terça-feira, 20 de outubro de 2026

Encontros Impossíveis: Alzira Soriano


 Em um encontro entre 1928 e o Brasil de hoje, a primeira prefeita eleita do país enfrenta perguntas sobre machismo, poder e as contradições de abrir caminho para as mulheres — enquanto novas vozes tentam fazê-las recuar.
“Procurarei fazer obra que fique.” — Alzira Soriano, em carta a Bertha Lutz, 19 de novembro de 1928, transcrita por Isabel Engler em sua dissertação de 2024.

Por Roberto Homem | SuperPauta

A primeira prefeita eleita do Brasil conhecia a política por dentro antes que lhe permitissem ocupar o cargo. Neste encontro imaginário, Alzira Soriano revisita a campanha de 1928, a parceria com Bertha Lutz, as hostilidades contra uma mulher no comando e as contradições de uma conquista amparada pelo poder dos coronéis. Uma conversa sobre governar, pertencer e abrir caminho para quem ainda ficou do lado de fora — e sobre a reação antifeminista que ameaça conquistas das mulheres no presente.

Nota ao leitor

Esta é uma entrevista ficcional, construída a partir de pesquisas históricas,  correspondências e declarações documentadas de Alzira Soriano. O cenário, os gestos e as respostas do diálogo são criações literárias; não constituem depoimento autêntico. Apenas a epígrafe é uma citação documental.

A cadeira

Na fotografia, ela está cercada de homens. A mesa, os papéis, as roupas solenes: tudo parece preparado para uma reunião em que a autoridade já tivesse dono. Até que o olhar encontra Alzira.

É dessa fotografia que parto para o nosso encontro.

Imagino uma sala em Lajes. Sobre a mesa, uma carta, um livro de contas e o recorte de um jornal. Pela janela, chega a claridade do interior potiguar. Alzira está sentada à cabeceira. Não procuro reproduzir uma cerimônia de 1929. Nesta sala inventada, os tempos podem conversar.

Ela acompanha meus olhos quando reparo na cadeira.

— Podemos começar, senhor Roberto?

Abro o caderno.

SuperPauta — A senhora entrou para a história como a primeira prefeita eleita do Brasil. Esse título explica quem foi Alzira Soriano?

Alzira Soriano — Tenho orgulho desse título, senhor Roberto. Ele demonstra que a mulher brasileira pode receber a confiança dos eleitores e assumir responsabilidades de governo. Mas gostaria que se conhecesse também minha administração. Não aceitei a candidatura somente para vencer uma eleição. Queria trabalhar por Lajes e corresponder à confiança que haviam depositado em mim.

SuperPauta — A senhora nasceu em Jardim de Angicos, no Rio Grande do Norte. O que houve em sua criação que a aproximou da política, quando tantas mulheres eram preparadas apenas para cuidar da casa?

Alzira — Meu pai teve grande importância nessa formação. Acompanhava seus interesses políticos, ouvia as conversas e procurava compreender os assuntos de nossa terra. Não fui criada sem os deveres que se esperavam de uma moça. Conhecia os trabalhos da casa e, mais tarde, assumi minhas responsabilidades de esposa e mãe. Mas também me interessava pelo que acontecia além do lar. A convivência com meu pai e, depois, com meu marido deu-me experiência e confiança. Quando surgiu a possibilidade de concorrer, já conhecia aquele meio. Não posso dizer que todas as mulheres tiveram a mesma oportunidade de aprender e participar. Muitas poderiam demonstrar capacidade, se lhes abrissem o caminho. Eu tive essa oportunidade e quis aproveitá-la para servir ao município.

SuperPauta — Então a política não começou naquele almoço na Fazenda Primavera, quando Bertha Lutz conheceu a senhora?

Alzira — Não, senhor. O interesse pela política vinha de minha mocidade. O encontro ajudou a dar forma à candidatura. Recebi com entusiasmo a confiança de Bertha e o apoio de Juvenal Lamartine, então presidente do estado. Havia, finalmente, a possibilidade de realizar aquilo que antes eu apenas desejava. Quando surgiu a oportunidade de concorrer, não me senti estranha àqueles negócios. Recebi a candidatura com alegria e com a consciência de que teria muito trabalho pela frente.

SuperPauta — Numa entrevista concedida ao jornal A República, de Natal, em 1928, perguntaram à senhora se os problemas políticos não seriam árduos demais para uma mulher. Como recebeu essa dúvida?

