sábado, 7 de novembro de 2026

Capítulo Potiguar - Edições Sebo Vermelho

Capa do Capítulo Potiguar sobre as Edições Sebo Vermelho, com Abimael Silva em meio aos livros e o título A memória potiguar a caminho de mil títulos.
Abimael Silva e o universo de livros que ajudou a colocar em circulação. Capa criada com inteligência artificial.

Ao se aproximar da marca de 700 edições, a trajetória de Abimael Silva revela o trabalho de uma editora que recupera livros, aproxima autores e mantém em circulação páginas da cultura do Rio Grande do Norte.

Por Roberto Homem

Abimael Silva já está pensando no livro mil.

Em um áudio que me enviou em outubro de 2026, enquanto preparava a edição 700 da editora do Sebo Vermelho, ele recorreu ao futebol para explicar sua ambição. Pelé chegou aos mil gols cercado de craques. O editor, que descreve seu trabalho como uma empreitada solitária, quer chegar aos mil títulos.

Não apresentou uma data fechada. Falou em mais dez anos, caso apareça alguma ajuda, e no sentimento de realização que esse marco lhe daria.

“Eu tenho que publicar o milésimo título”, afirmou.

O desejo ajuda a compreender sua relação com os livros. A cada publicação concluída, há outra à espera: uma obra esgotada, um manuscrito, um autor que precisa encontrar leitores.

Para contar a história da Sebo Vermelho Edições, o número importa. Mas também é preciso abrir os volumes e observar o que suas páginas colocam novamente em circulação.

Um leitor atrás do balcão

Conheço Abimael desde os anos 1980, quando eu era cliente de seu sebo. Mais tarde, virei também seu “concorrente”: tive o Sebo de Ponta, em Ponta Negra. As aspas guardam a medida dessa concorrência. O gosto pelos livros e a amizade não dependiam de estarmos do mesmo lado do balcão.

Em janeiro de 2012, publiquei uma longa entrevista com ele, realizada em parceria com Roberto Fontes. Eu estava em Brasília; os dois, em Natal. A conversa atravessou sua formação como leitor, os empregos anteriores, a abertura do sebo, os jornais que criou e a atividade editorial.

Hoje, aquele registro permite acompanhar o percurso sem obrigar a memória a começar outra vez do zero.

Antenor Laurentino Ramos, professor que apresentou a leitura a Abimael, e a capa de Memorial de Anta Esfolada, obra de sua autoria.

Antes de editar livros, Abimael encontrou alguém que lhe ensinou a procurá-los. Em participação no Bom Dia RN, da InterTV Cabugi, ele recordou o professor Antenor Laurentino Ramos, que, quando ele tinha 13 anos, lhe indicou Menino de Engenho, de José Lins do Rego.

Ao explicar a importância daquele encontro, evocou o filme Sociedade dos Poetas Mortos: Antenor havia sido o professor que abriu sua cabeça para a literatura.

Décadas depois, ele reconhece naquela descoberta uma origem do trabalho que realiza. Disse que, sem as indicações do professor e o gosto pela leitura que nasceu delas, não teria o Sebo Vermelho nem chegado às 699 publicações. Por trás do catálogo, há também a história de um professor e um aluno.

O sebo e a editora têm histórias ligadas, mas não nasceram no mesmo momento. Na entrevista de 2012, Abimael situou sua estreia editorial em 1991, com Écran Natalense, de Anchieta Fernandes, em parceria com o Sindicato dos Bancários do RN. Em 1993, a reedição de Poetas do Rio Grande do Norte, de Ezequiel Wanderley, ampliou o caminho aberto pelo primeiro projeto.

Uma loja que recebia livros usados passava também a devolver livros ao mundo. Além de aproximar um exemplar de seu próximo leitor, Abimael podia fazer uma obra reaparecer em novos exemplares.

Um catálogo também é uma escolha

Há muitas maneiras de organizar uma editora. Na Sebo Vermelho, uma parte importante do catálogo se construiu em torno do interesse pela literatura, pela história e pela vida cultural do Rio Grande do Norte.

Recuperar um livro exige encontrar o exemplar, avaliar sua importância, preparar a edição e assumir o trabalho de fazê-la chegar ao público.

Entre os títulos lembrados por Abimael em nossa entrevista estavam Cartas de Drummond a Zila Mamede, Os americanos em Natal, Esquina da Tavares de Lira com a Dr. Barata e 69 poemas de Chico Doido de Caicó. São caminhos distintos: correspondência, memória urbana, história e poesia. Juntos, ajudam a perceber a diversidade que cabe nessa atividade de edição.

Alguns títulos publicados pela Sebo Vermelho Edições: literatura, história e memória potiguar. Composição recriada digitalmente.

O capítulo anterior, dedicado a A explosão criativa dos quadrinhos, de Moacy Cirne, também nos conduz ao Sebo Vermelho. Moacy publicou diversos livros pela editora, e Abimael esteve presente durante parte da entrevista que fiz com ele.

