Às vésperas de mais uma eleição em que a educação corre o risco de virar promessa lateral, Darcy Ribeiro reaparece no Beijódromo, dentro da Universidade de Brasília. Diante da escola pública que o país ainda não decidiu construir, ele fala dos CIEPs, da UnB, de Anísio Teixeira, dos povos indígenas, da desigualdade, da inteligência artificial e da Lei de Diretrizes e Bases. Também responde às críticas, reconhece derrotas e pergunta aos candidatos o que quase nenhum palanque quer esclarecer: que criança brasileira estão dispostos a abandonar quando as urnas forem fechadas?
O cenário
O Beijódromo está aberto, mas a Universidade de Brasília parece respirar mais devagar.
É noite. Do lado de fora do Memorial Darcy Ribeiro, cavaletes de campanha disputam a calçada. Os rostos são grandes; as palavras, pequenas. Desenvolvimento, futuro, oportunidade. A palavra educação aparece em alguns cartazes, quase sempre perto da margem, como se também no papel lhe coubesse esperar.Dentro do prédio desenhado por João Filgueiras Lima, Lelé, há livros, fotografias, objetos indígenas e a mesa de trabalho de Darcy. O concreto curvo do memorial faz o passado circular. Pela vidraça, a UnB permanece acesa em pontos dispersos. Um ônibus deixa estudantes perto do Instituto Central de Ciências. Alguém atravessa o campus com um cartaz enrolado debaixo do braço.
Sobre a mesa, encontro um exemplar de O povo brasileiro, outro de Nossa escola é uma calamidade e uma cópia da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ao lado, uma urna eletrônica desligada. Nenhum desses objetos estava ali quando entrei.
Darcy surge pelo corredor com uma camisa clara, os suspensórios e a inquietação de quem chegou atrasado a uma ideia. Não caminha para me cumprimentar; caminha para a janela. Olha o campus, mede os prédios com os olhos e solta um resmungo satisfeito.
— Esta menina continua bonita.
— A UnB?
— Quem mais? Universidade é mulher danada. A gente pensa que a fundou e passa o resto da vida descobrindo que foi ela quem inventou a gente.
Apresento-me. Digo que vivo em Brasília desde 1998, que trabalhei no Senado e que me aposentei há pouco. Darcy ergue as sobrancelhas.
— Então você conhece aquela casa por dentro e conseguiu sair vivo? Já temos assunto.
Coloco o gravador perto da LDB. Ele apanha a urna eletrônica, vira-a de lado, procura alguma coisa na parte de baixo e pergunta:
— Onde é que se põe aqui o voto na escola pública?
— Talvez seja preciso digitar o número de um candidato.
— Aí é que mora o perigo. Candidato passa. A obrigação fica.
Ele devolve a urna à mesa. Do lado de fora, um carro de som cruza a L2 Norte, mas não é possível entender o nome anunciado. Darcy puxa a cadeira.
— Pergunte logo, Roberto. O Brasil já perdeu tempo demais.
A entrevista
SuperPauta — Darcy, por que nos encontramos aqui, no Beijódromo, em plena campanha eleitoral?
Darcy Ribeiro — Porque este lugar é uma provocação. Eu quis um espaço para encontros, livros, festas, ideias, beijos. Não um mausoléu para me embalsamarem em adjetivos. E campanha eleitoral é a estação brasileira das promessas: os candidatos descobrem escolas sem biblioteca, professores mal pagos, crianças com fome. Depois da posse, muitos sofrem uma amnésia administrativa fulminante. Encontrar-me na UnB é lembrar que educação não cabe no rodapé do programa de governo. É o próprio programa de país.
SuperPauta — A educação está novamente fora do centro do debate. Isso é distração dos candidatos ou escolha política?
