimento, caso estivesse perseguindo meu adversário. Contra mim, exigiria a anulação de tudo. Está vendo? Garantia processual é um negócio sério demais para depender de quem eu quero derrubar. Na minha mão vira utensílio de campanha.
SuperPauta — Há também quem peça militares como solução para a corrupção.
Odorico — E eu sobreviveria muito bem sem eleição, se me conservassem na prefeitura. O sujeito que promete extinguir todos os Odoricos costuma precisar de um para administrar cada cidade. Depois muda a placa, proíbe a reclamação e anuncia que o problema acabou. Para mim seria ótimo. Para Sucupira, eu não recomendaria.
SuperPauta — Sua grande obra foi um cemitério. Por que não uma escola, um hospital ou saneamento?
Odorico — O senhor já tentou inaugurar saneamento? Enterra-se o cano e o mérito junto. Escola é cheia de gente que aprende a fazer pergunta. Hospital vem com médico, e médico tem a mania de contrariar prefeito. O cemitério oferecia uma perspectiva de convivência muito mais sossegada.
SuperPauta — Só que ninguém morria para o senhor inaugurá-lo.
Odorico — Uma falta de colaboração mortuária da população. Passei anos ouvindo que Sucupira precisava de um cemitério. Entreguei. A população imediatamente passou a apresentar uma saúde oposicionista. Não se pode planejar uma administração com tamanha instabilidade.
SuperPauta — O senhor trouxe Ernesto Cajazeira, desenganado, esperando que morresse. Ele melhorou.
Odorico — O ar de Sucupira produziu aquele melhoramento desinaugurativo. O homem chegou com uma perspectiva e saiu com outra. Hoje eu contrataria uma consultoria para explicar por que a recuperação dele não representava fracasso do projeto. Naquele tempo eu tinha que disfarçar a decepção pessoalmente.
SuperPauta — Em Sucupira, ame-a ou deixe-a, o senhor chega a negociar o sepultamento de Espiraldo Pirajá, um homem que tentara se matar. Sua família receberia amparo, mas havia prazo para fornecer o corpo. Isso não era monstruoso?
Odorico — O senhor conta pela parte desagradável. Havia pensão, assistência à família, enterro custeado. Um assessor meu começaria por aí. Só depois, se sobrasse tempo, mencionaria a condição defuntícia do contratado.
SuperPauta — O benefício dependia da morte dele.
Odorico — Sim. E repare no que aconteceu: o senhor não se deixou distrair pela lista de benefícios. Péssimo sinal para minha comunicação. Vou ter que trocar de assessor ou de entrevistador.
SuperPauta — Dias Gomes o colocou numa peça, numa novela e nesse livro de histórias de Sucupira. O senhor tem alguma queixa dele?
Odorico — Tenho: falta de discrição. O homem entrava no gabinete imaginativamente e saía sabendo demais. Um dramaturgo assim devia ser obrigado a esperar na antessala, como qualquer cidadão. Pôs meus métodos em circulação e nem me consultou sobre os direitos autorais dos meus constrangimentos.
SuperPauta — O Bem-Amado é uma peça, embora muitos leitores conheçam primeiro a novela de 1973. Na televisão, Paulo Gracindo lhe deu uma presença inesquecível.
Odorico — Gracindo me prestou um serviço extraordinário: emprestou tanta elegância às minhas indecências que o público passou a querer ouvir a próxima. Eu aparecia de branco, articulava uma palavra comprida, e lá vinha o sorriso. O senhor percebe o risco? Há gente que começa achando graça no candidato e termina defendendo o orçamento dele.
SuperPauta — A primeira telenovela em cores do Brasil tinha no centro um político que queria um cadáver. Uma bela ironia.
Odorico — A cor tornou meu paletó mais convincente. Ninguém pergunta pela sujeira quando a roupa está bem iluminada. E a televisão ensinou uma coisa que a campanha aperfeiçoou: entre uma explicação complicada e um rosto conhecido, muita gente fica com o rosto. O rosto não exige leitura.
SuperPauta — Seu modo de falar também seduziu o público. O senhor acredita nas palavras que inventa?
Odorico — Acredito no efeito. Se eu disser que uma obra atrasou, o povo entende. Se anunciar um reequacionamento do cronograma inaugurativo, já posso apontar para Dirceu e mandar que entregue uma pasta. A pessoa abre a pasta e esquece por um instante que veio cobrar o prédio.
(Dirceu aparece à porta com uma pasta nas mãos. Odorico faz sinal para que entre.
— Seu Dirceu, tome os providenciamentos!
— Quais, coronel?
— Primeiro tome. Depois eu esclareço a finalidade.
Dirceu olha para a pasta, depois para mim. Decide esperar na antessala.)
SuperPauta — Hoje chamam isso de comunicação estratégica.
Odorico — Então me devem royalties. Eu fazia com a língua o que agora fazem com apresentação de quarenta páginas. Só que eu ainda divertia a plateia. Há consultor que esconde a resposta e cobra por slide.
SuperPauta — As irmãs Cajazeiras eram seu partido, sua torcida e sua proteção moral?
Odorico — Eram uma estrutura de apoio muito eficiente. Dorotéa cuidava da articulação, Judicéa da repercussão, Dulcinéa... [Olha para a porta.] Certos assuntos exigem uma conversação sigilenta e reservosa. As três conheciam a distância entre o que se condena na praça e o que se tolera em casa. Quando a praça e a casa discordavam, fechavam a janela.
SuperPauta — E Dirceu Borboleta?