Alzira — Não os considerava superiores às minhas forças por ser mulher. Conhecia a vida política e sabia que o cargo exigia atenção, justiça e perseverança. As dificuldades existiam, naturalmente. Mas por que uma mulher preparada não haveria de enfrentá-las? Eu não pretendia receber indulgência. Pretendia demonstrar, pelo trabalho, que podia cumprir meus deveres.

SuperPauta — Na mesma entrevista, o repórter perguntou se a participação política não prejudicava seus deveres de esposa e mãe. A senhora via algum conflito entre essas responsabilidades?

Alzira — Não via essa incompatibilidade. Havia cuidado de minhas filhas e conhecia as obrigações de uma família. A participação política não me fazia esquecer esses deveres. Julgava que a mulher podia empregar em favor do município a mesma dedicação com que cuidava dos seus. Minha própria experiência me dava confiança para responder àquela dúvida.

SuperPauta — Sua família tinha terras e influência. Seu pai era um chefe político, e a senhora contou com o apoio de Juvenal Lamartine. Uma mulher pobre teria recebido a mesma oportunidade?

Alzira — Seria mais difícil, reconheço. Minha família e os amigos políticos tiveram importância na candidatura. Tenho gratidão por esse apoio, especialmente pela confiança do presidente Lamartine. Mas o apoio não faria por mim o trabalho da prefeitura. Uma mulher de poucos recursos também pode ter inteligência e valor; seria uma injustiça negar-lhe capacidade por sua condição. Para concorrer, porém, encontraria obstáculos que eu não encontrei.

SuperPauta — A senhora rompeu uma ordem masculina, mas ajudou a manter o grupo político ao qual pertencia.

Alzira — Não escondo minha posição. Acompanhava meu pai e confiava na orientação política de Lamartine. Foi naquele governo que se abriu às mulheres uma oportunidade que desejávamos havia tanto tempo. O senhor pode discordar de nossas alianças; eu não poderia falar delas como se me fossem alheias. Minha candidatura procurava servir ao município e mostrar que a participação feminina era possível. Não me propus a combater todos os homens com quem havia aprendido e trabalhado.

SuperPauta — Mas seu discurso de posse elogiava a democracia num sistema em que tanta gente estava excluída. Os analfabetos, por exemplo.

Alzira — Naquele momento, recebíamos com entusiasmo a conquista das mulheres. Eu a considerava um progresso para a República e para o nosso estado. O senhor me lembra, com razão, que havia brasileiros sem voto. Nossa vitória não corrigia todas essas situações. Mas não era pequena coisa poder apresentar uma candidata e vê-la eleita. Era essa abertura que eu celebrava e na qual depositava minhas esperanças.

SuperPauta — E o que Bertha Lutz representou nesse avanço?

Alzira — Tenho por Bertha grande admiração e reconhecimento. Sua dedicação deu força à nossa causa. Não se contentava com desejar a emancipação política: trabalhava para que ela se realizasse. Sua confiança me animou, e continuamos a trocar notícias e preocupações. Eu desejava corresponder ao empenho dela e de suas companheiras, fazendo uma administração digna da esperança que minha eleição despertara.

SuperPauta — A senhora era candidata a prefeita ou candidata a provar que todas as mulheres eram capazes?

Alzira — Aceitei a candidatura para administrar Lajes. Mas sabia que muitas pessoas acompanhariam meu trabalho para julgar a participação das mulheres. Isso aumentava minha responsabilidade. Queria que o município fosse bem servido e que as nossas adversárias e os nossos adversários não encontrassem na minha administração uma razão para combater a causa. Pedi a Deus forças para cumprir essa incumbência.

SuperPauta — Seus adversários usavam “mulher pública” como insulto, aproximando a expressão de prostituta. O que pretendiam atingir?

Alzira — Procuravam ofender minha honra e afastar-me da disputa. Era uma injustiça. Eu me apresentava para um serviço público, com minha vida conhecida e minhas responsabilidades de mãe. Não admitia que tornassem desonroso aquilo que, para os homens, era motivo de consideração. Continuei a campanha. A melhor resposta que podia dar era sustentar minha candidatura e cumprir depois o dever assumido.

SuperPauta — A senhora não se deixava abalar?

Alzira — As ofensas magoam, senhor Roberto. Não era insensível a elas. Mas tinha minhas filhas, a confiança de pessoas que me estimavam e uma tarefa a cumprir. Não podia entregar minha decisão aos adversários. A fé me amparava, e procurava conservar o ânimo. Já havia atravessado sofrimentos que me ensinaram a não desistir diante da primeira dificuldade.