Darcy Ribeiro — Meu caro, é escolha. Tem distração, ignorância, picaretagem, tem tudo isso. Mas, no fundo, é escolha. Educação de verdade redistribui poder. Uma escola boa ensina a criança pobre a ler o livro, o contrato, a notícia, o orçamento. Ensina a desconfiar do patrão, do pastor, do professor, do deputado e até de mim. Ora, uma população educada dá trabalho a quem manda. Então inventaram essa escolinha de poucas horas, que guarda menino, distribui diploma e não altera nada. Não precisa haver uma conspiração com ata e cafezinho. Cada beneficiário da desigualdade protege o seu pedaço, e o programa anda sozinho.
SuperPauta — Sua frase mais repetida diz que a crise educacional não é uma crise, é um programa. A formulação virou slogan e perdeu precisão?
Darcy Ribeiro — Virou. Frase boa sofre disso: o sujeito repete e acha que pensou. Quando eu disse que a crise não era crise, era programa, estava falando de uma coisa muito concreta. O Brasil fez escola para poucos. Quando o povão entrou, deram a ele uma escola desmilinguida, de turno curto, sem condição de ensinar. Isso não é uma pane de ontem. Funciona há gerações para conservar cada um no seu lugar. Agora, veja bem: dizer que é programa não é dizer que é destino. Programa se desmonta e se faz outro. Se eu acreditasse em destino, ficava em casa escrevendo epitáfio.
SuperPauta — Em eleição, todos dizem defender a educação. Como distinguir compromisso de propaganda?
Darcy Ribeiro — Faça perguntas que doem no orçamento. Quanto será investido por aluno? De onde virá o dinheiro? Qual é o plano para professor, jornada integral, creche, alfabetização, ciência, cultura e permanência dos estudantes? Que meta terá prazo, responsável e mecanismo de cobrança? O candidato que responde apenas ‘tecnologia’, ‘mérito’ ou ‘gestão’ está vendendo palavra sem corpo. Gestão é necessária, tecnologia pode ajudar e mérito existe. Mas nenhum aplicativo substitui professor respeitado, escola habitável, alimentação, livro, tempo e vínculo com a comunidade.
SuperPauta — O senhor proporia aos eleitores um voto condicionado à educação?
Darcy Ribeiro — Eu proporia uma vigilância condicionada, que é mais difícil. O voto dura segundos; a cidadania precisa durar o mandato inteiro. Compare programas, examine alianças, veja como o candidato governou quando teve poder e acompanhe o orçamento depois. Não entregue a ninguém um cheque político em branco porque pronunciou meia dúzia de palavras bonitas sobre crianças. Quem ama escola pública precisa aprender a ler planilha pública.
SuperPauta — O Brasil universalizou o acesso ao ensino fundamental, ampliou universidades e institutos federais e criou políticas de inclusão depois de sua morte. Sua análise não deveria reconhecer esses avanços?
Darcy Ribeiro — Claro. Negar vitória popular é outra maneira de desarmar o povo. Houve expansão do acesso, mais jovens pobres e negros chegaram à universidade, criaram-se instituições, fundos e avaliações, aumentou-se a presença da educação infantil e do ensino médio. Mas matrícula não é aprendizagem, acesso não é permanência e diploma não é automaticamente emancipação. O Brasil melhora por camadas e conserva abismos entre elas. A obrigação intelectual é enxergar as duas coisas: o que conquistamos e a desigualdade que muda de roupa para sobreviver.
SuperPauta — Os CIEPs continuam sendo sua resposta principal?
Darcy Ribeiro — Olha, o CIEP não é uma igreja para se ajoelhar diante do prédio. É uma ideia: escola inteira para criança inteira. No mundo civilizado, a criança passa o dia na escola. Essa escola brasileira de um turninho é uma perversão. A mãe sai para trabalhar e o menino fica onde? Na rua, diante da televisão, agora diante do telefone. O CIEP dava tempo para estudar, comer, brincar, fazer arte, fazer ginástica, cuidar dos dentes, conviver. Pode mudar o nome, o desenho, o método. O que não pode mudar é isto: filho de pobre tem direito a uma escola tão rica quanto a que o rico compra para o filho.