Odorico — Dirceu tinha a infelicidade de sentir. Eu ditava uma providência e ele enxergava a pessoa que ia sofrer com ela. Isso atrasava bastante a máquina. Hoje eu selecionaria alguém que soubesse dizer fluxo, meta e procedimento sem imaginar um rosto na outra ponta.
SuperPauta — Zeca Diabo era um matador arrependido. O senhor tentou fazê-lo voltar a matar.
Odorico — Uma dificuldade de gestão: o homem resolveu melhorar justamente quando eu precisava dos serviços antigos. Queria sossego, cuidar dos dentes dos outros, seguir sua devoção. Eu tinha uma inauguração pendente. Nosso conflito foi entre a regeneração dele e minha agenda.
SuperPauta — O senhor tentou fabricar um atentado contra si para culpar a oposição. Acabou morto por Zeca e inaugurando o próprio cemitério.
Odorico — Foi uma mudança de protocolo que eu não aprovei. Planejei entrar na História com discurso. Entrei deitado. Meu último ato administrativo foi ocupar a vaga que eu tinha passado o governo oferecendo aos outros.
SuperPauta — Aprendeu alguma coisa?
Odorico — Aprendi que é preciso ter muito cuidado ao transformar a morte alheia em solução política. Aprendi também a não deixar arma dentro da gaveta. A segunda lição me veio mais depressa.
SuperPauta — O senhor não se arrepende.
Odorico — O arrependimento exige que eu conte a história sem me favorecer. Ainda não encontrei assessor disposto a essa barbaridade.
SuperPauta — O jornalista Neco Pedreira, de A Trombeta, era seu inimigo por informar o que o senhor fazia?
Odorico — Exatamente. Um homem pode me denunciar por antipatia e ainda assim estar dizendo a verdade. Esse foi sempre o defeito mais irritante de Neco. Eu tentava discutir a intenção dele; ele publicava o fato. Jornalista que não aceita trocar o assunto é um estorvo.
SuperPauta — Hoje o senhor compraria influenciadores?
Odorico — Eu contrataria serviços de divulgação. Comprar é uma palavra que prejudica o acabamento. O rapaz diria que veio conhecer Sucupira espontaneamente; a prefeitura entraria com a passagem, a hospedagem, o pagamento e a espontaneidade. No vídeo, ele apontaria para o cemitério e diria: “Vocês precisam viver essa experiência”.
SuperPauta — E as notícias falsas?
Odorico — Há uma que me interessaria particularmente: dizer que todo mundo faz a mesma coisa. O eleitor pode descobrir tudo sobre mim; se concluir que cobrar não adianta, continuo confortável. Não preciso ser considerado honesto. Basta que ele ache impossível encontrar alguém melhor.
SuperPauta — O que um eleitor pode fazer que realmente o incomode?
Odorico — Lembrar. Comparar o que eu disse com o que fiz. Perguntar quem ganhou com o contrato. Examinar uma acusação sem esperar a ordem da torcida. Continuar cobrando depois da vitória. O eleitor que só aparece de quatro em quatro anos eu recebo com abraço; o que acompanha a despesa eu mando falar com Dirceu.
SuperPauta — E o voto contra um candidato? Pode ser uma escolha legítima?
Odorico — Evidentemente. O eleitor não é obrigado a se apaixonar para decidir. O problema, para ele, é passar a achar bonito tudo que antes criticava só porque decidiu votar naquele sujeito. Para mim isso é ótimo: entro como necessidade provisória e, quando percebo, já estão comprando camiseta.
SuperPauta — O senhor ainda se considera o Bem-Amado?
Odorico — O amor é um indicador que merece acompanhamento. Enquanto me amam, governar fica mais fácil. Quando param, eu encomendo pesquisa para saber onde falhou a divulgação.
SuperPauta — Talvez tenha falhado o governo.
Odorico — O senhor insiste numa hipótese muito cara. Para corrigir governo, é preciso trabalhar. Para corrigir divulgação, basta aparecer trabalhando.
SuperPauta — Última pergunta: o que o senhor diria ao Brasil neste outubro?
Odorico — Que tome cuidado com o candidato que transforma toda pergunta em ataque e todo erro em conspiração. Eu conheço o procedimento. A gente acusa o eleitor de ajudar o inimigo até ele pedir desculpas por querer uma resposta. Quando isso acontece, o gabinete está salvo.
SuperPauta — E o país?
Odorico — O senhor prometeu que era a última pergunta.
Os finalmente
Desligo o gravador. Dirceu entra com duas pastas, uma vermelha e outra azul.
— Os dois grupos querem uma declaração de apoio, coronel.
— Algum ofereceu alguma coisa concreta?
Dirceu consulta os papéis.
— Disseram que o senhor terá um papel importante na defesa da democracia.
Odorico perde o sorriso.
— Papel importante sem cargo é panfleto, Seu Dirceu. Pergunte outra vez.
Na televisão, um candidato abraça uma criança. O outro aparece diante de uma bandeira. Odorico pede que aumentem o volume, ouve alguns segundos e manda baixar.
— Estão falando em futuro. Veja se algum mencionou meu nome.
Na saída, encontro uma mulher esperando atendimento. Tem uma sacola de exames no colo. Diz que já esteve ali três vezes e que precisa de transporte para levar o marido ao hospital.Dirceu anuncia sua presença. Odorico olha o relógio e pede que ela aguarde mais um pouco: vai gravar um vídeo sobre o cuidado com as pessoas.
O celular é colocado diante do prefeito. Ele ajeita o paletó, confere o enquadramento e abre um sorriso.
— Está gravando, Seu Dirceu?
— Está.
— Meu querido povo de Sucupira...
A mulher continua sentada.













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