Em Menino de asas, a diferença que provoca medo também revela as contradições da cidade.
A cidade chama de monstro aquilo que não compreende. Mais tarde, quando descobre uma utilidade para suas asas, transforma o perseguido em funcionário exemplar.
Li Menino de asas ainda aluno do Colégio Salesiano, por indicação de uma professora cujo nome o tempo apagou. (Teria sido Marluce, na 6ª série?) Guardei, porém, o espanto daquela história: um menino que nasce com asas no lugar dos braços e precisa aprender muito cedo, à base do sofrimento, que ser diferente pode bastar para que o mundo o trate como ameaça.
Décadas depois, retorno ao livro em outra condição. Homero Homem era irmão de meu avô, Oscar Homem de Siqueira, pai de meu pai, Nélson Siqueira. Nunca o conheci. Ele vivia no Rio de Janeiro, e não tivemos contato. Nossa aproximação aconteceu pela literatura — primeiro naquela leitura escolar; mais tarde, quando, em parceria com o músico potiguar Almir Ribeiro, radicado em Fortaleza, musiquei o poema Sobre Cacilda. Preta. Por Fome.
Esse parentesco não é a razão para incluir o romance no Capítulo Potiguar. É apenas a circunstância que torna pessoal o reencontro com uma obra que se sustenta por seus próprios méritos — e que continua desconfortavelmente atual.
As asas como privilégio e condenação
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| Reprodução feita com IA |
Publicado originalmente em 1968, Menino de asas começa no interior do Brasil. O nascimento extraordinário é acolhido pelos pais camponeses como um possível desígnio divino. Fora de casa, contudo, a beleza das asas rapidamente se converte em problema.
O primeiro conflito ocorre na escola. As outras crianças recebem bem o novo aluno, mas seus pais exigem que ele seja afastado. Alegam que os filhos, tentando imitá-lo, poderiam se machucar. A solução proposta é brutal e reveladora: cortar as asas para que o menino se torne semelhante aos demais.
A mãe recusa. O pai paga ao professor com o que consegue retirar da terra para que o filho tenha aulas em casa. A educação, portanto, não aparece como direito assegurado, mas como sacrifício familiar imposto pela intolerância coletiva.
Já adolescente, diante da ruína da pequena propriedade, Menino de Asas parte para o Rio de Janeiro com o propósito simples de trabalhar e ajudar os pais. A metrópole, porém, não enxerga um jovem procurando emprego. Enxerga uma anomalia, uma atração e, em seguida, um perigo.
A máquina de fabricar monstros
É na chegada à cidade que o livro amplia sua força. Curiosos cercam o rapaz, tocam suas penas, interrompem o trânsito e formulam explicações absurdas para sua existência. Surgem a polícia, a Aeronáutica, fotógrafos, rádio e televisão. Antes que ele consiga dizer quem é, já foi transformado em notícia.
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A imprensa sensacionalista passa a atribuir ao “Monstro de Asas” conflitos, roubos e conspirações. Cada nova manchete produz uma personagem mais assustadora e mais distante do jovem real. Homero Homem mostra como uma sociedade fabrica o inimigo de que precisa: primeiro retira-lhe a voz; depois preenche o silêncio com medo, boato e espetáculo.
A sequência da terceira parte, construída visualmente como páginas de jornal, é especialmente eficaz. O leitor acompanha crimes, versões desencontradas e rumores sem que o protagonista controle a narrativa sobre si mesmo. A forma gráfica deixa de ser ilustração e passa a integrar o argumento do romance.
Quem acolhe quem não tem lugar
Rejeitado pela cidade formal, Menino de Asas encontra abrigo entre garotos fugitivos do Serviço de Assistência a Menores, o antigo SAM. O grupo de Pilão vive escondido na mata, marcado pela violência institucional e pela criminalização da pobreza.
A relação entre eles impede uma leitura simplista. Pilão comete crimes, mas também alimenta e protege o recém-chegado quando todos os outros o recusam. Mais tarde, Menino de Asas retribui a solidariedade e o ajuda a fugir da delegacia, onde o rapaz havia sido torturado para revelar o esconderijo dos companheiros.
O protagonista não adere inteiramente ao código do bando, tampouco aceita a versão confortável que o reduziria a um agrupamento de delinquentes. Ele descobre que a moral proclamada pela cidade não combina com suas práticas: os pobres apanham; os bem relacionados telefonam para autoridades e saem pela porta da frente.