SuperPauta — Os críticos disseram que os CIEPs eram caros, personalistas e mais preocupados com prédios do que com aprendizagem. Eles estavam inteiramente errados?
Darcy Ribeiro — Inteiramente, não. Houve pressa, falha, professor que não foi preparado como devia, uso eleitoral, tudo. Brizola e eu botamos a cara com tanta força que ficou fácil dizer que aquilo era propriedade nossa. Foi um erro. Agora, havia também muita canalhice nessa crítica. Escola bonita em Copacabana podia; na Baixada, para pobre, queriam aquele prédio de merda, aquela sala triste. Ninguém pergunta se é caro manter o menino rico o dia inteiro com laboratório, música, esporte e comida. Fica caro quando o menino muda de classe. Aí aparece uma súbita preocupação com o Tesouro.
SuperPauta — Se o projeto dependia tanto de um governo, não faltou construir apoio social para que sobrevivesse?
Darcy Ribeiro — Faltou. Essa é uma derrota que precisa ser estudada, não enfeitada. Construímos escolas mais depressa do que construímos uma coalizão capaz de defendê-las por décadas. Apostamos que a evidência da obra convenceria. Não convenceu. Política pública duradoura precisa de professor, família, estudante, sindicato, universidade, imprensa e comunidade sentindo que o projeto lhes pertence. O prédio pode ser inaugurado por um governador. A permanência tem de ser inaugurada todos os dias por muita gente.
SuperPauta — Qual deve ser o lugar do professor nessa reconstrução?
Darcy Ribeiro — O centro. Só que colocar no centro não é homenagear no Dia do Professor e abandoná-lo no resto do calendário. É salário digno, carreira, formação, tempo para preparar aula, equipe de apoio, autonomia com responsabilidade e condição concreta de ensinar. Professor exausto vira herói em discurso e vítima na folha de pagamento. Também não se deve esconder mau trabalho atrás da palavra valorização. A profissão precisa ser respeitada e exigente. Respeito sem condição material é cinismo; exigência sem condição material é crueldade.
SuperPauta — E a família? Há quem diga que a escola recebeu funções demais e deixou de ensinar o básico.
Darcy Ribeiro — A escola recebeu a criança real, e a criança real chega com fome, medo, curiosidade, doença, talento, violência e sonho. Separar tudo em gavetas é conforto de burocrata. Ler, escrever, calcular e compreender o mundo são obrigações fundamentais. Alimentação, saúde, arte e proteção não concorrem com isso; muitas vezes tornam isso possível. A família tem responsabilidades, evidentemente. Mas o Estado não pode castigar uma criança porque seus pais são pobres, ausentes, exaustos ou incapazes de oferecer o que nunca receberam.
SuperPauta — O senhor foi discípulo e parceiro de Anísio Teixeira. O que ele lhe ensinou que o país ainda não aprendeu?
Darcy Ribeiro — Anísio foi o homem mais inteligente e mais generoso que eu conheci na educação. Ele me ensinou que democracia não é só enfiar voto na urna. É dar a todo mundo as condições culturais para entrar na vida comum. E ensinou outra coisa: ideia tem que virar fazimento. Escola, sistema, universidade, professor formado. Eu era mais estouvado, mais brigão; ele tinha uma serenidade que me faltava. O Brasil adora pôr o nome de Anísio em prédio. O diabo é obedecer ao que ele pensou lá dentro.
SuperPauta — A UnB nasceu dessa parceria. A universidade que vemos pela janela corresponde ao sonho de vocês?
Darcy Ribeiro — É minha filha, e filha viva obedece e desobedece. Nós queríamos uma universidade nova, não uma coleção de faculdades velhas mudadas para Brasília. Uma universidade metida nos problemas do Brasil, dominando a ciência mais avançada. A ditadura entrou aqui com ódio, perseguiu, expulsou professor, liquidou o projeto original. Mas não matou a menina. Ela cresceu, produziu ciência, recebeu mais gente. Agora, tem um perigo danado: universidade começar a conversar só com universidade. Se o povo paga, não entra e não entende para que serve o saber feito aqui, alguma coisa apodreceu.