Ao passar de um capítulo ao outro, reencontramos o autor e o editor ligados pelo trabalho de fazer circular a produção cultural potiguar.

Publicar é uma etapa. Fazer o livro circular é outra. Um catálogo ganha vida quando alguém lê, consulta, discute, cita ou empresta suas obras. A importância de uma editora dedicada à memória pode ser observada também nesses usos, muitos deles discretos, longe das noites de lançamento.

Abimael no programa de Jô Soares

O trabalho editorial também levou Abimael à televisão de alcance nacional. Em nossa entrevista de 2012, ele recordou sua participação no programa de Jô Soares em 2003, associada ao momento em que a editora chegava ao centésimo título.

Contou a surpresa com o convite e os bastidores da viagem, inclusive a preparação de caranguejos que levou ao programa.

O registro permite reencontrar o editor contando sua própria história. Mais de duas décadas depois, a distância entre aquela centena e o número 699 ajuda a dimensionar a continuidade do trabalho.

Abimael Silva em entrevista a Jô Soares.

Quando o livro encontra a canção

Também participei de uma dessas aproximações. Abimael compartilhava conosco o gosto pela música nordestina dos anos 1970 e 1980. Conhecia os discos dos irmãos Clodo, Climério e Clésio Ferreira; depois, vieram os livros.

Numa conversa de bar, sabendo de minha amizade com Clodo e Climério, pediu que eu fizesse a ponte para uma reedição. A aproximação resultou em Memórias do Bar do Pedro & Outras Canções, de Climério Ferreira. A pedido do autor, escrevi uma das orelhas.

Em 3 de maio de 2019, o lançamento no Bardallos se reuniu ao de meu disco Mudança. A casa lotou. Livro, recital e música compartilharam a mesma noite.

Essa lembrança terá seu próprio espaço em Pescando o Passado. Neste capítulo, ela mostra como uma iniciativa editorial também pode nascer de uma conversa e crescer pelas relações entre leitores e artistas.

Climério autografando seu livro no Bardallo's

Um livro potiguar nas mãos de Macron

Outra publicação levou a Sebo Vermelho a uma cena internacional. A biografia Jean Mermoz, de Roberto da Silva, foi editada pela Coleção João Nicodemos de Lima com patrocínio da Embaixada da França no Brasil.

O livro tem prefácio de Vicente Serejo, capa de Alexandre Oliveira e impressão da Offset Gráfica Editora.

A matéria do Típico Local que anunciou sua disponibilidade, em janeiro de 2021, relatou quinze anos de pesquisa. A biografia percorre a vida do aviador francês e sua ligação com Natal.

Em entrevista a Maggy De Coster, publicada em 2022 na revista de língua francesa Le Pan Poétique des Muses, o autor explicou que incorporou documentos inéditos e buscou corrigir informações de biografias anteriores.

Em abril de 2024, a coluna de Thiago Cavalcanti, na Tribuna do Norte, noticiou que Emmanuel Macron recebera um exemplar autografado pelo autor, levado por Caroline Martins, agente consular da França em Natal. As fotografias da entrega acrescentam ao relato uma imagem concreta: um livro publicado por Abimael chegando às mãos do presidente francês.

 Emmanuel Macron recebe um exemplar de Jean Mermoz, biografia de Roberto da Silva publicada pela Sebo Vermelho. Montagem recomposta digitalmente.

O episódio tem interesse pelo percurso inteiro. Uma pesquisa realizada por um autor potiguar, apoiada pela representação francesa e publicada em Natal encontrou circulação para além do estado. O presente a Macron é uma etapa dessa história.

O reconhecimento na tribuna do Senado

Em 24 de abril de 2018, o senador Garibaldi Alves Filho homenageou Abimael e o Sebo Vermelho na tribuna do Senado Federal. O pronunciamento foi publicado no Diário do Senado do dia seguinte, na página 78.

Celebrava antecipadamente os 33 anos do sebo e os 55 anos de seu proprietário, mencionando um catálogo que já ultrapassava quinhentos títulos.

Na época, eu integrava a assessoria de comunicação do gabinete. Recebi com surpresa e alegria a notícia de que o senador faria aquela homenagem e reuni informações para subsidiá-la.

Depois, enviei a Abimael o teor da fala. A emoção dele ao receber aquelas palavras encontrou minha felicidade de levar a notícia.

Nos áudios de outubro de 2026, ele voltou ao assunto. Contou que preparava uma plaquete com o pronunciamento, acompanhada de uma nota do editor, e me convidou a escrever a apresentação. A permanência dessa lembrança mostra quanto o reconhecimento significou para ele.


Em 2018, o senador Garibaldi Alves Filho homenageou Abimael e o Sebo Vermelho na tribuna do Senado.

O número 699 e as crônicas de Sergio Vilar

Antes do marco seguinte, o catálogo recebeu Crônicas de Ontem, primeiro livro do jornalista Sergio Vilar.

