Dois rapazes entram nus no mar de Pitangui. Quando saem, já não precisam apenas encontrar as sungas: têm de enfrentar a polícia, uma multidão e uma história que cresce a cada vez que alguém a conta.
Nesta semana, Pescando o Passado recupera Os Nudistas de Pitangui, um conto inspirado num acontecimento real e retomado agora a partir das páginas que consegui encontrar.
Uma lembrança de fevereiro de 1986
Minha lembrança situa o episódio em fevereiro de 1986, provavelmente cerca de uma semana depois do Carnaval, quando a praia já estava mais tranquila. Não tenho o dia exato. Naquele ano, a terça-feira de Carnaval caiu em 11 de fevereiro.
O dinheiro ainda era contado em cruzeiros. Pouco depois, em 28 de fevereiro, o Plano Cruzado mudaria o nome da moeda e cortaria três zeros: mil cruzeiros passaram a valer um cruzado. A mudança ajuda a situar a lembrança, embora não permita, sozinha, determinar a data do episódio.
Era um tempo em que uma fotografia precisava esperar pela revelação e uma notícia podia percorrer uma praia inteira antes de chegar ao jornal. No conto, essa demora abre espaço para o boato: cada pessoa acrescenta um detalhe, até que o banho de mar já parece outra coisa.
A praia dos Navegantes
Pitangui tem na festa de Nossa Senhora dos Navegantes uma de suas tradições mais marcantes. Realizada entre o final de janeiro e o início de fevereiro, a celebração reúne a comunidade em torno da fé e da vida ligada às águas. O ponto alto é a procissão marítima, com barcos enfeitados acompanhando a imagem da santa; depois vem a procissão por terra.
É dessa tradição que nasce a comparação na primeira frase do conto. Os cortejos, entretanto, têm motivos muito diferentes: num deles, a comunidade acompanha a santa; no outro, acompanha dois rapazes que viraram assunto da praia.
Onde a lembrança dá lugar à ficção
O acontecimento real foi o ponto de partida. O conto não é uma reportagem nem uma reconstituição fiel do que ocorreu. Os personagens e as situações foram desenvolvidos com liberdade ficcional. O julgamento improvisado, a fotografia à venda e os outros caminhos do enredo não devem ser tomados como registro do que realmente ocorreu em Pitangui.
Das folhas antigas, preservei a irreverência e a situação que põe a história em movimento. Nesta retomada, corrigi inconsistências, enxuguei os discursos e concluí o enredo. Abaixo está o conto completo.
Os Nudistas de Pitangui
Conto de Roberto Homem · Ficção inspirada em um acontecimento real
I
A multidão seguia, extasiada, o cortejo mais pitoresco que Pitangui via desde a última procissão dos Navegantes.
Na frente iam dois homens que, uma hora antes, tomavam banho nus. Atrás deles, dois policiais: um com uma espingarda que não via cartucho desde a Guerra do Paraguai, o outro com um cassetete do tamanho de um remo. E, ao fim de tudo, vinha a dignidade ofendida de todos os pescadores de uma praia que mal constava nos folhetos de turismo.
Os dois presos conversavam baixinho, com o ar de quem não entende o tamanho do estardalhaço. Caminhavam altivos, mesmo quando alguém no fundo ensaiou um coro de "lincha, lincha".
Pela posição do sol, passava das duas. Os barcos estavam recolhidos, o que só podia significar domingo, dia em que a maioria dos pescadores preferia não provocar a ira divina no mar. Antes morrer de fome, ora essa.
O cortejo engordava a cada esquina. Primeiro se dizia que dois homens estavam nus. Depois, que se exibiram para uma criança. Quando chegaram à delegacia, já havia quem jurasse que tinham perseguido a criança até o quintal. Ninguém sabia dizer quem vira.
Um menino contara ao pai. O pai fora exigir providências. O resto da praia cuidara dos detalhes.
Na porta da delegacia, curiosos se acotovelavam. Programa melhor, num domingo, não havia, sobretudo quando um dos presos era da capital e filho de família conhecida no lugar.
Foram trancados sem passar pela sala do delegado.
— O delegado quer falar com vocês — tinham dito os soldados.
— Tudo bem. Só deixem a gente pegar os documentos. A casa é aquela ali em frente.