SuperPauta — O senhor apoiaria as cotas raciais e sociais?
Darcy Ribeiro — Eu não conheci a política tal como foi implantada depois da minha morte, portanto não vou fingir memória do futuro. Mas conheci o Brasil suficiente para saber que uma competição entre desiguais, apresentada como neutralidade, reproduz o privilégio. Medidas de inclusão são necessárias para enfrentar uma exclusão construída durante séculos. Devem ser avaliadas, aperfeiçoadas e acompanhadas de permanência estudantil e de uma escola básica forte. O erro seria fazer o jovem pobre entrar pela porta e expulsá-lo silenciosamente pela fome, pela moradia, pelo transporte ou pelo desprezo.
SuperPauta — O senhor conviveu com povos indígenas e ajudou a criar o Museu do Índio e o Parque Indígena do Xingu. Como responderia à crítica de que até o indigenismo bem-intencionado falou pelos indígenas?
Darcy Ribeiro — Responderia escutando. Minha geração combateu matança, espoliação e a ideia de que o indígena deveria desaparecer para o Brasil progredir. Isso teve valor. Mas carregávamos também o vício tutelar do Estado e da antropologia: proteger podia virar decidir pelo outro. Hoje, lideranças, intelectuais, artistas e organizações indígenas falam por si, disputam universidade, Parlamento, território e narrativa. O melhor modo de honrar o que fiz não é repetir minhas palavras como catecismo. É permitir que elas sejam corrigidas por quem antes era transformado em objeto de estudo.
SuperPauta — O que a escola brasileira deve aprender com os povos indígenas?
Darcy Ribeiro — Primeiro, que não existe um único povo indígena nem uma cultura congelada para festa escolar. Existem povos, línguas, histórias e projetos diferentes. Segundo, que território, memória, conhecimento e vida coletiva não cabem na divisão estreita entre disciplina e recreio. Terceiro, que o Brasil não começou com a chegada dos portugueses. Ensinar isso não é trocar um mito nacional por outro. É devolver complexidade a um país que prefere inocentar-se simplificando o passado.
SuperPauta — Em O povo brasileiro, o senhor descreveu nossa formação como violenta e também como possibilidade de uma nova civilização. Ainda acredita nessa promessa?
Darcy Ribeiro — Acredito como tarefa, não como profecia garantida. O povo brasileiro nasceu de encontros forçados, escravidão, extermínio e reinvenções extraordinárias. Criou língua, música, comida, afetos e modos de viver que não cabem na soma das matrizes. Mas mestiçagem não absolve racismo. Alegria cultural não cancela massacre. Minha confiança era a de que um povo novo poderia recusar a velha ordem. Se a confiança virar elogio preguiçoso à cordialidade, ela trai o diagnóstico.
SuperPauta — O racismo deve ocupar lugar central no debate educacional?
Darcy Ribeiro — Sem dúvida. A escola brasileira foi organizada durante muito tempo como se a experiência branca e europeia fosse universal e o restante aparecesse em datas comemorativas. O racismo decide expectativa, punição, evasão, currículo, acesso e oportunidade. Combatê-lo não significa reduzir cada criança à cor da pele. Significa impedir que a cor continue decidindo silenciosamente o destino e reconhecer as contribuições negras e indígenas como parte constitutiva do conhecimento brasileiro.
SuperPauta — Celular e redes sociais mudaram a atenção dos estudantes. A escola deve proibir ou incorporar?
Darcy Ribeiro — A pergunta correta é: para quê, quando e sob responsabilidade de quem? Há momentos em que o aparelho precisa sair de cena para que a atenção exista. Há outros em que pode ser instrumento de pesquisa, criação e comunicação. Entregar telefone sem mediação não é modernizar; é terceirizar a infância para empresas que ganham dinheiro capturando atenção. Proibir sem educar também é pouco. A escola precisa ensinar leitura crítica das telas, da publicidade, dos algoritmos e da mentira.