O desejo de deixar de ser quem se é
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O ponto mais doloroso do livro talvez seja a procura do doutor Pacheco Fernandes. Cansado da perseguição, o rapaz pede ao cirurgião que corte suas asas e lhe dê braços artificiais. Não deseja aperfeiçoar-se: deseja desaparecer dentro da normalidade.
A operação planejada expõe uma pergunta que atravessa toda a narrativa: o problema está no corpo diferente ou no mundo incapaz de acolhê-lo? O menino internaliza a rejeição e passa a considerar defeito justamente aquilo que lhe permite voar.
Na casa do médico, conhece Rute. Ela não o tolera apesar das asas; interessa-se por ele também por causa delas. Ao pedir que a leve para voar, devolve ao rapaz a percepção de beleza e liberdade que a cidade tentara destruir. O romance juvenil surge, assim, como reconhecimento: alguém finalmente o vê sem exigir sua mutilação.
Uma aceitação ainda incompleta
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O desfecho tem aparência de vitória. Depois de usar as asas para socorrer pessoas presas no bondinho do Pão de Açúcar, o antigo monstro recebe um nome civil — João Batista Voador — e um emprego público como Zelador Aéreo. Aquilo que provocava pânico passa a ser celebrado.
Mas a ironia de Homero Homem impede uma conclusão confortável. A sociedade não aprende simplesmente a respeitar a diferença: aceita o rapaz quando descobre que pode aproveitá-la. As asas deixam de ser crime porque se tornam produtivas, turísticas e politicamente convenientes.
Essa ambiguidade preserva a atualidade do romance. Ainda hoje, pessoas diferentes muitas vezes precisam provar talento extraordinário, utilidade econômica ou capacidade de superação para receber direitos que deveriam independer de desempenho.
Um livro de 1968 lido no presente
Algumas palavras e abordagens denunciam a época da escrita. Termos como “anormal”, “aleijado” e “crianças excepcionais” soam inadequados hoje. Em vez de esconder esse vocabulário, uma leitura contemporânea deve contextualizá-lo e discutir o que mudou — e o que ainda precisa mudar — na maneira como falamos sobre deficiência, diferença e pertencimento.
Também é preciso reconhecer que o livro alterna registros. Há momentos de fábula, aventura juvenil, sátira política, lirismo e crítica social. Em certas passagens, a linguagem abandona a simplicidade esperada de uma narrativa infantojuvenil e ganha densidade poética. Em outras, a caricatura domina. Essa oscilação não enfraquece necessariamente a obra; revela um escritor que se recusava a tratar o leitor jovem como incapaz de perceber as contradições do mundo adulto.
Na dedicatória, Homero conta que, no verão de 1962, ele, a mulher Záira e os filhos liam juntos os capítulos à medida que saíam da máquina de escrever. Záira, professora de crianças então chamadas de “excepcionais”, era quem mais desejava encontrar um destino feliz para o personagem. O dado ilumina o compromisso afetivo existente por trás da fábula.
Homero Homem, um potiguar de alcance nacional
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| Reprodução feita com IA a partir de fotos do escritor |
Homero Homem de Siqueira Cavalcanti nasceu no Engenho Catu, em Canguaretama, em 1921, e morreu no Rio de Janeiro, em 1991. Foi jornalista, professor, poeta, contista e romancista. Entre suas obras estão Cabra das Rocas, O excepcional — flor que nasceu com uma pétala a mais, O goleador, O moço da camisa 10 e Mundo do silêncio verde.
Menino de asas apareceu em 1968 e alcançou sucessivas edições, muitas delas na Série Vaga-Lume, da Editora Ática. O exemplar utilizado nesta leitura é a 24ª edição, de 1993. A trajetória editorial ajuda a explicar por que tantos leitores conheceram Homero nas salas de aula, mesmo quando seu nome deixou de ocupar o espaço que merece na memória literária potiguar.
Reencontrar esse livro é também reencontrar o menino que fui no Salesiano. Naquele tempo, eu não poderia imaginar que um dia transformaria em canção um poema de Homero ou que voltaria à sua obra para apresentá-la a outros leitores. Talvez seja esse um dos poderes da literatura: deixar dentro de nós uma leitura adormecida, à espera de que o tempo lhe devolva as asas.
Livro: Menino de asas
Autor: Homero Homem
Primeira publicação: 1968
Edição consultada: 24ª edição, Editora Ática, 1993
Gênero: romance infantojuvenil / fábula social
Ouça o episódio
Com vocês, Nísia e Luís, em mais um Capítulo Potiguar.
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Roberto Homem é jornalista, escritor, compositor e criador do SuperPauta. No Capítulo Potiguar, revisita livros e autores do Rio Grande do Norte em textos e podcasts.






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