sábado, 10 de outubro de 2026

Capítulo Potiguar - Governo do Rio Grande do Norte (1935-2018)

Quem conta a história de um governo? O historiador que pesquisa documentos, o jornalista que acompanha as decisões, os integrantes de uma administração e as pessoas alcançadas por suas políticas podem produzir relatos muito diferentes sobre o mesmo período. É nessa convivência de perspectivas que se encontra parte do interesse de Governo do Rio Grande do Norte (1935–2018), o livro deste Capítulo Potiguar.

Organizada por André Felipe Pignataro, Gustavo Sobral e Honório de Medeiros, a obra reúne 25 perfis de governantes. Um desses capítulos, dedicado a Garibaldi Alves Filho, tem minha assinatura. A participação me permite apresentar a coletânea também por dentro: pelo caminho que me levou a escrever para ela e pelas lembranças do trabalho como jornalista ao lado do personagem retratado.

O percurso iniciado por Câmara Cascudo

Na apresentação, os organizadores apontam o antecedente de seu projeto: Governo do Rio Grande do Norte, publicado por Luís da Câmara Cascudo em 1939, com perfis dos governos e governantes de 1597 a 1935. A nova coletânea se propõe a continuar esse percurso, chegando a 2018.

Os textos foram reunidos em 2019, e a edição digital da Editora Biblioteca Ocidente veio a público em 2022. Entre Rafael Fernandes, que abre o volume, e Robinson Faria, que o encerra, estão figuras de diferentes épocas, partidos e formas de acesso ao poder.

O recorte atravessa regimes autoritários e períodos democráticos. A leitura permite acompanhar mudanças nas relações entre o governo estadual e a União, disputas eleitorais, permanências familiares e projetos de desenvolvimento. Também convida a pensar no que cada autor considera necessário para apresentar um governante.

[INSERIR CAPA REAL DO LIVRO OU FOTOGRAFIA DO EXEMPLAR]

Um livro, diferentes maneiras de olhar o poder


A organização por perfis permite que o leitor siga a ordem do volume ou procure primeiro um personagem de seu interesse. Mas a leitura de capítulos sucessivos revela algo que uma consulta isolada pode esconder: as diferenças entre as vozes que compõem o livro.

No perfil de Dix-Sept Rosado, Gustavo Sobral começa pela tragédia aérea de julho de 1951, que interrompeu o governo poucos meses depois da posse. A narrativa recupera a trajetória e as expectativas em torno de uma administração cujo futuro foi abruptamente encerrado.

Sérgio Trindade, ao tratar de Aluízio Alves, interroga a construção de sua liderança. O capítulo considera o carisma, as forças sociais e as estruturas políticas, discutindo os limites de uma explicação da história concentrada na personalidade de um homem.

François Silvestre apresenta Cortez Pereira como advogado, professor, político e governador. Seu texto tem uma posição marcada na interpretação do personagem e dos conflitos de seu governo. Essa presença do autor faz parte da leitura: é possível observar tanto o retrato quanto o ponto de vista de quem o escreve.

A variedade é uma das qualidades da coletânea. Também exige atenção. Perfis biográficos, interpretações históricas e balanços de realizações não usam necessariamente os mesmos critérios. A obra oferece caminhos para conhecer a política potiguar e indica assuntos que merecem outras leituras e pesquisas.

Como recebi o convite

Quando recebi o convite para escrever o capítulo sobre Garibaldi, eu trabalhava na assessoria de comunicação do gabinete do então senador Jean Paul Prates, do PT do Rio Grande do Norte. O convite chegou por intermédio de João Paulo Madruga, advogado e chefe do gabinete de Jean Paul.

O que me credenciava para a tarefa era uma convivência profissional construída em diferentes períodos. Trabalhei cerca de três anos e meio na equipe da assessoria de imprensa do governo Garibaldi, entre 1995 e 1998. Mais tarde, integrei a assessoria de comunicação da Presidência do Senado, durante sua gestão, de dezembro de 2007 a fevereiro de 2009.

Vieram depois quatro anos na equipe de comunicação do Ministério da Previdência Social, entre 2011 e 2015, e mais quatro no gabinete do senador Garibaldi, de 2015 a 2019. Nesse tempo todo, uma das minhas tarefas era acompanhar o governador, presidente do Congresso, ministro ou senador nas agendas e viagens.

Conheci, portanto, acontecimentos que se tornaram notícia e momentos que ficaram apenas na memória de quem estava perto. Essa experiência informa o capítulo que escrevi. Meu vínculo profissional com Garibaldi faz parte da perspectiva do texto e precisa estar claro para o leitor.

Três lembranças de quem acompanhou 

A chegada a Caicó

Reconstituição feita com IA

Em uma viagem a Caicó, ainda no período em que Garibaldi era governador, nossa equipe seguiu de carro um dia antes. Ele chegaria no dia seguinte, no avião do estado.

Logo cedo, fomos para a pista do aeródromo Ruy Mariz. Estávamos eu, o fotógrafo Ivanízio Ramos e nosso motorista, conhecido pelo apelido de Alberi. O sol do sertão já estava quente. Atrás da cerca da pista, vários populares aguardavam a chegada.