Os guardas negaram. Um dos rapazes pediu a um dos curiosos anônimos para guardar na casa a garrafa de whisky, os copos, o isopor com gelo e as cadeiras de praia. Ele disse que não ia e justificou:
— Vou não. Minha irmã viu você nu.
Sem os documentos, mas já vestidos com as sungas de praia, agora estavam ali, dentro da cela, servindo de bicho de zoológico.
— Só falta jogarem amendoim — disse Régio. — O que seria ótimo. Não almocei.
Álvaro era o mais forte dos dois: moreno, alto, atlético, com a calvície já se anunciando aos vinte e dois anos. Estudava Administração na Federal do Ceará e tinha vindo a Natal visitar a namorada, Eunice. Aceitara o convite de Régio para passar o fim de semana em Pitangui, na casa dos pais dele.
Régio também tinha vinte e dois anos, estudava em Natal e cultivava uma barriga precoce. Tatiana, a namorada, tinha vinte e quatro, um filho de um casamento encerrado sem escândalo e um emprego no governo federal. Eunice, vinte, trabalhava há pouco tempo numa empresa privada. As duas se conheciam fazia meses.
O programa era tranquilo: praia, peixe frito, bebidas. Só não tinham previsto o strip-tease nem suas consequências.
Quando souberam da prisão, as moças correram à delegacia. Se apresentaram, explicaram que Álvaro precisava estar em Natal à noite para embarcar para Fortaleza e perguntaram o que era preciso para soltá-los.
O delegado passou a mão no rosto.
— Se pelo menos estivessem bêbados...
— Estariam menos nus? — perguntou Eunice.
Ele não respondeu.
Na hora da visita, Tatiana chegou perto da grade.
— A coisa está piorando. Tem um homem lá fora dizendo que vocês mexeram com o filho dele.
Régio parou de sorrir.
— Que filho?
II
Pitangui amanheceu excitada na segunda-feira. Na venda, na igreja, nas calçadas, repetia-se que os nudistas seriam julgados à tarde.
O delegado chamava aquilo de "uma conversa com a comunidade". A comunidade preferia chamar de julgamento.
Um palanque de festa junina foi arrastado até a beira da praia.
De Natal, chamaram o padre Romeu, que também era advogado e tinha a rara habilidade de parecer calmo diante de qualquer desgraça. Ouviu os dois e propôs um caminho: reconhecer o transtorno, pedir desculpas e deixá-lo cuidar da liberação.
— Não vou confessar o que não fiz — disse Álvaro.
— Tomou banho nu?
— Tomei.
— Então comece separando o que fez do que dizem que fez.
Régio concordou com a cabeça. Álvaro olhou para ele.
— De que lado você está?
— Até agora, do meu.
Antes da reunião, um repórter de O Voo Primeiro de uma Arribaçã em Extinção se aproximou com um gravador.
— Por que fizeram isso?
Álvaro se ajeitou no banco, como quem sobe num púlpito.
— Porque estava calor, o mar estava ali e nós quisemos entrar. Não houve manifesto. Não houve plano para derrubar o governo, nem nada.
— Mas sabiam que havia famílias na praia.
— Havia barcos, coqueiros, um cachorro dormindo. As famílias só apareceram depois da polícia.
— E a criança?
— Pergunte à criança.
O repórter virou-se para Régio.
— O senhor pensa como ele?
Álvaro abriu a boca, mas o amigo foi mais rápido:
— Às vezes. Ontem achei uma boa ideia. Hoje acho que não devia ter tirado a sunga.
O repórter riu. Álvaro não.
À tarde, a praia estava lotada. As mulheres trouxeram cadeiras, os homens se acomodaram nos barcos, e um vendedor de amendoim descobriu que a indignação dá sede e fome.
O pai do menino ficou junto ao palanque, de braços cruzados, sem tirar os olhos dos presos.
Padre Romeu explicou, pela terceira vez, que aquilo não era um tribunal.
— Ninguém aqui pode decretar pena.
— Então pra que chamaram a gente? — gritou alguém.
O delegado pediu silêncio. Queria encerrar o assunto antes que a notícia chegasse a Natal com mais detalhes do que ele saberia explicar.
Álvaro se levantou.
— Eu queria fazer uma pergunta. Quem aqui viu a gente perseguir uma criança?
O pai deu um passo à frente.
— Está chamando meu filho de mentiroso?
— Estou perguntando quem viu.
Por alguns segundos, só se ouviu o mar.