SuperPauta — Há relatos familiares de que a senhora também gostava de cantar, tocar violão, cozinhar e costurar. Essa Alzira desaparece quando a transformam em “guerreira”?

Alzira — Essas coisas também pertenciam à minha vida. Gostava da música e dos trabalhos da casa. Não compreendo por que seria necessário deixá-los de lado para exercer uma função pública. A mulher pode ter diferentes ocupações e interesses. O importante é não faltar às responsabilidades que assume. Eu podia cuidar de minhas filhas, dedicar-me aos meus trabalhos e interessar-me pelos destinos do município.

SuperPauta — A viuvez mudou sua relação com a autoridade?

Alzira — A morte de meu marido trouxe grande sofrimento e responsabilidades que precisei enfrentar. Tinha minhas filhas para criar e educar. Confiei em Deus e procurei reunir minhas forças para seguir adiante. Não havia como abandonar os cuidados da família. A necessidade de decidir e trabalhar fortaleceu minha confiança no que podia realizar, embora não diminuísse a saudade.

SuperPauta — A senhora tomou posse em 1º de janeiro de 1929. Quando terminou a solenidade, o que havia para fazer?

Alzira — Havia os serviços do município, que não podiam esperar. Precisávamos examinar as contas, atender às escolas, às estradas, à limpeza e à iluminação. Eu desejava melhorar as condições de Lajes e administrar com zelo os seus recursos. A solenidade me honrou, mas também me fez sentir o tamanho do compromisso. Era preciso começar e apresentar aos moradores os resultados do nosso esforço.

SuperPauta — Seu relatório falava em examinar documentos antes de reconhecer dívidas da administração anterior. Era desconfiança?

Alzira — Era zelo pelo dinheiro do município. Não se podia reconhecer uma dívida sem examinar os documentos que a justificavam. Se a cobrança estivesse comprovada, deveria receber o tratamento devido. Mas eu tinha a obrigação de conferir as despesas e de responder por elas. Não seria correto pagar somente porque o interessado fosse conhecido ou tivesse influência.

SuperPauta — No discurso de posse, a senhora se comprometeu a não favorecer amigos nem negar justiça aos adversários. Era uma promessa difícil no mundo dos coronéis.

Alzira — Era um dever que eu queria cumprir. Tinha amigos e adversários, como qualquer pessoa na política. Na prefeitura, porém, precisava atender ao interesse do município. Um amigo não devia receber vantagem indevida, nem um adversário perder o que lhe fosse justo. Ao assumir o cargo, declarei essa disposição porque desejava governar com equidade e merecer a confiança dos moradores.

SuperPauta — Sua biografia conta que Lamartine ofereceu eliminar o jornalista Adauto de Sá Leitão e que a senhora procurou o adversário para evitar a violência. Como recebeu aquela oferta de seu aliado?

Alzira — Não desejo que uma lembrança incerta se torne uma declaração minha. Quanto à questão que o senhor levanta, considero grave recorrer à violência para vencer um adversário. A disputa política não dispensa o respeito à vida. Eu queria trabalhar por Lajes; uma ameaça dessa natureza não seria um serviço ao município. O apoio de um aliado não me obrigava a aprovar todos os seus atos.

SuperPauta — A mesma biografia relata que a senhora agrediu Miguel Moreira da Silveira, quebrando seus óculos, depois de ouvir versos ofensivos. Compreender a hostilidade que enfrentava basta para justificar essa reação?

Alzira — Não lhe direi que os insultos tornavam os tapas justos. Mas também não esconderei que perdi a paciência. Estava com minhas filhas, agradecendo às pessoas que haviam me apoiado, e aquele homem insistia em ofender minha honra. Eu havia dito que reagiria se ele cantasse aqueles versos diante de mim. Quando o fez, cumpri a ameaça, porque não quis parecer covarde. Hoje o senhor me pergunta, com razão, se poderia ter demonstrado firmeza de outra maneira. Poderia. Naquele momento, porém, reagi com a indignação de quem estava cansada de sofrer afrontas.


SuperPauta — Sua gestão terminou com a ruptura política de 1930. Os relatos dizem que a senhora recusou permanecer como interventora. Foi defesa de princípio ou fidelidade ao grupo derrotado?

