quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Pescando o Passado: Os nudistas de Pitangui

 


Dois rapazes entram nus no mar de Pitangui. Quando saem, já não precisam apenas encontrar as sungas: têm de enfrentar a polícia, uma multidão e uma história que cresce a cada vez que alguém a conta.

Nesta semana, Pescando o Passado recupera Os Nudistas de Pitangui, um conto inspirado num acontecimento real e retomado agora a partir das páginas que consegui encontrar.

Uma lembrança de fevereiro de 1986

Minha lembrança situa o episódio em fevereiro de 1986, provavelmente cerca de uma semana depois do Carnaval, quando a praia já estava mais tranquila. Não tenho o dia exato. Naquele ano, a terça-feira de Carnaval caiu em 11 de fevereiro.

O dinheiro ainda era contado em cruzeiros. Pouco depois, em 28 de fevereiro, o Plano Cruzado mudaria o nome da moeda e cortaria três zeros: mil cruzeiros passaram a valer um cruzado. A mudança ajuda a situar a lembrança, embora não permita, sozinha, determinar a data do episódio.

Era um tempo em que uma fotografia precisava esperar pela revelação e uma notícia podia percorrer uma praia inteira antes de chegar ao jornal. No conto, essa demora abre espaço para o boato: cada pessoa acrescenta um detalhe, até que o banho de mar já parece outra coisa.



A praia dos Navegantes

Pitangui tem na festa de Nossa Senhora dos Navegantes uma de suas tradições mais marcantes. Realizada entre o final de janeiro e o início de fevereiro, a celebração reúne a comunidade em torno da fé e da vida ligada às águas. O ponto alto é a procissão marítima, com barcos enfeitados acompanhando a imagem da santa; depois vem a procissão por terra.

É dessa tradição que nasce a comparação na primeira frase do conto. Os cortejos, entretanto, têm motivos muito diferentes: num deles, a comunidade acompanha a santa; no outro, acompanha dois rapazes que viraram assunto da praia.

Onde a lembrança dá lugar à ficção

O acontecimento real foi o ponto de partida. O conto não é uma reportagem nem uma reconstituição fiel do que ocorreu. Os personagens e as situações foram desenvolvidos com liberdade ficcional. O julgamento improvisado, a fotografia à venda e os outros caminhos do enredo não devem ser tomados como registro do que realmente ocorreu em Pitangui.

Das folhas antigas, preservei a irreverência e a situação que põe a história em movimento. Nesta retomada, corrigi inconsistências, enxuguei os discursos e concluí o enredo. Abaixo está o conto completo.

Os Nudistas de Pitangui

Conto de Roberto Homem · Ficção inspirada em um acontecimento real

I


A multidão seguia, extasiada, o cortejo mais pitoresco que Pitangui via desde a última procissão dos Navegantes.

Na frente iam dois homens que, uma hora antes, tomavam banho nus. Atrás deles, dois policiais: um com uma espingarda que não via cartucho desde a Guerra do Paraguai, o outro com um cassetete do tamanho de um remo. E, ao fim de tudo, vinha a dignidade ofendida de todos os pescadores de uma praia que mal constava nos folhetos de turismo.

Os dois presos conversavam baixinho, com o ar de quem não entende o tamanho do estardalhaço. Caminhavam altivos, mesmo quando alguém no fundo ensaiou um coro de "lincha, lincha".

Pela posição do sol, passava das duas. Os barcos estavam recolhidos, o que só podia significar domingo, dia em que a maioria dos pescadores preferia não provocar a ira divina no mar. Antes morrer de fome, ora essa.

O cortejo engordava a cada esquina. Primeiro se dizia que dois homens estavam nus. Depois, que se exibiram para uma criança. Quando chegaram à delegacia, já havia quem jurasse que tinham perseguido a criança até o quintal. Ninguém sabia dizer quem vira.

Um menino contara ao pai. O pai fora exigir providências. O resto da praia cuidara dos detalhes.

Na porta da delegacia, curiosos se acotovelavam. Programa melhor, num domingo, não havia, sobretudo quando um dos presos era da capital e filho de família conhecida no lugar.

Foram trancados sem passar pela sala do delegado.

— O delegado quer falar com vocês — tinham dito os soldados.

— Tudo bem. Só deixem a gente pegar os documentos. A casa é aquela ali em frente.