Então um homem, lá no fundo, levantou a mão.
III
Era baixo, usava chapéu de palha e trazia uma máquina fotográfica pendurada no pescoço como se fosse um crucifixo.
— Eu estava lá.
Álvaro agarrou a borda da cadeira.
— E viu o quê?
— Vi os dois correndo.
Um murmúrio atravessou a multidão.
— Atrás do menino? — perguntou Romeu.
— Isso eu não sei. Tirei um retrato quando eles saíram da água.
— Onde está?
— Mandei revelar em Natal.
O delegado encerrou a reunião ali mesmo: esperariam a fotografia e ouviriam o menino longe daquela gente toda.
A praia protestou. O vendedor de amendoim pediu ao fornecedor mais dois sacos para o dia seguinte.
De volta à cela, Régio perguntou:
— Por que você estava correndo?
— Porque você pegou minha sunga.
— Eu peguei a minha.
— Então pegou as duas.
Régio tentou lembrar. Havia água nos olhos, o amigo gritando, uma sunga enrolada na outra. Uma brincadeira que agora parecia ter acontecido numa vida anterior.
— Você devia ter contado isso.
— A quem? Ninguém perguntou pela sunga. Todo mundo queria saber o que eu penso da humanidade.
— E você não perde oportunidade.
Álvaro virou-se para a parede.
Na manhã seguinte, o fotógrafo voltou com a imagem ampliada.
Nela, Álvaro corria pela areia em direção a Régio, que segurava duas peças de roupa no alto, como quem exibe um troféu. Perto de um barco, o menino olhava para os dois.
A fotografia não mostrava o que viera antes nem o que veio depois. Mas a história da perseguição já não parecia tão fácil de confirmar.
Numa sala, ao lado do pai e de Romeu, o menino explicou que vira dois homens pelados, achara graça e saíra correndo para avisar em casa.
— Eles falaram com você?
— Não.
— Foram atrás de você?
O menino fez que não.
O pai olhou para o delegado.
— Mas estavam nus.
— Isso ninguém está discutindo — disse Romeu.
Ao saírem, o homem passou pelos dois sem olhar. Régio soltou o ar que vinha prendendo desde domingo.
Álvaro queria falar com os repórteres imediatamente.
Romeu segurou seu braço.
— Espere eu terminar os papéis.
Foi durante essa espera que surgiu a primeira cópia da fotografia à venda.
IV
Uma tarja preta cobria a cintura dos dois. Embaixo, em letras de forma, alguém acrescentara:
OS NUDISTAS DE PITANGUI.
— Quanto custa? — perguntou Álvaro, da janela da delegacia.
— Dez mil cruzeiros.
— Você está vendendo a minha bunda?
— A bunda está coberta.
Régio começou a rir.
Até o fim da tarde, havia dois vendedores na porta. Um bar anunciou a "Batida do Nudista". Em outro, o famoso “Sambão”, apareceu um cartaz: AQUI OS DOIS PODEM ENTRAR ATÉ SEM ROUPA.
O fotógrafo já não precisava explicar o que vira. Vendia.
Eunice encontrou Álvaro sentado no banco do corredor, esperando a liberação.
— A notícia boa é que você vai sair.
— E a ruim?
Ela mostrou a fotografia.
— Comprei na esquina.
Ele tentou pegá-la. Eunice afastou a mão.
— É minha. Paguei.
— Você acha graça nisso?
— Um pouco. O resto eu achei uma aflição.
Sentou-se ao lado dele.
— Você podia ter ido embora ontem se deixasse o padre trabalhar.
— Pedindo desculpas por existir?
— Por tomar banho nu na frente de quem não queria ver. Existir foi por sua conta.
Álvaro esfregou os olhos.
— Estavam nos acusando de perseguir um menino.
— E isso precisava ser esclarecido. Mas você misturou a acusação com todos os seus problemas com o mundo. Até comigo você falava como se eu fosse plateia.
No pátio, um policial lavava uma caneca. Álvaro ficou olhando a água escorrer para a areia.
— Achei que vocês entenderiam.
— Entendi que você quis entrar no mar sem roupa. Só não entendi quando virou obrigação de todo mundo gostar.
Romeu chegou com o delegado. Os dois seriam liberados. A acusação envolvendo a criança não se sustentara; o episódio da nudez ficaria registrado "para os encaminhamentos cabíveis".