Alzira — Não quis permanecer naquelas condições. Tinha uma posição política e compromissos que não julgava correto abandonar quando mudou o governo. Era ligada ao grupo de Lamartine, e essa ligação fazia parte da minha decisão. Não me parece honroso aceitar qualquer situação apenas para conservar um cargo. Preferi afastar-me a assumir uma orientação com a qual não concordava.

SuperPauta — Vargas depois instituiu o voto feminino em âmbito nacional. Isso torna sua história contraditória?

Alzira — Não deixaria de reconhecer a importância do voto feminino por discordar de Getúlio Vargas. A medida nacional foi uma conquista para as brasileiras. Mas havia um trabalho anterior que precisava ser lembrado, especialmente o de Bertha e de suas companheiras. O Rio Grande do Norte já demonstrara que as mulheres podiam votar e exercer um cargo. Minhas divergências políticas não apagariam esse progresso.

SuperPauta — A senhora voltou à política como vereadora, depois da redemocratização. Por que a memória costuma parar na prefeita de 1928?

Alzira — Talvez porque a primeira eleição tenha despertado maior interesse. Mas minha vida continuou. Tive de cuidar da família, trabalhar e enfrentar outras mudanças. Quando pude voltar à atividade política, aceitei servir como vereadora. O serviço ao município ainda me interessava. Não era necessário ser novamente a primeira para considerar útil o que podia fazer.

SuperPauta — Nas últimas décadas, as brasileiras ampliaram sua presença nas universidades, nas profissões e no poder. Chegaram à Presidência da República e conquistaram instrumentos de proteção contra a violência. Ao conhecer esses avanços, o que a senhora reconheceria como realização daquela luta?

Alzira — Receberia essas notícias com muita alegria! Saber que uma brasileira chegou à Presidência seria motivo de grande emoção para quem conheceu as resistências de 1928. Bertha teria razões para se orgulhar do seu trabalho. A instrução, o exercício das profissões e a proteção das mulheres são conquistas de grande valor. Desejaria saber se alcançam também as moças pobres e as mulheres do interior. Gostaria que o progresso chegasse a elas.

SuperPauta — Há, entretanto, uma reação contra o feminismo em setores da extrema direita brasileira, inclusive por mulheres que ocupam cargos públicos. Não é um paradoxo combater o movimento depois de se beneficiar da abertura que ele ajudou a conquistar?

Alzira — Custa-me compreender que uma mulher, depois de conquistar um cargo pelo voto, combata a participação que tornou esse cargo possível. Pode discordar de outras mulheres, naturalmente. Eu também tinha minhas opiniões e minhas alianças. Mas deve reconhecer o trabalho de quem abriu esse caminho. Se pretende retirar direitos ou impedir que outras participem, encontrará minha oposição. Não lutei para que a oportunidade terminasse em mim.

SuperPauta — Hoje, a legislação brasileira chama de feminicídio o assassinato de uma mulher por razões relacionadas à sua condição de mulher, envolvendo violência doméstica e familiar ou menosprezo e discriminação contra ela. Não é qualquer assassinato cuja vítima seja mulher. Pode ser, por exemplo, o de uma esposa morta porque o marido não aceita a separação. Como a senhora recebe essa forma de reconhecer o crime?

Alzira — Pelo que o senhor explica, a lei procura reconhecer uma violência que não pode ser desprezada. O casamento não concede ao marido autoridade sobre a vida da esposa. Tenho grande estima pela família, mas uma família não se conserva legitimamente pelo medo. Se uma mulher é ameaçada dentro de sua própria casa, precisa encontrar amparo fora dela. Não conheço os termos dessa legislação; compreendo, porém, a necessidade de proteger quem corre perigo e de responsabilizar quem pratica o crime.

SuperPauta — Eduarda Campopiano, do PL, foi a deputada estadual mais votada de São Paulo nesta eleição. Ela se declara antifeminista, rejeita a tipificação do feminicídio e trata assassinatos por parceiros como crimes passionais, ligados ao sentimento de posse. Que pergunta a senhora faria a ela?

Alzira — Perguntaria por que considera mais adequado falar da paixão do criminoso do que da violência sofrida pela mulher. Se ele julga possuir a esposa, é justamente essa pretensão que precisa ser combatida. O casamento estabelece deveres; não transforma uma pessoa em propriedade de outra. Uma deputada pode discutir uma lei e propor alterações. Mas deve explicar como pretende amparar as mulheres ameaçadas. Não basta rejeitar uma palavra. É preciso responder à esposa que teme voltar para casa, à mãe preocupada com a filha, aos filhos que presenciam as ameaças. Gostaria de saber que providências essa senhora defende para que a proteção chegue antes da morte.