Identificado por Abimael como a edição 699, o volume reúne 70 textos, em sua maioria publicados no semanário O Poti, além de crônicas inéditas. São 164 páginas, com prefácio do artista visual Manuel Dantas Suassuna e orelha de Vicente Serejo.

Segundo a apresentação publicada no Papo Cultura, tempo, solidão e saudade atravessam os textos. Natal, Santa Rita e as pequenas experiências cotidianas aparecem no percurso do cronista.

O livro reúne escritos de diferentes momentos de sua vida, incluindo a juventude, quando estudava Filosofia.

A publicação mostra outra frente do catálogo: ao lado das reedições e dos documentos históricos, há espaço para a estreia em livro de um jornalista em atividade. Reunir as crônicas dá nova circulação a textos antes dispersos nas páginas de jornal.

Crônicas de Ontem foi lançado em 17 de outubro de 2026, no próprio Sebo Vermelho, na Cidade Alta, em Natal.

Abimael Silva e Sergio Vilar, autor de Crônicas de Ontem, a edição 699 da Sebo Vermelho. Foto editada digitalmente.

O número 700: a geografia de um romance

A edição de número 700 da Sebo Vermelho Edições leva o leitor aos bastidores de um dos romances mais conhecidos de Rachel de Queiroz. Em Geografia de Maria Moura, Oswaldo Lamartine de Faria reúne anotações e desenhos ligados à sua colaboração com a escritora durante a preparação de Memorial de Maria Moura.

O miolo do livro chegou até mim por intermédio do próprio Abimael, enquanto preparava este capítulo. Nele, o conhecimento de Oswaldo sobre a vida sertaneja aparece em listas, observações, referências, perguntas e pequenos desenhos. É possível acompanhar seu cuidado com aquilo que cerca uma narrativa: a casa, os móveis, os arreios, as armas, a comida, as roupas e os costumes.

A apresentação é de Vicente Serejo. Ele conta que Oswaldo e Rachel eram amigos e que o sertão ajudara a aproximá-los. Segundo seu relato, depois de concluir os originais do romance, a escritora pediu a Oswaldo uma leitura atenta. Queria que ele apontasse o que considerasse necessário rever em expressões, objetos, instrumentos de trabalho, armas e hábitos, levando em conta o tempo em que se passava a história.

Oswaldo fez mais do que comentar. Procurou mostrar. Desenhou, por exemplo, um móvel conhecido como banguê, registrou peças de montaria e anotou detalhes de utensílios e construções. Ao lado das reproduções manuscritas, o livro apresenta o texto digitado, permitindo ao leitor percorrer tanto a letra quanto o conteúdo das notas.

Anotações e desenho de Oswaldo Lamartine sobre a casa sertaneja, reproduzidos em Geografia de Maria Moura.

Em determinado momento, o pesquisador percorre a casa de Maria Moura como quem abre suas portas: alpendre, sala, quarto, cozinha, despensa, espaço dos arreios. Anota o que poderia haver em cada ambiente e o que seria inadequado para aquele cenário. Em outras páginas, trata de cercas, refeições, brincadeiras, vestimentas, formas de tratamento e rituais de morte.

Na apresentação, Serejo recorda uma dedicatória que recebeu de Rachel em um exemplar de Memorial de Maria Moura, em 1993. Nela, a escritora se refere ao romance como “um pouco dele”, numa lembrança do amigo Oswaldo. É uma imagem bonita para a relação entre os dois: a obra é de Rachel, mas a amizade e o conhecimento do pesquisador também deixaram nela sua marca.

Assim, a marca de 700 edições da Sebo Vermelho chega acompanhada de um encontro entre dois escritores, de um conjunto de manuscritos e de um convite para entrar na oficina de um romance.

Entre a homenagem e a continuidade

A alegria pelos reconhecimentos convive, na fala de Abimael, com a frustração. Ele lamenta a falta de compras institucionais que ajudem a levar as publicações a bibliotecas e leitores.

Essa queixa merece ser ouvida com precisão: compras de exemplares, patrocínios e parcerias editoriais são formas distintas de apoio. A edição de Jean Mermoz, por exemplo, teve patrocínio da Embaixada da França.

Há uma pergunta concreta para quem reconhece a importância desse trabalho: como fazer os livros chegarem a mais pessoas?

Uma homenagem registra o mérito. A aquisição de obras, sua presença em bibliotecas e o uso em escolas e pesquisas podem prolongar seus efeitos.

É nesse ponto que o sonho do milésimo título ganha dimensão coletiva. Para chegar lá, será necessário continuar escolhendo, preparando, imprimindo e distribuindo livros. E encontrar leitores para eles.

Quando me falou do sonho de publicar mil títulos, Abimael preparava Geografia de Maria Moura. Entre a edição 700 e a marca que deseja alcançar, ainda há muitos livros por fazer e leitores por encontrar. O que ele já colocou em circulação mostra por que essa travessia interessa a todos nós.

Ouça o Podcast sobre o episódio

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