Os guardas negaram. Um dos rapazes pediu a um dos curiosos anônimos para guardar na casa a garrafa de whisky, os copos, o isopor com gelo e as cadeiras de praia. Ele disse que não ia e justificou:

— Vou não. Minha irmã viu você nu.

Sem os documentos, mas já vestidos com as sungas de praia, agora estavam ali, dentro da cela, servindo de bicho de zoológico.

— Só falta jogarem amendoim — disse Régio. — O que seria ótimo. Não almocei.

Álvaro era o mais forte dos dois: moreno, alto, atlético, com a calvície já se anunciando aos vinte e dois anos. Estudava Administração na Federal do Ceará e tinha vindo a Natal visitar a namorada, Eunice. Aceitara o convite de Régio para passar o fim de semana em Pitangui, na casa dos pais dele.

Régio também tinha vinte e dois anos, estudava em Natal e cultivava uma barriga precoce. Tatiana, a namorada, tinha vinte e quatro, um filho de um casamento encerrado sem escândalo e um emprego no governo federal. Eunice, vinte, trabalhava há pouco tempo numa empresa privada. As duas se conheciam fazia meses.

O programa era tranquilo: praia, peixe frito, bebidas. Só não tinham previsto o strip-tease nem suas consequências.

Quando souberam da prisão, as moças correram à delegacia. Se apresentaram, explicaram que Álvaro precisava estar em Natal à noite para embarcar para Fortaleza e perguntaram o que era preciso para soltá-los.

O delegado passou a mão no rosto.

— Se pelo menos estivessem bêbados...

— Estariam menos nus? — perguntou Eunice.

Ele não respondeu.

Na hora da visita, Tatiana chegou perto da grade.

— A coisa está piorando. Tem um homem lá fora dizendo que vocês mexeram com o filho dele.

Régio parou de sorrir.

— Que filho?

II


Pitangui amanheceu excitada na segunda-feira. Na venda, na igreja, nas calçadas, repetia-se que os nudistas seriam julgados à tarde.

O delegado chamava aquilo de "uma conversa com a comunidade". A comunidade preferia chamar de julgamento.

Um palanque de festa junina foi arrastado até a beira da praia.

De Natal, chamaram o padre Romeu, que também era advogado e tinha a rara habilidade de parecer calmo diante de qualquer desgraça. Ouviu os dois e propôs um caminho: reconhecer o transtorno, pedir desculpas e deixá-lo cuidar da liberação.

— Não vou confessar o que não fiz — disse Álvaro.

— Tomou banho nu?

— Tomei.

— Então comece separando o que fez do que dizem que fez.

Régio concordou com a cabeça. Álvaro olhou para ele.

— De que lado você está?

— Até agora, do meu.

Antes da reunião, um repórter de O Voo Primeiro de uma Arribaçã em Extinção se aproximou com um gravador.

— Por que fizeram isso?

Álvaro se ajeitou no banco, como quem sobe num púlpito.

— Porque estava calor, o mar estava ali e nós quisemos entrar. Não houve manifesto. Não houve plano para derrubar o governo, nem nada.

— Mas sabiam que havia famílias na praia.

— Havia barcos, coqueiros, um cachorro dormindo. As famílias só apareceram depois da polícia.

— E a criança?

— Pergunte à criança.

O repórter virou-se para Régio.

— O senhor pensa como ele?

Álvaro abriu a boca, mas o amigo foi mais rápido:

— Às vezes. Ontem achei uma boa ideia. Hoje acho que não devia ter tirado a sunga.

O repórter riu. Álvaro não.

À tarde, a praia estava lotada. As mulheres trouxeram cadeiras, os homens se acomodaram nos barcos, e um vendedor de amendoim descobriu que a indignação dá sede e fome.

O pai do menino ficou junto ao palanque, de braços cruzados, sem tirar os olhos dos presos.

Padre Romeu explicou, pela terceira vez, que aquilo não era um tribunal.

— Ninguém aqui pode decretar pena.

— Então pra que chamaram a gente? — gritou alguém.

O delegado pediu silêncio. Queria encerrar o assunto antes que a notícia chegasse a Natal com mais detalhes do que ele saberia explicar.

Álvaro se levantou.

— Eu queria fazer uma pergunta. Quem aqui viu a gente perseguir uma criança?

O pai deu um passo à frente.

— Está chamando meu filho de mentiroso?

— Estou perguntando quem viu.