SuperPauta — A deputada catarinense Ana Campagnolo também construiu sua atuação em oposição ao feminismo. Nesse campo político e religioso circula a defesa da submissão da esposa ao marido. Como a senhora, que invocava Deus em suas cartas e discursos, receberia a ideia de que a fé exige obediência feminina?

Alzira — Minha fé me ajudou a enfrentar responsabilidades; não me impediu de assumi-las. Prezo a família e os deveres entre marido e mulher. Mas também há deveres do marido, e não se pode fazer da autoridade uma licença para a brutalidade. Se essa pregação pretende impedir a mulher de estudar, trabalhar ou participar dos negócios públicos, não posso acompanhá-la. Eu mesma cuidei de uma família e aceitei governar um município.

SuperPauta — A senhora própria chamava a mulher de colaboradora do lar e comparou o município a uma família. Sua linguagem não pode servir de argumento a quem quer recolocar as mulheres exclusivamente em casa?

Alzira — Sempre dei importância ao lar. Não considero um erro ter falado assim. Mas afirmei também que a mulher podia contribuir para a vida pública, e aceitei a prefeitura para demonstrá-lo. Quem usar minhas palavras para negar essa participação terá deixado de lado justamente aquilo que procurei realizar. A dedicação à família não me parece motivo para negar à mulher o exercício de sua inteligência e de sua capacidade administrativa.

SuperPauta — Algumas dessas vozes dizem que as conquistas são mérito individual e que o feminismo se apropria do sucesso das mulheres. A senhora considera sua eleição um feito individual?

Alzira — Não. Coube a mim aceitar o encargo e trabalhar, mas não fiz sozinha a conquista que permitiu minha candidatura. Havia a lei do nosso estado, o apoio político e a dedicação das mulheres organizadas. Tenho particular reconhecimento por Bertha. Seria ingratidão falar da eleição e esquecer esses esforços. Reconhecê-los não diminui minha responsabilidade; mostra por que pude assumi-la.

SuperPauta — Por que mulheres também podem apoiar projetos que reforçam a autoridade masculina sobre elas?

Alzira — Não saberia responder por todas elas. As mulheres também têm convicções religiosas, vínculos familiares e preferências políticas. Algumas talvez julguem estar defendendo a família. Eu lhes perguntaria por que essa defesa exige limitar a atuação de outras mulheres. Cuidar do lar é uma ocupação digna. Não vejo, porém, por que deva impedir uma brasileira de estudar ou servir ao seu município quando tem disposição e preparo para isso.

SuperPauta — Estamos diante de um ensaio de retrocesso?

Alzira — Pelo que o senhor me conta, há motivo para preocupação. Se desejam desfazer conquistas ou convencer as mulheres de que não devem exercer seus direitos, é preciso reagir. Nem todas desejarão um cargo público, e não há obrigação de desejá-lo. Mas a oportunidade deve continuar aberta. Seria doloroso saber que, depois de tantos esforços, as brasileiras tivessem de pedir novamente uma permissão que já conquistaram.

SuperPauta — Ter uma mulher no cargo garante uma política melhor para as mulheres?

Alzira — Não basta eleger-se. É preciso trabalhar com probidade e cumprir os compromissos assumidos. Eu desejava demonstrar nossa capacidade, mas nunca entendi que o cargo dispensasse uma mulher de prestar contas. Uma eleita pode governar mal, assim como um homem. Deve responder por seus atos. Isso não autoriza ninguém a usar o seu erro para retirar das demais o direito de participar.

SuperPauta — Como gostaria de ser lembrada?

Alzira — Gostaria que se lembrassem de meu esforço por Lajes e da confiança com que aceitei a responsabilidade. Tive orgulho de participar daquela conquista. Desejava fazer um trabalho útil, que permanecesse depois de minha passagem pela prefeitura. Se minha história animar outras mulheres a preparar-se e a servir à sua terra, ficarei satisfeita.

SuperPauta — Quase um século depois, o que a senhora perguntaria a quem ocupa hoje a cabeceira?

Alzira — Perguntaria se está empregando sua autoridade para servir ao povo e se reconhece às mulheres a mesma oportunidade que recebeu. O cargo é uma responsabilidade, senhor Roberto. Quem se senta à cabeceira deve lembrar-se disso.


Todas as imagens desta postagem são reconstituições artísticas criadas com inteligência artificial para Encontros Impossíveis. Não são fotografias históricas nem registros de encontros reais.

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