O avião pousou. Henrique Alves, Fernando Bezerra e outros políticos desembarcaram. Henrique e Fernando foram procurar uma sombra.

Garibaldi desceu e foi até as pessoas que esperavam junto à cerca. Apertou a mão de uma por uma. Enquanto ele cumprimentava o povo, os demais aguardavam resignadamente, escapando do sol.

É uma das cenas que ficaram comigo daqueles anos: ele sempre reservava tempo para cumprimentar quem havia saído de casa para vê-lo. 

E depois pude constar que não era uma atitude eleitoreira. Em dezenas de inaugurações de agências da Previdência Social, nos lugares mais distantes e isolados do país, o então ministro Garibaldi Filho se comportava do mesmo jeito. Pacientemente, se dirigia ao povo para cumprimentar um por um que se aproximasse dele. 

Um convite para o próprio velório 

A história seguinte eu não presenciei; me contaram. Garibaldi dificilmente recusava convites para batizados, aniversários e até velórios, quando a agenda permitia.

Em um velório em Assu, já no período em que era ministro, uma senhora já de idade avançada se aproximou. Disse que ela e a família eram suas eleitoras havia muito tempo e que gostaria de lhe pedir um grande favor.

Mas ao invés de pedir uma obra, emprego ou outra ajuda tradicional que os políticos costumam ouvir, ela fez  um pedido incomum. Pediu que Garibaldi garantisse que compareceria ao velório dela, quando ela morresse. 

Segundo o relato que chegou a mim, Garibaldi inicialmente ficou surpreso, mas rapidamente prometeu comparecer, embora tenha recomendado que ela não se apressasse: que continuasse votando nele e nos seus correligionários por muito tempo ainda.

O cochilo no helicóptero

Esta eu vi, mais de uma vez. Garibaldi conseguia cochilar durante voos de helicóptero! Quem já viajou em um sabe o barulho e o desconforto. Eu me impressionava ao vê-lo dormir mesmo naquelas condições.

Entre compromissos e deslocamentos, aquela tranquilidade também se tornou uma lembrança dos anos em que o acompanhei.

Garibaldi e a estreia do SuperPauta

Print da abertura da entrevista de estreia do SuperPauta

A convivência profissional também está ligada à origem deste site. Garibaldi foi o entrevistado de estreia do SuperPauta, em uma conversa publicada em 1º de novembro de 2013.

A entrevista aconteceu durante um voo em avião da FAB, de Brasília para Rio Branco. Naquela viagem, o ministro da Previdência iria inaugurar uma agência em Boca do Acre, no Amazonas. O aeroporto da capital acreana era o mais próximo do destino.

No trajeto, conversamos sobre sua infância, a família e a política. Ele contou histórias de escola, lembranças do futebol e episódios de sua vida pública. Falou também das dificuldades do início de sua gestão na Prefeitura de Natal e dos debates com Cortez Pereira, seu antigo professor.

Revisitar essa entrevista ao apresentar o livro é reencontrar uma parte da história do SuperPauta. A conversa pode ser lida integralmente no arquivo do site.

Leia a entrevista de estreia do SuperPauta com Garibaldi Alves Filho.

O capítulo sobre Garibaldi


Nas páginas 100 a 106 da edição digital, o perfil percorre a formação e a trajetória de Garibaldi, incluindo a Assembleia Legislativa, a Prefeitura de Natal, o governo estadual, o Senado e o Ministério da Previdência.

Ao tratar do governo, o texto destaca políticas de abastecimento de água e outras iniciativas da administração. Registra também episódios pessoais e o humor presente em sua maneira de conversar.

É um retrato escrito por um jornalista que integrou suas equipes de comunicação. Essa proximidade explica o acesso a experiências e ajuda a situar o tom favorável do capítulo. A leitura ganha quando essa perspectiva é colocada em diálogo com os demais perfis e com outras fontes sobre o período.

Ouça o Capítulo Potiguar

Nísia e Luís conversam sobre a proposta da coletânea, as diferentes maneiras de escrever a história dos governantes e os bastidores da participação de Roberto Homem no livro.

Uma leitura para continuar a conversa

Governo do Rio Grande do Norte (1935–2018) oferece um ponto de entrada para conhecer quem ocupou o Executivo estadual e como essas trajetórias são narradas. A leitura interessa também pelo que deixa em aberto: a relação entre líderes e instituições, o alcance das políticas públicas e as escolhas de quem registra a história.

Minha participação acrescenta uma experiência particular a esse conjunto. O livro reúne muitas outras, e é no encontro entre elas que a conversa pode continuar.

Ficha do livro

Título: Governo do Rio Grande do Norte (1935–2018)
Organização: André Felipe Pignataro, Gustavo Sobral e Honório de Medeiros
Editora: Biblioteca Ocidente
Edição digital consultada: 2022
Conteúdo: 25 perfis de governantes
A edição impressa comercializada na UICLAP tem cadastro de publicação em 2023. A paginação pode variar entre os formatos.

Edição digital e informações na Revista Galo
Edição impressa na UICLAP

Qual governante potiguar você gostaria de conhecer melhor?

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