SuperPauta — E a inteligência artificial?
Darcy Ribeiro — Pode ser uma coisa formidável. Traduz, pesquisa, adapta material, ajuda professor e aluno. Mas veja: toda máquina chega com dono. Pode fabricar resposta sem entendimento, vigiar, concentrar dinheiro e fazer uma maldade nova: dar ao pobre ensino automático enquanto o rico continua com professor, conversa, laboratório e tempo. Antes dessa conversa meio besta sobre se a máquina pensa, eu perguntaria: quem é dono dela, quem ganha, quem decide e que trabalhador ficou escondido lá atrás?
SuperPauta — Esta própria entrevista foi escrita com auxílio de inteligência artificial. Isso invalida o encontro?
Darcy Ribeiro — Invalida se vocês esconderem o artifício e me apresentarem como testemunha literal de 2026. Pode valer como literatura e provocação se o leitor souber que não falei estas frases, se os fatos forem tratados com rigor e se a invenção não me transformar num boneco obediente ao autor. Máquina nenhuma assume a responsabilidade moral do texto. Essa continua sendo sua, Roberto. Não ponha no algoritmo a culpa pelo que escolher publicar.
SuperPauta — O senhor ajudou a criar universidades na América Latina durante o exílio. O afastamento do Brasil ampliou sua visão?
Darcy Ribeiro — O exílio é uma mutilação que às vezes obriga a enxergar o corpo inteiro. No Uruguai, no Chile, no Peru e em outros lugares, compreendi melhor que nossos países repetiam dependência, desigualdade e universidades colonizadas, mas também inventavam respostas próprias. Trabalhei em reformas universitárias e escrevi porque precisava transformar saudade em projeto. A América Latina não é uma nota de rodapé do Ocidente. É uma experiência histórica que precisa pensar com cabeça própria, sem recusar o saber universal e sem ajoelhar diante dele.
SuperPauta — O nacionalismo de sua geração ainda serve num mundo interdependente?
Darcy Ribeiro — Serve se significar soberania para cooperar, proteger o povo e decidir o próprio destino. Não serve se virar culto à bandeira contra estrangeiros, indígenas, migrantes ou adversários internos. País dependente que despreza ciência, vende seus recursos sem projeto e importa até a imaginação não é patriota; é colônia administrada. Mas nenhum problema decisivo de nosso tempo — clima, tecnologia, guerra, epidemia — será resolvido dentro de uma fronteira. Precisamos de Brasil e mundo, não de uma caricatura contra a outra.
SuperPauta — O senhor foi vice-governador, secretário, ministro, chefe da Casa Civil e senador. A política institucional o aproximou ou afastou de suas ideias?
Darcy Ribeiro — Fez as duas coisas. Quem entra na política ganha instrumentos e perde inocência. Descobre orçamento, veto, negociação, tempo administrativo e a arte pouco nobre de contar votos. Também corre o risco de justificar qualquer recuo como pragmatismo. Eu gostava de fazer, de ver prédio subir, lei andar, equipe se formar. Fui vaidoso, briguento e por vezes impaciente. Mas prefiro o erro de tentar construir ao conforto de explicar eternamente por que nada pode ser feito.
SuperPauta — Sua ligação com Leonel Brizola foi também um limite?
Darcy Ribeiro — Toda lealdade política cria força e ponto cego. Brizola foi um dos poucos governantes que aceitou pôr a escola pública no centro, investir pesadamente e enfrentar a gritaria dos privilegiados. Eu lhe devo essa coragem compartilhada. Tivemos diferenças e cometemos erros. O limite aparece quando a causa passa a ser confundida com a biografia do líder ou com a sobrevivência do partido. Educação precisa de paixão partidária para entrar na disputa e de compromisso republicano para continuar além dela.
SuperPauta — Em tempos de polarização, ainda é possível um pacto nacional pela educação?