O delegado, porém, ainda queria uma última aparição no palanque.
— Para acalmar o pessoal.
— O pessoal está comprando retrato — disse Régio. — Já está bem calmo.
Romeu concordou. Não haveria outra sessão.
Na saída, cercaram os dois. Um repórter perguntou se estavam arrependidos.
— De ter vindo sem almoço — respondeu Régio.
Houve risadas. Álvaro atravessou a multidão de cabeça baixa.
V
A discussão começou na casa, enquanto Tatiana arrumava a bolsa.
Régio queria voltar para Natal ainda naquela tarde. Álvaro queria procurar o fotógrafo.
— Para quê?
— Para ele parar de vender.
— Vai comprar todas?
— Você aceita qualquer coisa?
— Aceito ir embora.
Álvaro o chamou de covarde.
Tatiana parou de dobrar a toalha.
— Régio, vamos.
Ele ficou.
— Passei dois dias preso com você. Ouvi você responder por mim, brigar com o padre, tratar a Eunice como idiota. E agora o covarde sou eu porque quero sair daqui?
— Você estava comigo quando entramos na água.
— Estava. Não assinei procuração.
Álvaro lhe deu um soco.
Foi rápido e desajeitado. Régio bateu no batente da porta e levou a mão à boca. Tatiana se meteu entre os dois.
Álvaro ainda mantinha o punho fechado quando Eunice disse seu nome.
Ele olhou para ela. Depois, para o sangue nos dedos do amigo.
Régio pegou a bolsa.
— Amanhã você explica isso ao jornal.
Saiu com Tatiana.
Eunice ficou, mas naquela noite dormiu em outro quarto.
Antes do amanhecer, Álvaro foi à praia. Sentou-se perto de uma jangada. A maré subia e começava a alcançar os buracos deixados pelos pés do palanque.
Um pescador chegou carregando os apetrechos.
— Saia daí um instante.
Álvaro se levantou.
O homem tentou mover a embarcação, parou e olhou para ele.
— Pegue desse lado.
Empurraram juntos. Álvaro escorregou, molhou a camisa e firmou os pés outra vez. Quando a jangada flutuou, o pescador perguntou:
— Quer ir?
— Não sei pescar.
— Eu sei.
Álvaro olhou para a casa. A janela continuava fechada.
— Quero.
Voltaram horas depois. Álvaro trazia o pescoço queimado, o estômago revirado e dois peixes que o homem insistira em lhe dar.
Eunice esperava na varanda.
— Achei que você tivesse ido embora.
Ele levantou os peixes.
— Não sabia como avisar.
Ela foi buscar um prato.
À tarde, antes de partirem para Natal, Álvaro comprou uma das fotografias. Já custava cinco mil cruzeiros.
EPÍLOGO
Meses depois, O Voo Primeiro publicou uma nota sobre o aumento de visitantes em Pitangui. Um comerciante atribuía parte do movimento ao caso dos nudistas e propunha uma placa na entrada da praia.
Régio recortou a nota e a enviou pelos Correios para Fortaleza, sem bilhete. Não havia o que acrescentar.
Os dois tinham feito as pazes por carta, depois de um pedido de desculpas que demorara mais do que devia. O soco continuava entre eles, embora já não precisassem mencioná-lo.
A resposta não veio por escrito. Veio em julho, quando Álvaro desceu a Natal nas férias para ver Eunice e bateu à porta de Régio com o recorte dobrado no bolso.
— O fotógrafo deve estar rico.
Tirou a carteira e dela puxou a fotografia, dobrada em quatro, com o papel gasto nos vincos.
— Ainda guarda isso? — perguntou Régio.
— Guardo.
Régio examinou a imagem.
— Olhe aqui. As duas sungas estavam mesmo comigo.
— Eu disse.
— Podia ter esperado. Eu ia devolver.
Álvaro recolheu a fotografia.
Lá fora, Eunice buzinou. Tatiana estava com ela.
Régio se levantou.
— Vamos?
Na porta, Álvaro perguntou:
— E se a gente voltasse a Pitangui?
O amigo parou.
— Para quê?
— Pescar.
Régio esperou um instante, desconfiado.
— Eu levo as sungas.
— Cada um a sua — disse Álvaro.
E foram encontrar as duas.
Uma história muda a cada pessoa que a conta. O que mais chamou sua atenção neste conto? Deixe seu comentário.







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