Por alguns segundos, só se ouviu o mar.

Então um homem, lá no fundo, levantou a mão.

III


Era baixo, usava chapéu de palha e trazia uma máquina fotográfica pendurada no pescoço como se fosse um crucifixo.

— Eu estava lá.

Álvaro agarrou a borda da cadeira.

— E viu o quê?

— Vi os dois correndo.

Um murmúrio atravessou a multidão.

— Atrás do menino? — perguntou Romeu.

— Isso eu não sei. Tirei um retrato quando eles saíram da água.

— Onde está?

— Mandei revelar em Natal.

O delegado encerrou a reunião ali mesmo: esperariam a fotografia e ouviriam o menino longe daquela gente toda.

A praia protestou. O vendedor de amendoim pediu ao fornecedor mais dois sacos para o dia seguinte.

De volta à cela, Régio perguntou:

— Por que você estava correndo?

— Porque você pegou minha sunga.

— Eu peguei a minha.

— Então pegou as duas.

Régio tentou lembrar. Havia água nos olhos, o amigo gritando, uma sunga enrolada na outra. Uma brincadeira que agora parecia ter acontecido numa vida anterior.

— Você devia ter contado isso.

— A quem? Ninguém perguntou pela sunga. Todo mundo queria saber o que eu penso da humanidade.

— E você não perde oportunidade.

Álvaro virou-se para a parede.

Na manhã seguinte, o fotógrafo voltou com a imagem ampliada.

Nela, Álvaro corria pela areia em direção a Régio, que segurava duas peças de roupa no alto, como quem exibe um troféu. Perto de um barco, o menino olhava para os dois.

A fotografia não mostrava o que viera antes nem o que veio depois. Mas a história da perseguição já não parecia tão fácil de confirmar.

Numa sala, ao lado do pai e de Romeu, o menino explicou que vira dois homens pelados, achara graça e saíra correndo para avisar em casa.

— Eles falaram com você?

— Não.

— Foram atrás de você?

O menino fez que não.

O pai olhou para o delegado.

— Mas estavam nus.

— Isso ninguém está discutindo — disse Romeu.

Ao saírem, o homem passou pelos dois sem olhar. Régio soltou o ar que vinha prendendo desde domingo.

Álvaro queria falar com os repórteres imediatamente.

Romeu segurou seu braço.

— Espere eu terminar os papéis.

Foi durante essa espera que surgiu a primeira cópia da fotografia à venda.

IV


Uma tarja preta cobria a cintura dos dois. Embaixo, em letras de forma, alguém acrescentara:

OS NUDISTAS DE PITANGUI.

— Quanto custa? — perguntou Álvaro, da janela da delegacia.

— Dez mil cruzeiros.

— Você está vendendo a minha bunda?

— A bunda está coberta.

Régio começou a rir.

Até o fim da tarde, havia dois vendedores na porta. Um bar anunciou a "Batida do Nudista". Em outro, o famoso “Sambão”, apareceu um cartaz: AQUI OS DOIS PODEM ENTRAR ATÉ SEM ROUPA.

O fotógrafo já não precisava explicar o que vira. Vendia.

Eunice encontrou Álvaro sentado no banco do corredor, esperando a liberação.

— A notícia boa é que você vai sair.

— E a ruim?

Ela mostrou a fotografia.

— Comprei na esquina.

Ele tentou pegá-la. Eunice afastou a mão.

— É minha. Paguei.

— Você acha graça nisso?

— Um pouco. O resto eu achei uma aflição.

Sentou-se ao lado dele.

— Você podia ter ido embora ontem se deixasse o padre trabalhar.

— Pedindo desculpas por existir?

— Por tomar banho nu na frente de quem não queria ver. Existir foi por sua conta.

Álvaro esfregou os olhos.

— Estavam nos acusando de perseguir um menino.

— E isso precisava ser esclarecido. Mas você misturou a acusação com todos os seus problemas com o mundo. Até comigo você falava como se eu fosse plateia.

No pátio, um policial lavava uma caneca. Álvaro ficou olhando a água escorrer para a areia.

— Achei que vocês entenderiam.

— Entendi que você quis entrar no mar sem roupa. Só não entendi quando virou obrigação de todo mundo gostar.

Romeu chegou com o delegado. Os dois seriam liberados. A acusação envolvendo a criança não se sustentara; o episódio da nudez ficaria registrado "para os encaminhamentos cabíveis".