Darcy Ribeiro — Pacto não é fotografia de adversários sorrindo nem lista de generalidades. É acordo sobre obrigações verificáveis, financiamento e continuidade, com conflito democrático sobre os meios. Há quem não queira educação pública igualitária porque lucra material ou politicamente com a desigualdade. Não devemos fingir que todos desejam a mesma coisa. O pacto possível reúne quem aceita que nenhuma criança pode receber menos por causa do CEP, da cor, da deficiência ou da renda dos pais.
SuperPauta — A Lei de Diretrizes e Bases aprovada em 1996 foi sua vitória final?
Darcy Ribeiro — Foi uma vitória possível e incompleta. Trabalhei para que o país tivesse uma lei capaz de organizar a educação depois da Constituição democrática. Negociei, cedi, insisti. A lei reconheceu responsabilidades e abriu caminhos, mas não realizou sozinha a escola que eu queria. Lei é ferramenta, não milagre. Pode orientar política e também ser contornada por falta de dinheiro, regulamentação frouxa ou vontade contrária. Quem chama a LDB de meu monumento deveria lê-la, acompanhar suas mudanças e perguntar o que ainda não saiu do papel.
SuperPauta — O senhor defenderia educação domiciliar como alternativa à escola?
Darcy Ribeiro — Casos particulares podem exigir soluções particulares, mas transformar a retirada da criança da escola em projeto geral me parece um recuo. Escola não serve apenas para transmitir conteúdo escolhido pela família. É o lugar em que a criança encontra diferenças, aprende regras comuns, convive com outros mundos e começa a existir como cidadã, não como propriedade dos pais. A escola precisa melhorar para acolher, inclusive, quem hoje sofre nela. O fracasso da instituição pública não autoriza abandonar a ideia de espaço público.
SuperPauta — Escolas cívico-militares responderiam ao problema da disciplina?
Darcy Ribeiro — Disciplina é necessária para qualquer trabalho coletivo. Militarização é outra coisa. Uma escola não deve copiar quartel porque educar não é treinar obediência. O aluno precisa aprender limite, responsabilidade e respeito, mas também pergunta, dúvida e criação. Segurança e organização podem ser melhoradas com profissionais preparados, comunidade, infraestrutura e projeto pedagógico. Farda pode produzir aparência de ordem sem tocar as causas da violência que entram pelo portão.
SuperPauta — A violência escolar tornou-se uma preocupação incontornável. Qual seria sua resposta?
Darcy Ribeiro — Primeiro, não tratar cada estudante como suspeito. Segundo, proteger de verdade: equipes de saúde mental, convivência, prevenção, canais de alerta, preparação para crises e relação estreita com as famílias. Terceiro, enfrentar a circulação de armas, o culto à violência e as redes que recrutam jovens pelo ressentimento. Portão mais alto pode ser necessário em algum lugar, mas não substitui pertencimento. A escola segura é aquela em que alguém percebe quando um menino começa a desaparecer por dentro.
SuperPauta — O ensino médio deve preparar para a universidade ou para o trabalho?
Darcy Ribeiro — Essa alternativa costuma esconder uma divisão de classe: cultura ampla para o rico e treinamento rápido para o pobre. Todo jovem precisa compreender ciência, história, arte, linguagem, tecnologia e o mundo do trabalho. Formação profissional pode ser excelente quando amplia escolhas; é perversa quando antecipa uma sentença social. O estudante não deve sair da escola apenas pronto para ocupar a vaga disponível. Deve sair capaz de perguntar por que aquela vaga é tão precária e de inventar outras possibilidades.
SuperPauta — A cultura e a arte entram onde nessa escola?
Darcy Ribeiro — No coração. Um povo não se educa apenas para produzir mercadoria. Música, literatura, teatro, dança, imagem e festa ensinam sensibilidade, memória, forma e conflito. A criança que cria não está perdendo tempo da matéria séria; está aprendendo outra maneira de conhecer. Eu quis que os CIEPs tivessem cultura porque sabia que a pobreza material não significa pobreza de imaginação. Muitas vezes, a escola é que chega pobre ao povo.
SuperPauta — O senhor escreveu romances, ensaios, memórias e antropologia. Que relação existe entre literatura e educação?
Darcy Ribeiro — A literatura deixa a gente experimentar outra vida sem roubar a vida de ninguém. Ensina língua por dentro, não como coleção de regras mortas. Meus romances nasceram também do que a ciência não conseguia conter. Maíra, por exemplo, permitiu tratar o desencontro entre mundos com uma liberdade que o relatório antropológico não oferecia. Escola sem literatura pode treinar leitura e ainda assim formar gente incapaz de imaginar o outro.
SuperPauta — Em suas memórias, o senhor celebrou os próprios fracassos. Isso não romantiza derrotas que custaram caro ao país?
Darcy Ribeiro — Pode romantizar, sim. E eu sou vaidoso, não vou bancar o santinho. Mas preste atenção: fracasso não é medalha, e criança sem escola não come a beleza da nossa intenção. Quando eu disse que meus fracassos eram vitórias, quis dizer que fui derrotado em causas que continuam necessárias. Preferi isso a vencer mudando de lado. Agora, derrota tem que ser examinada. Onde erramos? Quem faltou? O que foi malfeito? Se não aprende nada, vira só a vaidade gostosa do derrotado.
SuperPauta — Qual foi seu maior erro na educação?
Darcy Ribeiro — Talvez ter subestimado a capacidade das velhas estruturas de absorver, desfigurar ou interromper uma inovação. Eu acreditava muito na força do desenho institucional e na energia de um governo decidido. Isso era necessário, mas insuficiente. Mudança educacional exige continuidade longa, formação de quadros, avaliação honesta e apropriação popular. Também falei muitas vezes como quem já enxergava o todo. Ninguém enxerga. O educador que não aprende com quem vive a escola termina administrando sua própria eloquência.
SuperPauta — E sua maior vitória?
Darcy Ribeiro — Ter ajudado a provar que o Brasil pode imaginar instituições à altura de seu povo. A UnB, os CIEPs, a LDB, o trabalho com povos indígenas, as universidades que ajudei a reformar: nada disso é obra de um homem, e tudo sofreu derrotas. Mas ficaram como experiências concretas. O possível é maior depois que alguém o constrói, ainda que por pouco tempo. Ideia desenhada no papel pode ser descartada como sonho; escola cheia de crianças obriga o adversário a explicar por que deseja fechá-la.
SuperPauta — O senhor morreu em Brasília em 1997. Que cidade encontraria hoje?
Darcy Ribeiro — Encontraria a capital monumental convivendo com cidades separadas por renda, transporte e oportunidade. Brasília sempre foi uma promessa espacial: inventar o centro do país, olhar para o interior, projetar futuro. Mas o traço urbano não aboliu a sociedade desigual. Eu perguntaria quem atravessa horas para servir o Plano Piloto e quem usufrui a cidade planejada. A UnB e o Senado, tão próximos no mapa, precisam enxergar o país que chega todos os dias nas rodoviárias e nos ônibus.
SuperPauta — Passei parte da vida profissional no Senado. O que o senhor aprendeu naquela Casa que um jornalista deveria saber?
Darcy Ribeiro — Que discurso e decisão vivem em andares diferentes. O plenário produz frases; a comissão, o gabinete, a consultoria e a negociação produzem grande parte do destino da lei. Jornalista que cobre apenas o microfone chega tarde. Deve seguir o texto, a emenda, o relator, o prazo e o dinheiro. Também não pode concluir que toda negociação é corrupção. Democracia exige composição. A pergunta é o que foi trocado, em benefício de quem e sob qual luz.
SuperPauta — O que perguntaria hoje a cada candidato à Presidência?
Darcy Ribeiro — Eu perguntaria uma coisa só e não deixaria escapar: qual desigualdade educacional o seu governo aceita manter? Ele vai dizer ‘nenhuma’. Aí eu aperto: quanto dinheiro, qual prazo, quem faz? Depois quero saber qual programa bom do adversário ele vai conservar. Governante que fecha escola boa para apagar o nome anterior usa criança como borracha eleitoral. E perguntaria onde os filhos dele estudaram. Por que a escola que ele escolheu para os próprios filhos é tão diferente daquela que oferece ao povo?