O delegado, porém, ainda queria uma última aparição no palanque.

— Para acalmar o pessoal.

— O pessoal está comprando retrato — disse Régio. — Já está bem calmo.

Romeu concordou. Não haveria outra sessão.

Na saída, cercaram os dois. Um repórter perguntou se estavam arrependidos.

— De ter vindo sem almoço — respondeu Régio.

Houve risadas. Álvaro atravessou a multidão de cabeça baixa.

V


A discussão começou na casa, enquanto Tatiana arrumava a bolsa.

Régio queria voltar para Natal ainda naquela tarde. Álvaro queria procurar o fotógrafo.

— Para quê?

— Para ele parar de vender.

— Vai comprar todas?

— Você aceita qualquer coisa?

— Aceito ir embora.

Álvaro o chamou de covarde.

Tatiana parou de dobrar a toalha.

— Régio, vamos.

Ele ficou.

— Passei dois dias preso com você. Ouvi você responder por mim, brigar com o padre, tratar a Eunice como idiota. E agora o covarde sou eu porque quero sair daqui?

— Você estava comigo quando entramos na água.

— Estava. Não assinei procuração.

Álvaro lhe deu um soco.

Foi rápido e desajeitado. Régio bateu no batente da porta e levou a mão à boca. Tatiana se meteu entre os dois.

Álvaro ainda mantinha o punho fechado quando Eunice disse seu nome.

Ele olhou para ela. Depois, para o sangue nos dedos do amigo.

Régio pegou a bolsa.

— Amanhã você explica isso ao jornal.

Saiu com Tatiana.

Eunice ficou, mas naquela noite dormiu em outro quarto.

Antes do amanhecer, Álvaro foi à praia. Sentou-se perto de uma jangada. A maré subia e começava a alcançar os buracos deixados pelos pés do palanque.

Um pescador chegou carregando os apetrechos.

— Saia daí um instante.

Álvaro se levantou.

O homem tentou mover a embarcação, parou e olhou para ele.

— Pegue desse lado.

Empurraram juntos. Álvaro escorregou, molhou a camisa e firmou os pés outra vez. Quando a jangada flutuou, o pescador perguntou:

— Quer ir?

— Não sei pescar.

— Eu sei.

Álvaro olhou para a casa. A janela continuava fechada.

— Quero.

Voltaram horas depois. Álvaro trazia o pescoço queimado, o estômago revirado e dois peixes que o homem insistira em lhe dar.

Eunice esperava na varanda.

— Achei que você tivesse ido embora.

Ele levantou os peixes.

— Não sabia como avisar.

Ela foi buscar um prato.

À tarde, antes de partirem para Natal, Álvaro comprou uma das fotografias. Já custava cinco mil cruzeiros.

EPÍLOGO


Meses depois, O Voo Primeiro publicou uma nota sobre o aumento de visitantes em Pitangui. Um comerciante atribuía parte do movimento ao caso dos nudistas e propunha uma placa na entrada da praia.

Régio recortou a nota e a enviou pelos Correios para Fortaleza, sem bilhete. Não havia o que acrescentar.

Os dois tinham feito as pazes por carta, depois de um pedido de desculpas que demorara mais do que devia. O soco continuava entre eles, embora já não precisassem mencioná-lo.

A resposta não veio por escrito. Veio em julho, quando Álvaro desceu a Natal nas férias para ver Eunice e bateu à porta de Régio com o recorte dobrado no bolso.

— O fotógrafo deve estar rico.

Tirou a carteira e dela puxou a fotografia, dobrada em quatro, com o papel gasto nos vincos.

— Ainda guarda isso? — perguntou Régio.

— Guardo.

Régio examinou a imagem.

— Olhe aqui. As duas sungas estavam mesmo comigo.

— Eu disse.

— Podia ter esperado. Eu ia devolver.

Álvaro recolheu a fotografia.

Lá fora, Eunice buzinou. Tatiana estava com ela.

Régio se levantou.

— Vamos?

Na porta, Álvaro perguntou:

— E se a gente voltasse a Pitangui?

O amigo parou.

— Para quê?

— Pescar.

Régio esperou um instante, desconfiado.

— Eu levo as sungas.

— Cada um a sua — disse Álvaro.

E foram encontrar as duas.

Uma história muda a cada pessoa que a conta. O que mais chamou sua atenção neste conto? Deixe seu comentário.


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