SuperPauta — E aos candidatos ao Congresso?
Darcy Ribeiro — Perguntaria se conhecem a escola pública do município que lhes dá voto, não a escola preparada para visita. Perguntaria como votarão financiamento, piso, formação docente, ciência e proteção da infância quando a câmera estiver desligada. Parlamentar gosta de emenda visível, muro, quadra, ônibus. Tudo isso pode ser necessário. Mas educação também depende de despesas contínuas que não rendem placa com nome de político.
SuperPauta — O que perguntaria ao eleitor que diz ter outras urgências — emprego, segurança, saúde, preço dos alimentos?
Darcy Ribeiro — Perguntaria por que aceitou que lhe apresentassem essas urgências como inimigas da educação. Escola boa alimenta, protege, informa sobre saúde, amplia trabalho e reduz vulnerabilidade à violência. Não resolve tudo, nem deve receber promessas mágicas. Mas abandonar educação porque há problemas imediatos é garantir que eles retornem na geração seguinte. A fome de hoje exige comida hoje; exige também que a criança alimentada não seja devolvida ao mesmo destino.
SuperPauta — O senhor ainda diria que o Brasil pode dar certo?
Darcy Ribeiro — Meu caro, o Brasil há de dar certo. Não porque exista garantia divina, mas porque este povo é uma coisa espantosa. Agora, dar certo não é virar um Estados Unidos tropical com a maioria no porão. É realizar nossas potencialidades, dominar o saber moderno, repartir poder e impedir que o berço escreva o destino da criança. Eu conheço derrota demais para ser otimista por inocência. Sou otimista de teimoso. Se a história fosse imóvel, nós ainda estaríamos obedecendo a faraó.
SuperPauta — Que pergunta o senhor deixaria aos leitores do SuperPauta?
Darcy Ribeiro — Esta: quando você diz que educação é prioridade, o que aceita perder para que ela seja? Prioridade sem renúncia é preferência decorativa. Talvez seja preciso rever isenção, privilégio, obra vistosa, conveniência partidária ou tolerância com governante amigo. O orçamento revela a fé pública de um país. O resto é panfleto.
SuperPauta — Quando esta entrevista terminar, o que deve ficar?
Darcy Ribeiro — Uma desconfiança e uma vontade. Desconfiança de toda campanha que ama a criança abstrata e evita a escola concreta. Vontade de transformar educação em assunto de adulto, diário, caro, trabalhoso e irresistível. Se o leitor fechar a página concordando comigo, fizemos pouco. Se abrir o programa dos candidatos, visitar a escola do bairro e cobrar depois da eleição, então esta conversa inventada terá produzido uma consequência real.
Depois da entrevista
O carro de som passa novamente. Desta vez, escuta-se com nitidez a palavra mudança. O nome do candidato continua perdido no eco entre os prédios.
Darcy se levanta e vai até a janela. No campus, três estudantes desenrolam o cartaz. Não há rosto nem número. Está escrito: A UNIVERSIDADE NÃO É UM PRIVILÉGIO.
— Bonito — digo.
— Bonito é. Agora precisamos saber a rubrica orçamentária.
Ele ri, fecha O povo brasileiro e empurra a LDB na minha direção.
— Leve. Lei parada em estante vira literatura ruim.
Quando abaixo os olhos para guardar o livro, a cadeira diante de mim já está vazia. A urna eletrônica voltou à posição original. Na tela apagada, porém, há uma frase que não estava ali:
CONFIRMA?
Do lado de fora, os estudantes seguem em direção ao Instituto Central de Ciências. Um deles carrega o cartaz; os outros carregam tinta e pincéis. Ainda há espaço em branco.












Nenhum comentário:
Postar um comentário